«Como pode Satanás expulsar Satanás?»

Hoje, o Evangelho convida-nos a comparar dois inimigos irreconciliáveis: Jesus e o espírito do mal. O Evangelho afirma: «Os doutores da Lei, que tinham descido de Jerusalém, afirmavam: «Ele tem Belzebu!» (Mc. 3,22). Este versículo ajuda-nos a compreender a inquietação dos membros da família de Jesus, que queriam levá-lo para casa. Com efeito, como podemos observar, Jesus não é acusado por ter infringido a Lei, ou os costumes judeus, ou o Sábado. Nem sequer é denunciado por blasfemar. Ele é acusado de estar possuído pelo príncipe dos demónios! Tenhamos em conta que esta é uma das primeiras acusações dirigidas a Jesus, antes de o acusarem de violar a Lei Judaica.

Mas interessante é a resposta que Jesus lhes deu: «Como pode Satanás expulsar Satanás? Se um reino se dividir contra si mesmo, tal reino não pode perdurar (…). Ninguém consegue entrar em casa de um homem forte e roubar-lhe os bens sem primeiro o amarrar» (Mc. 3,23-24.27). Isto mostra que Jesus rejeita completamente a ideia de estar a atuar para Satanás. Por este motivo, começa a expor a parábola da casa do homem forte. De uma ou outra maneira, esta parábola parece apontar diretamente para a missão de Jesus. E esta missão mostra o Reino de Deus “amarrando” o homem forte, Satanás, através da salvação realizada por Jesus.

Na verdade, a expulsão dos espíritos malignos demonstra que Ele é mais forte que Satanás. O Papa Francisco, numa audiência geral, afirmou: «No nosso ambiente, basta abrir um jornal para ver que a presença do mal existe, que o Diabo atua. Porém, quero dizer em voz alta: Deus é mais forte! E vós, acreditais que Deus é mais forte?»

padre Salomon Badatana

 

 

«Aquele, porém, que blasfemar contra o Espírito Santo nunca será perdoado»

Hoje, ao ler o Evangelho do dia, você não deixa o seu espanto – “alucina”, como se diz na linguagem da rua —. «Os escribas vindos de Jerusalém» veem a compaixão de Jesus pelas pessoas e o seu poder que atua em favor dos oprimidos, e — apesar de tudo—dizem-lhe que «estava possuído por Beelzebu» e «expulsava os demônios pelo poder do chefe dos demônios» (Mc 3, 22). Realmente é uma surpresa ver até onde podem chegar a cegueira e a malícia humanas, neste caso de uns letrados. Têm diante da bondade em pessoa, Jesus, o humilde de coração, o único Inocente e não aprendem. Eles deviam ser os entendidos, os que conhecem as coisas de Deus para ajudar o povo, e afinal não só não o reconhecem como o acusam de diabólico.

Com este panorama era caso para dar meia volta e dizer: «Ficai aí!» Mas o Senhor sofre com paciência esse juízo temerário sobre a sua pessoa. Como afirmou S. João Paulo II, Ele «é um testemunho insuperável de amor paciente de humildade e mansidão». A sua condescendência sem limites leva-o, inclusive, a tratar de remover os seus corações argumentando-lhes com parábolas e considerações da razão. Até que, no final, adverte com a sua autoridade divina que esse fechar de coração, que é rebeldia diante do Espírito Santo ficará sem perdão (cf. Mc 3,29). E não porque Deus não queira perdoar, mas porque para ser perdoado, primeiro, cada um tem que reconhecer o seu pecado.

Como anunciou o Mestre, é longa a lista de discípulos que sofreram a incompreensão, quando agiam com toda a boa intenção. Pensemos, por exemplo, em Santa Teresa de Jesus quando tentava levar à mais alta perfeição as suas irmãs.

Não estranhemos, por tanto, se no nosso caminhar aparecerem essas contradições. Serão indício de que vamos no bom caminho. Rezemos por essas pessoas e peçamos ao Senhor que nos dê resistência.

d. Vicenç Guinot i Gómez

 

 

A verdadeira família de Jesus

1. É-nos dado neste domingo X do tempo comum escutar o Evangelho de Marcos 3,20-35. É um texto considerado difícil, em que são facilmente identificáveis três cenas organizadas em crescendo. Primeira cena: Marcos 3,20-21: Jesus em «casa», em Cafarnaum (cf. Marcos 1,29.32; 2,1-2), procurado por todos, e sem tempo sequer para comer. Nestas condições, os «seus» (familiares), de Nazaré, saem para tomar conta dele, pois se dizia: «está fora de si» (exéstê). Segunda cena: Marcos 3,22-30: descem os escribas de Jerusalém para verem também o que se passa com Jesus. Ao verem as maravilhas que realiza, concluem que «está possuído por Belzebu» (Marcos 3,22) ou «por um espírito impuro» (Marcos 3,30), e que «é pelo príncipe dos demônios que Ele expulsa os demônios» (Marcos 3,22). Terceira cena: Marcos 3,31-35: o próprio Jesus indica quem são os seus verdadeiros familiares: não os que estão fora e de pé, mas os que estão dentro e sentados à sua volta.

2. A primeira cena requer alguma atenção. A «casa» de que se fala é claramente a casa de Simão e de André, em Cafarnaum (Marcos 1,29). É aí que as multidões procuram Jesus (Marcos 3,20), como já tinha sido anotado antes em Marcos 1,33 e 2,2. Não eram, ao contrário do que a versão portuguesa oficial deixa entender, os familiares de Jesus, vindos de Nazaré, que «diziam: está fora de si», ou, por outras palavras, «enlouqueceu». Todo o problema reside em identificar o sujeito daquele «diziam». A forma verbal grega é élegon, que é um imperfeito impessoal, 3.ª pessoa do plural, do verbo légô. Deve, pois, traduzir-se, não que os familiares de Jesus diziam, mas que se dizia, isto é, as pessoas diziam. Muda tudo na compreensão do texto. Os mais cépticos podem sempre ver, acerca deste acerto exegético, M. Zerwich, M. Grosvenor, A Grammatical Analisis of vthe Greek New Testament, Roma, Biblical Institute Press, ed. rev., 1981, p. 109.

3. Na segunda cena, os escribas, representantes do saber oficial de Jerusalém, afirmam logo que Jesus faz o que faz, porque está em colaboração com as forças do mal. Este raciocínio viciado é completamente desmontado por Jesus, que faz ver aos escribas que se alguém luta contra si mesmo, entra em dissolução, autodestruindo-se. Não pode, portanto, ser o mal a lutar e vencer o mal. O mal só pode ser vencido pelo bem (cf. Romanos 12,21). Só a cegueira de corações empedernidos pode recusar evidência tão evidente: de fato, quem estiver postado do lado do mal, não se porá a combater o mal, pois uma tal atitude equivaleria a destruir-se a si mesmo. Confundir a fonte do bem operado por Jesus com a fonte do mal, é não querer reconhecer a ação de Deus, e reconhecer o mal como único poder, único deus. E o mal não perdoa. Não tem perdão o pecado contra o Espírito Santo.

4. A terceira cena é uma bela cúpula do texto. Põe em contraponto a «casa» nova e a «casa» antiga. A casa antiga permanece vinculada ao velho livro anagráfico, que nos prende à terra, e não nos deixa ver o céu. Que nos enreda em laços familiares antigos ligados à casa antiga, e não nos deixa ver tantos novos irmãos e irmãs, pais e mães, filhos e filhas, que Deus nos dá. A família antiga, assente na terra e no sangue, fica fora e de pé. A família nova, assente no céu e na graça, fica dentro e sentada a escutar a Palavra de Jesus, para aprender a fazer a vontade de Deus.

5. Gênesis 3,9-15: Deus à procura dos seus filhos escondidos e perdidos. «Onde estás?», pergunta o Deus-Que-Vem por amor ao encontro da sua criatura dileta. «Tive medo e escondi-me», respondemos nós, amedrontados. A narrativa exemplar de Gênesis 3, que hoje lemos, desvenda todas as nossas inúteis estratégias de defesa, e faz-nos ver como nós nos escondemos de nós mesmos e de Deus, e como alijamos facilmente as nossas culpas sobre os outros. Correto, limpo, terapêutico, salvador, era assumirmos e confessarmos humildemente as nossas culpas. Mas não. Fugimos, escondemo-nos de nós, e respondemos: «Foi a mulher», «foi aquele», «foi aquela», e, em última análise, «foste Tu, foste Tu, Deus», porque foste Tu que me deste a maravilha de um irmão, de uma irmã, e foi esse irmão dado por Ti, essa irmã dada por Ti, que me deu a comer aquele fruto, fruto de um furto! És Tu, portanto e em última análise, o culpado. Aí estamos nós a fugir de nós mesmos, e a acusar os outros! E se não assumimos as nossas culpas, como podemos corrigir os nossos erros, e como podemos chegar a descobrir a realidade humana e divina do perdão? Sim, porque quando nos escondemos de Deus, estamos também a esconder Deus e os seus dons, a Alegria, o Amor, o Perdão. É assim que chegamos a Cristo, que veio por amor à nossa procura. À procura da ovelha perdida e escondida.

Passa outra vez, Senhor, dá-nos a mão,

Levanta-nos,

Não nos deixes ociosos nas praças,

Sentados à beira dos caminhos,

Sonolentos,

Desavindos,

A remendar bolsas ou redes.

Sacia-nos.

Envia-nos, Senhor,

E partiremos

O pão,

O perdão,

Até que em cada um de nós nasça um irmão.

dom António Couto

 

 

Ser a família de Deus!

O mal na vida humana

A relação entre a 1ª leitura - narrando a queda do homem pelo pecado primordial — e o Evangelho, narrando a atividade de Jesus para expulsar o mal, é muito ilustrativa. Pela queda no pecado, a família humana ficou à mercê do mal, ficou sujeita ao mal com todas as conseqüências que o mal promove e provoca na vida humana. O Evangelho, narrando a atividade de Jesus contra o mal, mostra o outro caminho: aquele de se afastar do mal e buscar Jesus, para se viver longe do pecado, do mal e da maldade. A ação de Jesus tem a finalidade, no dizer de Paulo, de abandonar o antigo Adão, abandonar o homem velho e fazer-se participante de um novo modo de viver, aquele de quem contempla a presença divina em nossas vidas, como dizia a 2ª leitura. O relacionamento com o pecado, dizia a 1ª leitura, é marcado pelo medo, nudez e fuga. É a conseqüência do pecado na vida humana. Uma situação de medo, de nudez e de fuga. Quem vive no pecado vive fugindo, vive se escondendo por se sentir desnudado de vida.

O pecado tira o horizonte da vida

Desde o pecado original, o homem e a mulher como que ficaram sem rumo na vida. Em vez de decidir, permitiram que a serpente os enganasse e decidisse em seu lugar. Surge um mundo e uma sociedade onde vale tudo: corrupção, injustiças, violências, mentira e morte. Mas Deus, que não suporta ver o homem errando na vida, aponta outro caminho; um caminho de esperança, de bondade e de convivência fraterna. Para torná-lo viável envia seu Filho, o homem novo, que repele, afasta e cura as feridas do pecado. A ação divina, em Jesus Cristo, pretende refazer a criação do homem, criando uma nova geração; uma nova humanidade, que não cede ao mal, mas vive alimentando-se com o bem e com a bondade. Deus não quer a vida humana marcada pelo pecado, pela desordem e pelo desrespeito de uns para com os outros, mas uma família humana capaz de viver a fraternidade e a solidariedade de modo fraterno. Quem assim se aproxima de Deus reconhece, juntamente com o salmista, a grandeza da misericórdia divina, pois se Deus levar em conta as nossas faltas, quem poderá sobreviver? Mas, não, ele não considera nosso pecado, perdoa e possibilita a vida ser vivida na liberdade no amor.

Jesus veio para os pecadores

Numa das passagens do Evangelho, ouvimos Jesus dizendo que não veio para os sadios, mas para os que precisam de médico: “os sãos não precisam de médico, mas os enfermos” (Mc. 2,17). Ele não veio para os bons, mas para os pecadores. Marcos faz questão de mostrar Jesus cercado de gente oprimida. É no meio dessa gente que ele, Jesus, se sente em casa; é aí que revela quem ele é e que sua missão consiste em salvar da morte do pecado. A casa de Jesus é onde se reúnem os sofredores de toda espécie, a ponto de Jesus e seus discípulos não terem tempo sequer para tomar refeição. Aqueles que sofrem as maiores conseqüências do pecado pessoal e do pecado social buscam no Mestre um caminho novo e uma segurança. Marcos apresenta Jesus como aquele que expulsa Satanás, que liberta do mal e dá nova vida. Jesus é mais forte que o mal, mais forte que a morte, mais forte que as opressões que causam o mal. É a ele que buscamos, a ele que devemos buscar para participar da sua misericórdia e começar a viver com uma vida nova e renovada. O que conta não é o pecado, mas a força da graça.

O mal e o pecado não podem ter a última palavra

Jesus não aceita o mal na vida humana e nem mesmo na sociedade. Sua missão é libertar todas as pessoas de qualquer tipo de opressão que não permite que elas sejam humanas ou não vivam de modo humano. Libertar até mesmo de opressões religiosas, se for o caso. Ele liberta de qualquer tipo de opressão, como a alienação social, o descaso para com a vida, do egoísmo que tanto mal faz em nossos dias, a ponto de plantar em milhões de pessoas a falta de esperança e de perspectivas de vida. Diante de tais fatos, a decisão é sempre de cada um de nós; da pessoa. Deus não obriga, mas alerta para os efeitos devastadores do pecado e do mal na vida humana. Deus pede que nos afastemos do mal e que assumamos a sua vontade, a exemplo de Jesus, para viver livre da opressão do pecado e da maldade. O final do Evangelho mostra quem faz parte da família de Jesus: aquele que faz a vontade do Pai. Se fazemos a vontade do mal, se vivemos no pecado e concordamos com o pecado, não pertencemos à família de Jesus. Se vivermos fazendo a vontade do Pai somos membros da família de Jesus e viveremos longe do mal, da maldade e do pecado.

 

 

Jesus não se deixou vencer pelo demônio!

O Evangelho se abre com boatos contra Jesus. Seus familiares espalham entre o povo que ele tinha ficado louco. Os religiosos, teólogos e escribas, espalham o boato que Jesus estava possuído pelo príncipe dos demônios. A finalidade é bastante clara desse boato: tornar Jesus desacreditado do povo, afastar o povo de Jesus, fazer com que o povo não dê ouvidos e, menos ainda, crédito ao Evangelho. Podemos supor que os familiares tenham agido dessa forma por medo das autoridades religiosas, uma vez que os religiosos dominavam o povo e tinham poder de vida e morte sobre as pessoas. Antes de aprofundarmos nossa reflexão, podemos fazer uma ponte entre o que aconteceu com Jesus e o que assistimos nos dias de hoje, com tantas pessoas que agem em universidades e através dos meios de comunicação, pregando o ateísmo, a não existência de Deus com a intenção de desacreditar a Igreja e marginalizar a religião.

Entre a suposição de loucura, por parte dos familiares, e a acusação de que Jesus estava possuído por um demônio, o peso mais grave encontra-se nesse segundo caso. A função dos escribas e líderes religiosos era de fazer teologia que, naquele tempo, consistia em explicar a Sagrada Escritura, para que o povo conhecesse o caminho de Deus. A interpretação da Sagrada Escritura, contudo, precisa de um fundamento, para que seja teológico. É isso que falta no boato levantado pelos escribas e líderes religiosos. Como é possível que alguém, como Jesus, que tenha feito tanto bem ao povo, estivesse possesso de um demônio? Como é possível que um homem como Jesus, que curara tantas doenças e ressuscitara até mortos, estivesse possuído por um demônio? É difícil argumentar contra as provas evidentes de que Jesus vinha de Deus. Por isso, os escribas não fazem teologia, mas lançam uma ideologia. Criam um discurso articulado em formato religioso e espalham isso no meio do povo. É uma ideologia satânica, com a finalidade de dividir e de recusar Jesus. Jesus chama isso de pecado contra o Espírito Santo porque, mesmo vendo as obras de Deus que ele realiza, ainda assim negam a presença do Espírito de Deus em Jesus.

Não pensemos que o que ouvimos no Evangelho é um fato passado, localizado na época do Jesus histórico. A bem da verdade, a história da Igreja está marcada por ideologias, por pensamentos arquitetados para desacreditar a Igreja e para desacreditar Jesus. Só para lembrar, recentemente, alguns livros espalharam a idéia que Jesus era casado com Maria Madalena e que tiveram alguns filhos. Há questão de meses atrás, foi lançado um livro na Europa, que logo será traduzido para o português, ensinando que não existem motivos para se crer em Jesus, porque ele era um judeu errante, seguido por 12 homens sem destino e que, toda a história de Cruz e ressurreição é invenção da Igreja, de Papas e de bispos. Mas, existem ideologias espalhadas contra Jesus e contra a Igreja até mesmo por cristãos. São ensinamentos que a Igreja define como heréticos, quer dizer, ensinamentos errados a respeito de Jesus. Milhões de homens e mulheres, no decorrer da história, abandonaram a fé por acreditar nas ideologias e em heresias. Ainda em nossos dias, milhares de pessoas abandonam a Igreja e, o que é pior, abandonam o caminho do Evangelho, levados por ideologias que negam Jesus e destroem a Igreja.

O Evangelho iniciado com um boato de loucura, da parte dos familiares de Jesus, termina com os familiares querendo conversar com ele. “Tua mãe e teus parentes estão ali fora e querem falar contigo”, ouvimos no final do Evangelho. Jesus se volta para aqueles que não creram nos boatos de loucura e de endemoniado e declara que eles são a sua nova família, porque acreditam naquilo que Jesus diz. O reinício do Tempo Comum, o tempo por excelência dedicado ao discipulado, ao seguimento de Jesus, se abre com uma proposta para que examinemos nossa vida cristã. Hoje, somos desafiados a verificar se nossa opção por Jesus é fiel ou se caímos na tentação de aceitar a fruta da ideologia que a serpente, como ouvimos na 1ª leitura, continuamente oferece a nós para nos afastar de Deus e para nos distanciar do caminho do Evangelho. Opiniões sobre Jesus, nós escutamos diariamente na grande mídia. Ideologias sobre e contra Jesus, nossos universitários ouvem diariamente em suas faculdades. Propostas para desacreditar a Igreja viajam o mundo... o que fazemos diante dessa avalanche tentadora? Peçamos, pois a graça de perseverar, para que o tentador não nos vença e jamais nos afastemos da Verdade, que é Jesus e seu Evangelho pregado na Igreja.

padre Edson

 

 

Sou católico e não desisto nunca!

Neste 10º domingo do tempo comum, vemos que a multidão procura Jesus para tocá-Lo e ser curada das suas enfermidades; ela compreende e reconhece n’Ele um poder sobrenatural. Porém, os parentes de Jesus foram segurá-Lo, porque diziam: “Enlouqueceu”. Os familiares temem que esta maneira de agir possa comprometer o nome da família, então decidem tomar o controle da situação.

Vendo a atitude dos parentes d’Ele, podemos nos perguntar: “Quantas vezes somos chamados de loucos?”. Principalmente as pessoas que assumem uma proposta de vida radical, deixando tudo para seguir Cristo mais de perto, como consagrados, casais comprometidos com as pastorais nas capelas, nas paróquias e na diocese, entre tantas outras pessoas que dedicam sua vida para que haja esperança na comunidade. São os nossos próprios parentes que, às vezes, nos acusam de loucos, de “beatos e beatas” da sacristia.

Jesus está dentro da casa. A multidão e Seus parentes estão do lado de fora e ao Seu redor, ouvindo-O. Estão reunidos os discípulos em torno de Jesus, como também as multidões, pessoas do povo capazes de deixar tudo para segui-Lo. São os aleijados, coxos, pobres, doentes que estão “como ovelhas sem pastor” (Mc 6,34).

“Participar da casa” é estar presente no banquete da vida, aproximar-se do outro como espaço de diálogo e compreensão. Mas para entrar na casa é preciso romper com o sistema de opressão que há em nossa sociedade, à medida em que faço do outro instrumento da minha vontade e o coloco em disputa com os demais. A casa é o lugar apropriado para desenhar a proposta que Jesus deseja anunciar e promover o sistema de relação social.

Um profeta só é desprezado em sua pátria, em sua parentela e em sua casa (cf. Mc 6,4) . As pessoas capazes de compreender a missão de Jesus são aquelas que fazem uma experiência com Ele. Os mais próximos se afastam diante da missão de Jesus, enquanto os mais distantes se aproximam d’Ele e de Sua missão.

“Aproximar-se da missão” é se encontrar dentro da casa e reconhecer em Jesus a presença do Reino de Deus. É preciso compreender os gestos e não ter o coração endurecido. Os que estão fora da casa são os adversários, os que querem interromper a missão, concordando com uma ideologia que domina as pessoas e que controla o sistema opressor.

Estar na casa é o principal foco e eixo de partida. Jesus se sente próximo e familiar a todos que se deixam envolver por Seu projeto. O grau de parentesco é como um título para que se possa fazer parte da nova comunidade, a qual requer fidelidade acima de tudo. Jesus se recusa a aceitar quem não aceita Sua missão.

É preciso ser obediente a Deus, estar sentado à Sua volta e atentar-se aos Seus ensinamentos. É a unidade em Jesus que se deve fazer evidente numa opção de vida, na instauração de uma família, como também na vida. Viver a vida com adesão ao projeto de Deus e na construção de um mundo novo, no qual a esperança nos mova para frente para podermos chegar à terra onde jorra leite e mel. Falem o que quiserem falar, mas nós precisamos dizer: “Sou católico e não desisto nunca!”.

A oração que devemos rezar é: “Ó Deus, assim como nos enviaste o Vosso Filho que se fez louco por amor à Vossa vontade, assim fazei de nós loucos. Loucos para aceitar qualquer tipo de trabalho e ir a qualquer lugar, sempre num sentido de vida simples, humilde, amando e promovendo a paz, a justiça, a restauração e a reconciliação entre as famílias”.

Essa pequena oração retrata a opção de vida por Jesus, a quem Sua própria parentela chamou de louco ao tenta impedi-Lo de prosseguir com Sua missão, quando julga que Ele está fora de si devido à multidão que O acompanha. Este aglomeramento da multidão suscita uma preocupação dos parentes e a intervenção destes pode ser motivada pela atividade de Jesus e Seu modo de se comportar, que fugia aos esquemas dos moldes comuns. “Ele fala com autoridade”, ou ainda, “nunca alguém falou como este homem fala”.

padre Bantu Mendonça Katchipwi Sayla

 

 

Cuidemos do amor que precisamos ter para com o próximo

Estamos pisando em cima do amor que aprendamos da luz da fé,

para vivermos as nossas preferências religiosas

“Se um reino se divide contra si mesmo, ele não poderá manter-se. Se uma família se divide contra si mesma, ela não poderá manter-se. Assim, se Satanás se levanta contra si mesmo e se divide, não poderá sobreviver, mas será destruído” (Marcos 3,24-26).

O maligno é o destruidor, ele é o destruído, porque é aquele que provoca a separação, é aquele que se separa de Deus e quer também nos separar do Senhor. É aquele que quer ver famílias divididas, pessoas divididas, igreja dividida, ele quer nos colocar uns contra os outros.

O Evangelho de hoje é um alerta para todos nós, porque não adianta só colocar a culpa no maligno quando nós, de livre e espontânea vontade, deixamo-nos seduzir por suas artimanhas. De uma vez por todas, aprendamos que o diabulus é aquele que divide, é aquele que separa, é aquele que se afasta de Deus e quer também que outros se separem d’Ele. Ele não semeia o amor, mas semeia a discórdia; não semeia a união, mas a desunião e a briga; ele não coloca as pessoas para se unirem, mas coloca as pessoas umas contra as outras.

Não precisamos ilustrar, porque é só olhar o mundo em que vivemos, não é um mundo distante, mas há algo mais triste do que uma família dividida? Do que uma família que só tem brigas, separações, divisões? Em uma família pode haver desentendimentos e dificuldades de relacionamentos, mas não uns se colocarem contra os outros, os pais contra os filhos, os filhos contra os pais, os irmãos uns contra os outros, irmãos que não se falam, que não se entendem.

E não é só em uma família, é em nossas famílias, em nossas comunidades, irmãos de fé que não se falam, irmãos que estão se colocando uns contra os outros, atacando uns aos outros, falando mal uns dos outros. Desculpe-me, mas o mais importante não é a nossa pregação, a bandeira religiosa que carregamos ou a música que cantamos, o que mais importa é o amor que nos une.

Estamos pisando em cima do amor que aprendamos da luz da fé, para vivermos as nossas preferências religiosas, familiares ou cuidarmos das nossas feridas e não cuidarmos do amor que precisamos ter uns para com os outros.

O reino dividido contra si mesmo não pode subsistir, o Reino de Deus não subsiste em nós, ele vai desaparecendo do meio de nós, começamos a viver em um reino de confusão, mentiras, intrigas, embates, combates ou, na verdade, somos chamados a implantar o Reino de Deus.

Não devemos nos colocar uns contra os outros, devemos saber viver e conviver com as diferenças, com os pontos de vistas que não se batem. Mas existe algo muito mais profundo do que qualquer ponto de vista, do que qualquer desentendimento, mágoa ou ressentimento: é o amor que Deus tem por nós, o amor que O levou a derramar Seu Sangue na Cruz, para fazer de dois povos ou, de quantos povos forem, somente um povo, o povo de Deus, e assim construir o Reino que não é dividido, mas um Reino de amor, de paz e união.

 

 

Deus nos perdoa e nos liberta do poder do maligno

“Ele está possuído por Beelzebu: é pelo príncipe dos demônios

ele expele os demônios” (Marcos 3, 22).

A Palavra de Deus, que vem ao nosso encontro neste domingo, nos mostra a ação libertadora de Jesus, Aquele que vence, que expulsa, que repele e que manda para longe de nós o tentador, aquele que sabota os planos de Deus, aquele que engana e ilude a nossa mente, o nosso coração e a nossa vontade a fim de nos tirar da visão do essencial e da presença de Deus.

Nós não podemos ignorar a ação do maligno em nosso meio. Ele não é mais do que Deus, não pode mais do que o Senhor nem pode destruir o que é d’Ele, a não ser que nós demos a ele essa autoridade e poder de atuação que não tem. O demônio age onde há humanidade, onde, nós, homens, o deixamos agir. Ele [o demônio] é a personificação de todas as tentações que nós vivemos, pelas quais passamos e sofremos durante a nossa vida terrestre.

Não é que o demônio apareça a alguém, não é que ele esteja como uma pessoa que todos veem, mas ele nos influencia, tem suas artimanhas e, muitas vezes, aproveita-se de nossas más inclinações para semear no mundo a discórdia, a mentira e suas obras. E muitas vezes, contribuímos com ele não só ao sermos seduzidos por suas artimanhas, como também quando seduzimos os outros e espalhamos o joio e o que não é do Reino de Deus, aquilo que vem do mal. Muitas vezes, nós somos instrumentalizados pelo poder do maligno.

A ação de Jesus quer nos libertar da força do mal! A ação de Jesus não nos quer presos e cativos à ação do maligno! Por isso as Sagradas Escrituras nos mostram esse poder da ação de Jesus; poder não só de expulsar os demônios, como também de repelir as obras e as tentações dele e perdoar os nossos pecados. Contudo, muitas vezes, Jesus é confundido pelos Seus, da Sua época, e a Sua obra não é compreendida.

Hoje o Senhor nos diz que todo pecado será perdoado aos homens, a não ser o pecado contra o Espírito de Deus. Aqui é importante compreender que todo pecado, de fato, tem perdão, a não ser aquele pecado em que a pessoa não quer ser perdoada ou que não o reconhece e não pede por ele perdão e misericórdia.

Por outro lado, o pecado que não se pode perdoar é aquele no qual a pessoa se fecha nele e não se abre para a libertação. Não é que Deus não queira nos perdoar, Ele é sempre perdão, mas é necessário arrependimento, é necessário reconhecer o que é do Senhor e o que não é d’Ele, e não atribuir ao mal aquilo que é de Deus!

padre Roger Araújo

 

 

A origem dos Evangelhos prende-se com a questão “quem é Jesus?”, e na sua diversidade e complexidade cada um dos evangelistas procurou responder a essa questão.

Questão que o mesmo Jesus colocou um dia aos discípulos, “quem dizem os homens que eu sou”, e à qual Pedro respondeu que Jesus era o Messias, o Filho de Deus.

O trecho do Evangelho de são Marcos que hoje lemos apresenta-nos também duas respostas a esta mesma pergunta; uma por parte da família de Jesus, que o considera “fora de si”, um louco, e outra por parte dos escribas vindos de Jerusalém, que consideram Jesus “possesso de Belzebu”, portanto um demônio.

São Marcos reuniu no mesmo contexto, na mesma circunstância, as duas imagens de Jesus, ainda que de grupos opostos, porque ambas enfermam da mesma visão exterior, ambas se ligam ao mal, ainda que no caso da família a visão seja a de Jesus afetado pelo mal, e no caso dos escribas seja a de Jesus como agente do mal.

Na crença popular ao tempo de Jesus, Belzebu era o rei do reino do mal, um reino que se dividia em vários extratos e cujo extrato mais baixo era o dos espíritos que provocavam as doenças, os estados de possessão e similares.

A acusação e afirmação dos escribas vindo de Jerusalém colocam Jesus nestes extrato, uma vez que ele lida com doentes, com possessos, com gente socialmente e religiosamente excluída e marginalizada. Jesus é como um agente do mal e por isso se integra nesta franja de marginalidade.

A resposta de Jesus a esta acusação é por demais evidente e irrefutável, uma vez que ao combater o mal, as doenças, a marginalização, ele não pode pertencer ao mesmo grupo daqueles que lhes dão origem. Jesus está de fato nos antípodas da visão e acusação feita pelos escribas.

E é neste sentido que Jesus lança um desafio, uma ameaça de condenação que de alguma forma permanece enigmática quando diz “quem blasfemar contra o Espírito Santo nunca terá perdão”, mas que se esclarece imediatamente a seguir quando ela dirigida àqueles que dizem que Jesus está possesso de um espírito impuro.

O pecado contra o Espírito Santo é assim a recusa da aceitação e do reconhecimento de Jesus como agente do bem, como salvador, como integrador do homem na sua dignidade original. Toda a ação de Jesus quando curava, quando perdoava, quando entregava a sua vida em expiação dos pecados dos homens, visava essa integração, essa restauração da familiaridade com Deus.

E é face a esta integração, a este objetivo de vida, que a visão por parte da família e a sua atitude se opõem, se apresentam em contraposição, expressa de forma parabólica na redação do texto pela espacialidade dos atores.

Assim, vemos que a família que vem à procura de Jesus o considera “fora de si”, fora dos esquemas tradicionais do grupo e da tribo. Face aos vários comentários que circulam, a família vem à procura de uma reintegração no grupo familiar, nos parâmetros habituais do clã, vem à procura de alguém que parece afetado pelo mal e portanto é necessário proteger.

Contudo, a realidade é bem diferente, Jesus pertence já a um outro grupo, a uma outra família, e São Marcos expressa isso de forma magistral quando coloca a família fora do espaço e local onde se encontrava Jesus com aqueles que o escutavam. Os laços de sangue impediam-lhes o acesso a Jesus, enquanto que a escuta da sua palavra a facultava.

Neste contexto há que ressalvar a pessoa de Maria que se dilui no grupo da família, e que São Marcos não deixa igualmente de ressalvar e excluir apresentando-a apenas como sua mãe. Maria enquanto mãe afigura-se como a expectativa messiânica do povo, a maternidade que necessitava passar à filiação.

E por isso, quando é dito a Jesus que a sua família, mãe e irmãos, estão lá fora à procura dele, Jesus responde que verdadeiramente seus irmãos e sua mãe são aqueles que cumprem a vontade de Deus.

Nesta resposta insere-se o reconhecimento de Jesus como aquele que é o primeiro a cumprir a vontade de Deus, e por essa razão é fonte de bem e salvação, é o agente da integração do homem na órbita e na relação com Deus. Jesus não está na órbita do mal, mas na órbita de Deus.

À luz das palavras de Jesus necessitamos por isso de estar muito atentos ao cumprimento da vontade de Deus nas nossas vidas, à fidelidade aos seus mandamentos, conscientes de que sempre estamos convocados a dar uma imagem verdadeira de Deus, mas muitas vezes essa mesma imagem é mal interpretada por outros.

Contudo, e como diz são Paulo aos Coríntios, não podemos deixar-nos desanimar, não podemos abdicar, porque cada tentativa e cada esforço são uma potencialidade de graças mais abundantes e de maior glória para Deus.

frei José Carlos Lopes Almeida, OP

 

 

"Naquele tempo, Jesus voltou para casa com os seus discípulos. E de novo se reuniu tanta gente que eles nem sequer podiam comer."

No início de sua pregação, Jesus teve sucesso. A "multidão", isto é, as pessoas do povo simples, se aglomeravam ao seu redor para ouvi-lo. Marcos observa que, certo dia, havia tanta gente que não existia nem mesmo lugar para se comer. Esta casa seria aquela de Simão Pedro, em Cafarnaum, a qual Jesus havia adotado como sua (cf.: Marcos 1,29; 2,1; 3,20; 9,28; 9,33; 10,10). Nas ruínas atuais de Cafarnaum, os arqueólogos encontraram a base de uma modesta casa de pescadores datando do primeiro século antes de Cristo, sobre a qual havia sido edificado um santuário cristão muito antigo. O grafito de devoção marcado em gesso sugere que se teria encontrado, neste local, esta "casa" onde Jesus residia frequentemente.

A partir da Encarnação, nossas casas adquiriram uma dignidade nova. Imaginamos Jesus, numa delas... a casa pobre de um marinheiro perto do porto... em meio a outras casas da vila, no labirinto de ruelas.

"Quando souberam disso, os parentes de Jesus saíram para agarrá-lo, porque diziam que estava fora de si."

Eis o que se dizia dele em sua família: "É um exaltado... tornou-se louco... ele perdeu a cabeça...". Evidentemente, desde algum tempo, quanta diferença com sua vida tranquila de trinta anos em Nazaré! A família de Jesus não poderia ignorar que ele era "malvisto" pelas autoridades religiosas... "ele será pego por essas histórias"... Eles vêm, então, para o recuperar e fazê-lo voltar à ordem.

Estamos dispostos a aceitar as vocações um tanto "loucas", arriscadas, não razoáveis de acordo com as boas prudências humanas? Nós chegamos, às vezes, seguindo Jesus, aparecer-nos como alguém um pouco "louco"? Porque nós não seguimos todas as normas habituais do mundo, nos negócios, nos problemas de consciência, de conduta pessoal ou coletiva?

"Os mestres da Lei, que tinham vindo de Jerusalém, diziam que ele estava possuído por Belzebu, e que pelo príncipe dos demônios ele expulsava os demônios."

Uma segunda opinião, muito mais grave, era apregoada sobre Jesus. Não somente "ele é louco", mas "ele está possuído"! Falsa insinuação. Ninguém negava a autenticidade de seus milagres. Mas o seu "poder" vem de Satanás, que os judeus da época chamavam pelo desprezível nome de "Baal do estrume" (este é o sentido da palavra Baal-zebu). [Baal = senhor, deus]. E são os "escribas", os "letrados" que lançam esta suspeita.

"Então Jesus os chamou e falou-lhes em parábolas: 'Como é que Satanás pode expulsar a Satanás? Se um reino se divide contra si mesmo, ele não poderá manter-se. Se uma família se divide contra si mesma, ela não poderá manter-se. Assim, se Satanás se levanta contra si mesmo e se divide, não poderá sobreviver, mas será destruído. Ninguém pode entrar na casa de um homem forte para roubar seus bens, sem antes o amarrar. Só depois poderá saquear sua casa'."

Esta é a primeira e breve parábola narrada por Marcos: a imagem de um combate corpo a corpo, rápido e decisivo. Jesus aqui mostra que ele tem consciência de ser "mais forte" que Satã! Hoje, isso continua verdadeiro. A luta continua. E Jesus está conosco nos combates contra o mal. Nós somos pessimistas ou otimistas diante da explosão das forças más em nosso mundo?

" 'Em verdade vos digo: tudo será perdoado aos homens, tanto os pecados, como qualquer blasfêmia que tiverem dito. Mas quem blasfemar contra o Espírito Santo, nunca será perdoado, mas será culpado de um pecado eterno'. Jesus falou isso, porque diziam: 'Ele está possuído por um espírito mau'."

Não é a natureza do pecado que está em questão, nem a limitação da misericórdia divina, que torna esse pecado imperdoável, mas unicamente a obstinação voluntária no mal. É preciso repetir com Jesus: Deus não condena ninguém... Deus perdoa todos os pecados... a todas as pessoas. Mas pode existir homens que se fecham resolutamente a esse perdão: é a "blasfêmia contra o Espírito Santo". Deus, certamente, perdoa, mas alguns recusam esse perdão: isso deve ser o inferno. Nenhum daqueles que a ele se condenam, não querem sair dele... do contrário, seria imediatamente salvo por esse Deus que "perdoa todos os pecados e blasfêmias".

Essa recusa obstinada até o fim é frequente?

Ninguém pode julgar seu irmão pelo exterior. Mas que cada um examine seu próprio caso: neste momento, no dia em que estou hoje, a questão a que devo me submeter não é: "Eu sou pecador?". Porque todos são pecadores (Romanos 3,23). Mas a única questão é esta: "Eu acolho o perdão de Deus?... eu blasfemo o Espírito Santo?... eu esnobo este amor que salva gratuitamente os pecadores?" (Romanos 3,24).

Jesus, tenha piedade de mim que sou pecador. Christe, eleison. Esta é a famosa "oração a Jesus" que repetem incansavelmente os fiéis do Oriente.

"Nisso chegaram sua mãe e seus irmãos."

Marcos encaixou um no outro os episódios da "recusa dos escribas" e aquele da abordagem de sua família. Esse procedimento literário lhe é familiar, para nos convidar a procurar as ligações entre as duas situações. Jesus é rejeitado, ignorado... em sua própria família. A palavra "irmão", em hebraico, designa indiferentemente os irmãos e os primos. Estes levaram sua tia, a mãe de Jesus, numa tentativa de recuperá-lo. Observemos a audácia de Marcos. É a primeira vez que ele nos fala de Maria! E é para dizer isto. De fato, o evangelista não procura embelezar. São coisas que não se inventam.

"Eles ficaram do lado de fora e mandaram chamá-lo. Havia uma multidão sentada ao redor dele. Então lhe disseram: 'Tua mãe e teus irmãos estão lá fora à tua procura"

Em oposição àqueles que estão "dentro da casa", Marcos, por duas vezes, observa que a família de Jesus "está fora". Esta expressão "aqueles de fora" é habitual, na Igreja dos primeiros séculos, para designar os "não-cristãos" (cf.: 1 Tessalonicenses 4,12; 1 Coríntios 5,12.13; Colossenses 4,5; 1 Timóteo 3,7). Marcos reutilizará essa linguagem, que separa os homens em duas categorias, de acordo com aqueles que escutam Jesus com fé ou aqueles que restam "fora": "A vós, os mistérios estão abertos... mas àqueles que estão fora, tudo se torna enigma incompreensível" (Marcos 4,11).

Esta cena, na qual Maria e os primos de Jesus vêm para tentar interromper a missão de Jesus, deve nos fazer meditar longamente sobre o que é a fé. A fé de Maria, não menos que a nossa, não está "pronta e acabada", uma vez por todas. A fé não pode ser definida a não ser como uma realidade que evolui. Não é desde o primeiro momento da Anunciação que Maria compreendeu quem era seu filho, mesmo que ela tenha tido de iluminações especiais. Lucas, também, observou que Maria, em certas ocasiões, não "compreendeu" Jesus (Lucas 2,50).

"Ele respondeu: 'Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos?' E olhando para os que estavam sentados ao seu redor, disse: 'Aqui estão minha mãe e meus irmãos. Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe'."

Marcos frequentemente observou esses "olhares" de Jesus (cf.: Marcos 3,5; 5,32; 10,21; 11,11; 12,41). Uma das mais simples orações que podemos fazer é esta: pensar que neste momento Jesus me olha.

"Quem faz a vontade de Deus é meu irmão... minha mãe". A vontade do Pai é a obsessão de Jesus. Jesus é apaixonado... apaixonado por Deus! Quem ama a Deus, diz ele, é sua família, sua única e verdadeira família. Nesse sentido, Maria é duplamente sua mãe. Sua verdadeira grandeza é "fazer a vontade de Deus".

"Sentados em círculo entorno dele..." "sob o olhar de Jesus"... assim é, se poderia dizer, a primeira comunidade cristã. Cada missa nos permite reviver isso. A catequese essencial, para todos, em todo tempo, é a "liturgia da Palavra". Dai-nos, Senhor, escutar tua palavra, e de a "praticar", para entrar em sua família.

Noël Quesson

"Parole de Dieu pour chaque dimanche"

tradução de Telmo José Amaral de Figueiredo

 

 

 

Quem é o neurótico?

Todos supomos que uma pessoa seja normal e sadia quando cumpre corretamente com o papel social que lhe toca desempenhar. Quando faz o que dela se espera e sabe adaptar-se e atuar segundo a escala de valores e as pautas que estão de moda na sociedade.

Pelo contrário, a pessoa que não se adapta a esses esquemas e atua e maneira distinta, corre o risco de ser considerada como anormal, neurótica, suspeita.

Este é o caso de Jesus. Sua atuação livre provoca rapidamente a rejeição social. Seus familiares o consideram como desequilibrado e excêntrico. As classes cultas farisaicas suspeitam que está irremediavelmente possuído pelo mal.

O problema está em saber quem é que está verdadeiramente desequilibrado e possuído pelo mal e quem é o verdadeiramente sadio que sabe crescer como homem.

Em seu estudo «O Medo à Liberdade» (1941 – última edição brasileira: 1983 – 14ª edição, Guanabara Koogan), Erich Fromm nos fez ver que, quando uma sociedade está neurotizada e mutila a personalidade de seus membros, a única forma de manter-nos sãos é a ruptura com os esquemas sociais vigentes, ainda que à custa de sermos considerados como neuróticos pelo resto da sociedade.

Não é fácil ser diferente e manter a própria liberdade em meio a uma sociedade enferma. A maioria se conforma com adaptar-se, «viver bem», sentir-se seguro. Como diria Miguel de Unamuno, essas pessoas «têm horror à responsabilidade».

Quantos homens e mulheres valorizados socialmente por sua eficiência e sua capacidade de mover-se com agilidade nesta «sociedade de interesses» são uma triste caricatura do que um ser humano é chamado a ser.

Pessoas que renunciaram às suas próprias convicções e não sabem mais o que é ser fiel a um projeto humano de vida. Pessoas que se limitam a interpretar um papel, respeitar um roteiro, «desempenhar uma personagem». Homens e mulheres que vivem ser viver, com uma liberdade atrofiada. «Gente que se reconhece em suas mercadorias; encontra sua alma em seu automóvel, em seu aparelho de alta fidelidade, sua casa, seu equipamento de cozinha» (Herbert Marcuse).

Os que creem esquecem, com frequência, que a fé em Jesus Cristo pode dar-nos liberdade interior e força para salvar-nos de tantas pressões e imperativos sociais que atrofiam o nosso crescimento como pessoas verdadeiramente livres e saudáveis.

 

 

Pecado imperdoável

No Evangelho se fala de um pecado imperdoável. É o pecado «contra o Espírito Santo». Concretamente, é o pecado dos escribas que, longe de acolher a salvação que se lhes oferece Jesus, a rejeitam vendo nela uma ação satânica.

Porém, vamos entender bem. Não se trata de que a capacidade de perdão de Deus se esgota em um determinado momento diante da maldade tão grande do ser humano. É que «o pecado contra o Espírito» consiste precisamente em rejeitar o perdão e a salvação que nos são oferecidos.

Mais concretamente, «pecar contra o Espírito» é não sentir-se necessitado de salvação alguma. Não aceitar a nenhum salvador. Não se colocar, portanto, no caminho de salvação.

Pode ocorrer que um ser humano não se sinta pecador. Que, por detrás dos múltiplos males que o afligem sob a forma de carências, contradições, rupturas, desejos, infidelidades, não seja capaz de descobrir um mal radical do qual necessita ser salvo.

E, naturalmente, quem não se reconhece pecador fecha-se ao oferecimento do perdão e à conversão que o levaria a libertar-se de seu pecado.

Porém, inclusive, pode acontecer que uma pessoa recuse a conversão justificando sua atitude, distorcendo a própria manifestação de Deus e manipulando interessadamente o chamado que se lhe faz.

Este «pecado contra o Espírito» não mais que o pecado horrível que cometem, quem sabe, alguns homens obstinados que, em sua soberba, resistem ao chamado de Deus.

Pode ser simplesmente o pecado de todos nós que resistimos à ação do Espírito que chama nossa Igreja à conversão ao Evangelho.

Há alguns anos se falou do «espírito» do Concílio Vaticano II. Não se pode suspeitar que foi um espírito de acomodação fácil ou moda passageira. Era um chamado à conversão ao Evangelho.

Será que não estamos neutralizando a força espiritual do Concílio? Não estamos fazendo a «contrarreforma» antes que tenha se iniciado a verdadeira reforma? Não se verifica na Igreja demasiada pouca confiança na força do Espírito tanto em nível institucional como em cada um de nós?

O que poderia ter acontecido para que, cinquenta anos depois de sua celebração, retornemos à letra do Vaticano II, não com o espírito de liberdade e conversão que a animou, mas precisamente para reduzir ao mínimo a transformação exigida pelo Concílio?

Indubitavelmente, houve abusos, leviandades, certa superficialidade. Porém, isso é razão suficiente para fecharmo-nos ao apelo do Espírito que animou aquela Igreja conciliar?

Não devemos escutar uma vez mais as palavras de Paulo: «Não apagueis o Espírito»?

José Antonio Pagola

tradução de Telmo José Amaral de Figueiredo

 

 

O pecado contra o Espírito Santo

Existe um tipo de pecado para o qual não haverá perdão. É o pecado contra o Espírito Santo. Em que consiste a gravidade deste pecado que o torna imperdoável? Jesus, desde o seu batismo, foi apresentado como o Filho de Deus, a quem se devia dar ouvido. Ele foi constituído mediador da salvação divina oferecida a toda humanidade. Suas palavras e ações, porém, tinham como princípio dinamizador o Espírito Santo, poder de Deus atuando nele, manifestado já por ocasião do batismo.

Portanto, a atitude de seus parentes, que o acusavam de louco ao verem as multidões acorrem a ele, e a interpretação dos mestres da Lei, para quem ele agia pelo poder de Belzebu, chocava-se com a realidade da ação divina em Jesus. Pois significava negar que o Espírito Santo agia através de Jesus e atribuir ao demônio o que pertencia ao Espírito de Deus. Eis uma autêntica blasfêmia!

As acusações contundentes levantadas contra Jesus manifestam um fechamento à ação do Espírito. Assim como Jesus agia pela força do Espírito, do mesmo modo só quem se deixasse iluminar pelo Espírito poderia percebê-la. Quem se fechava ao Espírito, tornava-se incapaz de discernir a manifestação da misericórdia de Deus, em Jesus. Fechar-se para Jesus, portanto, significa fechar-se para Deus e, por conseguinte, tornar-se indigno de perdão.

 

 

“O Senhor é minha luz e minha salvação, a quem poderia eu temer?

O Senhor é o baluarte de minha vida, perante quem tremerei?

Meus opressores e inimigos, são eles que vacilam e sucumbem” (Sl. 26,1-2).

Neste domingo nós nos colocaremos diante dos verdadeiros irmãos e os adversários de Nosso Senhor Jesus Cristo. O pecado de Adão e a ameaça à serpente nos é anunciado na primeira leitura (Gn. 3,9-16). “Adão” significa “o Homem”. O pecado de Adão e de o todos nós é: o orgulho de querer ser igual a Deus, querer ser seu próprio Deus. O resultado do “abrir os olhos” (Gn. 3,5.7) não é o que o homem procurou, ou seja, ser igual a Deus, mas apenas a consciência de sua nudez e desproteção: medo perante Deus. Porém, Deus não rejeita ao homem, mas apenas à serpente. A descendência humana há de esmagar a serpente, ou seja, o demônio: prefiguração de que Jesus vence o pecado.

O Evangelho deste domingo (Mc. 3,20-35) nos apresenta Jesus e Beelzebul; adversários e irmãos de Jesus. Depois de que os escribas decidiram matar Jesus, este, em meio a uma intensa atividade messiânica, constituiu um discipulado, os doze, não, porém, entre seus irmãos de sangue; pois estes o acham extravagante, enquanto Jesus recusa suas prerrogativas parentais apontando como sua verdadeira família os fazedores da vontade do Pai. No meio do episódio dos parentes é inserida uma discussão com os escribas. Ao mesmo tempo que mostra a incompatibilidade de Jesus com as autoridades religiosas, esta inserção sugere, também, o quanto Jesus se afastou do “senso comum” de seus parentes, que não o entendem. A discussão trata do seguinte: Quando Jesus expulsa demônios, os escribas acusam-no de exorcizar pela própria força do demônio. A resposta de Jesus é significativa:

1. Um reino ou uma casa dividida contra si mesma, não fica em pé;

2. Para penetrar numa casa, o saqueador – Jesus – deve amarrar o valentão lá dentro – o demônio.

3. Quem não quer entender isso, a saber, que Jesus age com autoridade de Deus vencer o demônio, blasfema contra o Espírito de Deus, que age em Cristo de modo visível.

Devemos ter claro a pessoa e a missão de Jesus. Jesus não faz a sua reunião numa sinagoga. Ele se reúne com os seus em uma casa. Jesus veio para a multidão que está como “rebanho de ovelhas sem pastor” (Mc. 6,34), que Jesus, auxiliado pelos Apóstolos, deverá transformar em novo povo eleito, em nova família de Deus, em nova comunidade de santos. Não será o laço de parentesco, não será o sangue de raça que decidirá a entrada ou não entrada na nova família. Entrarão, na nova família, os que estão dispostos a “cumprir a vontade de Deus”.
A lição do Evangelho deste domingo é fácil. Todos nós experimentamos a fragmentação entre tempo de graça e tempo de maldade. Todos nós temos esta experiência. Muitos procuram explicações para o pecado, que marca profundamente a criatura humana. O Magistério da Igreja nos ensina que: “Sem o conhecimento que a Revelação nos dá de Deus não se pode reconhecer com clareza o pecado, sendo-se tentado a explicá-lo unicamente como uma falta de crescimento, como uma fraqueza psicológica, um erro, a conseqüência necessária de uma estrutura social inadequada” (cf. Catecismo da Igreja Católica n. 387).

O homem de dupla face: que são Paulo chama de carne/espírito, está presente  no Evangelho deste domingo. A luta entre o bem e o mal, que acompanha o ser humano desde o paraíso terrestre. A maior expressão do mal é o próprio demônio. Negar que Jesus tenha o poder de perdoar pecados, de expulsar os demônios e de vencer as forças do mal, negar-lhe o seu poder divino e redentor, opor-se à sua obra salvadora é “blasfemar contra o Espírito Santo”.

Os fariseus ensinavam que no mundo havia dois espíritos em luta para governá-lo: um o espírito do bem – que é Deus – e o outro o espírito do mal – o dem6onio – e que o espírito do  mal estaria governando. Mas chegaria um tempo em que o espírito do bem haveria de vencer e libertaria o mundo do mal. Assim o lindo e poético texto de Isaías: “Israel, meu eleito, derramarei água no solo árido e torrentes na terra seca; derramarei o meu espírito sobre a tua descendência e a minha bênção sobre a sua prole… e então um dirá: Eu pertenço ao Senhor; e o outro tatuará no braço: Sou do Senhor!” (Is. 44,2-5). O resultado do Espírito era a certeza da pertença e a fidelidade a toda prova ao Senhor.

O sonho do povo de Israel realiza-se: aí estava Jesus de Nazaré. Ele começara a sua vida pública exatamente com estas palavras: “O Espírito do Senhor está sobre mim, ele me ungiu para evangelizar os pobres e anunciar a libertação”(Lc 4,18). Seus gestos, seus sinais, suas palavras e doutrina se orientavam nessa direção. Curava os enfermos atacados pelas piores doenças, perdoava os pecados, expulsava os demônios. Essas obras “do espírito”os fariseus viam com os próprios olhos. Em vez de se abrirem à novidade divina, em vez de verem que era chegada a plenitude dos tempos, jogavam-lhe na cara que ele fazia essas obras pela força dos demônios. Aliás, como as obras de Jesus eram grandes, diziam que era pela força do chefe de todos os demônios que ele agia. Ao chefe dos demônios os fariseus chamavam com o nome de um deus cananeu: Belzebu, que significa o “deus do esterco”. Um ataque, portanto, violento e baixo a Jesus e as suas obras. Equiparar Deus ao Demônio é blasfêmia, porque atenta contra a santidade divina. A essa blasfêmia Jesus chama de “blasfêmia contra o Espírito Santo”.

Jesus nos chama a fazer parte da nova família de Deus, que ele mesmo fundou, não ligada pelos laços familiares, por maiores que fossem, que daria direito à pertença. Fazem parte da família de Deus, quem faz a vontade de Deus.

São Paulo (2Cor. 4,13-5,1) mostra a perspectiva escatológica do apostolado. Continuando o tema do dom passado, este trecho mostra a força do Espírito da fé, a força carismática, leva o apóstolo a testemunhar a sua fé, sustentada pela esperança do encontro escatológico com Cristo.

A existência cristã começa com a vitória radical sobre o mal e sobre satanás, no batismo. A vitória de Cristo pelos sacramentos nos anima sempre, em nossa vida, a ser toda a vida, como a de Cristo, de uma luta, um duelo com o mal e as potências do maligno.

Cristo vence o pecado! Cristo vence o demônio! Cristo inaugura um novo tempo da graça e da salvação. Assim vivamos a nossa vida renunciando sempre o pecado, fugindo as tentações do demônio, e procurando a via ordinária da santidade que brota do Redentor!

padre Wagner Augusto Portugal

 

 

Iniciamos a segunda parte do tempo comum, este tempo é dedicado aos feitos de Jesus e seus ensinamentos, também neste período a Igreja dedica aos santos em suas festas e datas comemorativas é o tempo de penetrarmos nos ensinamentos de Jesus e vivermos a realidade do evangelho em suas pregações.

Vemos na primeira leitura o pecado que entra na humanidade e desfigura os homens de sua semelhança com o Criador. O homem perde a pureza, perde a relação de amizade com seu Senhor e tudo por causa da soberba que foi instigada por Satanás. 

É bom vermos que Deus criou o ser humano perfeito e que o pecado entrou na humanidade por uma permissão do homem que quis ser igual a Deus, mas vemos nessa leitura o que a Igreja chama de “proto evangelho”, quando Deus diz: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela”. Neste texto Deus promete que na descendência da mulher virá alguém que destruirá o mal – Jesus – Esse mal que tanto destruiu e causou, como ainda causa, um grande desastre aos seus filhos. Mas seus dias estão contado, a partir do pecado de nossos primeiros pais, os dias do inimigo está contado e Deus vai destruí-lo passo a passo, afinal Satanás é o inimigo de Deus.

Assim na segunda leitura somos orientados que nada se compara com aquilo que não vemos, mas já experimentamos neste mundo e que de forma plena se realizará na eternidade. Colocar sua vida a mercê do Senhor é seguir seu caminho o que muitas vezes resulta em perseguições, incompreensões, calúnias e tantas outras formas de dificuldade, mas o que olhamos e vemos não está aqui neste mundo e neste plano de vida, mas na eternidade, “Com efeito, o volume insignificante de uma tribulação momentânea acarreta para nós uma glória eterna e incomensurável”. É o que olhamos e esperamos e é o Espírito Santo que nos revela tudo o que podemos ter na eternidade e quanto mais nos aproximarmos de Deus e caminharmos na vida no Espírito mais teremos em nós a claridade do que nos espera na eternidade feliz. Santa Rosa de Lima dizia que se soubéssemos o que nos espera nos céu desejaríamos todo sofrimento na terra. Somente os santos podem ver e perceber a realidade do Céu e sabemos que o Reino de Deus começa aqui, então vamos nos esforçar para viver um pouco da eternidade no dia a dia de nossa vida afinal a eternidade é este instante de nossa vida. Viver o eterno é viver intensamente o momento presente com toda intensidade em Deus no poder de seu Espírito.

Jesus se coloca como alguém que tem pressa, não pode parar tem que anunciar o evangelho essa disposição de Jesus leva seus parentes pensar que Ele estava louco (fora de si). Tentam ver Ele como obra do Demônio, querem de toda forma não dar o crédito do que Ele estava realizando buscando escapar de um confronto com a verdade e ter que mudar de vida. Por isso que Jesus vai dizer que todo aquele que pecar contra o Espírito santo não será perdoado, isto é, todo aquele que, de forma consciente, fechar seu coração ao amor e fizer uma opção radical pelo mal estará condenado.  Veja bem Jesus nos convida a uma mudança de vida e buscarmos as coisas do alto muito mais que as da terra e se buscamos as coisas deste mundo é para nos levar a atingir as coisas do alto, portanto nada nos importa senão a Glória em Deus. Vamos mudar vamos nos dar a conhecer a Deus de forma que Ele possa realizar em nós uma vida nova, nem que tenhamos que parecer diante da sociedade como um louco, como alguém diferente, mas que sejamos do Senhor e tenhamos a presa d’Ele de evangelizar, de falar de Seu amor de podermos levar outros irmãos ao encontro pessoal com Deus. Não paremos, não descansemos, vamos ser arauto do evangelho, outros tantos precisam de Deus, temos que falar d’Ele. Não pare. Viva uma vida em Deus. Experimente este amor benevolente “E tudo isso é por causa de vós, para que a abundância da graça em um número maior de pessoas faça crescer a ação de graças para a glória de Deus. Por isso, não desanimamos. Mesmo se o nosso homem exterior se vai arruinando, o nosso homem interior, pelo contrário, vai-se renovando, dia a dia”.

Renove-se hoje, agora, não perca tempo. Nada, Nada vale mais que uma eternidade feliz.

Antonio ComDeus

 

 

ESCUTAR

“A mulher que tu me deste por companheira, foi ela que me deu o fruto da árvore, e eu comi” (Gn. 3,12).

“Por isso, não desanimamos. Mesmo se o nosso homem exterior se vai arruinando, o nosso homem interior, pelo contrário, vai-se renovando dia a dia” (2Cor. 4,16).

“Os parentes de Jesus saíram para agarrá-lo, porque diziam que estava fora de si” (Mc. 3,21).

 

MEDITAR

Homens políticos, homens de Igreja ou cidadãos comuns, estamos sempre repetindo as mesmas falas, sempre moendo a mesma farinha. Trata-se de falta de fé no desconhecido, no incognoscível. Não caminhamos em direção ao novo. Repetimos a mesma ladainha (...). Mas seria isso fé na vida, no sentido de que, de qualquer forma, ela é sempre risco e exige audácia? Não seria antes uma certeza, uma segurança que adormece a vida em insignificância e irresponsabilidade? (Françoise Dolto).

Ser cristão não é simplesmente se esforçar para imprimir à sua vida um sentido humanista, social ou mesmo religioso. Somente é cristão o homem que tenta viver a partir do Cristo a dimensão humana, social e religiosa da sua existência (Hans Kung).

 

ORAR

Nossos mecanismos de fuga são revelados. Adão responde: “A mulher que me deste” e Eva afirma “A serpente me enganou”. Desta forma, inicia-se o ciclo das culpabilidades que percorrem nossa travessia: transferências, projeções e uma enxurrada acusatória e impiedosa. Tudo é culpa de alguém e somos todos vítimas indefesas. A vida é madrasta e por isso cabe a nós a vitimização das nossas “pessoinhas”, para que nos escondamos por detrás das culpas dos outros. “Onde estás?” É a indagação simples que devemos aprender para que possamos nos apresentar na verdade/nudez do nosso ser, sem subterfúgios e ridículas justificativas. No evangelho, Jesus é apresentado como desequilibrado, fora de si. E “fora de si” significa dizer que Jesus está fora “deles”, dos seus modelos, previsões, seguranças e costumes. É necessário construir uma ética do amor distante da atitude tomada pelos parentes de Jesus: a defesa de seus próprios interesses, esquemas e rotinas. Muitas vezes não nos dispomos a “estar fora” das modas, das ideologias, da competição e das vaidades. Desejamos “estar dentro” do poder, dos negócios, da carreira, dos privilégios, da popularidade e do espetáculo que está na moda. E, no entanto, a loucura evangélica deveria ser a enfermidade hereditária, contagiosa da “nova família” do Cristo: “Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”. Loucura das loucuras! A blasfêmia contra o Espírito Santo é a pretensão de seguir a Cristo “sem perder a cabeça” (Cura d’Ars). É recusar a loucura do amor, o componente essencial da santidade a que somos chamados.  Amar demais é impossível. Cada um recebe o que precisa e o resto se espalha pelo mundo. O pecado sem perdão é a presunção de querer mudar o mundo sem ser sinal de contradição e colocando o Espírito sob liberdade vigiada. Não foram os grandes pecadores que assassinaram Jesus, mas pessoas medíocres, míopes guardiões dos dogmatismos e intolerâncias. Vivemos imersos em mundos e igrejas onde existe a rasura da iniquidade, da negação da verdade e do amor. Mais do que nunca, devemos proclamar que fora da loucura não há salvação!

mano da terna solidão

 

 

 

As leituras de hoje levam-nos a refletir sobre a nossa condição humana, inevitavelmente frágil pela sua criaturidade necessariamente limitada e isso em todas as nossas dimensões físicas, intelectuais e morais. Na verdade só Deus é perfeito. As leituras de hoje, ao mesmo tempo em que apontam para a nossa fraqueza estrutural, o fazem também para a misericórdia de Deus sempre pronto a nos socorrer. Na primeira leitura essa prontidão divina se mostra na procura ansiosa de Deus por Adão, escondido e envergonhado no bosque paradisíaco. Onde estás? Essa pergunta repete-se a cada vez que tentamos esconder-nos do olhar divino. Na 2ª carta de Paulo aos coríntios, estribado na sua própria experiência pessoal, ele garante-nos: ainda que exteriormente se desconjunte o nosso homem exterior, o nosso interior se renova de dia para dia. No evangelho de Marcos fica claro que Deus acolhe o pecador arrependido. Só não encontra o perdão o pecador que não quiser recebê-lo. Exatamente nisso consiste o pecado contra o Espírito Santo.

 

Gênesis 3, 9-15

Os homens desde os tempos mais antigos até hoje buscam uma explicação sobre as suas origens, sobre o seu destino final e sobre as suas angústias e dramas de consciência. Hoje a ciência, a filosofia, a História e, principalmente a teologia e, dentro dela a exegese bíblica, ajudam-nos a encontrar uma resposta, embora relativa. No passado mais distante os mitos ensaiavam uma resposta para a angústia do homem. O mito da criação do homem e da mulher, do pecado de Adão e Eva e da vergonha deles diante de Deus, apesar de serem mitos, não deixam de apontar para a grande verdade do homem: somos criaturas frágeis e pecadoras, mas podemos contar com o carinho de Deus que não nos abandona a nós mesmos, mas está sempre à nossa procura: Onde estás?

 

2 Coríntios, 4, 13-5,1

Paulo era um intelectual, conhecedor  profundo da tradição e das Escrituras hebraicas assim como da cultura grega, mas não se valeu apenas dessa dupla competência para encontrar uma resposta adequada para os seus problemas e dúvidas existenciais. Todos os seus problemas e dúvidas existenciais ele os resolveu no Caminho de Damasco ao ser interpelado pelo próprio Jesus: Saulo, Saulo, por que me persegues? É isso que Paulo deixa entender ao escrever aos seus irmãos de Corinto: Pois sabemos que Aquele que ressuscitou o senhor Jesus nos ressuscitará também a nós com Jesus e nos fará comparecer diante dele convosco. Paulo, antes da sua conversão assemelhava-se a Adão e Eva que diante da pergunta de Deus: Terias tu, porventura, comido da fruta da árvore que eu te havia proibido de comer? não sabiam o que responder. Depois da sua conversão, Paulo sabe que: a nossa presente tribulação, momentânea e ligeira, nos proporciona um peso eterno de glória incomensurável.

 

Marcos, 3, 30-35

Segundo a narrativa de Marcos, podemos perceber que desde o início da sua pregação sobre a proximidade do Reino de Deus, ao mesmo tempo em que uma multidão de gente, na maioria de pobres e enfermos, o assediava, havia os descontentes que o perseguiam. Entre eles estava a sua própria parentela que pretendia prendê-lo por achar que ele estava fora de si. Ao lado dela estavam também os escribas que atribuíam os milagres de Jesus a Belzebu, ou seja, ao príncipe dos demônios. Na cultura da época o mundo era visto como uma arena onde se digladiavam Deus e os demônios. Quem não fosse de Deus, certamente era parceiro dos demônios. Por que essa cisão, inclusive dentro da família de Jesus, que não era apenas formada por Jesus, Maria e José, mas por toda uma rede patriarcal de parentes e os escribas, os donos da religião na Galiléia? A resposta é uma só: a prioridade de Jesus não era nem a sua família nem a sinagoga dos escribas, mas os pobres e os enfermos!

padre José

 

 

A consanguinidade sobrenatural

Ser parente do Messias seria, pelos nossos critérios, uma honra igualável. Para o Filho de Deus, ao contrário, mais importante fazer a vontade do Pai Celeste do que ser parte de sua genealogia humana.

I - OS SEGREDOS DA VIDA OCULTA DE JESUS

Ao meditarmos nos mistérios da vida de Nosso Senhor, nossa imaginação é solicitada de modo especial quando nos detemos nos anos transcorridos no apagamento Nazaré, a contemplar aqueles caminhos que em tantas ocasiões Ele percorreu; aquele panorama com o Monte Tabor ao fundo e a planície que avança até o mar, inúmeras vezes por Ele divisado; aquela casa na qual Ele habitou desde o momento em que retornou do Egito, tão humilde, porém quão impregnada presença sobrenatural... Ali Ele viveu numa atmosfera de pobreza e esquecimento, mas de grandeza; de amor, de paz, de um descanso suave, e ao mesmo tempo de trabalho intenso. Ali Ele “crescia em estatura, em sabedoria e graça, diante de Deus e dos homens” (Lc. 2, 52), sendo preparado por uma ação divina para sua grande missão.

Um véu cobria Jesus aos olhos dos seus

Como se pode explicar que em Nazaré o Homem-Deus passasse despercebido? Como parentes, vizinhos e amigos não vislumbraram em Jesus a divindade? Como não viram n’Ele, pelo menos, o Messias? O plano divino, por uma alta sabedoria, exigia que Nosso Senhor atravessasse esse longo espaço de trinta anos sem Se distinguir, aos olhos dos seus, do jovem comum: honrando o trabalho, exaltando a humildade, dando-nos exemplo em tudo. A Providência queria — além de uma glória completa para o Filho de Deus Encarnado — conferir maior mérito a Maria Santíssima e submeter todos aqueles que com Ele conviviam a uma prova: a do esforço e da delicadeza de atenção para descobrir que em Jesus havia algo de mais importante em relação a qualquer outro homem. Para isso, lançou Deus um véu sobre suas qualidades humanas e sobre sua natureza divina.

Mas Ele causava admiração

Houve, sem dúvida, os que corresponderam a este convite. Se Ele assombrou os próprios doutores no Templo, aos 12 anos, não causaria admiração nas pessoas que O conheciam? Não é de se conceber que alguns companheiros de infância, familiares educados com Ele, ou adultos que privassem com Nossa Senhora e São José, não tivessem descerrado um tanto esse véu e se tenham dado conta, em algo, de quem era Ele. Para estes - uns mais e outros menos —, é provável que Jesus deixasse transparecer alguns reflexos da sua misteriosa divindade, incompreensível à razão humana.

Quão diferente terá sido para aqueles - decerto a maioria — que por infidelidade sempre consideraram Jesus como sendo apenas um deles, “o carpinteiro, o filho de Maria, o irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão” (Mc. 6,3). Assueta vilescunt... A natureza humana, infelizmente, habitua-se a tudo e, na rotina, até as coisas mais extraordinárias se tornam vulgares.

Quais teriam sido as reações de uns e de outros, chegada a hora de Nosso Senhor partir de Nazaré para dar início a sua vida pública? Era o Homem-Deus que ouvia os gemidos da História e abria seus braços com amor para abarcar as misérias, não só daqueles, mas de todo o gênero humano. Diante desta grandiosa manifestação de benquerença, se tornaria patente o valor de os familiares e próximos de Jesus de Nazaré terem vencido aquela prova que Deus lhes mandou, trazendo um inestimável ensinamento para todos nós, como poderemos constatar no Evangelho do 10º Domingo do Tempo Comum.

II - VER NO FILHO DE DEUS APENAS O FILHO DO HOMEM

Naquele tempo, 20a Jesus voltou para casa com os seus discípulos.

De onde “voltou para casa” o Divino Mestre com seus discípulos? Da montanha, depois de haver escolhido os doze Apóstolos (cf. Mc. 3,13-19). Para estes se compenetrarem da nova situação e da responsabilidade inerente à eleição de que tinham sido objeto, Jesus fez com que, no contato com o público, comprovassem a mudança ocorrida em suas vidas: “O Senhor reconduz para casa os Apóstolos por Ele eleitos na montanha, como para adverti-los de que, depois de terem recebido a dignidade do apostolado, deviam tomar consciência de sua missão” (1)

Jesus estava em Cafarnaum, provavelmente na casa onde curara a sogra de Pedro (cf. Mc. 1,29-31; Lc. 4,38-39). Por ser local já conhecido, pelos muitos milagres ali operados, as pessoas começavam a se aglomerar ali antes do amanhecer, desejosas de ver o Messias.

Evangelizar pressupõe esquecer-se de si

20b E de novo se reuniu tanta gente que eles nem sequer podiam comer.

Diferentemente de nossos dias, naquele tempo as refeições eram realizadas a portas abertas. Isto tem sua razão de ser, uma vez que a alimentação é um momento propício para a conversa e o relacionamento social. Também Nosso Senhor Se conformou a este uso, como no banquete em casa de Simão, o fariseu, no qual entrou uma pecadora arrependida e Lhe lavou os pés com suas lágrimas (cf. Le. 7,36-38).

No episódio aqui narrado, Jesus tinha diante de Si uma multidão que ansiava por conviver com Ele e haurir seus ensinamentos, pois O estimava e se encantava com sua presença. Porém, havia ainda os que lá iam por egoísmo, interessados tão só em obter a cura de alguma doença ou outros benefícios. No entanto, apesar do costume das portas abertas, era completamente inusitado tanto alvoroço e tamanha afluência de gente, que abarrotava a sala e chegava até o divã em que Jesus tornava a refeição. E de se imaginar que, ao estender a mão para apanhar, quiçá, um cacho de uvas, aproximava-se um cego, tocava impetuosamente em seu braço e, de imediato, recuperava a vista; em seguida cedia o lugar a um surdo que suplicava lhe fosse restabelecida a audição... E assim, grande quantidade de doentes entrava e saía, a ponto de o Mestre e os discípulos ficarem impedidos de comer. Os Apóstolos estavam experimentando, naquela ocasião, o ônus que lhes fora confiado no alto da montanha.

O egoísta julga insensata a Sabedoria

21 Quando souberam disso, os parentes de Jesus saíram para agarrá-Los porque diziam que estava fora de Si.

Os sinais e a palavra do Redentor difundiram sua fama por toda a região. E, como era de se esperar, começaram a circular boatos, às vezes os mais desencontrados e exagerados possíveis. Nessas circunstâncias, este versículo relata algo dramático: determinados parentes de Jesus, daqueles que em nada atinaram para a grandeza d’Ele, começaram a tê-Lo por desvairado. Ao contrário dos dias atuais, naquele tempo o senso familiar era fortíssimo, o que é uma coisa sadia. As famílias, bem constituídas e muito unidas, formavam verdadeiros batalhões, tão coesos que a ação de um dos membros repercutia em todo o conjunto. Era incalculável a alegria e a honra de ser parente próximo do Messias! Mas alguns se reuniram para comentar o que se dizia d’Ele, de sua doutrina e milagres. Tinham-No visto crescer em Nazaré, onde não frequentara a escola de nenhum mestre, e de repente têm notícia de quanto suas pregações arrebatam multidões. Onde teria Ele aprendido tudo isso? Como não compreendiam o que se passava, indispuseram-se contra Ele. Julgaram-No talvez ridículo e receavam que suas atitudes manchassem o nome de sua estirpe. Temiam inclusive a má repercussão junto às autoridades, pois Jesus poderia ser considerado — como de fato o foi depois — um rebelde. Já haviam surgido antes revolucionários, desejosos de liderar um movimento para libertar Israel do jugo romano e de seus impostos, que fracassaram em seu intento. Poderiam pensar tais parentes ser este também o intuito de Nosso Senhor. E, por muitos prodígios que fizesse, estaria fadado à ruína por insuficiência de meios. No fundo, como Ele vinha contradizendo os costumes mundanos e estava empenhado numa missão diferente de tudo quanto era tido por normal, não O aceitavam e pretendiam tratá-Lo como um louco.

É de se notar, em sentido inverso, como estes mesmos familiares que agora buscam afastá-Lo do apostolado por acharem que este depõe contra sua reputação, mais tarde, constatando sucesso de Nosso Senhor, pedir-Lhe-ão para Se manifestar na Judeia (cf. Jo 7,3-5), certamente para que o sumo pontífice e o Sinédrio vissem a importância da família que tinha em seu seio tal profeta taumaturgo. Subindo Jesus na escala social, elevaria todos os seus... Ora, que Ele não houvesse sido admirado pela maioria em sua cidade, Nazaré, já é difícil entender; todavia, que diante das maravilhas que se seguiram ao início de sua vida pública não O aceitassem é inconcebível! “Veio para o que era seu, mas os seus não O receberam” (Jo 1,11)...

Com frequência, quem ousa se opor ao mundo não é compreendido e pode ser rejeitado e perseguido até por sua família, quando esta quer os seus membros para si e não para Deus, de quem os recebeu para depois Lhe serem restituídos... Trata-se de uma apropriação injusta de algo pertencente ao Criador. A vocação significa o selo divino cobrando o que, de iure, é seu. Por isso, é das piores, na face da Terra, a maldição contra os pais que desviam os filhos do chamado religioso! Roubar algo a um pobre acarreta um castigo menor do que arrancar de Deus a pessoa designada por Ele para seu serviço. Quantas vezes presenciamos isso na história! O pai do grande são Francisco de Assis, Pedro Bernardone, por exemplo, em certo momento o deserdou e lhe retirou todos os bens, até a própria roupa do corpo, por não aceitar a vida virtuosa do filho. E a mãe e os irmãos de São Tomás de Aquino prenderam-no numa torre, para impedi-lo de se tornar frade dominicano. Este é o problema da família que não está constituída com vistas ao amor a Deus, cujos membros procuram tirá-Lo do trono que Lhe pertence, a fim de que os acontecimentos gravitem em torno de cada um.

A afeição dos familiares de Nosso Senhor por Ele é tipicamente a do egoísta; conclui-se daí que todos os egoístas são parentes daqueles parentes de Jesus. Como eles, também nós, se procuramos nos colocar sempre no centro de tudo, consideraremos insensatez as obras de Deus e exageradas as exigências da Religião. Eis uma importante lição desta Liturgia: devemos evitar tal delírio, tomando enorme cuidado com a sede de elogios e o desejo de chamar a atenção sobre nós, para que os outros nos adorem. Saiamos de nós mesmos e seja a glória de Deus o eixo de nossa existência!

Por inveja, uma acusação contraditória

22 Os mestres da Lei, que tinham vindo de Jerusalém, diziam que Ele estava possuído por Belzebu, e que pelo príncipe dos demônios Ele expulsava os demônios.

Homens sem fé, os mestres da Lei mencionados neste versículo foram incapazes de compreender quem era Jesus. Expulsava demônios, curava todo tipo de doenças e ressuscitava mortos, causando-lhes inveja, pois eles iam de ter igual poder; mas, como não o possuíam, receavam perder a posição privilegiada da qual desfrutavam naquela sociedade. Começaram, então, com supino mau espírito, a atribuir o império do Salvador sobre os demônios a um conchavo com Belzebu.

Jesus ridiculariza seus inimigos

23 Então Jesus os chamou e falou-lhes em parábolas: “Como é que satanás pode expulsar a satanás? 24 Se um reino se divide contra si mesmo, ele não poderá manter-se. 25 Se uma família se divide contra si mesma, ela não poderá manter-se. 26 Assim, se satanás se levanta contra si mesmo e se divide, não poderá sobreviver, mas será destruído”.

A resposta de Nosso Senhor visava mostrar quão infundada era a acusação levantada contra Ele. Se dois exércitos travam batalha, o general de um dos lados mandaria seus soldados combater os próprios companheiros no teatro de guerra? Este seria, sem dúvida, derrotado! Se realmente Jesus estivesse agindo por obra de Belzebu para expulsar os demônios, significaria estar o inferno em “guerra civil”, em consequência da qual os demônios em breve se destroçariam. Ora, quando numa cidade os habitantes se digladiam entre si, o inimigo externo pode dispensar o envio de homens de armas para atacá-la, porquanto eia acabará por se destruir. Qualquer estrategista deixará livre curso a essas lutas intestinas, para só depois subjugar os sobreviventes. Portanto, os sinedritas não deveriam se preocupar, pois toda a obra de Nosso Senhor soçobraria sem demora. Por que haveriam de estar aflitos? A este respeito diz São João Crisóstomo: ‘Vede quanto ridículo há na acusação, quanta estupidez, quanta íntima contradição! Porque é contradição dizer, primeiro, que satanás está firme e expulsa os demônios, e logo acrescentar que está firme justamente pelo que devia perecer” (2)

 

27 “Ninguém pode entrar na casa de um homem forte para roubar seus bens, sem antes o amarrar. Só depois poderá saquear sua casa”.

Esta imagem deixava ainda mais evidente a incoerência dos mestres da Lei. Todos sabiam perfeitamente que para se roubar uma casa é preciso antes imobilizar o dono. Então, seria verossímil que, segundo diziam os escribas e fariseus, Jesus repelisse os espíritos maus pelo poder de Belzebu, seu príncipe, e, em combinação com ele, arruinasse seus subalternos? “Vede como” — observa o mesmo Crisóstomo — “o Senhor demonstra o contrário daquilo que seus inimigos tentavam afirmar. [...] Ele mantinha atado com absoluta autoridade não só os demônios, como também seu próprio capitão” (3). Mais uma vez, com uma simples parábola, o Divino Mestre desmascarava seus adversários.

Gravidade do pecado contra o Espírito Santo

28 “Em verdade vos digo: tudo será perdoado aos homens, tanto os pecados, como qualquer blasfêmia que tiverem dito. 29 Mas quem blasfemar contra o Espírito Santo, nunca será perdoado, mas será culpado de um pecado eterno”. 30 Jesus falou isso, porque diziam: “Ele está possuído por um espírito mau”.

Tornando mais grave sua argumentação, Nosso Senhor acrescenta que, ao fazer esta acusação, eles incorriam em pecado contra o Espírito Santo, para o qual não há perdão. Entretanto, se Jesus Cristo veio ao mundo para resgatar os pecadores, como explicar que existam faltas irremissíveis?

A primeira exigência para obter o perdão é que Deus, sendo o ofendido, o queira dar; e Ele o quer, a ponto de estar constantemente com as mãos estendidas para nos acolher. Não obstante, outra condição essencial para ser absolvido é o reconhecimento do erro, seguido da dor de o ter cometido, pois sem ela tal ato perde o sentido. A impenitência final “exclui os meios que levam à remissão dos pecados”,4 e o pecador acabará, no fundo, atribuindo sua falha ao próprio Deus. Esta atitude “é o espírito de blasfêmia, que não se perdoa nem neste século nem no futuro. [...]

Embora a paciência de Deus convide à penitência, pela dureza de coração, por seu coração impenitente, [o pecador] acumula ira para o dia da cólera e da revelação do justo Juízo de Deus, o qual pagará a cada um conforme suas obras”. 5

Haveriam de ser perdoados estes escribas e fariseus, cuja maldade chegava a tal extremo? Depois de testemunharem a cura de cegos, leprosos e paralíticos, bem como a expulsão dos mais terríveis demônios — obras todas indiscutivelmente messiânicas —, negavam a verdade conhecida como tal ao ficar com ódio e desejo de matar Jesus, declarando que agia em função do príncipe das trevas. E depois de serem vencidos em todas as ciladas que tramaram contra o Divino Mestre, ainda não admitiam seu desatino, mas, pretendendo-se detentores da razão, caíam em impenitência e obstinação. Por fim, cheios de perfídia, eles rejeitavam os carismas de Nosso Senhor, a atuação do Espírito Santo através da sua humanidade santíssima e, por inveja da graça fraterna, desprezavam os benefícios que Ele derramava às torrentes por onde passava.

Cabe-nos, em relação à ação do Espírito Santo, ser totalmente flexíveis, sem a menor sombra de inveja. Devemos, então, alegrar-nos com os benefícios concedidos a outrem, “para que a abundância da graça em um número maior de pessoas faça crescer a ação de graças para a glória de Deus” (2Cor. 4,15), como nos ensina São Paulo na segunda leitura (2Cor. 4,13-18 - 5,1). Se a nós o Senhor deu pouco ou muito, é desígnio d’Ele. O importante é cada um receber tudo quanto está destinado por Deus para a sua maior glória. Ao vermos alguém favorecido com um dom que não temos, seja natural ou sobrenatural, se admirarmos a obra de Deus naquela alma, progrediremos na vida espiritual. Se, pelo contrário, procedermos à maneira daqueles familiares de Jesus ou dos fariseus, afundaremos como eles.

Maria Se apresenta para enfrentar os parentes

31 Nisso chegaram sua Mãe e seus irmãos. Eles ficaram do lado de fora e mandaram chamá-Lo. 32 Havia uma multidão sentada ao redor d’Ele. Então Lhe disseram: ‘Tua Mãe e teus irmãos estão lá fora à tua procura”.

Conforme comentam certos Padres da Igreja, Nossa Senhora, sabendo que alguns planejavam fazer mal a Jesus, apresentou-Se para enfrentá-los: “Como os que estavam próximos do Senhor iam apoderar-se d’Ele por julgá-Lo louco, eis que acorreu sua Mãe, movida por um sentimento de amor e piedade”.6 Bonita interpretação, que mostra a combatividade de Maria, aspecto frequentemente esquecido. Junto com Ela estavam os “irmãos”, termo que, na linguagem bíblica, designava os parentes em geral, como primos e tios.

Tão coesa era a muralha humana formada ao redor de Nosso Senhor, que impedia Nossa Senhora e seus acompanhantes de entrarem na casa e se aproximarem d’Ele. Os presentes, de acordo com o arraigado conceito familiar da época, consideravam a maternidade como algo supremo e, por isso, avisaram Jesus da chegada de sua Mãe, julgando normal interromper a pregação para atendê-La.

As relações sobrenaturais, muita mais fortes que as do sangue

33 Ele respondeu: “Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos?” 34 E olhando para os que estavam sentados ao seu redor, disse: “Aqui estão minha mãe e meus irmãos.  Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”.

Cristo, todavia, aproveitou a ocasião para contrariar a tendência do povo judeu a um excessivo apreço à família. Se Ele, levantando-Se, fosse ao encontro de sua Mãe e de seus irmãos, respaldaria e solidificaria este afã... Em vez disto. sua resposta deixa clara a superioridade da relação espiritual sobre a natural. Prezam-se tanto os vínculos do sangue! Sem dúvida têm seu peso, mas não constituem o essencial e só adquirem sentido se considerados em função de Deus. Enquanto os laços humanos abrangem pequena quantidade de membros, os sobrenaturais incluem irmãos numerosos “como as estrelas do céu, e como a areia na praia do mar” (Gn. 22,17). Aplica-se, neste caso, o belo princípio de São Tomás: “os bens espirituais podem ser possuídos ao mesmo tempo por muitos, não, porém, os bens corporais” (7).

O Filho de Deus veio exatamente para nos tornar participantes da sua família, de forma a sermos seus irmãos e filhos, num imbricamento com Ele muito mais estreito do que o originado no sangue. “Não há senão um parentesco legítimo, o qual consiste em fazer a vontade de Deus. E este é um modo de parentesco melhor e mais importante que o da carne” (8). Assim, o Divino Mestre olhou para os mais fervorosos, isto é, aqueles que procuravam aproximar-se d’Ele com o desejo de ouvi-Lo e de ser por Ele instruídos, que estavam, portanto, com predisposição para aceitar e abraçar seus ensinamentos, e afirmou: “Aqui estão minha mãe e meus irmãos. Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”. Incomparavelmente mais do que a qualquer pessoa na Terra, por muito que a esta devamos, precisamos ser gratos a Deus, abandonar-nos em suas mãos e obedecer-Lhe, pois fomos por Ele criados. Ele enviou seu Filho para nos redimir, a fim de que tenhamos a vida — a própria vida de Deus! — e a tenhamos em abundância (cf. J0 10,1O).

Por tal motivo, o Menino Jesus, aos 12 anos de idade, quando após três dias de busca foi encontrado por Nossa Senhora e são José no Templo ouvindo e interrogando os doutores da Lei, declarou: “Não sabíeis que devo ocupar-Me das coisas de meu Pai?” (Lc. 2,49). Suas palavras nos recordam que nossa filiação primeira é a divina, e só em segundo plano havemos de considerar a do sangue. Ao ser concebida, a criança encontra-se numa total sujeição aos pais e vai aos poucos crescendo, ainda amparada, orientada e governada por eles, até se tornar independente. No campo sobrenatural ocorre o oposto: a partir do nascimento, isto é, do Batismo, o relacionamento com Deus e a dependência d’Ele vão aumentando, e atingem o seu grau máximo quando a alma chega à visão beatífica. Permanece, então, numa inteira e completa familiaridade com o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Um altíssimo elogio à sua Mãe Santíssima

Longe de desprezar Nossa Senhora — o que seria impensável! — Jesus Lhe dirigia o maior elogio possível, pois afirmava ser Ela mais sua Mãe por fazer a vontade de Deus do que por Lhe ter transmitido a vida humana. “Não fala assim para negar sua Mãe, mas para manifestar ser Ela digna de honra não só pelo fato de haver engendrado Cristo, como também por todas suas virtudes”.9 Ao longo de cerca de trinta anos de convívio com seu Filho, Maria foi perfeitíssima na realização da vontade d’Ele, guardando todas as coisas no seu coração (cf. Lc. 2,51). Porque acreditava que Jesus era a Verdade, a Virgem Santíssima — em contraste com aqueles que O julgavam louco — Se conservava sempre numa postura de submissão a Ele, mesmo em face daquilo que não entendia.

III - SEJAMOS FAMILIARES DE JESUS, COMO O FORAM MARIA E JOSÉ

A Liturgia de hoje é de uma importância fundamental para compreendermos o valor desta “consanguinidade espiritual” com Nosso Senhor Jesus Cristo, à qual jamais podemos renunciar. Quantas vezes, infelizmente, nos comportamos de modo egoísta, nos colocamos no centro de tudo e cometemos uma falta! Fazer a vontade de Deus significa sermos retíssimos e íntegros, sob todos os pontos de vista, à semelhança da Mãe de Jesus.

Para isso precisamos admitir nossa debilidade, cientes de que, conforme nos ensina o Divino Mestre, a podridão nasce dentro do homem (cf. Mc 7,21-23). Devemos, isto sim, nos surpreender quando praticamos um ato bom, reconhecendo que este provém da filiação espiritual que Ele nos concedeu pela graça. Se os fariseus sentissem a miséria que tisnava seu interior, talvez tivessem olhado para Nosso Senhor com despretensão e acolhessem em sua alma a salvação. No Céu estão, de fato, não apenas os inocentíssimos, mas também São Dimas — o bom ladrão, canonizado em vida pelo Redentor (cf. Lc 23, 43) —, Santo Agostinho, Santa Maria Madalena... e tantos outros que se confessaram culpados e obtiveram perdão. Em sentido oposto, no inferno padecem todos os pecadores que, por orgulho, persistiram no erro. Eis o grande problema da natureza humana de caída.

Peçamos a Maria Santíssima o dom extraordinário da humildade, para nos serem abertas as portas da eterna bem-aventurança e chegarmos à plenitude da familiaridade com Nosso Senhor Jesus Cristo!

mons. João Clá Dias, EP

1) SÃO BEDA. In Marci Evangelium Expositio. L.I, c.3: ML 92, 162.

2) SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Homilía XLI, nl. In: Obras. Homilías sobre el Evangelio de San Mateo (1-45). 2.ed. Madrid: BAC, 2007, v.I, p.795.

3) Idem, n.2, p.799.

4) SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. I-II, q.14, a.3.

5) SANTO AGOSTINHO. Sermo LXXI, n.20. In: Obras. Madrid: BAC, 1983, v.X, p.326.

6) TEOFILATO, apud SÃO TOMÁS DE AQUINO. Catena Aurea. In Marcum, c.III, v.31-35

7) SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. III, q.23, a.1, ad 3.

8) SAO JOAO CRISÓSTOMO. Homilía XLIV, nl. In: Obras. Homilías sobre el Evangelio de San Mateo (1-45), op. cit., p.841.

9) TEOFILATO, op. cit.

 

 

É fundamental acolher a palavra de Jesus e não se entregar à tentação da calúnia. Acolher a palavra de Jesus torna-nos irmãos entre nós, faz-nos família de Jesus. Falar mal dos outros, destruir a fama dos outros, faz-nos a família do diabo.

É importante estar atentos à semente do mal da inveja que pode surgir no interior da pessoa. Se examinando a nossa consciência descobrimos que esta semente do mal está a germinar dentro de nós, devemos ir rapidamente confessá-la no sacramento da Penitência, antes que se desenvolva e produza os seus efeitos malignos. Estejamos atentos, porque esta atitude do mal da inveja destrói as famílias, as amizades, a comunidade e, por último, a sociedade.

Os ataques dos escribas a Jesus, que o acusavam de endemoninhado, eram por causa da inveja que tinham relativamente a Jesus. Pode acontecer que uma forte inveja pela bondade e pelas boas obras de uma pessoa possa levar a acusá-la falsamente. Aqui há um veneno mortal: a maldade com a qual, de forma premeditada, se quer destruir a boa fama do outro. Deus nos livre desta terrível tentação!

Os escribas eram homens instruídos nas Sagradas Escrituras e encarregados de explicá-las ao povo. Alguns deles foram enviados de Jerusalém à Galileia, onde a fama de Jesus começava a difundir-se, para desacreditar o Senhor diante dos olhos das pessoas. Esses escribas chegaram com uma acusação concreta e terrível: “Está possuído por Belzebu e, pelo príncipe dos demónios, expulsa os demónios” De facto, Jesus curava muitos doentes e eles queriam fazer crer que o fazia não com o Espírito de Deus, mas com o espírito do maligno, com a força do diabo.

Diante das acusações dos escribas, Jesus reage com palavras fortes e claras. Não tolera isso porque aqueles escribas, talvez sem saber, estavam a cair no pecado mais grave: negar e blasfemar contra o Amor de Deus que está presente e a actua em Jesus. É o pecado contra o Espírito Santo, único pecado imperdoável, porque parte de um fechamento do coração à misericórdia de Deus que age em Jesus.

O Evangelho deste Domingo apresenta também a incompreensão dos parentes de Jesus, que estavam preocupados porque a sua nova vida itinerante parecia-lhes uma loucura. De facto, Ele mostrava-se tão disponível com as pessoas, sobretudo com os doentes e pecadores, que não tinha tempo nem para comer. Jesus era assim: primeiro, as pessoas; servir as pessoas, curar as pessoas, ajudar as pessoas, ensinar as pessoas e não tinha tempo nem para comer.

Então, os familiares de Jesus tentaram levá-lo de volta para Nazaré. Chegaram ao lugar onde Jesus estava a pregar e mandaram-no chamar. E disseram-lhe: “Tua mãe e teus irmãos estão lá fora e esperam-te”. Ele respondeu-lhes: “Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?”. E olhando para as pessoas que estavam ao seu redor para escutá-lo, acrescentou: “Eis aqui minha mãe e meus irmãos. Porque quem faz a vontade de Deus é para mim minha mãe e meus irmãos”. Jesus formou uma nova família, não fundada nos vínculos naturais, mas baseada na fé no Senhor, no seu amor que acolhe e que nos une entre nós no Espírito Santo. Todos os que acolhem a palavra de Jesus são filhos de Deus e irmãos entre si.

A resposta de Jesus não é uma falta de respeito para com a sua mãe e os seus familiares. Pelo contrário, para Maria, é o maior reconhecimento, porque precisamente ela é a discípula perfeita que obedeceu em tudo à vontade de Deus.

Palavra para o caminho

Pecar contra o Espírito é não sentir-se necessitado de salvação alguma. Não aceitar nenhum salvador. Não se colocar, portanto, no caminho da salvação. Quem não se reconhece pecador fecha-se ao oferecimento do perdão e à conversão que o levaria a libertar-se do seu pecado.

 

 

O homem mais forte

O evangelho nos mostra que Jesus, desde o início de sua missão, enfrentou a resistência e a incompreensão. Seus parentes diziam que estava louco, “fora de si”, e vão à casa onde ele estava, em Cafarnaum, para fazê-lo parar. Já para os doutores da Lei, os entendidos de religião, que geralmente têm resposta pronta para tudo, Jesus está endemoninhado, possuído por Belzebu, o chefe dos demônios. Mesmo que estivesse fazendo o bem, libertando as pessoas do poder do mal, restituindo-lhes a saúde, a dignidade e a vida, Jesus, para os doutores da Lei, não estava agindo em nome de Deus e com o poder de Deus: era um charlatão que estava iludindo o povo.

Diante da incompreensão dos parentes e da rejeição dos doutores da Lei, Jesus afirma que não pode estar agindo em favor dos demônios se concretamente os está expulsando da vida das pessoas. Jesus se identifica, assim, com aquele que entra na casa do homem forte (Satanás e seu reino), para amarrá-lo e tomar seu poder. Ele é então o homem mais forte, que, fazendo a vontade do Pai, vence o reinado do mal.

Pecar contra o Espírito Santo é não reconhecer Jesus como o homem mais forte, é considerar como demoníaco o que é divino e como divino o que é demoníaco. Se bem que não seja tão simples distinguir a voz de Deus das vozes diabólicas. Quantas guerras e mortes, por exemplo, já aconteceram em nome de Deus? Quantas situações injustas já foram abençoadas por lideranças religiosas? Quantos cristãos já se viram excluídos das comunidades de fé por buscarem os valores fundamentais e genuínos do evangelho?

Jesus vem para vencer Satanás, o adversário que divide. Vem para criar uma nova família, a família dos que reconhecem nele o poder de Deus sobre o mal, sobre a divisão. Vem para formar uma comunidade de gente responsável que, respeitando as diferenças, busca a união.

Seguidores do “homem mais forte”, tornamo-nos família ouvindo a voz de Deus, vencendo as divisões, defendendo a vida, superando afinal a tentação de achar que o problema sempre está no outro.

padre Paulo Bazaglia, ssp

 

 

 

As lágrimas de Benê

Dona Benedita, ou dona Benê, como é chamada, ficou viúva não faz muito tempo e sofre muito por isso. Mas não se trata de um sofrimento que lhe tira a vontade de viver. Embora todo santo dia chore copiosamente, ela olha e aponta para o alto e, suspirando, pronuncia a frase do pai-nosso: “Seja feita a vossa vontade, assim na terra, como no céu”.

Desde o dia em que seu esposo partiu, foi como se o mundo virasse de ponta-cabeça. Tudo ficou diferente. A vida deixou de ter cores. Até a comida perdeu o sabor. Quando senta à mesa para a refeição e vê aquela cadeira vazia ao seu lado, levanta-se, à procura de agarrar o intocável. Como quem não encontra chão, vai até a porta da frente da casa e olha para o horizonte, com os olhos rasos d’água e um aperto no peito. Reza.

Dona Benê nem se recorda das grandes festas ou dos acontecimentos pomposos vividos em família. Ela se lembra mesmo é dos pequenos afetos: o primeiro cafezinho do dia com o esposo, a comida de que ele mais gostava, o pedaço predileto da galinha caipira. Os fins de tarde sentados na cadeira de balanço no alpendre, quando o sol do interior descia lentamente até o seu ocaso. Lembra-se das manias, das delicadezas e dos gestos simples do companheiro.

Por isso, as lágrimas de dona Benê não revelam desespero, mas uma saudade contida, como se quisesse abrir o peito de tão intensa, uma vontade imensa de reencontrar o amado. Não duvida da bondade de Deus, tampouco o culpa pelo que está passando. Ao contrário, tem uma fé inabalável. Só tira o rosário do pescoço quando o recita, o que, aliás, faz todo dia. Enquanto reza, também chora, porque lembra que cultivara o costume de rezar o terço com o esposo, logo depois do nascimento do primeiro filho.

Quando dona Benê vai à missa, na hora da elevação, mira atentamente a hóstia. Lembra-se do que seu pai lhe ensinou quando, ainda pequena, estava na catequese: “Minha filha, não se desconcentre na hora da missa, e quando o padre elevar a santa hóstia, olhe bem para ela. A hóstia purifica seu olhar, livra você dos perigos e guia você sempre no bom caminho”.

Dona Benê nunca se esqueceu desse ensinamento do velho pai. Homem de poucas letras – só aquelas poucas letrinhas para rabiscar o nome –, porém com uma sabedoria capaz de superar qualquer doutor. É essa mesma sabedoria dos humildes que guia os passos de dona Benê. Apesar do sofrimento, jamais tem boca para blasfemar. Ela jamais duvida da presença da Santíssima Trindade em sua vida.

padre Antonio Iraildo Alves de Brito, ssp

 

 

No Senhor toda a graça e redenção

O Domingo sempre foi considerado pelos cristãos como o “Dia do Senhor” e como o “Senhor dos Dias”. Chamado pelos primeiros cristãos de “oitavo dia”, ganhou o status de “dia escatológico”, ou seja, dia que antecipa o dia sem ocaso no qual estaremos para sempre unidos ao Senhor.

Neste dia celebramos a Ressurreição do Cristo e a segunda leitura de hoje nos recorda que a ressurreição do Senhor é penhor da nossa própria ressurreição, porque estamos “certos de que aquele que ressuscitou o Senhor Jesus nos ressuscitará também com Jesus e nos colocará ao seu lado” (cf. 2Cor. 4,14). É por isso que, segundo Paulo, “não desanimamos” (cf. 2Cor. 4,16). Ainda que exteriormente carreguemos os sinais da caducidade da nossa existência humana, sujeita à doença e à morte, como consequência do pecado original (ver primeira leitura), sabemos que o homem interior se renova. Se, para o homem exterior, cada dia é “um dia a menos”, porque se aproxima o seu fim, para o homem interior, por sua vez, cada dia é “um dia mais próximo” da glória que há de ser revelada em nós.

A primeira leitura nos apresenta o drama do pecado original. Seduzido pelo mal, acreditando poder levar uma vida autônoma, independente de Deus, o homem “come do fruto” que lhe era proibido comer. Sua primeira reação é “esconder-se de Deus”. Deus, contudo, não abandona o homem. Deus desce ao jardim e procura Adão. O pecado terá suas consequências, mas Deus promete ao homem a salvação que virá: “Então o Senhor Deus disse à serpente: (...) Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar” (cf. Gn 3,14a-15). Em virtude disso, o salmista podia cantar: “No Senhor se encontra toda graça e redenção. Ele vem libertar a Israel de toda a sua culpa” (cf. Sl 129[130],7b-8).

Os Padres da Igreja costumam chamar essa passagem do Gênesis de “Proto-Evangelho”. A salvação que haveria de nos ser dada em Cristo é aqui já anunciada. Com muito mais propriedade, fazemos nossas as palavras do Salmista, uma vez que, em Cristo, Deus veio até nós e, de fato, nos libertou do pecado e da morte, manifestando-nos sua “graça” e “copiosa redenção”.

No evangelho contemplamos a ação salvífica do Cristo, que se manifesta seja pela sua pregação “cheia de autoridade”, seja pelo seu poder de curar os enfermos e expulsar os demônios.

Podemos destacar três momentos dentro da perícope deste domingo. Cada uma destas partes é marcada pela presença de um grupo específico. Depois de, no v. 20, introduzir o relato, Marcos nos fala dos “parentes de Jesus”, chamados genericamente de “os da parte dele”, “os seus” (cf. v. 21). Estes ouvem falar da imensa atividade de Jesus e vêm porque acreditam que Ele está “fora de si”.

Um segundo momento abre-se no v. 22, quando chegam os “escribas de Jerusalém”. Estes afirmam que os exorcismos realizados por Jesus são feitos porque Ele teria aliança com os demônios. Jesus responde a tal acusação primeiro com a imagem do “reino dividido” (vv. 24-26) e depois com a pesada acusação de que “o pecado contra o Espírito Santo” é um pecado eterno, sem perdão (vv. 28-30).

Dentro do contexto da perícope, o pecado contra o Espírito Santo consiste em atribuir ao demônio o que é obra de Deus e, assim, rejeitam o sinal da salvação que é realizada em Cristo e que está “simbolizada” nos exorcismos realizados por Jesus. O Catecismo no n. 1864 define o “pecado contra o Espírito Santo” como a recusa a acolher o perdão e a misericórdia de Deus. Essa recusa, tal qual aquela dos contemporâneos de Jesus que não aceitavam que era pelo poder de Deus que Ele expulsava os demônios, pode levar à impenitência final.

Entre esses dois momentos da resposta de Jesus encontra-se a importante afirmação do v. 27: Ninguém pode entrar na casa de um homem forte para roubar seus bens, sem antes o amarrar. Só depois poderá saquear sua casa.  Essa mesma afirmação é repetida em Mt. 12,29 e Lc. 11,21-22, sendo que, em Lucas, o evangelista fala de um “homem mais forte”, que entra e toma os bens do homem forte. Jesus é este “mais forte”, que amarra o forte, o demônio, roubando-lhe aqueles que ele fizera cativos pela sedução do pecado. Assim Jesus demonstra que é por poder divino e mais, é como manifestação da sua própria divindade e autoridade que Ele expulsa os demônios. Seja a “expulsão dos demônios” sejam as “curas” que Jesus realiza nos evangelhos, elas são uma demonstração visível da realidade invisível: a divindade do próprio Senhor, o “mais forte”, capaz de destruir as obras do maligno.

Por fim, a perícope evangélica deste domingo nos apresenta uma terceira parte da cena, marcada pela chegada da “mãe e dos irmãos” de Jesus no v. 31. Ao afirmar que sua mãe e seus irmãos são, na verdade, aqueles que “fazem a vontade de Deus” Jesus não está diminuindo o valor dos laços familiares, mas está, sobretudo no caso de Maria, demonstrando o seu grande valor porque, sendo mãe, fez-se também discípula e discípula perfeita. Assim Jesus demonstra que, na comunidade dos filhos de Deus, os laços mais fortes são outros. Não são os laços sanguíneos os mais significativos, mas sim o grande laço da fé, que nos leva a “fazer a vontade de Deus”.

Neste Domingo, elevemos a Deus a nossa ação de graças, porque Ele, na sua infinita misericórdia, não abandonou a humanidade no pecado, mas enviou-nos o seu Cristo, Verbo Eterno feito carne, que nos abriu as portas da redenção.

Peçamos, por fim, a graça de sermos verdadeiramente seus irmãos, realizando em tudo, com o auxílio que nos vem do Alto, a vontade do Pai que está nos céus.

padre Fábio Siqueira

 

 

A passagem do Evangelho que rezamos neste domingo coloca-nos diante do problema de discernir se estamos com Cristo ou contra Cristo, se somos dos «seus» ou se somos estranhos a Ele, se estamos «dentro» ou «fora», se nos deixamos agarrar por Ele ou não, se aceitamos o seu perdão incondicional ou se ainda queremos mostrar-Lhe que somos bons, se escutamos o Espírito Santo ou fazemos de conta que Ele não nos fala. A questão central de todas estas perguntas é a questão central do Evangelho: a nossa salvação e esta consiste em ser com Ele, isto é, ser dos seus, escutar a sua palavra, o seu perdão, o seu amor... aceitá-Lo tal como Ele é e não como nós gostaríamos que Ele fosse.

Nesta passagem, Jesus deixa muito claro que a sua mãe e os seus irmãos são aqueles que seguem a vontade de Deus. Aquilo que nos alimenta verdadeiramente é a Palavra e não o pão. Claro que precisamos do alimento para nos mantermos vivos, mas sem a Palavra, que é Deus, já somos mortos com corpos vivos, desligados da fonte e da origem da nossa vida. Não nascemos para sobreviver, mas para sermos conduzidos à Vida sem ocaso oferecida àqueles que escutam a Palavra e a põem em prática.

Jesus é a Palavra do Pai, a Palavra que não passará. Escutando-a, tornamo-nos «sua mãe e seus irmãos». Ser mãe de Jesus, tal como Maria! Na vida acabamos por nos tornar naquilo que escutamos, naquilo que comemos. Quem escuta a Palavra do Pai, que é Cristo Jesus, acaba por se tornar naquilo que escuta. Por isso, o Pai quer que sejamos ouvintes da Palavra para que, sendo nós verdadeiros escutadores do Filho, nos tornemos verdadeiramente filhos. Deus Pai quer-nos junto de Cristo porque nos ama como a Ele. Quem escuta a Palavra dá carne à Palavra. Esta incarna dentro de si e através de nós, da nossa vida, Jesus ganha carne e continua a manifestar-Se no mundo.

Pertencer à família de Deus não é um privilégio reservado a alguns. Não é nem a pertença a um povo particular nem uma sabedoria especial que faz de nós filhos de Deus. A verdadeira família de Jesus é composta daqueles que O escutam. Ser seu discípulo não vem de cumprir preceitos especiais nem de conhecimentos particulares, mas de escutar a sua Palavra e de a colocar na prática da vida.

 

 

A misericórdia de Deus não tem limites

A Liturgia deste Domingo, X do Tempo Comum, 1a Leitura (Gn 3,9-15), 2ª Leitura (2Cor 4,13-5,1), e o Evangelho (Mc 3,20-35), fala sobre o pecado, isto é, da condição que atinge todo ser humano; mas, também, fala da misericórdia divina, da presença de Jesus que veio salvar e resgatar todos os que foram atingidos pelo mal, que perderam a harmonia e a esperança de viver. A Conversão não é achar uma desculpa ou acusar alguém pelo mal cometido, mas é reconhecer os próprios limites e fraquezas. Muitas vezes, quem acusa está se defendendo, escondendo algo de errado em si mesmo.

O evangelho, também, traz questões nem sempre bem compreendidas nos dias atuais: o pecado contra o Espírito Santo e sobre quem é a família de Jesus. Mais do que pensar em parentesco de sangue, a família de Jesus são todos aqueles que fazem a vontade do Pai, como o próprio Jesus afirmou.

Busquemos aprofundar alguns desses temas.

O pecado é um Não dito a Deus

Quanto à condição humana, isto é, a origem e natureza do pecado ou do mal, no que consiste? Pecado ou mal consiste em submeter a razão humana à paixão, em desobedecer às leis divinas, em afastar-se do Bem supremo. Portanto, se a perfeição moral consiste em amar a Deus, em dirigir a vontade a Deus e em pôr todas as potências, os sentidos, por exemplo, em harmonia com aquela direção, o mal consiste em afastar-se da vontade de Deus. Por isso o mal é sempre mal moral e tem como origem a vontade livre do ser humano. O ser humano é o autor do mal moral. O mal moral nada mais é que um ato insuficiente da vontade, uma escolha corrupta: para não cair e, portanto, para bem usar o livre arbítrio, é indispensável a intervenção divina. Alcançar a Deus, isto é, conhecer e amar a verdade, é a única felicidade que pode satisfazer o espírito humano; toda satisfação nos bens terrenos, imperfeitos e caducos, está destinada a desiludir amargamente a aspiração inata da pessoa humana.

Santo Agostinho, em suas obras: O Livre Arbítrio e em A Cidade de Deus, chega à conclusão de que o problema não está nas coisas temporais, que em si são boas, uma vez que foram criadas por Deus, mas no mau uso dessas coisas pelo ser humano. O problema está na pessoa humana que, por um ato de liberdade, resolve inverter a ordem estabelecida por Deus, preferindo amar antes as coisas criadas, inclusive, a si próprio, do que ao Criador; a isso Agostinho chama de má vontade, soberba ou pecado. A identificação do mal como pecado (do latim pecus, que significa emperrar, travar) é oriundo do cristianismo. De fato, entre os gregos e outros povos antigos, o mal sempre foi pensado de maneira “passiva”, sobretudo, entre os povos politeístas, pois acreditavam que fazia parte de uma relação natural com os deuses. A partir dos escritos paulinos, não temos mais os males humanos como decorrência da vingança dos deuses (como narram os mitos), mas os males do mundo (morais e físicos), como decorrentes do mal ou pecado humano. Mais explicitamente, contrapondo-se à sabedoria, a concupiscência causa males à natureza e, no ser humano, seus efeitos podem ser percebidos, inclusive, no seu próprio corpo (ex: algumas doenças, a morte...). O pecado é, então, o mal que se lança do interior do ser humano, não permitindo que o bem prevaleça, e somente é conhecido por ser refletido nas relações com as coisas. Diferentemente do mal metafísico, que seria uma realidade externa ao homem, o mal moral parte das paixões humanas; elas são interiores e se concretizam no agente moral que é dotado de consciência, liberdade e vontade. Por ser interior, revela-se somente nas ações morais exteriores e reveste-se de coletividade, ou seja, todos partilham seus efeitos, portanto, capaz de determinar o justo e o injusto, o sensato e o insensato, indistintamente. O mal moral tem sua raiz na má vontade humana orientada pelo livre arbítrio que, movida pelos vícios e não pelas virtudes, não escolhendo corretamente, não proporciona o bem que poderia em potencialidade. Assim, também as más ações cometidas por ignorância, inadvertência e involuntariamente não deixam de ser males, pois têm sua origem no primeiro pecado. Esse, com efeito, como antecedente, provocou todos os outros consequentes, isto é, os males físicos. Santo Agostinho, identificando a origem do mal com a liberdade, solidifica seus argumentos, fundamentando na vontade humana (desordenada e depravada) o surgimento de uma realidade não existente, mas que passa a existir decorrente do mau uso da liberdade, não subsistindo por si própria (Cf. Montagna, Leomar Antonio. A Ética como Elemento de Harmonia Social em Santo Agostinho, p. 56-57).

Pecado pessoal e peca­do social

Em nossos dias, há também quem apresente a distinção entre pecado pessoal e peca­do social. Aquele, cometido pela pessoa individual, seria menos importante do que este, come­tido pela sociedade. A sociedade seria o grande sujeito do pecado, por sustentar estruturas injus­tas ou a violência institucionalizada. São João Paulo II, na Exortação Apostólica: "Reconciliação e Penitência", nº 16, observa o seguinte: "O pecado é sempre um ato da pessoa individualmente considerada. Esta pode ser condi­cionada por fatores externos como também por tendências da sua personalidade. Não digamos, porém, que o ser humano é tão condicionado que careça de livre arbítrio; resta sempre a cada indivíduo sadio a capacidade de opção em meio às pressões de cada dia. Por conseguinte não devemos atribuir os pecados às estruturas e aos sistemas, como se não fossem atos de pesso­as".

Como então há de se entender a expressão ‘pecado social’, comum em nossos dias?

- ‘Pecado Social’ pode ser o fato de que todo pecado individual tem repercussão sobre os outros, em virtude da misteriosa solidariedade que une os homens entre si. Esta é chamada "Comunhão dos Santos", graças à qual "uma alma que se eleva, eleva o mundo inteiro"; conse­quentemente, uma alma que se rebaixa pelo pecado, rebaixa consigo a Igreja e, de certa maneira, o mundo inteiro. Na verdade, nenhum pecado, por mais íntimo e secreto que seja, diz respeito apenas à pessoa que o comete.

- Por ‘Pecado Social’ pode-se entender também aquele que constitui, por seu próprio objeto, uma agressão direta ao próximo. Assim, todo pecado cometido contra o amor ao irmão ou contra a justiça.

- Por ‘Pecado Social’ pode-se entender também aquele que afeta as relações entre várias comunidades humanas; estas nem sempre vivem na base da justiça, do amor e da paz, mas frequentemente se hostilizam entre si. Em tais casos, é difícil saber quais as pessoas a quem toca a responsabilidade de tais males e, por conseguinte, o pecado. É certo, porém, que tais situações pecaminosas resultam do acúmulo de muitos pecados pessoais. Uma situação, uma estrutura ou uma instituição não é, de per si, sujeito de atos morais; só a pessoa o é. Por isto, no fundo de cada situação de pecado, encontram-se indivíduos pecadores; é o que nos leva a dizer que tais situações não podem ser chamadas ‘pecados sociais’ senão em sentido menos próprio; elas resultam de pecados individuais. Esta verdade também nos faz compreender que, para mu­dar as estruturas pecaminosas, não basta a força da lei; é preciso também apregoar a transforma­ção das pessoas responsáveis por tais instituições; sem isso, as mudanças podem tornar-se ineficientes ou mesmo contraproducentes; a conversão dos corações é indispensável para que se tornem mais justas as estruturas e situações.

A Blasfêmia (Pecado) contra o Espírito Santo

Etimologicamente, a palavra blasfêmia vem do grego BLÁPTO = lesão, injúria, e PHÉMEN = fama. E, de modo geral, significa uma injúria ou insulto lançado contra alguém. No caso, a blasfêmia contra o Espírito Santo consistia na atribuição dos exorcismos realizados por Jesus ao poder diabólico (Mt 12, 22-23).  Foi neste contexto que Jesus fez esta revelação: “Todo pecado e blasfêmia serão perdoados aos homens, mas a blasfêmia contra o Espírito Santo não será perdoada ... Nem neste mundo, nem no vindouro” (Mt 12, 31s; Lc 12,10 e Mc 3,28).

O Pecado contra o Espírito Santo é não reconhecer os sinais que Jesus nos oferece para nossa salvação. É fechar os olhos e o coração às obras notáveis do Espírito Santo. É negar e rejeitar a oferta suprema que Deus nos faz e se excluir, pessoal e livremente da salvação (Hb 6, 4-10; 10,26-31). É o ser humano que reivindica o seu pretenso “direito” de perseverar no pecado, fecha-se no pecado e se recusa a abrir-se às fontes divinas da purificação das consciências e da remissão do pecado. O inferno é o estado de autoexclusão definitiva da comunhão com Deus (CIC, 1033).

A ação do Espírito Santo como Mestre e Hóspede do coração encontra no blasfemo uma resistência interior. Em seu discurso ao Sinédrio de Jerusalém, o protomártir Estêvão, cheio do Espírito Santo, formula a grave acusação: “Homens de dura cerviz, incircuncisos de ouvido e coração, vós sempre resistis ao Espírito Santo!” (At 7,51). Esta atitude causa uma espécie de impermeabilidade da consciência, aquilo que a Sagrada Escritura também chama “dureza de coração” (cf. Sl 81, 13; Jr 7,24; Mc 3,5), e que em nossos dias se manifesta como perda ou eclipse do sentido do pecado.

O Papa nos diz: “O Pecado do século é a perda do sentido do pecado”. Mas essa perda do sentido do pecado é a perda de consciência e o Espírito é a consciência onde Deus se fez ouvir (GS, 16). A conscientização começa sempre pela descoberta do significado da existência de si mesmo e do mundo. A Pessoa conscientizada seria aquela capaz de interpretar sua própria existência na época e nas circunstâncias históricas em que vive. Daí a pessoa conscientizada ser sempre alguém comprometido com a história de sua época. Adquirir consciência de nossa culpa pelo mal alheio, nossa culpa pela infelicidade dos “outros”, será a origem de nossa conversão (Gn 4,8-10). “Não extingais o Espírito Santo” (1Ts 5,19).

0 pecado contra o Espírito Santo (cf. Mt 12,31; Mc 3,28-30; Lc 12,10) é a recusa explícita do perdão e da graça de Deus. O espírito Santo é o Mestre interior que nos atrai para o Pai; quem se fecha a Ele, coloca-se em situação irremediável, porque se recusa ao próprio remédio ou ao dom de Deus. Tal atitude também é chamada "pecado para a morte" (cf. 1 Jo 5,16).

Concluindo este momento peçamos a graça de Deus e a sua misericórdia, que o Espírito Santo nos dê a sua sabedoria para, após esse momento de reflexão, ficarmos mais instruídos e capazes para produzir os frutos que Deus espera de nós. Nosso mestre interior é o Espírito Santo.

O Bispo de Hipona e Doutor da Igreja, Santo Agostinho (354-430), ainda hoje nos poderia fazer este sermão: “Vede já, irmãos, este grande mistério: o som de nossas palavras fere o ouvido, o Mestre, porém, está dentro. Não penseis que alguém aprenda alguma coisa do homem. Podemos chamar a atenção com o ruído de nossa voz; mas se no nosso interior não estiver aquele que nos ensina, será vã nossa pregação. Irmãos, quereis dar-vos conta do que vos digo? Por acaso não escutais todos este sermão? Mas quantos sairão daqui sem instruir-se! Pelo que toca a mim, falei a todos; mas aqueles a quem não fala aquela Unção (1Jo 2,20.27), a quem o Espírito Santo não ensina interiormente, saem daqui sem instrução. O magistério externo consiste em certas ajudas e avisos. Mas quem instrui os corações tem sua cátedra no céu. Logo, é o Mestre interior quem ensina. Onde não estiver sua inspiração nem sua unção, inutilmente soarão no exterior as palavras” (Cf. Agostinho, Santo. Comentário da Primeira Epístola de São João. III, 13).

padre Leomar Antonio Montagna

 

 

A nova família de Jesus

O evangelho do 10º domingo do tempo comum é apresentado numa estrutura que alguns estudiosos chamam “sanduíche”. Tal nome deve-se ao fato de termos uma história que começa a ser contada e, de seguida, é interrompida por uma outra história, para finalmente se concluir com a parte final da história inicial.

“Está fora de si”

Os primeiros passos da vida publica de Jesus foram marcados pelo enorme sucesso entre o povo, de modo que as multidões acorriam a Ele à procura de uma cura, de uma palavra, de um ensinamento... Jesus parece não recusar nada a ninguém, até ao ponto que os seus familiares ficam “assustados” ao serem informados de que nem para comer tem tempo. Ora, como bons familiares, ficam preocupados e colocam-se a caminho para irem procurar Jesus e o porem nos “eixos”.

Entretanto...

Certamente que a liderar o grupo estava Maria. Enquanto não chega junto de Jesus, o leitor recebe mais uma informação. Jesus é acusado de estar possuído (geralmente quando não se encontra uma explicação plausível, parte-se para o inexplicável). A acusação é particularmente grave. Um leitor atento do evangelho sabe que, desde o batismo, Jesus recebeu o Espírito Santo. Por isso, acusá-lo de estar possuído é dizer que o Espírito que está em Jesus não veio de Deus, mas sim de Belzebu. Daí as palavras duras de Jesus, que merecem mesmo uma parábola para demonstrar como é ridícula a acusação, para concluir de forma dramática: “Quem blasfemar contra o Espírito Santo, nunca terá perdão: será réu de pecado eterno”.

Chegada dos familiares

Finalmente os familiares chegam à casa (que não é identificada, mas que recorda a casa de oração) onde Jesus está a ensinar a multidão. Podemos imaginar a cena: Jesus a ensinar a multidão que o rodeia, é informado que os seus familiares estão lá fora. Importante notar as palavras: “estão lá fora”. Ou seja estão fora do círculo daqueles que escutam a palavra de Jesus, escolheram ficar fora do círculo.

Quem são?

Ao receber a notícia de que os seus familiares “estão lá fora”, à sua espera, a expectativa é que Jesus pare tudo e vá ao seu encontro. Mas nada disso acontece. A resposta/pergunta de Jesus é duríssima: “Quem é a minha Mãe e os meus irmãos?”. Certamente que a resposta deve ter doído ao coração humano de Maria, que logo de seguida terá entendido tudo. Jesus apresenta o critério para ser família de Jesus: fazer a vontade de Deus.

Dentro ou fora

O evangelho coloca-nos um desafio: onde é que me encontro? Dentro ou fora deste círculo? Faço parte daqueles que estão ao redor de Jesus, escutando e realizando a vontade de Deus, ou faço parte daqueles que se dizem familiares, mas que ficam do lado de fora? Não basta declarar-me parte da família, apenas porque sou batizado, mas é preciso fazer parte do círculo dos que escutam a Palavra e procuram realizar a vontade de Deus no quotidiano da vida.

Patrick Silva

 

 

O pecado que produz a divisão!

A retomada deste tempo comum, já com o décimo domingo se deve ao fato de termos vivido alguns domingos, no início do ano, neste tempo: entre o tempo do Natal e o tempo da Quaresma!

Como já falamos no comentário da Santíssima Trindade, a importância do tempo comum está no fato de que, neste tempo, a Igreja nos exorta a sermos santos e perfeitos como nosso Pai do céu é Santo e perfeito! Vivenciando as celebrações deste período iremos compreender que a santidade não consiste, necessariamente, na realização de grande obras mas, ao contrário do que possa parecer, a santidade exige de nós apenas uma coisa: adequação da nossa vida à Vida que Deus pensou para cada um (a) de nós! Ser santo (a), neste sentido consistirá em estar, constantemente, atento àquilo que Deus tem reservado para nós e, percebendo e compreendendo a Sua Vontade, que estejamos abertos para pô-la em prática.   Dessa forma, compreendemos que Deus não pede as mesmas coisas para todos (as) os seus filhos (as) mas, na medida em que capacita cada um (a), Ele vai pedindo o que quer. Assim, de alguns pedirá grandes feitos e, de outros, feitos menores porém, não sem grande importância para o conjunto da obra. Todos (as), em menor ou maior proporção, recebemos a vida para a realização da vontade de Deus. Lembre-se: até mesmo um copo de água oferecido ao sedento por Amor a Deus, não ficará sem recompensa! Que gesto mais simples e "fácil" do que este? No entanto, nosso Senhor afirma que não ficará sem recompensa quem o fizer! São essas as reflexões que, ao longo do Tempo Comum nós iremos realizar; buscaremos, sempre, na Palavra que nos é proposta pela liturgia pistas, luzes, orientações para alcançar o ideal de perfeição que o próprio Deus nos propõe.

Neste X domingo do tempo comum a Palavra nos propõe uma reflexão sobre o pecado e suas consequências em nossa vida: afastamento da presença de Deus, medo do encontro com Ele e, o pior de todos, a confusão entre o que é ação divina e ação diabólica! Quanta desgraça o pecado produz em nós e, automaticamente, no mundo que vivemos!

A primeira leitura (Gn. 3,9-15) nos apresenta o panorama inicial da vida que aderiu ao mal, ao pecado, ao diabo. Estamos no contexto inicial do Gênesis e, neste início da Sagrada Escritura, o autor sagrado faz uma reflexão sobre a criação do mundo: Deus e as criaturas! O texto dos primeiros 2 capítulos nos apresenta as histórias da criação e somos conduzidos à compreensão de que o mundo criado é produto do amor infinito de Deus, é obra e graça de suas mãos! A Palavra criadora do Pai foi criando, organizando o "caos" que o mundo era antes de intervenção divina. Tudo foi sendo criado e posto em seu devido lugar. Tudo foi ocupando o seu espaço e exercendo a sua "missão". Tudo era "muito bom"! A criação do ser humano - homem e mulher - ocupa o topo da criação pois, nestes, Deus imprimiu a sua imagem e semelhança. Foram criados para revelarem o próprio Deus uns aos outros! Estaria tudo perfeito, não fosse o capítulo 3, de onde sai a nossa leitura: neste capítulo, entra em cena o adversário divino, isto é, o diabo ou satanás. Esse deseja ocupar ou roubar de Deus o que lhe pertence, a sua criação mais perfeita, o ser humano e, para tanto usa os seus ardis, a sua sedução e, o ser humano se deixa enredar, enganar: desobedecendo às ordens divinas, se entrega às ordens sedutoras do mal e, sofre as consequências do seu ato!

A nossa leitura começa, exatamente, depois do pecado: Deus volta ao paraíso e chama o homem pelo nome mas, esse, por medo se esconde!   É isso que o pecado produz em nós: vergonha e medo! E, o medo e a vergonha nos levam para longe de Deus pois não sabemos o que será de nós a partir desse momento. Tomar consciência do mal feito seria o passo importante a ser dado na reconstrução da harmonia mas, desde o início, o ser humano não gosta de assumir o erro como próprio e, começa, aqui, o jogo de empurra: foi a mulher! foi a serpente! foi... foi... foi... cada um (a) coloca a desculpa que melhor lhe aprouver mas, a verdade é que temos grandes dificuldades para assumir o mal que praticamos! O fato é que toda ação (boa ou má traz consequências boas ou más) e, a leitura nos mostra isso: para cada um (a) dos envolvidos (as) no processo há uma consequência! No versículo 15 há uma profecia - a primeira de toda a Sagrada Escritura: inimizade entre a mulher e a serpente, entre a descendência de uma e de outra. A descendência da mulher ferirá a cabeça da serpente e, a descendência da serpente, ferirá o calcanhar dos descendentes da mulher! Isto nos faz pensar que o pecado não terá a última palavra sobre a humanidade pois Deus será capaz, como o foi no primeiro momento, de reconstruir o mundo, de reorganizar o "caos" que o pecado do ser humano produziu.

Esta restauração da harmonia primitiva e original, do paraíso que se perdera, Deus, o Pai, inicia com o envio do seu Filho Jesus, o Cristo. Esse é a Palavra criadora que, assumindo a condição humana em tudo - exceto o pecado - irá iniciar o processo de restauração da humanidade decaída. Aderir a esse Jesus será a condição para a vitória do bem sobre o mal, de Deus sobre o diabo! O problema é que nem sempre a humanidade reconhece em Jesus o Salvador, o enviado do Pai para refazer a história da salvação. O pecado, que continua influenciando a humanidade, estabelece um abismo que impossibilita o ser humano de ver em Jesus a manifestação da divindade. O Evangelho de hoje (3,20-35) nos mostra tal situação. Aqueles que deveriam compreender vontade de Deus revelada em Jesus, são os primeiros a afirmar que Jesus age por Belzebu, o príncipe dos demônios! Aqui, temos o grande pecado: confundir as ações divinas com as ações do diabo, do adversário de Deus, de satanás! Jesus, por sua vez, rebaterá tais questões com uma parábola: um reino que se divide entre si estará fadado ao fracasso!   Portanto, Ele não pode ser Belzebu pois suas ações estão, sempre, na linha de destruir os mesmos (o diabo). E, continua: vencer algo forte só será possível com outro algo mais forte ainda: Ele é mais forte que satanás e, por isso, o vence! A permanência nesta situação de confusão impede o perdão de chegar!

No final do texto evangélico temos uma belíssima afirmação de Jesus: quem faz a Vontade do Pai do céu é seu irmão, irmã, mãe... em outras palavras, é membro da sua família!

Por fim, a segunda leitura (2Cor. 4,13-18 - 5,1) nos exorta a manter a nossa fidelidade à essa vontade divina a nosso respeito pois se a tenda em que moramos nesse mundo for destruída, Deus nos dará uma outra moradia no céu que não é obra de mãos humanas, mas que é eterna!

Com esta fala do apóstolo Paulo, terminemos a nossa reflexão pedindo a Deus que nos dê essa perseverança na prática do bem e, por maior que seja o obstáculo que a nossa fé seja capaz de transpô-lo!

padre Ezaques

 

 

O pecado sem perdão

Os verdadeiros irmãos e os adversários de Jesus

No evangelho de hoje, Mc apresenta a exigência da conversão, da opção pró ou contra Jesus. Tudo gira em redor da pergunta pela origem de seu “poder”: virá do demônio (1ª leitura) ou de Deus?

Esta questão é tratada por Mc num “sanduíche” literário. As fatias externas (3,20-21.31-35) são a tentativa dos parentes de Jesus para desviá-lo de sua pregação messiânica, sob alegação de que ele “está fora de si”, o que equivalia a dizer que ele estava possuído pelo demônio. Quanto à intervenção dos parentes, Jesus explica que sua verdadeira família não é a do sangue, mas a da fé operante: os que fazem a vontade do Pai (3,35). Ficamos chocados porque a mãe de Jesus está incluída entre os parentes. Mas isto acentua ainda mais a mensagem: a mãe de Jesus não tem prerrogativas por causa de seu parentesco carnal, mas por causa da fé (como Lc sugere numa duplicata do presente episódio: Lc 11,27-28).

A fatia central (3,22-30) é a acusação de que Jesus exorciza pelo poder de Beelzebul (6). A resposta de Jesus contém três elementos. 1) Quanto a seu ”poder”: este não vem do demônio, pois como poderiam o reino ou a casa do demônio ficarem em pé, se fossem divididos? Convite velado para entender que o poder de Jesus vem de Deus e é aquela misteriosa “autoridade” do Filho do Homem, que Mc já apontou na primeira atuação de Jesus (cf. 4º dom. T.C.). 2) Quanto à pessoa de Jesus, uma pequena parábola: se alguém quer arrombar uma casa (esta palavra a liga com a imagem anterior) deve primeiro amarrar o “forte” que está lá dentro. Portanto, aquele que consegue isso, é o “mais forte” título com o qual Jesus tinha sido anunciado pelo Batista (1,7) e imagem messiânica (cf. Is 49,24-25).3) Quanto aos escribas: eles se firmam no próprio pecado do demônio, o orgulho contra o Espírito de Deus. Mc (3,28-30) utiliza aqui uma palavra que aparece, provavelmente num contexto mais original, em Lc 12,10. Em Lc, significa que o que contraria o Filho do Homem (Jesus histórico) pode ser perdoado, mas não o que se faz contra o Espírito Santo, que auxilia os cristãos na perseguição (Lc 12,11-12; a apostasia). Em Mc, significa que tudo pode ser perdoado (por Jesus ou por Deus, cf. Mc 2,10.17), mas não o pecado contra o Espírito Santo, ou seja, a rejeição da força de Deus que se revela na atuação de Jesus, vencendo todo o mal.

A conclusão do conjunto (a segunda fatia do tema dos parentes), forma assim um contraste com a atitude dos escribas, a incredulidade levada a um extremo diabólico: unir-se a Jesus para fazer a vontade do Pai é pertencer à sua “casa”, comunidade de irmãos e irmãs.

A 2ª leitura é a continuação da de domingo passado. Paulo reconhece em Sl 116[115],10 o Espírito da fé se expressando (é escrito sob inspiração do Espírito):

“Creio, por isso falo”. Tendo este Espírito, Paulo fala: seu testemunho evangélico a respeito da Ressurreição de Cristo e nossa. Isso é o que o toma firme (2Cor 4, 16). Mesmo que agora estejamos na tribulação (vaso de barro!), este “pesar” é leve em comparação com o “peso” da glória (“glória”, kabod, significa “peso”), pois nós enxergamos o que não se vê! A morada em que estamos (a existência neste mundo) será desfeita, mas teremos uma que não é feita com mãos humanas (termos que Cristo usou para anunciar sua ressurreição, cf. Me 14,58).

O espírito global da presente liturgia é o da força de Cristo, em que devemos confiar, para que ela se manifeste em nós também.

(6). Este é um dos principais demônios. O judaísmo contemporâneo de Jesus tinha elaborado toda uma doutrina sobre os anjos e demônios. O demônio é considerado como um anjo decaído, por causa de seu orgulho, e isso, antes da criação do mundo. Em Sb 2,24 é identificado com a serpente que seduziu o primeiro casal humano a pecar contra Deus, por orgulho, causando a morte. Por esta razão, a 1ª leitura de hoje é o relato do pecado original, terminando com o tema da descendência humana esmagando a cabeça da serpente. Mais tarde, este tema foi interpretado num sentido messiânico, como tratando não mais da raça humana em geral, mas de um descendente específico, o Messias, que venceria o demônio. É exatamente isso que é sugerido nas entrelinhas do episódio central do evangelho.

 

 

O poder do Messias e os demônios

O demônio está em alta. Há “igrejas” especializadas em expulsar os demônios que você tem. E se você não os tem, lhe arrumam alguns … Será que se pode comparar com essas práticas aquilo que Jesus andou fazendo no meio do povo da Galiléia, conforme descreve o evangelho?

Nos tempos bíblicos, diversos tipos de forças misteriosas que assolavam as pessoas eram chamados “demônios” ou “espíritos de impureza” (= causando impureza, incapacidade de participar do culto). Muitos desses fenômenos hoje são da competência do médico ou do psiquiatra. Mas havia também a percepção de um poder do mal que é maior que a gente, e ao qual se chama de Satã ou “diabo”. O diabo tenta desviar o ser humano de sua vocação à comunhão com Deus. Mas ele não tem a última palavra; é inferior a Deus, que o condena. É o que ensina a 1ª leitura de hoje. O homem e a mulher são punidos por terem prestado ouvido antes ao diabo (a serpente) do que a Deus, mas o diabo é subjugado a Deus e à descendência da mulher. E o evangelho mostra esse “descendente da mulher”, que domina o diabo – como se manifesta (dentro dos conceitos daquele tempo) na expulsão dos demônios.

Ora, alguns mestres atribuíam o poder de Jesus sobre os demônios ao próprio chefe dos demônios. Jesus responde com três argumentos: I) o demônio não é combate contra si mesmo; 2) está aí alguém que é mais forte que o demônio (o “anunciado” da 1ª leitura); 3) não existe pecado mais grave do que caluniar o Espírito de Deus – e é isso que esses mestres estão fazendo! A cena termina, depois, com uma palavra de Jesus a respeito de seus parentes que não compreendem a sua atuação. Jesus diz que sua verdadeira família são aqueles que escutam seu ensinamento e praticam a vontade de Deus.

Jesus é o Messias, vindo com o poder de Deus. É com esse poder e com nenhum outro que ele expulsa as forças malignas. E com o mesmo poder ensina a vontade de Deus, pedindo que a pratiquemos, para nos tomarmos seus verdadeiros irmãos.

Expulsar o que se opõe ao bem e praticar a vontade do Pai são dois lados da mesma moeda. Se pretendemos aderir a Jesus e à sua prática, devemos também, no Espírito de Deus, libertar os nossos irmãos das possessões demoníacas de hoje, aquilo que os desvia do plano do Pai, aquilo que os impede de doar-se à prática do Reino: os vícios do consumo, da droga, da ganância, as amarras de uma sociedade estruturada para fazer reinar a injustiça … todas as forças que oprimem o bem que Deus colocou em seus filhos e filhas.

padre Johan Konings “Liturgia Dominical”

 

 

O homem dividido

Nesta Eucaristia, Jesus nos diz que a sua família são todos aqueles e aquelas que fazem a vontade de Deus, e que por isso estão fortes e firmes para lutarem contra toda força do mal. O reino da maldade chega ao fim para dar início ao Reino de Deus. Esta vitória só é possível com a nossa ajuda. Peçamos a Deus que esta celebração nos torne cada vez mais fortes para ajudar nesta luta contra o mal.

Pistas para reflexão

O Senhor nos reúne em sua casa que é a comunidade onde somos acolhidos, batizados, irmãos e irmãs, ouvintes da Palavra, proclamadores das maravilhas da salvação, aprendizes da partilha e do perdão, e sempre enviados em missão. A assembléia é convocada para ser enviada.

A comunidade, a casa de Jesus, comprometida com o bem e a fraternidade, vive em tempos de ganância, violência, corrupção, impunidade, enfim, um rosário de coisas que fazem o povo sofrer. E, ainda, tantas vezes, é vítima de calúnias e suas lideranças são ameaçadas, perseguidas e até mortas violentamente.

A Palavra de Deus vem ao encontro das comunidades e as motiva a continuarem na luta e a melhorarem as condições de moradia, de emprego, de salários e de pão para todos. A Palavra ajuda a identificar os responsáveis por essa triste situação de fome, de injustiças, de violência e de agressão à vida. Deus mesmo não quer o mal e muito menos compactua com ele. Jesus veio para amarrar satanás e tirar do seu poder o povo explorado, injustiçado e sem dignidade e liberdade.

Jesus constitui uma nova família com os que fazem a vontade de Deus e entram no seu projeto de vida, aceita viver a fraternidade, romper os padrões envelhecidos e carcomidos pelo tempo que não mais se colocam a serviço do bem comum da população: a nossa comunidade.

1ª Leitura Gn 3, 9-15

Depois que o homem comeu da fruta da árvore, o Senhor Deus chamou Adão, dizendo: 'Onde estás?' E ele respondeu: 'Ouvi tua voz no jardim, e fiquei com medo, porque estava nu; e me escondi'. Disse-lhe o Senhor Deus: 'E quem te disse que estavas nu? Então comeste da árvore, de cujo fruto te proibi comer? Adão disse: 'A mulher que tu me deste por companheira, foi ela que me deu do fruto da árvore, e eu comi'. Disse o Senhor Deus à mulher: 'Por que fizeste isso? E a mulher respondeu. A serpente enganou-me e eu comi. Então o Senhor Deus disse à serpente: Porque fizeste isso, serás maldita entre todos os animais domésticos e todos os animais selvagens! Rastejarás sobre o ventre e comerás pó todos os dias da tua vida! Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar.

E, chamando-os, disse o Senhor: “Onde estás?”

O livro do Gênesis lembra o pecado de Adão e Eva. A palavra Adão vem significar homem. Seu pecado, como o nosso, nos dias de hoje, é: o orgulho de ser igual a Deus, querer ser seu próprio deus ou fabricar deuses à sua imagem e semelhança. E, quando os olhos de Adão se abrem, constata que está nu, ou seja, desprotegido e com medo diante de Deus.

Mesmo no pecado e no afastamento, Deus não o rejeita, mas castiga a serpente, símbolo do mal e mais tarde identificada com o demônio, autor e princípio de todo o pecado. No futuro, a descendência humana vai esmagar a sua cabeça, uma referência a Jesus Cristo que vence o demônio pela sua morte e ressurreição.

O mal, portanto, não vem de Deus, mas do homem. Deus fez todas as coisas perfeitas, mas os humanos subvertem o seu plano, pensam conseguir a felicidade dando asas às suas paixões e interesses, virando as costas para Deus.

Ou seja, o homem e a mulher “comeram” do fruto, isto é, deram livre curso à ganância e ao orgulho, tornando-se eles próprios o critério para decidir o que é bem e o que mal. Com isso, as pessoas acham que podem fazer o bem entendendo-o como  um “salve-se quem puder”. E a sociedade torna-se um campo de batalha, onde reina o medo de ser devorado ou explorado pelo outro (“fiquei com medo, porque estava nu e me escondi”).

Medo, nudez e fuga são esconderijos quando as pessoas são lobos umas para as outras. E ninguém quer ser responsável por seus atos e manipulações. Adão culpa Eva e Eva responsabiliza a serpente. Medo e acusação estão introjetados nas relações humanas.

Em vez de optar em colocar limites ao desejo de “comer”, o homem deixou-se possuir pelos seus desejos e paixões e permitiu que a serpente decidisse em seu lugar, tornando-se a pedra de tropeço nos caminhos da verdadeira felicidade.

Mas, Deus aponta um caminho de esperança: a certeza da vitória está na descendência justa, que fere mortalmente a cabeça da serpente. Deus quer uma geração nova que será a família de Jesus (conforme o Evangelho). Uma família, comunidade que lute contra tudo o que divide e escraviza as pessoas. Uma comunidade de irmãos, de mães e de filhos, que faz do relacionamento fraterno e amigo o centro de suas alegrias e esperanças.

O Salmo 129 (130) é a súplica de uma pessoa em grave situação, que clama por Javé que se mostra ao Deus da aliança. O salmo respira temor, confiança e esperança em Deus. Era cantado pelos israelitas na peregrinação anual para Jerusalém. O salmista fala em nome de todo o povo que se reconhece pecador e invoca Deus do profundo abismo que se encontra. Tem consciência que somente Deus o pode perdoar e espera com fé a sua palavra de paz.

2ª Leitura – 2Cr 4, 3-18-5,1

O Senhor nos dará o perdão e a sustentação

A carta aos Coríntios, escrita num momento difícil na vida de Paulo, mostra o “espírito de fé”, a força carismática que leva o apóstolo a testemunhar sua fé sustentada pela esperança do encontro com o Ressuscitado no final da caminhada. Enquanto o homem exterior vai caducando e se deteriorando, o interior se renova em e para Cristo.

Da aflição e dos sofrimentos atuais, passamos à glória eterna. Isto tem sentido quando lembramos o relacionamento tenso de Paulo com a comunidade de Corinto, onde havia numerosos adversários que faziam de tudo para criar-lhe complicações e atrapalhar a sua vida de missionário dedicado e carinhoso.

Os bens materiais não podem ser considerados como os únicos objetivos na vida. O homem se serve deles para poder viver e não para acumular riquezas e poder. A vida presente não é definitiva, tem um começo e tem um fim. Por isso, Paulo se alegra, pois, quando se desfizer este corpo, receberemos um corpo nos céus, não feito por mãos humanas.

Evangelho Marcos 3, 20-35.

Tudo vos será perdoado

O Evangelho de Marcos tem uma solicitude básica que procura responder à pergunta: Quem é Jesus? Ele não apresenta apenas uma resposta teórica, mas fundamentada no seguimento e engajamento nas práticas de Jesus. Na perícope de hoje, trabalha a reposta através dos exorcismos e indica como as pessoas vão se definindo contra ou a favor de Jesus. Marcos apresenta Jesus, tantas vezes, no meio da multidão, onde Ele se sente “em casa”, ao que parece. Nesta casa, Ele vai mostrando quem é. A casa de Jesus , local da sua morada, repouso do seu coração e missão, é o lugar onde se reúnem os sofredores e os discriminados de toda espécie, a ponto de Ele e seus discípulos não terem tempo para comer e dormir. Mas a missão de Jesus encontra obstáculos de toda ordem, mesmo no seio da sua família. Os seus parentes saem de casa para agarrá-lo e o chamam de louco. Procuram recolhê-lo. Realizar as obras de Jesus e proclamar o Evangelho é muito perigoso, pois mexe com muita gente, mina as seguranças e relativiza as instituições religiosas do tempo.

A arma dos inimigos é desmoralizar ou rebaixar quem age desse jeito. E os doutores da lei vêm como enviados de Jerusalém, interessados em não mudar nada. Toda situação econômica e religiosa lhes era muito favorável.

Acusam Jesus de endemoninhado e parceiro de satanás, príncipe dos demônios. E o pecado deles é muito grave. Fecham-se em sua ganância e prepotência. Estão cegos pelo “brilho” do seu orgulho. Não são capazes de ver e ouvir os sinais dos tempos, nem sequer de dialogar com quem vinha com outra proposta e outro projeto de sociedade, de economia e de convivência entre as pessoas.  

Atualizando a Palavra

Quem pratica o mal não se encontra mais no lugar que lhe foi designado e confiado na criação. Deus o procura e chama… e não o encontra. “Onde está?” Está, portanto, fora do lugar, longe do projeto original e distante da bênção de Deus, que é vida e paz para todos.

O local previsto e preparado por Deus não é o pecado, o orgulho e a dominação, que distanciam os homens uns dos outros. Os que pecam se sentem nus, como os escravos, despojados da liberdade e da dignidade humana.

Ao deixar conduzir pelo egoísmo, o homem destrói a si mesmo e abala a ordem da natureza, que se revolta, perde a fertilidade, chama catástrofes produz cardos e espinhos.

A verdade continua a mesma: quem julga poder proclamar sua independência diante de Deus, quem pretende construir seu próprio mundo, quem se isola em seu egoísmo não considera Deus como seu amigo, mas como um adversário a ser temido, evitado, mantido à distância.

“Ouvi o barulho dos teus passos no jardim e tive medo”: ou seja, a presença de Deus incomoda, coloca ruídos na consciência e atrapalha o sossego do paraíso. Deus criou os homens para se ajudarem. O pecado, ao contrário, os desune, os afasta uns dos outros e os torna inimigos.

Colocados, nesta celebração, frente a frente do Evangelho, concluímos como é importante cada um descobrir e assumir a sua missão, contribuindo com a sua parte na construção de uma nova sociedade, que é a família de Jesus, cujo espelho é a comunidade litúrgica, a verdadeira mãe e irmã do Senhor, onde se cultiva o bem, se vive a fraternidade, se partilha os bens e se luta para melhorar a qualidade de vida de todos e para todos. Essa convicção da missão ajudará a sair do comodismo, a vencer críticas e superar todo tipo de dificuldades.

Ligando a Palavra e a Eucaristia

Talvez nem sempre consigamos avaliar o valor e a importância da celebração em nossas vidas e no crescimento espiritual da comunidade, discípula missionária, enviada ao mundo para fazê-lo mais bonito, mais humano e tornar-se mais sensível aos problemas e dificuldades das pessoas, especialmente dos pobres, marginalizados e rejeitados.

E acolher a Palavra de Deus é permitir que a ação do Espírito nos transforme e que Jesus nos introduza no seu jeito de viver a obediência ao Pai e de servir a humanidade. A celebração faz memória e atualiza em nossas vidas a prática de Jesus. Nela nos envolve e com ela nos compromete. Pelo ritual da celebração, entramos e comungamos na prática libertadora e caritativa de Jesus.

A força e o poder de Deus não estão na violência nem na organização de uma cidade. Jesus demonstra isso: aceitou ser homem frágil, mas uma fraqueza que vence o demônio. Contemplando essa pedagogia e os ensinamentos de Jesus, nos acercamos da mesa eucarística, reunidos em comunidade, em torno do pão e do vinho, numa atitude de paz, imbuídos pela oração do salmista: “espere Israel pelo Senhor pois nele se encontram toda graça e copiosa redenção. Ele vem libertar Israel de toda a sua culpa”.

 

 

Tudo vos será perdoado

Neste 10º domingo do tempo comum, a Palavra de Deus leva-nos a meditar sobre a nossa resposta de vida ao projeto de Deus para nós, na liberdade de optar pelo bem e pelo mal. O Evangelho centra o nosso olhar na pessoa de Jesus, que os seus conterrâneos, entre eles tantos familiares, não aceitaram como enviado de Deus e não perceberam, até se opuseram, à vontade de Deus revelada em Jesus. Na caminhada da fé, cada um é livre de optar: ou ficar pelos dispersos sentidos de vida, ou permanecer na única família de Jesus, de «quem quiser fazer a vontade de Deus».

A segunda leitura realça que, para o cristão, viver só faz sentido na certeza da ressurreição, na caminhada de vida interior que se renova dia a dia em perspectiva da eternidade.

Neste horizonte neo-testamentário, meditemos em particular a primeira leitura que nos mostra, recorrendo à história mítica de Adão e Eva, o que acontece quando rejeitamos as propostas de Deus e preferimos caminhos de egoísmo, de orgulho e de auto-suficiência… Viver à margem de Deus leva, inevitavelmente, a trilhar caminhos de sofrimento, de destruição, de infelicidade e de morte.

1ª Leitura: Gênesis 3,9-15

A nossa leitura começa com a “investigação” de Deus… Antes de proferir a sua acusação, Deus – o acusador e juiz – investiga, descobre e estabelece os fatos. Primeira pergunta feita por Deus ao homem: “onde estás?” A resposta do homem é já uma confissão da sua culpabilidade: “ouvi o rumor dos vossos passos no jardim e, como estava nu, tive medo e escondi-me” (vers. 9-10). A vergonha e o medo são sinal de uma perturbação interior, de uma ruptura com a anterior situação de inocência, de harmonia, de serenidade e de paz. Como é que o homem chegou a esta situação? Evidentemente, desobedecendo a Deus e percorrendo caminhos contrários àqueles que Deus lhe havia proposto. A resposta do homem trai, portanto, o seu segredo e a sua culpa.

Depois desta constatação, a segunda pergunta feita por Deus ao homem é meramente retórica: “terias tu comido dessa árvore, da qual te proibira de comer?” (vers. 11). A árvore em causa – a “árvore do conhecimento do bem e do mal” – significa o orgulho, a auto-suficiência, o prescindir de Deus e das suas propostas, o querer decidir por si só o que é bem e o que é mal, o pôr-se a si próprio em lugar de Deus, o reivindicar autonomia total em relação ao criador. A situação do homem, perturbado e em ruptura, é já uma resposta clara à pergunta de Deus… É evidente que o homem “comeu da árvore proibida” – isto é, escolheu um caminho de orgulho e de auto-suficiência em relação a Deus. Daí a vergonha e o medo. Ao defender-se, o homem acusa a mulher e, ao mesmo tempo, acusa veladamente o próprio Deus pela situação em que está (“a mulher que me deste por companheira deu-me do fruto da árvore e eu comi” – vers. 12). Adão representa essa humanidade que, mergulhada no egoísmo e na auto-suficiência, esqueceu os dons de Deus e vê em Deus um adversário; por outro lado, a resposta de Adão mostra, igualmente, uma humanidade que quebrou a sua unidade e se instalou na cobardia, na falta de solidariedade, no ódio. Escolher caminhos contrários aos de Deus não pode senão conduzir a uma vida de ruptura com Deus e com os outros irmãos. Vem, depois, a “defesa” da mulher: “a serpente enganou-me e eu comi” (vers. 13). Entre os povos cananeus, a serpente estava ligada aos rituais de fertilidade e de fecundidade. Os israelitas deixavam-se fascinar por esses cultos e, com frequência, abandonavam Jahwéh para seguir os rituais religiosos dos cananeus e assegurar, assim, a fecundidade dos campos e dos rebanhos. Na época em que o autor jahwista escreve, a serpente era, pois, o “fruto proibido”, que seduzia os crentes e os levava a abandonar a Lei de Deus. A “serpente” é, neste contexto, um símbolo literário de tudo aquilo que afastava os israelitas de Jahwéh. A resposta da “mulher” confirma tudo aquilo que até agora estava sugerido: é verdade, a humanidade que Deus criou prescindiu de Deus, ignorou as suas propostas e enveredou por outros caminhos. Achou, no seu egoísmo e auto-suficiência, que podia encontrar a verdadeira vida à margem de Deus, prescindindo das propostas de Deus. Diante disto, não são precisas mais perguntas. Está claramente definida a culpa de uma humanidade que pensou poder ser feliz em caminhos de egoísmo e de auto-suficiência, totalmente à margem dos caminhos que foram propostos por Deus. Que tem Deus a acrescentar? Pouco mais, a não ser condenar como falsos e enganosos esses cultos e essas tentações que seduziam os israelitas e os colocavam fora da dinâmica da Aliança e dos mandamentos (vs. 14-15). O nosso catequista jahwista sabe que a serpente é um animal miserável, que passa toda a sua existência mordendo o pó da terra. O autor vai servir-se deste dado para pintar, plasticamente, a condenação radical de tudo aquilo que leva os homens a afastar-se dos caminhos de Deus e a enveredar por caminhos de egoísmo e de auto-suficiência. O que é que significa a inimizade e a luta entre a “descendência” da mulher e a “descendência” da serpente? Provavelmente, o autor jahwista está, apenas, a dar uma explicação etiológica (uma “etiologia” é uma tentativa de explicar o porquê de uma determinada realidade que o autor conhece no seu tempo, a partir de um pretenso acontecimento primordial, que seria o responsável pela situação atual) para o fato de a serpente inspirar horror aos humanos e de toda a gente lhe procurar “esmagar a cabeça”; mas a interpretação judaica e cristã viu nestas palavras uma profecia messiânica: Deus anuncia que um “filho da mulher” (o Messias) acabará com as consequências do pecado e inserirá a humanidade numa dinâmica de graça. Atenção: o autor sagrado não está a falar de um pecado cometido nos primórdios da humanidade pelo primeiro homem e pela primeira mulher; mas está a falar do pecado cometido por todos os homens e mulheres de todos os tempos… Ele está apenas a ensinar que a raiz de todos os males está no fato de o homem prescindir de Deus e construir o mundo a partir de critérios de egoísmo e de auto-suficiência. Não conhecemos bem este quadro?

2ª leitura: 2ª Coríntios 4,13-18-5,1

A segunda Carta de Paulo aos Coríntios apareceu num momento particularmente tenso da relação entre o apóstolo e essa comunidade cristã da Grécia. Algumas duras críticas de Paulo (na primeira Carta aos Coríntios) a certos membros da comunidade que viviam de forma pouco coerente com a fé cristã provocaram um certo desconforto na comunidade, que foi aproveitado pelos opositores de Paulo, que criaram um clima de hostilidade contra o apóstolo. Paulo foi acusado de estar a cuidar apenas dos seus próprios interesses e de pregar uma doutrina que não estava em consonância com o Evangelho anunciado pelos outros apóstolos. Na opinião dos seus detratores, o fato de Paulo não ter apresentado qualquer “carta de recomendação” que comprovasse a sua autoridade para anunciar o Evangelho significava que a doutrina por ele pregada não era digna de fé.

Ao saber do que se passava, Paulo foi a Corinto; mas essa ida não só não resolveu o problema, como até o radicalizou. Deve ter havido uma troca violenta de argumentos e de palavras e Paulo foi gravemente ofendido por um membro da comunidade. Algum tempo depois, Tito, amigo e colaborador de Paulo, partiu para Corinto com a missão de acalmar os ânimos e de tentar a reconciliação. Quando voltou, Tito trazia notícias animadoras: o diferendo fora ultrapassado e os Coríntios estavam, outra vez, em comunhão com Paulo. Foi então que Paulo escreveu a nossa segunda Carta aos Coríntios. Nela, o apóstolo explicava tranquilamente aos Coríntios os princípios que sempre orientaram o seu trabalho apostólico (cf. 2Cor. 1,3-7,16) e desmontava os argumentos dos adversários (cf. 2Cor. 10,1-13,10). Estávamos nos anos 56/57.

Neste contexto, o texto de hoje situa-nos na opção pelo sentido da nossa vida em Cristo. Paulo apresenta duas fortes convicções de fé: «com este mesmo espírito de fé, também acreditamos, e falamos», que Deus há-de ressuscitar-nos com Jesus e vai levar-nos para ficarmos eternamente em comunhão com Ele; o homem interior renova-se em cada dia na medida em que intensifica o seu olhar nas coisas invisíveis que são eternas. Em consequência, há que renovar constantemente, sem desanimar, esta opção pela habitação eterna, em comunhão plena com Deus. Coisas essenciais, ditas de modo claro, a exigir coerência àqueles que querem continuar a viver como autênticos discípulos de Cristo.

Evangelho: Marcos 3,20-35

Jesus continua a percorrer o espaço geográfico da Galileia e a cumprir a sua missão de anunciar o “Reino”. Começa, no entanto, a crescer a onda de contestação à sua pregação. Tomando como pretexto alguns casos particulares cada vez mais insignificantes, os líderes judaicos manifestam a sua firme oposição à novidade do “Reino”. As polêmicas e controvérsias marcam esta fase da caminhada de Jesus.De uma forma geral, Marcos narra as controvérsias seguindo um esquema fixo e sempre igual: começa com a apresentação da questão, continua com a discussão e termina com um “dito” final de Jesus. Este “dito” não oferece a mera solução do “caso” em questão, mas é sempre uma auto-revelação de Jesus, de importância decisiva para a comunidade cristã do tempo de Marcos e de todos os tempos.

Toda a cena se passa numa “casa”. Que casa é essa? É uma casa onde Jesus está a pregar a Palavra e é uma casa onde «de novo acorreu tanta gente, de modo que nem sequer podiam comer». É também uma casa onde estão sentados/instalados alguns especialistas da Lei (escribas). A “casa” onde Jesus prega, onde se congrega a comunidade judaica e onde há escribas instalados, poderia ser uma figura da sinagoga, entendida como assembléia do Povo de Deus. O fato de se referir que a “casa” em questão estava situada na cidade de Cafarnaum (o centro a partir do qual irradia a atividade de Jesus na Galileia) poderia indicar que Marcos está a falar da comunidade judaica da Galileia, em cujas sinagogas Jesus acabou de passar (cf. Mc. 1,39), anunciando a Boa Nova do Reino. Em qualquer caso, a “casa” representa essa comunidade judaica a quem Jesus dirige a pregação do “Reino”.

A mensagem evangélica de hoje apresenta três diálogos de Jesus: dois com os seus familiares, no princípio e no fim, outro com os escribas, no meio.

Fiquemo-nos pelos familiares de Jesus. Diz-se que vão a Cafarnaum para levar Jesus desta casa onde está para a sua casa em Nazaré. Muitas são as razões: muito tempo fora da família, notícias contraditórias sobre a sua atividade, mensagem em contraste com a doutrina oficial dos escribas e fariseus, contacto com os pecadores de quem é amigo, não seguimento da tradição dos antigos nem respeito pelo sábado; enfim, Jesus é considerado louco e herético. A intenção principal é reconduzi-lo ao caminho reto de um autêntico judeu.

Há os que ficam de fora e os que estão dentro. Imagem atualíssima para nós hoje. Podemos andar por fora, arredios, ficar à porta, até nos chamarmos “católicos não praticantes”. Que significa isso? Faz sentido? Ou se é ou não se é. Aí está de novo a radicalidade da opção por Jesus. Ou ficamos for, ou estamos dentro da casa, unidos a Jesus, a escutá-l’O e a segui-l’O com todo o nosso ser, com todo o nosso coração.

Jose Inaldo Lima

 

 

Muita gente  por aí orgulha-se dos seus “galões”, dos seus títulos, das suas vaidades, da sua pertença a este ou àquele grupo de Igreja, como se isso representasse um título de glória e de vaidade.

Para ser cristão não é preciso ter muito títulos, nem pertencer a muitos grupos, nem sequer é necessário trazer uma cruz ao peito ou tê-la em casa, se bem que a cruz deve ser nossa companhia diária.

No Evangelho de hoje notamos um contraste muito grande entre os discípulos de Jesus e os familiares de Jesus. Sabemos que Jesus era verdadeiramente Deus e também verdadeiramente homem e, como homem, tinha familiares como qualquer um de nós. Ora alguns deste familiares não aceitavam bem o que Jesus dizia e o que Jesus fazia e até o tratavam como “louco”. Os familiares não reconhecem Jesus como enviado de Deus não acreditam n’Ele, em contraste com Maria e os Apóstolos (Mc. 3,31-35 e At. 1,13-14). A expressão utilizada “para ter mão nele”, mostra esta incompreensão que Jesus teve por parte de alguns familiares.

Por outro lado temos Maria, Sua mãe e os Apóstolos, que acreditaram n’Ele e O seguiram e deram a vida por Ele.

Ou seja, para Jesus os laços familiares naturais contam pouco. O que conta é o laço da fé. Por isso Jesus diz: «Quem amar o pai ou a mãe mais do que a mim, não é digno de mim. Quem amar o filho ou filha mais do que a mim, não é digno de mim.» (Mt. 10,37)

Perante o Evangelho de hoje coloca-se então a pergunta: Quem é o verdadeiro cristão? Quem faz parte da autêntica família de Jesus? Vejamos o que Ele nos ensina no Evangelho de hoje: «Aí estão minha mãe e meus irmãos. Aquele que fizer a vontade de Deus, esse é que é meu irmão, minha irmã e minha mãe.»(Mc 3,34-35)

Quem anda na Igreja, e tenta o mais possível ser fiel a Jesus, sabe perfeitamente que, muitas vezes, é a própria família – o pai, a mãe, o marido, a esposa – que nos impedem de cumprir com os nossos deveres na Igreja. São muitos os pais, que retiram os filhos da catequese, muitos os esposos que afastam  as esposas, ou vice-versa, das coisas de Deus. Então, temos de ser fortes e firmes na fé no seguimento de Jesus ainda que isso nos faça sofrer. Só assim somos dignos de Jesus.

Fazer a vontade de Deus é isso que nos torna verdadeiramente cristãos. Devemos olhar mais para Deus e menos para nós, olhar mais para as coisas invisíveis do que para as visíveis. As invisíveis são eternas, enquanto as visíveis são passageiras (cf. 2Cor. 4,13)

Porque é que o ouro, a prata ou o diamante têm muito mais valor do que o plástico, a madeira ou o ferro? Precisamente porque são mais fortes, mais resistentes, mais duradouros. Ninguém vai mandar fazer uma estátua  ou mesmo uma moeda de plástico. Se quer que a estátua ou a moeda tenham valor terá que a fazer de bronze, de prata ou de ouro.

Do mesmo modo quando fazemos um banquete não colocamos garrafas, pratos, talheres de plástico ou guardanapos de papel, mas escolhemos a louça e o vidro. Porquê? Porque estes materiais têm mais valor.

Por conseguinte, se efetivamente queremos assegurar o nosso futuro eterno, não podemos apenas olhar para as coisas do mundo. Essas são passageiras e muitas vezes até nos levam ao pecado.

Quantas vezes gostaríamos de viver numa família melhor, numa empresa melhor, numa escola melhor e não vivemos. E de quem é a culpa? É do marido, é dos filhos, é da esposa, é da sogra, é do patrão ou dos colegas de trabalho? Quantas vezes as coisas não correm melhor por causa de nós, pela nossa teimosia em não querermos ser diferentes,  teimosia em mantermo-nos centrados em nós em vez de pensarmos mais nos outros.

O mandamento é claro: «Amarás a Deus com todo o coração e ao próximo como a ti mesmo». Esta é a lei da felicidade. Fazer felizes os que vivem à nossa volta. Se assim fizermos somos todos mais felizes.

A fé em Cristo introduz-nos na família de Deus. Escutar e fazer a vontade de Deus faz-nos parte integrante da Sua família. Maria, em especial, é duplamente honrada porque:

- é Sua família por ser Sua mãe, trouxe-O no ventre;

- é Sua família porque O escuta e faz a Sua vontade. Por isso, traz Jesus no seu coração.

Sigamos o exemplo de Maria. Sigamos o exemplo dos Apóstolos e dos grandes santos, que amaram mais a Jesus do que ao mundo, porque O traziam sempre no coração.

padre Luís Pinho