Duas questões

O Evangelho de hoje apresenta-nos duas questões difíceis: o pecado contra o Espírito Santo e o os “irmãos” de Jesus.

“Todos os pecados serão perdoados aos filhos dos homens, mesmo as suas blasfêmias; mas todo o que tiver blasfemado contra o espírito Santo jamais terá perdão, mas será culpado de um pecado eterno” (Mc 3,28-29).

O Catecismo da Igreja Católica dá a interpretação autêntica dessa passagem com as seguintes palavras: “A misericórdia de Deus não tem limites, mas quem se recusa deliberadamente a acolher a misericórdia de Deus pelo arrependimento rejeita o perdão de seus pecados e a salvação oferecida pelo Espírito Santo. Semelhante endurecimento pode levar à impenitência final e à perdição eterna” (Cat. 1864). No fundo, o pecado contra o Espírito Santo é um endurecimento interior que não permite a pessoa se arrepender dos próprios pecados. Logicamente, sem arrependimento não há perdão! Por outro lado, é muito difícil verificar se alguém pecou contra o Espírito Santo; na prática, até o final da vida de uma pessoa não se pode saber se tal impenitência foi um pecado contra o Espírito Santo. Em efeito, uma pessoa poderia se arrepender nos últimos momentos de sua existência e ser alcançado pela salvação. Definitivamente, a resposta a essa questão – foi ou não um pecado contra o Espírito Santo? – continuará, enquanto não chega o juízo final, conhecida somente por Deus e pela pessoa em questão.

Falar sobre o pecado contra o Espírito Santo deveria nos ajudar a ver que o arrependimento dos nossos pecados é uma graça de Deus. Ao mesmo tempo essa graça só nos alcança se nós quisermos: a salvação é obra de Deus em nós, mas não sem nós. Nesse sentido, a nossa súplica poderia ser semelhante àquela que muitos sacerdotes ainda rezam antes da Santa Missa: “Concedei-nos, Senhor onipotente e misericordioso, a alegria com a paz, a emenda de vida, o tempo para fazer penitência, a graça e a consolação do Espírito Santo e a perseverança nas boas obras. Amém”.

Quanto à segunda questão, vamos ler de novo o texto do Evangelho. Alguns disseram a Jesus: “Tua mãe e teus irmãos estão aí fora e te procuram” (Mc 3,31). Jesus teve outros irmãos? Caso a resposta fosse afirmativa, Maria teria tido outros filhos. Mas isso não pode ser!

Nesse caso, a Bíblia Ave-Maria traz uma boa explicação no seu índice doutrinal: “São indicados: Tiago, José, Judas, Simão: Mc 6,3. Não se trata, porém, de irmãos no sentido estrito, filhos dos mesmos pais. Os evangelistas afirmam que Jesus foi o filho único da Virgem Maria: Mc 6,3; Jo 19,26ss. Nem há motivo para supor que São José tivesse outros filhos de um matrimônio anterior. Por outro lado, a palavra “primo” não existe nem no hebraico nem no aramaico. Os “irmãos de Jesus” tinham outra mãe que não Maria Santíssima. São Mateus em 27,56 menciona, entre as mulheres presentes à crucificação de Cristo, Maria, mãe de Tiago e José. Essa Maria é esposa de Cléofas, conforme Jo 19,25. Provavelmente se trata de uma irmã de Maria, mãe de Jesus. Portanto, Maria e seu esposo Cléofas eram os pais de Tiago e de José. Eles tinham ainda outro filho por nome Judas, que em sua epístola se diz irmão de Tiago. Esse Tiago só pode ser filho de Cléofas, pois o outro Tiago era irmão de São João Evangelista, que era filho de Zebedeu. Resta Simão. Egesipo o dá também como filho de Cléofas. Não constam seus pais. Tenha-se em conta que Nossa Senhora é chamada “mãe de Jesus” e nunca “mãe dos irmãos de Jesus”. Se Maria tivesse outro filho, Jesus não a teria confiado a João, filho de Zebedeu. A família de Nazaré aparece apenas com três pessoas: Jesus, Maria e José. Aos doze anos, Jesus vai ao templo exclusivamente com Maria e José”. Ainda que se trate de uma exegese complexa, é válida! Maria só teve um Filho: Jesus Cristo. Ela é a Virgem-Mãe!

padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa

 

 

Fazer a vontade de Deus

Jesus foi por toda a Galiléia pregando o Evangelho nas sinagogas e expulsando os demônios. O fato despertava tanto entusiasmo entre o povo, que os escribas- incrédulos e perversos-, sem poder negar tal evidência e não querendo reconhecer em Jesus o Messias, atribuem o Seu poder à influência de Belzebu. E o Mestre reage a esta insinuação: “Se, portanto, satanás se levanta contra si mesmo e se divide, não poderá sobreviver, mas será destruído” (Mc. 3,26).

Jesus coloca as coisas no seu lugar! Nele trava-se o grande combate entre o bem e o mal, entre Deus e satanás, o adversário da humanidade. Jesus é mais forte do que o príncipe dos demônios. Veio a este mundo para combatê-lo. Vence-o no deserto após o seu batismo; vence-o expulsando os demônios. É Ele o homem forte que guarda a casa. Tudo isso Ele o faz pelo Espírito Santo e não por algum espírito imundo.

O Senhor convida os fariseus, obcecados e endurecidos, a fazer uma consideração simples: se alguém expulsa o demônio, isto quer dizer que é mais forte do que ele. É uma exortação a mais a reconhecer em Jesus o Deus “forte”, o Deus que com o Seu poder liberta o homem da escravidão do demônio. Terminou o domínio de satanás: o príncipe deste mundo está a ponto de ser expulso. A vitória de Jesus sobre o poder das trevas, que culmina como na Sua Morte e Ressurreição, demonstra que a luz está já no mundo. Disse-o o próprio Senhor: “Agora é o julgamento deste mundo. Agora que o príncipe deste mundo vai ser lançado fora (cf. Jo 12,31-32).

Por isso, acreditar no poder de Cristo Jesus é confiar na misericórdia e no perdão de Deus. Ele tem o poder de perdoar pecados, pois por sua morte e ressurreição há de vencer definitivamente a satanás e o pecado. Este é, na verdade, o maior adversário do ser humano, pois o afasta da comunhão com Deus.

“Saíram para agarrá-Lo, porque diziam que estava fora de si” (Mc. 3,21). Alguns de seus parentes, deixando-se levar por pensamentos meramente humanos, interpretavam a absorvente dedicação de Jesus ao apostolado como um exagero, explicável- na sua opinião- apenas por uma perda de juízo. Ao ler estas palavras do Evangelho pensemos no que Jesus se submeteu por nosso amor: disseram que Ele tinha “perdido o juízo”. Muitos santos, a exemplo de Cristo, passarão também por loucos, mas serão loucos de amor, loucos de amor a Jesus Cristo!

Comunicam a Jesus que a Sua Mãe e alguns parentes vieram à sua procura. Jesus respondeu-lhes: “Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mc 3 , 35). Todos aqueles que, seguindo o Seu exemplo, abraçam a vontade do Pai e a cumprem, ficam unidos a Ele com vínculos tão íntimos, só comparáveis aos mais estreitos laços familiares. E desta união a Cristo, na mesma vontade do Pai, é que se tiram forças para vencer satanás.

Por isso, a Igreja recorda-nos que a Santíssima Virgem “acolheu as palavras com que o Filho, pondo o reino acima de todas as relações de parentesco, proclamou bem-aventurados todos os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática; coisa que Ela fazia fielmente” (Lumen Gentium, 58).

O Senhor, pois, nos ensina também que segui-Lo nos leva a compartilhar a Sua vida até tal ponto de intimidade que consistiu um vínculo mais forte que o familiar.

A verdadeira família de Jesus é formada pelos que estão ao redor dele e que fazem a vontade de Deus.

Maria era mãe duplamente: porque gerou Jesus e porque mais do que ninguém soube fazer sempre a vontade de Deus.

mons. José Maria Pereira

 

 

Primeira leitura: Génesis: 3,9-15.20

Narra-se nos primeiros versículos deste capítulo do Livro do Gênesis (vv. 1-8) a queda dos nossos primeiros pais: a serpente tenta a mulher e esta induz o marido.

Agora Deus procede ao contrário: pergunta primeiro ao marido (vv. 9.11); este responde (vv. 10.12); depois pergunta à mulher (v. 13) mas à serpente não pergunta; amaldiçoa-a diretamente (v. 14).

Por aqui se vê que as perguntas dirigidas por Deus a modo de instrução judicial, não são um meio de que necessite para o conhecimento da situação, mas sim uma forma de que se serve para que os réus sejam conscientes da culpa e entendam a pena.

«Onde estás?» (v. 9) Porque te escondes? Não é verdade que Deus passeava sempre pela brisa da tarde ao encontro de Adão? E tinha então algum receio da presença de Deus? Então que te aconteceu?

Adão reconhece que agora tem medo e esse medo vem da sua nudez (v. 10). Não estava nu antes? Sim, mas agora a nudez é algo que lhe provoca o descontrolo, o desequilíbrio das paixões em ebulição entre as quais a vergonha da mulher e o medo de Deus.

«Quem te deu a conhecer?» (v. 11). A árvore da ciência do bem e do mal não acrescenta um único conhecimento objetivo ao homem; só lhe acrescenta um conhecimento subjetivo: o da própria malícia. A partir de então o corpo deixa de ser aquilo que é objetivamente, um dom esponsalício de Deus ao homem, e do homem à sua mulher, para se converter subjectivamente num instrumento de malícia, num potencial para a própria maldade,

«A mulher que me deste.» (v. 12). Não era ela totalmente sua? Não era inclusivamente carne da sua carne (cf. Gn. 2,23)? Como é que agora ela se distancia tanto do homem («a mulher que puseste na minha companhia»)? Por estas palavras quase parece ter sido a mulher uma imposição de Deus ao homem, e não ao contrário, uma ajuda adequada para ele (cf. Gen 2,8). Pelo pecado, mesmo as ajudas de Deus perdem a sua graça, as bênçãos são vistas como mal- dições e as dádivas como tributos. O dom de Deus é difícil de perceber pelo pecador (cf. Jo 4,10), que o vê como um peso, um impecilho, uma imposição. É o egoísmo que nos faz pensar assim.

«Que fizeste?… A serpente enganou-me» (v. 13). A mulher ainda se refugia na serpente mas menos do que o homem se tinha refugiado nela. As suas palavras são poucas como quem reconhece mais que pecou. Se é verdade que o Génesis nos apresenta a mulher com mais culpa também o é que ela parece mais arrependida, com menos palavreado de falsa justificação.

O v. 15 apresenta-nos a vingança de Deus. O Senhor usa precisamente a descendência da mulher para sanar o pecado que nela se tinha gerado.

Segunda leitura: 2 Coríntios 4,13-5,1

Três elementos parecem surgir na visão antropológica do Apóstolo: as coisas externas, corruptíveis, aquilo que é interno, que se renova cada vez mais, e a Ressurreição da carne.

No momento presente é a fé que nos faz falar (v. 13; cf. Ps. 116,10). Essa fé revela-nos que, tal como Cristo, seremos ressuscitados, isto é, também segundo a carne (v. 14).

Tal fato afiança-nos na alegria, na ação de graças contínua a Deus (v. 15), apesar de que, visivelmente, o nosso exterior se corrompa e esteja destinado a morrer, com padecimentos, certamente, mas não definitivos (v. 16); mais ainda: esta tribulação presente é leve (v. 17).

Tenha-se em conta que a visão de S. Paulo nunca é dualista: não se trata de um desprezo do corpo por ser corruptível, e em espiritualismo galopante de dia para dia. 0 Apóstolo é claro: quem se corrompe é o «nosso homem» (hêmôn anthrôpos); a pessoa inteira sofre com a degradação de uma das suas partes.

Consola-nos a fé, porque se a nossa habitação terrestre se vai dissolvendo, Deus prepara-nos uma casa eterna nos céus (v. 1).

Evangelho: Marcos 3,20-35

O texto do Evangelho da Missa de hoje apresenta 3 partes: a situação prévia e a reação dos familiares de Jesus (vv. 20-21); a acusação dos escribas (vv. 22-30); de novo os familiares de Jesus (vv. 31-34).

Como vemos, existe uma espécie de inclusão da atitude dos familiares de Jesus, que constitui como que a moldura que envolve uma narração de polêmica do Senhor com os escribas que tinham descido de Jerusalém. As pessoas da família do Mestre não têm tanta azáfama (cf. v. 20), porque o conheciam desde pequenino, como um rapaz completamente normal, e tentam pará-l’O, talvez para que serene e reflita sobre aquele modo louco de proceder (v. 21).

Tal atitude é, além disso, justificada pelas autoridades religiosas, os homens importantes que tinham chegado de Jerusalém; são os que desceram (katabantes) de Jerusalém, que vêm arvorados em juízes, denunciando o Senhor como um possesso de Belzebu (v. 22).

Assim Cristo vê-se obrigado a não só pregar o Reino de Deus, como também a fazer a sua apologia, vincando a impossibilidade de atacar alguém sem ter alguma inimizade com o atingido, e sem, pelo menos, tê-lo impedido de se defender (vv. 23-27). Se o demônio estava manietado já não era mau de todo; algum contributo bom era forçoso admitir da pregação de Jesus.

Mas há ainda outro argumento. De fato a segunda parte do discurso (vv. 28–29) começa com um corte nítido («em verdade vos digo») e um tom notoriamente severo: acusa-se o pecado e dá-se-Ihe, além disso, uma pena(«nunca será perdoado» e «será réu de delito perpétuo». Este argumento só é dito no fim: tem espírito imundo (v. 30). A acusação da falta de pureza, não era somente uma calúnia ou uma manifestação raivosa – como, aliás, todas as outras – de recusa na aceitação da pregação do Mestre; era algo que feria o mais íntimo da Pessoa de Cristo e que atentava retorcidamente, de modo diabólico, contra tudo o que o Senhor viera fazer e ensinar. «A fornicação – dirá mais tarde S. Paulo – nem se mencione entre vós» (Ef. 5,3).

O Senhor nem sequer se detém na defesa tratando o tema da castidade. Esta acusação provoca a ira divina; isto é algo muito mais sério: é a blasfêmia contra o Espírito Santo. E vemos Jesus não já ferido mas irado. A acusação de impureza contaminava imediatamente todos os que andavam com Cristo, e que eram os seus verdadeiros familiares (vv. 33-35). Afastar dele os seus discípulos com um argumento deste género era algo muito mais grave do que simplesmente a calúnia que colocava em guardar aqueles que ainda O não conheciam, ou, pelo menos, não viviam com Ele. Que afastassem d’Ele, ou hostilizassem os seus familiares segundo a carne, era-Lhe mais suportável do que corromperem a relação que unia Cristo com aqueles que procuravam fazer a Vontade do Pai, os seus verdadeiros familiares, segundo o Espírito. E Jesus amaldiçoa violentamente tal tentativa, chamando-a pecado contra o Espírito.

E é então que voltamos a ver os familiares de Jesus. Vêm, desta vez com a Sua Mãe, e não para O deter mas para Lhe falar. Podemos presumir razoavelmente que Ela os terá aproximado do Filho mudando-lhes a atitude que antes tinham (vv. 31-32).

Sugestões para a homilia

“No Senhor está a misericórdia e a abundante Redenção”.

Cuidados a ter para conseguir a nossa tão desejada salvação.

Meios a que podemos e devemos recorrer.

1. No Senhor está a misericórdia e a abundante Redenção.

O demônio, pai da mentira, conseguiu enganar os nossos primeiros pais e ao longo da história da humanidade tem continuado, com suas artimanhas, tentar seduzir os homens.

Frente a tanto engano, logo após a primeira queda, Deus, nosso Pai bondosíssimo, prometeu Alguém, que da descendência da mulher, haveria de esmagar a cabeça da serpente enganadora. E a promessa foi cumprida com a criação de Maria Imaculada, a bendita entre todas as mulheres, que viria a ser a Mãe puríssima de Jesus, Redentor da Humanidade. Apoiados n’Ele e na intercessão valiosíssima de Maria Santíssima, sempre encontraremos as forças necessárias para resistir às tentações do mundo, do demônio e da carne. Pois n’Ele e só n’Ele está a misericórdia e a abundante Redenção.

2. Cuidados a ter para conseguir a nossa tão desejada salvação.

Não foi fácil enganar os nossos primeiros pais. Neles ainda não existiam inclinações para o mal. Apesar disso, o demônio conseguiu vencê-los levando-os a duvidarem do Amor que Deus lhes tinha e neles fazer despertar o orgulho de se sua importância, a tal ponto que passaram a ver no Senhor, não um Amigo, como sempre foi e é, mas como um rival.

O demônio, que existe, mesmo para aqueles que o queiram esquecer ou negar, com maior facilidade nos tenta a nós apontando-nos caminhos errados da vida. Conta com as nossas inclinações para o mal. Como pai da mentira, que é, estimula os enganos do poder, do orgulho pessoal, da vaidade, do ódio, da sensualidade. Para a divulgação destas mentiras, recorre tantas vezes aos meios poderosíssimos da comunicação social que hoje existem. Em tal aproveitamento se comprovam as afirmações de Jesus, quando, a propósito, nos diz que “os filhos das trevas são mais prudentes, que os filhos da luz.”

3. Meios a que podemos e devemos recorrer.

Jesus, nosso amantíssimo Redentor, não nos deixou sós nos caminhos da vida. Ele mesmo continua conosco. Está realmente presente na Santíssima Eucaristia e identifica-se com todos os nossos irmãos, a começar com as crianças, pobres, marginalizados, doentes e presos. Ter fé, para O ver e encontrar, deve ser uma preocupação constante da nossa vida. Com Ele, onipotente e infinitamente bom, todas as dificuldades, por maiores que sejam, serão vencidas. Para a conservação e aumento desta virtude fundamental da fé, que ilumina e dá sentido ao nosso caminhar na vida, é necessário e sempre urgente o recurso à oração, à intercessão da Santíssima Virgem, Mãe de Deus e também nossa terna Mãe do Céu, à escuta e meditação da Palavra de Deus e à frequência dos Sacramentos, nomeadamente da Penitência e da Eucaristia, ao jejum, à esmola, à aceitação dos sacrifícios que a vida nos proporcione, numa total conformidade com a vontade do Senhor.

Nossa Senhora em Fátima veio a todos lembrar, estes meios evangélicos, a que devemos lançar mão de uma forma convicta e constante. Penitência e oração, foi o Seu apelo constante. Vale bem a pena seguir tão bons conselhos desta Mãe, que tanto nos ama. Ela só quer verdadeiramente o nosso bem temporal e eterno. Com uma correspondência generosa a este apelo materno, estaremos também a agradecer a Nossa Senhora, Jesus, o bendito fruto de Seu ventre, no Qual está a misericórdia e a abundante Redenção.

Alves Moreno - Geraldo Morujão

 

 

O pecado de Adão e Eva

O Evangelista São Marcos ressalta na perícope evangélica deste domingo que os adversários de Jesus criticam suas atitudes e salientam que a sua mensagem é contrária à doutrina oficial, isto é, a dos escribas e fariseus.  Eles alegam que o comportamento de Jesus não está de acordo com as sagradas tradições dos antigos por não respeitar o sábado, não estimular os seus discípulos a jejuar, por ser amigo dos pecadores e por não observar as normas que proíbem contatos com pessoas impuras.  Muitos o consideram um herege (Jo 8,48.52) e o acusam ainda de expulsar o demônio pelo poder de Belzebu, o Príncipe dos demônios. A palavra Belzebu – seria interesante recordar – vem do nome de um deus filisteu de Acaron, cujo nome era “Baal das moscas” – Baal Zebud. A mesma palavra foi deformada pelos judeus, e ficou Beelzebul, que significa “o Senhor das esterqueiras”. De qualquer maneira é um nome depreciativo com que os israelitas chamavam o chefe dos espíritos malignos.  Como está no evangelho, os escribas insistem em dizer que Jesus estaria expulsando os demônios pelo poder de Belzebu. Uma colocação inconveniente à qual Jesus responde ser impossível um demônio expulsar o próprio demônio.

Jesus se dirige a eles e esclarece: Satanás, por sua própria natureza, é inimigo do homem, é homicida: tudo o que ele faz é contra a vida e a felicidade do homem.  Ora, tudo aquilo que Jesus realiza é exatamente o contrário: ele socorre o homem e o recupera; restitui-lhe a saúde e comunica-lhe a vida. Quanto à intervenção de seus parentes, Jesus explica que sua verdadeira família não é a do sangue, mas a da fé operante: os que fazem a vontade do Pai (v.35). Para poder fazer parte de sua família é preciso escutar a sua palavra e cumprir a vontade de Deus.

Neste horizonte neotestamentário, meditemos a primeira leitura que nos faz voltar ao livro do Gênesis (cf. Gn 2,4b-3,24), cujo objetivo é falar sobre a origem da vida e do pecado e tem uma finalidade teológica, que tenciona ensinar como o mundo e o homem apareceram e nos diz, em particular, que na origem da vida está Deus e que na origem do mal e do pecado estão as opções erradas do homem. Trata-se, portanto, de uma página importante de catequese que sempre devemos reler.

Em um primeiro momento, o autor sagrado descreve a criação do paraíso e do homem e apresenta a criação de Deus como um espaço ideal de felicidade, onde tudo é bom e o homem vive em comunhão total com o Criador e com as outras criaturas.  Em um segundo momento, é apresentado o pecado do homem e da mulher, mostrando como as opções erradas do primeiro casal humano influenciaram na sua comunhão com Deus, trazendo desequilíbrio para o próprio homem. E, finalmente, o texto apresenta o homem e a mulher confrontados com o resultado das suas opções e as consequências que daí surgiram para ambos e para as gerações vindouras.

Na perspectiva do texto do Gênesis, Deus criou o homem e a mulher para a felicidade.  Mas o homem, que Deus criou livre e feliz, fez escolhas indevidas e, com isto, introduziu na criação dinamismos de sofrimento e de morte.   Os personagens apresentados no texto são Deus, que “passeia no jardim à brisa do dia” (v. 8), e ainda Adão e Eva, que se esconderam de Deus por entre o arvoredo do jardim (v. 8).

O texto começa com uma pergunta do Criador a Adão: “Onde estás?” A resposta do homem já é uma confissão da sua culpabilidade: “Ouvi o rumor dos vossos passos no jardim e, como estava nu, tive medo e escondi-me” (v. 9-10). A vergonha e o medo são sinais de uma perturbação interior, de uma ruptura com a anterior situação de inocência, de harmonia, de serenidade e de paz. Como é que o homem chegou a esta situação? Evidentemente, desobedecendo a Deus e percorrendo caminhos contrários àqueles que Deus lhe havia proposto. A resposta do homem revela que ele tem consciência da sua culpa.

Depois desta constatação, a segunda pergunta feita por Deus ao homem é meramente retórica: “Terias tu comido da árvore, da qual te proibira de comer?” (v. 11). A árvore em causa é a “árvore do conhecimento do bem e do mal”, significa o orgulho, o prescindir de Deus e das suas propostas, o querer decidir por si só o bem e o mal, o pôr-se a si próprio em lugar de Deus, o reivindicar autonomia total em relação ao criador. A situação do homem, perturbado e em ruptura, é já uma resposta clara à pergunta de Deus. Ao desobedecer a Deus, o homem fez a opção por um caminho de independência em relação a Ele. Daí a vergonha e o medo.

Ao defender-se, o homem acusa a mulher e, ao mesmo tempo, acusa veladamente o próprio Deus pela situação em que se encontra: “A mulher que me deste por companheira deu-me do fruto da árvore e eu comi” (v. 12). Adão representa a humanidade que esqueceu os dons de Deus e vê em Deus um adversário; por outro lado, a resposta de Adão mostra, igualmente, uma humanidade que quebrou a sua unidade e se instalou na falta de solidariedade, no ódio. Escolher caminhos contrários aos de Deus não pode senão conduzir a uma vida de ruptura com Deus e com os outros irmãos.

Em seguida, a mulher se defende: “A serpente enganou-me e eu comi” (v. 13). Entre os povos cananeus, a serpente estava ligada aos rituais de fertilidade e de fecundidade. Os israelitas deixavam-se fascinar por esses cultos e, com frequência, abandonavam o Senhor Deus para seguir os rituais religiosos dos cananeus e assegurar, assim, a fecundidade dos campos e dos rebanhos. Na época em que o livro do Gênesis foi escrito, a serpente era, pois, o “fruto proibido”, que seduzia os crentes e os levava a abandonar a Lei de Deus. A “serpente” é, neste contexto, um símbolo literário de tudo aquilo que afastava os israelitas de Deus. A resposta da “mulher” confirma aquilo que até agora estava sugerido: a humanidade que Deus criou ignorou as suas propostas e enveredou por outros caminhos.

A serpente é um animal que passa toda a sua existência comendo o pó da terra. O autor vai servir-se deste dado para ilustrar a condenação radical de tudo aquilo que leva o homem a afastar-se de Deus para seguir outros caminhos.  A inimizade e a luta entre a “descendência” da mulher e a “descendência” da serpente, ressaltadas no texto, podem ser uma explicação do autor sagrado para o fato de a serpente inspirar horror aos seres humanos e todos procurarem “esmagar a sua cabeça”; mas a interpretação judaica e cristã viu nestas palavras uma profecia messiânica: Deus anuncia que um “filho da mulher”, o Messias, o Cristo Jesus, acabará com as consequências do pecado e inserirá a humanidade numa dinâmica de graça.  Nisto consiste a relação da primeira leitura com o Evangelho, onde Cristo é apresentado como o novo Adão, aquele que é capaz de expulsar o demônio tentador.

O autor sagrado, na verdade, não fala de um pecado cometido nos primórdios da humanidade pelo primeiro homem e pela primeira mulher, mas do pecado cometido por todos os homens e mulheres de todos os tempos. Ele está apenas a ensinar que a raiz de todos os males está no fato de o homem virar as costas para a lei de Deus e construir o mundo a partir de critérios próprios.

Um dos mistérios que mais questiona os nossos contemporâneos é o mistério do mal. Esse mal que vemos todos os dias torna sombria e assustadora esta nossa morada que é o mundo em que vivemos. Mas o mal nunca vem de Deus. Deus nos criou para a vida e para a felicidade e nos deu todas as condições para imprimirmos à nossa existência uma dinâmica de vida, de felicidade, de realização plena. O mal resulta das nossas escolhas erradas.  Quando o homem escolhe viver alheio às propostas de Deus, ele constrói o sofrimento e passa a viver no pecado. O tempo em que vivemos é um tempo de vigilância, pois a serpente continua a armar ciladas para os nossos calcanhares.

Saibamos dizer “não” ao pecado e ao erro.  E peçamos ao Senhor que nos ajude a combater o mal e nos faça parte da sua família, ou seja, que possamos ouvir as suas palavras e colocá-las em prática todos os dias.  Assim seja.

dom Anselmo Chagas de Paiva, OSB

 

 

Neste X domingo do tempo comum, a Palavra de Deus leva-nos a meditar sobre a nossa resposta de vida ao projeto de Deus para nós, na liberdade de optar pelo bem e pelo mal.

O Evangelho centra o nosso olhar na pessoa de Jesus, que os seus conterrâneos, entre eles tantos familiares, não aceitaram como enviado de Deus e não perceberam, até se opuseram, à vontade de Deus revelada em Jesus. Na caminhada da fé, cada um é livre de optar: ou ficar pelos dispersos sentidos de vida, ou permanecer na única família de Jesus, de quem quiser fazer a vontade de Deus.

A segunda leitura realça que, para o cristão, viver só faz sentido na certeza da ressurreição, na caminhada de vida interior que se renova dia a dia em perspectiva da eternidade.

Primeira leitura

Um dos mistérios que mais questiona os nossos contemporâneos é o mistério do mal… Esse mal que vemos, todos os dias, tornar sombria e deprimente essa “casa” que é o mundo, vem de Deus, ou vem do homem? A Palavra de Deus responde: o mal nunca vem de Deus… Deus criou-nos para a vida e para a felicidade e deu-nos todas as condições para imprimirmos à nossa existência uma dinâmica de vida, de felicidade, de realização plena.

O mal resulta das nossas escolhas erradas, do nosso orgulho, do nosso egoísmo e autossuficiência. Quando o homem escolhe viver orgulhosamente só, ignorando as propostas de Deus e prescindindo do amor, constrói cidades de egoísmo, de injustiça, de prepotência, de sofrimento, de pecado…

Quais os caminhos que eu escolho?

As propostas de Deus fazem sentido e são, para mim, indicações seguras para a felicidade, ou prefiro ser eu próprio a fazer as minhas escolhas, à margem das propostas de Deus?

A primeira leitura deixa claro que prescindir de Deus e caminhar longe d’Ele, leva o homem ao confronto e à hostilidade com os outros homens e mulheres. Nasce, então, a injustiça, a exploração, a violência. Os outros homens e mulheres deixam de ser irmãos, para passarem a ser ameaças ao próprio bem-estar, à própria segurança, aos próprios interesses.

Como é que eu me situo face aos meus irmãos?

Como é que eu me relaciono com aqueles que são diferentes, que invadem o meu espaço e interesses, que me questionam e interpelam?

A Primeira Leitura ensina, ainda, que prescindir de Deus e dos seus caminhos significa construir uma história de inimizade com o resto da criação. A natureza deixa de ser, então, a casa comum que Deus ofereceu a todos os homens como espaço de vida e de felicidade, para se tornar algo que eu uso e exploro em meu proveito próprio, sem considerar a sua dignidade, beleza e grandeza.

O que é que a criação de Deus significa para mim: algo que eu posso explorar de forma egoísta, ou algo que Deus ofereceu a todos os homens e mulheres e que eu devo respeitar e guardar com amor?

Segunda leitura

A segunda carta de Paulo aos Coríntios apareceu num momento particularmente tenso da relação entre o apóstolo e a comunidade cristã da Grécia. Algumas duras críticas de Paulo (na primeira carta aos Coríntios) a certos membros da comunidade que viviam de forma pouco coerente com a fé cristã provocaram certo desconforto na comunidade, que foi aproveitado pelos opositores de Paulo, que criaram um clima de hostilidade contra o apóstolo. Paulo foi acusado de estar cuidando apenas dos seus próprios interesses e de pregar uma doutrina que não estava em consonância com o Evangelho anunciado pelos outros apóstolos. Na opinião dos seus detratores, o fato de Paulo não ter apresentado qualquer “carta de recomendação” que comprovasse a sua autoridade para anunciar o Evangelho significava que a doutrina por ele pregada não era digna de fé.

Ao saber do que se passava, Paulo foi a Corinto; mas essa ida não só não resolveu o problema, como até o radicalizou. Deve ter havido uma troca violenta de argumentos e de palavras e Paulo foi gravemente ofendido por um membro da comunidade. Algum tempo depois, Tito, amigo e colaborador de Paulo, partiu para Corinto com a missão de acalmar os ânimos e de tentar a reconciliação. Quando voltou, Tito trazia notícias animadoras: as divergências foram ultrapassadas e os Coríntios estavam, outra vez, em comunhão com Paulo. Foi então que Paulo escreveu a nossa segunda Carta aos Coríntios. Nela, o apóstolo explicava tranquilamente aos Coríntios os princípios que sempre orientaram o seu trabalho apostólico (cf. 2Cor. 1,3-7,16) e desmontava os argumentos dos adversários (cf. 2Cor. 10,1-13,10). Estávamos nos anos 56/57.

Neste contexto, o texto da Segunda Leitura situa-nos na opção pelo sentido da nossa vida em Cristo. Paulo apresenta duas fortes convicções de fé: “com este mesmo espírito de fé, também acreditamos, e falamos”, que Deus há-de ressuscitar-nos com Jesus e vai levar-nos para ficarmos eternamente em comunhão com Ele; o homem interior renova-se em cada dia na medida em que intensifica o seu olhar nas coisas invisíveis que são eternas. Em consequência, há que renovar constantemente, sem desanimar, esta opção pela habitação eterna, em comunhão plena com Deus. Coisas essenciais, ditas de modo claro, a exigir coerência àqueles que querem continuar a viver como autênticos discípulos de Cristo.

Evangelho

O pecado contra o Espírito Santo

Por que razão é a « blasfêmia » contra o Espírito Santo imperdoável? Em que sentido devemos entender esta «blasfêmia»? São Tomás de Aquino responde que se trata de um pecado «imperdoável pela sua própria natureza, porque exclui aqueles elementos graças aos quais é concedida a remissão dos pecados». Segundo tal exegese, a « blasfêmia » não consiste propriamente em ofender o Espírito Santo com palavras; consiste, antes, na recusa de aceitar a salvação que Deus oferece ao homem mediante o mesmo Espírito Santo, que age em virtude do sacrifício da Cruz. Se o homem rejeita este deixar-se «convencer quanto ao pecado», que provém do Espírito Santo e tem caráter salvífico, rejeita contemporaneamente a «vinda» do Consolador: aquela «vinda» que se efetuou no mistério da Páscoa, em união com o poder redentor do Sangue de Cristo, o Sangue que «purifica a consciência das obras mortas».

Sabemos que o fruto desta purificação é a remissão dos pecados. Por conseguinte, quem rejeita o Espírito e o Sangue permanece nas «obras mortas», no pecado. E a «blasfêmia contra o Espírito Santo» consiste exatamente na recusa radical desta remissão de que Ele é o dispensador íntimo, e que pressupõe a conversão verdadeira, por Ele operada na consciência. Se Jesus diz que o pecado contra o Espírito Santo não pode ser perdoado, nem nesta vida nem na futura, é porque esta «não-remissão» está ligada, como à sua causa, à «não-penitência», isto é, à recusa radical da conversão.

A blasfêmia contra o Espírito Santo é o pecado cometido pelo homem, que reivindica o seu pretenso «direito» de perseverar no mal — em qualquer pecado — e recusa por isso mesmo a Redenção. O homem fica fechado no pecado, tornando impossível da sua parte a própria conversão e também, consequentemente, a remissão dos pecados, que considera não essencial ou não importante para a sua vida. É uma situação de ruína espiritual, porque a blasfêmia contra o Espírito Santo não permite ao homem sair da prisão em que ele próprio se fechou.

 

 

Neste horizonte neo-testamentário, meditemos em particular a primeira leitura que nos mostra, recorrendo à história mítica de Adão e Eva, o que acontece quando rejeitamos as propostas de Deus e preferimos caminhos de egoísmo, de orgulho e de auto-suficiência… Viver à margem de Deus leva, inevitavelmente, a trilhar caminhos de sofrimento, de destruição, de infelicidade e de morte.

Jesus, com sua ação e sua palavra, desafia os costumes da época. Sua forma de agir se converte em uma ameaça para a autoridade política do momento; transforma-se em blasfêmia para o aparato religioso e se constitui em verdadeira vergonha para os mais próximos dele e até para os de sua família. Hoje vemos como a família de Jesus o busca, com o único desejo de deter sua ação no meio daquela sociedade. Jesus não é compreendido pelas pessoas de seu tempo, tampouco pela sua família. Ele, que era um líder social e religioso, vive na própria carne a rejeição e a incompreensão dos seus. As pessoas estão tão conformadas com a realidade em que vivem que não se imaginam em algo novo, não querem conhecer novas realidades, nem de Deus nem do ser humano, nem de sua sociedade. Jesus sabe que tem que pagar muito caro ao tocar nas estruturas de poder. A incompreensão é um dos testes para a autenticidade de nossa missão.

Os familiares acreditavam que Jesus estivesse fora de si, maluco; mais ainda: agora os líderes religiosos lançam o boato de que estava possuído por Belzebu, o chefe dos demônios, devido aos exorcismos que realizava.

A maneira mais eficiente dos inimigos tentarem abalar o prestígio de Jesus foi satanizar a sua obra. Jesus não seria apenas um louco digno de pena, mas um agente de Satanás. Jesus, porém, descobre suas más intenções. Aí aparece a forma como o mal se manifesta: na tentativa de perverter a intenção dos que fazem o bem. Porém o evangelista nos diz: com chegada do reino de Deus, com a chegada de Jesus, o mal vai ser derrotado. O bem vai vencer a maldade do coração humano e das estruturas sociais perversas. Jesus veio para isso: para destruir o reino do mal que destrói a dignidade do ser humano. E o demônio deveria ser detido e impedido de agir.

No mundo de hoje muitos procuram demonizar a atuação e o compromisso dos que são comprometidos com a justiça e a paz. Muitas vezes são tachados de demagogos, comunistas, pró-terroristas. A forma de descobrir o que é de Deus e o que não é já foi dada por Jesus: por seus frutos os conhecereis.

Serviço Bíblico Latino Americano

 

 

O tema deste X domingo do tempo comum gravita à volta da identidade de Jesus e da comunhão que Ele deseja estabelecer com aqueles que se colocam à disposição de o seguir: fica claro que Jesus não tem qualquer aliança com o Demônio e com o poder do mal e que se quer definir pela sua relação de obediência com Deus Pai, el convida todos aqueles que se querem sentir parte da sua família.

No Evangelho, Jesus demonstra que, na sua atividade de libertação do poder do mal, não pode pactuar com o Demônio, mas vem para libertar os homens e as mulheres de todos os tempos. Também nisso está fazendo a vontade de Deus e convida todos a fazer uma comunidade centrada na sua pessoa e decidida a construir um mundo que se baseie neste desejo de fazer a vontade de Deus.

A primeira leitura traz-nos o diálogo de Deus com as figuras poéticas do primeiro homem e da primeira mulher, depois da queda. Este texto procura nos chamar ao sentido da existência, deixando claro que todos somos chamados a não pactuar com o mal e estar de sobreaviso diante das tentações do Maligno.

Na segunda leitura, São Paulo mostra como as tribulações que sofre não abrandam o seu ardor missionário, que se caracteriza pela grande confiança em Deus e na vida eterna que há de conceder; duas grandes atitudes qualificam o ministério de Paulo: a esperança de estar unido com Jesus na ressurreição tal como o está na tribulação terrena e o desejo íntimo de estar em comunhão com os cristãos a quem anuncia o Evangelho de Jesus Cristo.

Primeira leitura: Gênesis (3,9-15)

Porei inimizade entre a tua descendência e a descendência da mulher

1 - O estilo do texto da primeira leitura, de diálogo entre Deus e os personagens deste relato, ajuda a colocar-se na narrativa, escutando as perguntas de Deus ao homem: “Onde estás?”, “Terias tu comido dessa árvore, da qual te proibira comer?”, e à mulher: “Que fizeste?”. Uma vez que todas estas questões têm um sentido existencial, seria bom voltar às origens, poder localizar-nos no espaço de Deus, responder pelas nossas ações e verificar se as nossas respostas diferem das dos personagens deste relato.

2 - Diz-se que é comum a tendência para desculpabilizar, desresponsabilizar e autojustificar-se; também neste relato se vê um contínuo passar da culpa para os outros personagens. Retomando as questões anteriores, poderá ser hora de assumir as nossas responsabilidades diante de Deus, sabendo que, como dirá o Salmo 129 (130), “no Senhor está a misericórdia e a abundante redenção”. A autojustificação não é caminho; o caminho passa pela justificação trazida por Cristo na sua morte de cruz, para nos reconciliar com o Pai.

3 - A origem última de toda a complicação remonta ao fato de se ter dado ouvidos à serpente. Se vemos na serpente uma imagem do diabo e do poder do mal, é importante estar de sobreaviso diante da tentação do maligno. Como várias vezes tem ensinado o Papa Francisco: “Não se dialoga com o demônio”. Ainda o Papa Francisco: “A vida cristã é uma luta permanente. Se requer força e coragem para resistir às tentações do demônio e anunciar o Evangelho. […]. Não pensemos que é um mito, uma representação, um símbolo, uma figura ou uma ideia. Este engano leva-nos a diminuir a vigilância, a nos descuidar e a ficar mais expostos. O demônio não precisa nos possuir. Envenena-nos com o ódio, a tristeza, a inveja, os vícios. E assim, enquanto abrandamos a vigilância, ele aproveita para destruir a nossa vida, as nossas famílias e as nossas comunidades, porque, “Sede sóbrios e vigiai. Vosso adversário, o demônio, anda ao redor de vós como o leão que ruge, buscando a quem devorar" (1Pd. 5,8)” (Gaudete et Exsultate 158-161).

Segunda leitura: Coríntios (4,13-18-5,1)

Nós também cremos e, por isso, falamos

1 - A atitude de Paulo diante das tribulações serve de modelo para os cristãos de todos os tempos, como atitude a conservar diante das provas e tribulações, quer derivem do exercício dos diversos ministérios na comunidade eclesial, quer se refiram a tantas outras situações que derivam do próprio “ser cristãos” no mundo contemporâneo. É antes de mais uma atitude de fé e de confiança que tem a eternidade como fim bem visível. A ressurreição de Cristo abriu caminho, para mostrar que a vida humana não se confina à vida terrena, mas é chamada à vida de comunhão com Jesus ressuscitado, sentado à direita do Pai. A fé na vida eterna deve continuar a iluminar o momento presente dos cristãos.

2 - A comunhão eclesial é certamente uma das marcas distintivas do que significa ser cristãos. Jesus chama a essa comunhão o mandamento novo do amor e reza para que a comunhão eclesial se mantenha e seja imagem da sua comunhão com o Pai. Paulo dá mostras de como viver, porque espera continuar unido aos cristãos, a quem se dirige, também na vida eterna. Além disso, todo o seu ministério apostólico se destina a gerar novos cristãos. Paulo é exemplo do desempenho do ministério como serviço à Igreja, não para a sua glória pessoal, não para se servir, mas verdadeiramente para servir.

Evangelho Marcos (3,20-35)

Satanás será destruído

1 - O tema principal do texto do Evangelho deste domingo mostra que desde os inícios do cristianismo os cristãos sentiram necessidade de responder à pergunta: “Quem é Jesus?”. Ainda hoje, na ação pastoral da Igreja, sobretudo nas catequeses, é importante que todos os cristãos conheçam a identidade de Jesus, até mesmo para poderem estabelecer com ele uma relação personalizada.

2 - Fazer parte da família de Jesus é a vocação fundamental dos cristãos de todos os tempos. Por isso, são chamados a formar comunidade, que está centrada na pessoa de Jesus e que tem como única missão fazer a vontade de Deus em todas as circunstâncias da vida. É a isso que chama o Evangelho quando Jesus apresenta a sua verdadeira família: é quem faz a vontade de Deus e toma lugar ao redor de Jesus.

3 - O método para estabelecer uma relação de familiaridade com Jesus passa necessariamente por seguir o seu exemplo: é Ele o primeiro a fazer a vontade de Deus, mesmo quando isso acarreta incompreensão e rejeição do seu ministério. O cristão continua no mundo a missão de Jesus e tem como único horizonte fazer a vontade de Deus; esta é uma das petições do Pai Nosso, a oração que Jesus ensina a rezar: «Faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu».

4 - Quando o cristão se decide seguir Jesus, isso implica necessariamente que renuncie ao mal e ao demônio. Tal como Jesus estabelece uma clara separação entre o seu serviço e o poder de Satanás, desde o primeiro momento da vida cristã, os cristãos são chamados a renunciar a Satanás e a fazer a sua profissão de fé em Deus. Na vida ordinária, isso implica que se tenha claro que algumas práticas de bruxaria, feitiçaria e cartomancia não são práticas próprias de um cristão, mas aprisionam; Jesus vem libertar-nos desse aprisionamento de Satanás e é necessário deixar-se libertar.

O Espírito da liberdade

Jesus é um homem radicalmente livre. Manifestou-o passo a passo em sua vida. E também na forma que teve de enfrentar a sua própria morte. Hoje nosso mundo tem também sede de liberdade. Os povos querem ser libertados da opressão, que vem de seus próprios governantes e que vem do domínio de outros povos. Os jovens querem ser livres da autoridade de seus pais para poder fazer sua vontade. O slogan da liberdade é uma das poucas coisas que ainda são capazes de fazer com que as pessoas de todas as classes e ideologias saiam às ruas e defendam o direito sagrado da liberdade.

Porem ser livre continua sendo uma aventura difícil, um caminho arriscado. Significa assumir a responsabilidade de tomar as rédeas da própria vida. Implica assumir também os erros sem buscar desculpas, sem colocar a culpa aos outros. Isso é difícil. Isso custa. A primeira leitura é um exemplo claríssimo de que não se nasce livre mais que se aprende a ser livre com esforço. Adão e Eva não souberam assumir sua própria responsabilidade. O que fizeram foi jogar a culpa um no outro. O castigo sobrou para a serpente porque já não tinha a ninguém a quem jogar a culpa. Pelo contrário, o Evangelho evidencia a soberana liberdade de Jesus. Para defender sua própria opção não tem medo a se enfrentar não só à sociedade mais a sua própria família. Sente-se livre dos laços sociais e dos laços familiares. A tal ponto que declara que sua família não é a do sangue senão a dos que obedecem a vontade de Deus. E Deus não tem outra vontade que nossa salvação e nossa liberdade. Porque “para que sejamos homens livres que Cristo nos libertou ” (Ga. 5,1). Essa liberdade levou Jesus ao confronto com a sociedade de seu tempo. Levou à morte. Mas não renunciou a ela pela vida. Jesus disse com sua vida “antes morto que ajoelhado”. Puderam tirar-lhe a vida, mas não a liberdade.

O pecado maior de que fala Jesus no Evangelho não é outro que a renúncia à liberdade. A liberdade é o dom maior que Deus nos presenteou. Renunciar a ela significa renunciar a ser filhos, renunciar a ser pessoas. Hoje o Evangelho convida-nos a seguir nosso caminho. Seguir a Jesus não é outra coisa que viver a fundo nossa liberdade e tomar nossas decisões conscientes de que não há mais que uma realidade: que todos somos irmãos e irmãs, filhos do mesmo Pai. E assumir a responsabilidade de nossas ações deve ter como objetivo construir fraternidade e não a destruir. Porque a glória de Deus não é senão o bem do homem. Essa é a vontade de Deus. Esse é a mensagem que Paulo pregou sempre: livra-nos de toda opressão para viver na liberdade dos filhos. Que nunca pequemos contra o Espírito da liberdade!

Fernando Torres, cmf

Fontes de referência

Liturgia - A Palavra de Deus na Vida – CNBB

Ciudad Redonda: Comunidad Católica

Família Dehoniana

 

 

O pecado contra o Espírito Santo

Por que razão é a «blasfêmia» contra o Espírito Santo imperdoável? Em que sentido devemos entender esta «blasfêmia»? São Tomás de Aquino responde que se trata de um pecado «imperdoável pela sua própria natureza, porque exclui aqueles elementos graças aos quais é concedida a remissão dos pecados». Segundo tal exegese, a «blasfêmia» não consiste propriamente em ofender o Espírito Santo com palavras; consiste, antes, na recusa de aceitar a salvação que Deus oferece ao homem mediante o mesmo Espírito Santo, que age em virtude do sacrifício da Cruz. Se o homem rejeita este deixar-se «convencer quanto ao pecado», que provém do Espírito Santo e tem caráter salvífico, rejeita contemporaneamente a «vinda» do Consolador: aquela «vinda» que se efetuou no mistério da Páscoa, em união com o poder redentor do Sangue de Cristo, o Sangue que «purifica a consciência das obras mortas».

Sabemos que o fruto desta purificação é a remissão dos pecados. Por conseguinte, quem rejeita o Espírito e o Sangue permanece nas «obras mortas», no pecado. E a «blasfêmia contra o Espírito Santo» consiste exatamente na recusa radical desta remissão de que Ele é o dispensador íntimo, e que pressupõe a conversão verdadeira, por Ele operada na consciência. Se Jesus diz que o pecado contra o Espírito Santo não pode ser perdoado, nem nesta vida nem na futura, é porque esta «não-remissão» está ligada, como à sua causa, à «não-penitência», isto é, à recusa radical da conversão.

A blasfêmia contra o Espírito Santo é o pecado cometido pelo homem, que reivindica o seu pretenso «direito» de perseverar no mal — em qualquer pecado — e recusa por isso mesmo a Redenção. O homem fica fechado no pecado, tornando impossível da sua parte a própria conversão e também, consequentemente, a remissão dos pecados, que considera não essencial ou não importante para a sua vida. É uma situação de ruína espiritual, porque a blasfêmia contra o Espírito Santo não permite ao homem sair da prisão em que ele próprio se fechou.

João Paulo II

 

 

A nova família de Jesus

Jesus está em Cafarnaúm. Vem da sua terra natal, percorre a Galileia e faz-se hóspede em casa de Simão. Entretanto, chama discípulos, cura doentes, entusiasma tantas pessoas que deixam tudo, o acompanham e acorrem a Ele. Está a ponto de nem sequer poder comer. (Mc 3, 20-35). É impressionante este início da missão em público. A novidade surpreendente mobiliza e interpela. A Nazaré, chegam ecos desta actividade e os familiares poêm-se a caminho para O deter, “pois diziam: está fora de Si”. Mais tarde, Jesus volta à sua terra natal e nela é recebido de forma tão hostil que querem lançá-lo por um precipício. Estranha reacção esta, a de O considerarem sem juízo, em vez de se abrirem à novidade, à interrogação, à busca de sentido oculto nas aparências. E eu como me sinto? Qual a minha reacção face à novidade de Jesus? Não podemos nós correr um risco semelhante? Convém estar atentos, lúcidos e abertos.

“A hostilidade e o duro juízo dos familiares de Jesus, anota Manicardi, p. 107, iluminam um dos aspectos das suas escolhas: a sua vida itinerante e celibatária com uma pequena comunidade de discípulos, prejudica economicamente a família, que se vê privada não só de um dos seus membros, mas também das vantagens económicas e do prestígio social que a aliança com outro grupo familiar, garantida por um casamento, teria trazido”

As notícias a respeito de Jesus espalham-se, atingem Jerusalém, e os escribas decidem enviar uma embaixada fiscalizadora. Já trazem o parecer formado, acusando-O de possesso que age às ordens do grande cfefe: Belzebú. Apesar disso, Jesus acolhe-os amigavelmente, chama-os para junto de si, e começa a falar-lhes em parábolas. Que atitude contrastante e intenção reveladora! Que pedagogia de Mestre que assume o nível dos seus interlocutores para iniciar a possível caminhada para a verdade. E que verdade!

Jesus faz descer a acusação doutrinal para a vida prática. Recorre a dois exemplos correntes: O reino e a casa. Ambos são objecto de tentação: o reino, de divisão; a casa, de assalto. No entanto, não correm perigo maior enquanto o defensor estiver vigilante e tiver forças para resistir. Jesus fazia alusão clara às forças do mal de que era acusado de estar possesso. Mas se vem alguém mais forte e amarra com segurança quem tem o dever de guardar, então a situação altera-se profundamente. É o que está a acontecer. As forças diabólicas estão vencidas e controladas. Marcos, o narrador da parábola, não regista qualquer contestação dos escribas. Por agora, calam-se, mas ficam a remoer a novidade.

Os discípulos acompanham a cena, vêem as attitudes, ouvem os diálogos e, possivelemmente, guardam na memória o que lhes pode servir de referência exemplar na vida futura. E não lhes faltarão acusações difamatórias e de condenação. A história regista um esclarecedor repertório.

Jesus tem um proceder que parece estranho para com os parentes, sobretudo a Mãe. E não é. Este momento constitui a grande revelação da Sua nova família. Avisado de que haviam chegado e vinham à sua procura, faz um gesto singular: “Olhando para aqueles que estavam à sua volta, disse: «Eis a minha Mãe e meus irmãos. Quem fizer a vontade de Deus esse é meu irmão, minha irmã e minha Mãe» ”.

Este é o maior elogio a Maria de Nazaré, a afadigada mãe que, sabendo que o filho corria perigo, se põe a caminho para o proteger como dom que Deus lhe confiara e nela gerara. Este é o maior reconhecimento da dignidade de todos os que, à imagem de Maria, aceitam pela fé o convite para serem fecundos no apostolado. Este é o maior desafio que fica posto aos discípulos fiéis: situar sempre o valor da vida numa perspectiva de doação incondicional, ainda que seja preciso chegar ao martírio. Este é a maior provocação à Igreja cristã que, no proceder de Jesus, lança as raízes estáveis para os vendavais da história. Esta é a sabedoria que irradia: fazer das adversidades oportunidades de novas mensagens.

A passagem do Evangelho da liturgia de hoje faz-nos mergulhar na revolução que Jesus aporta para todo o mundo, pode ler-se no comentário de “Vers le Dimanche”, nº 498, 10 de Junho de 2018, Revolução que, para os sábios da sua época, é semelhante à que a teoria de Copérnico desencadeou. O Espírito age no mundo e vai ganhar ao chefe dos demónios. Revolução que, para a família de Jesus e dos que o seguiam com prazer, reveste a fisionomia de uma revolução familiar: os elos de sangue são suplantados pelos laços do coração e da fé, que o Espírito tece no seio da grande família humana que vem reconciliar. Revolução que nos quer atingir pessoalmente e nos faz olhar e reconhecer as pessoas da rua ou dos foéis da missa como uma mãe, um irmão ou uma irmã potencial de Jesus. Como ´cada um de nós. E vem a pergunta crucial: Para mim, quem conta realmente na vida? De quem me sinto mais próximo? Seria muito útil elaborar uma lista de nomes e, por cada um, louvar o Senhor que nos une e aproxima.

Fazer a vontade de Deus é o segredo da nova fraternidade. Sem limites de espaço, de tempo, de credo político, de culturas, de sistemas económicos, de religião. Quem é honesto com a sua consciência iluminada pela sabedoria dos povos, codificada em sentenças ou registada em obras memoráveis; quem articula o bem pessoal com o bem comum e trabalha pela felicidade de cada pessoa concreta e de todas em conjuntos humanos; quem pratica o voluntariado em qualquer das suas expressões por amor de doação; quem professa explicitamente a fé cristã e vive em Igreja, sendo coerente em todo o seu agir…, estes estão abrangidos pelo olhar benevolente de Jesus, o rosto misericordioso de Deus Pai, e sob a protecção maternal de Maria. Que olha cada um na sua situação concreta e, por isso, diversificada, dando origem a um arco-iris de representações religiosas. Objectivamente, nem todas explicitam com a mesma intensidade o rosto do nosso Deus. Mas a diferença, não anula a realidade; antes a enriquece.

A Igreja constitui, por excelência sacramental, a nova família de Jesus. Faz-nos bem reconhecê-lo no conjunto de tantas outras formas de presença. Faz-nos bem apreciar e viver, nas relações pessoais e institucionais, o correspondente espírito filial e fraterno.  Somos a nova família de Jesus!

padre Georgino Rocha

 

 

Quando Jesus começou o seu ministério, as multidões reagiram de maneira muito positiva, mas bem cedo começa a experimentar a oposição dos escribas e fariseus que chegam a conspirar com os herodianos sobre o modo de eliminar Jesus (Mc 3,6). No texto deste domingo Marcos apresenta-nos a opinião dos familiares e a dos escribas acerca da ação de Jesus. O texto termina com a apresentação da nova família de Jesus.

A atividade de Jesus e dos seus discípulos é tão intensa que nem conseguem alimentar-se. Todo este movimento de multidões em torno de Jesus provoca reações e boatos que chegam longe, aos ouvidos dos familiares. «Está fora de si!» – pensa muita gente e assim pensam os seus familiares que resolvem ir de Nazaré a Cafarnaum para deterem Jesus e o levarem para casa (v. 21). É natural que se preocupem com a reputação da família e queiram evitar a vergonha de ter um membro louco a «fazer figuras tristes».

Enquanto os familiares de Jesus não chegam, Marcos intercala a opinião dos escribas de Jerusalém: «Ele tem Belzebu!»; «É pelo príncipe dos demônios que ele expulsa os demônios» e «Tem um espírito maligno». Tentam, desta forma, desacreditar Jesus perante o povo, fazendo crer que Jesus age pela força do demônio e não pela força de Deus. Começa, assim, a ação dos opositores de Jesus no sentido de o destruírem. Esta acusação poderia levar Jesus a ser julgado pelo Sinédrio.

Por meio de «parábolas», Jesus mostra o ridículo desta acusação: Satanás a combater-se a si mesmo. Porém, a ação de Jesus mostra bem que ele tem poder sobre Satanás, isto é, já «amarrou o homem forte» para o poder combater e destruir. Por isso, qualquer pessoa pode reconhecer claramente na ação de Jesus o poder atuante de Deus sobre o mal. A não ser que negue a ver a evidência! Os escribas declararam que a obra de Deus era má e que a acção de Jesus era demoníaca, fechando-se assim à sua ajuda e recusando a salvação que Deus oferece aos homens por meio do seu Filho.

Para quem se recusa a aceitar a evidência de Deus na sua vida, atribuindo ao demônio o que é divino («Tem um espírito maligno»), Deus não tem lugar, isto é, não há espaço para o perdão que Deus oferece, simplesmente porque este perdão é recusado: «Não tem perdão para a eternidade, mas é réu de pecado eterno».

Quando os familiares de Jesus chegam, ficam do lado de fora… Dentro, ao redor de Jesus, há uma multidão de gente… «Quem são minha mãe e meus irmãos?». Parece uma pergunta pouco respeitosa para com os familiares. Porém, Jesus não quer excluir a sua mãe e os seus irmãos (familiares) mas estabelecer um conceito de família que inclua todos os que cumprem a vontade de Deus. Durante a sua vida pública, os seus familiares não creram nele. Após a ressurreição, o seu «irmão» Tiago tornou-se o responsável da comunidade de Jerusalém. Tinha-se criado uma nova relação de familiaridade. A partir de agora, os únicos laços familiares que verdadeiramente são importantes têm que passar forçosamente pela relação com Deus: «Aquele que faz a vontade de Deus, esse é que é meu irmão, minha irmã e minha mãe».

padre Franclim Pacheco

 

 

Marcos 3.20-35: Voz de Deus e vozes demoníacas

Distinguir a voz de Deus das vozes diabólicas nem sempre é tão simples! Muitas violências e injustiças já foram cometidas “em nome de Deus”, desde os “tempos de Adão e Eva”... E, ao que tudo indica, esse “filme” está longe do seu fim! E certamente esse não é um problema apenas de facções radicais do Islamismo...

Confundir as vozes demoníacas ou diabólicas com a voz de Deus pode acontecer com inocentes ou ingênuos. Talvez esse tenha sido o caso daquele homem “possuído por um espírito impuro” que viu em Jesus uma ameaça aos sagrados costumes do povo dominado pelas autoridades da sinagoga (Mc. 1,21-28). Pode ter sido o caso também dos familiares de Jesus que aparecem no Evangelho deste domingo.

Mas pessoas que pretendem ser as mais religiosas e santas não estão imunes a essa teologia ao avesso, que vê como divino aquilo que é diabólico e como demoníaco aquilo que é divino. Pode ocorrer com pessoas que se agarram à bíblia, pessoas muito piedosas, ou gente que não aceita as crenças dos outros. Tais pessoas acham que o diabo está agindo sempre nos outros, isto é, naqueles que pensam de maneira diferente ou que questionam as incoerências da sociedade, de sua Igreja ou religião.

Foi isso que também aconteceu com Jesus. No Evangelho de hoje, aparecem dois grupos de pessoas que, em nome de Deus, têm dificuldades para aceitar os comportamentos e as idéias de Jesus. Em primeiro lugar, entram em cena os parentes de Jesus. Eles vão ao seu encontro para segurá-lo, para impedir que ele continue sua missão, porque pensam que Jesus tinha ficado louco. Em outras palavras, eles não dizem, mas pensam que um demônio tomou conta de Jesus. Por isso, era preciso agir: levar Jesus para casa e dar-lhe umas boas lições... tentar convencê-lo de que estava, no mínimo, equivocado ou que estava se excedendo e prejudicando, com isso, também todos os seus parentes...

Outro grupo, com ótima formação bíblica e teológica (mestres da Lei ou escribas), vai mais longe e diz que “Ele está possuído por Belzebu”, e que “é pelo príncipe dos demônios que ele expulsa os demônios”. Eles justificam, assim, a sua perseguição contra Jesus. Aí já não se trata mais de ingenuidade ou inocência. E o julgamento é explícito: Jesus seria uma peça na estratégia do chefe dos demônios (Belzebu), talvez uma vítima inocente dele... Eles acusam Jesus de se fazer de “santo”. Por isso, o povo ingênuo estaria correndo atrás dele. Mas, segundo os mestres da Lei o acusam de estar sutilmente a serviço do poder do mal, destruindo as coisas sagradas de Deus... Na verdade, Jesus seria um charlatão, um enganador do povo.

Jesus desmascara essa inversão que acha que é diabólico aquilo que vem de Deus. Ele mostra que esses seus adversários estão pecando contra o Espírito Santo, justamente porque invertem o que é de Deus e o que é diabólico. A avaliação de Jesus é muito grave, porque esse pecado contra o Espírito Santo impede as pessoas de ouvirem o que Deus tem a dizer, porque elas estão vendo tudo com os olhos de seus próprios interesses. Como podem tais pessoas estar em comunhão com Deus? Aqueles que pretendem ter o direito de condenar Jesus em nome de Deus revelam que eles mesmos é que estão dominados pelo poder da ideologia, numa cultura e religião que transformaram em ídolo seus interesses excludentes e discriminadores.

Os conflitos de Jesus iniciam muito cedo. Estamos ainda no capítulo 3 do Evangelho de Marcos. Aliás, já no início desse capítulo, fariseus e herodianos haviam decretado seu fim, por verem nele um perigo que tinha de ser cortado pela raiz.

O Evangelho deste domingo termina com um anúncio esperançoso: há novos irmãos, irmãs e mães de Jesus que não o consideram louco. São aqueles que aprendem com Jesus um novo jeito de entender e fazer a vontade de Deus. A vontade de Deus vai muito além do cumprimento de alguns ritos e leis, como pretendiam os “piedosos” adversários de Jesus; ela tem seu foco na vida e na libertação das escravidões e dominações sofridas pelos filhos e filhas de Deus. É por isso que Jesus expulsa tantos demônios no Evangelho de Marcos. E quem vive fazendo assim a vontade de Deus, diz Jesus, “esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”.

Que Deus nos conceda estarmos sempre entre esses novos familiares de Jesus!

Léo Zeno Konzen

 

 

Seguir Jesus e formar com ele uma nova família

As águas se dividem, as posições se definem (Mc. 3,20-35)

Jesus voltou para casa. O domicílio dele agora é em Cafarnaum. Já não mora mais com a família em Nazaré. Sabendo que Jesus estava em casa, o povo foi ate lá. Juntou tanta gente que ele nem tinha tempo para comer. Quando os parentes de Jesus souberam disso, disseram: "Ficou louco!" Talvez, porque Jesus tinha saído fora do comportamento normal. Talvez, porque comprometia o nome da família. Seja como for, os parentes decidem levá-lo de volta para Nazaré. Sinal de que o relacionamento de Jesus com a sua família estava estremecido. Isto deve ter sido fonte de muito sofrimento, tanto para ele como para Maria, sua mãe. Mais adiante (Mc. 3,31-35) Marcos conta como foi o encontro dos parentes com Jesus. Eles chegaram na casa onde Jesus estava. Provavelmente tinham vindo de Nazaré. De lá até Cafarnaum são uns 40 quilômetros. Sua mãe veio junto. Eles não podiam entrar na casa, porque havia gente demais na entrada. Por isso mandaram um recado: Tua mãe, teus irmãos e tuas irmãs estão lá fora e te procuram! A reação de Jesus foi firme perguntando: Quem é minha mãe, quem são meus irmãos? E ele mesmo responde apontando para a multidão que estava ao redor: Eis aqui minha mãe e meus irmãos! Pois todo aquele que faz a vontade de Deus é meu irmão, minha irmã, minha mãe! Alargou a família! Jesus não permite que a família o afaste da missão.

*  A situação da família no tempo de Jesus

No antigo Israel, o clã, isto é, a grande família (a comunidade), era a base da convivência social. Era a proteção das pequenas famílias e das pessoas, a garantia da posse da terra, o veículo principal da tradição, a defesa da identidade. Era a maneira concreta do povo daquela época encarnar o amor de Deus no amor ao próximo. Defender o clã, a comunidade, era o mesmo que defender a Aliança. Na Galiléia do tempo de Jesus, por causa do sistema romano, implantado durante os longos governos de Herodes Magno (37 a.C. a 4 a.C.) e de seu filho Herodes Antipas (4 a.C. a 39 d.C.), tudo isto já não existia mais, ou cada vez menos. O clã (comunidade) estava enfraquecendo. Os impostos a serem pagos tanto ao governo como ao templo, o endividamento crescente, a mentalidade individualista da ideologia helenista, as freqüentes ameaças de repressão violenta por parte dos romanos, a obrigação de acolher os soldados e dar-lhes hospedagem, os problemas cada vez maiores de sobrevivência, tudo isto levava as famílias a se fecharem sobre si mesmas e dentro das suas próprias necessidades. Já não se praticava mais a hospitalidade, a partilha, a comunhão de mesa e a acolhida aos excluídos. Este fechamento era reforçado pela religião da época. A observância das normas de pureza era fator de marginalização de muita gente: mulheres, crianças, samaritanos, estrangeiros, leprosos, possessos, publicanos, doentes, mutilados, paraplégicos. Em vez de acolhida, partilha e comunhão, estas normas favoreciam a separação e a exclusão.

Assim, tanto a conjuntura política, social e econômica como a ideologia religiosa da época, tudo conspirava para o enfraquecimento dos valores centrais do clã, da comunidade. Ora, para que o Reino de Deus pudesse manifestar-se, novamente, na convivência comunitária do povo, as pessoas tinham de ultrapassar os limites estreitos da pequena família e abrir-se de novo para a grande família, para a Comunidade.

Jesus deu o exemplo. Quando seus parentes chegaram em Cafarnaum e tentaram apoderar-se dele para levá-lo de volta para casa, ele reagiu. Em vez de fechar-se na sua pequena família, e alargou a família (Mc. 3,33-35). Criou comunidade. Ele pedia o mesmo de todos que queriam segui-lo. As famílias não podiam fechar-se. Os excluídos e os marginalizados deviam ser acolhidos, novamente, dentro da convivência e, assim, sentir-se acolhidos por Deus (cf. Lc. 14,12-14). Este era o caminho para realizar o objetivo da Lei que dizia: "Entre vocês não pode haver pobres" (Dt 15,4). Como os grandes profetas do passado, Jesus procura reforçar a vida comunitária nas aldeias da Galiléia. Ele retoma o sentido profundo do clã, da família, da comunidade, como expressão da encarnação do amor de Deus no amor ao próximo.

Carlos Mesters e Mercedes Lopes "Caminhando com Jesus"

 

 

Quem são, hoje, nossos irmãos e nossas irmãs?

Marcos (3,20-35) responde: Quem é Jesus? Não apresenta uma resposta teológica, mas fundamentada o seguimento e engajamento nas práticas de Jesus. Nesta celebração, trabalha a resposta através dos exorcismos e indica claramente os modos como as pessoas vão se definindo contra ou a favor de Jesus.

Marcos apresenta Jesus, tantas vezes, no meio da multidão onde, ao que parece, ele se sente "em casa". Nessa casa ele vai mostrando quem ele é. A casa de Jesus, local da sua morada, repouso do seu coração e missão, é onde se reúne os sofredores e discriminados de toda a espécie, a ponto de ele e seus discípulos não terem tempo para comer e dormir.

Mas realizar as obras de Jesus e proclamar o seu evangelho é muito perigoso, pois, mexe com muita gente e relativiza as instituições religiosas do tempo. O segredo dos inimigos é desmoralizar ou rebaixar quem age desse jeito, fazendo um jogo sujo. Na verdade, Jesus toca e relativiza a sociedade estabelecida, causando rupturas profundas, mesmo na sua família.

padre Marcelino Sivinski

 

 

Jesus revela novos laços familiares no Reino

O Evangelho de Marcos revela a nova relação entre o povo e Deus, que se estabelece através de Jesus. O que se vê é uma grande multidão de excluídos, seja dentre gentios, seja da dispersão do judaísmo, que se reúne em torno da casa onde se encontra Jesus. Esta multidão se diferencia do "pequeno resto", estabelecido na sinagoga e no Templo, gozando de privilégios e isolado da maioria do povo, considerada pecadora por infringir qualquer um dos 613 mandamentos da Lei, tendo como protótipo Eva, que infringiu a proibição do Criador.

Com Jesus temos uma nova realidade, destacada pelos evangelhos ao mencionarem centro e quarenta e nove vezes a "multidão" que se relaciona com Jesus. Esta relação é uma característica muito mais marcante da índole e da personalidade de Jesus do que as narrativas de seus milagres possam significar.

É uma chave de leitura para compreendermos a presença de Jesus no mundo, em relação com todos os povos e culturas, não se limitando a grupos religiosos específicos. O termo grego traduzido por "familiares" pode significar uma proximidade consanguínea ou de amizade. Pode-se também interpretar que o verbo usado no texto, "enlouqueceu", refira-se a Jesus ou à multidão.

Assim, pode-se entender que, ou os familiares ou os discípulos de Jesus, não o compreendendo e julgando-o fora de si, queriam retê-lo, ou julgando a multidão demais agitada queriam protegê-lo. Os escribas vindos de Jerusalém são os enviados dos chefes religiosos que tinham em mãos o culto sacrifical do Templo e o dinheiro do Tesouro, anexo ao Templo. Eles se empenham em difamar Jesus, para afastar o povo dele.

O Espírito Santo é o amor. Considerar a sobras de amor do Espírito como sendo obras do demônio significa o distanciamento e até a ruptura com o próprio amor de Deus. Rejeitar e matar os que com  amor buscam resgatar a dignidade humana dos empobrecidos, explorados e excluídos significa a rejeição da vida e do amor de Deus.

A partir de uma referência à sua família carnal, Jesus afirma: "Quem é minha mãe? Quem são meus irmãos? ...  Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã, minha  mãe". É a união em torno da prática da vontade de Deus que cria os novos laços familiares no Reino.

Viver o amor, o serviço, a partilha, a misericórdia, solidariamente com os  mais necessitados, é inserir-se na família de Jesus, quer seja por laços consanguineos, quer não, certos da comunhão de vida eterna com Jesus.

Paulinas

 

 

“Quem blasfemar contra o espírito santo nunca será perdoado

Nesse retorno ao tempo comum a liturgia remete-nos ao primeiro livro das Sagradas Escrituras, o Gênesis, e fala-nos sobre o primeiro deslize do homem e da mulher que, pela primeira vez, desobedeceram ao seu Criador, originando assim o distanciamento da criatura com o seu Criador. Quando o homem (e mulher) está em estado de amizade com Deus, em estado de graça, não se envergonha de permanecer na presença do Senhor, mas quando comete uma desobediência, um pecado, além de afastar-se de Deus, sente vergonha de estar na sua presença, porque se sente nu, nu das vestimentas da graça de Deus, nu das vestes da santidade: “Ouvi a tua voz no jardim e fiquei com medo, porque estava nu; e me escondi.” (Gn. 3,10). Não foi isso que o primeiro homem disse ao seu Criador depois de te-lo desobedecido?

Quando nos escondemos de Deus, queremos ficar longe de sua visão, é porque temos consciência de que cometemos algum deslize, alguma desobediência, algum pecado, porque o pecado é exatamente dizer “não” ao plano de salvação de Deus, é dizer não ao próprio Senhor.

Mas, quando cometemos um pecado, uma desobediência, a culpa nunca é nossa; alguém foi o culpado, colocamos a culpa em alguém. Não foi o que aconteceu com o primeiro homem em relação à mulher? “A mulher que tu me deste por companheira, foi ela que me deu o fruto da árvore, e eu comi.” (Gn. 3,12). Também foi o que aconteceu com a mulher em relação à serpente, quando Deus lhe perguntou porque fizera aquilo, e a mulher respondeu: “A serpente enganou-me, e eu comi.” (Gn 3,13). Modificou alguma coisa desde a criação do mundo até os dias de hoje? 

Tudo aquilo que origina pecado ou incentiva desobediência ao Criador, merece castigo e é amaldiçoado pelo próprio Criador, e foi o que Deus fez com quem quis fazer o homem igual a Deus: “Porque fizeste isso, serás maldita entre todos os animais domésticos e todos os animais selvagens! Rastejarás sobre o ventre e comerás pó todos os dias da tua vida!” (Gn. 3,14).

Não é isso que acontece com todos aqueles que se afastam de Deus por aderir ao pecado? Rasteja como cobra sobre o próprio ventre e come o pó da terra, isto é, coloca-se rente ao chão, no lugar mais distante do Criador, e isso Jesus explicita bem na parábola do Pai Misericordioso (filho pródigo), onde o filho que abandonara a casa do pai passa a viver na miséria e até a comer comida dos porcos que cuidava (cf. Lc. 15,11-31).

A primeira mulher, Eva, desnudou-se e desnudou a humanidade da graça de Deus, e fez com que a humanidade sentisse vergonha de sua nudez diante do Criador.

Maria, a mãe de Jesus revestiu a humanidade da roupa da graça e através do fruto do seu ventre, toda a humanidade revestiu-se novamente da graça de Deus.

Assim fala a respeito disso São Luiz Maria Grignion de Montfort no seu livro “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem”: “O que Lúcifer perdeu por orgulho, Maria ganhou por humildade. O que Eva condenou e perdeu pela desobediência, salvou-o Maria pela obediência. Eva, obedecendo a serpente, perdeu consigo todos os seus filhos e os entregou ao poder infernal; Maria, por sua perfeita fidelidade a Deus, salvou consigo todos os seus filhos e servos e os consagrou a Deus.”

Assim como a árvore do Éden possuiu o fruto do pecado e da desobediência, Maria é a árvore que dá o fruto da vida, conforme diz o mesmo santo no mesmo livro: “Jesus é em toda parte e sempre o fruto e o Filho de Maria; e Maria é em toda parte a verdadeira árvore que dá o fruto da vida, e a verdadeira mãe que o produz.”

E o Criador complementa, dizendo à serpente: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela. Ela te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar.” (Gn 3,15). Ainda diz são Luiz Grignion de Montfort no seu livro em relação a Maria: “Uma única inimizade Deus promoveu e estabeleceu, inimizade irreconciliável , que não só há de durar, mas aumentar até ao fim: a inimizade entre Maria, sua digna Mãe, e o demônio; entre os filhos e servos  da Santíssima Virgem  e os filhos sequazes de Lúcifer; de modo que Maria é a mais terrível inimiga que Deus armou contra o demônio.”

Será lido ou cantado, nesta liturgia o Salmo 129 (130).

Segundo o frei Carlos Mesters, “este Salmo  tem duas partes. A primeira (vs. 1-4) traz uma prece em forma de grito que sai do fundo da alma do ser humano. Uma prece que revela uma nova experiência de Deus. Ele é graça e perdão. A segunda parte (vs. 5-8) traz o resultado dessa prece, a saber, uma nova atitude de vida, que nasce da experiência de Deus. Essa nova atitude, aqui no salmo, se traduz em esperança e paz, tanto em nível pessoal como em nível de povo.” Este Salmo é um grito de socorro de quem está em desespero por estar acometido de um grande mal, ou do corpo ou da alma: “Das profundezas eu clamo para ti, Yahweh: Senhor, ouve o meu grito. Que os teus ouvidos estejam atentos ao meu pedido por graça! Yahweh, se levas em conta as culpas, quem poderá  resistir? Mas de ti  vem o perdão, e assim infundes  respeito” (Sl. 129(130),1-4).

A passagem do Evangelho dissertada nesta liturgia traz muitas informações.

Diz que “Jesus voltou para casa” (Mc. 3,20). Essa casa para a qual Jesus retorna ficava na cidade de Cafarnaum, para onde ele se mudara ao iniciar a sua vida pública: “Deixou Nazaré e foi morar em Cafarnaum, que fica às margens do mar da Galiléia...” (Mt. 4,13; 9,1) onde Jesus ensinava na sinagoga (cf. Mc. 1,21ss).

Pedro e seu irmão André também moravam em Cafarnaum (Mc. 1,29; Mt 8,14-15; Lc. 4,38-39). Moraria Jesus com Pedro e André? Os evangelhos não deixam isso claro.

O assédio das pessoas que buscavam conforto, principalmente físico e material, era tanto que “reuniu tanta gente que eles nem sequer podiam comer.” (Mc. 3,20)

Outra informação prestada neste Evangelho é que os parentes de Jesus, por suas atitudes e mudança quase que repentinas de vida, julgavam que ele estivesse fora de si e foram até Cafarnaum para, possivelmente, trazê-lo de volta a Nazaré (cf. Mc. 3,21.32).

Claro que isso é um assunto importante e requer uma meditação profunda e acurada. Faremos isso numa próxima oportunidade.

E Jesus, sem sombra de dúvida, em sua casa, começou a atender as necessidades dos que o procuravam: confortou desesperados, curou doenças, expulsou demônios.

Por causa disso, principalmente por expulsar demônios, alguns mestres da Lei, também conhecidos e chamados de doutores da Lei ou escribas que eram todos aqueles que se diziam entendidos nas coisas da Lei de Moisés e que pretendiam ser os chefes espirituais do povo, saíram de Jerusalém para atestar e combater os ensinamentos de Jesus considerando que, por várias vezes Jesus os afrontou e os chamou “hipócritas”, conforme consta em Mateus 23,23-36, e onde Jesus diz, entre outras coisas: “Ai de vocês, doutores da Lei e fariseus hipócritas! Vocês fecham o Reino do Céu para os homens. Nem vocês entram, nem deixam entrar aqueles que desejam. [...] Guias cegos! Vocês coam um mosquito, mas engolem um camelo. Ai de vocês, doutores da Lei e fariseus hipócritas... [...] Ai de vocês, doutores da Lei e fariseus hipócritas! Vocês são como sepulcros caiados: por fora parecem bonitos, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e podridão. Assim também vocês: por fora parecem justos diante dos outros, mas por dentro estão cheios de hipocrisia e podridão. [...] Serpentes, raças de cobras venenosas! Como é que vocês poderiam escapar da condenação do inferno?” (Mt. 23,13.24-25.27.33).

Quem são os fariseus e os doutores da Lei dos nossos dias? Claro que essa raça de gente queria surpreender a Jesus em qualquer que fosse o deslize que ele pudesse praticar contra a Lei de Moisés. E eles saíram de Jerusalém e foram até Cafarnaum para esse mistér, não se importando em caminhar por aproximadamente 120 milhas, ou 193 quilômetros, que era a distância entre Jerusalém e Cafarnaum para buscar êxito em sua empreitada.

Não somente isso: tiveram que se submeter a atravessar o território da Samaria, que ficava entre a Judéia e a Galiléia, considerando que os samaritanos eram inimigos dos judeus. Eles não podiam perder essa oportunidade. E então, os “mestres da Lei, que tinham vindo de Jerusalém, dizendo que ele estava possuído por Belzebu e que pelo príncipe dos demônios ele expulsava os demônios.” (Mc 3,22). Não foi por acaso que Jesus os chamou à parte e falou-lhe em parábolas, considerando que Belzebu era, para os doutores da Lei, um vocábulo depreciativo e era tido como “o senhor do esterco”, ou seja, do sacrifício oferecido aos ídolos.

E Jesus lhes diz: “Como é que satanás pode expulsar satanás? Se um reino se divide contra si mesmo, ele não poderá manter-se. Se uma família se divide contra si mesma, ela não poderá manter-se. Assim, se satanás se levanta contra si mesmo e se divide, não poderá sobreviver, mas será destruído.” (Mc. 3,23-26).

Os mestres da Lei não podiam permitir que a popularidade de Jesus tomasse vulto e, como não tinham argumentos para contrapor a isso, desesperadamente buscavam meios para denegrir sua imagem e seus maravilhosos poderes. Finalmente, decidiram alegar que ele expulsava demônios pelo poder do próprio satanás (Mt. 12,22-32; Mc. 3,22-30; Lc. 11,14-23).

Jesus, porém, respondeu com três argumentos e uma advertência.

Primeiro argumento: satanás não atacaria a si mesmo, pois ninguém luta contra si mesmo.

Segundo argumento: satanás não poderia lutar contra o seu próprio reino, pois dividiria o seu reino e ele enfraqueceria e, terceiro argumento: para roubar a casa de um homem forte, tem-se primeiro que amarrá-lo. Expulsando demônios, Jesus estava amarrando satanás, de modo que poderia cumprir sua missão de resgatar àqueles que satanás mantinha cativos.

Por fim, Jesus faz uma séria advertência: “Em verdade lhes digo: tudo será perdoado aos homens, tanto os pecados como qualquer blasfêmia que tiverem dito. Mas quem blasfemar contra o Espírito Santo nunca será perdoado; será culpado de um pecado eterno.” (Mc. 3,28-29).

O que é blasfemar?  Blasfemar é insultar, afrontar, injuriar, difamar. Noutras palavras, blasfemar é uma ofensa extremamente grave.

A blasfêmia contra o Espírito Santo foi o mais terrível pecado do qual o incrédulo povo de Israel se fez culpado. Esse povo atribuiu a satanás o poder do Espírito Santo do qual Jesus estava revestido. Isto era extremamente grave e nem mesmo tinha sentido lógico.

Os adversários de Jesus, mestres da Lei, blasfemavam contra o próprio Jesus e contra o Espírito Santo, declarando consciente, proposital e seguidamente que Jesus operava milagres pelo poder de satanás, Belzebu, o chefe dos demônios (Mt. 9,32-34; 12,22-24; Mc. 3,22; Lc. 11,14,15).

Com essa blasfêmia, eles estavam rejeitando, de modo deliberado, o Espírito Santo que operava em Jesus, o Messias (Mt. 12,28; Lc. 4,14-19; Jo 3,34; At. 10,38).

Entenda-se a blasfêmia contra o Espírito Santo como a rejeição continuada e deliberada do testemunho que o Espírito Santo dá de Jesus Cristo, da sua Palavra e da sua obra de convencer o homem do pecado (cf. Jo 16,7-11).

Aquele que rejeita a voz do Espírito se opõe a ela, afasta de si mesmo o único recurso que pode levá-lo ao perdão – o Espírito Santo.

O pecado contra o Espírito Santo consiste na rejeição da graça de Deus; é a recusa da salvação. Implica numa rejeição completa à ação, ao convite e à advertência do Espírito Santo.

O Papa Pio X, 1903 a 1914, em seu Catecismo Maior, ensinou que são seis os pecados contra o Espírito Santo.

Primeiro: desesperar da salvação, ou seja, não acreditar que possa ser salvo, achando que tudo está perdido.

Segundo: Presunção da salvação, ou seja, a pessoa julgar que não importa que tipo de vida leve, boa ou má, já se considera salva. Devemos acreditar na misericórdia divina.

Terceiro: negar a verdade conhecida e transmitida por Jesus Cristo no seu Evangelho tendo a Igreja como depositária fiel.

Quarto: ter inveja da graça que Deus dá aos outros. A inveja é um sentimento que consiste em irritar-se porque o outro conseguiu algo de bom. É o ato de não querer o bem do semelhante.

Quinto: a obstinação no pecado é a vontade firme de permanecer no erro mesmo após a ação de convencimento do Espírito Santo. É não aceitar a ética cristã.

E, sexto: a impenitência final é o resultado de toda uma vida de rejeição a Deus: o indivíduo persiste no erro até o final, recusando arrepender-se e penitenciar-se, recusando a salvação até o fim. Consagra-se ao adversário de Cristo. Nem mesmo na hora da morte tenta aproximar-se do Pai, manifestando humildade e compaixão. Não se abre ao convite do Espírito Santo definitivamente.

Esse é a blasfêmia conta o Espírito Santo.

O pecado contra o Espírito Santo consiste na rejeição da graça de Deus; é a recusa da salvação. Implica numa rejeição completa à ação, ao convite e à advertência do Espírito Santo.

“Todo o que tiver falado contra o Filho do Homem será perdoado. Se, porém, falar contra o Espírito Santo, não alcançará perdão nem neste século nem no século vindouro” (Mt. 12,32).

“Vocês então podem imaginar o castigo bem mais severo, que merecerá aquele que pisou o Filho de Deus, que profanou o sangue da aliança, pelo qual foi santificado, e que insultou o Espírito da graça.” (Hb. 10,29).

diácono Milton Restivo

 

 

Por que temos medo de quem é diferente?

“Os mestres da lei, que tinham vindo de Jerusalém,

diziam que Ele estava possuído por Belzebu…”

Desconcertante: exatamente assim foi Jesus; e sabemos disso através dos evangelhos. Jesus foi um homem que viveu e falou de tal maneira que se revelou desconcertante para aqueles que o conheceram e se aproximaram dele. Jesus desconcertou sua família que o considerava louco; desconcertou àqueles que o acusavam de “blasfemo”, de “Belzebu”, de “escandaloso”. Jesus desconcertou todo mundo, até o final de sua vida, que foi o mais desconcertante de tudo. Desconcertou porque assumiu uma postura diferente frente ao contexto social, religioso e político no qual viveu. Jesus não se “encaixou” em nenhum grupo e deixou transparecer sua liberdade frente às leis, às tradições de seu povo, ao templo, aos poderes... Por isso foi incompreendido e rejeitado.

Numa sociedade corrupta e deformada, uma pessoa que se ajusta ao modo de proceder e de pensar dos intolerantes e preconceituosos, não desconcerta ninguém; é uma pessoa “formatada” que passa pela vida sem deixar “marcas”, sem saber “por quê e para quê vive”, deixando tudo como está.

Jesus viveu deslocamentos contínuos; fez-se presente em diversos lugares; teve contatos com outras culturas, raças, expressões religiosas… Tudo isso o enriqueceu, tornando-o diferente, aberto; sua vida se ampliou, sua mente se abriu, seu coração se expandiu… Nova visão, nova experiência…

Seu movimento de vida foi desencadeado nas casas, ao longo dos seus percursos; Jesus desejou que também sua casa entrasse nesse movimento em favor da vida. Mas não foi acolhido pelos seus parentes, pois não se “encaixou” mais nos esquemas da família, da religião, da sua comunidade… Seus parentes em Nazaré continuaram vivendo uma estreiteza de vida; Jesus não voltou mais o mesmo, saiu da “normalidade” de vida própria de Nazaré. Voltou enriquecido, expansivo, muito maior, mas não foi compreendido.

O deslocamento de Jesus pelos territórios vizinhos da Galileia revela-se como um apelo e uma ocasião privilegiada para pôr em questão nosso confinamento religioso, nossas posturas fechadas, nossas visões preconceituosas... e abrir-nos à diversidade e ao diferente. Sem alteridade regenerante caímos no confina-mento de uma pureza de ortodoxia, de um fascismo enrustido, de um legalismo estéril, de uma doutrina impositiva. Confinamento que nos torna cegos aos valores e riquezas que vem de outras expressões humanas, sociais e religiosas.

Vivemos contínuos deslocamentos geográficos, sociais, culturais, religiosos… Tudo isso nos enriquece. Com esta riqueza voltamos às nossas Nazarés, para ampliá-las, expandi-las. Não se trata de impor, mas de propor; compartilhar as ricas experiências adquiridas.

Não é fácil ser diferente dos outros; não é fácil assumir uma vida alternativa frente àqueles que estão petrificados em suas posturas e ideias; não é fácil dizer “não” onde todos, como cordeiros, dizem “sim”; não é fácil fazer o que ninguém quer fazer.

Toda autêntica vida humana é vida com os outros, é convivência, é encontro... Assim, o princípio de alteridade está fundado no princípio de identidade; a diversidade reforça a identidade pessoal: podemos nos compreender apesar de sermos diferentes, porque todos somos seres criados e agraciados por Deus, chamados a ser habitados por uma verdade que está para além de uma religião e uma cultura específica.

Somos humanos, seres em caminho, buscadores de sentido, buscadores da verdade e habitados pelo mesmo Deus. E viver a “cultura do encontro” (Papa Francisco) implica respeitar e se alegrar com a diversidade, considerando-a riqueza. Saber conviver com as diferenças é sinal de maturidade. É maravilhoso que haja raças, costumes, cultura, gênero, religiões, tradições, línguas, formas de pensar... diferentes.

Assim, ser seguidores(as) de Jesus nos converte em seres abertos, acolhedores da diferença.

As diferenças mobilizam a energia e a fertilidade criadora; elas provocam intercâmbio entre as pessoas. A diversidade é uma forma de aproximação entre os seres humanos. A diferença do “outro” deve ser motivo para o encontro e para o enriquecimento mútuo. A diferença é rebelde, quebra o uniformismo, convulsiona a quietude, sacode a rotina. É a diferença que gera alteridade. O outro é diversificado e não repetitivo. Massificar as pessoas é uma forma de silenciá-las e dominá-las. Perverter a diferença é uma atitude que degrada a pessoa. Diferença é originalidade, é o inédito, é o que excede a medida comum, é o que distingue uma personalidade de outra. A humanidade é profundamente diversificada em seus talentos, valores originais e em sua vitalidade; seu tesouro está precisamente em sua diversidade criadora.

Daí a importância e a urgência de aprender a valorizar o que é próprio e também o que é diferente, esforçando-se para não transformar as diferenças normais (geográficas, culturais, de raça, de gênero...) em desigualdades. É preciso educar e preservar as diferenças humanas.

Deveríamos pensar mais sobre a importância das diferenças que nos humanizam. Deveríamos admirar as diferenças pessoais e grupais, e não lamentá-las. É necessário evitar tudo o que reprime as diferenças e desenvolver a verdadeira coexistência pessoal, social, científica, religiosa, ética. Deveríamos remover abusos e vícios que anulam a diferenças. Perverter a diferença é uma atitude que degrada a pessoa. Valorizar a diferença e os diferentes implica tratar com cortesia, saber interagir, trabalhar juntos, respeitar...

Segundo o modo de ser e proceder de Jesus, o que mais nos desumaniza é viver com um “coração fechado” e endurecido, um “coração de pedra”, incapaz de amar e de abrir-se ao novo. Quem vive “fechado em si mesmo”, não pode acolher o Espírito de Deus, não pode deixar-se guiar pelo Espírito de Jesus, pois acredita que quem é diferente “está possuído por um espírito mau” (3,30).

Quando nosso coração está “fechado”, em nossa vida não há mais compaixão e passamos a viver indiferentes à violência e à injustiça que destroem as relações entre as pessoas. Passamos a viver separados da vida, desconectados. Uma fronteira invisível nos separa do Espírito de Deus que tudo dinamiza e inspira; é impossível sentir a vida como Jesus sentia. Quem assume atitudes de indiferença tem medo do diferente, e a vida vai se atrofiando...

Num coração petrificado o Espírito não tem liberdade de atuar; dessa resistência à ação do Espírito brotam as doentias divisões internas. São os dinamismos “dia-bólicos” (aquilo que divide) que se instalam em nosso interior, atrofiam nossas forças criativas e nos distanciam da comunhão com tudo e com todos.

Não podemos permanecer trancados em redutos que rejeitam as diferenças existenciais. Daí a importância de aprender a ver o melhor de cada pessoa e de cada povo, superando as visões estreitas e fundamentalistas e todo tipo de racismo, xenofobia, desprezo, mixofobia, preconceito, dominação...

A “Ruah de Deus” nos move a construir uma Comunidade fraterna, capaz de abrir suas portas e derrubar seus muros, para que ninguém se sinta excluído. É missão específica da Ruah integrar as diferenças numa grande comunhão universal. Não podemos matar a presença e a ação original do Espírito.

 

Para meditar na oração

“E olhando para os estavam sentados ao seu redor…” Estar em círculo supõe uma postura de acolhida e comunhão com os outros, respeitando sua diversidade. Tal atitude quebra toda pretensão de imposição, de poder, de violência... Isso só é possível quando Jesus se faz o centro.

Trata-se de uma imagem espacial do discipulado que pode nos ajudar a entender melhor nossas posturas vitais, tanto no nível pessoal como no comunitário ou na missão.

- “Estar em círculo” também quer dizer que estamos vinculados a outros numa postura corporal que tem Jesus como centro. A imagem do círculo é a que melhor expressa o modo de seguir Jesus e não a “hierarquia” que dá margem ao carreirismo e à busca de poder.

 

 

Evangelizar nossa interioridade para sermos mais humanos

“Se uma família se divide contra si mesma, ela não poderá manter-se” (Mc. 3,25)

Segundo a tradição bíblica, o que mais nos desumaniza é viver com um “coração fechado” e endurecido, um “coração de pedra”, incapaz de amar e de crer. Quem vive “fechado em si mesmo”, não pode acolher o Espírito de Deus, não pode deixar-se guiar pelo Espírito de Jesus. Uma fronteira invisível o separa do Espírito de Deus que tudo dinamiza e inspira; é impossível sentir a vida como Jesus sentia.

O ser humano “dividido” é desfalcado, despojado de seu conteúdo humano, espoliado de sua densidade interior, assaltado por dentro. A “divisão”  corrói a interioridade da pessoa e dissolve aquilo que é mais nobre em seu coração. Longe de uma humanidade dinâmica, operante, ousada... o que a pessoa deixa transparecer é uma humanidade neutra, apática, estagnada; é humanidade lenta, demorada, afogada na “normose”, estacionada na repetição dos gestos e dos passos. Ela gira em torno de si mesma e não consegue fazer um salto libertador. Isso tudo leva a pessoa a debilitar-se, provocando a redução da vitali-dade humana em vez de favorecer o crescimento pessoal.

Num coração petrificado e dividido o Espírito não tem liberdade de atuar; dessa resistência à ação do Espírito brotam as doentias divisões internas. São os dinamismos “dia-bólicos” (aquilo que divide) que se instalam em nosso interior, atrofiam nossas forças criativas e nos distanciam da comunhão com tudo e com todos. Com isso nos blindamos, tornando-nos rígidos, petrificados em nossas posições, crenças, valores... e não nos deixamos impactar pelo novo, pelo diferente.

Podemos soltar nossa necessidade de segurança e abandonar-nos totalmente ao Espírito para que possa nos guiar? Como desarticular as forças depredadoras do ego em nós? Como quebrar os ferrolhos de nossas intolerâncias, fanatismos, preconceitos, e estender as mãos para acolher o surpreendente e o novo?

Abrir as portas, quebrar os ferrolhos, abandonar as muralhas que nos protegeram, viver a vida e aceitar o desafio, ensaiar um canto, baixar a guarda e estender as mãos, desatar as asas e mover-se de novo a celebrar a vida e retomar os horizontes...; é isso que significa deixar-se “conduzir pelo Espírito”.

Em que consiste a gravidade do “pecado contra o Espírito Santo, revelado pelo Evangelho de hoje.

Só há um pecado contra o Espírito Santo. Se o Pai é Vida, se o Filho é Verdade, o Espírito Santo é Amor. E o pecado contra o Espírito Santo é o pecado contra o amor.

O perdão, por sua vez, é crer no amor; o perdão é expressão de amor. E quem não crê no amor, não abre espaço para o perdão, porque simplesmente no crê no perdão. Permanece fechado dentro dos seus muros e não se abre à amplitude da vida. Quem não ama não perdoa e tampouco é perdoado quem não se deixa amar. O problema não está em Deus, pois Ele continua amando a todos. O problema está em nós, pois se não cremos em seu amor, nunca nos sentiremos amados.

Jesus, desde o seu batismo, foi apresentado como o Filho de Deus, a quem se devia dar ouvido. Ele foi constituído mediador da salvação divina oferecida a toda humanidade. Suas palavras e ações, porém, tinham como princípio dinamizador o Espírito Santo, força de Deus que atuava n’Ele.

A atitude de seus parentes, que o acusavam de louco ao verem as multidões acorrerem a Ele, e a interpretação dos mestres da Lei que viam  nele o poder de Belzebu, chocava-se com a realidade da ação divina em Jesus. Isso significava negar que o Espírito Santo agia através de Jesus e atribuia ao demônio o que pertencia ao Espírito de Deus. Eis uma autêntica blasfêmia!

As acusações contundentes levantadas contra Jesus manifestam um fechamento à ação do Espírito. Assim como Jesus agia pela força do Espírito, do mesmo modo só quem se deixa iluminar pelo Espírito pode agir como Jesus. Quem se fecha ao Espírito, tornava-se incapaz de discernir a manifestação da misericórdia de Deus, em Jesus. Fechar-se para Jesus, portanto, significa fechar-se para Deus e, por conseguinte, tornar-se indigno de perdão.

Viver humanamente consistirá, então, em deixar o Espírito circular livremente por todos os cômodos de nossa morada interior, arejando-os, ventilando-os, religando-os, dando-lhes vida, reorientando-os. Precisamos nos abrir para uma verdade maior quanto à nossa humanidade, ou seja, que todos os nossos recantos merecem serem visitados, olhados, ouvidos e abraçados; que cada aspecto de nossa vida contém uma dádiva maior do que podemos enxergar e cada sentimento merece uma expressão saudável.

O Espírito nos faz fortes em nossa fragilidade e nos faz amadurecer quanto mais nos humanizamos. Seu modo de proteger-nos é abrindo-nos; seu modo de defender-nos é desarmando-nos.

Um dos aspectos mais empolgantes do ser humano é o fato de ter reservas inspiradoras, úteis e poderosas que estão adormecidas, ansiando para sair da sombra e ser integradas ao todo da pessoa. Há uma imensa variedade de sentimentos maravilhosos esperando por uma oportunidade de se deslocarem no corpo, trazendo-nos novas sensações e novos níveis de felicidade, alegria e prazer. Precisamos nos desafiar a aceitar todas as facetas de nossa humanidade; do contrário, os personagens que foram expulsos do palco, agora reprimidos, se tornarão os orquestradores silenciosos de nossa vida secreta.

É preciso superar a “divisão diabólica” do nosso coração, para recuperar a densidade humana interna. Para isso, ele precisa “reordenar-se”, repensar a interioridade perdida, reconquistar a autodeterminação. Para viver um processo de humanização profundíssimo, é preciso despertar, pacificar-se, reencontrando, na própria história, pontos de referência fundamentais que vão situá-lo, corretamente, na condição de filhos e filhas de Deus.

É indispensável “unificar-nos” por dentro e descobrir que, sob a ação do Espírito, podemos nos inventar a cada dia, conduzindo conscientemente a vida em direção à plenitude e não arrastá-la pelo chão. Pessoa “dividida” é massa anônima empurrada pela multidão. Quem está “unificado”  tem a coragem de redefinir-se, de eleger, de assumir-se; é alguém preparado para dar um salto arrojado e criativo. Trata-se de sermos dóceis para deixar-nos conduzir pelos impulsos do Espírito, por onde muitas vezes não entendemos e não sabemos. Como nosso Mestre interior, nos ensinará a deixar-nos conduzir para a bondade, para a doação, para a reconciliação e a alegria. Sua discreta presença nos move a acolher em nós nosso potencial de ternura, de cuidado e de resistência diante de todas aquelas situações e forças que desintegram a vida e nos dividem por dentro.

padre Adroaldo Palaoro S. J.

 

 

Quem faz a vontade de Deus é a minha mãe!

Neste domingo, a Palavra de Deus nos leva a meditar sobre a nossa resposta ao projeto que Deus tem para nós, com liberdade para optar pelo bem ou pelo mal. Foi assim que os conterrâneos Jesus (alguns dos seus parentes entre eles), não o aceitaram e se opuseram à vontade de Deus revelada em Jesus (evangelho). Na caminhada da fé, cada um é livre para escolher o caminho certo. Só assim estaremos preparados, como Paulo, para suportar sem esmorecer as contradições que surgem em nossa vida por causa da fé (2ª leitura). A história de Adão e Eva nos mostra o que acontece quando rejeitamos as propostas de Deus e preferimos caminhos de egoísmo, de orgulho e de auto-suficiência (1ª leitura). Viver à margem de Deus leva-nos a trilhar caminhos de sofrimento, de destruição, de infelicidade e de morte.

 

1ª LEITURA: Gênesis 3, 9-15

Não podemos ver este texto como uma reportagem de acontecimentos passados no inicio dos tempos. A finalidade do autor não é científica ou histórica, mas teológica. O autor de texto tenta explicar a origem do mal, como consequência das opções erradas do ser humano, e a origem do pecado no começo da humanidade.

Em que consistiu esse “pecado original”? Certamente, o autor sagrado não quer falar de um pecado cometido pelo primeiro homem e a primeira mulher; mas do pecado de toda a humanidade, em todos os tempos… A intenção dele é apenas ensinar que a raiz de todos os males está no fato de o homem prescindir de Deus e construir o mundo a partir do egoísmo e da auto-suficiência.

A explicação é muito rica, embora de forma simbólica. Enganado pela serpente da ambição desmedida e do próprio orgulho, o ser humano tentou ser como Deus. O resultado foi a experiência da própria fragilidade e do medo («Ouvi teus passos no jardim: tive medo, porque estou nu, e me escondi»). A vergonha do próprio corpo, para o autor, é sinal do desequilíbrio introduzido pelo homem a partir da ruptura de suas relações com o Criador («E quem lhe disse que você estava nu? Por acaso você comeu da árvore da qual eu lhe tinha proibido comer?»).

Além disso, o pecado introduziu uma perturbação profunda nas relações humanas. O homem, que devia amar a mulher, passou a tentar livrar-se da culpa acusando a companheira («A mulher que me deste por companheira deu-me o fruto, e eu comi» ) e a mulher não sendo capaz de assumir com coerência ética e moral seus próprios atos, passou a bola para frente («A serpente me enganou, e eu comi»). Nenhum dos dois foi capaz de assumir sua parcela de responsabilidade. O pecado destrói a integridade humana.

O interessante é que Deus amaldiçoa a serpente como origem do mal, mas não o homem nem a mulher, que foram enganados. No entanto, a justiça divina obriga o ser humano a sair do seu comodismo e envolver-se na luta constante entre o bem e o mal (“Porei inimizade entre você e a mulher, entre a descendência de você e os descendentes dela”). Será que tudo está perdido? Não. Diante do mal gerado pelo ser humano, Deus promete uma descendência que estará comprometida com o projeto de d’Ele e triunfará sobre o mal, quando diz à serpente: “Estes vão lhe esmagar a cabeça, e você ferirá o calcanhar deles”. Isto quer dizer que chegará o tempo em que Deus mudará esta situação de derrota e dará à descendência de Adão a possibilidade de recuperar a posição perdida. A humanidade se levantará contra a serpente e um dos seus descendentes vencerá definitivamente o poder do maligno. Eva, a mãe do gênero humano, Terá como descendente uma nova Eva (Maria), mãe do homem novo (Jesus), que triunfa definitivamente sobre o poder do mal, do pecado e da morte.

 

2ª LEITURA:  2Coríntios 4, 13 - 5,1

A segunda Carta de Paulo aos Coríntios foi escrita depois de um momento tenso entre o apóstolo e esta comunidade. Algumas críticas de Paulo (na primeira Carta aos Coríntios) tinham provocado certo desconforto entre os coríntios e os adversários de Paulo aproveitaram para acusá-lo de pregar uma doutrina que não estava em consonância com o Evangelho anunciado pelos outros apóstolos. Foi então que Paulo escreveu esta segunda Carta, explicando os princípios que sempre orientaram o seu trabalho apostólico e desmontando os argumentos dos adversários.

Neste contexto, o texto de hoje nos fala do sentido que tem em nossa vida a opção que fazemos por Cristo. Paulo apresenta a forte convicção de fé que o anima e o leva a pregar o Evangelho. Ele se sente escolhido para o ministério da Nova Aliança e sabe que não pode falsificar o Evangelho em busca de sua glória pessoal (“não pregamos a nós mesmos, mas Cristo Jesus, Senhor”). O prestígio fácil, não é sinal de evangelização autêntica. Por isso, Iluminado pelo exemplo de Cristo, opta pelo caminho da humildade, do serviço e do testemunho, pronto para participar do caminho de Jesus e enfrentar toda espécie de contradição e sofrimento por causa do Evangelho (“levamos em nosso corpo a morte de Jesus, a fim de que também a vida de Jesus se manifeste em nosso corpo”).

Essa é a fé que o sustenta e a coerência que o fortalece («Acreditei, por isso falei»). Ele pode dizer com plena consciência que só ensina aquilo no qual acredita (“nós acreditamos e por isso falamos”).Este é o poder de convicção do discípulo de Cristo e é neste testemunho de Paulo que (na liturgia atual) se inspiram as palavras do bispo quando entrega o Evangelho a um novo diácono no momento da sua ordenação: “Crê no que lês, ensina o que crês, pratica o que ensinas”. Coisas essenciais que exigem coerência daqueles que querem viver como autênticos discípulos de Cristo.

 

EVANGELHO: Marcos 3, 20-35

O evangelista Marcos apresenta-nos Jesus no apogeu da sua missão com uma dedicação plena ao povo, de tal forma que “foi para casa, e de novo se reuniu tanta gente que eles não podiam comer nem sequer um pedaço de pão”. O Senhor, porém, foi um incompreendido. Até mesmo os parentes queriam que abandonasse a sua missão pensando que “Jesus tinha ficado louco”, mas era o Espírito Santo, presente n'Ele, que o levava a realizar a sua missão libertadora sem descanso.

Esta “loucura” de Jesus pelo bem do povo foi a desculpa que seus adversários (os doutores da Lei) aproveitaram para acusá-lo de endemoninhado («Ele está possuído por Belzebu»). Não encontrando explicação para os seus milagres, procuravam difamá-lo («É pelo príncipe dos demônios que ele expulsa os demônios»). Era uma acusação muito grave que o Senhor não podia deixar passar («Eu garanto a vocês: tudo será perdoado aos homens… mas, quem blasfemar contra o Espírito Santo, nunca será perdoado, pois a culpa desse pecado dura para sempre.» ). Eles estavam envolvidos na corrupção e tiravam proveito do mal. Não reconheciam e não aceitavam a mensagem de Jesus.

A respeito do “pecado contra o Espírito Santo” que “nunca será perdoado”, não é que Deus negue o perdão ao pecador, mas quando alguém tenta tergiversar a verdade transformando o bem em mal e o mal em bem, está agindo de forma perversa e de má vontade. Enquanto não se arrepender dessa atitude pecaminosa contra a luz da verdade, que é o dom do Espírito Santo, e não mudar de atitude, não poderá receber o perdão porque, faltando o arrependimento, não poderá ser perdoado.

Nesta confusão toda, aparecem os parentes de Jesus, querendo levá-lo de volta para casa. Havia muitas razões: muito tempo fora da família, notícias contraditórias sobre a sua atividade, mensagem em contraste com a doutrina oficial dos escribas e fariseus, contato com os pecadores que Ele acolhia, seu questionamento à tradição dos antigos, o não cumprimento estrito da lei do sábado. Enfim, Jesus poderia ser considerado louco e herético. A intenção principal era reconduzi-lo a uma vida “normal”. O evangelista diz que estavam “aí fora” procurando-o. Certamente, não apenas estavam fora da casa, mas estavam por «fora» de tudo; não compreendiam a sua missão. Deve ter sido muito triste para Jesus perceber que algumas pessoas da sua família não o compreendiam. Porém, a família segundo a fé, essa sim, estava por «dentro», compreendia a sua missão e a estava aceitando, justamente ao redor de Jesus.

De fato, na vida cristã, é assim. Há os que ficam “por fora” e os que estão “por dentro”. Imagem muito atual para nós hoje. Podemos ser cristãos, mas “do  lado de fora”, arredios, ficando à porta, e chamar-nos de “católicos não praticantes” (a saber o que significa isso). A opção por Jesus tem que ser radical. Ou ficamos fora, ou estamos dentro, unidos a Jesus, escutando sua Palavra e seguindo-o com todo o nosso ser, com todo o nosso coração.

A resposta do Senhor, naquele momento de conflito, pode parecer dura («Quem é minha mãe e meus irmãos?»... «Aqui estão minha mãe e meus irmãos»). De fato, porém, a sua verdadeira família estava formada (e está) por aqueles que ouviam (e ouvem) a sua Palavra e estão dispostos a realizar “a vontade de Deus”, que consiste em testemunhar a fé e continuar sua missão.

É preciso esclarecer, porém, o seguinte. Não sei o que fazia a mãe de Jesus entre os seus parentes («Olha, tua mãe e teus irmãos estão aí fora e te procuram.») nem sei se esses “irmãos” eram os mesmos parentes que “estavam dizendo que Jesus tinha ficado louco", mas o certo é que a resposta do Senhor («Quem é minha mãe?... quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe.») não significa qualquer tipo de desprezo ou pouco caso por sua mãe. Porque se alguém aceitou, sem reservas, cumprir fielmente a vontade de Deus foi ela desde o momento em que soube que iria ser mãe do Salvador. Pelo contrário, Maria é o modelo de «quem faz a vontade de Deus». “Antes de concebê-lo em seu ventre, já o tinha concebido em seu coração”, diz Sto. Agostinho. Maria está mais identificada com Jesus por ser discípula fiel d’Ele do que pelo simples fato de tê-lo concebido em seu ventre. Neste mesmo sentido, todos os que ouvimos no coração a sua Palavra e aderimos a ela, assumindo em nossa vida a vontade do Pai (como Maria) somos família do Senhor. Pode haver maior benção do que isto?

Pensando bem...

+ Voltando o pensamento para a 1ª leitura, podemos dizer que hoje também existem “serpentes” astutas e sedutoras que tentam enganar o ser humano com promessas varias, tais como o poder, o dinheiro e o prazer. Certamente farão com que os olhos de muitos se abram para o desejo e “comam” destas falácias. Mas o Senhor continuará a proteger-nos nesta batalha entre o bem e o mal. Ele nunca vai deixar de orientar a humanidade no sentido de gerar maior progresso cultural, técnico, social e religioso sempre a serviço e em beneficio do ser humano. A mensagem bíblica, no fundo, é otimista e cheia de esperança, pois, no final de tudo, o bem triunfará sobre o mal.

padre Ciriaco Madrigal

 

 

Alegrai-vos e exultai

No dia de são José neste ano o papa Francisco publicou uma carta com o título: “Alegrai-vos e exultai”. O conteúdo da carta é um chamado à santidade no mundo atual. No primeiro capítulo o Papa escreveu: “Gosto de ver a santidade no povo paciente de Deus: nos pais que criam os seus filhos com tanto amor, nos homens e nas mulheres que trabalham a fim de trazer o pão para casa, nos doentes, nas consagradas idosas que continuam a sorrir. Nesta constância de continuar a caminhada dia após dia, vejo a santidade da Igreja militante. Esta é muitas vezes a santidade ao ‘pé da porta’ daqueles que vivem perto de nós e são um reflexo da presença de Deus, ou por outras palavras “esta é a classe média da santidade” (GE 7).

E ser santo não é outra coisa senão ouvir a Palavra de Deus e colocar em prática o Evangelho deste domingo. Marcos mostra Jesus cercado por duas categorias de pessoas: um grupo que o chama de louco e outro que consideram as suas ações como se fossem obras do diabo e afirmam que ele está possuído por Belzebu. Por sua vez Jesus é muito claro na suas declarações e sem meias palavras diz que estes dois grupos estão divididos entre si e que seus dias estão contados: “Assim, se Satanás se levanta contra si mesmo e se divide, não poderá sobreviver, mas será destruído”. E conclui com duas frases espetaculares: “Ninguém pode entrar na casa de um homem forte para roubar seus bens, sem antes o amarrar. Só depois poderá saquear sua casa. E olhando para os que estavam sentados ao seu redor, disse: 'Aqui estão minha mãe e meus irmãos. Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”.

O fim do reinado de satanás que Jesus afirma estar acontecendo é a concretização da responsabilidade que Deus havia dado para Eva, a mulher do primeiro pecado: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar”. Jesus, o Filho de Maria, com sua determinação e coragem é quem definitivamente “esmagará a cabeça da serpente” e todos os que como ele ouvirem a Palavra de Deus e colocarem em prática continuarão a fazer a mesma coisa.

E isto são Paulo fala aos coríntios: “Sustentados pelo mesmo espírito de fé, conforme o que está escrito: 'Eu creio e, por isso, falei', nós também cremos e, por isso, falamos, certos de que aquele que ressuscitou o Senhor Jesus nos ressuscitará também com Jesus e nos colocará ao seu lado, juntamente convosco. E tudo isso é por causa da abundância da graça para a glória de Deus. Por isso, não desanimamos”.

Nestes tempos difíceis, na hora em que o Papa convida a ser uma “Igreja em Saída” e a ser santos dando o “próprio testemunho nas ocupações da cada dia, onde cada um se encontra”(GE14) é natural que as dificuldades se potencializem  e que até muitas pessoas que se dizem religiosas e que até rezam muito sejam resistentes e insistam numa igreja que fique na sacristia, nos bancos das igrejas, nas orações destituídas de compromisso social, peçamos que a oração deste dia e a comunhão que recebemos nos liberte dos maus pensamentos e coloque a nossa vida na prática do bem, como o padre vai rezar na oração final da missa: “Ó Deus, agindo em nós pela Eucaristia, faça curar nossos males, libertando-nos das más inclinações e orientando nossa vida para a prática do bem”.

padre Elcio Alberton

 

 

Em Deus encontra-se o perdão!

As leituras da missa de hoje mostram a realidade do pecado causado pela desobediência do homem e da mulher à Palavra do Criador, segundo o livro do Gênesis (Gn. 3,9-15), assim como, a luta entre o “homem exterior” e o “o homem interior”, conforme Paulo (2Cor. 4,16). O Evangelho (Mc 3,20-35) nos apresenta as dificuldades enfrentadas por Jesus para anunciar o Evangelho, em sua cidade, até mesmo entre os seus parentes.

Entretanto, a Palavra de Deus vem proclamar a vitória sobre o pecado por meio de Jesus Cristo. Ela já se encontra prefigurada na passagem do Gênesis que se refere à cabeça da serpente esmagada (Gn. 3,15). É anunciada por Paulo, ao proclamar a ressurreição de Jesus e motivar a Comunidade de Corinto a não desanimar jamais. “Por isso, não desanimamos!”, afirma o Apóstolo (2Cor 4,16). Por fim, Marcos nos mostra o poder de Jesus de libertar o homem, perdoando os pecados, razão de ser de nossa força e esperança no combate espiritual.  O tema principal é a misericórdia de Deus que nos perdoa sempre e não o pecado ou o pecador que não crê nem busca o perdão e, por isso, não é perdoado. Em primeiro lugar, está a afirmação de Jesus ressaltando a misericórdia divina: “tudo será perdoado aos homens”. A questão do pecado contra o Espírito Santo põe em relevo a recusa do pecador em admitir a ação do Espírito de Deus nas ações de Jesus, atribuindo-as ao demônio, e por isso, a recusa do próprio perdão. O Catecismo da Igreja Católica afirma que “a misericórdia de Deus não tem limites, mas quem se recusa deliberadamente a acolher a misericórdia de Deus rejeita o perdão de seus pecados” e a ação santificadora do Espírito Santo (n. 1864).

Em resposta à Palavra proclamada, somos convidados a crer em Jesus e nele confiar, fazendo sempre a “vontade de Deus” (Mc 3,35). Somos chamados a imitar Jesus, na sua fidelidade ao Pai até a morte de cruz. Na raiz do pecado, do pecado de Adão e Eva, do pecado de cada um de nós, está a desobediência à Palavra de Deus, trazendo sempre consequências desastrosas. Há tantos e tão graves males no mundo que resultam de nossas escolhas erradas, do egoísmo, do orgulho e do fechamento à vontade de Deus. Porém, em Cristo, temos a graça do perdão e da reconciliação, a oportunidade de um coração novo e de uma vida nova. Que o cumprimento fiel da Palavra de Deus, na vida cotidiana, nos permita dizer com o salmista, a cada dia: “no Senhor ponho a minha esperança, espero em sua Palavra. A minha alma espera no Senhor mais que o vigia pela aurora. Nele, se encontra o perdão!” (Sl. 129).

dom Sergio da Rocha

 

 

"O poder de Jesus para expulsar demônios”

O evangelho de Marcos revela a nova relação entre o povo e Deus, que se estabelece através de Jesus. O que se vê é uma grande multidão de excluídos (ochlós), seja dentre os gentios, seja da dispersão do judaísmo, que se reúne em torno da casa onde se encontra Jesus. Esta multidão se diferencia do "pequeno resto", estabelecido na sinagoga e no Templo, gozando de privilégios e isolado da maioria do povo, considerada pecadora por infringir qualquer um dos 613 mandamentos da Lei, tendo como protótipo Eva, que infringiu a proibição do Criador (primeira leitura). Com Jesus temos uma nova realidade, destacada pelos evangelhos ao mencionarem cento e quarenta e nove vezes a "multidão" que se relaciona com Jesus. Esta relação é uma característica muito mais marcante da índole e da personalidade de Jesus do que as narrativas de seus milagres possam significar. É uma chave de leitura para compreendermos a presença de Jesus no mundo, em relação com todos os povos e culturas, não se limitando a grupos religiosos específicos.

O termo grego traduzido por "familiares" pode significar uma proximidade consanguínea ou de amizade. Pode-se também interpretar que o verbo usado no texto, "enlouqueceu", refira-se a Jesus ou à multidão. Assim, pode-se entender que, ou os familiares ou os discípulos de Jesus, não o compreendendo e julgando-o fora de si, queiram retê-lo, ou julgando a multidão demais agitada queiram protegê-lo.

Os escribas vindos de Jerusalém são os enviados dos chefes religiosos que tinham em mãos o culto sacrifical do Templo e o dinheiro do Tesouro, anexo ao Templo. Eles se empenham em difamar Jesus, para afastar o povo dele. O Espírito Santo é o amor. Considerar as obras de amor do Espírito como sendo obras do demônio significa o distanciamento e até a ruptura com o próprio amor de Deus. Rejeitar e matar os que com amor buscam resgatar a dignidade humana dos empobrecidos explorados e excluídos significa a rejeição da vida e do amor de Deus.

A partir de uma referência à sua família carnal, Jesus afirma: "Quem é minha mãe? Quem são meus irmãos?... Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe". É a união em torno da prática da vontade de Deus que cria os novos laços familiares no Reino. Viver o amor, o serviço, a partilha, a misericórdia, solidariamente com os mais necessitados, é inserir-se na família de Jesus, quer seja por laços consanguíneos, quer não, certos da comunhão de vida eterna com Jesus (segunda leitura).

 

 

Em Mc. 3,20-21 diz: “E voltou para casa. E de novo a multidão se apinhou, de tal modo que eles não podiam se alimentar. E quando os seus tomaram conhecimento disso, saíram para detê-lo, porque diziam: Enlouqueceu!”

Alguns dos seus parentes, deixando-se levar por pensamentos meramente humanos, interpretaram a absorvente dedicação de Jesus ao apostolado como um exagero, explicável – na sua opinião – apenas por uma perda de juízo. Ao ler estas palavras do Evangelho, não podemos pelo menos deixar de nos sentir afetados pensando naquilo a que se submeteu Jesus por nosso amor: a que dissessem que tinha “enlouquecido”. Muitos santos, a exemplo de Cristo, passarão também por loucos, mas serão loucos de Amor, loucos de Amor a Jesus Cristo.

O Pe. Manuel de Tuya comenta: “A atividade apostólica de Cristo e seu zelo em ensinar as pessoas que vinham até Ele, e por fazer-lhes favores, não sobrava tempo para que Ele se alimentasse. Diria-se, ao modo humano, que era um excesso de apostolado; porém, esta era a sua missão. Seus familiares vieram para forçá-Lo a acompanhá-los: literalmente, vieram para apoderar-se d’Ele”.

O padre Juan Leal comenta: “A casa que se faz menção deve ser a casa de Pedro, em Cafarnaum”.

 

Em Mc. 3,22-30 diz: “E os escribas que haviam decido de Jerusalém diziam: ‘Está possuído por Beelzebu’, e também ‘É pelo principie dos demônios que Ele expulsa os demônios’. Chamando-os para junto de si, falou-lhes por parábolas: ‘Como pode Satanás expulsar Satanás? Se um reino se dividir contra si mesmo, tal reino não poderá subsistir. E se uma casa se dividir contra si mesma, tal casa não poderá manter-se. Ora, se Satanás se atira contra si próprio e se divide, não poderá subsistir, mas acabará. Ninguém pode entrar na casa de um homem forte e roubar os seus pertences, se primeiro não amarrar o homem forte; só então poderá roubar e sua casa. Na verdade Eu vos digo: tudo será perdoado aos filhos dos homens, os pecados e todas as blasfêmias que tiverem proferido. Aquele, porém, que blasfemar contra o Espírito Santo, não terá remissão para sempre. Pelo contrário, é culpado de um pecado eterno’. É porque eles diziam: Ele está possuído por um espírito impuro”.

Deus quer que todos os homens se salvem (1Tm. 2,4) e chama todos à penitência (2Pd. 3,9). A Redenção de Cristo é superabundante: satisfaz por todo o pecado e atinge todo o homem (Rm. 5,12-21). Cristo entregou à sua Igreja o poder de perdoar os pecados por meio dos sacramentos do batismo e da Penitência. O poder é ilimitado, quer dizer, pode perdoar todo o pecado a todos os batizados, tantas vezes quantas se confessam com as devidas disposições. Esta doutrina é dogma de fé (cf. De Paenitentia).

O pecado de que aqui fala Jesus chama-se pecado contra o Espírito Santo, porque é à terceira Pessoa da Santíssima Trindade que são especialmente atribuídas as manifestações exteriores da bondade divina. Por outro lado, diz-se que o pecado contra o Espírito Santo é imperdoável, não tanto pela sua gravidade e malícia, mas pela disposição subjetiva da vontade, própria deste pecado, que fecha as portas ao arrependimento: consiste em atribuir maliciosamente ao demônio os milagres e sinais realizados por Cristo. Deste modo, pela natureza própria deste pecado, fecha-se o caminho para Cristo, que é o único que tira o pecado do mundo (Jo 1,29), e o pecador situa-se fora do perdão divino. Neste sentido se chama irremissível o pecado contra o Espírito Santo (cf. Edições Theologica).

Contra o Espírito Santo peca não só aquele que blasfema com palavras, mas também aquele que blasfema com fatos, pecado com malícia deliberada, isto é, procurando cientemente o mal espiritual, para obter um bem, uma vantagem material: “Peca-se contra o Espírito Santo, quando o pecado é dirigido contra o bem apropriado ao Espírito Santo, que é a caridade. Contra o Pai é o pecado de fraqueza; contra o Filho é o pecado da ignorância; contra o Espírito Santo vai o pecado de deliberada malícia” (santo Tomás de Aquino).

Por deliberada malícia se peca quando de sangue frio se prefere o pecado à graça de Deus; quando se negligencia os meios que servem para impedir o apego ao pecado: “Todo pecado, toda blasfêmia será perdoada aos homens, mas a blasfêmia contra o Espírito não será perdoada’ (Mt. 12,31). Pelo contrário, quem a profere é culpado de um pecado eterno. A misericórdia de Deus não tem limites, mas quem se recusa deliberadamente a acolher a misericórdia de Deus pelo arrependimento rejeita o perdão de seus pecados e a salvação oferecida pelo Espírito Santo. Semelhante endurecimento pode levar à impenitência final e à perdição eterna” (Catecismo da Igreja Católica).

Se esses pecados se dizem irremissíveis, não é porque de nenhum modo possam ser perdoados. Todos os pecados, por mais graves que sejam, são por Deus generosamente perdoados nesta vida, contanto que sejamos verdadeiramente penitentes. Os pecados contra o Espírito Santo são chamados irremissíveis, porque primeiro muito mais do que quaisquer outros pecados são indignos do perdão divino, porque lhes introduz uma malícia deliberada, que não pode invocar nenhuma atenuante como os pecados cometidos por ignorância ou fraqueza.

É de bom aviso, pois, evitar esses pecados, que são de todos os mais perigosos, porque sem um milagre de Deus, deles não se terá perdão. Se realmente estamos resolvidos a não cair nestes pecados, conservemos sempre a pureza da consciência e fujamos do pecado venial. Geralmente uma queda grave é preparada por uma série de faltas leves. As quedas se repetem e pouco a pouco levam ao abismo. Uma vez chegado a este ponto, é desprezada a misericórdia e a justiça de Deus, perde-se a noção da verdade e da graça e nenhum remorso do pecado cometido se experimenta: “O ímpio, quando chegou ao profundo dos pecados, despreza tudo” (Pr. 18,3).

Distinguem-se seis pecados contra o Espírito Santo:

1. A desesperação da salvação eterna.

Pecado este que se dirige contra um Deus que recompensa o bem e perdoa ao pecador penitente.

Santa Catarina de Sena escreve: “Este pecado de desespero desagrada-me (Deus) e prejudica os homens mais do que todos os outros males. É o mais prejudicial pelo seguinte: os demais vícios são cometidos pelo incentivo de algum prazer; deles a pessoa pode, portanto, arrepender-se e obter o perdão. No pecado de desespero o homem não é movido por fraqueza alguma. O ato de desesperar-se não inclui debilidade, mas somente intolerável dor. Quem desespera, despreza minha misericórdia (Deus) e julga que seu pecado é maior que minha bondade (Deus). Quem faz tal pecado já não se arrepende, já não sente dor pela culpa. Poderá o responsável queixar-se do castigo recebido, mas não da ofensa cometida. Por essa razão são condenados” (O Diálogo).

Em flagrante contradição com as garantias fornecidas pelo próprio Deus, o desesperado não crê mais que Deus possa ou queira perdoá-lo, reerguê-lo de sua vida pecaminosa e conceder-lhe uma boa hora de morte. E, assim, ao pecado contra a esperança, acrescenta ele um pecado contra a fé.

Os pecados contra a esperança fecham totalmente o coração humano à influência do Espírito Santo. Por isso, o desespero é contado entre os pecados contra o Espírito Santo. É também um dos mais terríveis pecados, porque inutiliza, de antemão, todo esforço salvador.

2. A presunção de se salvar sem merecimento.

Este pecado põe de lado o temor de Deus que castiga o mal.

A presunção não se opõe diretamente ao impulso da alma para Deus, nem à confiança, mas ao temor salutar, que é um dos elementos essenciais da virtude teologal da esperança.

Ou o presunçoso ofende diretamente a justiça divina, imaginando que Deus lhe dará a felicidade eterna, mesmo sem que se converta sinceramente e se submeta aos mandamentos divinos (tal negação da necessidade da conversão e do mérito constitui, além do mais, uma falta grave contra a fé); ou ele peca contra a sobrenaturalidade da esperança, ousando que poderá conquistar o céu com suas próprias forças naturais.

O pecado de presunção nasce do orgulho. Muitas vezes ele resulta também da heresia: pelagianismo mais ou menos consciente (o homem não necessita da graça para se salvar), ou o erro protestante sobre a certeza pessoal da salvação.

Retardar a própria conversão na falsa esperança de que Deus não permitirá que o pecador chegue a perder-se eternamente, não é, ainda, por certo, pecado caracterizado, de presunção, mas é, isso sim, pecado grave contra a virtude da esperança. Pois demonstra que o pecador deixou perecer em si mesmo o verdadeiro sentimento de temor em face da justiça divina. Deus jamais prometeu esperar a conversão do pecador que tantas vezes desprezou a graça. Ao contrário, advertiu-o frequentemente com a ameaça da condenação eterna.

Em geral, o que propriamente constitui o pecado de presunção não é o adiamento da conversão, mas o fato de o pecador, levado por certo menoscabo (desprezo) de Deus, expor a perigo a sua salvação. Isto constitui, indubitavelmente, falta grave contra a esperança e contra a caridade para consigo mesmo.

Não se caracteriza, porém, como verdadeira presunção, a atitude de quem peca repetidas vezes, levado pela veemência da paixão e raciocinando, eventualmente, da maneira seguinte: “De qualquer modo, devo mesmo confessar-me; por isso, alguns pecados a mais ou a menos não têm importância”. Mas tal procedimento denuncia grave deficiência de esperança teologal, falta de temor a Deus e grosseira ingratidão para com a graça do sacramento da penitência.

3. A contradição à verdade conhecida.

É a negação da fé para poder pecar mais desembaraçadamente.

4. A inveja da graça concedida a outros.

Este pecado tem sua malícia em impedir o auxílio da graça interna.

5. A obstinação no pecado.

A falta de bom propósito de se separar do pecado.

6. A impenitência final.

Propósito “de não fazer penitência, impossibilitando a volta para Deus” (padre João Batista Lehmann).

O Catecismo da Igreja Católica ensina: “A misericórdia de Deus não tem limites, mas quem se recusa deliberadamente a acolher a misericórdia de Deus pelo arrependimento rejeita o perdão de seus pecados e a salvação oferecida pelo Espírito Santo. Semelhante endurecimento pode levar à impenitência final e à perdição eterna”.

 

Em Mc. 3,31-35 diz: “Chegaram então sua mãe e seus irmãos e, ficando do lado de fora, mandaram chamá-lo. Havia uma multidão sentada em torno dele. Disseram-lhe: ‘Eis que tua mãe, teus irmãos e tuas irmãs estão lá fora e te procuram’. Ele perguntou: ‘Quem é minha mãe e meus irmãos?’ E, repassando com o olhar os que estavam sentados ao seu redor, disse: ‘Eis a minha mãe e os meus irmãos.  Quem fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe”.

A palavra “irmãos” era em aramaico, a língua falada por Jesus, uma expressão genérica para indicar um parentesco: irmãos também se chamavam os sobrinhos, os primos diretos e os parentes em geral.

Teofilacto escreve: “Jesus não disse estas palavras para renegar sua mãe, mas para mostrar que não só é digna de honra por ter gerado Cristo, mas também pelo cortejo de todas as virtudes”.

Por isso, a Igreja recorda-nos que a Santíssima Virgem “acolheu as palavras com que o Filho, pondo o reino acima de todas as relações de parentesco, proclamou bem-aventurados todos os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática; coisa que Ela fazia fielmente” (Lumen gentinum, n. 58).

O Senhor, pois, ensina também que segui-Lo nos leva a compartilhar a sua vida até tal ponto de intimidade que constitui um vínculo mais forte que o familiar.

Santo Tomás de Aquino explica-o dizendo que Cristo “tinha uma geração eterna e outra temporal, e antepõe a eterna à temporal. Aqueles que fazem a vontade de meu Pai alcançam-no segundo a geração celestial (...). Todo o fiel que faz a vontade do pai, isto é, que simplesmente Lhe obedece, é irmão de Cristo, porque é semelhante Àquele que cumpriu a vontade do Pai. Mas, quem não só obedece, mas converte os outros, gera Cristo neles, e desta maneira chega a ser como a Mãe de Cristo”.

O padre Juan Leal comenta: “A mãe de Jesus aparece sozinha aqui em são Marcos. A ausência de alusão a José aqui e em Mc. 6,3 é geralmente explicada pela suposição de que já havia morrido”.

padre Divino Antônio Lopes FP.

 

 

Idéia principal: o demônio existe.

Síntese da mensagem: Assim falou o Papa Paulo VI sobre o diabo: “Uma potência hostil interveio. O seu nome é o diabo, esse ser misterioso de quem são Pedro fala na sua primeira Carta. Quantas vezes, no Evangelho, Cristo nos fala deste inimigo dos homens? Nós cremos que um ser preternatural veio ao mundo precisamente para perturbar a paz, para afogar os frutos do Concílio ecumênico, e para impedir a Igreja de cantar a sua alegria por ter retomado plenamente consciência dela mesma. Nós sabemos que este ser, escuro e perturbador, existe verdadeiramente e que está atuando continuamente com uma astucia traidora. É o inimigo oculto que semeia o erro e a desgraça na história da humanidade. É o sedutor pérfido e taimado que sabe se insinuar em nós pelos sentidos, pela imaginação, pela concupiscência, pela lógica utópica, pelas relações desordenadas, para introduzir nos nossos atos desvios muito nocivos e que, porém, parecem corresponder às nossas fraturas físicas e psíquicas ou às nossas aspirações profundas” (29 de junho de 1972, nono aniversário da sua coroação).

Pontos da idéia principal:

Em primeiro lugar, o demônio existe... e se não, perguntemos a Adão e Eva (1 leitura). Ele foi o causante de que os nossos primeiros pais falhassem com Deus, o desobedecessem. O demônio lhes inoculou o veneno da soberba e da rebeldia, para ser autônomos e não depender de ninguém. Satanás tocou neles o calcanhar de Aquiles “ser como deuses”, isto é, sem ter que prestar satisfação para ninguém, ser autossuficientes, donos de si mesmos. O processo que o tentado seguiu com eles foi assim: entrou em diálogo com eles, inoculou-lhes a dúvida da bondade de Deus, apresentou-lhes o mal como bem e eles cederam, cegados pela soberba, ferindo e ofendendo Deus Criador e Pai. E depois de cederem à tentação não assumiram a sua responsabilidade culpando o outro. Deus, triste, teve que impor a sua pena sobre os nossos primeiros pais para que eles se recapacitassem da gravidade do pecado.

Em segundo lugar, o demônio existe... e se não, perguntemos a Cristo que teve que lidar com ele durante toda a sua vida terrena. Jesus falou de Satanás muitas vezes. Mas, sobretudo, teve que lutar contra ele. No inicio do seu ministério, ali estava Satanás esperando-o no deserto para fazê-lo cair e assim tergiversar a sua missão de Messias; não já um Messias de cruz e infâmia, mas de glórias e honras. E como Cristo o venceu, o demônio não se desanimou e esperou para outra oportunidade, quando Cristo estivesse mais fraco humanamente falando, no Horto das Oliveiras. Durante o seu ministério quantas vezes teve que lutar contra Satanás e os demais demônios que tinham entrado em tantos corações (Evangelho) e que o insultavam. Satanás se apoderou também da alma traidora de Judas. Na cruz, foi Satanás quem gritava pela boca odiosa daquele turista que por ali passava: “Se és o Filho de Deus, desce da cruz”. Cristo veio ao mundo para derrotar Satanás no mesmo campo de batalha onde ele tinha vencido: no homem, desde que o criou. E Cristo ganhou e o derrotou com a sua paixão, morte e ressurreição.

Finalmente, o demônio existe... e se não, perguntemos à Igreja, à sociedade, e a nós mesmos. Quem provocou tantas heresias, cismas ao longo dos séculos? Só podia ser o grande provocador, Satanás, que tantas vezes colocou o pé no meio do caminho. A nossa sociedade hoje em muitas partes apostatou primeiro da Igreja, depois de Cristo, e agora de Deus. Quantas leis iníquas estão promulgando em alguns Estados! Quem está dirigindo esta sinfonia infernal se não for Satanás, príncipe deste mundo como o chamou Cristo? Quem não foi tentado pelo demônio, seja na carne, seja no espírito? Todos nós já fomos tentados por esta força malévola, por este ser misterioso horrível, para desobedecermos a Deus e passemos às suas filas.

Para refletir: A demonologia é um capítulo muito importante da teologia católica e que hoje em dia se descuida demais. Existe uma lacuna no ensinamento da teologia, na catequese e na pregação. E esta lacuna necessita e pede ser preenchida. Estamos diante de “uma das maiores necessidades” da Igreja no momento presente. Quem tivesse previsto isso? A catequese de Paulo VI sobre a existência e influência do demônio produziu um ressentimento inesperado da parte da imprensa. Uma vez mais, acusou-se a cabeça da Igreja – o Papa- de retornar às crenças já superadas pela ciência. O diabo está morto e enterrado! Isso é o que querem meter nas nossas cabeças. O Papa Francisco também já falou várias vezes sobre o demônio: “A presença do demônio está na primeira página da Bíblia e a Bíblia termina também com a presença do demônio, com a vitória de Deus sobre o demônio... Vigiemos sempre, pois jamais o demônio foi expulso para sempre! Só no último dia” (Em Santa Marta, 13 de outubro 2014).

Para rezar: Rezemos a oração de são Bento: “Glorioso Padre Bento, ajudai-nos na luta contra o demônio, o mundo e a carne. Afastai de nós qualquer influência maligna, as tentações, o poder do Mal, os perigos para o nosso espírito e para o nosso corpo. Ajudai-nos a confiar no Amor de Deus nosso Pai, na Força de Cristo nosso Salvador, e na Presença do Espírito Santo nosso Defensor. Amém.

padre Antonio Rivero, L.C.

 

 

No Senhor está a misericórdia e a abundante Redenção.

O demônio, pai da mentira, conseguiu enganar os nossos primeiros pais e ao longo da história da humanidade tem continuado, com suas artimanhas, tentar seduzir os homens.

Frente a tanto engano, logo após a primeira queda, Deus, nosso Pai bondoso, prometeu Alguém, que da descendência da mulher, haveria de esmagar a cabeça da serpente enganadora. E a promessa foi cumprida com a criação de Maria Imaculada, a bendita entre todas as mulheres, que viria a ser a Mãe puríssima de Jesus, Redentor da Humanidade. Apoiados nele e na intercessão valiosa de Maria Santíssima, sempre encontraremos as forças necessárias para resistir às tentações do mundo, do demônio e da carne. Pois nele e só nele está a misericórdia e a abundante Redenção.

Não foi fácil enganar os nossos primeiros pais. Neles ainda não existiam inclinações para o mal. Apesar disso, o demônio conseguiu vencê-los levando-os a duvidarem do Amor que Deus lhes tinha e neles fazer despertar o orgulho de sua importância, a tal ponto que passaram a ver no Senhor, não um Amigo, como sempre foi e é, mas como um rival.

O demônio, que existe mesmo para aqueles que o queiram esquecer ou negar, com maior facilidade nos tenta, apontando-nos caminhos errados da vida. Conta com as nossas inclinações para o mal. Como pai da mentira, que é, estimula os enganos do poder, do orgulho pessoal, da vaidade, do ódio, da sensualidade. Para a divulgação destas mentiras, recorre tantas vezes aos meios poderosíssimos da comunicação social que hoje existem. Em tal aproveitamento se comprovam as afirmações de Jesus, quando, a propósito, nos diz que “os filhos das trevas são mais prudentes, que os filhos da luz”.

Jesus, nosso Redentor, não nos deixou a sós nos caminhos da vida. Ele mesmo continua conosco. Está realmente presente na Santíssima Eucaristia e identifica-se com todos os nossos irmãos, a começar com as crianças, pobres, marginalizados, doentes e presos. Ter fé, para O ver e encontrar, deve ser uma preocupação constante da nossa vida. Com Ele, onipotente e infinitamente bom, todas as dificuldades, por maiores que sejam, serão vencidas. Para a conservação e aumento desta virtude fundamental da fé, que ilumina e dá sentido ao nosso caminhar na vida, é necessário e sempre urgente o recurso à oração, à intercessão da Santíssima Virgem, Mãe de Deus e também nossa terna Mãe do Céu, à escuta e meditação da Palavra de Deus e à frequência dos Sacramentos, nomeadamente da Penitência e da Eucaristia, ao jejum, à esmola, à aceitação dos sacrifícios que a vida nos proporcione, numa total conformidade com a vontade do Senhor.

Confiemos ao Senhor a nossa vida e a nossa luta de cada dia, sabendo que Ele nunca nos abandonará neste nosso peregrinar rumo ao céu.

dom Antonio Carlos Rossi Keller

 

 

 O problema do mal no mundo

Dentre os problemas que mais intrigam os que tem fé está o problema do mal no mundo. Se há um criador que fez todas as coisas, é também Ele o criador do mal? A resposta da Liturgia de hoje é bem clara, NÃO. O mal entrou no mundo devido ao mal uso que o homem fez de sua liberdade, como lemos na Primeira Leitura, Deus se serviu do contexto e da mentalidade do tempo e do contexto em que vivia o autor sagrado em que o povo judeu aderia aos cultos pagãos onde, provavelmente, o autor jahwista está, apenas, a dar uma explicação de uma determinada realidade do seu tempo, a partir de um pretenso acontecimento primordial, que seria o responsável pela situação actual) para o facto de a serpente inspirar horror aos humanos e de toda a gente lhe procurar “esmagar a cabeça”; mas a interpretação judaica e cristã viu nestas palavras uma profecia messiânica: Deus anuncia que um “filho da mulher” (o Messias) acabará com as consequências do pecado e inserirá a humanidade numa dinâmica de graça, mas autor sagrado não está a falar de um pecado cometido nos primórdios da humanidade pelo primeiro homem e pela primeira mulher; mas está a falar do pecado cometido por todos os homens e mulheres de todos os tempos… Ele está apenas a ensinar que a raiz de todos os males está no facto de o homem prescindir de Deus e construir o mundo a partir de critérios de egoísmo e de auto-suficiência e as consequencias vemos logo depois do pecado, primeiro o homem tem medo de Deus, Dele se esconde e não só  passa a considerá-Lo como um rival acusando-O de ter lhe dado uma má companheira, como também passa a considerar, aquela que na etimologia do termo MULHER que significa colaboradora, também como uma rival ou inimiga: “a mulher que tu me deste me ofereceu o fruto  e eu comi”. Eis aqui em poucas linhas a origem do mal no mundo bem como as consequencias da raiz de todo mal do mundo, que é o pecado, desarmonia interior, divisão pela desconfiança de Deus e de seus semelhantes, rivalidade e medo. Mas Deus que imediatamente dá o castigo, que é apenas a permissão que o homem sofra as consequencias de suas opções, dá também o remédio anunciando uma descendencia para uma mulher que esmagará a cabeça do Maligno personificado na serpente, resumo de tudo o que nos separa de Deus, Essa Mulher é Maria e Sua descendencia é Jesus nosso Redentor e Salvador que, no Evangelho de hoje é apresentado dentro de uma casa onde nem sequer tinham tempo para comer por causa da grande procura de tantos que queriam ouvir sua Palavra, que Jesus compara com Sua mãe, e irmãos para dizer que sua familia é composta por aqueles que, Como Maria escutam acolhem e obedecem a Palavra de Deus, diferentemente daqueles que o acusam ou de Seus familiares que, deixando-se levar por comentários caluniosos querem se apoderar dEle para conduzi-lo de volta a Sua familia e chamá-lo à razão já que Cristo não se comportava mais como um judeu, fiel às tradições e leis do Povo Eleito que muito muito se havia distanciado das Leis de Deus.

Assim hoje somos convidados a ver de que lado nós estamos, do lado dos que ficaram de fora, pensando ser da familia de Cristo só por pertencer aos seus descendentes ou dos que estão com Cristo dentro da Sua Igreja atentos a Sua Palavra e prontos a obedece-la, diferentemente daqueles que pensando estar dentro da casa com Ele na verdade, O acusam como Adão acusou a Deus dese o princípio. O  acusam de agir por Belzebul para driblar sua consciencia que não queriam se converter para não terem que mudar de vida, pelo que Cristo conclui dizendo ser este o único pecado que não tem perdão, a blasfemia contra o Espirito Santo que significa atribuir ao Maligno aquilo que claramente sabemos ser de Deus para não termos que mudar de vida.

É neste sentido que a Segunda Leitura nos exorta a mantermos fixos os olhos na recompensa que terão os que “ouvem e põem em prática a Palavra de Deus, a vida eterna com Cristo, mesmo sabendo que para lá chegar precisaremos passar pela cruz para fazermos morrer nosso homem velho e egoísta que a todo momento pretende ser feliz prescindindo de Deus.

padre Tarcísio avelino, TF

 

 

O ser humano é muito curioso. Curioso de curiosidade e não como caso de estudo.

Queremos sempre uma resposta para tudo. Não se aplica só a nós, que com a evolução das ciências e coadjuvados pela abundante informação que encontramos online conseguimos rapidamente explicar o porquê de muitas coisas.

Mas não foi assim com os de antigamente. O autor do livro do Gênesis, no seu tempo e para responder às questões que se colocavam no seu tempo, sobre as origens das coisas, ia arranjando estes “mitos de origem” não para esconder o que quer que fosse – por isso não serve para dizer que a Igreja andou a esconder a verdade das coisas – mas porque o seu conhecimento era limitado.

Uma das questões que atravessa a história da humanidade, desde Adão e Eva até aos nossos dias, é a da origem do mal. E aqui talvez alguns cristãos tenham regredido na procura da resposta. Porque para o autor do livro do Génesis uma coisa é clara: de Deus só vêm as coisas boas. O mal, em parte, foi o homem que o provocou (o mal que causamos aos outros ou do qual somos vítimas por parte dos outros). Infelizmente, alguns crentes, ainda hoje, teimam em atribuir a Deus também o mal: ou como castigo ou como prova.

Na primeira leitura é claro que Deus não castiga. Ou melhor, Deus começa por castigar a serpente, que é quem está na origem da tentação e diz-lhe que entre o mal que ela representa e nós que somos a obra perfeita de Deus, haverá sempre inimizade.

Por isso, o mais importante a reter, é que nós não devemos perder muito tempo na procura da origem do mal, nos porquês, mas sim, no que nós depender, combatê-lo, evitá-lo. Foi a atitude de Jesus. Se olharmos para os Evangelhos, Jesus nunca explicou a origem do mal. Quando foi confrontado com situações de maldade ou de catástrofes, Jesus só disse que não vinha de Deus mas, pelo contrário, as coisas aconteciam para que se viesse a manifestar a glória de Deus. E, no Evangelho que escutamos, vemos que Jesus também rejeita o que dele se diz, de que ele colabora com Satanás. Deus, Jesus, nunca poderia pactuar com o mal, porque Deus só conhece aquilo que é bom e sofre com o mal que andamos a fazer uns aos outros. Pela vida de Jesus, da sua proximidade com situações difíceis de maldade provocada ou de catástrofes acontecidas, percebemos que Deus está e estará sempre do lado das vítimas, dos que sofrem, dos que são prejudicados pelo mal. Deus será sempre um Deus que sofre com quem sofre, confortando-nos com a sua presença, muitas vezes envolvida num profundo silêncio, que quase não se faz sentir. Na liturgia dos defuntos, uma das leituras que se pode escolher para quando morre uma criança, é tirada do livro das lamentações que termina assim: "É bom esperar em silêncio a salvação do Senhor".

Uma palavra sobre o final do Evangelho. Não vou falar sobre a questão dos irmãos de Jesus – não é uma questão para o Evangelho. Mas, mais importante que saber se Jesus tinha ou não irmãos, é perceber que entre nós cristãos, o ser filho de ou amigo de não devia contar. O parentesco é outro. Seremos irmãos de Jesus se fizermos a vontade de Deus.

É isso que pedimos ao Senhor nesta nossa celebração. O dom da pobreza. Precisaremos dela para acolher humildemente, em silêncio, a vontade de Deus e para a pôr em prática.

frei Filipe, op