Entre o pecado e a graça

Neste domingo, a liturgia regressa ao tempo comum. Por maravilhosa coincidência é-nos proposto assumir a fragilidade humana, como aconteceu com o primeiro par no Jardim da Criação e, ao mesmo tempo, aceitar a extraordinária generosidade de Deus que perdoa no tempo e oferece depois uma eternidade feliz. Estes três aspectos estão presentes nas leituras. O pecado de Adão provocou uma rupturas entre Deus e o homem, não porque Deus o abandonasse mas porque aquele se escondera no jardim (1ª leitura). Mas o Senhor não se cansa de procurar o homem e envia mesmo o Seu próprio Filho para restabelecer a relação entre Deus e a humanidade. No diálogo que Jesus estabelece com os seus e com os que o procuram, Jesus outra coisa não diz senão que é essencial, aceitar a vontade de Deus. Esta verdade é tão exigente que Jesus referindo-se a Maria chega a dizer que a sua mãe e os seus irmãos são aqueles que fazem a vontade de Deus (Evangelho). A liturgia completa-se com um texto lindíssimo da 2ª carta de são Paulo aos Coríntios em que os cristãos são convidados a ressuscitar com Cristo, com a garantia de que  ressuscitarão também para  uma morada eterna (2ª leitura).

1. A perda da comunhão

A criação é descrita no livro do Gênesis como um extraordinário mistério da comunhão. No princípio Deus disse ao par humano: crescei, multiplicai-vos, dominai a terra (Gn. 1,28). A harmonia da criação porém, foi contrariada pelo homem. Deus pedira um sinal de comunhão, não comer da árvore da vida. o homem não respeitou este sinal e quebrou a comunhão com Deus, com os outros, e com todos os seres. Na linguagem simbólica, Adão foge de Deus, Adão acusa a mulher, a mulher acusa a serpente, a serpente não tem como defender-se. A ruptura foi completa. Não há mais comunhão. Os sinais desta ruptura estão na interpelação de Deus à serpente: vais rastejar e comer do pó da terra; estabelecerei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela, e ela esmagará a tua cabeça” (Gn. 3,14). Nesta descrição compreende-se que ao pecado de Adão sucede da parte de Deus a promessa de um Redentor.

2. O essencial da mensagem, a vontade de Deus

Jesus percorreu os caminhos da Galileia e da Judeia anunciando o Reino. Para lhe pertencer há uma condição, aceitar a vontade de Deus. Quando Cristo proclama a Boa Nova as multidões dividem-se: se há muitos que seguem Jesus sem condições, há alguns que O criticam ferozmente, porque O consideram alguém que subleva o povo. Jesus proclama o perdão de Deus dizendo, porém, que ninguém pode pecar contra o Espírito, isto é, que ninguém pode contrariar o amor que Deus tem pela Humanidade. Muitos vão compreender e vão segui-l’O. A certeza que o essencial é a vontade de Deus está num pequeno pormenor deste Evangelho: Maria e os seus familiares queriam falar a Jesus. A sua resposta, porém, é desconcertante, “a minha mãe e os meus irmãos são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática” (Mc. 3,35). Esta expressão não deixa de ser elogio para Maria, porque ela escutou a vontade de Deus e viveu-a até ao fim.

3. O Homem para a eternidade

A liturgia de hoje completa-se com o texto de são Paulo aos Coríntios. Nele sublinham-se duas atitudes do cristão: acreditar e proclamar. Se o desafio da fé é acreditar na Ressurreição de Cristo, a responsabilidade do cristão é proclamar essa Ressurreição em todas as situações da vida. Paulo fala do homem interior e do homem exterior, aquele que crê e se santifica, e aquele que proclama e se torna Apóstolo. A vida humana, porém, continuará sempre limitada porque o essencial é a vida verdadeira que está prometida. É com esta certeza que termina a 2ª leitura de hoje “a vida não acaba, apenas se transforma, e desfeita a tenda do exílio terrestre adquirimos no céu uma habitação eterna” (2Cor. 5,1).

monsenhor Vitor Feytor Pinto

“Revista de liturgia diária”

 
 

"Aqui estão minha mãe e meus irmãos"

Domingo dos verdadeiros parentes de Jesus. A Igreja professa sua fé em Deus, fonte de todo o bem. Como explicar, então, e conviver com a existência do mal?

A liturgia deste domingo enfrenta esta questão e responde com a própria Palavra de Deus: "Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus nele.

Celebramos a Páscoa de Jesus Cristo que se manifesta na vida de todas as pessoas e grupos que fazem o que é agradável a Deus.

Antífona de entrada: O Senhor é minha luz e minha salvação: a quem poderei eu temer? O Senhor é o baluarte de minha vida: perante quem tremerei? Meus opressores e inimigos, são eles que vacilam e sucumbem (Salmo 26/27,1-2).

Primeira leitura: Gênesis 3,9-15

Depois do pecado, Deus não acaba o diálogo com o homem: vai à procura dele, chama-o e fala com ele (vs. 8-9). O "homem", envergonhado  e amedrontado (v. 10), procura lançar as culpas sobre a "mulher" (v. 12) e esta sobre a "serpente" (v. 13) que é a única a ser amaldiçoada por Deus (v. 14).

Adão e Eva, antes amigos de Deus, agora se escondem. É o lado psicológico do pecado: o escrúpulo, o medo, a insegurança, o sentimento de culpa. Para designar o desequilíbrio emocional, resultante do pecado, o autor sagrado apresenta o casal com vergonha de comparecer nus diante do Senhor, com quem antes conversavam tão familiarmente, apesar da nudez. Ao sentimento de pudor une-se ao de remorso. Romperam-se as relações e Deus, juiz universal, pede contas, insinuando, porém, desde o início, como Criador e Pai que vai reatá-las, embora fora do paraíso. Ao pecado segue-se o julgamento divino, salientando-se a astúcia da Serpente. A proibição e respectiva ameaça foi dada diretamente a Adão. É a ele que Deus se dirige em primeiro lugar poucas palavras "onde estás"? Adão tenta justificar-se, culpando, traindo sua esposa e, afinal, responsabilizando o próprio por lhe ter dado uma companheira tão frágil e tentadora. Inclusive parece querer diminuir sua culpa, dizendo que aceitaria da companheira apenas uma fruta. "Eis a soberba! Não aceita o pecado. Em lugar de humilde confissão, a desordem, a confusão"! (santo Agostinho, PL 34,449).

O Senhor, então, se dirige à Mulher que, por sua vez, acusa a Serpente. A desculpa dela é mais procedente, pois reconhece ter sido ludibriada pelo maligno. O juiz divino leva em conta essa diminuição, sem porém isentar a Mulher do pecado. É a história do homem: peca, não aceita, busca pretextos, culpa os outros, vai à procura de atenuantes... mas Deus lhe pedirás contas.

A Serpente é um ser inteligente e maldoso, que encarna o espírito do mal e conhece o preceito divino, instigando o homem a desobedecer-lhe. E, nessa desobediência, o livro sagrado vê a causa de todo mal. A cobra é talvez o animal que mais repugnância e aversão instintiva provoca. Com certeza é um bicho "maldito"; ela sempre foi num réptil por natureza, mas o autor sagrado, teologizando, vê nessa atitude e no "comer o pó" uma humilhação, um indício de abatimento e derrota, ao passo que o caminhar ereto é sinal de realeza; os ofídios, isto é, os animais que se assemelham à Serpente, não se nutrem de pó, como pensavam os antigos (Isaias 65,23.25; Salmo 71/72,9; Miquéias 7,17). "Comer o pó" simboliza a derrota da Serpente, não como simples animal, embora divinizado na cultura cananéia, mas como símbolo do mal, autor como Adão e Eva, do pecado.

A serpente foi escolhida pelo autor sagrado para desempenhar o papel de tentador. As razões são várias. No Oriente próximo principalmente no culto cananeu, com efeito, a serpente representa a divindade da fecundidade, tanto a dos campos quanto a das mulheres. E muitas mulheres, em Israel como nas nações vizinhas, de boa vontade recorriam ao culto da serpente pra garantir um casamento fecundo. Aos olhos de Israel era o símbolo de toda a iniqüidade e a origem principal da apostasia e superstição. Por isso a serpente pode simbolizar a narração da queda como quem atua como adversário de Deus. Chama-se "o mais astuto de todos os animais", simbolizando a ciência secreta divinizada e da magia.

A descendência da Serpente, em sentido coletivo, é o conjunto das forças do mal que, aliadas à Serpente, lutam contra Deus. Paralelamente à descendência da Mulher, como coletividade, seriam as forças do bem que promovem o Reino de Deus e lutam contra seus inimigos, vencendo todos eles (cf. Apocalipse 11,19a; 12,1.3-6a.10ab), primeira leitura proclamada na solenidade da Assunção de Nossa Senhora.

A maldição da Serpente esclarece uma constante do Primeiro Testamento. Quando Deus pune o homem, a condenação jamais é absoluta: um futuro permanece possível. De certo modo, esse relato destaca que Deus sempre se põe ao lado do ser humano. No momento mesmo em que amaldiçoa a Serpente, Deus abre o caminho para a esperança. Segundo Gênesis 2,8, as maldiçoes jamais têm a última palavra. Elas podem acumular-se uma após a outra (Gênesis 3,14-20; 4,11-14; 6,5-7.10), mas a bênção termina sempre por triunfar (Gênesis 8,21) e por orientar o sentido da história.

Jesus Cristo, e somente Ele, pode conhecer o bem e o mal e passar da vida à morte, mas à maneira de um Deus que triunfa sobre a morte por sua vida que ninguém pode tomar, e que vence o mal por um perdão sem medida.

A todas as pessoas que conhecem, depois de Adão, a morte e a vida, o bem e o mal, a Eucaristia oferece o fruto da árvore da vida que Adão não pode comer (v. 22), a fim de que um pouco de vida divina neles lhes permitem justificar o mal e vencer a morte.

Salmo responsorial 129/130,1-8

Salmo penitencial De profundis é utilizado na liturgia dos fiéis defuntos, não como lamentação, mas antes como expressão de confiança e de esperança. Também quem está mergulhado na sombra da morte ou passando por uma situação muito difícil, espera do Senhor "misericórdia, redenção" e vida (cf. v. 7). O Salmo 129/130 é uma súplica individual, com convite à assembléia. Sete vezes é invocado o nome do Senhor no breve salmo.

A profundeza é temível para os israelitas, incompreensível, semelhante à morte e o Xeol. De sua profundidade humana o homem grita, e seu grito sobe até o céu A profundidade radical é o pecado, que distancia a pessoa humana de Deus, e o envolve em escuridão. Só de Deus pode vir o perdão, por isso a pessoa humana deve respeitar a Deus com respeito sagrado. Em sua ignorância e obscuridade o ser humano pode atravessar a obscuridade com seu grito; depois aguarda a resposta. Como a aurora devolve a luz, assim Deus enviará seu favor.

É preciso descobrir o rosto de Deus neste Salmo como o "aliado" do povo. O esquema do Êxodo (clamor, descida de Deus e libertação, resgate ou redenção) está bem presente neste Salmo. Deus se mostra, mais uma vez, o Deus da Aliança (a palavra "redenção" recorda o resgate de escravos. Mas há outros aspectos igualmente interessantes. Atingindo as profundidades da própria alma, o ser humano descobre sua fraqueza e miséria totais. Aí, então, clama. E o clamor se torna a expressão da alam e da vida. Prestando atenção no clamor, Deus desce para ver o que há em nossas profundezas. Surpreendentemente, Ele deixa de investigar as culpas da pessoa ou do povo, e se apresenta como aliado que se compadece. Sua resposta é perdão (v. 4a), a graça e a redenção (v. 7b). Ao invés de infundir medo por meio de castigos, infunde respeito ao pecador por meio do perdão (v. 4).

A palavra "redenção" ecoou profundamente em Jesus. Em Mateus 1,21 se diz que Jesus irá salvar (isto é, redimir) seu povo dos seus pecados. Além disso, o episódio de Marcos 2,1-12 apresenta Jesus perdoando os pecados do paralítico. Cura-o pela raiz, devolvendo-lhe liberdade e vida.

A liturgia cristã ama este canto penitencial e está também no Ritual das Exéquias. Embora a Igreja e cada um dos cristãos tenham sido tocados já pela luz de Cristo, vivem na profundeza do mundo, e pecam. A redenção abundante de Cristo vai se realizando continuamente, muna expectativa contínua de redenção definitiva.

Embora tenhamos sido tocados pela luz de Cristo, vivemos ao mesmo tempo a pobreza de nossa condição humana. Com este salmo, gritamos a Deus, das profundezas de nosso pecado, contemplando a salvação que vai se realizando em nós gratuitamente.

Segunda leitura: 2 Coríntios 4,13-5,1

A fé descrita por Paulo ilumina o ver e o sentir, o falar e o rezar, a mente e o coração, o dia-a-dia e a esperança das pessoas. "Acreditamos e por isso falamos" (2 Coríntios 4,13), estamos convictos de que "Aquele que ressuscitou o Senhor Jesus também nos há de ressuscitar" (2 Coríntios 4,14); "Tudo é por vossa causa", "tudo é graça" (cf. 2 Coríntios 4,15), "por isso não desanimamos" (4,16). A fé cristã consiste em "olhar para as coisas invisíveis" (cf. 2 Coríntios 4,18), as que o Senhor constrói para nós (2 Coríntios 5,1).

Paulo sabe ler com fé a sua situação triste e atribulada. Sabe que a "glória", a "ressurreição e a redenção" passam através do sofrimento e da morte (cf. 2 Coríntios 4,7). O destino do Apóstolo segue as pisadas do destino de Jesus. A fé faz ver as coisas invisíveis aos olhos humanos (2 Coríntios 4,18), a fé consiste em ver as coisas como Deus as vê. A lente divina que permite ver o que é invisível: Jesus Cristo morto e ressuscitado.

Da fé, consiste em ver tudo e todos à luz de Jesus Cristo, nascem as outras duas virtudes teologais: a caridade/graça, que se torna força para suportar as provações e "hino de louvor" para glória de Deus (2 Coríntios 4,15); e a esperança/certeza de saber que nem tudo em nós é corruptível (2 Coríntios 4,16) mas, pelo contrário, Deus está a construir para nós uma "habitação eterna" (2 Coríntios 5,1).

Esse texto de Paulo mostra, então, a ressurreição do cristão como algo de futuro, excluindo que ela já tenha acontecido no batismo (cf. Colossenses 3,1-2,12), como significando um tempo cronológico no passado.

A parte física, corruptível do homem pode se consumir e sua força vital ser aniquilada, o homem interior, espiritual criado em nós no batismo, porém, é imortal, animado pela fé e o Espírito Santo. Cada dia de novo recriado pela força do amor de Deus, ele assume a imagem de seu Criador (cf. Colossenses 3,10) torna-se criatura. A esperança é portanto maior que as tribulações, pois a força interior da graça levará à vida da glória, à salvação definitiva, tornando nosso corpo ação do Espírito Santo que o realimenta.

Hoje Paulo diria: se o nosso homem biológico caminha para a ruína, o nosso homem psicológico e espiritual se renova a cada momento da nossa caminhada cristã para o Reino definitivo.

A eucaristia alimenta sem cessar a reconciliação da esperança teologal com a esperança humana. Com efeito, ela convida os cristãos à construção do Reino e purifica-os de seu egoísmo, colocando-os em condições para o mais lúcido exercício de seus recursos. Mas convida os cristãos ao mesmo tempo a mobilizar estes recursos, assim transfigurados, para a construção de uma cidade humana onde ele testemunhará, o mais possível, a vitória cotidiana sobre a morte e sobre o ódio.

Evangelho: Marcos 3,20-35

Em toda a primeira parte do Evangelho de Marcos (capítulos 1-8) surge uma pergunta que salta de página em página: quem é Jesus? Quem é esta pessoa que fala com autoridade e atua com poder? As suas palavras sacodem e fascinam, os Seus milagres colocam interrogações. Coloca medo o poder que demonstra até sobre os espíritos maus. Os discípulos têm dificuldade em compreender, mas permanecem junto do Mestre, a multidão oscila entre entusiasmo e curiosidade; mas no texto de hoje os escribas e os fariseus procuram desacreditá-Lo, apresentando-O como possuidor de um poder diabólico (cf. vs. 22-30). Os parentes, preocupados, procuram levá-Lo para casa (v. 21).

Com argumentos convincentes (vs. 23-27) e libertando os endemoniados (cf. Marcos 1,23-27), Jesus procura dar a entender que Ele é, mas sem encorajar falsas interpretações da Sua condição messiânica. São palavras dramáticas as que dirige a quem impugna a verdade conhecida (vs. 28-29), e mostram-se duras até as palavras dirigidas aos parentes (vs. 33-35). A fé é mais importante do que os próprios vínculos de sangue.

O pecado contra o Espírito Santo. A resposta de Jesus é um dos textos que melhor acentua a força de perdão presente em Deus. O discurso começa com a palavra hebraica "amen" (= "em verdade") que tem um sentido afirmativo reforçado. O Cristo diz "aos homens tudo será perdoado, os pecados e até as blasfêmias" (v. 28). Impossível perdoar mais!

Porém, diante de tanta bondade de Deus, há entretanto o famoso pecado contra o Espírito Santo que parece abrir uma exceção. O que significa exatamente? Conforme o contexto imediato, é o seguinte: quem atribuir, de má fé, às forças do mal o bem gerado por Jesus Cristo exclui-se a si mesmo do plano salvador de Deus. Não é Deus que recusa o perdão, é o pecador que recusa em acolher a salvação oferecida gratuitamente pelo Pai através do Espírito Santo que age em Jesus. É a própria pessoa que se fecha, radical e voluntariamente, por causa da cegueira e dureza de coração (Marcos 3,5). Tal recusa de conversão impede o perdão. Nisto entendemos a blasfêmia contra o Espírito Santo ou, em outras palavras, o pecado eterno (v. 29).

Os vs. de 31-35 relatam o verdadeiro parentesco de Jesus. Os três sinóticos contam este episódio, seja antes do ensino em parábolas (Mateus/Marcos, seja depois, Lucas).

Em Marcos, a chegada da mãe e dos "irmãos" (= os primos) de Jesus (cf. Mateus 12,46) constitui uma seqüência direta aos vs. 20-21. Jesus está pregando na casa de André e de Simão. Por causa da multidão, Maria e os outros familiares não podem falar pessoalmente com Jesus. Por causa disto, mandam alguém avisá-Lo de sua presença.

É um fato muito banal do qual Jesus vai aproveitar-se para mostrar que veio reunir todas as pessoas numa só família. A dureza aparente da sua resposta desaparece se considerarmos que Jesus está falando não com os membros da sua família, mas sim à multidão. Em termos atuais, Jesus diria que sua família não se restringe aos vínculos do sangue: reúne todos aqueles que fazem a vontade de Deus (parentes espirituais), o Pai de todos os homens e de todas as mulheres. Com efeito, o Espírito que o Filho veio trazer é um espírito de comunhão e participação no próprio Amor de Deus que se exerce soberanamente perdoando a todos. É só acreditar e agir de maneira conseqüente.

O ser humano foi criado livre: portanto, não pode ser o joguete de outras criaturas, mesmo espirituais. Foi isto que Cristo veio revelar libertando-se desta solidariedade cósmica que o envolvia como homem, e libertando seus irmãos do domínio das potencias do mal.

Esperando a clara manifestação desta vitória, o cristão se encontra envolvido por duas solidariedades opostas: ora ele cede ao pecado, e mergulha na primeira; ora escuta a Palavra e obedece a ela, e elabora, assim, a solidariedade do novo Reino.

Esta escuta da Palavra toma corpo na liturgia da Palavra e colocá-la em prática, na obediência, constitui o conteúdo do sacrifício espiritual oferecido na Eucaristia que contém os nutrientes para alimentar a nossa fé em nossa caminhada tão cheia de perigos.

Da Palavra celebrada ao cotidiano da vida

No Evangelho, os adversários de Jesus querem dizer que Jesus também tem uma inclinação para o mal, isto é, esta "ambivalência" que parece ser natural no ser humano: o bem e o mal. Ao dizer que ele está "possuído" por Belzebu, indagam sob qual inspiração Jesus age. Quem está por trás de seu trabalho, uma vez quer a mentalidade judaica via os demônios como seres pessoais, capazes de se relacionar com o homem e a mulher e influenciá-lo? Aqui encontramos a conexão com a primeira leitura. Adão e Eva se deixaram induzir pela palavra da Serpente, imagem usada no relato do Gênesis para personificar o mal. Jesus deixa claro na parábola para nós e, sobretudo, na conclusão da narrativa evangélica, que age sob o impulso/inspiração de Deus: "quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe". Jesus age como o "Novo Adão", o ser humano totalmente novo, livre da inclinação para o mal porque é ciente de sua origem: o próprio Deus. Os cristãos, pela fé, sabem que estão ao lado de Jesus. Sabem que Ele - o Cristo Senhor - corresponde a seu "homem interior", que sustenta suas atitudes em obediência à fé. Ressuscitados com Jesus, os cristãos têm a consciência de serem homens e mulheres pascais, cuja postura não pode ser quebrada pela inclinação ao mal, uma vez que esta foi definitivamente vencida.

A mensagem da liturgia da Palavra está cheia de esperança. Jesus é o redentor e o salvador de todos e de cada um, de cada pecado e de todos os pecados. Há um só obstáculo capaz de se opor à ação universal e redentora de Cristo: a recusa em reconhecê-Lo como Redentor, ou então não reconhecer a nossa necessidade Dele. Este é o pecado contra o Espírito Santo. Só a fé nos consente reconhecer o nosso pecado e nos dá a possibilidade da salvação.

A celebração é momento de firmar os passos neste caminho, de escutar a Palavra de Deus e discernir a sua vontade sobre nós, de nos confiar no Espírito Santo que suscita em nós o desejo de amar e servir.

A Palavra se faz celebração

A liturgia expulsa de nós a inclinação para o mal

A celebração cristã do Dia do Senhor alimenta este "homem interior" em nós. Anima e mantém nossa atitude de fidelidade à vontade de Deus. Por isso, pedir inspiração que guie nossas ações é a única súplica admissível nesta celebração dominical. A liturgia exorciza, expulsa de nós toda e qualquer inclinação para o mal. É animador perceber como esta noção vai sendo amadurecida nos ritos e  nas preces da celebração dominical: a oração sobre as oferendas reza: "vede nossa disposição em vos servir e acolhei a nossa oferenda para que este sacrifício vos seja agradável e nos faça crescer na caridade". De fato ao nos reconhecermos como povo convocado por Deus e reunido no Espírito de Cristo, somos curados da influência do "príncipe deste mundo", pois ele perde o trono e é incapacitado como possível líder de nossos atos. É o próprio Senhor quem nos guia e preside: "Ó Deus, que curai os nossos males, agi em nós por esta Eucaristia, libertando-nos das más inclinações e orientando para o bem a nossa vida" (Oração depois da comunhão).

Avaliar nossa caminhada de fé

Ao regressar para nossas casas, para o convívio com os familiares, parentes, amigos, vizinhos e colegas de trabalho é preciso verificar o que nos inspira a estar com eles. Quem, de fato, conduz nossos atos, estabelece nossas posturas e direciona nosso coração? Este é um exercício permanente que devemos fazer, revisando nosso caminhar. Conscientes de quem somos e do que queremos da vida, não nos dobremos à maldade! Não nos escondamos atrás de justificativas que fazem da maldade algo necessário ou irremediável, não façamos da mentira uma verdade.

Ligando a Palavra com a ação eucarística

Muitas vezes vamos a uma celebração e não conseguimos avaliar a importância dela na nossa vida, o quanto ela faz a comunidade crescer do ponto de vista espiritual, psicológico. Não percebemos a dimensão missionária da liturgia que nos envia ao mundo. Isso porque vamos às celebrações por devoção, para conseguir alcançar graças, cura, solucionar problemas e só.

A celebração é o momento culminante da nossa vida, o kairós, de firmar nosso compromisso com Jesus, com a Igreja missionária. Mas é preciso acolher a Palavra de Deus, deixar que ela nos converta e transforme a nossa a nossa vida para fazer a vontade do Pai e servir aos irmãos e irmãs, sobretudo os doentes, os pobres, os abandonados. A celebração ao mesmo tempo que faz memória de Jesus, renova para nós a mesma compaixão que Ele teve das pessoas. Atualiza para a comunidade e cada um de nós, a prática de Jesus.

A força do Pai e do Filho Jesus, não estão na ostentação do poder econômico e político, mas na fraqueza daqueles que se organizam para um mundo melhor para vencer os males.

Reunidos em comunidade em torno da mesa da Palavra e do Altar, para celebrar a Divina Liturgia, peçamos ao Pai, no Filho e na unidade do Espírito Santo a mesma prece do salmista de hoje: "No Senhor ponho a minha esperança, espero em sua palavra".

padre Benedito Mazeti

 
 

Quando a gente está super ocupado, costuma-se dizer que não se tem tempo nem para comer, esse evangelho começa constatando exatamente isso, pois Jesus e seus discípulos chegaram na casa de alguém onde pretendiam tomar uma refeição, mas um grande número de pessoas foram ali á sua procura e Jesus teve que lhes dar atenção. Não ter mais tempo para si, vai ter para os seus parentes a conotação de loucura “Ele está fora de si”. Amar as pessoas preocupar-se com elas, doar-se aos serviços da comunidade para servir a Deus e aos irmãos, nos tempos da pós-modernidade também soa como uma loucura, pois vivermos no mundo das relações mercantilizadas onde tempo é dinheiro e perder tempo com coisas que não dão nenhum retorno, é realmente coisa de louco.

Pior que esses parentes de Jesus que não entendiam á sua missão, eram  os escribas que atribuíam suas ações libertadoras e curas prodigiosas  á Belzebu, príncipe dos demônios, acusando Jesus de fazer o Bem, através da força do mal, o que era uma grande incoerência, pois Bem e Mal são duas coisas que jamais podem agir em conjunto, se as obras de Jesus eram boas em si mesmo, curava e libertava as pessoas, elas jamais poderiam provir do mal.

Em nossa sociedade também sofremos desse mal, porém no sentido contrário,  querendo atribuir ao Bem algo que provém do mal, senão vejamos, para muitos, inclusive cristãos, a pena de morte, o aborto, o divórcio, a eutanásia, são coisas do Bem, e já tem até traficante de Favela pousando de herói do povo, defensor dos pobres, dos velhos e das crianças. Quando isso acontece e essa mentalidade começa a dominar a todos, é porque se está cometendo o temível pecado contra o Espírito Santo, que Jesus afirma não ter perdão. E que pecado terrível será este?

Exatamente o mesmo que os Escribas e os parentes de Jesus cometiam: o de não acreditar e não aceitar a Graça que Jesus nos trouxe, em uma recusa contra a ação Divina, libertadora e Salvadora nele presente, e colocada a favor das pessoas. Quem comete esse pecado está apostando todas as suas fichas nas forças do Mal presente no mundo, por crer no fundo, que esta é mais poderosa que o Bem supremo que Jesus nos oferece.

O Mal já foi derrotado por Jesus mas o homem ainda não se apercebeu disso, o Reino está presente na vida da humanidade, não de maneira ostensiva como a Força do  mal, mas como semente em desenvolvimento e que requer cuidado e atenção para crescer e ser a maior de todas as árvores, mas o homem imediatista deste tempo prefere acreditar no Mal e deixa de investir e acreditar no Bem.

diácono José da Cruz

 
 

1 – É possível que ouçamos o rumor dos passos do Senhor a caminhar no nosso jardim! Por vezes os Seus passos assustam-nos porque estamos nus, temos medo do Seu olhar, e talvez pensemos que a Sua misericórdia tenha limites. Mas o problema não é estarmos despidos diante do Senhor, sem as nossas máscaras, o problema é a falta de confiança no Seu amor, a falta de cumplicidade com um Pai que nos ama com o coração de Mãe. É possível que não possamos voltar atrás, é possível que nos tenhamos desabituado do olhar de Deus e O sintamos como um intruso, um intrometido, que queremos afastar, manter longe da nossa vista. Talvez tenhamos deixado de ter aquela cumplicidade que nos fazia correr para os Seus braços, a intimidade que desejamos para encontrar um olhar translúcido de amor, de carinho e de ternura! Há de chegar o tempo em que sentiremos saudades daquele olhar, daquele abraço, sem precisarmos de nos vestir, de nos disfarçarmos, de arranjarmos barreiras!

Houve um tempo em que as nossas Mães nos trouxeram ao colo, nos amamentaram, nos deram banho, nos mudaram as fraldas! Se calhar até temos pudor e recato em falar desse tempo que não nos lembramos mas que sabemos que existiu! Com os anos fomos fazendo a experiência de uma privacidade que anulou aquela intimidade, pele com pele, fomos fechando o quarto, fomo-nos vestindo, deixamos de aparecer nus diante dos nossos pais. E já crescidos acharíamos estranho despir-nos diante deles, pois tal intimidade já não se expressa da mesma maneira.

«Onde estás?». Pergunta Deus a Adão. Onde estás, pergunta-nos Deus! A resposta de Adão mostra o medo e a vergonha: «Ouvi o rumor dos vossos passos no jardim e, como estava nu, tive medo e escondi-me». Como é que nós respondemos a Deus? Temos medo? Vergonha? Achamos que nos exige mais do que estamos dispostos a dar?

2 – Jesus torna audíveis e visíveis os passos de Deus. Podemos continuar a esconder-nos. Deus não Se esconde, pelo contrário, procura-nos, vem ao nosso jardim, ao nosso mundo, chama-nos pelo nome, quer-Se perto de nós. Podemos olhar para o lado, fazer de conta que não é connosco, mas não é possível ignorar que é a nós que Jesus nos chama!

O nosso olhar pode ficar turvo, o nosso coração pode endurecer como pedra, a nossa memória pode adoecer, a nossa vontade pode fraquejar, mas Deus não desiste. Não desistiu de Adão. Não desistiu de Caim. Não desistiu de Noé e dos seus filhos. Apostou em Abraão. Apostou em Moisés. Apostou em Josué. Confiou em David e em Salomão. Confiou em Elias e em Amós. Não cessou de insinuar o Seu rosto e a Sua presença, não tanto na tempestade e na confusão, mas na brisa suave, respeitando-nos na nossa liberdade. Sem Se impor, mas não deixando de Se propor!

É então que, na plenitude dos tempos, Deus vem em carne e osso, encarnando, dando-nos o Seu Filho muito Amado! Não dá mais para ignorar, Deus está no meio de nós. O sim de Deus à humanidade encontra o "sim" de Maria e nasce Jesus, Deus connosco.

Jesus vem fazer a vontade do Pai! Seremos Seus discípulos e Seus parentes se O imitarmos. As Suas palavras são inequívocas: «Quem fizer a vontade de Deus esse é meu irmão, minha irmã e minha Mãe».

3 – O ministério de Jesus é transparente em toda a Sua vida. Ele vem para nos libertar de todos os demónios e de tudo o que nos escraviza, mostrando-nos a beleza e o bem, a verdade e o amor, o perdão e a misericórdia, a compaixão e a ternura. É acusado de blasfémia, é apontado por comer com pecadores e publicanos e de Se fazer rodear de gente pouco recomendável, por pobres e mulheres, por crianças e estrangeiros.

Mas as acusações que Lhe são imputadas são o melhor elogio que se Lhe podia fazer e o reconhecimento da Sua opção preferencial pelos mais pobres, pelos excluídos, por todos os que se encontram à margem, nas periferias existenciais, culturais e até religiosas. O Seu labor é trazer-nos Deus, abrir-nos as portas da vida divina, mas muitas vezes é visto como um rival, um inimigo a abater, pois desinstala, provoca, desafia a darmos o melhor e a colocar-nos ao serviço dos outros. Como Ele faz. O discípulo não é maior que o Mestre, logo deve fazer do mesmo modo!

A Sua família (humana) é metida ao barulho. Não deve ter sido fácil para Maria escutar as fofocas acerca do seu querido Filho. Confia em Jesus, sabe quem criou, mas não deixa de se preocupar e ocorrer para se inteirar do que se passa. Será que Jesus enlouqueceu? Estará possesso? A resposta de Jesus é esclarecedora, mas é também oportunidade para avivar a Sua missão: libertar-nos de todo o mal.

Por outro lado, as condições do seguimento centram-se no concretizar a vontade de Deus. Se tivermos dúvidas quanto à vontade de Deus, olhemos para Jesus, escutemos as Suas palavras, insiramo-nos nas Suas parábola, procuremos ver como Ele age em cada situação! «Deus, fonte de todo o bem, ensinai-nos com a vossa inspiração a pensar o que é reto e ajudai-nos com a vossa providência a pô-lo em prática».

4 – Somos responsáveis uns pelos outros, e pelo mundo que habitamos. Cabe-nos zelar para que o mundo continue a ser um Paraíso, mesmo sabendo de antemão das nossas limitações, do nosso pecado e do nosso egoísmo, num espaço em que nos sintamos em casa, membros da mesma família que tem origem em Deus e para Deus se encaminha.

Pelo meio lá vamos sacudindo a água do capote! «A mulher que me destes por companheira deu-me do fruto da árvore e eu comi»! «A serpente enganou-me e eu comi»! Reconhecer que estamos a caminho, que temos a nossa quota-parte de responsabilidade na transformação do mundo, dá-nos a possibilidade de interagirmos com os outros para em conjunto cuidarmos do Jardim.

5 – São Paulo faz-nos ver outro patamar da nossa vida e da nossa relação com Deus. Aquele que nos criou por amor não quer perder-nos, não quer que nos percamos. O amor, bem entendido, anseia pela eternidade. Quem ama quer que o amor permaneça para sempre e que a pessoa amada viva além do tempo. As nossas escolhas e as nossas vivências dependem do caminho a percorrer e da meta a alcançar. Se estamos empenhados numa tarefa, mas esta surgir apenas como um momento para passar ou preencher o tempo, logo chegará o desencanto e o cansaço. Se o que fazemos tem sentido para agora e também porque perdurará connosco, então até os momentos negativos podem ser enquadrados num projeto que não se esgota aqui, que não se destrói em definitivo.

Com efeito, diz-nos o Apóstolo, "Aquele que ressuscitou o Senhor Jesus também nos há de ressuscitar com Jesus e nos levará convosco para junto d’Ele... Ainda que em nós o homem exterior se vá arruinando, o homem interior vai-se renovando de dia para dia. Porque a ligeira aflição dum momento prepara-nos, para além de toda e qualquer medida, um peso eterno de glória. Não olhamos para as coisas visíveis, olhamos para as invisíveis: as coisas visíveis são passageiras, ao passo que as invisíveis são eternas. Bem sabemos que, se esta tenda, que é a nossa morada terrestre, for desfeita, recebemos nos Céus uma habitação eterna, que é obra de Deus e não é feita pela mão dos homens».

6 – Senhor, agora que sei que o rumor no meu jardim eram os Teus passos...

Agora que percebi que era a Tua voz que me chamava pelo nome...

Agora, Senhor, que o meu olhar encontrou o Teu olhar, ou melhor, que Tu quiseste ver-Me...

Agora que sei que vieste ao meu encontro, quiseste habitar comigo...

Ilumina-me, Senhor, com o Teu Espírito, com o fogo do Teu amor...

Senhor, faz com que me sinta perdoado e amado pelo Teu abraço,

Que nos momentos bons, saiba ser grato por tantas bênçãos...

Que nos momentos maus, saiba que não foste embora...!

Agora que me encontraste, não me deixes afastar-me de Ti, do Teu olhar, do Teu amor

Agora que sei que me assumiste como filho no Teu Filho Jesus...

Agora que sei que faço parte da Tua família,

Que saiba fazer com que sejas parte da minha família...

Faz-me atento e disponível, para Te escutar, Te amar, para Te seguir,

Faz-me dócil para acolher a Tua palavra e procurar a Tua vontade...

E como Maria saiba dizer, saiba dizer-Te: faça-se em mim segunda a Tua palavra!

 

 

1 – Respondeu-lhes Jesus «Quem é minha Mãe e meus irmãos?» E, olhando para aqueles que estavam à sua vota, disse: «Eis minha Mãe e meus irmãos. Quem fizer a vontade de Deus esse é meu irmão, minha irmã e minha Mãe».

É de todos conhecida esta reação de Jesus àqueles que O interpelaram sobre a presença de Maria e dos seus familiares mais próximos. Estranha-se esta passagem, até porque Maria e os seus familiares muitas vezes O acompanhavam sem que isso tenha suscitado admiração. Por outro lado, compreende-se numa situação que sugere que Jesus estava passando das marcas e que alguém tivesse advertido a Sua Mãe e os familiares que poderiam ter alguma influência para levar Jesus para casa, para não provocar mais problemas.

Aliás o contexto é esse mesmo. Jesus chama as pessoas e fala-lhes em parábolas como resposta a acusações de que estaria possuído por algum espírito demoníaco:

«Como pode Satanás expulsar Satanás?» Se um reino estiver dividido contra si mesmo, tal reino não pode aguentar-se. E se uma casa estiver dividida contra si mesma, essa casa não pode aguentar-se. Portanto, se Satanás se levanta contra si mesmo e se divide, não pode subsistir: está perdido. Ninguém pode entrar em casa de um homem forte e roubar-lhe os bens, sem primeiro o amarrar: só então poderá saquear a casa. Em verdade vos digo: Tudo será perdoado aos filhos dos homens: os pecados e blasfémias que tiverem proferido; mas quem blasfemar contra o Espírito Santo nunca terá perdão: será réu de pecado eterno».

Numa e noutra indicação, Jesus deixa um apelo à unidade, desafiando-nos a alargar o conceito de família, para lá das paredes da nossa casa física.

Tal como um reino, também a família só sobrevive se os seus membros não estiverem permanentemente uns contra os outros. Por outro lado, a família biológica, fundamental ao crescimento da pessoa, há de dar lugar à família dos filhos de Deus. Jesus aponta para uma identidade que quebre fronteiras e nos projete no Coração de Deus.

2 – A família é a célula primária e fundamental de uma sociedade adulta, democrática, saudável, é essencial na comunicação da vida e dos valores, no cultivo da liberdade e da solidariedade (entre pessoas e entre as diversas gerações), na inserção positiva e estruturação da social.

Quando a família é descaracterizada, todo o tecido social se ressente. A casa, a família, é o tempo, o lugar e o alfobre da vida em qualidade. Nela cada pessoa aprende a falar, a ler o seu semelhante, a reconhecer a sua identidade, na abertura aos outros e ao Totalmente Outro (expressão de E. Levinas), ou melhor, ao Totalmente Próximo (expressão de Gongalez Faus).

A urgência e a grandeza da família é para Jesus uma certeza inabalável. Na casa de Nazaré, Jesus descobre-se filho, relaciona-se no seio da vida familiar reconhecendo-se irmão com familiares e vizinhos, aprende a ser pessoa em relação, com os mais próximos mas também com as pessoas que vêm de outros lugares, das pessoas que passam para pedir abrigo, esmola, proteção. A sensibilidade de Jesus resulta da vivência em família, na atenção ao próximo, na riqueza da caridade e na importância do trabalho honesto e dedicado.

É também da sua casa paterna/materna que Jesus é introduzido na casa de Deus, na religião judaica, com os seus ritmos e com as suas tradições. É por ter da família uma visão por demais positiva que Jesus concebe uma família mais alargada.

A sua mãe, os seus irmãos, a sua família, são todos aqueles e aquelas que procuram viver em sintonia com Deus, com a Sua vontade. Como em outra passagem, Jesus deixa claro: mais felizes são aqueles que escutam a palavra de Deus e a põem em prática. E não bastam as palavras, não basta dizer "Senhor, Senhor", é preciso traduzir em obras o que se professa com os lábios, para assim integrar o reino de Deus.

3 – A pessoa é um ser em relação. Das muitas definições que se encontram sobre a pessoa, esta é das mais expressivas para nos dizer da solidariedade específica e inolvidável do ser humano. Obviamente, que não se pode reduzir a vida e a pessoa à sua capacidade de relação, com o grave perigo de suprimir a vida do ser humano a quem não se reconheça capacidade relacional, ainda que a relação exista para lá das aparências biológicas. A pessoa é um ser único e irrepetível, é filho/a de Deus, desde a concepção à morte (natural).

Desde o início que estamos "condenados" a relacionar-nos com os outros, em família, com o mundo, a natureza, com o mundo espiritual, na nossa vida interior e o apelo em nós inscrito à transcendência. Mais uma vez a valoração da família humana, na qual aprendemos a ser pessoas e a nos relacionarmos saudavelmente com outros, e da família que integramos pela fé. A nossa vida limitada ao tempo e ao mundo terrenos reduziria a nossa esperança a pó, a nada, ao vazio, ao ocaso, fazendo-nos cair em depressão definitiva, ou num cinismo selvagem.

São Paulo, num texto bem conhecido, ilustra a nossa vocação à transcendência, à vida espiritual, ao sobrenatural:

"Aquele que ressuscitou o Senhor Jesus também nos há de ressuscitar com Jesus e nos levará convosco para junto d’Ele... Ainda que em nós o homem exterior se vá arruinando, o homem interior vai-se renovando de dia para dia. Porque a ligeira aflição dum momento prepara-nos, para além de toda e qualquer medida, em peso eterno de glória. Não olhamos para as coisas visíveis, olhamos para as invisíveis: as coisas visíveis são passageiras, ao passo que as invisíveis são eternas. Bem sabemos que, se esta tenda, que é a nossa morada terrestre, for desfeita, recebemos nos Céus uma habitação eterna, que é obra de Deus e não é feita pela mão dos homens".

Em relação com os outros, na nossa fragilidade e limitação humanas, por vezes desviámo-nos da vontade de Deus, contornámos o caminho que nos levará à morada eterna, obra de Deus. Desde o início, o ser humano se confrontou com a sua liberdade. A falta de solidariedade em família, ou na comunidade, leva à ruína, é o pecado que nos condena à solidão e ao conflito (infernal), e promove a desculpa e a acusação:

Disse Deus: «Quem te deu a conhecer que estavas nu? Terias tu comido dessa árvore, da qual te proibira comer?» Adão respondeu: «A mulher que me destes por companheira deu-me do fruto da árvore e eu comi». O Senhor Deus perguntou à mulher: «Que fizeste?» E a mulher respondeu: «A serpente enganou-me e eu comi».

O projeto original é salvo pelo amor, pelo regresso à família de Deus, pela adesão à vontade divina, para que prevaleça em nós a obra de Deus, até à eternidade.

padre Manuel Gonçalves

 
 

A força regeneradora e libertadora do reino

1ª leitura: Gênesis (3,9-15)

O egoísmo do pecado

1. Esta leitura (usada na festa da Imaculada Conceição) é a manifestação teológica de um autor chamado javista que se limita a pôr por escrito toda a tradição religiosa de séculos, em ambientes culturais diversos, sobre a culpabilidade da humanidade: Adão e Eva. Hoje já é claramente aceite que não é necessário entender tudo isto como se se tratasse de um só casal humano. Os simbolismos do relato permitem-nos tudo isso e mais, uma vez que cientificamente o monogenismo não resiste a uma análise coerente. O pecado, pois, entorpece-nos, envolve-nos, fascina-nos, inunda-nos numa liberdade desmesurada, até que vemos que estamos com as mãos vazias, nus, e sem nada do que pensávamos que íamos conseguir fora dos planos de Deus. Então começam as culpabilidades: a mulher, o ser fraco perante o forte, como sucedeu em quase todas as culturas. E, pelo meio, aparece o mito da serpente, como símbolo de uma inteligência superior a nós mesmos, ou de uma força obscura que pode conosco, que não é divina, mas que o parece.

2. O mal foi sempre descrito miticamente. Mas, na realidade, o mal somos nós que o fazemos e o projetamos para aquele que está na nossa frente, especialmente se é mais frágil, segundo a única visão cultural equivocada. Quem poderá libertar-nos disto? Sempre se viu neste texto uma promessa de Deus; uma promessa para que possamos perceber que podemos vencer o mal, sem o projetarmos sobre o outro, se soubermos amar e valorizar quem está ao nosso lado; neste caso, o homem à mulher e a mulher ao homem, e, assim sucessivamente, grupos familiares, povos, raças. Todos somos chamados a amar o bem e a transmiti-lo… mas, desgraçadamente, os nossos caminhos separam-se. Só Deus pode garantir-nos o melhor e devemos tê-lo em conta, acolhê-l'O, obedecer-Lhe e procurá-l'O sempre.

2ª leitura: 2Cor. (4,13-5,1)

A morte vai-se transformando em vida

1. O tema "escatológico" que Paulo desenvolve neste momento da 2Cor. é de verdadeira transcendência. O apóstolo está mais aberto que nunca à sua própria morte e já não está preocupado com a "Parusia" (como se pode verificar em 1Ts. e em 1Cor.), porque sente que a sua vida como pessoa e como apóstolo se vai gastando a pouco e pouco. Por isso, não vai recorrer a um desenvolvimento filosófico, mas à sua experiência pessoal que todo o crente deve ter com Jesus Cristo, com a sua morte e a sua Ressurreição. Mas, mais ainda, o "emissário" do Evangelho deve estar na disposição de viver esta vida em Cristo: entregar-se à morte, para que os outros vivam deste Evangelho. Assim é dito clara e manifestamente em 4,12: "deste modo, a morte acontece (energeit) em nós e em vós a vida". Isto significa que enquanto o apóstolo, por causa do Evangelho, vai gastando a sua vida, nessa medida semeia vida na comunidade que acolhe aquela mensagem. Paulo expressou esta identificação com Cristo noutros momentos, como em Gl. 2,20 ou em Fl. 3,7-11. Mas o fato de agora apoiar o seu ministério no kerygma: morte e ressurreição de Jesus, é porque serve extraordinariamente à metáfora paradoxal do "vaso de barro" e do "tesouro". O pregador do Evangelho experimenta, portanto, pessoalmente, a doutrina da salvação na sua dupla dimensão de morte e de vida. Não se pode viver senão morrendo, da mesma maneira que Cristo não pôde ressuscitar ou "ser ressuscitado", sem passar pela debilidade da morte. Se todos os cristãos, pois, tivessem que acolher esta experiência soteriológica de identificação com Cristo, não seria, por isso, o apóstolo menos responsável por este ministério.

2. Daí que o apóstolo associe a sua sorte e salvação à da comunidade. É o que vai expressar, além disso, com o apoio de uma fórmula de ressurreição: "Aquele que ressuscitou (egeíras) Jesus nos ressuscitará (egeirei) com Jesus e nos apresentará juntamente convosco" (4,14). Esta fórmula primitiva de tom apocalíptico, sem dúvida, parece retocada por Paulo naquela última parte ao unir o seu futuro ao da comunidade. Isto mesmo se confirma com acrescentos em 4,15, uma vez que viveu e vive esta experiência pessoal-apostólica para que a comunidade possa louvar a Deus. É uma das páginas escatológicas de Paulo, provavelmente a mais distanciada do início. De 1Ts. 4 e inclusive de 1Cor. 15, e a que mais deu que falar em torno dos conceitos escatológicos da vida depois da morte, juntamente com Fl. 1,22-25. A consciência da nékrôsis, ou seja, da afirmação da experiência da morte, sob a imagem da casa e do vestido, é um contributo substancial vivido como pessoa e como apóstolo. As duas coisas, portanto, são inseparáveis. Devemos esforçar-nos por ler aqui uma convicção de Paulo de que já não é necessária a Parusia como em 1Ts. 4,15. No horizonte da sua vida e com todos os sofrimentos, a doença, a sua missão perspectiva-se para o futuro, não somente do ponto de vista existencial, mas verdadeiramente escatológico.

Paulo não fala de forma dualista, nem apenas do homem interior, mas de todo o seu ser, de toda a sua pessoa.

Evangelho: Marcos (3,20-35)

Face ao "demoníaco" a família dos filhos de Deus.

1. De entre as curas de Jesus, vale a pena falar da "desdemonização" como chave do anúncio da presença do Reino. Mas isto, hoje, não pode ser abordado simplesmente como "expulsão dos demônios", fenômeno de "exorcistas" que tanta curiosidade provoca às vezes, mas da libertação da mente e do coração de que sofria e padecia todo aquele que estava sob a influência do demônio, de Belzebu, como personalização de tudo aquilo. A cultura da doença no judaísmo e, especialmente na Galileia, tinha estes tons tão dramáticos de pessoas perturbadas. O drama é que tudo isto era encarado como um castigo e um abandono de Deus.

É neste ponto que Jesus atua com o seu ato "desdemonizador". E se o Reino de Deus não se reduz simplesmente a um conceito, mas que é uma força que transforma, Jesus liberta todas estas pessoas estigmatizadas pelos vizinhos e devem ser as primeiras a experimentar a misericórdia de Deus.

2. Por isso, a acusação de que Jesus atua em nome de Belzebu é negar-Lhe todo o pão e o sal do Reino que anuncia e da sua misericórdia. A parábola é, portanto, sintomática: não pode atuar em nome de Belzebu e expulsá-lo. Tem de ser em nome de uma força maior, mas é isso o que não querem aceitar. Não há poderes mágicos nem ocultos, mas uma palavra de vida, de aproximação, de misericórdia, de gratuidade em nome do mesmo Deus que negam a estes desgraçados. É uma terapia psicológica, mas mais que isso, teológica, e espiritual a que os seus adversários não podem resistir. Não é preciso entrar nos termos técnicos dessas doenças da mente, porque o eram também do coração. Na realidade, era então tanto uma doença cultural como religiosa, que Jesus não estava disposto a aceitar perante a sua mensagem evangélica de alegria e de amor.

3. Aquela acusação que quer dar a entender o redator do Evangelho, é justamente o que vem a ser a blasfêmia contra o Espírito Santo. Tratava-se, sem dúvida, de uma "afirmação" de Jesus independente que agora, aqui, assume todo o seu sentido: acusá-l'O de estar a pactuar com Satanás, porque libertar os "endemoninhados" é faltar a toda a verdade. É colocá-l'O do lado das trevas, quando vem trazer a luz; é alinhá-l'O ao lado dos cobardes, quando vem a ser a mesma força salvadora e libertadora de Deus; é inseri-l'O no âmbito de uma cultura malsã de Satanás, quando tudo experimenta e o faz em nome de Deus e da sua bondade. É este o pecado contra o Espírito.

4. A cena que lemos de Marcos, é rematada com aquela dose de maldade até ao ponto de pretenderem responsabilizar a própria família de Jesus para que arranje remédio para o assunto: "A sua mãe e os seus irmãos" vieram para O levar e convencê-l'O a deixar aquele caminho. É uma notícia concisa, dura, realista, sem dúvida. Que uma parte da família não O apoiasse na sua atividade de profeta itinerante, não deve surpreender-nos; é um dos pontos que hoje são assumidos na aproximação à vida histórica de Jesus. A sociedade galileia tinha as suas próprias identidades socioculturais e, nestes casos, não se perdoa nem a uma pessoa nem à sua família. Mas Jesus responde como tinha de responder. Sem renunciar à Mãe nem aos irmãos, estende a sua família a todos os doentes e desvalidos que encontraram na sua "terapia espiritual" uma família nova que os acolha e zele por eles. São os seguidores do Reino de Deus que, libertando-se dessa inaceitável cultura demoníaca, sentem, de verdade, que Deus está com eles nos seus sofrimentos.

fray Miguel de Burgos Núñez

tradução de Maria Madalena Carneiro

 
 

Pobres de Cristo

Sermos pobres de Jesus Cristo é sabermos que tudo Lhe devemos e vivermos como tudo vindo d'Ele. É saber que em Jesus Cristo, Deus é o primeiro a amar-nos, que não cessa a todo o instante de ser Ele que nos ama primeiro, Aquele que em nossas vidas tem constantemente a iniciativa.

É compreender – e de uma maneira muito concreta e na realidade quotidiana – que a sua obra em nós conta muito mais do que a obra que Lhe oferecemos.

Aprendi a dizer: "Meu Deus acolhe o meu dia, eu recebo-o com tudo o que me dá, bem mais do que "ofereço-Vos o dia".

O que eu posso oferecer é apenas o espírito com que o recebo. Ser um pobre de Cristo é ser dono de méritos que não queremos fazer valer.

Deus ama-nos livremente e não porque os nossos títulos a isso o obriguem. A sua liberdade desperta a nossa; o seu dom atrai o nosso consentimento; a santidade não é mais do que o encontro destas duas liberdades

Robert-Guelluy († 1.999)

tradução de Maria Madalena Carneiro

 
 

Pois, se um reino estiver dividido contra si mesmo, não pode durar

Versículos de 20 a 22

“Jesus voltou para casa com os seus discípulos. Aí afluiu de novo tanta gente, que nem podiam tomar alimento. Quando os seus o souberam, saíram para o reter; pois diziam: “Ele está fora de si.” Também os escribas, que haviam descido de Jerusalém, diziam: “Ele está possuído de Beelzebul: é pelo príncipe dos demônios que ele expele os demônios.”

A multidão seguia Jesus e seus discípulos

Jesus Cristo e seus discípulos já não podiam andar e nem  se alimentar como as outras pessoas, porque uma multidão os acompanhavam para todos os lugares. Jesus fazia muitos milagres e prodígios e, expulsava os demônios. A palavra diz: “Seguia-o uma grande multidão, porque via os milagres que fazia em beneficio dos enfermos” (Jo 6,2)

Jesus Cristo expulsava os demônios

Jesus expelia os demônios com autoridade e poder – O Beato João Paulo II disse que “iniciada no deserto, a luta com Satanás prossegue durante toda a vida de Jesus. Uma Sua atividade típica é a do exorcismo, razão por que o povo brada admirado: «Até manda nos espíritos impuros, e eles obedecem-Lhe” (Mc. 1,27).

A Palavra diz: “Vós sabeis como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com o poder, como ele andou fazendo o bem e curando todos os oprimidos do demônio, porque Deus estava com ele” (At. 10,38)

O beato João Paulo II disse: “O demônio, “príncipe deste mundo” (Jo 12,31), continua também hoje a sua ação enganadora. Cada homem, não só pela própria concupiscência e pelo mau exemplo do próximo, é tentado também pelo demônio, e isto verifica-se ainda mais quando está desprevenido”. 

A Palavra diz: “Sede sóbrios e vigiai. Vosso adversário, o demônio, anda ao redor de vós como o leão que ruge, buscando a quem devorar” (1Pr. 5,8)

 

Versículos de 23 a 27

Mas, havendo-os convocado, dizia-lhes em parábolas: “Como pode Satanás expulsar a Satanás? Pois, se um reino estiver dividido contra si mesmo, não pode durar. E se uma casa está dividida contra si mesma, tal casa não pode permanecer. E se Satanás se levanta contra si mesmo, está dividido e não poderá continuar, mas desaparecerá. Ninguém pode entrar na casa do homem forte e roubar-lhe os bens, se antes não o prender; e então saqueará sua casa”.

O reino dividido contra si mesmo

O papa Leão XIII explicou assim: “O gênero humano, após sua miserável queda de Deus, o Criador e Doador dos dons celestes, “pela inveja do demônio,” separou-se em duas partes diferentes e opostas, das quais uma resolutamente luta pela verdade e virtude, e a outra por aquelas coisas que são contrárias à virtude e à verdade”.

“Um é o reino de Deus na terra, especificamente, a verdadeira Igreja de Jesus Cristo; e aqueles que desejam em seus corações estar unidos a ela, de modo a receber a salvação, devem necessariamente servir a Deus e Seu único Filho com toda a sua mente e com um desejo completo”.

“O outro é o reino de Satanás, em cuja possessão e controle estão todos e quaisquer que sigam o exemplo fatal de seu líder e de nossos primeiros pais, aqueles que se recusam a obedecer à lei divina e eterna, e que têm muitos objetivos próprios em desprezo a Deus, e também muitos objetivos contra Deus”.

 

Versículos de 28 a 30

“Em verdade vos digo: todos os pecados serão perdoados aos filhos dos homens, mesmo as suas blasfêmias; mas todo o que tiver blasfemado contra o Espírito Santo jamais terá perdão, mas será culpado de um pecado eterno.” Jesus falava assim porque tinham dito: “Ele tem um espírito imundo.”

A blasfêmia contra o Espírito Santo

Do documento “Dominum et vivificantem” (O Espírito Santo na vida da Igreja e do mundo), do beato João Paulo II: “Porquê a «blasfêmia» contra o Espírito Santo é imperdoável? Em que sentido entender esta «blasfemia»? santo Tomás de Aquino responde que se trata da um pecado «imperdoável por sua própria natureza, porque exclui aqueles elementos graças aos quais é concedida a remissão dos pecados».

“Segundo uma tal exegese, a «blasfêmia» não consiste propriamente em ofender o Espírito Santo com palavras; consiste, antes, na recusa de aceitar a salvação que Deus oferece ao homem, mediante o mesmo Espírito Santo agindo em virtude do sacrifício da Cruz. Se o homem rejeita o deixar-se «convencer quanto ao pecado», que provém do Espírito Santo e tem caráter salvífico, ele rejeita contemporaneamente a «vinda» do Consolador: aquela «vinda» que se efetuou no mistério da Páscoa, em união com o poder redentor do Sangue de Cristo: o Sangue que «purifica a consciência das obras mortas».

O Catecismo (1864) ensina: “Não há limites para a misericórdia de Deus, mas quem recusa deliberadamente receber a misericórdia de Deus, pelo arrependimento, rejeita o perdão dos seus pecados e a salvação oferecida pelo Espírito Santo. Tal endurecimento pode levar à impenitência final e à perdição eterna”.

 

Versículos 31 a 35

“Chegaram sua mãe e seus irmãos e, estando do lado de fora, mandaram chamá-lo. Ora, a multidão estava sentada ao redor dele; e disseram-lhe: “Tua mãe e teus irmãos estão aí fora e te procuram.” Ele respondeu-lhes: “Quem é minha mãe e quem são meus irmãos?” E, correndo o olhar sobre a multidão, que estava sentada ao redor dele, disse: “Eis aqui minha mãe e meus irmãos. Aquele que faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe.”

“Tua mãe e teus irmãos estão aí fora e te procuram”

“Desde o momento da Anunciação e da concepção e depois do nascimento na gruta de Belém, Maria acompanhou passo a passo Jesus, na sua materna peregrinação de fé. Acompanhou-o ao longo dos anos da sua vida oculta em Nazaré; acompanhou-o também durante o período da separação externa, quando ele começou a dedicar-se às “obras e ao ensino” (At. 1,1) no seio de Israel; e acompanhou-o, sobretudo, na experiência trágica do Gólgota”. (Vaticano)

O papa Bento XVI disse que “Maria acompanhou com discrição todo o caminho do seu Filho durante a vida pública, até aos pés da cruz, e agora continua a acompanhar, com uma prece silenciosa, o caminho da Igreja”.

“Aquele que faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”.

Maria modelo de obediência a Deus - O beato João Paulo II disse que Maria “em união intensa e profunda com Deus, obedeceu à sua chamada com total fidelidade. Todos possam descobrir n’Ela uma mulher do silêncio e da escuta, que meditava no seu coração aquilo que o Espírito do Senhor lhe fazia perceber da sua presença amorosa e da sua ação santificadora!  Sem nunca se deixar desencorajar pelas dificuldades,  Ela cumpriu plenamente a aspiração dos pobres do Senhor, resplandecendo como modelo para quantos confiam de todo o coração nas promessas de Deus”.

O papa Bento XVI explicou: “Deus criou-nos como fruto do seu amor infinito; por isso viver segundo a sua vontade é o caminho para encontrar a nossa verdadeira identidade, a verdade do nosso ser, enquanto que o distanciamento de Deus nos afasta de nós mesmos e precipita-nos no vazio. A obediência na fé é a verdadeira liberdade, a autêntica redenção, que permite unirmo-nos ao amor de Jesus no seu esforço por Se conformar com a vontade do Pai”.

Concluímos essa reflexão com as Palavras de são Paulo: “Fiel é Deus, por quem fostes chamados à comunhão de seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor. Rogo-vos, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que todos estejais em pleno acordo e que não haja entre vós divisões. Vivei em boa harmonia, no mesmo espírito e no mesmo sentimento” (1Cor. 1,9-10)

E as palavras do beato João Paulo II: “A Igreja, mestra perita em humanidade e santidade, indica-nos os meios antigos e sempre novos para o combate quotidiano das sugestões do mal:  são a oração, os sacramentos, a penitência, a escuta atenta da Palavra de Deus, a vigilância e o jejum”.

Jane Amábile

 
 

- A primeira leitura traz um relato já bem conhecido de todos nós. No inicio do livro do Gênesis, Deus criou o homem e o transportou para um jardim maravilhoso. Ele encheu a vida de Adão e Eva de maravilhas e manteve, constantemente, um diálogo com eles. Com tantos dons era de se esperar que obedeceriam prontamente ao mandamento do criador. Mas não foi isso que aconteceu. Entra em cena uma nova personagem: a serpente, um animal astuto, que introduz, na cabeça de Eva, uma suspeita.

- Depois do pecado, Deus fez um interrogatório.

Primeiro Adão e depois Eva. É a oportunidade que Deus oferece para que admitam o erro. Admitir que errou é o primeiro passo para uma vida nova. Deus procura provocar a confissão de culpa (para o perdão que está pronto para oferecer). Não obtendo a confissão, Deus anuncia o castigo.

Primeiro à serpente, depois à mulher e, em seguida, Adão.

- Apesar da inimizade entre homem e serpente, Deus garante a vitória do homem sobre o mal quando anuncia que, da mulher, vai sair um germe (semente) que derrotará a serpente.

- Na segunda leitura, Paulo está falando do ministério apostólico. Uma das exigências para ser pregador é crer em Cristo. Não dá para falar dele sem crer nele. E crer, para Paulo, significa viver em Cristo. Por isso, o apóstolo nunca desanima (v. 16) pois quem está em Cristo será vitorioso como Cristo venceu.

- No evangelho de Marcos, Jesus tem uma atividade intensa. Não para nunca. Há um corre-corre constante. Ele e o grupo dos 12, nem tinham tempo para se alimentar.

- Na passagem de hoje, os escribas acusam Jesus de expulsar os espíritos maus pelo poder imundo de belzebu. Jesus mostra, em primeiro lugar, que todo reino dividido internamente não conseguirá se manter. Depois, reage energicamente: "aquele que blasfemar contra o Espírito Santo nunca será perdoado" (v. 29). Essa fala é muito forte, mas os escribas fizeram uma acusação muito dura. Atribuir ao mal aquilo que é ação de Deus é algo muito grave.

Dessa forma, eles se excluem da família de Jesus e herdeiros do Reino.

- Todos sabemos que Marcos traz uma pergunta central: Quem é Jesus? Neste texto há uma resposta: Ele é o homem forte que guarda a casa. Jesus desarmou e venceu satanás. Hoje somos livres para praticar a justiça e o bem.

- Somos convidados a agradecer a Deus por esta nova família que Jesus veio abençoar: a família dos que fazem a vontade de Deus, a comunidade/Igreja. A Igreja é uma família de verdade! Lugar de amor, perdão, lugar de missão e lealdade etc.

- Os nossos grupos de reflexão têm ajudado nossas famílias a praticar a Palavra? Eles despertam para a missão?

 
 

Querer o que Deus quer

A família de Deus

“Quem são minha Mãe e meus irmãos?”, pergunta Jesus a quem lhe referia que sua Mãe andava à sua procura. Responde Jesus: “Quem fizer a vontade de Deus esse é meu irmão, minha irmã e minha Mãe”. Há entre nós e Jesus um vínculo muito mais estreito, uma comunhão muito mais íntima do que os laços da carne e do sangue. Vivendo na vontade de Deus, pela fé e pelo amor, geramos Cristo em nós e nos outros.

Querer o que Deus quer -  Não vejo melhor comentário deste texto do que as palavras do beato José Allamano, dirigidas aos seus missionários: “É no fazer a vontade de Deus que se encontra a santidade mais perfeita, e também a mais perfeita felicidade. São Basílio declara que o segredo da felicidade, inclusive já neste mundo, está em fazer a vontade de Deus. São Paulo, logo após a conversão, abraçou em pleno a sua vontade: “Senhor, que quereis que eu faça?” (At. 22,10. Mas tende cuidado, porque muitas vezes o amor próprio leva-nos a considerar vontade de Deus aquilo que não o é. Há muitas coisas que se fazem com a ilusão de serem a vontade de Deus, quando afinal se está perante uma contaminação que é obra da traça do amor-próprio. Andemos de olhos bem levantados para o alto! O que temos em mira deve lá estar: apenas Deus! Não liguemos ao êxito das obras; Deus haverá de premiar segundo o esforço que fizemos e não segundo o êxito – que Deus muitas vezes permite que seja fraco ou até nulo, para nos dar uma lição de humildade. Eis então a importância de fazer boa pontaria! Se lhe entregarmos o princípio duma obra, ele logo ajudará no restante. O que tem feito santos, e nos fará também a nós, será a vontade, a boa vontade, o fato de não pormos reservas quanto ao serviço de Deus.

Há uma coisa que muito me consola – sempre fiz o que Deus queria de mim; e sinto-me feliz por nunca me ter desviado. Quando o Bispo Dom Gastaldi me fez diretor espiritual do seminário, fui ter com ele e disse-lhe: “Sou jovem demais e o meu desejo era ser um dia um humilde pároco; no entanto sou filho da obediência”. Ripostou ele: “Ai tu queres ser pároco? Pois entrego-te a paróquia número um de Turim – o seminário”. Quando me mandou para o santuário da Consolata, eu nem sequer ainda tinha trinta anos... havia lá um hospício para padres idosos. Perguntei-lhe então: “É mesmo vontade de Deus? Ainda não fiz trinta anos, não tenho a experiência necessária”. Ao que ele respondeu: “Ora... ser jovem é um defeito que se vai corrigindo pouco a pouco. E se errares, por seres jovem, terás tempo para te corrigires”. Ora aí está! É preciso que estejamos sempre onde o amor de Deus nos quiser. Se eu não tivesse aceitado o cargo, Dom Gastaldi teria aceitado o meu “não” mas eu não teria seguido o caminho que Deus tinha traçado para mim” (beato José Allamano).

padre Darci Vilarinho

 
 

1. É mesmo caso, para dizer “Vade retro, Satanás”! Deixemos então Belzebu, para trás, não vá o diabo tecê-las, quanto mais damos corda à imaginação, que é “a louca da casa”! Mas, já quanto ao “louco da casa”, esse está claramente identificado: Jesus! Os parentes de Jesus querem, a toda a força, prendê-lO, e poupá-lO a mais desventuras, que, a seus olhos controladores, só desonram o bom nome da família! Dizem mesmo que “Jesus está fora de si”. Mas quem entra nos segredos da Casa, dá conta de outra coisa: não é bem Jesus que está fora de si. Talvez fosse mais correto dizer com toda a sinceridade: «Ele está fora de nós». Quer dizer: Jesus não corresponde à nossa linha. Não entra nos nossos esquemas e modelos de vida. Não segue os nossos caminhos. Não aceita as nossas seguranças e previsões. Põe em causa as nossas certezas e equilíbrios. E ainda por cima, não privilegia os de casa, não tem a peito os que são do seu sangue!

2. Curiosamente, este Jesus, que está “em casa” é considerado “fora”; mas no final da cena, são precisamente os que estão “fora” que o querem chamar para “dentro de casa”. Volta então à carga o papel secundário da família de sangue, agora mais claramente identificada: sua “mãe e os irmãos que ficam de fora”, “enquanto muita gente está em volta de Jesus”. A nova família de Jesus não se constrói com laços de sangue, mas pelos laços da fé. A situação “fora” ou “dentro” da Casa de Jesus não depende do tipo de sangue ou de raça, de saber ou de poder, mas da simples obediência à vontade de Deus! Daqui nasce a nova família de Jesus. Na nova família, não há direitos naturais ou adquiridos de pai, mãe, de primo ou de irmão. Todos podem entrar nesta casa, fazer parte desta família, desde que se sentem à volta de Jesus, e procurem como Ele, realizar a vontade de Deus, pôr em prática a sua Palavra. Maria destaca-se obviamente nesta nova família. Mas, para ela, é mais importante ser discípula, que ser Mãe!

3. Do evangelho emerge assim a imagem “familiar” deste primeiro núcleo da Igreja, que se constitui como verdadeira família de Deus, sob o abrigo, sem teto, da “Casa de Jesus”! Esta constatação levou-nos, desde o princípio do ano pastoral, a procurar, fazer de cada uma das nossas famílias, uma “pequena Igreja”, para, deste modo, fazer crescer a Igreja, como “grande família”. Disse-vo-lo na apresentação do programa pastoral: “A Igreja, Corpo de Cristo, só se edifica verdadeiramente, na unidade e na caridade, na medida em que crescer como “grande família de Deus”, como casa e escola de comunhão”. E desafiamo-nos mutuamente com este objetivo: “É preciso, dar esta configuração familiar, na organização da própria comunidade, no trato entre nós, no acolhimento cordial aos que chegam de longe e de fora, nas relações entre pessoas e grupos da paróquia, de modo que todos, dos últimos aos primeiros, se sintam aqui, como em sua própria casa”. Nesta prospectiva, e em sintonia com a programação diocesana e da Vigararia, encontramos um lema: «Paróquia, em família, Casa de Comunhão».

4. Quase a terminar o ano pastoral, é uma boa altura para revermos a vida desta casa, que é de todos, e de nos interrogarmos então: em que medida, a nossa Paróquia desenvolveu a sua vocação a ser «casa de família, fraterna e acolhedora»? Em que medida a nossa paróquia se revelou, como Maria, mãe atenta e solícita “cada vez menos em casa, cada vez mais fora de casa, apostada em levar a todos a notícia do amor de Deus”?

5. Como disse, no passado domingo, o Santo Padre às famílias em Milão: “está-nos confiada a tarefa de construir uma comunidade eclesial que seja cada vez mais família, capaz de refletir a beleza da Trindade e evangelizar, não só com a palavra, mas por «irradiação», com a força do amor vivido” (Bento XVI, Homilia, 3.06.2012).

 
 

Inquietação dos parentes de Jesus

Alguns dos parentes de Jesus, conforme nos narra o Evangelho nos vv. 21-22, se deixam levar por pensamentos mundanos e encaram a dedicação de Jesus a seu apostolado, como um exagero, uma perda de juízo. Citam que Jesus “enlouqueceu”. Muitos santos, a exemplo de Cristo, também se passarão por loucos. Mas, loucos por amor a Jesus Cristo.

Calúnia dos escribas

Até os milagres de Jesus foram mal entendidos pelos escribas que o acusam de ser instrumento de Beelzebu (vv. 22-23). É o mesmo personagem misterioso, mas real, que Jesus chama de Satanás, que significa o adversário, e que Cristo veio para arrancar o seu domínio sobre o mundo, numa luta incessante.

Nos vv. 24-27, o Senhor fala aos fariseus e a cada um de nós: – Num coração petrificado o Espírito não tem liberdade de atuar; dessa resistência à ação do Espírito brotam as doentias divisões internas. São os dinamismos “dia-bólicos” (aquilo que divide) que se instalam em nosso interior, atrofiam nossas forças criativas e nos distanciam da comunhão com tudo e com todos.

A vitória de Jesus sobre o poder das trevas, que culmina na Sua Morte e Ressurreição, demonstra que a luz já está no mundo.

Pecado contra o Espírito Santo

Jesus acaba de realizar um milagre, mas os escribas não o reconhecem: “eles diziam: Ele está possuído por um espírito impuro” (v. 30). Não querem admitir que Deus é o autor do milagre. Nessa atitude, consiste a gravidade da blasfêmia contra o Espírito Santo: atribuir ao príncipe do mal, a Satanás, as obras de bondade realizadas pelo próprio Deus.

Diz o Senhor, aquele que blasfema contra o Espírito Santo não terá perdão: não porque Deus não possa perdoar todos os pecados, mas porque esse homem, na sua obcecação perante Deus, rejeita Jesus Cristo, sua doutrina e os seus milagres, e com isto, despreza as graças do Espírito Santo.

O Espírito procura entrar para fecundar, recolocar em ordem, restaurar, unificar.
Agrada-lhe reunir, integrar, conciliar, pacificar, conduzir-nos a um “lugar interior”, a um centro de calma, onde tudo tem seu lugar, onde tudo encontra seu espaço. Soltar as asas nos momentos mais petrificados e pesados de nossa vida é sinal de sua silenciosa Presença.

Em outras palavras: “viver segundo o Espírito” não se define como um combate, como luta para debilitar o “eu”, mas como experiência para ativar o impulso para o “mais” e “ordenar” os dinamismos humanos em direção a um horizonte de sentido: o Reino.

Os verdadeiros parentes de Jesus

31 Chegaram então sua mãe e seus irmãos e, ficando do lado de fora, mandaram chamá-lo. 32 Havia uma multidão sentada em torno dele. Disseram-lhe: “Eis que tua mãe, teus irmãos e tuas irmãs estão lá fora e te procuram”. 33 Ele perguntou: “Quem é minha mãe e meus irmãos?” 34 E, repassando com o olhar os que estavam sentados ao seu redor, disse: “Eis a minha mãe e os meus irmãos. 35 Quem fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe”.

A palavra “irmãos” era em aramaico, uma expressão genérica para indicar um parentesco: irmãos também se chamavam os sobrinhos, os primos diretos e os parentes em geral. “Jesus não disse estas palavras para renegar Sua mãe, mas para mostrar que só é digna de honra por ter gerado Cristo, mas também pelo cortejo de todas as virtudes” (Teofilacto de Ácrida ou da Bulgária, †1107).

Por isso, a Igreja nos recorda que a Santíssima Virgem: “acolheu as palavras com que o Filho, pondo o reino acima de todas as relações de parentesco, proclamou bem-aventurados todos os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática; coisa que ela fazia fielmente” (Lumen Gentium, 58).

É no mais íntimo que se reza ao Senhor. É no mais profundo da interioridade que se escuta o Senhor. Deixe-se invadir pela luz e pela vida d’Aquele que “armou sua tenda entre nós”.

 

 

A pessoa humana, experimentando seus próprios limites, ora faz opção pelo bem, ora pelo mal. Mas sempre lutando por se sobreviver, tendo como pano de fundo a confirmação de sua existência, estabilidade e realização final. O importante é não ser enganado pelo mal que a cerda e se tornar uma pessoa infeliz.

Na descrição bíblica do paraíso, havia ali a árvore do bem e do mal. Diante dela, o homem e a mulher deveriam fazer sua opção e escolha de vida. Era um ato de obediência ou não, uma escolha que teria grandes consequências. Aí estava em jogo o destino de toda a humanidade e, também, até a perda do paraíso.

Nesse cenário bíblico encontramos inspirações profundas para nossas realizações de hoje. Às vezes descartamos a esperança diante de opções que matam a vida. Podemos até perder o sentido do novo paraíso, a vida em Deus. Isto acontece quando desconhecemos o sentido do sagrado e da dignidade da pessoa humana.

A força do mal leva consigo falsas promessas. É como o poder dominador, que faz parceria com quem age da mesma forma e não dá valor às iniciativas dos outros. Cai por terra a prática da fraternidade e a convivência entre os irmãos. As consequências de tudo isto é o endeusamento do individualismo, fato tão proclamado pela nova cultura.

Seis são os pecados contra o Espírito Santo:

1 – Desesperação da salvação, ou seja, quando a pessoa perde as esperanças na salvação de Deus, achando que sua vida já está perdida. Julga, assim, que a misericórdia de Deus é mesquinha e por isso não se preocupa em orientar sua vida para o bem. Perdeu as esperanças em Deus.

2 – Presunção de salvação sem merecimento, ou seja, a pessoa cultiva em sua alma uma vaidade egoísta, achando-se já salva, quando na verdade nada fez para que merecesse a salvação. Isso cria uma fácil acomodação a ponto da pessoa não se mover em nenhum aspecto para que melhore. Se já está salva para que melhorar? – pode perguntar-se. Assim, a pessoa torna-se seu próprio juiz, abandonando o Juízo Absoluto que pertence somente a Deus.

3 – Negar a verdade conhecida como tal, ou seja, quando a pessoa percebe que está errada, mas por uma questão meramente orgulhosa, não aceita: prefere persistir no erro, do que reconhecer-se errada. Nega-se assim a Verdade que é o próprio Deus.

4 – Inveja da graça que Deus dá a outrem, ou seja, a inveja é um sentimento que consiste primeiramente em entristecer-se porque o outro conseguiu algo de bom, independentemente se eu já possua aquilo ou não. É o não querer que a pessoa fique bem. Ora, se eu me invejo da graça que Deus dá alguém, estou dizendo que aquela pessoa não merece tal graça, me tornando assim o regulador do mundo, inclusive de Deus, determinando a quem deve ser dada tal ou tal coisa.

5 – Obstinação no pecado, ou seja, é a teimosia, a firmeza, a relutância de permanecer no erro por qualquer motivo. Como o Papa São João Paulo II disse, é quando o homem “reivindica seu pretenso ‘direito’ de perseverar no mal – em qualquer pecado – e recusa por isso mesmo a Redenção”.

6 – Impenitência final, ou seja, é o resultado de toda uma vida que rejeita a ação de Deus: persiste no erro até o final e recusa arrepender-se e penitenciar-se.

O pecado contra o Espírito Santo consiste na rejeição consciente da graça de Deus; é a recusa da salvação que, consequentemente, impede Deus de agir, pois Ele está à porta e bate, e a abre quem quiser. A persistência neste pecado, que é contra o Espírito Santo, pois este tem a missão de mostrar a Verdade, levará o pecador para longe de Deus, para onde ele escolheu estar. Apesar disso, o Senhor continuará a amá-lo com o mesmo amor de Pai que tem para com todos, porém respeitando a decisão de seu filho que é inteligente e livre.

A condição humana está ligada à liberdade e à capacidade de escolha. Tem como segurança a esperança, que deve sempre ser alimentada e concretizada em Jesus Cristo. Supõe firme convicção de fé na ressurreição e na vida eterna. A morada terrestre, que será destruída, transformar-se-á em uma morada eterna em Deus.

A vida é sempre marcada por um paraíso perdido, passageiro, e pelo mal que nos leva a perdê-lo. Isto é fruto da tendência que todos temos para o mal, para atos de injustiça e por atitudes muitas vezes desumanas. Assim ficamos perdidos na busca do bem e de uma condição humana que nos terna realizados. A dignidade é fonte de humanização e divinização.

 

 

Nós celebramos, hoje, o décimo domingo do tempo Comum e, no texto Evangélico de Marcos, se proclama, em primeiro lugar, aquela passagem onde os familiares de Jesus imaginaram que Ele tivesse perdido o juízo, imaginaram que estivesse louco, uma vergonha e humilhação para a família, queriam trazê-lo à qualquer custo de volta para Nazaré e foram a Cafarnaum buscá-lo. Dando espaço para que a família de Nazaré chegasse em dois dias de viagem a Cafarnaum, o evangelista inseriu uma perícope mediana. Jesus Se encontra com judeus provindos de Jerusalém e estes trazem uma acusação ainda mais forte e satânica. Acusam Jesus de ter conchavo com Belzebu; com outras palavras, não negam, e não poderiam negar, ações prodigiosas e extraordinárias que Jesus fazia. Porém, não podendo negá-las, atribuíram-nas não à Deus, mas ao espírito impuro, ou seja, a Belzebu, a Satanás e arrancam de Jesus uma afirmação forte no Novo Testamento: “Todos os pecados serão perdoados, mas aquele que blasfemar contra o Espírito Santo, não terá perdão nem nesta, nem na outra vida.”

E nós nos perguntamos qual seria, dentro do contexto imediato de Marcos, o pecado famoso contra o Espírito Santo, pecado que não tem perdão nem neste mundo e nem no outro? É não aceitar, sistematicamente, Jesus. Pior ainda, atribuir a loucura e, sobretudo, a engano satânico tudo aquilo que realizou Jesus, ou Jesus continua a realizar através do Seu grande sacramento que é a Igreja. Existem diversas maneiras de se pecar, existem os que pecam por fragilidade, existem aqueles que pecam por uma certa ignorância não desculpável, existem os que pecam por indiferença e existem aqueles também, que satanicamente se opõe, de maneira violenta e sistemática, ao desígnio de Deus, se opõe com relação a si mesmos e se opõe com relação à outros, impedindo explicitamente outros de receberem o evangelho de Jesus; estes são aqueles que pecam contra o Espírito Santo.

Nós não afirmamos que Jesus é louco e, muito menos, que Jesus agisse com o poder e sobre o impulso de Belzebu, o príncipe dos demônios. Deste texto de hoje nós podemos colher o seguinte: um profeta não é recebido em sua pátria, não é recebido entre os seus, Jesus fez esta experiência, Jesus passou por esta humilhação e nós, seus discípulos, podemos passar pela mesma experiência ao constatar que as pessoas mais íntimas nossas não nos compreendem, não nos aceitam, criticam-nos por causa de nossa fé.

 
 

A força que vem de Deus

Estamos no 10º domingo do tempo comum. A Igreja reflete sobre o ministério de Jesus, seus ensinamentos e caminhadas pela Galiléia e Judéia. A cor litúrgica deste domingo é verde. Sinal de esperança e de vida.

A Palavra de Deus (Mc. 3,23-35) nos faz refletir sobre a presença de Jesus ao lado das pessoas, mesmo nos conflitos, buscas e desafios. A narrativa do Evangelho ocorre em torno da casa, onde Jesus, seus parentes, seus discípulos e a multidão se reuniam. “Jesus voltou para casa com seus discípulos. E de novo se reuniu tanta gente que eles nem sequer podiam comer”. Havia certa tensão pelo fato de alguns estarem dentro de casa e outros fora da casa. Pessoas se colocam dentro e fora da casa. Eram os discípulos, multidão, mestres, parentes. Os que estão dentro da casa estão ouvindo a Palavra de Jesus, seguindo os seus ensinamentos, acolhendo sua mensagem e proposta de vida. Eles já têm proximidade com Jesus, por isso estão dentro da casa. Os que se encontram fora da casa, procuram Jesus, estão em busca, querem ouvi-lo. Ainda hoje, estar dentro e fora da casa reflete uma realidade de vida. Muitos já estiveram dentro da casa, mas por diversas circunstancias estão fora da casa. Outros ainda não fizeram a experiência de estar dentro da casa, no convívio da comunidade cristã. Esperam nossa presença, nossa evangelização, nosso convite.

Neste Evangelho as pessoas se identificam em três grupos, em três modos de ser. O grupo dos ‘parentes’, fechados em si, só para um grupo, só para algumas pessoas seletas. Esse grupo não quer que Jesus vá ao encontro dos outros, dos que sofrem, dos que necessitam de uma palavra ou de uma presença. Não quer que Jesus seja misericordioso. Não quer que a Igreja abra as portas, acolha os desvalidos e pecadores Na realidade de hoje aparece uma parcela da população que defende esta posição: Só alguns tem direitos à terra, bens, riquezas, vida privilegiada, espaço na Igreja. Os outros… como favelados, povos indígenas, moradores de rua, pobres, doentes, alquebrados, assentados, ribeirinhos, camelôs, doentes, idosos, pecadores, alquebrados, sofridos… ficam de lado. Jesus se encontra dentro da casa, seus parentes do lado de fora e a multidão está ao seu redor para ouvi-lo. Estão reunidos os discípulos e discípulas em torno de Jesus, como também as multidões, que são pessoas do povo, capazes de deixar tudo e segui-lo: são os aleijados, coxos, pobres, doentes que estão “como ovelhas sem pastor (Mc 6,34)”.

“Participar da casa é participar do banquete da vida, da aproximação com o outro como espaço de diálogo e compreensão. Para poder entrar na casa é preciso romper com o sistema de opressão que há em nossa sociedade, na medida em que faço do outro instrumento da minha vontade e o coloco em disputa com os demais. A casa é o lugar apropriado para desenhar a proposta que Jesus deseja anunciar e promover o sistema de relação social”.

Outro grupo se identifica como os ‘mestres da lei’ que consideram verdadeiro somente o que é útil. Veem nos outros sempre os erros. Vivem criticando, discordando, mas pouco constroem. Querem manter somente as suas certezas, não acolhem o outro, o diferente.

Outros se identificam com a ‘multidão sentado seu redor’, escutam a Palavra de Jesus e o professam como o único Senhor de sua vida e partem em missão. Estar ao redor de Jesus. Unidos, juntos uns com os outros, em espirito e prática de comunidade. “A vida em comunidade é essencial à vocação cristã. O discipulado e a missão sempre supõem a pertença a uma comunidade. Deus não quis salvar-nos isoladamente, mas formando um Povo. Este é um aspecto que distingue a experiência da vocação cristã de um simples sentimento religioso individual. Por isso, a experiência de fé é sempre vivida em uma Igreja Particular”. (DAp 164).

O Evangelho sinaliza que há uma luta interna e externa que cerca o ser humano. A luta interna requer atenção permanente à Palavra de Deus, a superação do egoísmo, da indiferença, do pecado. Mas há uma luta externa que também precisa ser vencida: O egoísmo, a exploração, a acumulação de riqueza, a injustiça, a corrupção. Jesus prioriza acima de tudo a vida, a dignidade da pessoa. “Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”. E a união em torno da pratica da vontade de Deus que cria os novos laços familiares no Reino. Viver o amor, o serviço, a partilha, a misericórdia, solidariamente com os mais necessitados é inserir-se na família de Jesus, da comunhão de vida eterna com Jesus.

Rezar com a Igreja: Deus, fonte de todo bem, atendei ao nosso apelo e fazei-nos por vossa inspiração, pensar o que é certo. e realizá-lo com vossa ajuda. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo. Amém

Que o Sagrado Coração de Jesus, patrono da Diocese abençoe e proteja a família e as comunidades. Saúde aos doentes, alegria aos tristes, esperança as desanimados. Vamos irradiar alegria e fé e fazer somente coisas boas.

dom Juventino Kestering

 
 

Um Pão que é Corpo de Deus

A Solenidade do Corpo e do Sangue de Cristo foi instituída em meados do século XIII, como expressão de fé da Igreja na presença memorial do Senhor ressuscitado no mistério da Eucaristia, num tempo em que se levantavam dúvidas sobre a presença sacramental de Jesus.

O Evangelho de Marcos apresenta-nos um relato da instituição da Eucaristia: «Este é o meu Corpo… Este cálice é a nova Aliança no meu sangue». Estas palavras, diz-nos Bento XVI, conduzem-nos idealmente ao Cenáculo, fazem-nos reviver o clima espiritual daquela noite quando, celebrando a Páscoa com os seus, o Senhor antecipou no mistério o sacrifício que se teria consumado no dia seguinte na cruz.

Durante a Última Ceia Jesus estabeleceu com os discípulos e com a humanidade a nova aliança, confirmando-a não com sacrifícios de animais, como acontecia no passado, mas com o seu sangue, que se tornou "sangue da nova aliança". Neste momento solene todas as palavras de Jesus, todos os sinais se condensam num único gesto: partir o pão e oferecer o cálice, antecipando o sacrifício da entrega plena na cruz.

Na Cruz Jesus dá-se total e inteiramente, um mistério de amor e de salvação que nos purifica dos pecados e nos santifica, gerando uma nova aliança no nosso coração. A Eucaristia, renovando o sacrifício da Cruz, torna-nos capazes de viver fielmente a comunhão com Deus.

Celebrar a eucaristia é entrar nesse mistério de ação de graças ao Pai pelo seu amor, pela sua misericórdia, porque nos amou tanto que nos ofereceu o seu Filho. (Em grego, «ação de graças» diz-se «eucaristia»).

Um Pão que é serviço aos irmãos

Jesus faz-se pão partido para nós, derrama sobre nós todo o seu amor, desejando fazer-nos participantes dessa vida em plenitude que é Ele; dá-se e entrega-se desejando que o nosso coração se renove, se transforme a nossa existência e o nosso próprio modo de nos relacionarmos com Ele e com os irmãos.

Jesus, hospitaleiro, convoca os seus discípulos para uma ceia especial, lava-lhes os pés num gesto de acolhimento, serviço e humildade, e dá-lhes o novo mandamento do amor fraterno, que se traduz na eucaristia da entrega da própria vida para que outros tenham vida.

O mistério da eucaristia é também o mistério da Hospitalidade e o sacramento dos gestos hospitaleiros do serviço e do amor, Jesus eucaristia vive e revela-se no Jesus doente. É um mistério de amor, de doação, de presença, de hospitalidade.

Participar na eucaristia é identificar-se com Jesus, viver do seu amor, ter os mesmos sentimentos do seu Coração, ter os seus gestos de proximidade, compaixão, serviço…

Celebrando a eucaristia – cultual recebemos a missão de viver a eucaristia – serviço, ser fermento de uma nova realidade, pão ‘partido’ e repartido, sobretudo para quantos sofrem.

Um Pão que é missão

Senhor Jesus, somos teu povo, convocaste-nos para uma missão única: ser memória e presença da tua misericórdia junto dos que sofrem. No encontro contigo, escutando a Palavra e partilhando o pão da Vida, sintamos na nossa vida a tua força de Ressuscitado, que nos capacita para servir e amar.

Tu és Aquele que celebramos e a quem servimos no doente, nutre a nossa missão de fecundidade carismática e faz-nos testemunhas da bondade de um Deus apaixonado pelos mais débeis do povo.

Um Pão que é compromisso

A Eucaristia é verdadeiramente «vital» para nós? 

Jesus é o Pão da Vida e o Sangue nova Aliança, n’Ele temos a Vida, e vida em abundância. Ele que prometeu estar conosco até ao fim dos tempos, nos ensine a tornarmo-nos também nós Eucaristia! Seja este o compromisso de toda a nossa existência, pois muitos aguardam o pão e o vinho de uma nova Hospitalidade!

irmã Idília Moreira

 
 

“No Senhor toda graça e redenção”

A aclamação ao Evangelho deste domingo ilumina o sentido litúrgico da celebração: “O príncipe deste mundo agora será expulso; e eu, da terra levantado, atrairei todos a mim mesmo”. Esse versículo, tirado do Evangelho de João, mostra a autoridade de Jesus sobre tudo aquilo que aliena o bem-querer de Deus para o ser humano, que na tradição bíblica

é denominado de demoníaco. A missão de Jesus corresponde, então, ao cumprimento da vontade salvífica do Pai, que convida todo o ser humano, desde a criação, a uma vida de comunhão. Esse convite se afirma ao longo de toda a história da salvação, mesmo depois da recusa humana, sinalizada pelo pecado da autossuficiência, que nos narra o

Gênesis. É nesse horizonte que compreendemos a I Leitura, na qual nos é narrado que, após terem desobedecido ao Senhor, os primeiros homem e mulher tomaram consciência de sua nudez, isto é, de sua fragilidade: não poderão ser como deuses. Isso, no entanto, não anula o desejo de Deus de nos ter numa relação de intimidade e comunhão: Deus reserva a punição não ao ser humano e sim à serpente, a qual encontraria inimizade com a descendência da mulher.

Essa descendência não é outra senão a própria pessoa de Jesus, que não tem parte com o demônio (= mal – cf. Evangelho, v. 22), mas está inteiramente voltado para o Pai. Por essa razão, o Pai nos dá o Cristo Jesus, o Filho encarnado, afim de que, por Ele, possamos compreender o sentido dessa comunhão, que nos reserva a vida em plenitude, para além de toda a nossa humana fragilidade. Nesse sentido, toda ação de Jesus é movida pelo Espírito, que unifica a sua vontade pessoal à do Pai: desacreditá-la ou, ainda, taxá-la como demoníaca, é praticar o imperdoável, que é blasfemar contra o Espírito de Deus que age em Jesus (cf. Evangelho, v. 29). Os discípulos e discípulas do Cristo, que vão discernindo sua missão na história, correspondem à própria família de Jesus, pois fazem a vontade de Deus (cf. Evangelho, v. 34). E disso

é que dão testemunho: da fé em Jesus morto-ressuscitado, que foi ungido Cristo pelo Espírito de Deus, como nos faz intuir a II Leitura. Unidos, pelo Espírito, a Jesus, por mais que no tempo sintamos nossos corpos envelhecerem, nosso interior se faz sempre renovado (cf. II Leitura, v. 16) e nos propomos a fazer de nossa vida a realização do bem que nasce do próprio Deus (cf. Oração do dia). Configurados a Jesus, pela Eucaristia que nos irmana e nos faz Corpo, busquemos

orientar nossa vida para esse bem, pois de todo mal nos liberta Jesus, o Cristo de Deus. Por isso cantamos: “No Senhor toda graça e redenção” (Salmo de resposta).

 
 

Inquietação dos parentes de Jesus

Alguns dos parentes de Jesus, conforme nos narra o Evangelho nos vv.21-22, se deixam levar por pensamentos mundanos e encaram a dedicação de Jesus a seu apostolado, como um exagero, uma perda de juízo. Citam que Jesus “enlouqueceu”. Muitos santos, a exemplo de Cristo, também se passarão por loucos. Mas, loucos por amor a Jesus Cristo.

Calúnia dos escribas

Até os milagres de Jesus foram mal entendidos pelos escribas que o acusam de ser instrumento de Beelzebu (vv.22-23). É o mesmo personagem misterioso, mas real, que Jesus chama de Satanás, que significa o adversário, e que Cristo veio para arrancar o seu domínio sobre o mundo, numa luta incessante.

Nos vv. 24-27, o Senhor fala aos fariseus e a cada um de nós: – Num coração petrificado o Espírito não tem liberdade de atuar; dessa resistência à ação do Espírito brotam as doentias divisões internas. São os dinamismos “diabólicos” (aquilo que divide) que se instalam em nosso interior, atrofiam nossas forças criativas e nos distanciam da comunhão com tudo e com todos.

A vitória de Jesus sobre o poder das trevas, que culmina na Sua Morte e Ressurreição, demonstra que a luz já está no mundo.

Pecado contra o Espírito Santo

Jesus acaba de realizar um milagre, mas os escribas não o reconhecem: “eles diziam: Ele está possuído por um espírito impuro” (v.30). Não querem admitir que Deus é o autor do milagre. Nessa atitude, consiste a gravidade da blasfêmia contra o Espírito Santo: atribuir ao príncipe do mal, a Satanás, as obras de bondade realizadas pelo próprio Deus.

Diz o Senhor, aquele que blasfema contra o Espírito Santo não terá perdão: não porque Deus não possa perdoar todos os pecados, mas porque esse homem, na sua obcecação perante Deus, rejeita Jesus Cristo, sua doutrina e os seus milagres, e com isto, despreza as graças do Espírito Santo.

O Espírito procura entrar para fecundar, recolocar em ordem, restaurar, unificar.

Agrada-lhe reunir, integrar, conciliar, pacificar, conduzir-nos a um “lugar interior”, a um centro de calma, onde tudo tem seu lugar, onde tudo encontra seu espaço. Soltar as asas nos momentos mais petrificados e pesados de nossa vida é sinal de sua silenciosa Presença.

Em outras palavras: “viver segundo o Espírito” não se define como um combate, como luta para debilitar o “eu”, mas como experiência para ativar o impulso para o “mais” e “ordenar” os dinamismos humanos em direção a um horizonte de sentido: o Reino.

Os verdadeiros parentes de Jesus

31Chegaram então sua mãe e seus irmãos e, ficando do lado de fora, mandaram chamá-lo. 32Havia uma multidão sentada em torno dele. Disseram-lhe: “Eis que tua mãe, teus irmãos e tuas irmãs estão lá fora e te procuram”. 33Ele perguntou: “Quem é minha mãe e meus irmãos?” 34E, repassando com o olhar os que estavam sentados ao seu redor, disse: “Eis a minha mãe e os meus irmãos. 35Quem fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe”.

A palavra “irmãos” era em aramaico, uma expressão genérica para indicar um parentesco: irmãos também se chamavam os sobrinhos, os primos diretos e os parentes em geral. “Jesus não disse estas palavras para renegar Sua mãe, mas para mostrar que só é digna de honra por ter gerado Cristo, mas também pelo cortejo de todas as virtudes” (Teofilacto de Ácrida ou da Bulgária, †1107).

Por isso, a Igreja nos recorda que a Santíssima Virgem: “acolheu as palavras com que o Filho, pondo o reino acima de todas as relações de parentesco, proclamou bem-aventurados todos os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática; coisa que ela fazia fielmente” (Lumen Gentium, 58).

É no mais íntimo que se reza ao Senhor. É no mais profundo da interioridade que se escuta o Senhor. Deixe-se invadir pela luz e pela vida d’Aquele que “armou sua tenda entre nós”.

 
 

Tive a curiosidade de contar quantas vezes aparece o verbo dizer no evangelho de hoje. Conte para você ver. Parece que o evangelista quer salientar aqui o que o povo anda dizendo de Jesus. Jesus toma posição e funda uma nova família.

1. O que andam dizendo os parentes de Jesus?

A “casa” de Jesus anda cercada de carentes, aleijados, doentes etc. É nesse meio que Jesus se sente “em casa”. Mas os parentes de Jesus não o compreendem, não conseguem entender sua ação libertadora. Eles diziam que Jesus estava fora de si, e queriam agarrá-lo, ou seja, impedir a realização de seu projeto libertador.

2. O que andam dizendo os doutores da lei?

Eles vinham de Jerusalém, centro da oposição ao projeto de Jesus. Eles diziam que Jesus está possuído por Beelzebu e que é pelo chefe dos demônios que ele expulsa os demônios. Duas fortes acusações a Jesus, a de seus parentes carnais e a de sua família religiosa.

3. Jesus responde com três imagens

Nas duas primeiras, ele diz que o reino, ou a família de Satanás, não pode brigar contra si mesma, pois assim ela seria destruída. A 3ª é a do assalto à casa. É Jesus que é o homem forte, que amarra Satanás e rouba-lhe os seus bens. Satanás é o chefe supremo dos demônios. Os bens de Satanás são as pessoas oprimidas, despersonalizadas e marginalizadas pelo sistema social, político e religioso da época. Na verdade, estas pessoas foram aprisionadas por Satanás e Jesus vem libertá-los.

4. O pecado contra o Espírito Santo

É o pecado de não aceitar que é o Espírito Santo quem atua em Jesus. É não aceitar sua libertação física e espiritual através da doação de sua vida e do perdão. É fechar-se em si mesmo e não querer ser perdoado por Jesus. É não acreditar na força e no poder de Jesus.

5. A nova família de Jesus

Jesus rejeita aqueles que querem estar ligados a ele apenas pelo parentesco de sangue, ou de nacionalidade ou de religião. Ele funda uma nova família, constituída daqueles que estão AO REDOR DELE, daqueles que têm a coragem de passar do lado de fora para o lado de dentro, ou seja, para dentro do seu projeto libertador dos pobres e oprimidos. É essa a vontade de Deus, e só quem se dispõe a fazer a vontade de Deus é que faz parte da nova família de Jesus. Será que todos os que frequentam a Igreja fazem parte da nova família de Jesus?

dom Emanuel Messias de Oliveira

 
 

“Os mistérios do Reino em uma nova família”

Prosseguindo com a leitura do Evangelho de Marcos, no ciclo Litúrgico do Ano B, 10º domingo do TC, vemos Jesus em plena atividade e de forma itinerante. Está sempre em movimento, revelando assim a sua vida e missão, e anunciando o projeto do Pai. Na primeira parte do Evangelho deste domingo (3,20-22) vemos Jesus em sua volta para casa, onde ele reúne um grupo de pessoas. Aparecem os seus parentes que não o entendem e o julgam fora de si. A sua mãe aparece também no meio daqueles que não entendem sua mensagem. Na parte final desta narrativa (vv. 31-35) Jesus diz que seu pai, sua mãe e seus irmãos são aqueles que estão ao seu redor, escutando-o. Então se revela que grandeza da mãe de Jesus não está no fato de ser sua mãe biológica, mas em ouvir sua Palavra, em ser discípula. Lucas vai dizer que aqueles que escutam a Palavra de Deus e a põem em prática, são seu pai, sua mãe e seus irmãos. Aparecem os doutores da Lei (vv.22-30) acusando-o de estar “possuído pelo Belzebu” e que a origem de seu poder de expulsar demônios provém do príncipe dos demônios. A resposta de Jesus é dada em parábolas que vão desconcertar seus opositores. Se a origem de seu poder provém de Satanás, então é um reino dividido que nunca conseguiria ficar em pé. Denuncia a fragilidade dos argumentos dos escrivas que se acham donos do poder. E utiliza a imagem da família que, se estiver dividida em grupos, nunca poderá subsistir. Desconcerta os argumentos dos doutores que acusam Jesus de expulsar demônios pelo poder dos demônios. A seguir, há uma afirmação muito difícil de ser compreendida e que já gerou muitas polêmicas. Trata-se do “pecado contra o Espírito Santo”, presente nos três Evangelhos Sinóticos. Muitos escritos teológicos tentam esclarecer tal afirmação. Conceitos e teorias não alcançam chegar a conclusões satisfatórias. Talvez na dimensão da experiência concreta seja mais simples de intuir o que os evangelistas nos relatam. Sendo o Espírito Santo o “santo espírito de Jesus”, rejeitar sua ação de misericórdia é negar o bom espírito de Jesus. Os doutores da Lei negam o espírito bom de Jesus e atribuem o bem que ele realiza, ao príncipe do mal. O Pecado contra o Espírito Santo certamente não se trata de um ato isolado, praticado num determinado momento, mas é uma existência pautada num outro princípio. É o pecado contra o “bom e santo espírito” do Pai. O texto termina dizendo que pessoas “estavam sentadas ao seu redor” e que Jesus as reconhece como seu pai, sua mãe e seus irmãos. Para esse grupo de pessoas, Jesus explicará os mistérios do Reino. A nova família é constituída por aqueles e aquelas que conseguem entrar na intimidade Jesus, que têm olhos para ver e ouvidos para entender. Estes são discípulos do bom espírito de Jesus.

irmã Zenilda Luzia Petry - IFSJ

 
 

Quem é minha Mãe?

O tempo comum nos introduz nos Mistérios de Deus e ilumina a realidade humana. No mundo há muitos males. Daí a pergunta: Qual é a sua origem? Na busca de um responsável, chegamos a acusar alguém como culpado. A Bíblia tem a resposta: a origem e a causa dessa situação é o pecado. O homem rompeu a sua relação amorosa com Deus e surgiu uma mudança essencial em sua vida. Pretendeu libertar-se de Deus e tornou-se escravo de suas paixões e egoísmos.

Gn. 3,9-15 fala da Primeira Família (Adão e Eva). Esses capítulos da Bíblia não querem mostrar como aconteceu no início, mas sim levar a refletir sobre o caos social em que viviam no tempo em que o autor sagrado escreveu. Deus fez todas as coisas perfeitas. Esse mundo conturbado não é o que Deus queria, então como deveria ser? Qual é a causa e a origem de tudo isso? A serpente seduziu e continua seduzindo o homem para se apropriar dos frutos proibidos.

Consequência: surge a desarmonia na natureza, com os homens, com Deus. O Homem não se encontra mais no lugar que lhe foi designado na Criação. Onde estás? Teve medo e se escondeu. Adão acusa Eva, Eva acusa a serpente. Sente-se Nu, despojado a dignidade com que foi criado. Abala a ordem da natureza: perde a fertilidade, produz espinhos e ervas daninhas. Mas termina a narrativa com uma Mensagem de Esperança: a luta entre a serpente e o homem continuará até o fim dos tempos. Mas a descendência da mulher terá a vitória final: esmagará a cabeça da serpente.

O Pecado é a origem do mal: rompeu a harmonia da criação de Deus. Para o autor sagrado, o Paraíso Terrestre é Saudades ou Esperança?

E 2Cor. 4,13-5,1, Paulo mostra interesse pela Comunidade de Corinto e expõe os motivos pelos quais sofre com paciência: a esperança da ressurreição gloriosa e a fé no prêmio que espera.

Mc. 3,20-35 fala da Família de Jesus. Os familiares de Jesus chegam e, de fora, mandam chamá-lo. Não entram; ele que deve sair: querem levá-lo de volta a Nazaré. Estão preocupados, julgam que ele está fora de si. E Jesus: Quem é minha mãe? Quem são meus irmãos? A Verdadeira família de Jesus, agora, é formada pelos que estão ao redor dele e fazem a vontade de Deus.

Os doutores da lei querem desprestigiar o Mestre diante do Povo: o acusam de endemoniado. Jesus contesta com duas imagens: o reino dividido e uma família dividida: não se mantém de pé.

A Nova família de Jesus: A verdadeira família de Jesus, agora, é formada pelos que estão ao redor dele, numa atitude de companheiros na ação libertadora, e que fazem a vontade de Deus.

A relação mais intima com Jesus não se faz através do parentesco de sangue, mas na sintonia com sua prática libertadora. Só quem passa do estar fora para o estar dentro, com Jesus, é que será considerado irmão e mãe de Jesus.

Maria era Mãe duplamente: gerou a Jesus e mais do que ninguém fez sempre a vontade de Deus.

O pecado nasce e é fruto do orgulho. Adão acusa Eva. Eva acusa a serpente. Os judeus não aceitaram o desfio da conversão: e acusaram o Cristo como um endemoniado. E nós?  Procuramos sempre uma desculpa. Reconhecer o próprio erro, por escabroso que seja, é sempre mais dignificante e libertador do que repassá-lo injustamente a outros.

Quem acusa esconde-se atrás da acusação. Quanto esposo acusa a esposa e vice-versa. Quantos filhos acusam os pais e vice-versa. Quantos adultos acusam os jovens. Quantos jovens acusam os adultos. Há sempre parente contra parente, vizinho contra vizinho, patrão contra empregado e empregado contra patrão.

Há acusações necessárias e justas. Há acusações que devem ser feitas e que não merecem punição. Mas, muitas vezes, a pessoa que acusa está se defendendo. Está escondendo algo de errado em si mesmo. A acusação nunca leva a nada e acaba com o diálogo entre as pessoas. Há uma necessidade de busca de diálogo e não de acusação. Quando na sociedade for instaurado o diálogo, acabarão as acusações. Ninguém mais estará escondendo sua covardia com a acusação.

dom Antonio Emidio Vilar

 
 

O demônio existe

Assim falou o papa Paulo VI sobre o diabo: “Uma potência hostil interveio. O seu nome é o diabo, esse ser misterioso de quem são Pedro fala na sua primeira Carta. Quantas vezes, no Evangelho, Cristo nos fala deste inimigo dos homens? Nós cremos que um ser preternatural veio ao mundo precisamente para perturbar a paz, para afogar os frutos do Concílio ecumênico, e para impedir a Igreja de cantar a sua alegria por ter retomado plenamente consciência dela mesma. Nós sabemos que este ser, escuro e perturbador, existe verdadeiramente e que está atuando continuamente com uma astucia traidora. É o inimigo oculto que semeia o erro e a desgraça na história da humanidade. É o sedutor pérfido e taimado que sabe se insinuar em nós pelos sentidos, pela imaginação, pela concupiscência, pela lógica utópica, pelas relações desordenadas, para introduzir nos nossos atos desvios muito nocivos e que, porém, parecem corresponder às nossas fraturas físicas e psíquicas ou às nossas aspirações profundas” (29 de junho de 1972, nono aniversário da sua coroação).

Em primeiro lugar, o demônio existe… e se não, perguntemos a Adão e Eva (1 leitura). Ele foi o causante de que os nossos primeiros pais falhassem com Deus, o desobedecessem. O demônio lhes inoculou o veneno da soberba e da rebeldia, para ser autônomos e não depender de ninguém. Satanás tocou neles o calcanhar de Aquiles “ser como deuses”, isto é, sem ter que prestar satisfação para ninguém, ser autossuficientes, donos de si mesmos. O processo que o tentado seguiu com eles foi assim: entrou em diálogo com eles, inoculou-lhes a dúvida da bondade de Deus, apresentou-lhes o mal como bem e eles cederam, cegados pela soberba, ferindo e ofendendo Deus Criador e Pai. E depois de cederem à tentação não assumiram a sua responsabilidade culpando o outro. Deus, triste, teve que impor a sua pena sobre os nossos primeiros pais para que eles se recapacitassem da gravidade do pecado.

Em segundo lugar, o demônio existe… e se não, perguntemos a Cristo que teve que lidar com ele durante toda a sua vida terrena. Jesus falou de Satanás muitas vezes. Mas, sobretudo, teve que lutar contra ele. No início do seu ministério, ali estava Satanás esperando-o no deserto para fazê-lo cair e assim tergiversar a sua missão de Messias; não já um Messias de cruz e infâmia, mas de glórias e honras. E como Cristo o venceu, o demônio não se desanimou e esperou para outra oportunidade, quando Cristo estivesse mais fraco humanamente falando, no Horto das Oliveiras. Durante o seu ministério quantas vezes teve que lutar contra Satanás e os demais demônios que tinham entrado em tantos corações (Evangelho) e que o insultavam. Satanás se apoderou também da alma traidora de Judas. Na cruz, foi Satanás quem gritava pela boca odiosa daquele turista que por ali passava: “Se és o Filho de Deus, desce da cruz”. Cristo veio ao mundo para derrotar Satanás no mesmo campo de batalha onde ele tinha vencido: no homem, desde que o criou. E Cristo ganhou e o derrotou com a sua paixão, morte e ressurreição.     

Finalmente, o demônio existe… e se não, perguntemos à Igreja, à sociedade, e a nós mesmos. Quem provocou tantas heresias, cismas ao longo dos séculos? Só podia ser o grande provocador, Satanás, que tantas vezes colocou o pé no meio do caminho. A nossa sociedade hoje em muitas partes apostatou primeiro da Igreja, depois de Cristo, e agora de Deus. Quantas leis iníquas estão promulgando em alguns Estados! Quem está dirigindo esta sinfonia infernal se não for Satanás, príncipe deste mundo como o chamou Cristo? Quem não foi tentado pelo demônio, seja na carne, seja no espírito? Todos nós já fomos tentados por esta força malévola, por este ser misterioso horrível, para desobedecermos a Deus e passemos às suas filas.

 

Para refletir

A demonologia é um capítulo muito importante da teologia católica e que hoje em dia se descuida demais. Existe uma lacuna no ensinamento da teologia, na catequese e na pregação. E esta lacuna necessita e pede ser preenchida. Estamos diante de “uma das maiores necessidades” da Igreja no momento presente. Quem tivesse previsto isso? A catequese de Paulo VI sobre a existência e influência do demônio produziu um ressentimento inesperado da parte da imprensa. Uma vez mais, acusou-se a cabeça da Igreja – o Papa- de retornar às crenças já superadas pela ciência. O diabo está morto e enterrado! Isso é o que querem meter nas nossas cabeças. O Papa Francisco também já falou várias vezes sobre o demônio: “A presença do demônio está na primeira página da Bíblia e a Bíblia termina também com a presença do demônio, com a vitória de Deus sobre o demônio… Vigiemos sempre, pois jamais o demônio foi expulso para sempre! Só no último dia” (Santa Marta, 13 de outubro 2014).

 

Para rezar

Rezemos a oração de são Bento: “Glorioso Padre Bento, ajudai-nos na luta contra o demônio, o mundo e a carne. Afastai de nós qualquer influência maligna, as tentações, o poder do Mal, os perigos para o nosso espírito e para o nosso corpo. Ajudai-nos a confiar no Amor de Deus nosso Pai, na Força de Cristo nosso Salvador, e na Presença do Espírito Santo nosso Defensor.

padre Antonio Rivero

 
 

"O pecado sem perdão"

Neste 10º domingo do tempo comum, a Palavra de Deus leva-nos a meditar sobre a nossa resposta de vida ao projeto de Deus para nós, na liberdade de optar pelo bem e pelo mal.

O Evangelho centra o nosso olhar na pessoa de Jesus, que os seus conterrâneos, entre eles tantos familiares, não aceitaram como enviado de Deus e não perceberam, até se opuseram, à vontade de Deus revelada em Jesus. Na caminhada da fé, cada um é livre de optar: ou ficar pelos dispersos sentidos de vida, ou permanecer na única família de Jesus, de «quem quiser fazer a vontade de Deus».

A segunda leitura realça que, para o cristão, viver só faz sentido na certeza da ressurreição, na caminhada de vida interior que se renova dia a dia em perspectiva da eternidade.

Neste horizonte neo-testamentário, meditemos em particular a primeira leitura que nos mostra, recorrendo à história mítica de Adão e Eva, o que acontece quando rejeitamos as propostas de Deus e preferimos caminhos de egoísmo, de orgulho e de auto-suficiência… Viver à margem de Deus leva, inevitavelmente, a trilhar caminhos de sofrimento, de destruição, de infelicidade e de morte.

1ª leitura: Gn. 3,9-15

A nossa leitura começa com a “investigação” de Deus… Antes de proferir a sua acusação, Deus – o acusador e juiz – investiga, descobre e estabelece os fatos.

Primeira pergunta feita por Deus ao homem: “onde estás?” A resposta do homem é já uma confissão da sua culpabilidade: “ouvi o rumor dos vossos passos no jardim e, como estava nu, tive medo e escondi-me” (vs. 9-10). A vergonha e o medo são sinal de uma perturbação interior, de uma ruptura com a anterior situação de inocência, de harmonia, de serenidade e de paz. Como é que o homem chegou a esta situação? Evidentemente, desobedecendo a Deus e percorrendo caminhos contrários àqueles que Deus lhe havia proposto. A resposta do homem trai, portanto, o seu segredo e a sua culpa.

Depois desta constatação, a segunda pergunta feita por Deus ao homem é meramente retórica: “terias tu comido dessa árvore, da qual te proibira de comer?” (v. 11). A árvore em causa – a “árvore do conhecimento do bem e do mal” – significa o orgulho, a auto-suficiência, o prescindir de Deus e das suas propostas, o querer decidir por si só o que é bem e o que é mal, o pôr-se a si próprio em lugar de Deus, o reivindicar autonomia total em relação ao criador. A situação do homem, perturbado e em ruptura, é já uma resposta clara à pergunta de Deus… É evidente que o homem “comeu da árvore proibida” – isto é, escolheu um caminho de orgulho e de auto-suficiência em relação a Deus. Daí a vergonha e o medo.

Ao defender-se, o homem acusa a mulher e, ao mesmo tempo, acusa veladamente o próprio Deus pela situação em que está (“a mulher que me deste por companheira deu-me do fruto da árvore e eu comi” – v. 12). Adão representa essa humanidade que, mergulhada no egoísmo e na auto-suficiência, esqueceu os dons de Deus e vê em Deus um adversário; por outro lado, a resposta de Adão mostra, igualmente, uma humanidade que quebrou a sua unidade e se instalou na cobardia, na falta de solidariedade, no ódio. Escolher caminhos contrários aos de Deus não pode senão conduzir a uma vida de ruptura com Deus e com os outros irmãos.

Vem, depois, a “defesa” da mulher: “a serpente enganou-me e eu comi” (v. 13). Entre os povos cananeus, a serpente estava ligada aos rituais de fertilidade e de fecundidade. Os israelitas deixavam-se fascinar por esses cultos e, com frequência, abandonavam Javé para seguir os rituais religiosos dos cananeus e assegurar, assim, a fecundidade dos campos e dos rebanhos. Na época em que o autor javista escreve, a serpente era, pois, o “fruto proibido”, que seduzia os crentes e os levava a abandonar a Lei de Deus. A “serpente” é, neste contexto, um símbolo literário de tudo aquilo que afastava os israelitas de Javé. A resposta da “mulher” confirma tudo aquilo que até agora estava sugerido: é verdade, a humanidade que Deus criou prescindiu de Deus, ignorou as suas propostas e enveredou por outros caminhos. Achou, no seu egoísmo e auto-suficiência, que podia encontrar a verdadeira vida à margem de Deus, prescindindo das propostas de Deus.

Diante disto, não são precisas mais perguntas. Está claramente definida a culpa de uma humanidade que pensou poder ser feliz em caminhos de egoísmo e de auto-suficiência, totalmente à margem dos caminhos que foram propostos por Deus.

Que tem Deus a acrescentar? Pouco mais, a não ser condenar como falsos e enganosos esses cultos e essas tentações que seduziam os israelitas e os colocavam fora da dinâmica da Aliança e dos mandamentos (vs. 14-15). O nosso catequista javista sabe que a serpente é um animal miserável, que passa toda a sua existência mordendo o pó da terra. O autor vai servir-se deste dado para pintar, plasticamente, a condenação radical de tudo aquilo que leva os homens a afastar-se dos caminhos de Deus e a enveredar por caminhos de egoísmo e de auto-suficiência.

O que é que significa a inimizade e a luta entre a “descendência” da mulher e a “descendência” da serpente? Provavelmente, o autor janista está, apenas, a dar uma explicação etiológica (uma “etiologia” é uma tentativa de explicar o porquê de uma determinada realidade que o autor conhece no seu tempo, a partir de um pretenso acontecimento primordial, que seria o responsável pela situação atual) para o fato de a serpente inspirar horror aos humanos e de toda a gente lhe procurar “esmagar a cabeça”; mas a interpretação judaica e cristã viu nestas palavras uma profecia messiânica: Deus anuncia que um “filho da mulher” (o Messias) acabará com as consequências do pecado e inserirá a humanidade numa dinâmica de graça.

Atenção: o autor sagrado não está a falar de um pecado cometido nos primórdios da humanidade pelo primeiro homem e pela primeira mulher; mas está a falar do pecado cometido por todos os homens e mulheres de todos os tempos… Ele está apenas a ensinar que a raiz de todos os males está no fato de o homem prescindir de Deus e construir o mundo a partir de critérios de egoísmo e de auto-suficiência. Não conhecemos bem este quadro?

2ª leitura: 2Cor. 4,13 – 5,1

A segunda carta de Paulo aos Coríntios apareceu num momento particularmente tenso da relação entre o apóstolo e essa comunidade cristã da Grécia. Algumas duras críticas de Paulo (na primeira Carta aos Coríntios) a certos membros da comunidade que viviam de forma pouco coerente com a fé cristã provocaram um certo desconforto na comunidade, que foi aproveitado pelos opositores de Paulo, que criaram um clima de hostilidade contra o apóstolo. Paulo foi acusado de estar a cuidar apenas dos seus próprios interesses e de pregar uma doutrina que não estava em consonância com o Evangelho anunciado pelos outros apóstolos. Na opinião dos seus detratores, o fato de Paulo não ter apresentado qualquer “carta de recomendação” que comprovasse a sua autoridade para anunciar o Evangelho significava que a doutrina por ele pregada não era digna de fé.

Ao saber do que se passava, Paulo foi a Corinto; mas essa ida não só não resolveu o problema, como até o radicalizou. Deve ter havido uma troca violenta de argumentos e de palavras e Paulo foi gravemente ofendido por um membro da comunidade. Algum tempo depois, Tito, amigo e colaborador de Paulo, partiu para Corinto com a missão de acalmar os ânimos e de tentar a reconciliação. Quando voltou, Tito trazia notícias animadoras: o diferendo fora ultrapassado e os Coríntios estavam, outra vez, em comunhão com Paulo. Foi então que Paulo escreveu a nossa segunda Carta aos Coríntios. Nela, o apóstolo explicava tranquilamente aos Coríntios os princípios que sempre orientaram o seu trabalho apostólico (cf. 2Cor. 1,3-7,16) e desmontava os argumentos dos adversários (cf. 2Cor. 10,1-13,10). Estávamos nos anos 56/57.

Neste contexto, o texto de hoje situa-nos na opção pelo sentido da nossa vida em Cristo. Paulo apresenta duas fortes convicções de fé: «com este mesmo espírito de fé, também acreditamos, e falamos», que Deus há-de ressuscitar-nos com Jesus e vai levar-nos para ficarmos eternamente em comunhão com Ele; o homem interior renova-se em cada dia na medida em que intensifica o seu olhar nas coisas invisíveis que são eternas. Em consequência, há que renovar constantemente, sem desanimar, esta opção pela habitação eterna, em comunhão plena com Deus. Coisas essenciais, ditas de modo claro, a exigir coerência àqueles que querem continuar a viver como autênticos discípulos de Cristo.

Evangelho: Mc. 3,20-35

Jesus continua a percorrer o espaço geográfico da Galileia e a cumprir a sua missão de anunciar o “Reino”. Começa, no entanto, a crescer a onda de contestação à sua pregação. Tomando como pretexto alguns casos particulares cada vez mais insignificantes, os líderes judaicos manifestam a sua firme oposição à novidade do “Reino”. As polêmicas e controvérsias marcam esta fase da caminhada de Jesus.

O Evangelho de hoje apresenta-nos duas questões difíceis: o pecado contra o Espírito Santo e o os “irmãos” de Jesus.

 “Todos os pecados serão perdoados aos filhos dos homens, mesmo as suas blasfêmias; mas todo o que tiver blasfemado contra o espírito Santo jamais terá perdão, mas será culpado de um pecado eterno” (Mc. 3,28-29).

O Catecismo da Igreja Católica dá a interpretação autêntica dessa passagem com as seguintes palavras: “A misericórdia de Deus não tem limites, mas quem se recusa deliberadamente a acolher a misericórdia de Deus pelo arrependimento rejeita o perdão de seus pecados e a salvação oferecida pelo Espírito Santo. Semelhante endurecimento pode levar à impenitência final e à perdição eterna” (Cat. 1864). No fundo, o pecado contra o Espírito Santo é um endurecimento interior que não permite a pessoa se arrepender dos próprios pecados. Logicamente, sem arrependimento não há perdão! Por outro lado, é muito difícil verificar se alguém pecou contra o Espírito Santo; na prática, até o final da vida de uma pessoa não se pode saber se tal impenitência foi um pecado contra o Espírito Santo. Em efeito, uma pessoa poderia se arrepender nos últimos momentos de sua existência e ser alcançado pela salvação. Definitivamente, a resposta a essa questão – foi ou não um pecado contra o Espírito Santo? – continuará, enquanto não chega o juízo final, conhecida somente por Deus e pela pessoa em questão.

Falar sobre o pecado contra o Espírito Santo deveria nos ajudar a ver que o arrependimento dos nossos pecados é uma graça de Deus. Ao mesmo tempo essa graça só nos alcança se nós quisermos: a salvação é obra de Deus em nós, mas não sem nós. Nesse sentido, a nossa súplica poderia ser semelhante àquela que muitos sacerdotes ainda rezam antes da Santa Missa: “Concedei-nos, Senhor onipotente e misericordioso, a alegria com a paz, a emenda de vida, o tempo para fazer penitência, a graça e a consolação do Espírito Santo e a perseverança nas boas obras. Amém”.

De uma forma geral, Marcos narra as controvérsias seguindo um esquema fixo e sempre igual: começa com a apresentação da questão, continua com a discussão e termina com um “dito” final de Jesus. Este “dito” não oferece a mera solução do “caso” em questão, mas é sempre uma auto-revelação de Jesus, de importância decisiva para a comunidade cristã do tempo de Marcos e de todos os tempos.

Toda a cena se passa numa “casa”. Que casa é essa? É uma casa onde Jesus está a pregar a Palavra e é uma casa onde «de novo acorreu tanta gente, de modo que nem sequer podiam comer». É também uma casa onde estão sentados/instalados alguns especialistas da Lei (escribas). A “casa” onde Jesus prega, onde se congrega a comunidade judaica e onde há escribas instalados, poderia ser uma figura da sinagoga, entendida como assembleia do Povo de Deus. O fato de se referir que a “casa” em questão estava situada na cidade de Cafarnaum (o centro a partir do qual irradia a atividade de Jesus na Galileia) poderia indicar que Marcos está a falar da comunidade judaica da Galileia, em cujas sinagogas Jesus acabou de passar (cf. Mc. 1,39), anunciando a Boa Nova do Reino. Em qualquer caso, a “casa” representa essa comunidade judaica a quem Jesus dirige a pregação do “Reino”.

A mensagem evangélica de hoje apresenta três diálogos de Jesus: dois com os seus familiares, no princípio e no fim, outro com os escribas, no meio Fiquemo-nos pelos familiares de Jesus. Diz-se que vão a Cafarnaum para levar Jesus desta casa onde está para a sua casa em Nazaré. Muitas são as razões: muito tempo fora da família, notícias contraditórias sobre a sua atividade, mensagem em contraste com a doutrina oficial dos escribas e fariseus, contacto com os pecadores de quem é amigo, não seguimento da tradição dos antigos nem respeito pelo sábado; enfim, Jesus é considerado louco e herético. A intenção principal é reconduzi-lo ao caminho reto de um autêntico judeu.

Pela primeira vez, Mc menciona a família biológica de Jesus, que vem (de Nazaré?) “para detê-lo” sob acusação de loucura (v. 21). Já vimos que Mc não possui os chamados “evangelhos de infância”, que narram os eventos em torno do nascimento e dos primeiros anos de Jesus e só aparecerão em Mt e Lc. Assim, essa primeira aparição da parentela de Jesus parece motivada pela incompreensão diante da estranheza de seu ensinamento. A seus olhos, o ensino de Jesus se revela uma insanidade. A tentativa de “detê-lo” é justificável à medida que, segundo os relatos dos cap. 2 e 3, suas pregações já despertam a ira das autoridades civis e religiosas, defensores de interesses escusos sob aparência das “sãs tradições”. Os parentes podem temer pela segurança de Jesus, mas também pela sua própria, pois os interditos religiosos não recaíam somente sobre o “herege”, mas também sobre sua família e sua cidade.

Há os que ficam de fora e os que estão dentro. Imagem atualíssima para nós hoje. Podemos andar por fora, arredios, ficar à porta, até nos chamarmos “católicos não praticantes”. Que significa isso? Faz sentido? Ou se é ou não se é. Aí está de novo a radicalidade da opção por Jesus. Ou ficamos for, ou estamos dentro da casa, unidos a Jesus, a escutá-l’O e a segui-l’O com todo o nosso ser, com todo o nosso coração.

Na caminhada da fé, cada um é livre de optar pela família que quiser: ou ficar pelas famílias que dispersam do sentido da vida, ou permanecer na única família de Jesus, de «quem quiser fazer a vontade de Deus».

A família agora ganha contornos claros: trata-se da mãe e dos irmãos de Jesus (v. 31). Deixaremos de lado, ao menos por ora, a secular discussão sobre a natureza desses “irmãos”, já que as possibilidades são muitas e inconclusas, sobretudo em Mc. Importa, porém, que eles estão “do lado de fora da casa”, no lugar apropriado daqueles que não creem e não seguem Jesus – reafirmando a incompreensão que Jesus encontrou nos seus parentes mais próximos, no começo de sua atuação.

Quando Jesus ensina entre a multidão sentada à sua volta e lhe é dito: «Estão lá fora a tua mãe e os teus irmãos que te procuram», Ele responde: «Aí estão minha mãe e meus irmãos. Aquele que fizer a vontade de Deus, esse é que é meu irmão, minha irmã e minha mãe» (Mc. 3,32-35).

A resposta de Jesus é interessante: sua mãe e seus irmãos são, na verdade, os “de dentro da casa”, que estão assentados ao seu redor e escutam sua palavra – os discípulos (v. 32-35). Na boa nova de Jesus, mais que os laços de sangue, interessam os laços de adoção filial do Espírito, que formam uma “família escatológica”, imagem da humanidade unida em torno do Cristo que vem.

Mais tarde, tendo compreendido isso, Lucas dirá que Maria, mãe de Jesus, “ouviu a palavra, acreditou e a pôs em prática”, ou seja, fez-se sua discípula – nisso, e não propriamente na maternidade, reside seu mérito em Lucas. Mas isso já é outro assunto…

Para refletir

Jesus foi por toda a Galiléia pregando o Evangelho nas sinagogas e expulsando os demônios. O fato despertava tanto entusiasmo entre o povo, que os escribas- incrédulos e perversos-, sem poder negar tal evidência e não querendo reconhecer em Jesus o Messias, atribuem o Seu poder à influência de Belzebu. E o Mestre reage a esta insinuação: “Se, portanto, satanás se levanta contra si mesmo e se divide, não poderá sobreviver, mas será destruído” (Mc. 3,26).

Jesus coloca as coisas no seu lugar! Nele trava-se o grande combate entre o bem e o mal, entre Deus e satanás, o adversário da humanidade. Jesus é mais forte do que o príncipe dos demônios. Veio a este mundo para combatê-lo. Vence-o no deserto após o seu batismo; vence-o expulsando os demônios. É Ele o homem forte que guarda a casa. Tudo isso Ele o faz pelo Espírito Santo e não por algum espírito imundo.

O Senhor convida os fariseus, obcecados e endurecidos, a fazer uma consideração simples: se alguém expulsa o demônio, isto quer dizer que é mais forte do que ele. É uma exortação a mais a reconhecer em Jesus o Deus “forte”, o Deus que com o Seu poder liberta o homem da escravidão do demônio. Terminou o domínio de satanás: o príncipe deste mundo está a ponto de ser expulso. A vitória de Jesus sobre o poder das trevas, que culmina como na Sua Morte e Ressurreição, demonstra que a luz está já no mundo. Disse-o o próprio Senhor: “Agora é o julgamento deste mundo. Agora que o príncipe deste mundo vai ser lançado fora (cf. Jo 12,31-32).

Por isso, acreditar no poder de Cristo Jesus é confiar na misericórdia e no perdão de Deus. Ele tem o poder de perdoar pecados, pois por sua morte e ressurreição há de vencer definitivamente a satanás e o pecado. Este é, na verdade, o maior adversário do ser humano, pois o afasta da comunhão com Deus.

“Saíram para agarrá-Lo, porque diziam que estava fora de si” (Mc. 3,21). Alguns de seus parentes, deixando-se levar por pensamentos meramente humanos, interpretavam a absorvente dedicação de Jesus ao apostolado como um exagero, explicável- na sua opinião- apenas por uma perda de juízo. Ao ler estas palavras do Evangelho pensemos no que Jesus se submeteu por nosso amor: disseram que Ele tinha “perdido o juízo”. Muitos santos, a exemplo de Cristo, passarão também por loucos, mas serão loucos de amor, loucos de amor a Jesus Cristo!

Comunicam a Jesus que a Sua Mãe e alguns parentes vieram à sua procura. Jesus respondeu-lhes: “Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mc. 3,35). Todos aqueles que, seguindo o Seu exemplo, abraçam a vontade do Pai e a cumprem, ficam unidos a Ele com vínculos tão íntimos, só comparáveis aos mais estreitos laços familiares. E desta união a Cristo, na mesma vontade do Pai, é que se tiram forças para vencer satanás.

Por isso, a Igreja recorda-nos que a Santíssima Virgem “acolheu as palavras com que o Filho, pondo o reino acima de todas as relações de parentesco, proclamou bem-aventurados todos os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática; coisa que Ela fazia fielmente” (Lumen Gentium, 58).

O Senhor, pois, nos ensina também que segui-Lo nos leva a compartilhar a Sua vida até tal ponto de intimidade que consistiu um vínculo mais forte que o familiar.

A verdadeira família de Jesus é formada pelos que estão ao redor dele e que fazem a vontade de Deus.

Maria era mãe duplamente: porque gerou Jesus e porque mais do que ninguém soube fazer sempre a vontade de Deus.

 

 
 

Cristo única força contra o mal

O tempo comum da liturgia é o tempo da cotidianidade e da vida comum. Percorreremos como um programa de catequese dominical as perícopes principais do Evangelho de São Marcos e perpassaremos concomitantemente aspectos importantes de nossa vida pessoal e eclesial.

Temos consciência de que o ser humano é um ser dividido, fragmentado, envolvido ao mesmo tempo de graça e de maldade. Todos temos esta experiência profundamente humana.

O livro do Gênesis (cf. Gn. 3,9-15.20) nos coloca diante da fragilidade da condição humana. Conforme o relato bíblico da criação, Adão, não teria decidido por si só se rebelar contra Deus. Ele jamais teria ousado desobedecer os preceitos divinos se não fosse provocado externamente, uma força exterior agiu no homem para pôr em ação as possibilidades de mal que estavam nele. Assim a presença misteriosa, mas real, do tentador se faz sentir desde as primeiras páginas da Bíblia.

Na narração do primeiro pecado aparece com toda a sua dramaticidade aquilo que constitui a essência mais intima e mais obscura do pecado: a desobediência a Deus, à sua lei. Exclusão de Deus, ruptura com Deus, desobediência a Deus: é isto o que tem sido, ao longo de toda a história humana, e continua a ser, sob formas diversas, o pecado, que pode chegar até à indiferença ao seu amor ou negação do próprio Deus e da sua existência.

A luta entre o bem e o mal, que acompanha o ser humano desde o paraíso terrestre (cf. Gn 3,5) traz como maior expressão do mal o próprio demônio, autor e princípio de todo pecado. Para expressar a decisão do homem entre o bem e mal, a Sagrada Escritura, em suas primeiras páginas, usa uma linguagem figurada, que só se tornou clara com a vinda de Jesus. Com o nome de satanás ou de diabo a Bíblia designa um ser pessoal, invisível, mas cuja ação se manifesta pela atividade de outros seres ou pela tentação.

O demônio ao longo da história da humanidade tem continuado com suas artimanhas a seduzir a humanidade. Frente a tanto engano, logo após a primeira queda, Deus, prometeu Alguém, que da descendência da mulher, haveria de esmagar a cabeça da serpente enganadora. E a promessa foi cumprida, a vitória da humanidade sobre satanás será Cristo, Redentor da humanidade, alguém mais forte que satanás.

Os evangelhos apresentam a vida pública de Jesus como uma luta contra satanás. Tudo começa com o episódio da tentação em que, pela primeira vez, depois da cena do paraíso, um homem, representante da humanidade, se encontra face a face com o diabo. Esta luta se abre com as libertações dos endemoninhados. Eles provam que chegou o Reino de Deus (cf. Mc. 3,22s) e que terminou o de satanás.

No Evangelho de São Marcos (cf. Mc. 3,20-35) Jesus volta para casa e sente o ambiente tenso em que ele já não é bem-vindo. Sua pregação pela Galileia gera atitudes contraditórias em dois grupos bem distintos: sua família e os fariseus.

Seus familiares que o conhecem acham que Jesus foi longe demais e que deve desistir de sua missão (v. 21), querem levá-lo de volta para Nazaré, pois julgam que ele está fora de si, que ele “enlouqueceu”. Mas, a cautela dos familiares vem tarde demais; os escribas inquisidores vieram de Jerusalém para levantar acusações contra o Mestre disseram que Ele “está possuído por Belzebu”, pelo demônio, está possesso (v. 22) e se realiza obras extraordinárias, conta com a sua ajuda.

Absurdo! Contesta-lhes Jesus. Segundo Ele a acusação caluniosa dos escribas à sua pessoa constitui uma blasfêmia contra o Espírito Santo, com cuja força ele expulsa os demônios: “Tudo será perdoado aos filhos dos homens, os pecados e todas as blasfêmias que tiverem proferido. Aquele, porém, que blasfemar contra o Espírito Santo, jamais será perdoado: é culpado de pecado eterno”. (vv. 28-29) Negar que Jesus tenha o poder de vencer as forças do mal, negar-lhe seu poder divino e redentor, opor-se à sua obra salvadora é ‘blasfemar contra o Espírito Santo. Espírito Santo aqui não é o próprio Cristo como Filho de Deus, sua divindade.

Quando se nega a divindade de Jesus, nega-se também seu poder de perdoar, por isso mesmo, anula-se o perdão que Deus pode dar à criatura. Não é que haja pecados que Deus não possa perdoar. Sua misericórdia é e será sempre infinita. Cristo é a encarnação da misericórdia divina. Mas Deus não pode perdoar a quem não quer o perdão e nega seu poder de perdoar.

Não há pecado pessoal ou original que não possa tornar-se história de salvação, graças Aquele que veio curar os doentes do corpo ou do espírito. Jesus é o redentor e o salvador de todos e de cada um, de cada pecado e de todos os pecados. Há um só obstáculo capaz de se opor à ação universal e redentora de Cristo: a recusa em reconhecê-lo como Redentor, ou então não reconhecer a nossa necessidade dele. Este é o pecado contra o Espírito Santo. Só a fé nos consente reconhecer o nosso pecado e nos dá a possibilidade da salvação.

São muitos os cristãos que não creem mais na existência de satanás. A experiência que fazem da tentação não lhes parece postular a existência de potências demoníacas. A personificação do mal, dizem, pertence a uma época ultrapassada, na qual o homem se considerava joguete das forças cósmicas. A mitologia popular de antigamente não é mais levada em conta hoje, o que se chamava possessão diabólica é um dos muitos traumas que a psicologia procura explicar. Por outro lado é cada vez mais evidente a dificuldade com que os teólogos modernos falam de satanás e das potências do mal.

Mas as perícopes evangélicas em que dele se fala com tanta convicção e tão explicitamente convidam-nos a refletir; além disso, a experiência que cada pessoa tem do pecado a obriga a dizer que cedeu às tentações porque o mal se acha objetivamente dentro da realidade, antes que a pessoa nela consinta por um ato de sua livre vontade. Isto significa que, pecando, o homem tem a consciência de se tornar parte ativa de uma solidariedade no pecado, preexistente a ele, e que inclui também outras criaturas espirituais além do homem.

Mas, a vida do cristão começa com a vitória radical sobre o mal e sobre satanás no Batismo. Estende-se a atualiza-se continuamente na participação dos outros sinais da vitória de Cristo, os outros sacramentos. Toda a vida do cristão se torna, como de Cristo, uma luta, um duelo com o mal e as potências do maligno.

Optemos por Cristo, optemos pelo amor que é a única força eficaz contra o mal.

padre José Assis Pereira

 
 

As leituras deste dia nos apresentam um leque de temas importantes e atuais.

A vida familiar se constrói ao redor das relações com os seus diferentes membros, assim esta convivência se vá fazendo como uma teia de aranha, alcançando o objetivo que seria o de estabelecer fatores integradores que ajudem esta mesma família a enfrentar os momentos de crises.

Neste caso compreender a família como fonte de comunicação, significa compreendê-la como lugar de relações decisivas, ponto de encontro, porque o que se trata no seio familiar é este crescimento interpessoal de todos com todos, porque aqui entra à dialógica intra e extra, onde podemos reconhecer os valores dos próprios membros da família, sem contar da comunhão que, geralmente se provoca. É uma ajudar as famílias para reconhecer-se e aceitar cada um dos seus membros tal como são. Assim, cada um se sente mais pessoa, porque é aceito como tal como é, se sentido realizado dentro da sua própria família, e não sentindo necessidade de buscar outros reconhecimentos fora do seu hábitat próprio.

Na primeira leitura observamos um ponto comum, que a causa do pecado está na desobediência: a queda: “Ruptura da união-comunhão com Deus” e isso se poder palpar com claridade nos relatos sobre as origens do pecado, uma regressão a “A terra estava deserta e vazia, as trevas cobriam o abismo” (Gn. 1,2). Esta caída é representada como uma ruptura de toda a criação, provocando uma solidão, o homem se fecha por causa do seu próprio egoísmo em si mesmo, provocando uma alteração da harmonia, da comunhão dos homens com a natureza, entre si e com Deus.

Esta ruptura é provocada cada dia e cada momento que desviamos deste encontro de diálogo com Deus. O texto da primeira leitura de hoje (Gn. 3,9-15) encontramos uma das partes da Sagrada Escritura quando Deus fala com o homem, quando Deus sai do jardim para buscar do homem para relacionar-se, comunicar-se, para ver si necessita de alguma coisa, ou também para deixá-lo mais seguro e que não está só, mas que sempre caminhará ao seu lado: “Quando ouviram o ruído do Senhor Deus, que passeava pelo jardim à brisa da tarde, o homem e a mulher esconderam-se do Senhor Deus no meio das árvores do jardim. 9 Mas o Senhor Deus chamou o homem e perguntou: “Onde estás?” (Gn. 3,8-9).

A preocupação de Deus por saber como vai a sua obra prima, vai além, sabe que alguma coisa não anda bem, porque negar um encontro com o seu criador é negar a sua origem, ou seja, que começa a negar a si mesmo, como um ser relacional. Pelo pecado, o homem já começa a sofrer as suas causas: negar de ver a Deus, de dialogar, isso tudo provocado pela desnudes, porque o pecado nos deixa nu, o homem é defraudado com uma falsa proposta de êxitos e fama, poder e prazer. Nada disso realiza e seu ego, somente o diálogo limpo e sincero com Deus pode sustentar e deixar o homem livre. A partir do momento que esta comunicação é inexistente, os problemas começam a aparecer: o medo, a vergonha, esconder-se, começa uma sequencia de acusações.

Na segunda leitura (2Cor. 4,13-18-5,1) também encontramos uma forte relação com o que acabei de explicar sobre o pecado original, este negar-se comunicar com o Senhor, mas por mais que hoje também temos esta mancha na nossa origem, encontramos uma palavra de ânimo para seguir em frente na nossa resposta: “Não desanimamos. Mesmo se o nosso homem exterior se vai arruinando, o nosso homem interior, pelo contrário, vai-se renovando, dia a dia” (v. 16). O pecado na vida de cada um pode causar grandes destroços, porque a pessoa se considera como indigno de receber a graça e a benção do Senhor na sua vida.

A vida interior deve estar sempre transbordante de saúde para poder levantar aquele que anda caído por vários motivos. O homem contemporâneo ainda resiste às profundezas. Não está disposto a cuidar da sua vida interior, por isso começa a se sentir inseguro e insatisfeito nos seus projetos. Por isso que o estilo de vida sempre é agitado, sem ter um tempo para dedicar a si mesmo, dedicar aos seus sentimentos internos, para poder encontrar alguma porta por onde poder tomar um novo caminho. O ser humano necessita entrar na sua própria história, do seu próprio mistério e escutar para tomar uma decisão que venha provocar vida e ser mais humano. Se quisermos encontrar soluções, Jesus já nos da uma de grande valor: “Aqui estão minha mãe e meus irmãos. Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mc 3, 34-35), ou seja, fazer a vontade de Deus, obedecer, estar disponível ao que ele nos pede para alcançar a verdadeira felicidade. Jesus não está menosprezando a sua mãe, porque ninguém como ela cumpriu a vontade do pai eterno. Ela acreditou, esteve totalmente aberta aos planos do Senhor para toda a humanidade.

Oremos neste dia pela família. O grande pecado da nossa era e querer desfazer deste bem comum.

padre Lucimar, sf

 
 

Hoje a grande família de Jesus se reúne para celebrar a ceia eucarística e, neste domingo, temos em destaque a figura da mulher, da mulher que resgata a dignidade da humanidade, perdida por causa do pecado. Porém, temos o Senhor como nossa luz e salvação. Portanto, Ele é o sustentáculo de nossa vida. Nesse sentido, a humanidade, a caminho da casa do Pai, alcançará a plenitude quando vencer o mal. Devemos compreender que Jesus vence as forças do mal, simbolizadas em satanás, e congrega em volta de si uma nova família.

Estamos de volta ao tempo comum. Tempo semeadura e tempo de resgatar as almas para Deus. Esta é a missão de cada um de nós e, à medida que adentramos nesse tempo, Jesus vai nos revelando sua doutrina a fim de orientar-nos para praticarmos um excelente serviço no campo da evangelização.

Assim, neste domingo, e evangelho de Marcos revela a nova relação entre o povo e Deus, que se estabelece através de Jesus. O que se vê é uma grande multidão de excluídos, seja dentre os gentios, seja da dispersão do judaísmo, que se reúne em torno da casa onde se encontra Jesus.

Esta multidão se diferencia do "pequeno resto", estabelecido na sinagoga e no Templo, gozando de privilégios e isolado da maioria do povo, considerada pecadora por infringir qualquer um dos 613 mandamentos da Lei, tendo como protótipo Eva, que infringiu a proibição do Criador – lei novamente a primeira leitura.

Deste modo, com Jesus temos uma nova realidade, destacada pelos evangelhos ao mencionarem cento e quarenta e nove vezes a "multidão" que se relaciona com Jesus. Esta relação é uma característica muito mais marcante da índole e da personalidade de Jesus do que as narrativas de seus milagres possam significar. É uma chave de leitura para compreendermos a presença de Jesus no mundo, em relação com todos os povos e culturas, não se limitando a grupos religiosos específicos.

Entretanto, o termo grego traduzido por "familiares" pode significar uma proximidade consangüínea ou de amizade. Pode-se também interpretar que o verbo usado no texto, "enlouqueceu", refira-se a Jesus ou à multidão.

Assim, pode-se entender que, ou os familiares ou os discípulos de Jesus, não o compreendendo e julgando-o fora de si, queiram retê-lo, ou julgando a multidão demais agitada queiram protegê-lo. 

Podemos perceber ainda que os escribas vindos de Jerusalém são os enviados dos chefes religiosos que tinham em mãos o culto sacrifical do Templo e o dinheiro do Tesouro, anexo ao Templo. Eles se empenham em difamar Jesus, para afastar o povo dele. O Espírito Santo é o amor. Considerar as obras de amor do Espírito como sendo obras do demônio significa o distanciamento e até a ruptura com o próprio amor de Deus. Rejeitar e matar os que com amor buscam resgatar a dignidade humana dos empobrecidos explorados e excluídos significa a rejeição da vida e do amor de Deus.

Portanto, a partir de uma referência à sua família carnal, Jesus afirma: "Quem é minha mãe? Quem são meus irmãos?... Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe". É a união em torno da prática da vontade de Deus que cria os novos laços familiares no Reino.

Nesse sentido, observando com atenção a segunda leitura, podemos concluir que: Viver o amor, o serviço, a partilha, a misericórdia, solidariamente com os mais necessitados, é inserir-se na família de Jesus, quer seja por laços consanguíneos, quer não, certos da comunhão de vida eterna com Jesus.

diácono Miguel A. Teodoro

 
 

O homem dividido entre dois reinos

A liturgia de hoje é linda, ela nos leva a meditar ir até à Igreja primitiva, quando os primeiros cristão se reuniam, organizavam-se em comunidades, à celebração assídua da palavra, e a fração do pão. (Eucaristia)

Os primeiros textos dos Evangelhos, as cartas de exortação dos Apóstolos, eram dirigidas às comunidades cristãs, espalhadas nas províncias do vasto império romano, para alicerçar a fé do povo de Deus, no ressuscitado.

O Novo Testamento, nasceu desta forma; ao longo dos anos de caminhadas cristãs, foram formando os primeiros textos, as "Epístolas, os Sinóticos, e o de São João."

 Existem outros livros chamados Apócrifos, que a Igreja não acolheu no Cânon, por serem duvidosos, e não estar de acordo com a revelação e a tradição dos Apóstolos, isto é da Santa Mãe Igreja.

 O texto do Evangelho deste Domingo nos oferece um dos melhores exemplos, e nos dá uma idéia de como nasceram as Sagradas Escrituras.

Quem organizou e guardou por longos séculos, as sagradas Escrituras foi a Igreja Católica. Eram imensas bibliotecas para serem compiladas, por ser em pergaminhos, papiros ou tijolos de argilas etc. (Foi são Jerônimo um sacerdote Católico que fez a tradução da bíblia para o latim entre os séculos IV e V a pedido do Papa Dâmaso I, a tradução conhecida por vulgata)

A Boa Noticia, foram nascendo de recordações vivas pessoais comunitárias, de dito e fatos de Jesus, reunidos nem sempre numa ordem cronológica ( A ordem em que foram efetivamente ditos e feitos ) mas, via de regra, por associação de idéias e temas.

Os escritos foram chegando nas reuniões e celebração da fração do pão, ditados pelos Apóstolos e discípulos testemunhas vivas oculares, que conviveram, caminharam com Jesus, viram-no, ouviram seus ensinamentos, suas pregações.

Agora lembrados pelo Espírito Santo, os discípulos, podem exortar a Igreja caminhante, com as palavras do divino Mestre. Jesus falou aos discípulos: 25 "Eu tenho dito estas coisas enquanto estou convosco.

26 Mas o defensor, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, Ele vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que vos tenho dito." 13 "Quando vier, o Espírito da Verdade, vos guiará em toda a verdade. 14 Ele não falará por si mesmo, mas dirá tudo quanto tiver ouvido e vos anunciará o que há de vir. (Jo 14,25-26; Jo. 16,13)

 O primeiro Evangelho foi escrito por João Marcos, que foi companheiro de Paulo, na primeira viagem missionária na Antioquia, depois ele ficou com Pedro em Roma.

Os Evangelho não foram escrito com intenção de redigir uma "história," ou de escrever uma "biografia" de Jesus, mas com o objetivo de alimentar a fé dos primeiros cristãos.

Por isso os textos dos Evangelhos são verdadeiros, de sentidos profundos do que qualquer história profana. Ele foi escrito realmente com o "dedo de Deus," isto é, com o Espírito Santo, o qual conhece não somente os segredos de Deus, mas também os segredos do homem e sua história. (1Cor. 2,11)

A primeira leitura deste Domingo, nos leva meditar os mistérios  de Deus, os primórdios tempos, a história do homem e o paraíso, onde deixaram ser enganados pela voz do maligno.

O livre arbítrio do ser humano, preferiram  a escolha do mal, o homem se retraiu à bondade do criador, levado pelas insidias do maligno, perderam a graça de filhos Deus.

O pecado original, para nós pobres mortais pecadores, é um mistério profundo, pois as Sagradas Escrituras narra-nos, que  o pecado começou no céu. Os anjos apóstatas abandonaram seus tronos e foram precipitados no abismo.

"São anjos decaídos por terem recusado livremente a servir a Deus e a seu desígnio. Sua opção contra Deus é definitiva, para eles não tem salvação. Eles tentam associar o homem à sua revolta contra Deus." (CIC 414 ) (Is. 14,12-14; 2Pd. 2,4; Ez. 28,12-15; Ap. 12,10; Lc. 22,31; Mt. 25,41)

O pecado original trouxe ao homem, consequências graves e desastrosas, a morte e a perca da filiação de filhos de Deus. Deus não fez a morte, nem tem prazer em destruir os viventes...Foi a inveja do Diabo que a morte entrou no mundo. (Sb. 1,13;2,24)

 A Boa Noticia é: Deus na sua infinita misericórdia perguntou: "Adão onde estás..?" Ele está sempre perguntando a cada um de nós - Onde você esta meu filho..?

 Então no seu infinito amor de misericórdia, enviou seu Filho a este mundo para nos salvar da morte eterna. Deus está sempre nos procurando e perguntando: Meus filhos onde estão vocês..? Enviei meu Filho amado ouvi-o..!

 Por isso que Nosso Senhor diz no Evangelho: Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos? São aqueles que fazem a vontade de Deus, esses são meu irmão, minha irmã e minha mãe. (Mc 3,35)

Isso quer dizer para nós que, quem crê Nele, a sua fé é mais importante que os próprios vínculos de sangue. A verdadeira família de Jesus é aquela que faz constantemente a vontade de Deus.

No antigo Israel, era costume determinar pela raça, pelo sangue e pela linhagem de descendência quem era "puro ou impuro," quem era judeu ou pagão. ( Marcos dirige o texto do Evangelho, às Igrejas primitivas. Este costumes tinha que ser quebrantado, abolidos do meio cristão, e nas  estruturas familiares. ) Por isso Jesus ao libertar as pessoas de todo e qualquer mal, é acusado pelos mestres da lei de ter ligação com o próprio mal.

Na bíblia a palavra Satanás vem do hebraico, no sentido de "adversário, opositor e malvado, aquele que divide," e  na tradução grega, quase sempre foi traduzida por diábolos, no sentido de acusar, caluniar, falsificar, enganar.

E exatamente isso que os judeus mestres da lei acusam Jesus, pois sabem que as suas palavras trás vida nova, liberta o povo da opressão da lei. Por isso, eles o acusam e o caluniam por inveja e maldade.

 Usam da intervenção de alguns parentes, movidos pelos dissuasivos mestres da lei, desviar Jesus de seu ministério. A acusação de coluio com Satanás e as palavras de Nosso Senhor, ao dizer aos doutores da lei: Como pode satanás expulsar a si mesmo?

 Então Satanás está contra si mesmo, como pode Satanás expulsar a Satanás nos mostra o choque entre o forte e o mais forte. ( Mc 3,22-26 ) A mensagem de hoje é também "uma mensagem para a vida eterna."

 A batalha decisiva entre dois reinos, aconteceu com Cristo, mas a guerra não se acabou; a antiga serpente continua a armar ciladas ao calcanhar de sua linhagem, que é seu corpo, seus membros, nós..! (Gn. 3,15)

Agora Satanás é expulso de nossa habitação, pelo nosso batismo, e nossa renuncia ao mal, e nós tornamos co-herdeiro de Deus em Cristo Jesus.

Mas o espírito imundo, procura brechas continuamente para reentrar em nossas vidas, para fazer-nos perder nossa salvação, conquistada por Nosso Senhor Jesus Cristo.

Portanto este tempo é para nós de vigilância e decisão.  Irmãozinhos..! A diferença entre agora e antes de Cristo, é que agora nós podemos vencer, ou melhor "vencer de virada;" antes - sob a lei- não! (1Pd. 5,8-11)

Mas para vencer é preciso suar, é preciso participar na luta e na vitória de Jesus, tomando nossa cruz no dia a dia e seguindo-o. Completar o que falta à vitória de Jesus, completar o que faltou em Cristo na cruz ..! (Lc. 9,23; Mt. 16,24; Mc. 8,34)

Deus manifesta-nos, o seu amor em seu filho Jesus Cristo, dialoga com o ser humano, vai a procura dele, chama-o e pergunta-lhe com ternura: Onde está você..? Seu amor fiel oferece a toda a criatura um futuro de esperança e de salvação.

Opor a Ele é recusar sua salvação é um pecado contra o Espírito Santo (Mc. 3,29). De fato sabemos que, se a tenda em que moramos neste mundo for destruída, Deus nos dá uma outra moradia no céu que não é obra de mãos humanas, mas que é eterna." (2Cor. 5,1).

 

Texto elaborado da:

- homilia de Raniero Cantalamessa extraido de sua obra "O Verbo se faz carne” ano "b" 10º domingo do tempo comum "O homem dividido entre dois reinos" - pg 373-376

- Deus conosco dia a dia ano "b" 10º domingo do tempo comum - pg 45-48

- comentário na pg 121 pe. Francisco Abertin

- Bíblia: Ave Maria.