Jesus, com sua ação e sua palavra, desafia os costumes da época. Sua forma de agir se converte em uma ameaça para a autoridade política do momento; transforma-se em blasfêmia para o aparato religioso e se constitui em verdadeira vergonha para os mais próximos dele e até para os de sua família. Hoje vemos como a família de Jesus o busca, com o único desejo de deter sua ação no meio daquela sociedade. Jesus não é compreendido pelas pessoas de seu tempo, tampouco pela sua família. Ele, que era um líder social e religioso, vive na própria carne a rejeição e a incompreensão dos seus. As pessoas estão tão conformadas com a realidade em que vivem que não se imaginam em algo novo, não querem conhecer novas realidades, nem de Deus nem do ser humano, nem de sua sociedade. Jesus sabe que tem que pagar muito caro ao tocar nas estruturas de poder. A incompreensão é um dos testes para a autenticidade de nossa missão. Os familiares acreditavam que Jesus estivesse fora de si, maluco; mais ainda: agora os líderes religiosos lançam o boato de que estava possuído por Belzebu, o chefe dos demônios, devido aos exorcismos que realizava.

A maneira mais eficiente dos inimigos tentarem abalar o prestígio de Jesus foi satanizar a sua obra. Jesus não seria apenas um louco digno de pena, mas um agente de Satanás. Jesus, porém, descobre suas más intenções. Aí aparece a forma como o mal se manifesta: na tentativa de perverter a intenção dos que fazem o bem. Porém o evangelista nos diz: com chegada do reino de Deus, com a chegada de Jesus, o mal vai ser derrotado. O bem vai vencer a maldade do coração humano e das estruturas sociais perversas. Jesus veio para isso: para destruir o reino do mal que destrói a dignidade do ser humano. E o demônio deveria ser detido e impedido de agir.

No mundo de hoje muitos procuram demonizar a atuação e o compromisso dos que são comprometidos com a justiça e a paz. Muitas vezes são tachados de demagogos, comunistas, pró-terroristas. A forma de descobrir o que é de Deus e o que não é já foi dada por Jesus: por seus frutos os conhecereis.

 

 

Este Evangelho nos leva a vivenciar a vida agitada de Jesus e de seus discípulos. Apresenta-nos Jesus sempre pronto a atender todos os que o procuravam. É tão grande sua preocupação em ouvir os menos favorecidos, que não lhe sobrava tempo, nem mesmo para comer.

Jesus não se limitava a falar. Seu testemunho, sua abnegação é um exemplo que deve ser imitado por nós que freqüentemente relutamos em abrir as nossas portas aos estranhos, a ouvir seus lamentos e a lutar por mudanças.

Observe que os apóstolos, os auxiliares de Jesus, também não têm tempo para cuidar de si próprios e, nem podem! Jesus não aceita o comodismo e exige que o atendimento seja carregado de amor e dedicação. Exige dedicação total ao próximo. Quem não se doa totalmente, não consegue permanecer ao lado de Jesus. É impossível trabalhar ao lado do Mestre sem renúncia e sacrifícios.

O seguidor de Jesus deve estar disposto a renunciar aos seus momentos de lazer e sacrificar seus horários de refeições para se colocar a serviço do Reino.  Certamente é preciso muita coragem para seguir Jesus. Nem sempre estamos dispostos a permitir mudanças em nossa rotina e em nossos hábitos diários.

Não pode haver intervalo, nem mesmo para um lanche, enquanto houver uma só pessoa para ser atendida. Nem pensar em parar enquanto um único irmão estiver necessitando de uma palavra. Precisamos imitar esse Mestre, exigente e amoroso, sempre pronto a ouvir, sempre disposto a perdoar. Deixa tudo de lado por amor.

No entanto, esse seu empenho, essa sua dedicação faz com que, até mesmo seus parentes e amigos o considerem um louco ou fora de si. Por isso, você discípulo, discípula de Jesus, não estranhe que pessoas de seu convívio venham a criticá-lo por se empenhar na árdua tarefa de fazer a vontade do Pai.

Lute sempre! Jesus não se intimida, assume a postura de um leão e esclarece que fazer a vontade de Deus é algo concreto e definido. É algo espontâneo que deve expressar a nossa livre escolha e a nossa liberdade. A vontade de Deus é fazer-nos entender que o que nos identifica, e nos une como irmãos, é muito mais do que o parentesco e a amizade, é muito mais do que laços de sangue.

O que nos une como família e como filhos do mesmo pai é o amor. Não basta morar na mesma casa, não basta viver sob o mesmo teto, é preciso fazer a vontade do Pai para ser chamado de irmão, de irmã e de mãe. Deus é Pai, é Amor e quer ver-nos transformados.

Vamos então transformar o nosso modo de agir e de pensar. Em nome da justiça e da paz vamos assumir a postura de um leão e, em nome da unidade, assumir a mansidão do cordeiro. Vamos viver o amor, essa é a vontade do Pai.

Jorge Lorente

 

 

Um pecado imperdoável?

A emoção é capaz de tirar a serenidade do raciocínio. A ira pode levar a assumir posições absurdas. Assim aconteceu com os inimigos de Jesus. Cegos adversários de sua presença e de seu poder, acusaram-no de expulsar o demônio pelo poder de Belzebu, o Príncipe dos demônios.

A palavra "Belzebu" - seria interessante recordar - vem do nome de um deus filisteu de Acaron, cujo nome era "Baal das moscas" - "Baal Zebub". A mesma palavra foi deformada pelos judeus, e ficou "Beelzebul", que significa "o senhor das esterqueiras". De qualquer maneira é um nome depreciativo com que os israelitas chamavam o chefe dos espíritos malígnos. Como está no Evangelho, os escribas lançaram em rosto a Jesus que Ele estaria expulsando os demônios pelo poder de Belzebu (cf. Mc. 3,23 ss.). Uma colocação simplesmente absurda, como Ihes procurou dizer Jesus: como é que o demônio pode expulsar o próprio demônio? Um reino dividido em si mesmo, se   destrói. Uma casa dividida contra si mesma, não pode permanecer. Mas Jesus foi mais adiante na sua argumentação. Usando de uma comparação muito viva, disse que "ninguém pode entrar na casa de um homem forte e roubar os seus pertences, se primeiro não o amarrar; só então poderá roubar a sua casa" (v. 27). Jesus é justamente esse "mais forte" que vem tomar conta do mundo e dele expulsar as potências do mal. João Batista havia falado desse "mais forte", do qual ele não era digno nem de desatar as correias de seus sapatos (cf. Mc. 17). Jesus é esse forte que viu Satanás venci- do, precipitando do céu como um relâmpago, quando os discípulos mandados por Ele começaram a anunciar o Evangelho (cf. Lc. 10,17). A verdade é que chegou o Reino de Deus e Jesus expulsa os demônios pelo poder de Deus (cf. Mt. 12,28).

Essa atitude de coração empedernido dos escribas deu a Jesus ocasião de dar uma severa lição: "Tudo será perdoado aos filhos dos homens, os pecados e todas as blasfêmias que tiverem proferido. Aquele, porém, que blasfemar contra o Espírito Santo, não terá remissão para sempre. Pelo contrário, é culpado de um pecado eterno" (Mc. 3,28-29). E o evangelista explica: "É porque eles haviam dito: 'um espírito imundo está nele' (v. 30). Jesus era evidentemente um santo, e eles o chamavam de demônio. Eram como aqueles dos quais disse Isaías: "Eles chamam o bem de mal e o mal de bem; trocam a luz em trevas e convertem o doce em amargo" (Is. 5,20).

Está aí o famoso problema dos pecados contra o Espírito Santo, que não têm perdão nem neste mundo nem no outro. Será que haverá mesmo pecados imperdoáveis? É claro, que, enquanto o homem está nesta vida, Deus não lhe recusará a sua misericórdia. O que é preciso, então, é entender o alcance das palavras de Jesus, quando fala de "pecado contra o Espírito Santo". Esse pecado é o daqueles que se colocam fora do campo do perdão, daqueles que rejeitam a força reconciliadora de Deus. É o pecado daqueles que com olhos abertos negam a evidência. O pecado dos que não vêem porque não querem ver. Para eles nenhum argumento vale, porque eles se colocam acima da verdade. É o pecado do próprio demônio, o pecado do orgulho diabólico. Santo Tomás ensina, na sua Suma Teológica, que nem Deus pode perdoar tal pecado, a não ser que Ele queira interferir com a força de um milagre excepcional (5. Th.,II-II,q.14,ad3).

Nossos velhos catecismos traziam uma lista de tais pecados: a presunção de se salvar sem merecimento; o desespero quanto à salvação; negar a verdade conhecida como tal; ter inveja da graça que Deus deu a outrem; a impenitência final (que é o propósito de não se arrepender); a obstinação no pecado.

Donde se vê que tais pecados se tornam intrinsecamente imperdoáveis, porque o pecador recusa o arrependimento. Então, só mesmo o milagre de Deus! E ninguém pode garantir que tal milagre vai acontecer para determinada pessoa.

padre Lucas de Paula Almeida, CM

 

 

"Quem é minha Mãe?"

Reiniciamos, no ano litúrgico, os domingos do tempo comum. A liturgia, através das leituras bíblicas, vai nos introduzindo nos Mistérios de Deus e iluminando a realidade humana.

No mundo em que vivemos, existem muitos males. Nasce espontânea a pergunta: "Qual é a sua origem?" Na busca de um responsável, somos levados a acusar alguém como culpado. A Bíblia tem uma resposta clara: a origem e a causa dessa situação é o pecado. O homem rompeu a sua relação amorosa com Deus e surgiu uma mudança essencial em sua vida.

Pretendeu libertar-se de Deus e tornou-se escravo de suas paixões e egoísmos.

A 1ª leitura fala da primeira família (Adão e Eva – Gn. 3,9-15)

Esses capítulos da Bíblia não querem mostrar como aconteceu no início... mas sim levar a refletir sobre o caos social em que viviam no tempo em que o autor sagrado escreveu. Deus fez todas as coisas perfeitas. Esse mundo conturbado não é o que Deus queria... então como deveria ser?

Qual é a causa e a origem de tudo isso? A "serpente" seduziu e continua seduzindo o homem para se apropriar dos frutos proibidos...

Consequência: surge a desarmonia na natureza, com os homens, com Deus...

- O homem não se encontra mais no lugar que lhe foi designado na criação.

  "Onde estás?" - Teve medo e se escondeu...

- Adão acusa Eva, Eva acusa a serpente...

- Sente-se "nu", despojado a dignidade com que foi criado...

- Abala a ordem da natureza: perde a fertilidade e produz espinhos e ervas daninhas. Mas a narrativa termina com uma mensagem de esperança: a luta entre a "serpente" e o homem continuará até o fim dos tempos. Mas a descendência da mulher conquistará a vitória final, esmagará a cabeça da "serpente".

O pecado é a origem do mal: rompeu a harmonia da criação de Deus. Para o autor sagrado, o paraíso terrestre é saudades ou esperança?

Na 2ª leitura, Paulo manifesta seu interesse pela comunidade de Corinto e expõe os motivos pelos quais sofre com paciência: a esperança da ressurreição gloriosa e a fé no prêmio que espera. (2Cor. 4,13-5,1)

O Evangelho fala da Família de Jesus (Mc. 3,20-35)

Os familiares de Jesus chegam e, de fora, mandam chamá-lo. Não entram; ele que deve sair: querem levá-lo de volta a Nazaré. Estão preocupados... julgam que ele "está fora de si".

E Jesus: "Quem é minha mãe? Quem são meus irmãos?" A verdadeira família de Jesus, a partir de agora, é formada pelos que estão ao redor dele e fazem a vontade de Deus.

Os doutores da lei pretendem desprestigiar o Mestre diante do Povo e o acusam de endemoniado. Jesus contesta com duas imagens: o reino dividido e uma família dividida: não se mantém de pé.

A nova família de Jesus.

A verdadeira família de Jesus, a partir de agora, é formada pelos que estão ao redor dele, numa atitude de companheiros na ação libertadora, e que fazem a vontade de Deus.

A relação mais intima com Jesus não se faz através do parentesco de sangue, mas na sintonia com sua prática libertadora. Só quem passa do estar fora para o estar dentro, com Jesus, é que será considerado irmão, irmão e mãe de Jesus.

Maria era "Mãe" duplamente: porque gerou a Jesus e porque mais do que ninguém soube fazer sempre a vontade de Deus.

O pecado nasce e é fruto do orgulho.

- Adão acusa Eva... Eva acusa a serpente...

- Os judeus não aceitaram o desfio da conversão: e acusaram o Cristo como um endemoniado...

- E nós?  Procuramos sempre uma desculpa...

Reconhecer o próprio erro, por escabroso que seja, é sempre mais dignificante e libertador do que repassá-lo injustamente a outros.

Quem acusa está querendo se esconder atrás da acusação.

Quanto esposo acusando a esposa e vice-versa.

Quantos filhos acusando os pais e vice-versa.

Quantos adultos acusando os jovens e quantos jovens acusando os adultos.

Ouvimos toda hora parente contra parente, vizinho contra vizinho, patrão contra empregado e empregado contra patrão.

Há acusações necessárias e justas.

Há acusações que devem ser feitas e que não merecem punição.

Mas, muitas vezes, a pessoa que acusa está se defendendo.

Está escondendo algo de errado em si mesmo.

A acusação nunca leva a nada e acaba com o dialogo entre as pessoas.

Há uma necessidade de busca de diálogo e não de acusação.

Quando na sociedade for instaurado o diálogo, acabarão as acusações.

Ninguém mais estará escondendo sua covardia com a acusação.

padre Antônio Geraldo Dalla Costa

 

 

Jesus estava "fora de si"?

Segunda leitura

Paulo nos anima com palavras inspiradas a respeito do nosso fim terreno e do nosso começo na vida celestial.  Ele chama o nosso corpo que com o tempo vai se deteriorando, de homem exterior, e a nossa alma de homem interior.  Com o avançar do tempo, o nosso corpo, homem exterior, vai ficando fraco, não produz mais muitos dos hormônios e nutrientes como magnésio, coenzima Q-10,etc, os quais precisam ser repostos com uma alimentação saudável ou com nutrientes adquiridos em farmácias de manipulação de confiança.  Quando somos jovens, podemos até abusar da gordura, pois o nosso coração forte consegue bombear o sangue mesmo que os vasos sanguíneos contenham gordura. À medida que envelhecemos, o endurecimentos das artérias impede que as mesmas  fiquem elásticas para passar o sangue mesmo com alguma obstrução, e isso obriga o nosso coração a aumentar a força para desempenhar sua função de bombeamento do sangue, o que resulta em alta pressão, a qual causa muitos males aos demais órgãos do homem exterior, ou do nosso corpo .  O sal por sua vez, aumenta a retenção de líquidos no organismo e o fluxo de sangue nas veias e artérias, obrigando o coração a aumentar  também a força de bombeamento, causando a famosa pressão alta. Isso sem falar no excesso de açúcar no sangue, na vida sedentária (falta de exercício) que também contribuem para o enfraquecimento geral entre outros males, do homem exterior.

Assim, para preservar o nosso corpo por mais algum tempo, precisamos tomar certos cuidados, principalmente: Reduzir a gordura, o sal, o açúcar, e fazer exercícios diários à medida do possível.

Feito isso, cuidando do corpo, ou do homem exterior como diz Paulo, só nos resta cuidar do homem interior, que é a nossa alma, a qual está acampada no nosso corpo, como se fosse uma tenda. Quando o corpo se separa da alma, ela deixará a tenda, e viaja sem levar nada, para a segunda parte da sua existência, que será infinita, e que poderá ser para o inferno ou para o Céu, dependendo das nossas escolhas, dependendo se durante a nossa vida, deixamos que Deus estivesse em nós, e por nós. Corpo e alma. Precisamos cuidar dos dois. Pois o certo é ter um corpo saudável para carregar uma alma santa.

Paulo nos lembra que enquanto o nosso homem exterior vai se definhando, o nosso homem interior, a nossa alma, vai a cada dia ficando mais  forte, mais jovem, mais santa, mais merecedora da glória eterna. Mas para isso precisamos cuidar bem dela, cuidar para valer do nosso homem interior.  E a receita resumida, é a seguinte: Leitura ou meditação da palavra, muita oração, caridade, e eucaristia se possível diária.

Paulo nos aconselha, no dizendo, que: o volume insignificante de uma tribulação momentânea, acarreta para nós uma glória incomensurável... Ou seja, os sofrimentos inevitáveis a que temos de enfrentar, servem como purificações dos nossos muitos pecados, nos preparando para merecer um dia a glória eterna. Por isso precisamos prestar mais atenção nas coisas invisíveis, (nossa alma, por exemplo), e não nos preocupar tanto com as aparências do nosso visível (nosso corpo). Pois tudo que é visível, nosso corpo, nossa cassa, nosso carro, etc., são passageiros. E aliás, é besteira acumular muitas coisas materiais, visíveis, pois tudo ficará aí.

Sua tenda, seu corpo está ficando feio? Não fique triste!  Deus lhe dará uma outra moradia no Céu muito mais bonita do que essa em que está morando agora! (o seu corpo).

Por isso, coragem! A velhice está instalada em você? A morte está se aproximando? Não fique aí parado(a) com carinha de triste, exigindo que todos tenham peninha de você! Procure depressa preparar a segunda parte da sua existência, cuidando bem da sua parte invisível. Depressa, pois o tempo passa o relógio nunca para. E outra coisa importante. Faça isso enquanto você está LÚCIDO(A)!  Pois é possível  perder a lucidez, poderá acontecer de não conhecer mais seus próprios filhos, e aí será tarde para se preparar para Deus!  Corra que a morte vem aí. Mexa-se enquanto é tempo!  Com calma, com a alegria de quem está de partida para O CÉU! Para aquele lugar que ninguém imaginou o quão maravilhoso Deus preparou para nós!

O tempo é agora. Não fique só desfrutando da juventude do seu corpo como se fosse viver aqui para sempre. Faça alguma coisa pela sua alma!  Pois não saberás o dia nem a hora...

 

Evangelho

Jesus estava tão empenhado na construção do Reino de Deus que nem tinha mais tempo de comer, de descansar, tempo de um minuto para si mesmo. E os discípulos também estavam nesse ritmo com Ele. Multidões o acompanhavam por toda a parte agradecidos pelas curas, ou  na procura de curas, e também para ouvir suas palavras de vida eterna.

O esforço concentrado de Jesus na sua missão era tão grande que os próprios familiares  acaram que Ele estava "fora de si".  E pensaram isso por que Jesus ao enfrentar os líderes judaicos, combatendo os seus abusos e injustiças, estava pondo a sua própria vida em risco. E na opinião deles, isso era uma loucura!  Bater de frente com as injustiças e com os injustos, era arriscado demais. Já os seus inimigos, os invejosos líderes religiosos, foram mais além, atribuindo a Jesus, uma possessão demoníaca. Que absurdo! Acharam que o Filho de Deus estava operando milagres pelo poder de satanás!

Os mestres da Lei ao dizer que Jesus atuava pelo poder do demônio, era uma afronta a divindade de Jesus. Era o mesmo que negar que o Espírito Santo estava com Jesus e agia nele. Portanto, isso é blasfemar, é pecar contra o Espírito Santo.

Na nossa vida real, cotidiana, também acontece coisas desse tipo. Se você é pouco inteligente, e não consegue vencer na vida, as pessoas, do seu relacionamento, e os próprios parentes, criticam, falam mal de você, considerando-o um incompetente, um zero a esquerda.  Porém, se você é inteligente, trabalhador, otimista, esforçado e vence na vida, haverá sempre alguém, até mesmo da própria família que poderá achar defeito na sua pessoa. Podem até admitir que você é inteligente, mas arrumam sempre um jeito de atribuir ao seu sucesso, a algo desonesto, ou coisa desse tipo. Portanto, você que está começando sua vida agora e com muito sucesso, não pense que será somente alegria, que todos vão reconhecer o seu devido valor, seu talento. Alguns sim. Porém, outros por inveja, vão procurar sempre um jeito de colocar defeitos na sua pessoa.

E Jesus, que tem resposta para tudo, rebateu a acusação injusta e absurda dos fariseus, de que Ele fazia milagres pelo poder do demônio. É verdade. Satanás seria muito burro se expulsassem demônios. Estaria agindo contra si mesmo.

Ao dizer que Jesus estaria agindo pelo poder do mal, os fariseus cometeram o maior pecado, negando o poder do Espírito Santo que agia na pessoa  de Jesus Cristo.

Cuidado! O pecado contra o Espírito Santo não será perdoado. Aquele e aquela que rejeitar o poder de Deus, manifestado na pessoa de Jesus principalmente contra o mal, está pecando contra o Espírito Santo. E para tal pecado, Jesus disse que não haverá perdão.  Ou seja. "...quem não crer já está condenado."

Sejamos nós mesmo. Procuremos fazer o que O Espírito de Deus nos orienta, e não percamos tempo com a inveja daqueles que nos acusam de coisas absurdas, para denegrir a nossa imagem diante daqueles que acreditam no nosso esforço no nosso talento, na nossa coragem de procurar fazer o bem e combater o mal, de procurar fazer a vontade do Pai.

José Salviano

 

 

“A família de Jesus”

Neste domingo da graça do Senhor reunimos em torno do altar para dar glória a todas as coisas boas recebidas e por bendizer Seu Santo nome. Jesus é a luz que indica o caminho a ser seguida com segurança a fim de sedimentar a fé como princípio da adesão ao seu projeto de vida e de comunidade. No passado, Jesus concebido pelo Espírito Santo, se fez homem e habitou entre os víveres. Sentiu todas as injustiças sofridas pelo seu povo, não desanimou e partiu para a construção de uma  grande família. Para tanto, todos aqueles que temem a Deus e seguem seus preceitos são verdadeiramente irmãos, primos, pais e mães de Jesus, pois, superou a ordem estabelecida do homem da cidade grande (Jerusalém) e abraçou a verdadeira justiça que não aceita o mal como divisor do bem.

Mas aqueles que não compactuavam com a prática de Jesus o julgava como doido ou possuído de demônio. Com estas palavras tentavam desmascarar o trabalho lindo do Mestre que não tinha medo de denunciar as desordens estabelecidas pelos aproveitadores. Entretanto, enquanto o Homem de Nazaré percorria as periferias das cidades e os centros urbanos levando a mensagem da desalienação, os mestres da Lei juntavam-se num complô falaciano na tentativa de prendê-Lo para calar a voz da libertação.

Porém, como Jesus estava cercado por pessoas que compreenderam a lição na ponta da língua dificilmente corria o risco de ser preso ou exilado para sua terra natal. Não que Jesus escondia entre a multidão, afinal não tinha como esconder porque era uma pessoa pública, contudo, a multidão o protegia dos rastejadores do poder econômico e do poder político.

Veja como uma pessoa foi capaz de colocar um pedregulho no calçado de muitos sem coração! Jesus fez isto muito bem. Sendo um homem pobre, nascido no meio dos miseráveis, sem instrução necessária para concorrer com os ditos “sabidos” do templo, deixou todos com a pulga atrás da orelha: ou aceita os ensinamentos novos, para um novo Reino da justiça, ou acabe com ele para não deixar crescer a fúria do povo. É sabido de todos que quando o povo tem instrução e conhecimento real do que está acontecendo, nada segura o avanço do mesmo sobre seus direitos. Por isso que os “mandam chuvas” de Jerusalém temiam a reação do povo se Jesus continuasse insistindo em ensiná-los os caminhos para superar os obstáculos.

A condenação do mal no meio do povo já é bem antiga. Em Gênesis encontramos uma passagem em que o Senhor ao visitar Adão e Eva percebeu que estavam escondendo dele. Como pode minhas criaturas ter vergonha de mim? Dei tudo que precisava! Ah, esqueci que tinha proibido de comer dos frutos de  certa árvore, e com certeza, infligiram a regra e comeram! Foi isto mesmo que aconteceu. Eva e Adão deixaram o mal penetrar em suas vidas, em seu habitat e colocou tudo a perder. Agora sente vergonha do Seu Senhor. O Senhor, então,  perguntou ao mal (a serpente): “Por que fizeste isso, serás maldita entre todos os animais domésticos e todos os animais selvagens! Rastearás sobre o ventre e comerás pó todos os dias da tua vida!”. O senhor condenou o mal que deu vida mal para o homem que criou com prazer para embelezar a natureza.

Todavia, perguntamos: quais os males que insistem em desviar as virtudes boas do homem? Olha que tem males em quantidade elevada como: a cobiça, o ódio, a traição, as injustiças. Estes males destoem à vida solidária na sociedade, acabam com a estrutura da família, plantam a divisão num grupo que vivia em harmonia. Estes males foram condenados pelo Senhor.

Mesmo tão distante no tempo da criação parece que foi ontem que aconteceu a chegada do mal no seio da humanidade. São tantos males que insistem em praguejar a vida com Deus que acabam criando um mal-estar com a doutrina da fé. São pessoas desviadas do caminho correto sob efeito das drogas licitas e ilícitas, permeadas no mundo da corrupção, das vantagens e nas elucubrações alienantes. São pessoas viciadas no mau  que atacam vidas inocentes sob práticas de abuso sexuais em menores, estupros, mortes violentas e desovas de corpos.  Ainda por cima encontramos o mal fazendo dicotomia nas famílias; pais maltratam filhos, filhos matam pais, avós, ou seja, ninguém mais entende o outro, tudo por causa do encardido posto no meio da vida do homem.

Já na segunda carta de são Paulo aos Coríntios, lemos um motivo de ser fiel ao Deus, quando Paulo escreve: “(...) não desanimamos. Mesmo se o nosso homem exterior se vai arruinando, o nosso homem interior, pelo contrário, vai-se renovando dia-a-dia”. Para tanto, faz se necessário acreditar  na presença real de Deus, sem Ele não consegue o homem interior se refazer por completo. Isto acontece por causa dos males que tentam a todo custo pleitear o discernimento do homem exterior, ou seja, o mal sobrepõe o homem interior com severidade, cegando-o, e induzindo a caminhos errados.  Entretanto, Paulo afirma que fazemos parte da família de Deus e, portanto, temos a hombridade de segui-lo em todos os aspectos.

Neste contexto do mal, assolando a família de Deus, aparece no Santo Evangelho. Surgem dois grupos tentando tirar Jesus da cena. Primeiro surge seus familiares que acreditavam que Ele estava louco, por contrariar os costumes, as leis vigentes. Assim os parentes consideraram a atitude de Jesus uma loucura. Na verdade, os parentes de Jesus querem evitar que Jesus “saísse do normal”, isto é, contrariar as leis e costumes da época  era anormal, o normal seria obedecer cegamente e sem crítica as leis severas e as tradições retrógradas.  Mas, a prática de Jesus não condizia com as injustiças e, portanto deveria sim ser criticada e renovada para o bom uso do povo de Deus.  Veja que ainda hoje acontece esta cena: quem ousa a querer fazer interpretação diferente nas tradições alienantes ou resolve colocar o dedo na ferida de alguns homens de colarinho branco, com certeza, sofrerá sansões severas ou até poderá desaparecer sem deixar rastros. Lamentável esta situação na sociedade do século XXI que se diz democrática!

Continuando a reflexão notemos o segundo grupo que foi a Cafarnaum com a missão de prender o Mestre, eram os doutores da Lei, homens instruídos que tinha o poder de decidir o que se pode ou o que não se pode fazer. Chegaram com a sentença debaixo das mangas: “Ele está possuído por Belzebu” e “É pelo príncipe dos demônios que ele expulsa os demônios”. Com isso acusaram Jesus de estar possuído pelo pior dos demônios e estava agindo em nome dele. Veja que blasfêmia, que torpeza.

Jesus sai deste imbróglio de forma magnífica: “como pode expulsar demônios pelo poder  do demônio é absurdo, pois se assim fosse, Satanás estaria destruindo a si mesmo”. Jesus sabiamente tinha como colocá-los na berlinda facilmente. Tentaram acusar Jesus de cura através do próprio mau. Isto é inconcebível. Do mesmo modo Jesus interpela: se um ladrão vai a casa de uma pessoa forte, primeiramente vai amarrá-lo, para dominá-lo, assim vai levar o que quiser, porém, se não amarar o dono da casa, com certeza encontrar dificuldade em agir. Contudo a cartada fulminante vem em seguida na afirmação de Jesus: “quem blasfemar contra o Espírito Santo nunca será perdoado, pois a culpa desse pecado dura para sempre”. Se quiserem acabar com Jesus, vai ter muito trabalho, pois o Espírito Santo, que é Deus, penetrou no Ser de Jesus e nenhum mal vai conseguir derrubar.

Os argumentos dos doutores da Lei se voltam contra si pelo descuido ou pela sede exagerada de eliminar a verdadeira justiça. Pois querendo impedir que Jesus realize sua prática nociva para o sistema que defendem, negam para si a possibilidade de entrar no Reino.

Portanto, a grande família de Jesus são todos aqueles que aderiram ao seu projeto e, por conseguinte, fizeram a vontade do Pai. Não que Jesus desconhecesse seus pais e irmãos, mas a grande família dava segurança e vivacidade no seu projeto.  Tanto que em sua casa, cercados de pessoas admiradas, não enxergou seus parentes fora da casa, mas quem estava dentro da casa eram pessoas compromissadas com seu projeto e assim a vontade de Deus pode ser realizada através dele. Amém!

diácono Claudinei M. Oliveira

 

 

Os imperdoáveis

Que significa blasfemar?

Sempre dizemos: Deus é bom e misericordioso, e tudo é capaz de perdoar. No entanto o próprio Jesus de Nazaré declarou: todos os pecados serão perdoados aos filhos dos homens, mesmo as suas blasfêmias; mas quem blasfemar contra o Espírito Santo jamais terá perdão. “Blasfêmia” é uma palavra ou frase injuriosa contra a fama do outro, e aplicada especialmente quando chama mentira o bem que vem de Deus (todo bem vem de Deus). É sinônimo de praga ou maldição segundo o dicionário. A atitude básica do blasfemador é a vontade de amaldiçoar o outro. É o contrário da palavra boa que visa respeitar, elogiar ou bendizer (falar bem) do outro, desejando bênção (não maldição ou praga) e “tudo de bom” como se diz numa bonita expressão brasileira. Ou como como se traduz em geral o Shalom, saudação judaica em que se deseja a paz acompanhada de felicidade, prosperidade, alegria, esperança, vida longa, saúde (=salvação), etc., etc.

“Quem blasfemar contra o Espírito Santo não terá perdão”

(ver texto do evangelho de Marcos 3,20-35). Analisemos o contexto dessa dura afirmação de Jesus de Nazaré.  Nazareno. Quando aceitou dirigir-se como qualquer um do povo judeu diante do pregador João, o Batista, ele é solenemente apresentado como o Filho de Deus. Apesar disso era rejeitado tanto por parentes como pelos intelectuais (escribas) e outros líderes do povo. Desde o começo (v. 40 dias no deserto e batismo de João no rio Jordão) ele tinha o Espírito como força interior que inundava todas as suas palavras e todos os seus gestos. No entanto seus familiares o consideravam louco ao vê-lo cercado pela multidão que nem lhe davam tempo de almoçar ou lanchar.

 Ora, toda os gestos e palavras do Mestre eram do Bem, livrando sobretudo os mais fracos da ameaça dos poderosos, dando-lhes coragem, saúde, ânimo e integrando-os na fraternidade desejada por Deus. Estes eram os Sinais (que nós em geral chamamos de “milagres”) do novo “Reino de Deus” que anunciava. Viram Jesus dizendo e fazendo o bem, mas sem reconhecer que com ele ou nele estava o Espírito. Isso equivalia a negar a presença do Espírito. Essa rejeição da presença do Criador nas “evidências” ou sinais do Bem e do Reino constituía ofensa contra a inocência divina. E torna-se blasfêmia por atribuir seu poder à figura, não de Deus que une e reúne, mas de quem divide (dia-bolos, também conhecido pelo nome de “imperador (príncipe) do mal”. A pior praga que se pode rogar é chamar o bem de mal. Praguejaram chamando o Espírito que agia em Jesus de “Belzebú”. Aí estava o “pecado contra o Espírito Santo“.

Não há perdão para quem não aceita o Bem que está à sua frente, a dois palmos do seu nariz. Não ter perdão significa não conseguir salvação ( quem não crer já está condenado, não acha sua salvação – cf.Marcos 16,16 – quem não crê já está condenado (...) Este é o julgamento: a luz veio ao mundo, mas os homens amaram mais as trevas do que a luz, pois as suas obras eram más – cf. João 3,18-19). Não é Deus que condena, é uma autocondenação: simplesmente não há como salvar quem escolhe fechar os olhos para não enxergar o que apontam os “Sinais”, quem prefere as “trevas” escolhendo fazer o mal.

Na leitura de Gênesis vemos outra parábola sobre o significado do termo “pecado”. O culpado (na figura de Adão) não pode nem “escutar os passos” daquele que gostava de passear com o ser humano à tardinha pelo jardim. Adão agora se esconde e tem medo de seu melhor amigo e criador. Isso é o amar mais a escuridão do que a luz. É, como dizemos, querer tapar o sol com a peneira.

O contrário da blasfêmia

Lembremos que Jesus pedia a todos para “crer”, confiar, olhar para seu rosto humano (nele se vê o próprio rosto de Deus – Felipe quem me vê, vê o Pai, cf.discursos da última ceia). Era esse olhar confiante (crer) que ele pedia às pessoas procurando cura. Tamanha fé Jesus encontrou num romano e esse Crer deve ser perceber os Sinais – os dois exemplos: Lucas 7. Era a pergunta feita aos cegos que viviam “à beira do caminho” e à margem da sociedade (idem, cap.18). Foram os desprezados samaritanos e os “misturados”, quase pagãos, provenientes da Galileia (cheia de “estrangeiros”) os que acreditaram e acolheram os Sinais (cf. João 4). O mesmo “Crer” era pedido aos discípulos. Veja-se o diálogo – típico – com o cego de nascença em João 9, onde também se apresenta a reação de incredulidade – típica – na figura dos fariseus, “cegos” que não querem ver. O mesmo Crer ele pede após superar a morte pela ressurreição (por ex.: Tomé e os dois “desanimados” que voltavam para Emaús).

Cristãos e não cristãos: navegar é preciso, acreditar é preciso

No segundo texto (2coríntios,cap.4) lemos o que escreveu Paulo de Tarso: Possuindo o mesmo espírito de confiança/fé, como está escrito (cf.salmo116,10): “eu guardei confiança, então falei” também nós CREMOS e por isso falamos sabendo que aquele que despertou da morte para a vida o Senhor Jesus também nos chamará da morte para a vida com ele.

 Recordemos a reflexão do teólogo e filósofo Agostinho de Hipona (séc.V), numa de sua obras (sobre o Batismo, polemizando contra o movimento donatista de seu tempo): no final do Livro 5 (cf. nº 27.38) ele conclui com a interpretação de expressões contidas no Cântico dos Cânticos aplicando-as Igreja de Cristo: “Há os que ainda vivem na maldade, nas heresias e superstições dos pagãos; e, todavia, também entre eles o Senhor sabe quem são os seus. Com efeito, na indescritível ciência divina, muitos que parecem fora, estão dentro, e muitos que parecem dentro, estão fora”.

Essa fé, esse crer, é o que Deus pede a todo ser humano (como discursou Pedro em Atos 10: em toda nação Deus se comprar com quem o reverencia e faz o que é justo). Esse acreditar é não ficar fechado aos Sinais do Espírito no mundo, e é proposto a todos. Mas, de modo particular aos cristãos, aos batizados, aos que assumem Crer.

O resto é blasfêmia. A que escancara os portões da corrupção e da guerra. E induz ao desprezo pela vida, seja nos barcos que afundam milhares de refugiados e migrantes, seja na roça ou nas cidades de nosso país.

prof. Fernando Soares Moreira

 

 

São Marcos ao narrar o episódio que se deu em Cafarnaum envolvendo os parentes de Jesus legou lições preciosas (Mc. 3,31-35). É de se notar que nos versículos 31 e 32 ele sublinha que a Mãe de Jesus e seus primos estavam la fora. Isto, porém, não no sentido exterior, mas no sentido de que a seus olhos Jesus “estava fora de si”. As manifestações populares acerca do Mestre divino certamente tinham chegado a Nazaré que ficava a 30 quilômetros de Cafarnaum. Vieram para confortar a Cristo que se entregava a uma pregação contínua, doutrinando as multidões que a Ele acorriam. Grande a celebridade do homem de Nazaré que curava os doentes e expulsava demônios.

Para os nazarenos sua árdua conduta era anormal, até inconcebível. Neste sentido é que estavam fora do sentido de sua missão evangelizadora e achavam que Ele ultrapassava os limites do bom senso. A família de Jesus O queria enquadrar nos seus moldes humanos, mas foi Jesus quem os colocou dentro de seu projeto salvador, de sua nova mensagem. Ele colocaria todos que aceitassem sua Boa Nova no Reino de Deus, bem longe do que ensinavam os escribas e fariseus que, na prática, não passavam de ateus contumazes. Ele viera do céu à terra para desinstalar os acomodados em falsas seguranças, praticando uma religião meramente exterior. Ele ensinaria a dizer ao Pai: “Seja feita a vossa vontade”. Daí então sua indagação ao lhe dizerem que seus parentes estavam fora e que O queriam ver: “Quem é minha mãe, quem são meus irmãos”? Na sua resposta o grande ensinamento: “Quem faz a vontade de Deus, esse é para mim, irmão, irmã e mãe”. Para sua mãe Maria, que ali estava, isto já era uma realidade sublime. Sua adesão à obra redentora fora completa, bem expressa no SIM dado ao arcanjo Gabriel. Foi uma aderência perfeita em todos os detalhes de sua vida. Isto se culminaria um dia lá no Calvário. Ali Jesus, contemplando os sofrimentos desta mãe admirável, dirá a João: “Eis aí a tua mãe”. O agir de Deus, sua vontade, é imprevisível, inesperada. Não pode ser encerrada nos esquemas humanos.

Para Maria, como para todos os cristãos, a única verdade é que se deve estar disposto a acatar os desígnios divinos, nada mais nem nada menos. Para isto é preciso estar unido ao Espírito Santo e escutar as inspirações que ele coloca no coração de cada um. Alguns são chamados a fazer grandes coisas pela evangelização. Outros a se santificarem em pequeninas ações. Muitos se santificam nos caminhos dos sofrimentos e das aflições. Tudo, porém, tem o mesmo valor. O principal é fazer com amor o que Deus quer de cada um. A obediência a Deus é o fundamento da vida cristã animada pelo Espírito Santo. Na Bíblia a vontade, seja a de Deus, do anjo ou do homem, é antes de tudo a faculdade de se deixar atrair pelo bem e o escolher acima de tudo. Assim sendo, a raiz da vontade é um amor, uma atração e não uma mera autodeterminação. Em Deus a vontade é esta atração poderosa pela qual Ele vive a plenitude simples e essencial da Bondade sem limites que Ele é. Com relação a suas criaturas, a vontade de Deus é seu desejo de lhes comunicar, de fazê-las partilhar, segundo a capacidade de cada uma, algo de sua própria bondade infinita. É esta sabedoria plena de amor pela qual Deus, em seu Filho, quer atrair a Ele todos os homens. Ele chama os homens e as mulheres a serem seus filhos adotivos em Cristo pelo Espírito Santo. Não se trata de um poder coercitivo que ameaça ou inquieta. Ao ser racional cabe uma resposta de amor. Trata-se da assimilação vital, pessoal dessa orientação para a única bondade que é Deus através da contingência e da multiplicidade das atividades cotidianas.

Desta forma, os dez mandamentos são vistos como caminho de felicidade traçado pelo Bem Supremo. Eis porque São Paulo resumiu tudo ao dizer: “Esta é a vontade de Deus a vossa santificação” (1Tm. 4,3). É que a obediência a Deus leva à atenção às realidades mais simples e diversas em suas singularidades lá onde a Providência colocou cada um. Quem penetra fundo na paternidade divina, cuja vontade se expressa no Decálogo, na voz da própria consciência, nos deveres familiares, profissionais e sociais, atento sempre às inspirações divinas, persevera custe o que custar. Eis aí a mensagem dada por Cristo em Cafarnaum.

 

 

Blasfêmia contra o Espírito Santo

Transparente e incisiva a declaração de Cristo: “Quem blasfemar contra o Espírito Santo jamais alcançará perdão, mas será réu de pecado eterno” (Mc. 3,28). Cumpre então saber exatamente em que consiste este pecado contra o Espírito Santo. Segundo notáveis teólogos, esta falta, que não conhece a anistia divina, se trata da negação voluntária da misericórdia de Deus. Este é providência, é misericordioso, bondade infinita. No dizer de São João “Deus é amor” (1Jo 4,8). Assim sendo Ele é clemência, comiseração e perdoa sempre. Na medida em que o ser racional se lança nas mãos desta compaixão sem limites, arrependido de suas faltas, abre as portas ao perdão, à remissão de suas culpas. O Todo-Poderoso Senhor pode livrar o homem do domínio do demônio e das consequências de suas invectivas que levam ao mal. Entretanto aquele que cerra seu coração à ternura divina, fechando os olhos à evidência de que Deus o ama e recusa seu indulto, não quer ser perdoado, é lógico que esta a pessoa se torna réu de um pecado sem absolvição. É aquele que se tranca, se enclausura em seu pecado. Eis aí a blasfêmia contra o Espírito Santo. Trata-se da negação do amor de Deus numa afirmação pessoal de que Ele é menor que o poder de satanás, que leva à desobediência ao Ser Supremo. O domínio do mal se torna então mais forte do que a força do bem. Quem assim procede não pode ser perdoado porque recusa abertamente o perdão de Deus, usando erroneamente da prerrogativa da liberdade humana. Deus jamais se impõe, Ele se propõe. Ele quer a felicidade do ser humano e sua salvação eterna, mas respeita o livre arbítrio, a faculdade de cada um se decidir ou agir segundo a própria determinação. Deus não pode obrigar a ninguém a amá-lo O amor só pode ser livre, um elã espontâneo, jubiloso que flui lá de dentro de cada um. Assim sendo, o pecado contra o Espírito Santo é o pecado contra a evidência do amor de Deus, uma afronta a sua desvelo sem limites. Triste a situação daquele que recusa abertamente ser perdoado pelo seu Senhor. O homem coloca uma barreira instransponível para a ação divina. Recusa à luz de uma dileção eterna do Criador que não pode perdoar a força. Ele não introduz ninguém no seu Reino a contra gosto de quem lá não quer entrar. Este pecado é contra o Espírito Santo porque Ele é o amor eterno, consubstancial entre o Pai e o Filho. Ele é a luz interior que faz o ser racional entrever o mistério da Trindade Santa. Desprezar voluntariamente esta luz interior é, de fato, uma blasfêmia que não pode ser perdoada. É o cúmulo de um desespero que não tem justificativa alguma. Todas estas explicações conduzem, porém a um apelo a que cada um mergulhe sua vida no oceano imenso do amor de Deus. É preciso escutar sempre o Espírito Santo. A desesperança, porém, bloqueia a percepção deste apelo. Jamais blasfemar contra o amor divino! É preciso, entretanto, controlar tudo que impede um maior diálogo com Deus, Muitos dão mais tempo à internet, às redes da televisão e a outros meios de comunicação do que a seu Senhor que bate às portas do coração para ajudar, para consolar.  É preciso fazer a experiência do perdão de Deus e isto torna o cristão mais forte diante da passividade e dos temores. Deus oferece coragem perante as dificuldades e firma a fidelidade à verdade. É necessário pedir ao Espírito Santo perseverança no seu amor, abrindo as portas do próprio coração a suas luzes. Estas mostrarão a imensidade da misericórdia divina. Então se compreenderá que quem faz a vontade de Deus e nunca blasfema contra o Espírito Santo estará salvo e nunca será réu de pecado eterno. Em síntese, para que não haja o perigo do pecado contra o Espírito Santo, blasfêmia intolerável, é preciso uma luta contínua, perseverante contra o desânimo. Esta luta perdura a vida toda. A salvação eterna começa com esforços sustentados pela graça e é, deste modo, uma operação divina. O cristão deve ser corajoso e fiel nunca perdendo a esperança. Coloca toda sua confiança em Deus, sabedor de que o reino do céu só se obtém com a violência contras as insídias satânicas que levam à revolta contra o Espírito Santo. Assim, disto resulta fatalmente a total adesão a este Deus numa identificação completa a Cristo como preconiza o próprio Mestre Divino, pois quem assim procede é para Ele “irmão, irmã e mãe” O exemplo foi dado por Maria sempre submissa aos desígnios de Deus. Imitar o “sim” da Mãe de Jesus é nunca trilhar os caminhos infelizes da desesperação. Além disto, é preciso em tudo imitar a Jesus que afirmou: “O meu alimento é fazer a vontade de meu Pai que está nos céus” (Jo 4,34).

 

 

Fazer a vontade de Deus

Em Cafarnaum Jesus deixou uma de suas marcantes mensagens: “Quem faz a vontade de Deus esse é meu irmão minha irmã e minha mãe” (Mc. 3,35). Deus e homem verdadeiro, enquanto homem pôde solenemente asseverar: “Não procuro fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jo 5,30). A exemplo de Cristo cumpre sempre realizar o que Deus quer. Já Davi assim se expressava: “Eu quero fazer tua vontade, meu Deus; e tua lei está no fundo do meu coração” (Sl. 40,8).

O salmista desejava que a verdade estivesse no seu íntimo e, por isto, ele pedia ao Todo-Poderoso: “Faz penetrar a sabedoria dentro de mim” (Sl. 51,6). Sem as luzes do Espírito Santo é impossível discernir o que Deus deseja de cada um em particular, dado que para todos ele declarou a sua lei expressa no Decálogo, a qual se acha, igualmente, impressa na consciência de todo ser humano. Como o ser racional é frágil e sua inteligência está obnubilada por força do pecado original, eis o pedido que está no salmo 143: “Ensina-me a fazer tua vontade; porque tu és o meu Deus. É tão bom o teu espírito que ele me conduza por vereda plana” (Sl. 143,10). Assim procedem os que amam o Senhor e almejam fazer em tudo seu santo desígnio. Portanto, submissão e obediência ao Ser Supremo devem caracterizar o verdadeiro imitador de Jesus. O cristão deve estar consciente de que não há nenhuma alegria profunda, nenhuma felicidade perfeita longe de tudo que a sabedoria divina traceja para cada um.

O próprio Deus assim se expressou através do profeta Isaías: “Ai de vós, filhos rebeldes, diz o Senhor, que executais intentos que não vos sugeri e que estreitais ligas que eu não inspirei! (Is. 30,1) Fazer a própria vontade é ser cativo do mal, pois só é livre quem adere inteiramente a Deus. Impõe-se então uma questão: Como saber se estamos fazendo sempre a vontade do Senhor? A resposta é dada por são Paulo que assim escreveu aos Colossenses: “Não cessamos de orar por vós e de pedir que vos seja concedida a plenitude do conhecimento da vontade de Deus com toda a sabedoria e inteligência espiritual. Assim podereis comportar-vos de maneira digna do Senhor e agradar-lhe inteiramente, produzindo frutos de toda a espécie de boas obras e progredindo no conhecimento de Deus” (1Cl. 9,10). É que Deus sempre manifestou e patenteou sua vontade, a questão é saber se nós queremos, de fato, fazer o que ele deseja, mas isto com toda sinceridade. Conhecer esta vontade é penetrar fundo nas mensagens bíblicas, sobretudo em tudo que Jesus ensinou. Lemos na Carta aos Hebreus: “Muitas vezes e de diversos modos outrora falou Deus aos nossos pais pelos profetas. Ultimamente nos falou por seu Filho, que constituiu herdeiro universal, pelo qual criou todas as coisas” (Hb. 1,1-2).

São Paulo, que perscrutou as Escrituras com rara acuidade, resumiu numa frase esplendorosa o que é estar de acordo com o Criador de tudo: “Esta é a vontade de Deus a vossa santificação” (1Ts. 4,3). Esta consiste na união com Cristo que afirmou: “O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra” (Jo 4,34). Eis por que o Concílio Vaticano II doutrinou: “Por causa de sua mais íntima união com Cristo, os bem-aventurados consolidam toda a Igreja na santidade” (LG 49). Trata-se, pois, a santidade de uma realidade vivida deliberadamente, que penetra a existência da pessoa justamente porque, com a riqueza do seu ser e com a espontaneidade de sua vontade livre, se une a Deus entregando-se a ele com o calor do amor. É o caminho seguro que conduz à salvação eterna. Deste modo, sendo a vontade de Deus a santificação do cristão a santidade de vida significa, em conseqüência, a total entrega a Deus.

A incorporação em Cristo obriga o batizado a estar totalmente disposto ao sacrifício mais sublime do amor a Deus e ao próximo. Todo cristão por ser cristão é chamado, portanto, a ser santo no sentido estrito da palavra, fazendo, como Jesus, em tudo, o que Deus quer, como está expresso na Sua palavra revelada a qual se encontra nas Escrituras e nas inspirações contínuas do Espírito Santo. Tal deve ser, de fato, a união do cristão com o divino Redentor, que, fazendo sempre a vontade divina, ele se torna, realmente, seu irmão, sua irmã, sua mãe, ou seja, ocorre uma total inserção nele. A recíproca é verdadeira: quem não observa os Mandamentos se encontra, portanto, inteiramente longe seu Salvador, o Senhor Jesus.

cônego José Geraldo Vidigal de Carvalho

 

 

A liberdade diante do bem e do mal

Os textos deste domingo pretendem ensinar que a raiz de todos os males não está em Deus, mas no fato da humanidade prescindir de Deus e abdicar de construir o mundo a partir de critérios de justiça, paz e solidariedade. O egoísmo e a auto-suficiência são caminhos que conduzem a humanidade à desgraça, ao sofrimento e à morte.

O mistério do mal é o que provoca o maior questionamento na cabeça dos homens e mulheres em todos os tempos. Este tempo não podia ser exceção. É normal que assim seja, ninguém deseja o mal, mas pouco fazemos para o evitar. Ele existe por todo lado.

O mal resulta das escolhas erradas, do orgulho, do egoísmo e da ganância. O viver orgulhosamente só, mais tarde ou mais cedo conduz à tragédia, porque os caminhos humanos sem Deus e sem o amor, constroem enormes cidades de egoísmo, de injustiças, de pobreza, de marginais, de prepotência, de sofrimento, de desgraças de toda a ordem…

Os textos da missa deste domingo ensinam também que deixar Deus de lado e caminhar fora do Seu projeto de salvação, conduz ao confronto, à hostilidade com os outros. A seguir emerge a injustiça, a exploração, a insegurança, a desconfiança, a pobreza, a violência. Os outros deixam de ser irmãos, para passarem a ser ameaças ao bem-estar e aos interesses pessoais. Tudo isto conduz a guerras terríveis, que cerceiam a felicidade, a alegria e a festa que Deus deseja para todos.

Daqui advém a inimizade com todos e com o resto da criação. A natureza deixa de ser «casa comum» que Deus ofereceu a todos como espaço de vida e de felicidade, para se tornar um objeto que se explora egoisticamente sem olhar à sua grandeza, às suas regras, à sua beleza e à sua dignidade. Por isso, todos estamos pagando seriamente pelos atentados ecológicos e a exploração desmedida da natureza que a ganância humana produziu.

São Paulo apresenta a convicção de que será melhor nos concentrarmos nas «coisas invisíveis» que são eternas ao invés de estarmos fixados nas «coisas visíveis» que são passageiras. É muito difícil de se aceitar isto, mas pensando bem, o apóstolo tem toda a razão. Mas, acreditemos que Deus, apesar de todas as nossas limitações, também nos ressuscitará para vida eterna, exatamente como ressuscitou Jesus Cristo.

Jesus no Evangelho acerca-se da Galileia para cumprir a Sua missão de anunciar o Reino. A onda de contestação começa a crescer, os líderes judaicos políticos e religiosos começam a opor-se à novidade do Reino. As polêmicas e controvérsias marcam esta fase da caminhada de Jesus. Nada que não seja inspirador para nós se nos empenharmos na luta pela justiça, pela verdade e pelo bem para todos. Não tenhamos medo.

padre José Luís Rodrigues

 

 

Nos tornamos parentes íntimos de Jesus se obedecermos a deus

O maior desafio que enfrentamos nesta vida é descobrirmos qual é o plano de Deus em relação a nossa vida e termos a coragem de concretizar seu plano dentro da realidade que vivemos.

Aos poucos devemos descobrir que somos amigos de Jesus. Os amigos partilham suas vidas. Um ensina ao outro aquilo que sabe. Jesus tem a sabedoria divina e nos indica o que devemos fazer para sermos mais felizes. O diálogo (oração) com Jesus vai nos mostrando uma nova realidade que nos leva a praticarmos o bem dentro de um mundo movido pelo egoísmo e pela vaidade.

 

Jesus falou isso, porque diziam: “Ele está possuído por um espírito mau”. Nisso chegaram sua mãe e seus irmãos. Eles ficaram do lado de fora e mandaram chamá-lo. Havia uma multidão sentada ao redor dele. Então lhe disseram: “Tua mãe e teus irmãos estão lá fora à tua procura”. Ele respondeu:

“Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos?” E olhando para os que estavam sentados ao seu redor, disse: “Aqui estão minha mãe e meus irmãos. Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”.

“Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos?” E olhando para os que estavam sentados ao seu redor, disse: “Aqui estão minha mãe e meus irmãos. Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”.

O inimigo de Deus é astuto e sabe que um reino dividido é fácil de ser dominado. Percebemos na natureza que um animal quando se afasta do rebanho se torna uma preza fácil para o seu predador. Esta realidade da divisão presente no mundo moderno é algo de grande seriedade. O problema ecológico já reflete o desrespeito do ser humano as coisas criadas e ao seu Criador.

O plano de Deus manifestado em Jesus Cristo é um plano de unidade. O Reino de Deus é um desafio constante, pois nele não há egoísmo e vaidade tão valorizados pela sociedade. A situação da humanidade tem base em uma grande mentira: o ser humano pode produzir sua própria felicidade longe do Dínamo responsável por tudo que é Deus. A iniquidade reina na filosofia atual. A religião deve servir ao que preciso e eu não posso servir a religião. O verdadeiro cristianismo é um grande desafio, pois se resume em uma luta contra nós mesmos para cumprirmos com a vontade de Deus.

O nosso desafio é obedecer a Deus e nos tornarmos íntimos de Jesus. Chegarmos às 24 horas de contato com o Senhor impedindo o efeito das tentações em nossa vida. Cada tentação vencida é uma graça recebida. Saímos do egoísmo para o altruísmo que nos dá a verdadeira realização. Não adianta termos tudo e não termos nada. A alegria da pessoa humana está na partilha de sua existência com os demais.

Só o amor pode construir algo em nossas vidas. Somos imitadores de Jesus Cristo através do nosso batismo. Queremos ser como ele no meio do mundo.

“Senhor Jesus queremos ser teus amigos e

ajudarmos a todos a serem mais felizes”.

padre Giribone - OMIVICAPE

 

 

Uma casa dividida…

Os generais romanos tinham um lema: “dividir para imperar”. Eles sabiam que um grupo social unido e coeso dificilmente seria vencido. Por isso, tratavam de provocar divisões no adversário para enfraquecê-lo.

Também Jesus de Nazaré conhecia essa realidade. Via seu povo dividido em grupos religiosos irreconciliáveis (fariseus e saduceus), partidos opostos (anti-romanos e colaboracionistas, como os publicanos). Ele sabia que a divisão mina a sociedade, racha as famílias, corrói as comunidades.

É bem claro o princípio lembrado neste Evangelho: uma casa dividida não tem futuro. Se os que moram na mesma casa não reúnem suas forças, acabarão arruinados. Qualquer grupo humano – famílias, equipes de trabalho, empresas, comunidades e Institutos religiosos – estão sujeitos a esta lei. As congregações possuem seu carisma como princípio unificador. As empresas adoram seus objetivos como traço de união. A família precisa viver o amor como a ponte que a todos aproxima, como argamassa que reúne as pedras da s construção.

Mesmo em assunto de menor importância, como o futebol, o senso coletivo deve prevalecer sobre as firulas e as vaidades individuais. Tanto que os norte-americanos chamam esse esporte de “soccer”, acentuando seu lado “social” de interação e cooperação. A equipe treina em conjunto, dorme na mesma concentração e, natural, disputa a partida ao mesmo tempo, vestindo a mesma camisa. Se vencem, todos comemoram; se perdem, todos se sentem humilhados.

Em preparação ao Ano da fé, proposto pelo papa Bento XVI, e que começará em outubro próximo, devemos lembrar que somos herdeiros da mesma fé apostólica. Tal como os atletas de uma equipe de revezamento, recebemos das gerações anteriores um “bastão”, que é o depósito da fé, e não podemos deixar que ele caia no esquecimento. Os mistérios da fé apostólica, que repetimos no símbolo – o “Creio” – em cada eucaristia, são o eixo de nossa unidade. Todo desvio dessa herança acaba por gerar a fratura e a discórdia, gerando facções e partidos.

Que posso fazer para estreitar os laços de minha família?

Antônio Carlos Santini

 

 

O evangelho de Marcos revela a nova relação entre o povo e Deus, que se estabelece através de Jesus. O que se vê é uma grande multidão de excluídos (ochlós), seja dentre os gentios, seja da dispersão do judaísmo, que se reúne em torno da casa onde se encontra Jesus. Esta multidão se diferencia do “pequeno resto”, estabelecido na sinagoga e no Templo, gozando de privilégios e isolado da maioria do povo, considerada pecadora por infringir qualquer um dos 613 mandamentos da Lei, tendo como protótipo Eva, que infringiu a proibição do Criador (primeira leitura).

Com Jesus temos uma nova realidade, destacada pelos evangelhos ao mencionarem cento e quarenta e nove vezes a “multidão” que se relaciona com Jesus.

Esta relação é uma característica muito mais marcante da índole e da personalidade de Jesus do que as narrativas de seus milagres possam significar. É uma chave de leitura para compreendermos a presença de Jesus no mundo, em relação com todos os povos e culturas, não se limitando a grupos religiosos específicos.

A partir de uma referência à sua família carnal, Jesus afirma: “Quem é minha mãe? Quem são meus irmãos?… Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”. É a união em torno da prática da vontade de Deus que cria os novos laços familiares no Reino. Viver o amor, o serviço, a partilha, a misericórdia, solidariamente com os mais necessitados, é inserir-se na família de Jesus, quer seja por laços consangüíneos, quer não, certos da comunhão de vida eterna com Jesus (segunda leitura).Jesus, com sua ação e sua palavra, desafia os costumes da época. Sua forma de agir se converte em uma ameaça para a autoridade política do momento; transforma-se em blasfêmia para o aparato religioso e se constitui em verdadeira vergonha para os mais próximos dele e até para os de sua família.

Hoje vemos como a família de Jesus o busca, com o único desejo de deter sua ação no meio daquela sociedade. Jesus não é compreendido pelas pessoas de seu tempo, tampouco pela sua família. Ele, que era um líder social e religioso, vive na própria carne a rejeição e a incompreensão dos seus.

As pessoas estão tão conformadas com a realidade em que vivem que não se imaginam em algo novo, não querem conhecer novas realidades, nem de Deus nem do ser humano, nem de sua sociedade.

Jesus sabe que tem que pagar muito caro ao tocar nas estruturas de poder. A incompreensão é um dos testes para a autenticidade de nossa missão

Reflexão apostólica

No mundo de hoje muitos procuram demonizar a atuação e o compromisso dos que são comprometidos com a justiça e a paz. Muitas vezes são tachados de demagogos, comunistas, pró-terroristas. A forma de descobrir o que é de Deus e o que não é já foi dada por Jesus: por seus frutos os conhecereis.Antes os automóveis eram movidos apenas por gasolina. Depois surgiu o carro movido  álcool. E como a tecnologia era insuficiente, esses carros ficaram desvalorizados. Hoje, os carros são flexíveis. Isto é, tanto podem ser movidos a álcool como a gasolina.

E nós? Qual o combustível que nos move?

Muitos são movidos pelo dinheiro, pelo lucro , pelo acúmulo da riqueza. Outros e outras são estimulados principalmente pelo prazer sexual.

Ainda outros que pautaram suas vidas pela intelectualidade, uns diriam, pelo ascetismo puro, isto é, uma ideologia, ou auto-disciplina sem seguir necessariamente, os ensinamentos de Deus.

Outros levam a vida toda dedicando-se à música, a arte, à poesia etc., que são os motivos de suas existências. Nada mais os preocupa.

Até sabem de Deus, de Jesus, da vida eterna, mais não dão um passo em direção a ela. Quando a solidão e o tédio lhes atacam, recorrem à embriaguês, e amanhã depois da ressaca, será outro dia…

Assim, vivem sem nenhum sentido porque suas vidas não têm um sentido verdadeiro… Uma razão de ser, um combustível que não falha!

Constantemente blasfemam contra Deus e contra seus representantes na Terra. Cuidado! Todos os pecados serão perdoados. Menos os pecados contra o Espírito Santo!Felizmente, existem e sempre existirão, aqueles que seguem os passos de Jesus, Aqueles que bebem da fonte da água viva, que é o seu principal combustível infalível.

Aqueles e aquelas que vivem para servir a Deus, e ao Reino, numa doação e numa entrega parcial, ou total de suas vidas terenas.

Você pertence a este grupo. Se está lendo este texto até aqui, com certeza é um deles! Parabéns! Multiplique-se. Leve estes valores eternos para outros irmãos. Assim, estará construindo um tesouro no Céu.Jesus foi acusado pelos mestres da Lei de estar movido por Belzebu… Já os seus parentes acharam que Ele estava fora de si!

Não era nada disso! A força do Espírito de Deus que estava nele e com Ele era tão forte, que pela sua determinação em alcançar os objetivos do Plano do Pai, a sua concentração era tamanha, que até dava a impressão que Ele não estava se comportando como todo mundo fazia.

Jesus agia pela ação do Espírito Santo. Ou seja, Ele era movido não por Belzebu, mais pela graça de Deus Pai que o enviou ao mundo.

Os apóstolos também faziam coisas incríveis, muitos milagres, levaram muitos a abraçar a fé, era o início da Igreja, o começo da comunidade universal iniciada por Jesus Cristo.

Os apóstolos eram movidos pela fé inabalável, e pela graça de Deus presente em suas caminhadas diariamente.

Como sabemos, a nossa vida não termina com a nossa morte. Assim, se o combustível que impulsiona nossas ações é formado por coisas puramente passageiras, das quais não levaremos nada para a segunda parte da nossa existência, mais muito pelo contrário, tais coisas podem até destruir a nossa esperança de um dia estar na vida eterna, certamente estamos iludidos, estamos no caminho errado!

É muito importante conhecer tudo sobre a nossa profissão.  Ser cada dia mais especializado no que fazemos. E à medida que mais nos aprofundamos, que nos preparamos, apesar de sermos invejados por uns, seremos procurados por outros que nos pagam até mais do que merecemos, pois a nossa eficiência é grande e necessária.

Não devemos deixar de conhecer a nós mesmo. Muitos já morreram cedo demais, por ignorar totalmente como funciona o seu corpo. Como funcionam os seus órgãos, quais os cuidados que se deve ter com os ossos,  juntas, pressão arterial, com a alimentação etc. Não seja você um desses!

Desejo que o motivo, o combustível, a razão de ser da sua existência, seja a graça divina, e melhor, que seja o Plano de Deus.

Paute sua caminhada pelos ensinamentos divinos, e assim estará preparando-se  para a vida sem fim. Coloque no Senhor suas esperanças. Espera em sua palavra e terá a resposta certa, na hora certa.Isso é cuidar da alma. Mais cuide também do seu corpo. Aprenda como fazer isso. Não espera o pior, com a aproximação da velhice. Não dependa tanto dos demais. Mesmo que tenha muito dinheiro. Aprenda a cuidar-se.

Cuidar da saúde da alma e da saúde do corpo, é um dever de todos nós.

Sidnei Walter John

 

 

 

“No Senhor está toda graça e redenção”

O pecado tomou conta

O Evangelho do 10º domingo do tempo comum coloca-nos diante do tema da incompreensão que foram vítimas Jesus e sua missão. Os primeiros que não O compreenderam foram seus familiares que, julgando-O fora de si, queriam agarrá-Lo, pois não tinha tempo nem para comer (Mc. 2,20-21). Jesus, por experiência, dissera que “os inimigos serão os próprios familiares” (Mt. 10,36). Em segundo lugar vem os mestres da lei que, vendo Jesus expulsar demônios, diziam que estava possuído por Belzebu (chefe dos demônios). Identificam Jesus com o demônio. Jesus mostra o absurdo, dizendo que o diabo está lutando contra si mesmo. E completa a explicação afirmando que todo o pecado será perdoado, menos o pecado contra o Espírito Santo. Não tem perdão porque a pessoa se fecha, atribuindo a Cristo ações diabólicas. A Palavra de Deus indica a origem desse mal: o pecado dos primeiros pais, Adão e Eva, narrado no Gênesis. Não se trata tanto de narrar uma história em como foi, mas dizer que a raiz do mal está dentro de nós. Foi uma escolha da humanidade na pessoa dos primeiros pais. O homem e a mulher na desobediência, recusaram Deus. E o mal entrou no mundo e cresce com nossos pecados. Deus condena a serpente: a descendência da mulher, Jesus, vai esmagar sua cabeça. O pecado tomou conta, mas a graça é maior que o pecado, como diz Paulo: “Onde abundou o pecado, mais abundante foi a graça” (Rm. 5,20). Deus quis mostrar através de Jesus sua misericórdia para que se vença o pecado e se viva a graça da comunhão com Deus. A aclamação ao evangelho diz: “O príncipe deste mundo agora será expulso” (Jo. 12,32). Jesus, com sua morte e ressurreição, venceu o mal.

Adão estava nu

O paraíso terrestre simboliza a graça de Deus. A familiaridade de Adão com Deus é o paraíso. O fato de estar nu explica que o homem todo vive a riqueza da graça. O pecado rompeu a comunhão. Em Cristo foi recuperada a intimidade com Deus. Nada impede a aproximação de Deus. Somente o pecado destrói a comunhão. O pecado é uma opção. Temos muitas fragilidades, mas o mal está nas escolhas que fazemos. A sociedade se deixa levar pela tentação: “Sereis iguais a Deus, sendo donos do bem e do mal”. Vemos que o pecado entrou na pessoa e em suas opções. Um mundo sem pecado é o paraíso terrestre. Podemos não vencer sempre, mas a capacidade de viver a graça transformará a realidade em que vivemos. Todos os males que sofremos na sociedade provêm das escolhas pervertidas. É certo que a natureza é frágil. Paulo nos explica: “Mesmo se o homem exterior vai se arruinando, o nosso homem interior, pelo contrário, vai se renovando, dia a dia” (2Cor. 4,16). “O visível é passageiro, o invisível é eterno” (18).

A serpente me enganou

A família de Adão escolheu recusar a vontade de Deus que era para seu bem. Fazer-se a Deus não é um bem para o ser humano. Jesus cria a nova família dos que crêem. O caminho da redenção passa pelo Deus que não abandonou sua criatura amada e pelo homem que reconhece mal e clama a Deus do profundo de sua miséria, pois põe sua esperança em Deus no qual encontra o perdão (Sl. 129). A esperança nos dá a certeza de uma morada futura, quando a atual for destruída. A Ressurreição é a luz para uma existência sofrida.  Por isso rezamos: “Fazei-nos pensar o que é certo e realizá-lo por vossa ajuda” (Oração). A serpente foi pisada por Cristo. Temos um tempo novo.

 

Jesus não foi compreendido nem pelos seus nem pelos mestres da lei. Estes atribuem seus poderes ao demônio. Isto é um pecado contra o Espírito Santo que não terá perdão, porque se fecha à misericórdia. O pecado dos primeiros pais passa à toda humanidade e é aumentado pelos nossos pecados pessoais. O pecado foi a desobediência que recusou Deus. A graça, contudo, é maior que o pecado.

O paraíso terrestre simboliza a graça de Deus que se expressa na familiaridade de Adão com Deus. O pecado é uma opção na qual queremos ser donos do bem e do mal. A graça transformará a realidade em que vivemos. A nudez de Adão representa a totalidade da graça.

A família de Adão escolheu recusar a vontade de Deus que era para seu bem. Jesus cria a nova família dos que crêem. A esperança dá a certeza de uma morada futura. A Ressurreição é luz para uma existência sofrida.

A árvore que produz cobra 

O fato do pecado dos primeiros pais, Adão e Eva, é contado na bela narrativa do Gênesis. Simboliza que o pecado é uma opção a partir do ato de ceder à tentação.

Vencendo a tentação, vivemos a Ressurreição. Voltando nossos olhares para as coisas invisíveis vamos nos renovando dia a dia.

Jesus sofreu a perseguição do mal do mundo, presente inclusive entre seus parentes que consideraram que Ele estava louco pelo excesso de gente que O assediava. Os mestres da lei O chamavam de príncipe dos demônios porque expulsava demônios. Negar sua ação é fechar-se a Deus que é blasfemar contra o Espírito Santo, atribuindo sua ação ao demônio.

Jesus era de todos, tanto que disse, quando chegaram seus familiares, que todos eram sua família, o que não impede de ter sua família, da qual muitos eram cumpridores da Palavra de Deus, como o era sua Mãe.

padre Luiz Carlos de Oliveira

 

 

A Palavra de Deus deve estar acima de qualquer interesse

O texto do evangelho deste dia se encontra dentro do conjunto de Mc. 3,7-6,6ª onde se relatam a revelação de Jesus e a incompreensão de seus parentes e dos contemporâneos, especialmente dos dirigentes do povo. Nesse conjunto Jesus se revela quem Ele é através de suas palavras cheias de autoridade e mediante suas obras para salvar a humanidade. Os simples cujo coração é puro não encontram nenhuma dificuldade para entender a verdade nas palavras e nas obras ditas e feitas por Jesus. Os dirigentes do povo, ao contrário, fecham seus olhos e seus corações diante de tudo isso e decidem opor-se a Jesus firmemente em nome de seus interesses egoístas. Mas a multidão formada por gente simples e seus discípulos estão ao lado de Jesus, pois eles não têm nada para defender a não ser a busca do sentido de sua vida e de sua salvação.

Na cena anterior deste texto o evangelista Marcos nos relatou que Jesus subiu ao monte e ele escolheu os Doze (Mc. 3,13-19). E no Evangelho de hoje nos é relatado que depois que escolheu os Doze “Jesus voltou para casa com seus discípulos” (Mc. 3,20). Trata-se da proximidade com Deus (no monte) e da proximidade com os homens (voltar para casa). Jesus se retira do povo para estar com Deus a fim de estar mais próximo com o povo (ser reflexo de Deus no meio dos irmãos). O encontro profundo com Deus leva o homem ao encontro fraterno com o próximo.  A proximidade com Deus nos faz próximos dos outros homens. Lemos que a multidão continua entusiasmada pela força da palavra de Jesus, e por isso, se aglomera ao redor de Jesus. A bondade atrai a simpatia do homem e a bênção de Deus. A bondade é sempre fonte de admiração de quem tem um coração puro e imaculado.

É importante observar que para essa multidão é que se abre a casa. Trata-se da multidão dos marginalizados e pecadores que se sente atraída por tudo que Jesus diz e faz, pois em tudo que Jesus fala e faz eles encontram o sentido de sua vida. Mas com isso, Jesus e seus discípulos perdem sua privacidade, pois a multidão invade sua intimidade a ponto de eles não poderem mais comer.

Diante de tudo isso, vem a reação dos próprios parentes, e os dirigentes do povo (os escribas) se aproveitam também disso para desmoralizar Jesus diante da multidão.

Os parentes de Jesus, ao ouvir que ele estava fora de si, ou estava louco, eles foram até Jesus para retirá-lo do seu lugar de missão. A loucura era sinal de possessão diabólicaQualificar alguém de louco era uma forma de excluí-lo, anulá-lo e condená-lo. Com Jesus seus inimigos queriam aplicar também essa tática para anular Jesus. Mas por que tudo isso?

Porque Jesus quis construir uma comunidade cimentada nos valores do amor e da justiça, da fraternidade e da igualdade: Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos? E olhando para os que estavam sentados ao seu redor, disse: Aqui estão minha mãe e meus irmãos. Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”. Viver de acordo com a igualdade, a solidariedade e a fraternidade universal conforme a vontade de Deus, Pai de todos os homens, significa romper com o modelo de família tradicional e com sistema vigente que oprime e discrimina. Para Jesus todos têm que se sentir irmãos daqueles que até então eram considerados excluídos, impuros, forasteiros, inimigos, pecadores. Para a mentalidade de então essas pessoas teriam que ser afastadas. Jesus fez o contrário: a casa onde ele se encontrava estava lotada de gente pobre e empobrecida que ele tratava com respeito porque são filhos de Deus também. Por isso, Jesus não podia estar de acordo com seus parentes que, se deixando levar da qualificação de louco que lhe davam seus inimigos, tratavam de retirá-lo de sua missão.

Sempre sucede o mesmo. O plausível para os homens não é em todo momento o honesto para Deus. O politicamente correto não coincide em muitas ocasiões com eticamente justo. Um profeta diz a seu tempo e contra seu tempo o que Deus lhe manda dizer aos homens mesmo que os homens não concordem. Não é fácil ser profeta. Há que estar muito identificado com Jesus para sê-lo de verdade. Um profeta de verdade sempre termina sua vida como mártir. Ele é crucificado, mas ninguém consegue crucificar a verdade porque a verdade mora na própria consciência do homem. O próprio homem sabe disso e tem consciência disso.

Os parentes de Jesus acreditaram nas fofocas ou comentários maldosos dos inimigos de que Jesus era louco. Por isso, eles foram até Jesus para levá-lo para casa sem perguntar até que ponto esse comentário tinha fundamento. Às vezes, acontece o contrário: aquele que acha que o outro seja louco é muito mais louco do que todos os loucos de verdade. Precisamos nos perguntar também tanto pessoalmente como comunitariamente: Quem é Jesus em quem acreditamos? Por que nos reunimos em Seu nome? Por que celebramos a Eucaristia? Não estaríamos considerados “loucos”, nós que pretendemos ser discípulos de Jesus? Será que nós chamados cristãos, “irmãos de Jesus” atrapalhamos o projeto salvífico de Jesus como aconteceu com seus parentes?

O novo não pode ser julgado a partir do velho. Como não podemos avaliar as pessoas e os acontecimentos da vida a partir de nossas feridas. É preciso renovar os critérios de avaliação para poder questionar o questionável e corrigir o corrigível e aceitar o aceitável para a salvação de todos. Ao se interrogar o homem encontra o sentido de sua vida e de sua passagem neste mundo, abrindo, assim, as possibilidades para o crescimento na sua humanidade. Somente podemos nos tornar muito divinos quando formos muito humanos com os demais homens.

O evangelho deste dia nos relata também que Jesus encara seus adversários vindos de Jerusalém, cidade onde ele sofrerá a Paixão e morte. “Ele está possuído por Belzebu, chefe dos demônios”, disseram os escribas sobre Jesus e suas atividades. Em outras palavras, Jesus é recusado não somentepelos seus”, mas principalmente “pelas autoridades religiosas”. Jesus é recusado, desconhecido e ignorado. Jesus é contestado, não é escutado, não é seguido. Jesus é deixado de lado.

O que está em jogo na discussão com os adversários de Jesus é a luta entre o espírito do mal e o espírito do bem. Por isso, merece o duríssimo ataque de Jesus. O que eles fazem é uma blasfêmia contra o Espírito Santo. Pecar contra o Espírito Santo significa negar o que é evidente, negar a luz de Deus permanentemente, tapar-se os olhos para não ver, negar a verdade, negar a salvação. Por isso, enquanto lhes durar essa atitude obstinada e esta cegueira voluntária, eles mesmos se excluem do perdão e do Reino. Para os escribas que atribuem ao demônio a força do Espírito de Deus que age n’Ele, Jesus pronunciou solenemente a seguinte frase:Em verdade vos digo: tudo será perdoado aos homens, tanto os pecados, como qualquer blasfêmia que tiverem dito. Mas quem blasfemar contra o Espírito Santo, nunca será perdoado, mas será culpado de um pecado eterno”.  O pecado contra o Espírito Santo é “o fechamento radical à proposta salvífica e libertadora presente em Jesus. O pecado contra o Espírito Santo é, portanto, irremissível porque inclui em si a rejeição do perdão, excluindo a atitude de e de conversão”.

Creio que nós não somos certamente dos que negam a Jesus permanentemente. Ao contrário, não somente cremos nele e sim que seguimos a Jesus e celebramos seus sacramentos e meditamos sua Palavra iluminadora. E nós cremos que Jesus é mais forte e por isso, Ele nos ajuda na nossa luta contra o mal. E para afastar o mal precisamos viver e praticar o bem. Ser cristão não é apenas aquele que evita o mal, mas principalmente fazendo o bem ele afasta o mal. Se Jesus que é mais forte do que qualquer mal está entre nós, então precisamos estar com ele permanentemente, colocando-o no centro de nossa vida.

Mesmo assim, podemos nos perguntar se alguma vez nos obstinamos em não ver tudo o que teríamos que ver no evangelho ou nos sinais dos tempos que vivemos. Ao olhar para os escribas que julgaram Jesus sem piedade, não temos certa tendência a julgar drasticamente os que não pensam como nós, na vida de família, no trabalho, na comunidade ou na Igreja?

Na Vigília Pascal, quando renovamos o nosso compromisso batismal, fazemos cada ano uma dupla opção: renunciar ao pecado e ao mal e professar nossa em Deus. Hoje o Evangelho nos mostra Cristo como Libertador do mal para que durante toda jornada colaboremos com ele em tirar o mal de nosso meio.

Até este ponto precisamos entrar no nosso íntimo para cada um se perguntar: “Qual é a minha maneira pessoal de recusar Jesus na minha própria vida? Quando foi que eu deixei de lado esse Jesus Salvador nas minhas decisões, no meu modo de me comportar?

Para refletir mais

O motivo para a intervenção da família de Jesus foi, certamente, o conjunto de informações recebidas sobre a doutrina e atividade de Jesus, especialmente a notícia sobre a crescente oposição entre Jesus e os dirigentes religiosos do povo (cf. Mc 2,1-3,6) sem nenhuma verificação precisa sobre a verdade das informações recebidas. Os parentes de Jesus simplesmente não queriam ver o nome de sua família desonrado. Talvez eles se esqueçam que a honra de uma família depende da vivência da verdade, do amor, da honestidade, da justiça, e não depende dos comentários. Os interesses próprios e egoístas destroem a convivência fraterna.

Por causa das informações recebidas, os parentes foram ao encontro de Jesus para “agarrá-lo” e obrigá-lo a voltar ao seu clã. O julgamento dos parentes de Jesus é muito duro, “pois diziam: ele está fora de si”. Esse julgamento nos mostra que até os próprios parentes não compreenderam ainda a missão de Jesus. Além disso, ainda consideraram Jesus, precipitadamente, como um louco: “está fora de si”. O novo não pode ser julgado a partir do velho. Como não podemos avaliar as pessoas e os acontecimentos da vida a partir de nossas feridas. É preciso renovar os critérios de avaliação para poder questionar o questionável e corrigir o corrigível e aceitar o aceitável para a salvação de todos. Ao se interrogar o homem encontra o sentido de sua vida e de sua passagem neste mundo, abrindo, assim, as possibilidades para o crescimento na sua humanidade. Somente podemos nos tornar muito divinos quando formos muito humanos com os demais homens.

Os escribas vindos de Jerusalém também julgam Jesus e a sua missão de uma maneira negativa em nome dos interesses escondidos. Eles se apresentam com um julgamento pré-formado a respeito de Jesus. Com este tipo de julgamento eles querem impedir que o povo procure o novo Mestre para manter o povo cego diante da realidade. Eles tentam desqualificar Jesus com um atributo muito negativo: Jesus tem Belzebu. E isso eles fazem não diretamente a Jesus, mas diante da multidão a fim de ganhar um reconhecimento barato. Na religiosidade popular do tempo de Jesus, provavelmente, o Belzebu era o nome dado ao príncipe de demônios. Ninguém gostaria de ser chamado de príncipe de demônios. Para um Salvador da humanidade os escribas aplicam esse apelido tão negativo. Quem coloca os critérios de interesse próprio acima da verdade e de Deus é capaz de destruir o próximo e no fim se destrói. Somente quem tiver a disponibilidade de desinstalar constantemente, terá a liberdade suficiente para os apelos de Deus em cada momento de sua vida.

padre Vitus Gustama,svd

 

 

A liturgia deste domingo nos leva a refletir e celebrar a unidade do Homem, imagem e semelhança de Deus, a Trindade Una e Indivisa como festejamos no domingo passado. Exatamente por isso o Homem só poderá ter como interlocutor o próprio Deus, por consequência de sua própria criação, atualizada na Encarnação do Verbo e na ressurreição de Jesus.

Em Gênesis (3,9-15), a primeira leitura da Missa, temos o relato do diálogo entre Deus e os primeiros pais, imediatamente após terem cometido o primeiro pecado. Deus os busca, vai atrás deles e provoca a confissão do pecado. Deus não os abandona, mas vai em seu socorro, mesmo estando eles em situação de pecado, sem o estado original de graça, como dizemos hoje.

Por outro lado, Deus maldiz a causa da tentação, a serpente, e pereniza a inimizade entre o Mal com o Homem, que será o vencedor através da Redenção de Jesus Cristo, Deus nascido de Mulher.

O Evangelho do dia, Marcos 3,20-35, nos apresenta o Messias anunciado na primeira leitura. Ele apresenta um homem excessivamente procurado pelas pessoas a ponto de não ter tempo para se alimentar e ser tido como louco por seus próprios parentes. Os doutores da Lei, ou seja a elite religiosa e intelectual, o tinham como possuído pelo demônio.

Nisso chegam sua mãe e seus primos, mas não conseguem entrar na casa onde ele está. Aproveitando essa situação, o Senhor resolve dar uma dimensão transcendental à sua relação consanguínea com Maria e os primos.

Ele diz que laços mais fortes que o sangue os unem. Esses laços mais fortes são o empenho em fazer a vontade de Deus.

O Messias anunciado ultrapassou as uniões familiares, consanguíneas e estabeleceu a mais forte e eterna que é ser, de fato, o Homem que faz a vontade do Pai, como Ele fez, e não o HOMEM ADÂMICO, que fez sua própria vontade e, com isso, nos trouxe a morte. Jesus Cristo, o verdadeiro Homem, o Messias, o Redentor, nos trouxe a vida eterna fazendo a vontade do Pai.

Concluindo a nossa reflexão, comentemos a segunda leitura, extraída da 2ª Carta aos Coríntios (4,13-5,1). Paulo nos fala de nossa futura ressurreição realizada pelo Pai. Escreve também para nos animar, quando aflitos ao percebermos a caduquice de nosso corpo, sua ruína externa através dos sinais de velhice, nos alegrarmos e nos entusiasmarmos com o crescimento do homem interior. Por isso, tenhamos o olhar voltado para aquilo que não passa, para as coisas invisíveis, as coisas do alto. Uma morada eterna nos espera no céu.

Nossa unidade, nossa integridade está ligada ao nosso relacionamento com a Vida e Deus é a Vida. Com nossa subordinação às coisas materiais, estaremos fadados à dissolução, já que seu deus é o diabo “diabolos”, aquele que separa.

Fomos feitos pela Vida e para a Vida, para o Amor, para a União Eterna.

padre César Augusto dos Santos, SJ

 

 

O paraíso perdido e a ser construído

Paraíso é algo do passado, mas também utopia. É representado como o lugar ideal, dos sonhos, onde o clima é ameno, há abundância de alimentos e recursos e não há guerras, doenças ou morte. A vida no paraíso é tida como recompensa após a morte para os que seguem corretamente os preceitos divinos. É um lugar aprazível. Entretanto, este lugar existiu ou ainda existirá? A Bíblia fala dos dois. Vejamos.

Início. A Bíblia fala desse paraíso como o jardim do Éden. “Depois, o Senhor Deus plantou um jardim em Éden, a oriente, e pôs ali o homem que havia formado. E o Senhor Deus fez brotar do solo toda sorte de árvores de aspecto atraente e de fruto saboroso, e, no meio do jardim, a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal ” (Gn. 2,8). Henoc, filho de Caim e o sétimo patriarca depois de Adão, por ser pessoa agradável a Deus, foi arrebatado ao paraíso. “Henoc agradou a Deus e foi arrebatado ao paraíso, para levar a conversão às nações” (Eclo 44,16). Assim, paraíso era lugar de bem-estar no início da humanidade. É também a representação do lugar de bem-estar prometido aos justos.

Utopia. O paraíso pode ser concebido, então, como lugar de utopia que será dado como prêmio aos vencedores.  “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas. Ao vencedor darei como prêmio comer da árvore da vida, que está no paraíso de Deus” (Ap. 2,7). Este paraíso Jesus prometeu ao bom ladrão: “Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc. 23,43). Paulo fala que Cristo foi arrebatado a este lugar especial. “Foi arrebatado ao paraíso e lá ouviu palavras inefáveis, que homem nenhum é capaz de falar” (2Cor. 12,4). Certamente impossível descrever com nossas limitadas palavras. Você sonha com este lugar?

Pode começar aqui.  No início, a terra não era feita de sofrimentos, devastação, como hoje. Mas o ser humano a transformou. “Sim, o Senhor ficou com pena de Sião, teve dó de tanta ruína. Transformará esse deserto num paraíso, fará deste ermo um jardim divino. Será aí o lugar da alegria e da festa, lugar de comemorar e cantar do futuro” (Is. 51,3). Esse lugar pode ser reconstruído aqui na terra, como pálida imagem do que poderá existir na Jerusalém celeste. A transformação deste mundo depende, no entanto, de nosso crescimento interior. É preciso dizer como Paulo: “Por isso, não desanimamos. Mesmo se o nosso físico vai se arruinando, o nosso interior, pelo contrário, vai-se renovando dia a dia” (2Cor 4,16). Você sente que está crescendo a cada dia e se tornando uma pessoa melhor? É uma pergunta necessária para quem deseja ser melhor do que é. Com as pessoas que agem assim, este mundo irá se transformando.

Enganos. Infelizmente há muitas pessoas que contribuem para o mal-estar do mundo: enganam os outros como a serpente no paraíso, são cúmplices dos que tiram proveito do próximo, comem do fruto proibido da desonestidade,  vivem serpenteando no meio das pessoas como aconteceu algum dia quando os primeiros seres humanos se desentenderam, instigados pela serpente do mal. “O homem respondeu: ‘A mulher que me deste por companheira, foi ela que me fez provar do fruto da árvore, e eu comi’. Então o Senhor Deus perguntou à mulher: ‘Por que fizeste isso?’ E a mulher respondeu: A serpente enganou-me, e eu comi” (Gn. 3,12). Essa enganação continua acontecendo. Será? Verdade. Tanto em grandes coisas quanto de pequenas: pequenas mentiras, pequenos vícios… que não deixam de ser mentiras e vícios. Essas maldades só destroem o mundo e as relações entre as pessoas.

Parentesco. Os que vivem semeando a maldade  podem até parecer bem sucedidos, exemplares, podem até cultivar parentescos sanguíneos. Mas, é esse parentesco que conta? Não. Pelo menos não contou para Jesus. Disseram-lhe:  “Tua mãe e teus irmãos e irmãs estão lá fora e te procuram”. 33 Ele respondeu: “Quem é minha mãe? Quem são meus irmãos?” E passando o olhar sobre os que estavam sentados ao seu redor, disse: “Eis minha mãe e meus irmãos! Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mc. 3,32-35). Os que não enganam, mas amam seu próximo, são candidatos a uma vida feliz no reino.

Outro reino. Há um vínculo mais forte que o sangue que pode unir as pessoas. O vínculo divino. O parentesco físico é importante, mas  acaba. Termina com a morte porque tudo o que é físico acaba. “Tudo?” indaga você.  Em termos. É verdade que o corpo vai-se decaindo, mas é preciso que, o corpo espiritual esteja cada vez mais sadio e forte. “Estamos certos de que Aquele que ressuscitou o Senhor Jesus nos ressuscitará também com Jesus e, juntamente convosco, nos colocará ao lado dele” (2Cor. 4,14). Esse corpo espiritual persiste. Se não continuar, a morte será o fim de tudo. Fim dos sonhos de felicidade, fim do sonho de que algo do paraíso possa acontecer ainda neste mundo. Ainda bem que acreditamos que não é assim. Há uma felicidade reservada aos bons de coração. No entanto, para alguns, este sonho de felicidade pode acabar. Por que razão? Porque se tornaram serpentes e  serpentes não têm o mesmo destino dos bons. As pessoas ruins  devem sentir dificuldade de acreditar que terão o reino dos céus prometido aos que fazem o bem.

Enfim, o paraíso foi perdido, mas ainda é sonho, utopia. Existe como lugar ideal onde tudo é incomparavelmente melhor do que o que conhecemos. Este reino glorificado pode começar ainda aqui e continuar de modo diferente de modo espiritual. Alguma coisa dele pode iniciar neste mundo, mas depende do que formos e do que fizermos para ele acontecer. Como sempre, o mundo e o nosso futuro depende também do crescimento espiritual de cada um de nós, depende do que plantamos. Se procurarmos cultivar este jardim do Éden onde vivemos, o mundo será melhor. Do contrário, a terra jamais será algo do novo paraíso, revelado por Jesus!

 

 

Irmãos de Jesus!

A atuação de Jesus, depois de ser batizado por João Batista, provocou uma dupla atitude diante dele: a dos que acreditavam ser ele um profeta ou possivelmente o Messias, e a dos que, não acreditando, o consideravam um herege. Os homens e mulheres de boa vontade diziam que ninguém podia realizar aquelas obras e falar com tamanha autoridade, a não ser que fosse enviado por Deus. A atitude adversária se fundamentava no fato de que ele, Jesus, não observava certos preceitos da Lei Mosaica, como, por exemplo, trabalhar aos sábados. Logo, ele devia ser um emissário de Satanás. Seus próprios familiares, inclusive sua mãe, se preocuparam com o que andavam dizendo a respeito dele, pois alguns chegaram a afirmar que ele tinha ficado doido.

O projeto de Jesus era o de iniciar uma nova família de Deus, que ele denominou de "Reino de Deus." A este novo tipo de família espiritual irão pertencer aqueles homens e mulheres de boa vontade que, sem preconceitos, querem fazer a vontade de Deus, que ele vai explicitar ao afirmar que se trata de colocar a prática do amor como fundamento da verdadeira religião. Entre os integrantes desta nova família, sua mãe é a discípula número um, porque se colocou como a escrava do Senhor, quando disse "faça-se em mim segundo a vossa vontade." Era a atitude oposta àquela de Adão e Eva, no paraíso, ao comer o fruto da árvore, proibido por Deus.

O homem natural (carnal, na expressão de são Paulo) tende a fazer a sua própria vontade, quando segue seus instintos, muitos dos quais o conduzem à desobediência dos mandamentos. Como integrante do Reino de Deus, (a família de Jesus) o homem espiritual, interior, cresce em cada pessoa e em muitas pessoas, manifestando-se em ação de graças, para gloria do próprio Deus. O cristão de hoje, (é o desejo da Igreja), não pode desanimar, ao encontrar-se imerso em um mundo que favorece e incentiva atitudes comportamentais opostas ao plano de Jesus, sobretudo no que diz respeito à violência, ao egoísmo e ao consumismo. A decisão é individual e é a única que poderá proporcionar a paz interior, que somente o Cristo pode dar.

tradução de "Prions en Église”

 

 

O mistério do mal e do pecado é um dos grandes temas do livro do Gênesis junto com as realidades  salvíficas da Criação, da Graça e da Redenção.

A consciência do pecado e o senso de culpa conseqüente: “Fiquei com medo, porque estava nu; e me escondi” (Gn. 3,10) são a resposta à voz de Deus que chama Adão  - e cada homem que peca –: “Onde estás?” (Gn. 3,10) ao dever de estar na sua presença pela vocação originaria à santidade.

Naquel “Onde estás?” temos o primeiro exemplo de Deus que vá a procura do homem que foge e se afasta por causa do pecado.

O primeiro gesto salvífico de Deus é de tirar o poder do mal sobre a humanidade, incompatível com o ser “à imagem e semelhança” de Deus (Gn. 1,26 ss.): “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela” (Gn. 3,15).

É o manifestar-se renovado da primeira luz da Criação sobre as trevas do pecado: a luz do Messias Salvador da humanidade.

A promessa de Deus à humanidade pecadora é a salvação que Cristo nos dará: “Satanás será destruído” (Mc. 3,26), porque a descendência (Cristo) da mulher (Maria) lhe “ferirá a cabeça” (Gn. 3,15).

Será a luz da Ressurreição de Cristo e nossa e da “abundancia da graça” (2Cor. 4,15) o realizar-se daquela promessa.

padre Ausilio Chessa

 

 

A liturgia da Palavra do X domingo do tempo comum convida-nos a meditar sobre o uso que estamos a fazer da nossa liberdade na nossa relação com Deus. Deus que nos criou por amor e que, enviando-nos o seu Filho Jesus, nos chama à conversão e a comunhão consigo respeita a nossa liberdade. Deus sempre propõe mas nada impõe. Na verdade, Deus é amor e o amor de Deus comporta a liberdade e a possibilidade do Homem, de uma forma livre e consciente, recusar o amor de Deus.

Tudo começa no início e no início de tudo está a criação do mundo e do homem. Um Deus que ama e que por isso é capaz de dar vida e de criar. O livro do Gênesis não pretende ser uma lição de história ou de ciências da natureza. Os primeiros 11 capítulos do livro do Gênesis pertencem a um gênero literário chamado de mitos de origem. Estes capítulos pretendem ser uma narração que pretende explicar as realidades humanas. Assim sendo, mais do quer dizer como o mundo e o homem surgiram, o livro do Gênesis pretende afirmar que na origem da vida e do homem está Deus. No entanto todos sentimos a presença do mal neste mundo. Diante deste fato surge-nos a pergunta: se foi Deus que criou o mundo porque é que existe o mal? Se há um Deus bom e justo porque existe o mal? É a esta pergunta, de ontem e de hoje, que o autor sagrado responde na página de livro do Gênesis proclamada neste domingo. Na origem do mal e da infelicidade não está Deus mas está o homem com as suas opções erradas e com o mau uso da sua liberdade.

Deus criou-nos livres, porque a liberdade é uma exigência do amor. Criou-nos por amor e com amor indicou-nos o caminho a seguir e com o mesmo soube retirar-se e dar-nos espaço na liberdade. É nesta liberdade e tentados por tantas serpentes que se sabem camuflar tão bem que muitas vezes rejeitamos a vida e escolhemos a morte.

O nosso pecado, a ruptura da nossa relação com Deus tem consequências. A nossa relação com Deus e com os outros é alterada. Deus deixa de ser visto como alguém que cria e cuida e passa a ser visto como alguém terrível de quem se tem de fugir. O outro não é mais alguém em que eu possa confiar totalmente. O outro passa a ser um meio para alcançar os meus fins e por isso para me desculpar eu o acuso. O mundo, no qual eu devia viver em comunhão com Deus, tornou-se o lugar em que me escondo de Deus.

Deus atua neste contexto não como alguém que castiga mas como alguém que quer revelar a alteração provocada pelo mau uso da liberdade humana. Com a presença de Deus tudo torna-se claro. No entanto, o homem confessa o seu medo e a sua nudez mas não confessa o seu pecado. É aqui que está o problema. As perguntas de Deus não são acusatórias mas querem revelar a verdade. Deus quer ajudar o homem a abrir-se à verdade, a tomar consciência do seu pecado. Sem consciência de pecado não há possibilidade de salvação. A experiência de pecado é uma experiência da nossa própria debilidade. No pecado o homem é responsável, livre e consciente mas só até a um certo ponto. Há sempre algo em que nós também somos vítimas. Mas isto só se descobre na nossa relação com Deus.

Depois temos as sanções de Deus sobre o pecado. Mas isto é só aparente. O que Deus faz é constatar a realidade. A única sanção de Deus é sobre a serpente. É ela que é maldita e não o homem e a mulher. A maldição sobre a serpente também tem uma promessa: a serpente será vencida exatamente por um descendente da mulher que a serpente venceu e com a parte do corpo (calcanhar) que é mais propícia para ser atacado pela serpente. O judaísmo e o cristianismo vêem aqui a promessa messiânica. Deus promete que um descendente da mulher, o Messias, acabará com as consequências do pecado e inserirá o mundo numa dinâmica de graça.

Esta promessa messiânica cumpre-se em Jesus de Nazaré, filho de Maria. Jesus é o enviado do Pai que nos vem anunciar a boa nova do Reino e chamar à conversão. No entanto, nem todos aceitam o convite de Jesus e vão encontrando vários motivos para não aceitarem a sua pessoa e mensagem. O Evangelho de São Marcos deste dia testemunha-nos como os familiares e escribas recusavam ver em Jesus o enviado de Deus e na sua ação a ação de Deus.

Jesus continua a anunciar a boa nova do reino pela Galileia mas a contestação à sua pessoa e ao seu ensinamento crescem. O evangelho de hoje fala-nos destas controvérsias entre Jesus e os seus familiares e os escribas numa casa onde tinha acorrido muita gente.

Os escribas rejeitam Jesus e acusam-no de ser um endemoninhado que expulsa os demônios pelo chefe dos demônios. A esta acusação e rejeição gravíssima que tem como finalidade desacreditar a sua atividade, Jesus responde através das parábolas do reino dividido e a do homem forte amarrado que mostram a contradição da acusação e a ação de Jesus contra Satanás. Jesus mostra a contradição da acusação que os escribas lhe fazem porque não faz sentido que uma parte de um reino lute contra outra parte do mesmo reino. Na verdade, um reino dividido não se pode aguentar. Se Jesus fosse um endemoninhado que expulsa-se demônios, estaríamos diante de uma autodestruição de Satanás. Assim sendo, o ataque ao domínio de Satanás não provem de Satanás mas de outro que é mais forte que ele e que o atará. É esta a mensagem da parábola do homem forte amarrado. Satanás é o homem forte que é vencido por Jesus. Jesus é o salvador que liberta os homens da escravidão do pecado.

Depois de contar estas duas parábolas, Jesus faz uma afirmação solene: “Tudo será perdoado… mas quem blasfemar contra o Espírito Santo não terá perdão”. Jesus ao afirmar que tudo será perdoado mostra que a derrota do mal será uma derrota plena, universal e definitiva. No entanto, quem recusar ver que a obra que Jesus realiza é a obra de Deus, quem rejeitar os sinais que Jesus lhe oferece está a fechar-se à ação e ao perdão de Deus e quem recusa o perdão não o aceita. Exemplo concreto de rejeição da salvação oferecida por Jesus é a acusação de Jesus estar possuído por um espírito impuro. Na verdade, atribuir a Satanás aquilo que é obra de Deus é blasfemar contra o Espírito Santo. O pecado dos escribas é a recusa em reconhecer a ação de Deus na ação de Jesus. Ao fazer esta afirmação, mais que ameaçar a um castigo eterno, Jesus está a chamar-nos à atenção da possibilidade real de nós na nossa liberdade nos fecharmos à sua oferta de salvação e de perdão.

A resistência em reconhecer a ação de Deus nas ações de Jesus também atinge os próprios familiares de Jesus. Na verdade, estes consideram que Jesus está fora de si e decidem ir busca-lo, ou seja, procuram domina-lo e impedir a sua atividade. Quando os familiares de Jesus chegam ao local onde se encontra Jesus não entram na casa, mas, ficando do lado de fora pedem que seja Jesus a sair da casa para vir ao seu encontro. Os parentes que ficam fora representam o antigo Israel que ao verem como Jesus põe em causa as suas convicções e os chama à conversão, tentam reinserir Jesus nos esquemas tradicionais. No entanto, Jesus não sai ao encontro dos seus parentes e aproveita a presença dos seus familiares para precisar a sua relação com os discípulos. Não é Jesus que tem de sair mas são os outros que tem de entrar porque só aqueles que estão à sua volta e que cumprem a vontade de Deus é que podem ser membro da família de Jesus

Fazer parte da família de Jesus, aceitar a salvação não é algo que nos seja imposto mas é um convite que se nos faz. Jesus não nos obriga mas convida-nos a, na nossa liberdade, aceitarmos a sua salvação, a ouvirmos a sua palavra e a cumprirmos a vontade de Deus. Não utilizemos mal a nossa liberdade com pretextos absurdos e aceitemos o convite à comunhão com Deus, fonte de felicidade, que nos é oferecido em Jesus.

padre Nuno Ventura Martins

 

 

“Mas quem blasfemar contra o Espírito Santo, nunca será perdoado,

mas será culpado de um pecado eterno” (Mc. 3,29).

Palavras duras de Nosso Senhor! O que é o pecado contra o Espírito Santo? A Liturgia de hoje nos ajuda a compreender, sobretudo a partir do contexto do Evangelho. Os escribas atribuem ao demônio uma obra que é operada por Deus – a expulsão dos demônios feita por Jesus. A essência do pecado contra o Espírito consiste, portanto, em julgar a obra da graça sem reconhecer a sua proveniência de Deus. Por extensão podemos dizer que o pecado contra o Espírito se manifesta em todos aqueles juízos com os quais a consciência humana chama as coisas com o nome equivocado. O profeta Isaías descreve tal fenômeno nestes termos: “Ai daqueles que chamam bem o mal e mal o bem, que mudam as trevas em luz e a luz em trevas, que mudam o amargo em doce e o doce em amargo” (5,20). Trata-se da mudança da realidade, ou seja, o interesse pessoal, qualquer que seja, que leva a trair a verdade e a dar às coisas uma interpretação voluntariamente adulterada.

Os escribas, caídos em um poderoso engano mental, afirmam uma coisa que de fato não condiz com a realidade: a um gesto de libertação, que revela o amor de Deus pelos oprimidos, eles atribuem a autoria ao demônio, impedindo a si mesmos de encontrar Deus em suas obras. À questão sobre as causas que suscitam tal traição da leitura da realidade, o texto do Evangelho responde com clareza: os adversários de Jesus, movidos unicamente pelo interesse pessoal, são já inclinados a alterar os dados da realidade, para acusar Cristo inclusive por seus gestos inocentes. Daí percebermos que a base sobre a qual o demônio pode aprisionar a mente no pecado contra o Espírito é o fato de o homem ter interesses subjetivos e parciais que fazem procurar na realidade externa somente as confirmações acerca das coisas que já pensam. O pecado contra o Espírito santo tem, pois, raízes na falta de retidão de intenção, que consiste em pôr a consciência diante do mundo não com uma postura de quem procura descobrir a verdade que Deus ali revela, mas sim procurando demonstrações das coisas sobre as quais já tem convicções. Quem raciocina segundo essa dinâmica não tem – nem jamais terá – sua mente iluminada pela verdade.

Uma vez que tenhamos entendido a natureza do pecado contra o Espírito santo, entendemos também porque ele seja imperdoável. O pecado contra o Espírito não pode ser perdoado não pela sua gravidade objetiva – sabemos que não existem pecados imperdoáveis – mas porque a pessoa fechou o espaço que lhe permite ser alcançado pela divina misericórdia. Podemos, pois, dizer que, mais que um pecado tão grave que não pode ser perdoado, o pecado contra o Espírito é um pecado que Deus não pode perdoar ainda que queira, pois a pessoa se auto exclui do seu amor, fechando o próprio coração e a própria mente em uma interpretação falsa e acusatória das obras de deus, chamando-as com outro nome. Ninguém, de fato, pode encontrar Deus e ser salvo pela fé, sem reconhecer como tais as obras de salvação. Neste sistema fechado Deus não entra, porque para isso teria que arrombar a porta do livre arbítrio.

A primeira leitura nos dá um exemplo concreto – além do exemplo do fechamento dos escribas dado pelo Evangelho – acerca do fechamento do coração e da leitura propositadamente errônea da realidade. O texto não inicia falando de Adão e de sua nudez, mas do Senhor e da sua postura em relação ao homem: “O Senhor chamou Adão, dizendo: ‘Onde estás?’” (Gn 3,9). Diante do pecado, Deus se põe à procura do homem e o chama, propondo uma pergunta que convida Adão à tomada de consciência, não tanto sobre o lugar onde se encontra, mas das condições de decadência nas quais caiu. Com essa pergunta, Deus espera de Adão uma confissão de seu pecado – é o amor misericordioso que, através dessas palavras, se revela pela primeira vez na história da salvação. Concomitantemente com o pecado do homem – e podemos dizer por causa do pecado do homem – se entrevê no coração de Deus seus sentimentos paternos. “Onde estás?” é uma  pergunta que chama ao diálogo, a uma tomada de consciência do próprio pecado pessoal e a uma sincera manifestação da própria culpa. Se Adão não tivesse fugido diante da presença de Deus, talvez o pecado original tivesse sido vencido já nesse momento, no retorno de Adão a Deus, estabelecendo com Ele um colóquio diverso daquele que se deu. Por isso, maior culpabilidade moral do que a do pecado original é a fuga de Adão: aquele rompeu a amizade com Deus; esta impediu sua retomada, impossibilitando Deus de oferecer seu perdão.

A resposta do homem a pergunta de Deus, contrariando as expectativas do Senhor, não foi uma confissão da própria culta: “Ouvi tua voz no jardim, e fiquei com medo, porque estava nu; e me escondi” (v. 10). Nessas palavras se revela toda a fragilidade interior causada pelo pecado. Os sentimentos de medo e de vergonha, desconhecidos até então, agora atormentam profundamente a alma ferida, e condicionam negativamente não somente a relação com Deus, mas a própria relação com o próximo. A perda da comunhão de amor com Deus porta consigo a perda da comunhão de amor com o irmão.

A cisão interior que o homem experimenta no próprio coração não o conduz somente à fuga de Deus e ao refúgio na solidão; leva-o à autodefesa e à ilusória alteração da realidade: “E quem te disse que estavas nu? Então comeste da árvore, de cujo fruto te proibi comer?” (v. 11) – e o homem não responde examinando a si mesmo, mas examinando o comportamento de Eva, não reconhecendo a própria culpa e jogando a responsabilidade no próximo e no próprio Deus: “A mulher que tu me deste por companheira, foi ela que me deu o fruto da árvore, e eu comi” (v. 12). Adão reconhece que houve uma transgressão, mas não reconhece sua parte de responsabilidade. A expressão usada por ele para excluir-se de qualquer responsabilidade, não culpa somente a mulher, mas indiretamente o próprio Deus: “A mulher que tu me deste por companheira”. Causa do pecado, o fechamento da consciência à realidade impede – se não tomarmos cuidado – o reconhecimento do próprio erro, e leva-nos a atribuir a outrem as nossas culpas. Quando não reconhecemos o erro, quando nos falta retidão de intenção, quando nos fechamos em nós mesmos e distorcemos a realidade lendo-a segundo nosso ponto de vista, sem abertura ao descobrimento da verdade, mesmo que o Senhor nos queira perdoar não consegue. Sua onipotência esbarra no nosso fechamento. Por isso o pecado contra o Espírito nunca será perdoado – ao menos até que mudemos esse tipo de postura.

É por isso que recorremos à Santa Maria, para que a seu exemplo – e pela sua intercessão – sejamos sempre dóceis e abertos à ação do Espírito Santo, e nos tornemos seus instrumentos.

padre Jacques Rodrigues

 

 

A PALAVRA É MEDITADA

Jesus acabou de ser acusado de estar com o demónio no corpo, aliás, de ser Ele o chefe dos demónios. Mas Ele não se descompõe,… em vez de retorquir à acusação, afirmando que é o Filho de Deus, o pior inimigo que um demónio possa encontrar no seu caminho, Jesus desmonta a acusação dos escribas, pedaço por pedaço, trazendo ao de cima a contradição da mesma: “Como pode Satanás expulsar Satanás? Se Satanás se revolta contra si mesmo, não pode subsistir...”.

Mas eis que chega a família de Jesus, ao completo...não propriamente ao completo… falta o seu pai: talvez o carpinteiro de Nazaré estivesse atrasado com alguma coisa? Os comentadores colocam em paralelo, praticamente sinónimos, a convicção dos fariseus – está possesso de belzebu – com a dos parentes do Senhor – está fora de si.

Os outros evangelistas não referem o comentário dos familiares … este facto torna ainda mais complicada a interpretação dos versículos em questão: quem são os seus? Da simples observação da cena, emerge imediatamente o facto da multidão de gente à volta da casa: não é para admirar que os parentes de Jesus estivessem preocupados pela sua segurança, ao ponto de correrem para o levar para casa….

Os parentes temem que a maneira de se comportar do filho de Maria possa comprometer o bom nome da família, a qual não era rica, porém, gozava de uma certa fama. Por isso terão decidido intervir para tomar o controlo da situação.

Ora, que Jesus tivesse desiludido as expectativas dos familiares, suscitando não poucas preocupações, é indicado por Marcos noutro lugar (cfr. 6,4).

A reacção de Jesus: “Quem é minha mãe? Quem são os meus irmãos?”, longe de ser uma rejeição, quer sublinhar a proximidade dele com todos aqueles que escutaram as suas palavras e se deixaram livremente envolver no seu anúncio de salvação.

A salvação pertence àqueles que assumiram o compromisso de trabalhar pelo Reino dos Céus, segundo as condições ditadas por Cristo: tomar a cruz todos os dias e segui-lo.

A fidelidade ao projecto que o Senhor nos revelou, exige a dedicação de toda a vida... e, em certos momentos da história, em certos lugares do mundo, também hoje, pode custar a vida, pode custar o martírio.

Se os parentes procuravam neutralizar a acção de Jesus em nome da normalidade e do equilíbrio - a fé cristã é por sua natureza transgressiva! Não ama a normalidade e rompe os equilíbrios consolidados  – os escribas, ao invés, vangloriam-se por um sistema religioso forte, o poder politico que agia aos níveis máximos da sociedade, com o pretexto de se colocar como directo interlocutor de Roma. Conhecemos a influência dos sumos-sacerdotes sobre o povo, ao ponto de convencer Pilatos a condenar o Nazareno.

Para a comitiva do Templo, Jesus está portanto possuído por satanás e é seu cúmplice.

Na tríplice sentença de Jesus, sobretudo na parábola da casa do homem forte, o messias resume e explica a sua missão, em termos de vitória sobre o mal e libertação do mundo dos poderes demoníacos. As parábolas usadas, revelam-nos a presença de entidades negativas bem superiores à natureza... Trata-se de imagens que lembram a linguagem do AT, onde a intervenção de Deus é descrita pelo profeta Isaías como a vitória de um forte guerreiro  (49,24.25). A recusa da acção de Deus operante na pessoa de Jesus, constitui um verdadeiro insulto ao poder de Deus; é um pecado contra o Espirito, a força divina que age em Jesus desde o batismo no Jordão. O pecado contra o Espirito Santo não pode ser perdoado, não porque seja mais grave que todos dos outros pecados, mas porque representa a falta total da fé, a renúncia a converter-se e portanto à inutilidade do perdão…

A arrogância e o pretexto da autossuficiência do poder, nunca são tão funestas como quando se obstinam a querer evitar o confronto com Deus, desconsiderando a sua acção na história, refugiando-se atrás de comodo alibis de quem gostaria de cobrir os sinais da presença de Deus com a suspeita do irracional, do fideísmo, da superstição, da loucura, das forças ocultas do mal personificado...

Existe o diabo? Com certeza que existe!

Mas recordemos; quanto mais se fala do diabo, mais (o diabo) se mete nas convicções das pessoas, fomentando o medo, despertando velhos horrores…

A PALAVRA É REZADA

Pai santo, é a partir da nudez da nossa condição humana,

sempre ameaçada pelo pecado, que te dirigimos a nossa prece.

Por vezes assalta-nos a ideia de te louvar,

pela abundância de tantos bens...

louvar-te-iamos certamente, se a sociedade do bem estar

fosse fruto de uma vontade verdadeiramente desinteressada,

posta ao serviço do bem comum e solidário.

Felizmente, encontrámos uma pessoa lúdica

que desmonta a armadilha desta cultura de consumo.

Sim, descobrimos Jesus e o seu Evangelho!

Pai santo, o nosso único intuito é seguir Jesus.

Ele é o mais extraordinário de todos os humanos.

Aceita, ó Pai, o nosso desejo de permanecermos em comunhão com Ele

E de te louvarmos dignamente sem fim Ámen.

(In Qumran e La Chiesa: tradução livre de fr. José Augusto)

 

 

1º Esquema

“Quem blasfemar contra o Espírito Santo nunca será perdoado” o ser humano tem uma tendência a cair no orgulho  a não conseguir ver a ação bondosa de Deus nos atos de salvação, da mesma forma os parentes de Jesus que não aceitavam-no como Messias ou os escribas ciosos do próprio poder, não conseguiam ver a ação de Deus nas ações de Jesus e atribuindo o mal a uma ação de Deus é pecar contra o Espírito Santo, como Adão e Eva que em seu orgulho quiseram experimentar do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, serem iguais a Deus, nós também podemos entrar nesse esquema orgulhoso por isso o segredo é o que nos diz São Paulo, saber que essa morada é passageira e que é o homem espiritual, pleno do Espírito que tem que crescer, saber-se frágil para abrir-se a Deus, e acolher a copiosa redenção de nosso Deus.

 

2º Esquema

“Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão...”, podemos de modo fácil condenar os parentes de Jesus que o condenavam por assumir a posição de Messias de Israel, ou a arrogância dos escribas que atribuíam a obra de Deus a Belzebu, porém hoje podemos cair no mesmo erro, e com a cegueira de Adão, optar pelo mal e culpar os outros, para que isso não aconteça temos que fazer parte da família de Jesus, e para isso cumprir a vontade de Deus e buscá-la com todo o nosso ser, através da fé que nos faz ver o Eterno (invisível) em meios ás coisas passageiras (visíveis) e não somente saber intelectualmente mas experimentar que deus é graça e redenção.

 

3º Esquema

A família de Jesus... família são aqueles ligados por laços, laços que no caso de Jesus não é de carne e sangue mas a vontade de Deus que penetrando em nosso coração como traz a oração inicial nos faz praticar o bem. Nessa medida podemos sair do mal que nos faz como a serpente viver a nudez, absolutizando nossa condição carnal, com o ventre sobre a terra, tomando decisões somente presas a esse mundo e vivendo em eterna briga com os filhos de Deus. Somos convocados a discernir o bem do mal, somente na medida em que aceitamos que a nossa morada aqui na terra é passageira, passaremos a vislumbrar o céu em meio às coisas da terra. Por isso, das profundezas de nossa humilde casa clamamos a Deus copiosa e eterna redenção.

Caemem São Miguel Arcanjo

 

 

“Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão,

minha irmã e minha mãe” (Mc. 3,35)

Jesus reúne sua grande família nesta celebração. O Senhor é nossa luz e salvação, é o sustentáculo de nossa vida, por isso nada tememos. Jesus é aquele que vence o mal e deseja formar comunidade com todos aqueles que fazem a vontade de Deus, à espera da vida sem fim.

1. Situando-nos

Continuamos o itinerário espiritual, seguindo os passos de Jesus. Este ano temos como guia o evangelista Marcos, que nos coloca frente a frente com Jesus Cristo, o Messias, que vem instaurar o Reino de Deus. Não vem de forma triunfante, mas como servo sofredor, perseguido, executado na cruz. Neste Domingo, recebemos de Jesus a garantia de que somos de sua família.

É uma nova família que está se constituindo, formada por aqueles que conseguem entrar na intimidade d’Ele, que tem olhos para ver e ouvidos para entender.

A liturgia de hoje nos convida a entrarmos nesse mistério. Convoca-nos a sermos parte de sua família a qual não tem fronteiras de nenhum tipo, nem critérios que consideram uns superiores aos outros. É um grupo aberto a todos e todas que queiram fazer a vontade de Deus, estar ao seu redor, serem seus amigos.

2. Recordando a Palavra

O Trecho do Evangelho de Marcos, lido hoje, está colocado após a escolha dos Doze (3,13-19) e antes das parábolas sobre o Reino de Deus (4,1-34). Ele revela que a escuta da Palavra é condição essencial para ser discípulo de Jesus e participar de sua comunidade. A multidão sofrida acorre a Jesus e participa de sua comunidade, vinda de várias regiões, com esperança de libertação (3,7-12). O caminho do discipulado leva a compreender “o mistério do Reino de Deus” (4,11), que se revela aos poucos em Jesus, o Cristo e Filho de Deus.

Jesus proclamava a Boa-Nova do Reino de Deus nas sinagogas (1,21; 1,39), mas também nas casas (1,29; 3,20), em todo o “espaço”, junto aos pobres, aos excluídos. Havia tanta gente que Jesus e os discípulos não tinham tempo nem para comer (cf. 6,31). Em Nazaré, onde viviam os parentes de Jesus, familiares e conhecidos, muitas pessoas não o reconheceram como o enviado de Deus. Diversos motivos, tais como o contato com os enfermos e pecadores, a questão da observância do sábado, levam a pensar que Jesus enlouqueceu.

A libertação integral das pessoas gera conflitos, especialmente com os líderes religiosos que diziam que ele estava possuído por Beelzebu e expulsava os demônios pelo poder do chefe dos demônios (3,22). Jesus, por meio dos exemplos do reino, da casa dividida contra si mesma e do arrombamento da casa de um homem forte (3,23-27), mostra que suas ações não podem ser realizadas em parceria com Satanás, “aquele que divide”. Um reino e uma casa divididos não subsistem. Quem se opõe à missão de Jesus, guiada pelo Espírito desde o Batismo (1,9-11), “blasfema contra o Espírito Santo”.

Os que acolhem os ensinamentos de Jesus, a serviço da vida e da dignidade das pessoas, realizam a vontade de Deus. Jesus, percorrendo com olhar os que estavam sentados ao seu redor, disse: “Eis minha mãe e meus irmãos! Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (3,34-35).

Sentar-se ao redor de Jesus é a atitude dos discípulos autênticos, que escutam sua Palavra (cf. Lc 10, 38-42) e realizam a vontade de Deus. A comunidade de irmãos e irmãs é formada pelas pessoas que aderem a Jesus e manifestam a presença do Reino de Deus através de palavras e ações.

A leitura do livro do Gênesis pertence a um bloco maior (2,4b-3,24), escrito no tempo do rei Salomão (970-931 a.C.), para mostrar a realidade do ser humano. Adão, “tirado da terra”, e Eva, “mãe dos viventes”, representam o ser humano. A ambição em querer ser igual a Deus afasta do caminho da solidariedade do jardim, plantado ao redor da árvore, onde as relações eram vividas sem violência e dominação. Os caminhos contrários aos ensinamentos do Senhor rompem a harmonia do paraíso, a comunhão fraterna. Deus, porém, não abandona o ser humano, vai ao seu encontro para restaurar sua dignidade.

A serpente, em Canaã e em Israel, era símbolo especialmente de Baal, deus da fertilidade dos animais e plantas. Era usada, na religião oficial para legitimar a concentração do poder nas mãos dos reis, enfraquecendo assim as ações solidárias. O povo é chamado a seguir ao Deus único e a seu projeto de vida digna para todos, não a serpente que gera males em todo o planeta. A promessa da vitória sobre a serpente pela descendência de Eva, a mãe dos viventes (3,15), realiza-se plenamente em Jesus, cuja entrega proporciona a vida eterna ao ser vivente.

O Salmo 129(130), expressa o clamor cheio de confiança a Deus, o único que pode salvar. O salmista espera no Senhor e em sua Palavra libertadora, mais que a sentinela pela aurora, após uma noite de vigilância. O motivo da confiança absoluta é que no Senhor encontra-se misericórdia e copiosa redenção.

A leitura da segunda carta aos Coríntios salienta que a audácia apostólica decorre da confiança na graça do Senhor. Paulo, em meio às tribulações, retoma o Salmo 116, 10: “Acreditei, até mesmo quando eu dizia: é demais meu sofrimento”, e testemunha: “Eu tive fé e, por isso, falei” (4,13).

A fé ativa, imbuída da força do Espírito, suscita o testemunho e o anúncio da Boa-Nova de Jesus. A razão da fé está em Deus, que ressuscitou Jesus e que ressuscitará o ser humano com ele, conduzindo-o à comunhão eterna em sua presença. A adesão a Jesus, no caminho do discipulado, faz a comunidade transbordar de ação de graças para a glória de Deus.

O ensinamento do grande apóstolo insiste a “não perder a coragem, a não desanimar” (cf. 4,1.16) no caminho de transformação interior que conduz à vida nova e plena em Deus. A imagem da tenda dos nômades no deserto ensina a “renovar dia a dia nosso interior”.

O mistério da graça de Deus, que atua em nossa fragilidade, e o testemunho vivo de Jesus, nos guiam no caminho dos valores do Reino, que permanecem para sempre. Paulo lembra que o essencial é confiar no Senhor: “Basta-te a minha graça, pois é na fraqueza que a força se realiza plenamente” (12,9).

3. Atualizando a Palavra

A verdadeira família de Jesus é formada por aqueles que escutam seu ensinamento e praticam a vontade de Deus, no caminho do discipulado. Como seguidores e seguidoras de Cristo, somos chamados a formar comunidades fraternas de irmãos e irmãs, trabalhando na missão a serviço do Evangelho. A realização definitiva do Reino de Deus, manifestado em Jesus, é nossa esperança de novos céus e de nova terra.

Jesus, o Messias/Ungido pelo Espírito, é a esperança que mostra o caminho de volta para Deus. Por meio de seu ministério, plenificado com sua morte e ressurreição, a vida eterna volta a ser condição para o ser humano, que ressuscitará com ele.

Proclamado por João Batista como o “mais forte” (Mc 1,7), imagem messiânica que evoca Isaías 49,24-25, Jesus liberta de todos os males e opressões. Assim, o pecado mais grave consiste em não reconhecer e rejeitar a força de Deus, que se manifesta nas palavras e nas ações de Jesus a serviço da vida plena.

Desde o início do plano do Criador, o ser humano é tentado a desviar-se do caminho da comunhão com Deus e com os irmãos. Ao prestar ouvido à serpente, mais que a Deus e a seu projeto solidário, sofre as conseqüências e perde a dignidade.

A escuta atenta da Palavra de Deus possibilita descobrir as raízes dos grandes males, que afastam a humanidade do projeto da criação de Deus. Todos são impelidos a cooperar na realização do reinado de justiça, amor, solidariedade.

Paulo, enquanto sofre a cada dia por causa do Evangelho, renova a fé e a esperança na ressurreição de Cristo e na nossa. Os desafios da evangelização, as tribulações tornam-se pequenos, comparados à alegria da glória plena no Senhor. O Papa Francisco afirma que precisamos de uma certeza interior, ou seja, da convicção de que Deus pode atuar em qualquer circunstância, mesmo no meio de aparentes fracassos, porque “trazemos este tesouro em vasos de barro” (2Cor 4,7).

O Espírito Santo trabalha como quer, quando quer e onde quer. Nós nos gastamos com grande dedicação, mas sem pretender ver resultados espetaculares. No meio da nossa entrega criativa e generosa, aprendamos a descansar na ternura dos braços do Pai. Continuemos para adiante, empenhemo-nos totalmente, mas deixemos que seja Ele, como melhor lhe parecer, a tornar fecundos nossos esforços (Cf. EG, n.279).

4. Ligando a Palavra com ação litúrgica

Como família de Jesus, entremos na casa da Igreja, na certeza de que Ele é a nossa luz e salvação.

Desde o nosso Batismo, renunciamos a todo tipo de ação que nos separa do projeto de Jesus Cristo. A participação nos sacramentos da Igreja nos ajuda a nos mantermos firmes no caminho de Jesus.

A liturgia de hoje nos coloca frente a frente com a pessoa de Jesus que pede de nós uma opção: fazer a vontade de Deus.

Sozinhos, somos impotentes e frágeis. Na força do Espírito do Senhor, iniciamos nossa celebração pedindo: “Ó Deus, fonte de todo o bem, atendei ao nosso apelo e fazei-nos, por vossa inspiração, pensar o que é certo e realizá-lo com vossa ajuda” (oração do dia).

Firmemos nossos passos no caminho do Senhor, coloquemos n’Ele nossa esperança. Esperemos em sua Palavra e, a cada dia, com ouvidos de discípulos, possamos discernir a vontade d’Ele sobre nós. Como família de Jesus Cristo, façamos acontecer aqui e agora o Reino de Deus.

 

 

Nesta Eucaristia, Jesus nos diz que a sua família são todos aqueles e aquelas que fazem a vontade de Deus, e que por isso estão fortes e firmes para lutarem contra toda força do mal. O reino da maldade chega ao fim para dar início ao Reino de Deus. Esta vitória só é possível com a nossa ajuda. Peçamos a Deus que esta celebração nos torne cada vez mais fortes para ajudar nesta luta contra o mal.

1. Situando-nos brevemente

O Senhor nos reúne em sua casa que é a comunidade onde somos acolhidos, batizados, irmãos e irmãs, ouvintes da Palavra, proclamadores das maravilhas da salvação, aprendizes da partilha e do perdão, e sempre enviados em missão. A assembléia é convocada para ser enviada.

A comunidade, a casa de Jesus, comprometida com o bem e a fraternidade, vive em tempos de ganância, violência, corrupção, impunidade, enfim, um rosário de coisas que fazem o povo sofrer. E, ainda, tantas vezes, é vítima de calúnias e suas lideranças são ameaçadas, perseguidas e até mortas violentamente.

A Palavra de Deus vem ao encontro das comunidades e as motiva a continuarem na luta e a melhorarem as condições de moradia, de emprego, de salários e de pão para todos. A Palavra ajuda a identificar os responsáveis por essa triste situação de fome, de injustiças, de violência e de agressão à vida. Deus mesmo não quer o mal e muito menos compactua com ele. Jesus veio para amarrar satanás e tirar do seu poder o povo explorado, injustiçado e sem dignidade e liberdade.

Jesus constitui uma nova família com os que fazem a vontade de Deus e entram no seu projeto de vida, aceita viver a fraternidade, romper os padrões envelhecidos e carcomidos pelo tempo que não mais se colocam a serviço do bem comum da população: a nossa comunidade.

2. Recordando a Palavra

O livro do Gênesis lembra o pecado de Adão e Eva. A palavra Adão vem significar homem. Seu pecado, como o nosso, nos dias de hoje, é: o orgulho de ser igual a Deus, querer ser seu próprio deus ou fabricar deuses à sua imagem e semelhança. E, quando os olhos de Adão se abrem, constata que está nu, ou seja, desprotegido e com medo diante de Deus.

Mesmo no pecado e no afastamento, Deus não o rejeita, mas castiga a serpente, símbolo do mal e mais tarde identificada com o demônio, autor e princípio de todo o pecado. No futuro, a descendência humana vai esmagar a sua cabeça, uma referência a Jesus Cristo que vence o demônio pela sua morte e ressurreição.

O mal, portanto, não vem de Deus, mas do homem. Deus fez todas as coisas perfeitas, mas os humanos subvertem o seu plano, pensam conseguir a felicidade dando asas às suas paixões e interesses, virando as costas para Deus.

Ou seja, o homem e a mulher “comeram” do fruto, isto é, deram livre curso à ganância e ao orgulho, tornando-se eles próprios o critério para decidir o que é bem e o que mal. Com isso, as pessoas acham que podem fazer o bem entendendo-o como  um “salve-se quem puder”. E a sociedade torna-se um campo de batalha, onde reina o medo de ser devorado ou explorado pelo outro (“fiquei com medo, porque estava nu e me escondi”).

Medo, nudez e fuga são esconderijos quando as pessoas são lobos umas para as outras. E ninguém quer ser responsável por seus atos e manipulações. Adão culpa Eva e Eva responsabiliza a serpente. Medo e acusação estão introjetados nas relações humanas.

Em vez de optar em colocar limites ao desejo de “comer”, o homem deixou-se possuir pelos seus desejos e paixões e permitiu que a serpente decidisse em seu lugar, tornando-se a pedra de tropeço nos caminhos da verdadeira felicidade.

Mas, Deus aponta um caminho de esperança: a certeza da vitória está na descendência justa, que fere mortalmente a cabeça da serpente. Deus quer uma geração nova que será a família de Jesus (conforme o Evangelho). Uma família, comunidade que lute contra tudo o que divide e escraviza as pessoas. Uma comunidade de irmãos, de mães e de filhos, que faz do relacionamento fraterno e amigo o centro de suas alegrias e esperanças.

O Salmo 129 (130) é a súplica de uma pessoa em grave situação, que clama por Javé que se mostra ao Deus da aliança. O salmo respira temor, confiança e esperança em Deus. Era cantado pelos israelitas na peregrinação anual para Jerusalém. O salmista fala em nome de todo o povo que se reconhece pecador e invoca Deus do profundo abismo que se encontra. Tem consciência que somente Deus o pode perdoar e espera com fé a sua palavra de paz.

A carta aos Coríntios, escrita num momento difícil na vida de Paulo, mostra o “espírito de fé”, a força carismática que leva o apóstolo a testemunhar sua fé sustentada pela esperança do encontro com o Ressuscitado no final da caminhada. Enquanto o homem exterior vai caducando e se deteriorando, o interior se renova em e para Cristo.

Da aflição e dos sofrimentos atuais, passamos à glória eterna. Isto tem sentido quando lembramos o relacionamento tenso de Paulo com a comunidade de Corinto, onde havia numerosos adversários que faziam de tudo para criar-lhe complicações e atrapalhar a sua vida de missionário dedicado e carinhoso.

Os bens materiais não podem ser considerados como os únicos objetivos na vida. O homem se serve deles para poder viver e não para acumular riquezas e poder. A vida presente não é definitiva, tem um começo e tem um fim. Por isso, Paulo se alegra, pois, quando se desfizer este corpo, receberemos um corpo nos céus, não feito por mãos humanas.

O Evangelho de Marcos tem uma solicitude básica que procura responder à pergunta: Quem é Jesus? Ele não apresenta apenas uma resposta teórica, mas fundamentada no seguimento e engajamento nas práticas de Jesus. Na perícope de hoje, trabalha a reposta através dos exorcismos e indica como as pessoas vão se definindo contra ou a favor de Jesus.

Marcos apresenta Jesus, tantas vezes, no meio da multidão, onde Ele se sente “em casa”, ao que parece. Nesta casa, Ele vai mostrando quem é. A casa de Jesus , local da sua morada, repouso do seu coração e missão, é o lugar onde se reúnem os sofredores e os discriminados de toda espécie, a ponto de Ele e seus discípulos não terem tempo para comer e dormir.

Mas a missão de Jesus encontra obstáculos de toda ordem, mesmo no seio da sua família. Os seus parentes saem de casa para agarrá-lo e o chamam de louco. Procuram recolhê-lo.

Realizar as obras de Jesus e proclamar o Evangelho é muito perigoso, pois mexe com muita gente, mina as seguranças e relativiza as instituições religiosas do tempo.

A arma dos inimigos é desmoralizar ou rebaixar quem age desse jeito. E os doutores da lei vêm como enviados de Jerusalém, interessados em não mudar nada. Toda situação econômica e religiosa lhes era muito favorável.

Acusam Jesus de endemoninhado e parceiro de satanás, príncipe dos demônios. E o pecado deles é muito grave. Fecham-se em sua ganância e prepotência. Estão cegos pelo “brilho” do seu orgulho. Não são capazes de ver e ouvir os sinais dos tempos, nem sequer de dialogar com quem vinha com outra proposta e outro projeto de sociedade, de economia e de convivência entre as pessoas.

3. Atualizando a Palavra

Quem pratica o mal não se encontra mais no lugar que lhe foi designado e confiado na criação. Deus o procura e chama… e não o encontra. “Onde está?” Está, portanto, fora do lugar, longe do projeto original e distante da bênção de Deus, que é vida e paz para todos.

O local previsto e preparado por Deus não é o pecado, o orgulho e a dominação, que distanciam os homens uns dos outros. Os que pecam se sentem nus, como os escravos, despojados da liberdade e da dignidade humana.

Ao deixar conduzir pelo egoísmo, o homem destrói a si mesmo e abala a ordem da natureza, que se revolta, perde a fertilidade, chama catástrofes produz cardos e espinhos.

A verdade continua a mesma: quem julga poder proclamar sua independência diante de Deus, quem pretende construir seu próprio mundo, quem se isola em seu egoísmo não considera Deus como seu amigo, mas como um adversário a ser temido, evitado, mantido à distância.

“Ouvi o barulho dos teus passos no jardim e tive medo”: ou seja, a presença de Deus incomoda, coloca ruídos na consciência e atrapalha o sossego do paraíso. Deus criou os homens para se ajudarem. O pecado, ao contrário, os desune, os afasta uns dos outros e os torna inimigos.

Colocados, nesta celebração, frente a frente do Evangelho, concluímos como é importante cada um descobrir e assumir a sua missão, contribuindo com a sua parte na construção de uma nova sociedade, que é a família de Jesus, cujo espelho é a comunidade litúrgica, a verdadeira mãe e irmã do Senhor, onde se cultiva o bem, se vive a fraternidade, se partilha os bens e se luta para melhorar a qualidade de vida de todos e para todos. Essa convicção da missão ajudará a sair do comodismo, a vencer críticas e superar todo tipo de dificuldades.

4. Ligando a Palavra e a Eucaristia

Talvez nem sempre consigamos avaliar o valor e a importância da celebração em nossas vidas e no crescimento espiritual da comunidade, discípula missionária, enviada ao mundo para fazê-lo mais bonito, mais humano e tornar-se mais sensível aos problemas e dificuldades das pessoas, especialmente dos pobres, marginalizados e rejeitados.

E acolher a Palavra de Deus é permitir que a ação do Espírito nos transforme e que Jesus nos introduza no seu jeito de viver a obediência ao Pai e de servir a humanidade. A celebração faz memória e atualiza em nossas vidas a prática de Jesus. Nela nos envolve e com ela nos compromete. Pelo ritual da celebração, entramos e comungamos na prática libertadora e caritativa de Jesus.

A força e o poder de Deus não estão na violência nem na organização de uma cidade. Jesus demonstra isso: aceitou ser homem frágil, mas uma fraqueza que vence o demônio. Contemplando essa pedagogia e os ensinamentos de Jesus, nos acercamos da mesa eucarística, reunidos em comunidade, em torno do pão e do vinho, numa atitude de paz, imbuídos pela oração do salmista: “espere Israel pelo Senhor pois nele se encontram toda graça e copiosa redenção. Ele vem libertar Israel de toda a sua culpa”.

dom Vilson Dias de Oliveira, DC

 

 

Crise, de quem é a culpa?

O apóstolo Paulo afirma que em Adão “todos pecaram” (Rm. 5,12). Seria o mesmo quando citamos a profunda crise que o Brasil vem enfrentando? De certa forma, todos nós temos um pouco de culpa, porque os que mais contribuem para essa situação são aqueles que elegemos nas eleições. No centro de tudo está o “deus dinheiro”, mas também a irresponsabilidade na administração pública.

A paralização dos caminhoneiros tem uma dimensão e um alcance muito grande, porque reflete a indignação de quase todos os brasileiros. Não pecamos tanto para merecer pagar tantos tributos, tantos impostos, sem poder contar com os benefícios que deveriam vir daí! É o fruto do pecado causado pelas injustiças instituídas do Estado brasileiro, causando injustiça social e sofrimento do povo.

A presença soberana de Cristo na história do povo hebreu trouxe esperança para muitos. Ele evidenciou a possibilidade de superação do mal, do pecado, daquilo que fragiliza a identidade das pessoas. Não conseguimos visualizar um construtor de esperança para o Brasil. Estamos “perdidos” em relação às próximas eleições. Está diante de nós um grande desafio, o de escolher quem salvar o país.

Se a culpa pela má administração está em todos nós, cabe-nos agora ter postura de responsabilidade. Em outubro vamos votar novamente. Estamos na hora de eliminar do cenário político nacional e estadual todos os envolvidos com a corrupção. Vão estar aí os mesmos do passado e não vão ser diferentes numa nova gestão. Escolhamos pessoas novas e isentas de corporativismo.

Lamentavelmente muitas pessoas se sucumbem diante das fragilidades e tribulações. Mas esse não deve ser o caso das pessoas de fé, de esperança e centradas nos ensinamentos de Jesus Cristo. A atual crise econômica, a dissonância entre os políticos e o povo e o aumento dos combustíveis veem causando indignação, mas também exigem compromissos mais sérios da parte de todos os brasileiros.

No âmago da questão, não podemos confundir o bem com o mal. A paralização é um bem, mas não foi assumida por todos e, por isso, não consegue mudar o Brasil para melhor, porque continuam os enriquecimentos ilícitos à custa da desonestidade e da injustiça. O bem verdadeiro acaba sendo sufragado pela mercantilização do mal e a esperança de um mundo melhor fica fragilizada.

dom Paulo Mendes Peixoto

 

 

“A misericórdia de Deus”

Por sua própria misericórdia lhes perguntou, para que a acusação recaísse sobre a mulher, e a interrogou novamente, para que ela por sua vez transferisse a culpa para a serpente. De fato, ela declarou o que aconteceu: A serpente me seduziu e eu comi. Deus não interrogou a serpente, porque conhecia muito bem ao príncipe da transgressão; mas primeiramente lançou contra ela a maldição, de maneira que (só) em segundo lugar recaísse sobre o homem uma repreensão. Pois Deus odiava ao que seduziu ao ser humano; mas pouco a pouco sentiu misericórdia por aquele que tinha sido seduzido.

Por este motivo “o expulsou do paraíso” e o afastou da “árvore da vida”. Não é que Deus sentisse ciúmes pela árvore da vida, como alguns se atrevem a opinar; mas foi ato de misericórdia afastá-lo para que não continuasse transgredindo, a fim de que seu pecado não estivesse nele para sempre como um mal insaciável e sem solução. Deste modo o impediu de continuar transgredindo o preceito, impôs-lhe a morte e marcou um limite ao pecado ao colocar-lhe um fim na terra mediante a dissolução da carne. Desta maneira o homem, ao morrer, deixaria de viver para o pecado e começaria a viver para Deus.

Por isso Deus colocou uma inimizade entre a serpente e a mulher e sua linhagem, à espreita uma da outra, a segunda mordida ao calcanhar, mas com poder para esmagar a cabeça do inimigo; a primeira, mordendo e matando e impedindo o caminho do homem, até que veio a descendência predestinada a esmagar a sua cabeça: este foi aquele que Maria deu à luz. Dele diz o profeta: Caminharás sobre a serpente e o basilisco, com teu pé esmagarás ao leão e ao dragão, indicando que o pecado, que havia se estabelecido e expandido contra o homem, e que o matava, seria aniquilado junto com a morte reinante; e que por ele seria esmagado o leão que nos últimos tempos se lançaria contra o gênero humano, ou seja, o anticristo, o dragão que é a antiga serpente, e o ataria e submeteria ao poder do homem que tinha sido vencido, para destruir todo o seu poder. Porque Adão tinha sido vencido, e do qual se tinha arrebatado toda vida.

Assim, vencido novamente o inimigo, Adão pôde receber de novo a vida; pois a morte, a última inimiga, foi vencida, que antes tinha em seu poder ao homem. Por isso, libertado o homem, acontecerá o que está escrito: A morte foi devorada pela vitória. Onde está, ó morte, tua vitória? Onde está, ó morte, teu aguilhão? Isto não poderia ter-se dito se não houvesse sido libertado aquele sobre o qual a morte dominou ao princípio. Porque a salvação deste consiste na destruição da morte. E a morte foi destruída quando o Senhor deu vida ao homem, quero dizer, a Adão.

santo Irineu

Tratado contra as heresias

Lecionário Patrístico Dominical, pp. 406-407

 

 

Estamos do lado de dentro ou do lado de fora da casa? Tentaremos responder essa pergunta na homilia de hoje. Da ruptura com Deus surge o medo, a vergonha e a insolidariedade, que só podem ser vencidos por quem se coloca do lado de dentro da casa, onde está o Senhor.

O medo de Deus é o primeiro sinal de transtorno nas relações com o Criador. O medo e a vergonha começam a fazer parte do cotidiano das relações humanas. O livro do Gênesis tenta mostrar que a quebra da confiança, a ruptura que aconteceu na história humana, são de responsabilidade do próprio ser humano que, além de ter optado por não confiar em Deus, ainda tenta culpar um ao outro – foi a mulher, foi a serpente – sendo que um foi cúmplice do outro! [1]

O que acontece conosco, em nossas relações, que para realizar ações más, somos, muitas vezes, “solidários”, contudo, na hora de assumir as consequências do mal que cometemos, parece que fugimos da responsabilidade. Minha resposta pode ser simplória, mas expressa uma realidade: é porque rompemos com o Criador e preferimos os nossos critérios aos critérios de Deus. Contudo, existe um modo de mudar essa história.

No evangelho, a instituição religiosa oficial de Israel vê na pregação de Jesus uma afronta, pois sua pregação do Reino de Deus leva a enfraquecer o poder humano e torna os pequenos o centro da ação, levando a acreditar que eles tem um lugar privilegiado no mesmo reino. Por isso, Jesus é acusado de estar possuído por Belzebu. O Mestre quer mostrar que é preciso restabelecer as relações humanas, que são fruto do relacionamento com Deus. Por isso, é necessário estar dentro da casa, aderir plenamente ao projeto do Reino. [2]

O essencial em nossas vidas é estar com o Senhor e, estar com o Senhor, significa fazer a vontade do Pai, que se expressa pela pregação e ação de Jesus. Todos que assumem essa realidade tornam-se parte da família de Jesus. A mãe e os irmãos de Jesus que aparecem no Evangelho, nada tem a ver com Maria e possíveis “irmãos e irmãs” de sangue de Jesus, mas diz daqueles familiares de Jesus que estão a favor da instituição oficial e que rejeitam os seus ensinamentos.

O Pecado contra o Espírito Santo, do qual fala o evangelho, nos leva de volta ao texto do gênesis, pois consiste na rejeição total e consciente da graça de Deus. Da mesma forma com que o ser humano de afastou de Deus no princípio e tumultuou sua vida e suas relações, o pecado contra o Espírito Santo leva a rejeitar as oportunidades que temos de restabelecer nossa vida no amor de Deus e na convivência com os irmãos

Nos coloquemos do lado de dentro da casa onde, unido a Jesus e a seu projeto, aprendamos a trocar o medo de Deus pela confiança e abandono total e, a solidariedade no pecado pela solidariedade na graça. Busquemos as coisas invisíveis e a tenda de Deus como diz São Paulo e nossa vida se transformará, pois faremos parte da família de Deus onde há abundância de graça e “a tribulação momentânea acarreta para nós uma glória eterna e incomensurável.

http://homiliaspadretalispagot.blogspot.com.br/2015/06/homilia-do-10-domingo-do-tempo-comum.html?showComment=1433603974614

[1]  Cf. RAD, G. Von. El libro del Genesis

[2] Cf. MATEOS, J.; CAMACHO, F. Marcos

padre Talis Pagot

 

 

 

A fragilidade humana e a força divina

A Palavra de Deus deste domingo nos desafia a fazer uma maravilhosa viagem espiritual por dentro de nós mesmos, para melhor tomarmos consciência da nossa condição humana. Somos naturalmente frágeis, manipuláveis, enganáveis (I leitura). Mas não estamos entregues à deriva das nossas fragilidades. A Fé em Deus é um recurso poderoso que nos possibilita viver com serenidade carregando tesouros em “vasos de argila” (II leitura). Somos como um frágil vaso de argila. Somente nos tornando íntimos de Jesus é que nos tornaremos fortes para vencer os males do mundo sendo guiados pelo seu Espírito (Evangelho).

1ª leitura: Gênesis 3,9-15

A ambivalência humana

O texto tenta dar uma explicação religiosa para a origem do mal que aflige o ser humano. Apesar da tentativa da explicação (através da fábula) a questão continua aberta: a presença da serpente (cf. Gn. 3,1) quer evidenciar o mistério do mal que está presente na vida humana e a transcende. A serpente para a cultura judaica era considerada um animal imundo (cf. Lv. 11,41-42) e na palestina no tempo de Jesus havia muitas espécies desse animal, era fácil de serem vistas e perigosas por seu veneno letal. Para o profeta Isaías no acerto de contas final, no fim dos tempos, Deus vai castigar Leviatã, a serpente escorregadia, a serpente tortuosa, o dragão do mar e o exterminará (cf. Is. 27,1). O mar é a história. É quase a mesma profecia do Livro do Apocalipse que também narra sua força destruidora e também seu fracasso final (cf. Ap. 12; Ap. 20,2-3). A vida toda de Jesus no seu processo de promoção do Reino de Deus travou lutas contra Satanás e seus demônios. Voltemos ao texto do gênesis. O texto destaca na vida de “Adão e Eva” (= a humanidade!) a presença de um sujeito que a seduz, a provoca, a enganar e distorce as orientações divinas. Esse sujeito mentindo e se opondo ao Deus criador propõe à Eva a ruptura das regras colocadas por Deus (cf. Gn. 3,1-7). Eva reconhece à ordens divinas, mas aceita o que a serpente lhe sugere e, assim, o desobedece! Iludida por sua proposta, envolve na mesma situação o seu companheiro (Adão). As consequências são desastrosas: o oposto daquilo que foi apresentado pela serpente. Por isso a palavra “Satanás”, quer dizer aquele que mente, aquele que engana. Satanás é mentiroso e enganador. Aproveita-se da fragilidade de suas vítimas. O texto nos apresenta três questões básicas: a) as consequências da desobediência de Adão e Eva (a humanidade): se escondem de Deus com medo de serem punidos (cf. Gn 3,10), tomam consciência da própria situação (estar nu) e, por isso, envergonhados (cf. Gn. 3,10-11); o conflito e a desarmonia entre os dois que trocam acusações e todos fogem da responsabilidade considerando-se vítimas (cf. Gn. 3,12-13); b) A solidariedade entre Adão e Eva: se tornam colaboradores, parceiros e cúmplices da serpente (cf. Gn. 3,11-13); c) Por fim, a sentença de maldição:  Deus lança sobre a serpente e declara inimizade entre a mulher e a serpente que se estenderá para os descentes de ambas (cf. Gn. 3,14-15); o texto acena à luta que prevê vitória da mulher ao final: a serpente ferirá o calcanhar da mulher e a mulher por sua vez esmagará a cabeça da serpente (cf. Gn. 3,15). É a profecia da vitória da humanidade sobre o mal. Em Jesus e com ele a humanidade é vitoriosa, triunfante!

Nossa vida

Adão e Eva significam a humanidade, é cada um de nós profundamente marcado pela “rebeldia”. Adão e Eva é a humanidade criada para ser livre e responsável, que se rebela contra o criador não aceitando sua condição de criatura. Todavia, o texto bíblico indagando sobre a origem do mal, vai além da liberdade humana: uma serpente que sugere. Na origem do mal está Satanás que apresenta suas propostas. Teria o ser humano capacidade, em nome da liberdade, de fazer o mal a si mesmo? Satanás tem grande força sedutora capaz de fazer Eva se opor às ordens do seu criador, revelando-se assim frágil em sua vontade e com pouca relação de comunhão com aquele que lhe deu a vida. Esse dado reforça uma importante afirmação teológica: o ser humano é livre e por isso, a partir de suas escolhas, pode se tornar colaborador de Satanás (cf. Eclesiástico 15,14-20). Ele somente nos propõe (cf. as tentações de Jesus – Mt. 4). A liberdade humana será mais forte e autêntica quanto mais estiver em comunhão com a vontade divina. A fragilidade da vontade e da liberdade humana, quando seduzida, leva o ser humano a fazer o mal a si mesmo que arcará com as consequências das próprias escolhas. A liberdade absoluta é uma ilusão humana. Por sermos criaturas, temos uma liberdade condicionada. Somente respeitando os nossos limites (impostos por Deus a partir da nossa natureza) é que podemos viver em harmonia; somos criaturas! Por isso somos convidados a nos educar na liberdade e na responsabilidade. Imaturo é, quem como Adão e Eva, jogam para os outros as consequências dos próprios males. Enfim, a natural fragilidade humana, profundamente ambivalente (que serve tanto para o bem, quanto para o mal), deve ser diminuída com a comunhão divina.

Salmo 130 (129)

É um salmo de súplica em que o salmista, com todas as forças, clama a Deus pedindo perdão (cf. Sl. 130,1-2). O penitente confessa questionando que, se Deus levar em conta as nossas culpas, ninguém poderá resistir (cf. Sl. 130,3). Mas de Deus vem o perdão, a Esperança, a graça redentora em abundância (cf. Sl. 130,4-7). É Deus quem perdoa Israel de todas as suas culpas (cf. Sl. 130,8).

2ª leitura: 2 Coríntios 4,13-18;5,1

A fraqueza humana e a força divina

O contexto no qual a presente leitura está inserida fala da fragilidade humana. Paulo diz que o mistério da fé, que é um tesouro, nós o carregamos em vasos de argila para que reconheçam que esse poder maravilhoso nós o recebemos de Deus (cf. 2Cor. 4,7.13). O “vaso de argila”, portanto, delicado e fácil de despedaçar-se, é a condição humana com o seu conjunto de fragilidades. Mas não estamos entregues a nós mesmos para vivermos à deriva dos nossos instintos egoístas (cf. Rm. 8,5-7). Para quem tem fé, a fragilidade humana é superada pela força do Espírito Santo que Dele recebe sustento e consolo (cf. Rm. 8,26) para a glória de Deus (cf. 2Cor. 4,15) fazendo o bem. Por isso somos atribulados de todos os lados, mas não desanimamos (cf. 2Cor. 4,8). Apesar dos sofrimentos, “não perdemos a coragem. Pelo contrário: embora o nosso físico vá se desfazendo, o nosso homem interior vai se renovando a cada dia” (cf. 2Cor. 4,16). Paulo acentua que a experiência da fragilidade com todas as suas tribulações é passageira e leve em comparação à glória da eternidade (cf. 2Cor. 4,17; Rm. 8,18). Alimentados pela Fé e pela esperança da glória futura “não procuramos as coisas visíveis, mas as invisíveis; porque as coisas visíveis duram apenas um momento, enquanto as invisíveis duram para sempre” (2Cor. 4,18). O nosso corpo, tenda em que habitamos neste mundo, por ser uma realidade terrena, passará mas de Deus receberemos uma morada eterna...  (cf. 2Cor. 4,18), ou seja, um corpo glorioso (cf. 1Cor. 15,43).

Nossa vida

A pessoa que tem fé não é um superdotado ou alguém que foi constituído por Deus com uma natureza diferente... Não! Somos todos partícipes da mesma condição humana. Dotado de inteligência, vontade e liberdade, o ser humano também foi capacitado pelo criador para tomar consciência do dinamismo da sua existência, explorar seus dons, mas também, através da sua razão tomar cuidado com suas fragilidades. Para isso através da dimensão religiosa, enquanto natural abertura ao transcendente (Deus) o ser humano pode suplicar ajuda do alto. Sem isso, o ser humano permanece centrado em si mesmo, sem visão metafísica (além o mundo material). Mas movido pela Fé, será capaz de perseverar na prática do bem buscando a glória da imortalidade (cf. Rm. 2,7). Dessa forma ele dá sentido para sua existência. De fato, a experiência da fé muda a dinâmica e o conteúdo na nossa vida. A experiência da Fé é um recurso divino voltado em primeiro lugar para ajudar-nos a gerir a nossa vida (com suas riquezas e fraquezas) com sabedoria de acordo com a vontade de Deus. Quem tem fé vive melhor... Isso não significa que não tenhamos problemas!

3ª Evangelho: Marcos 3,20-35

O pecado sem perdão é recusar a ajuda divina

As leituras anteriores estão em profunda relação com os ensinamentos do Evangelho. Jesus nos alerta para um pecado sem perdão! Jesus manifestava uma grande paixão pela promoção do Reino do Pai e por isso atraía muita gente (cf. Mc. 3,20). Mas seus parentes não entendiam a total dedicação de Jesus ao Reino de Deus e por isso pensavam que Ele tinha ficado louco (cf. Mc. 3,21). Por outro lado, também os doutores da lei o acusavam de estar possuído por Belzebu, o príncipe dos demônios e através dele, expulsa demônios (cf. Mc. 3,22). A acusação é contraditória e sem consistência. Por isso Jesus rebate dizendo que Satanás não pode expulsar Satanás, ele não pode estar dividido contra si mesmo senão se destrói (cf. Mc. 3,24-26). Ao contrário, diz Jesus: “Ninguém pode entrar na casa de um homem forte para roubar suas coisas, se antes não amarrar o homem forte. Só depois poderá roubar a sua casa” (Mc. 3,27). Esse sujeito mais forte é o próprio Jesus! Se Ele é todo-poderoso (cf. Jo 10,29), é mais forte do que Satanás, e este não tem poder sobre Jesus (cf. Jo 14,30). Então Jesus lamenta o fechamento dos doutores da Lei e diz: “tudo será perdoado aos homens... Mas, quem blasfemar contra o Espírito Santo, nunca será perdoado, pois a culpa desse pecado dura para sempre.» (cf. Mc 3,28-29). A blasfêmia contra do Espírito Santo é a negação do poder de Jesus. Era pelo poder do Espírito Santo que Jesus agia (cf. Lc. 4,1; Rm. 15,17; At. 8,10; 10,38). A narração retorna ao início falando dos verdadeiros parentes de Jesus: não são os seus consanguíneos,mas aqueles que acolhem o mistério divino e põem em prática a Palavra de Deus (cf. Mc. 3,33-35). O grupo dos supostos irmãos de Jesus, são Tiago (menor), José, Judas e Simão (cf. Mt. 13,55-56). O pai deles, na verdade, é o senhor Alfeu, ou também chamado Cléofas, que é esposo de Maria de Cléofas (cf. Lc. 6,15-16 = Mt. 27,56 = Mc. 6,3). A mãe deles é Maria de Cléofas esposa de Alfeu que é irmã de Maria, a mãe de Jesus (cf. Jo 20,25). Portanto, os supostos “irmãos de Jesus” citados são na verdade seus primos (cf. Mt. 10,3; Mt. 27,56; Mc. 6,3). A palavra irmão, na cultura hebraica, era usada para designar, em geral uma relação de parentescos, mas também tinha outros significados.

a) “Irmãos” são todos aqueles acolhem Jesus como seu senhor e mestre (cf. Mt. 23,8; Mt.  28,10; Lc. 22,31-32);

b) “Irmãos” são todos os discípulos de Jesus Cristo: At. 1,15-16; At. 2,37; At. 3,17; At. 7,25-26; At. 11,12; At. 11,29; At; 12,17; At. 13,15; At.  15,7; At. 18,18...

c) “Irmãos” são os descendentes de Abraão, da mesma raça e sangue (cf. At. 13,26; Rm. 9,3; Ex. 2,11).

Nossa vida

Deus nos criou dotados de livre arbítrio, enquanto faculdade que nos possibilita sair de nós mesmos e fazermos escolhas. Graças o livre arbítrio (capacidade de fazer escolhas) podemos nos manifestar diante das propostas dos outros e de Deus. Também por causa do livre arbítrio podemos nos fechar e recusar toda e qualquer auxílio vindo de fora concentrando-nos unicamente em nossos próprios recursos. Falta de sabedoria é fechar-se! Também isso é possível! Jesus lamenta a rejeição da evidência da origem do Bem que fazia por parte dos doutores na lei. Mesmo sem fé eles deveriam estar abertos para reconhecer o bem que Jesus fazia, pois o bem vem o Bem... E quem faz o bem é do Bem, pertence ao Bem e é bom! Se não gostamos de alguém (questão afetiva), mas este faz objetivamente o bem, devemos reconhecê-lo, acolhê-lo, respeitá-lo. O reconhecimento do bem é uma questão racional, mais do que afetiva! Por isso ele se impõe superando as barreiras afetivas. É uma atitude de desonestidade e egoísmo exacerbado não reconhecer o bem que o outro faz (ou possa fazer!) simplesmente pelo fato de considerá-lo inimigo ou de não lhe ser simpático. Esse pecado podemos cometer quando a força da antipatia se sobrepõe à grandeza da nossa fé e da nossa humildade a negar totalmente qualquer bem que há no outro. Enfim, somos convidados a ser os verdadeiros parentes de Jesus que o conhecem, o aceitam, lhe obedecem e o seguem.

Antônio de Assis Ribeiro - SDB (padre Bira)

 

 

 

“Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”

Esta segunda parte do terceiro capítulo de Marcos nos apresenta uma característica bastante usada neste Evangelho. O autor intercala uma discussão com os escribas (vv. 22-30) em uma cena em que Jesus se defronta com a incompreensão da sua família (vv. 20-21.31-35). Ele usa o mesmo procedimento em 5,21-43; 6,7-33; 11,11-21 e 14,1-11. A finalidade é para que o leitor interprete um evento à luz do outro. Assim, no texto de hoje, devemos nos perguntar com os versículos que tratam dos familiares de Jesus e o trecho referente à discussão com os escribas lançam luz um sobre o outro. Na verdade, em ambos os casos, Jesus é objeto de acusações falsas, e é incompreendido, ou até rejeitado, pelos seus familiares, bem como pelas autoridades de Jerusalém.

Não há dúvida que a atividade de Jesus causa espanto e choque. Trabalhando até a noite em prol dos excluídos e sofridos, misturando-se com gente considerada impura pela religião oficial, e portanto, com esta ideia introjetada na visão do povo comum, e criticando fortemente as lideranças religiosas do seu tempo, Jesus parecia para muitos “louco” ou possuído por um demônio, ou algo semelhante. Numa cultura onde “honra” e “vergonha” eram conceitos chaves para qualquer família, os familiares de Jesus resolveram conter o problema, indo “segurá-lo” e trazê-lo para a casa da família.

O confronto com a família continua nos vv. 31-35. É interessante como Marcos constrói a cena. Quando os parentes chegam ao local onde ele está pregando, eles nem tentam entrar para escutá-lo ou para conversar com ele. Eles deliberadamente ficam do lado de fora e mandam chamá-lo. Isso contrasta muito com a cena de dentro - onde uma multidão está sentada ao redor de Jesus - a atitude de discípulo. Quando é informado da presença dos seus parentes fora, Jesus olha aos que estão ao redor dele e faz uma declaração espantosa e contundente: “Aqui está minha mãe e meus irmãos!” O texto logo explica o sentido dessa afirmação: “quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe!” Na verdade, Jesus não está denegrindo a sua família, mas insistindo nas novas relações que nascem do discipulado d’Ele. Parentesco não traz privilégio nenhum - o importante é ser discípulo e cumprir a vontade de Deus. Assim Jesus afirma que na medida em que nós nos tornamos discípulos/as, teremos a mesma dignidade que a sua mãe e parentes. Tudo se relativiza diante das exigências do Reino e do seguimento!

Embora não seja uma questão de grande importância, talvez umas palavras sobre o sentido da frase “irmãos e irmãs de Jesus”. É bom lembrar que na tradição do Oriente Médio, não se define a família como o pequeno núcleo de pai, mãe e filhos, mas inclui parentes próximos e distantes. A versão grega do Antigo Testamento usa a palavra: “adelfos” (irmão) nos dois sentidos, restrito e amplo (Gn. 29,12 e 24,48). Podemos dizer que na tradição cristã, existem três tipos de interpretação para esta questão. Primeiro, entende-se o termo “irmão” no sentido do uso oriental. Segundo, usando um documento apócrifo (não canônico) do século IV chamado proto-Evangelho de Tiago, se diz que a Maria casou com um viúvo idoso, José que já tinha seis filhos/as: Judas, Tiago, Joset, Simão, Lídia, Lísia. Assim, os “irmãos” seriam só da parte de José e não da Maria. Terceiro, seguindo São Jerônimo, se diz que são primos de Jesus em primeiro grau. O importante é saber que a concepção virginal de Jesus está claramente ensinada na Bíblia e faz parte do Credo apostólico. Mas, a questão da virgindade perpétua de Maria não é tocada nos Evangelhos, e não adianta buscar argumentos neles em favor ou contra. Essa doutrina faz parte da fé católica desde os primórdios.

A disputa com os escribas também intriga umas pessoas quando fala do “pecado contra o Espírito Santo” que não tem perdão. Em que consiste? Segunda a nota do rodapé da Bíblia TEB, “este pecado consiste em negar-se a reconhecer o poder que atua por meio de Jesus, atribuindo a Satanás as obras que ele realiza pelo Espírito Santo. Tal recusa à conversão contraria o perdão”. Mas, as palavras fortes referentes a este pecado não devem tirar a nossa atenção de algo muito mais importante - que todos os outros pecados, por tão “pesados” que possam ter, têm perdão. Esse fato é um grande “Evangelho”, ou “Boa Notícia” e deve nos animar que para que sejamos portadores dessa mensagem de perdão e reconciliação a todos.