No Senhor está a misericórdia e copiosa redenção

As leituras de hoje falam sobre pecado, condição que atinge todo ser humano, conforme afirma o apóstolo Paulo, quando diz que em Adão “todos pecaram” (Rm. 5,12). Adão e Eva representam todos os seres humanos pecadores diante de Deus. Mas a ênfase das leituras não é o tema do pecado, e sim da misericórdia divina que perdoa o pecador. Afirma o Concílio Vaticano II que o próprio Deus “veio libertar o homem e dar-lhe força, renovando-o no íntimo e expulsando ‘o príncipe deste mundo’ (Jo. 21,31), que o mantinha na escravidão do pecado” (GS 13).

Jesus verdadeiramente homem, Filho de Deus, realizou a vocação humana, destruiu definitivamente o mal e nos associou à sua vitória sobre o pecado e à morte. Essa intervenção de Jesus na história é algo tão concreto, que ignorá-la constitui pecado contra o Espírito Santo. Esse tipo de pecado não é algo que se pratique aqui e ali, é opção de vida somente conhecida por Deus, que sonda os corações. Trata-se de decisão consciente e livre de recusa ao perdão divino.

Afirma o Catecismo da Igreja Católica que a “misericórdia de Deus não tem limites, mas quem se recusa deliberadamente a acolher a misericórdia de Deus rejeita o perdão de seus pecados” e a ação santificadora do Espírito Santo (cf. n. 1.864). O perdão de nossos pecados é uma graça, mas essa graça somente nos alcança se quisermos: a salvação é obra de Deus em nós, mas não sem nós.

Por outro lado, quem se torna discípulo e missionário de Cristo se associa intimamente à família de Deus, da qual nunca se aparta, pois fazer a vontade de Deus é a perfeita comunhão com o mistério de Cristo. Somos família de Jesus.

Evangelho (Mc. 3,20-35)

Tudo vos será perdoado

Cristo, com sua fidelidade ao Pai até a morte de cruz, realizou aquilo que foi o oposto da desobediência humana simbolizada pelo pecado de Adão e Eva. A intervenção de Cristo na história instaura a partir de então o Reino definitivo. Os exorcismos de Jesus são a prova de que o Reino de Deus chegou e de que o mal é obrigado a ceder espaço à verdadeira soberania deste mundo, o senhorio de Cristo.

Nos esportes de luta corporal, ficamos cientes de que o lutador mais forte, seja pela força física, seja pelas estratégias mais elaboradas, é quem vence o mais fraco. A luta de Jesus contra o mal é explicada com metáforas esportivas ou bélicas. Jesus é o mais forte, ele veio em socorro da nossa fraqueza no embate cotidiano contra todas as manifestações do mal. Cabe a nós aderir a esse nosso campeão e saborear essa vitória que também é nossa, pois Jesus nos representa.

É nesse tipo de simbolismo que podemos entender o pecado sem perdão, o qual nada mais é que atribuir ao mal aquilo que é ação redentora do Espírito Santo em Jesus. É sem perdão porque Deus respeita nosso livre-arbítrio e, portanto, não pode nos perdoar quando o nosso orgulho atribui ao mal a ação libertadora de Jesus. É sem perdão não por causa de Deus, que a todos perdoa, mas por causa de quem se exclui voluntariamente do perdão e da salvação.

Somente o Pai que conhece as profundezas dos corações sabe quem assim procede, não nos cabe julgar ninguém. Portanto, devemos focalizar nossa atenção na palavra de Jesus, segundo o qual o Pai está disposto a perdoar todo pecado. Lembremos que Jesus pediu perdão ao Pai por aqueles que o torturaram e o mataram. Se os algozes de Jesus se abriram ao perdão, foram perdoados, porque Deus tudo perdoa.

De outra parte, não esqueçamos que todos os que abraçam a vontade do Pai e a cumprem perfeitamente, seguindo o exemplo do Filho, estão unidos a Jesus com fortes vínculos, comparados aos mais estreitos laços afetivos familiares. Dessa união com Cristo, na única vontade do Pai, é que os cristãos tiram a força para vencer o mal.

1ª leitura (Gn. 3,9-15)

E, chamando-os, disse o Senhor: “Onde estás?”

Culpada por transgredir o mandamento divino, a humanidade é reencontrada por Deus, que toma a iniciativa de retomar os vínculos de amizade rompidos. O homem lança a culpa na companheira, e esta, na serpente. Mas Deus os conduz pedagogicamente a assumir a responsabilidade pelos próprios atos e as consequências de suas atitudes. A justiça de Deus é pedagógica; ele se compadece do ser humano, não o deixa à mercê do próprio egoísmo e promete-lhe a vitória sobre o mal, simbolizada no esmagamento da cabeça da serpente.

Uma luta deve ser travada entre o ser humano e o mal; dessa luta ele sairá machucado no calcanhar, mas será totalmente vitorioso e não terá ferimento mortal, suas feridas serão sinais de que lutou intensamente. Eis a sublime vocação humana.

2ª leitura (2Cor 4,13-5,1)

O Senhor nos dará o perdão e a sustentação

Quaisquer que sejam as obrigações e os problemas, próprios das limitações da criatura e da história, os cristãos têm motivo suficiente para não sucumbir ou desanimar. Os cristãos possuem a fé, antídoto eficaz contra o desânimo em tempos de angústias e tribulações.

A fé permite discernir tudo corretamente. Ela nos dá como foco aquilo que é invisível aos que não têm fé. Ver além das aparências é acreditar no perdão para todos, acreditar na bondade de quem age de modo que nos parece errado, acreditar na fé de quem parece afastado da Igreja. Ver com o olhar de fé é ver o outro como Deus o vê; por isso, onde existe fé não há preconceito nem exclusão. Quem não tem fé se apega às aparências, ao que é transitório, temporário, superficial. Ao contrário do que comumente se pensa, as coisas invisíveis são muito mais reais e verdadeiras do que as coisas que nos parecem mais concretas.

A expectativa da felicidade após a morte é assegurada pela fé na misericórdia de Deus, que a todos perdoa. A Bíblia usa um símbolo muito forte para expressar isso. A nossa vida terrestre é comparada a uma tenda, que pode ser desarmada a qualquer momento, e a vida pós-morte é como uma “moradia”, um lugar de descanso, a casa do Pai. Quem deu morada a Deus na tenda terrestre terá lugar assegurado na cidade celeste.

Pistas para reflexão

O evangelho de hoje traz questões aparentemente difíceis, como o pecado contra o Espírito Santo e “os irmãos de Jesus”. São difíceis quando se tira o foco da intenção do evangelista e se passa a concentrar a atenção no que é secundário.

Primeiramente, o principal é a misericórdia de Deus, que nos perdoa sempre. Se alguém não quer ser perdoado, isso é problema de Deus, não cabe a nós resolver, isso é da competência do Pai. A menção ao pecado contra o Espírito tem por objetivo apenas garantir o livre-arbítrio do ser humano e uma chamada de atenção para que não confundamos a ação de Deus com a ação do mal, totalmente distintas uma da outra.

Na nossa época não é diferente, muitas pessoas confundem o bem com o mal. Atualmente muitos consideram bom algo que é mau, como a pena de morte, a eutanásia, a intolerância, o enriquecimento ilícito por meio da desonestidade, da corrupção ou da injustiça etc., ou consideram más coisas que são boas, como a fraternidade, a justiça social, a tolerância. Quem assim procede, orientando toda a vida nesse sentido, está apostando na vitória do mal sobre o bem no mundo atual e dificilmente pode ter fé num mundo futuro, definitivo, sem a presença do mal.

Também tira o foco do que é essencial uma homilia que se dedique a explicar a expressão “irmãos de Jesus”. Sobre essa expressão, o presidente da celebração deve remeter os fiéis para que leiam na própria Bíblia as notas de rodapé que a explicam. Isso educa os católicos a usar a Bíblia ou a fazer um estudo bíblico introdutório. A homilia não deve perder tempo com isso, porque vai tirar o foco do que é essencial.

O evangelista está tentando mostrar que os parentes de Jesus, da mesma forma que os escribas, não entendiam a missão dele. Enquanto os escribas orgulhosos e invejosos atribuíam as ações de Jesus ao poder do mal, os parentes de Jesus pensavam que ele estava em perigo e tentavam protegê-lo, faziam o que é próprio da família. Amar as pessoas é preocupar-se com elas. Jesus sabe disso e, sem desfazer-se dos familiares, amplia a noção de família para além dos laços sanguíneos, remetendo aos vínculos de amor.

Não esqueçamos que a narrativa menciona que Jesus e seus discípulos chegaram à casa de alguém e pretendiam tomar uma refeição, mas um grande número de pessoas foi ali à procura dele e Jesus lhes deu atenção. Ele já não tinha tempo para si, e seus familiares se preocuparam, achando que estivesse ficando louco – literalmente, “fora de si”. Os familiares não entenderam aquelas atitudes e queriam levá-lo de volta para cuidar dele. Jesus pensa numa família mais ampla, nos que são filhos obedientes da vontade do Pai, quer doar-se a esses irmãos, servir a essa família universal.

Nos tempos atuais, também soa como loucura doar-se aos serviços da comunidade, no serviço a Deus e aos irmãos, pois vivemos num mundo de relações mercantilizadas, segundo as quais “tempo é dinheiro” e é considerado “coisa de louco” perder tempo com aquilo que não dá nenhum retorno financeiro.

Aíla Luzia Pinheiro Andrade, nj

 
 

Saudade do paraíso, vivência do reino e imortalidade na ressurreição

As leituras de hoje nos levam a refletir sobre a nossa condição humana de viver optando ora pelo bem, ora pelo mal. Estivemos no simbólico paraíso terrestre e decidimos sair dele para viver lutando pela sobrevivência, em meio a espinhos e dores. Muitos dos conterrâneos de Jesus não o aceitaram como enviado de Deus e lhe fizeram oposição, até mesmo seus irmãos. Após a morte de Jesus, viver, para o cristão, passou a ser a certeza de que reconquistaremos a nossa morada eterna e definitiva. Vejamos como as leituras que ouvimos nos ajudam a compreender esses mistérios.

1ª leitura: Gn. 3,9-15

A estulta serpente / o mal engana as pessoas

A primeira leitura de hoje faz parte de um bloco maior de texto: Gn. 2,4b-3,24, escrito no século IX a.C. Trata-se de narrativa mitológica da condição humana no paraíso e fora dele. O trecho do qual nos ocupamos aqui fala da expulsão do paraíso. O que vem antes é bem conhecido de todos nós, ou seja: não havia ser humano para cultivar o solo. Havia um jardim com quatro rios e, no meio dele, duas árvores, uma da vida e outra do conhecimento do bem e do mal. Deus cria os seres humanos com o objetivo de eles gerarem filhos; Adão e Eva, o tirado da terra e a mãe dos viventes, que representam o ser humano de forma geral. Nunca existiram como personagens. Trata-se de profundo simbolismo; sua verdade não é da ordem da história positivista.

O casal é colocado nu no jardim, com a proibição de comer o fruto da árvore do conhecimento. Até que um dia a serpente, na sua estultícia, os engana, e eles comem do fruto proibido. O medo se apodera deles. Ambos abrem os olhos, veem-se nus e passam a ter vergonha, a ponto de terem de se cobrir com vestes de folhas que eles mesmos teceram. Ouvindo os passos de Deus, que passeava pelo jardim, eles se escondem, porque também já sentem medo. Deus os interroga pelo ato de desobediência. Homem e mulher acusam a serpente. Todos os três recebem um castigo do Criador. A serpente se arrastará e será pisada pela mulher, que, agora, chamada de Eva – a mãe dos viventes –, passará a ter dores de parto e desejo voltado para o homem; já o homem terá de tirar do solo maldito o sustento com o suor do seu rosto. O fim é trágico: a perda do paraíso. Para cobrir as vergonhas, eles recebem de Deus uma roupa de pele. Fora do paraíso, uma nova etapa se inicia na vida deles. O cultivo do solo para comer passa a ser um labor pesado e diário. O paraíso é lacrado. Um querubim e uma espada fulgurante passam a guarnecê-lo, impedindo ao ser humano o acesso ao caminho da árvore da vida.

Esse clássico texto da literatura bíblica foi, ao longo da história da humanidade, fonte de inspiração para tantos outros, para pinturas, discursos poéticos e moralistas. A esperança de retorno ao paraíso perdido e a saudade dele foram, e continuam sendo, objeto de desejo dos humanos, sejam eles judeus, sejam cristãos. Na sinagoga judaica, a árvore da vida recebe os nomes dos falecidos. Para os cristãos, Jesus é o caminho, a verdade e a vida em Gn. 2,4b-3,24. Com a sua morte e o seu sangue derramado na terra outrora maldita, a vida eterna volta a ser condição para o ser humano, que ressuscitará com ele. Na organização dos livros que compõem a Bíblia, há o cuidado de colocar, como livro final, o Apocalipse, que descreve uma nova Jerusalém Celeste – um novo Éden Celeste –, tendo no seu centro, também, uma árvore da vida. Alguns elementos desse mito que explicam a condição humana e sua relação com o sagrado merecem destaques, tais como:

a) Jardim: símbolo do paraíso terrestre. “Jardim” em hebraico é gan, que também significa proteger. No Oriente Antigo, na Pérsia e na Babilônia, era muito comum a construção de um jardim cercado. Os jardins podiam ser propriedade exclusiva de um rei, bem como simbolizavam o poder real e o seu controle sobre a agricultura e as fontes de água. Muitos deles eram ornamentais e serviam para o descanso do rei ou para a sua sepultura (2Rs. 21,18.26). Na leitura, o jardim é chamado de Éden. Éden é substantivo hebraico que significa “delícias”. O jardim passa a ser um paraíso celeste. Um paraíso das delícias em um jardim plantado no Éden (Gn. 2,8), região e lugar da felicidade plena. Deus é o companheiro do ser humano, que vive em plena liberdade sem se preocupar com nada. O mito expressa o desejo humano, que, na sua relação com o Sagrado (Vida), foi possível outrora e será novamente. Jardim é sinônimo de esperança, de vida realizada. Não é por menos que Is. 51,3 chama o Éden de “Jardim do Senhor”.

b) Árvores da vida e do conhecimento: a primeira árvore é o símbolo da imortalidade, a segunda, do conhecimento do bem e do mal. No último livro da Bíblia, o Apocalipse cita a árvore da vida no centro da Nova Jerusalém (Ap 22,2). A nova árvore da vida representa o novo céu e a nova terra. Trata-se de uma inclusão. Sabedor de sua condição mortal, o ser humano almeja a imortalidade. Ele sabe também que essa condição só é possível no Sagrado, em Deus. Por isso, o seu desejo será sempre o da imortalidade. Ninguém quer morrer, à exceção daqueles que perdem o sentido da vida. Na mitologia, a fonte da vida está na divindade, nos deuses, os quais não aceitam repassar esse segredo para o ser humano. No texto em questão, o fato de Deus passear pelo jardim demonstra que a vida humana está, no paraíso, bem próxima de Deus. Há, no entanto, um contraste: o fruto da árvore da vida confere imortalidade, o da árvore do conhecimento, a morte. Ao ser humano fica expressa a proibição divina de não comer o segundo fruto (Gn. 2,17). Ao ser humano, após comer mitologicamente esse fruto, é conferida a faculdade de optar pelo bem ou pelo mal. A primeira consequência de tudo isso foi a perda do paraíso.

c) Serpente: um animal astuto e falador, portador de falsas promessas, deixando as consequências para os humanos. A serpente no mundo antigo tinha vários simbolismos, sobretudo aqueles relacionados com a vida e o poder opressor de um país. O faraó tinha uma serpente sobre a sua cabeça para representar o seu poder, a vida e sua imortalidade. Na Babilônia, a divindade principal, Marduk, era representada por uma serpente-dragão. Em Israel, a partir de Gênesis, a serpente passou a significar a força do mal.

d) Punição: o encontro da serpente com os humanos se transformou em punição para a serpente, que deverá se arrastar pela terra e terá a descendência da mulher como sua inimiga. A mulher, por sua vez, terá dores de parto, e o homem terá de cultivar a terra com seu suor. A parceria entre Eva, Adão e a serpente resulta em sofrimento. O poder da serpente leva o homem a viver de suor e fadigas. A serpente, o poder dominador, precisa desse trabalho forçado para sobreviver. O homem se torna pó da terra e morre de tanto trabalhar. O mito explica o sofrimento pelo viés da opressão, que o lavrador conhecia.

Evangelho: Mc. 3,20-35

Escribas e irmãos de Jesus se opõem ao projeto de reino de Jesus, o novo Éden.

A serpente/satanás continua agindo

O evangelho de hoje mostra Jesus na sua casa, a física e a dos pobres, por quem ele tinha especial apreço. Seus familiares, sabendo de suas ações, tentaram impedi-lo, julgando-o louco. Antes que chegassem seus irmãos, os escribas já dão a sentença: “Ele está possuído por Belzebu, bem como realiza tudo em parceria com satanás” (v. 22). Jesus se defende, dizendo que as suas ações não podem ser feitas em parceria com quem já é seu inimigo, satanás. Fazendo jogo com o substantivo “satanás”, aquele que divide, assim como a serpente da primeira leitura, Jesus demonstra que um reino e uma casa divididos não podem subsistir. Assim como no paraíso Deus condena a serpente, Jesus condena os escribas, acusando-os de blasfemadores do Espírito Santo, seu real parceiro na missão, e decreta que eles não terão perdão por tal atitude.

Nesse momento, Maria e os irmãos de Jesus chegam para se encontrar com ele. Tendo a multidão impedido a passagem deles, Jesus, avisado do fato, declara em alto e bom som que sua mãe e seus irmãos são aqueles que fazem a vontade de Deus. A resposta de Jesus, dura em um primeiro momento, teve várias repercussões entre os intérpretes desse texto. Irmão, em hebraico ’ah, significa irmão de sangue, mas também parentes próximos, patrícios e vizinhos. São Jerônimo dirá que no evangelho se trata de primos de Jesus. Os evangelhos apócrifos nos conservaram a tradição de que José, ao ser escolhido para casar-se com Maria, era viúvo, tinha 90 anos, quatro filhos – Judas, Justo, Tiago e Simeão – e duas filhas, Lísia e Lídia. Quando Maria chegou à casa de José, logo se afeiçoou a Tiago, o filho menor de José, que ainda sofria a ausência da mãe. Maria cuidou dele como mãe. O Evangelho de Mateus fala, por isso, de Maria, a mãe de Tiago (Mt. 27,56), embora ela não o fosse. Sendo assim, os irmãos de Jesus são de criação. Portanto, Jesus, seguindo o mesmo trocadilho feito com o substantivo “satanás”, quis dizer que irmãos seus são também os que seguem os seus ensinamentos, povo e discípulos(as), incluindo sua mãe. Jesus não nega os seus irmãos, tampouco sua mãe. Isso não era possível na cultura judaica. Irmão aqui quer dizer aquele que assume a causa, ao contrário de satanás, aquele que divide, tornando-se uma serpente, assim como agiram os escribas.

2ª leitura: 2Cor. 4,13-5,1

A ressurreição nos confere a imortalidade querida pelo ser humano no paraíso

A primeira leitura nos apresentou o Éden como morada paradisíaca da condição humana, que, por sua opção, diante da liberdade proporcionada por Deus, acaba por perdê-lo. O ser humano alimenta uma saudade eterna por ele. Já o evangelho nos anuncia que Jesus é a esperança que nos mostra o caminho de volta. Ele age em parceria com o Espírito Santo e com todos os que são seus irmãos. Nesta terceira leitura, Paulo expressa sua firme convicção de fé na ressurreição de todos nós, no mesmo Deus que ressuscitou Jesus (2Cor. 4,13-15). O apóstolo lembra que vivemos num corpo, morada terrestre que será destruída em favor de uma morada eterna em Deus. Morre o ser humano exterior para viver o interior. É como se dissesse: saímos de Deus para morar num paraíso, perdemo-lo, mas, com a graça de Deus e o testemunho vivo de Jesus, voltaremos para a eternidade. A imortalidade querida pelo ser humano, ao comer o fruto proibido, só será possível com a ressurreição.

Pistas para reflexão

– Demonstrar à comunidade que a nossa vida é marcada pela lembrança do paraíso perdido e pelo mal que nos levou a perdê-lo. A parceira com a serpente, inclinação para o mal, ocasionou isso. Cabe-nos esmagar-lhe a cabeça, o lugar pensante de toda vil estrutura humana injusta. 

– Os irmãos de Jesus somos todos nós, seus seguidores. Muitas vezes, no entanto, tornamo-nos seus opositores, com satanás. A Igreja é a grande irmã de Jesus na construção da sociedade justa, espelho de seu reino. É uma pena que muitos cristãos e igrejas caminhem em sentido oposto. O reino de Deus é a nossa esperança de um novo Éden, já presente, mas em caminhada para a plenitude.

padre Jacir de Freitas Faria, ofm

 
 

Adão, onde tu estás?

Temos saudade de  viver num mundo de harmonia.  Por vezes nosso interior experimenta terremotos e turbulências.  Temos vontade de dizer com  Paulo:  “Quem nos livrará deste corpo de morte”  A essa desordem de nosso coração não é de hoje.  A Escritura nos ensina que tudo começou quando nossos primeiros pais foram tentados pelo inimigo.  Adão  foge dos olhos de Deus.  Depois da queda não tem mais coragem de encarar o Senhor. Seu interior se agita e tudo nele se atropela.  Sim, o esposo de Eva, depois de comer do fruto que não podia ser colhido, tendo feito isto por sugestão da mulher,  fica desamparado e some da vista do Senhor.

“Adão, aquele que plasmei do barro da terra, Adão  que recebeste de minhas narinas o sopro da vida, Adão tu que circulavas pelo paraíso e me encontravas no cair da tarde. De repente, desapareceste.  Onde estás?”

Adão dá explicação sem dar explicação. “Ouvi a tua voz no jardim e fiquei com medo porque estava nu; e me escondi”.  O homem não dá a verdadeira explicação  que seria o ter desobedecido a Deus. Na verdade, a nudez de Adão que, antes do pecado, não era problema passou a ser motivo de perturbação.  Acontecera o pecado e a desordem estava instaurada. O livro do Gênesis dá a entender que a serpente, o tentador , a partir de então começou a perturbar a vida de nossos primeiros pais.  O Evangelho de  Marcos hoje proclamado vai dizer  que  Jesus nada tem a ver com Belzebu, o príncipe dos demônios.  Os seus adversários diziam que ele estava possuído por um demônio, justamente aquele que viera para estabelecer uma luta terrível contra o inimigo.  Desde o deserto, passando pelas coisas da caminhada, e chegando ao abandono da cruz… Jesus será aquele que não se dobrará ao mal, terá como alimento fazer a vontade do pai e sendo de condição divina não hesitou em tomar a condição de servo, não aceitando o ídolo do prestígio. De aniquilamento em aniquilamento, não tendo uma pedra para reclinar a cabeça, até o  jardim das oliveiras e à colina do Crânio, Jesus vai vencendo o inimigo  para que com o dom de sua vida o pecado de Adão e o pecado de cada ser humano pudesse ser perdoado.  Para que pudéssemos olhar nos olhos do Senhor e não nos importamos com nossa nudez, nossa pobreza,  na obediência que se transforma em riqueza.

Paulo,  lembra que aquele que ressuscitou  Jesus dos mortos, também haverá de ressuscitar a nós.  E lembra: “ Mesmo se o nosso homem exterior se vai arruinando,  nossos homem interior, pelo contrário, vai se renovando a cada dia”. A vida cristã é luta contra a tentação, contra as solicitações do mal, contra essa proposta que é sempre repetida.  “Se comerdes do fruto da árvore proibida serias como deus”. Os homens de ontem e de hoje  sempre querem ser “deuses”. Quando conseguem seus intentos precisam correr e buscar um esconderijo para esconder sua nudez….

“Ó homem, onde estás nesta altura de tua vida? Por que te escondes de mim?  Não te esqueças que no alto da cruz  arrancaram minhas vestes, expuseram minha nudez para que pudesse te vestir da graça. Onde tu estás?”

frei Almir Ribeiro Guimarães

 
 

Jesus voltou para casa. O domicílio dele agora é em Cafarnaum. Já não mora mais com a família em Nazaré. Sabendo que Jesus estava em casa, o povo foi ate lá. Juntou tanta gente que ele nem tinha tempo para comer. Quando os parentes de Jesus souberam disso, disseram: “Ficou louco!” Talvez, porque Jesus tinha saído fora do comportamento normal. Talvez, porque comprometia o nome da família. Seja como for, os parentes decidem levá-lo de volta para Nazaré. Sinal de que o relacionamento de Jesus com a sua família estava estremecido. Isto deve ter sido fonte de muito sofrimento, tanto para ele como para Maria, sua mãe. Mais adiante (Mc 3,31-35) Marcos conta como foi o encontro dos parentes com Jesus. Eles chegaram na casa onde Jesus estava. Provavelmente tinham vindo de Nazaré. De lá até Cafarnaum são uns 40 quilômetros. Sua mãe veio junto. Eles não podiam entrar na casa, porque havia gente demais na entrada. Por isso mandaram um recado: Tua mãe, teus irmãos e tuas irmãs estão lá fora e te procuram! A reação de Jesus foi firme perguntando: Quem é minha mãe, quem são meus irmãos? E ele mesmo responde apontando para a multidão que estava ao redor: Eis aqui minha mãe e meus irmãos! Pois todo aquele que faz a vontade de Deus é meu irmão, minha irmã, minha mãe! Alargou a família! Jesus não permite que a família o afaste da missão.

A situação da família no tempo de Jesus

No antigo Israel, o clã, isto é, a grande família (a comunidade), era a base da convivência social. Era a proteção das pequenas famílias e das pessoas, a garantia da posse da terra, o veículo principal da tradição, a defesa da identidade. Era a maneira concreta do povo daquela época encarnar o amor de Deus no amor ao próximo. Defender o clã, a comunidade, era o mesmo que defender a Aliança. Na Galileia do tempo de Jesus, por causa do sistema romano, implantado durante os longos governos de Herodes Magno (37 a.C. a 4 a.C.) e de seu filho Herodes Antipas (4 a.C. a 39 d.C.), tudo isto já não existia mais, ou cada vez menos. O clã (comunidade) estava enfraquecendo. Os impostos a serem pagos tanto ao governo como ao templo, o endividamento crescente, a mentalidade individualista da ideologia helenista, as frequentes ameaças de repressão violenta por parte dos romanos, a obrigação de acolher os soldados e dar-lhes hospedagem, os problemas cada vez maiores de sobrevivência, tudo isto levava as famílias a se fecharem sobre si mesmas e dentro das suas próprias necessidades. Já não se praticava mais a hospitalidade, a partilha, a comunhão de mesa e a acolhida aos excluídos. Este fechamento era reforçado pela religião da época. A observância das normas de pureza era fator de marginalização de muita gente: mulheres, crianças, samaritanos, estrangeiros, leprosos, possessos, publicanos, doentes, mutilados, paraplégicos. Em vez de acolhida, partilha e comunhão, estas normas favoreciam a separação e a exclusão.

Assim, tanto a conjuntura política, social e econômica como a ideologia religiosa da época, tudo conspirava para o enfraquecimento dos valores centrais do clã, da comunidade. Ora, para que o Reino de Deus pudesse manifestar-se, novamente, na convivência comunitária do povo, as pessoas tinham de ultrapassar os limites estreitos da pequena família e abrir-se de novo para a grande família, para a Comunidade.

Jesus deu o exemplo. Quando seus parentes chegaram em Cafarnaum e tentaram apoderar-se dele para levá-lo de volta para casa, ele reagiu. Em vez de fechar-se na sua pequena família, ele alargou a família (Mc 3,33-35). Criou comunidade. Ele pedia o mesmo de todos que queriam segui-lo. As famílias não podiam fechar-se. Os excluídos e os marginalizados deviam ser acolhidos, novamente, dentro da convivência e, assim, sentir-se acolhidos por Deus (cf Lc 14,12-14). Este era o caminho para realizar o objetivo da Lei que dizia: “Entre vocês não pode haver pobres” (Dt 15,4). Como os grandes profetas do passado, Jesus procura reforçar a vida comunitária nas aldeias da Galiléia. Ele retoma o sentido profundo do clã, da família, da comunidade, como expressão da encarnação do amor de Deus no amor ao próximo.

Carlos Mesters e Mercedes Lopes

 

 
 

Os verdadeiros irmãos e os adversários de Jesus

No evangelho de hoje, Marcos apresenta a exigência da conversão, da opção pró ou contra Jesus. Tudo gira em redor da pergunta pela origem de seu “poder”: virá do demônio (1ª leitura) ou de Deus?

Esta questão é tratada por Marcos num “sanduíche” literário. As fatias externas (3,20-21.31-35) são a tentativa dos parentes de Jesus para desviá-lo de sua pregação messiânica, sob alegação de que ele “está fora de si”, o que equivalia a dizer que ele estava possuído pelo demônio. Quanto à intervenção dos parentes, Jesus explica que sua verdadeira família não é a do sangue, mas a da fé operante: os que fazem a vontade do Pai (3,35). Ficamos chocados porque a mãe de Jesus está incluída entre os parentes. Mas isto acentua ainda mais a mensagem: a mãe de Jesus não tem prerrogativas por causa de seu parentesco carnal, mas por causa da fé (como Lucas sugere numa duplicata do presente episódio: Lc. 11,27-28).

A fatia central (3,22-30) é a acusação de que Jesus exorciza pelo poder de Beelzebul (6). A resposta de Jesus contém três elementos.

1) Quanto a seu ”poder”: este não vem do demônio, pois como poderiam o reino ou a casa do demônio ficarem em pé, se fossem divididos? Convite velado para entender que o poder de Jesus vem de Deus e é aquela misteriosa “autoridade” do Filho do Homem, que Marcos já apontou na primeira atuação de Jesus (cf. 4º domingo T.C.).

2) Quanto à pessoa de Jesus, uma pequena parábola: se alguém quer arrombar uma casa (esta palavra a liga com a imagem anterior) deve primeiro amarrar o “forte” que está lá dentro. Portanto, aquele que consegue isso, é o “mais forte” título com o qual Jesus tinha sido anunciado pelo Batista (1,7) e imagem messiânica (cf. Ls. 49,24-25).3) Quanto aos escribas: eles se firmam no próprio pecado do demônio, o orgulho contra o Espírito de Deus. Mc. 3,28-30 utiliza aqui uma palavra que aparece, provavelmente num contexto mais original, em Lc. 12,10. Em Lucas, significa que o que contraria o Filho do Homem (Jesus histórico) pode ser perdoado, mas não o que se faz contra o Espírito Santo, que auxilia os cristãos na perseguição (Lc. 12,11-12; a apostasia). Em Marcos, significa que tudo pode ser perdoado (por Jesus ou por Deus, cf. Mc. 2,10.17), mas não o pecado contra o Espírito Santo, ou seja, a rejeição da força de Deus que se revela na atuação de Jesus, vencendo todo o mal.

A conclusão do conjunto (a segunda fatia do tema dos parentes), forma assim um contraste com a atitude dos escribas, a incredulidade levada a um extremo diabólico: unir-se a Jesus para fazer a vontade do Pai é pertencer à sua “casa”, comunidade de irmãos e irmãs.

A 2ª leitura é a continuação da de domingo passado. Paulo reconhece em Sl. 116[115],10 o Espírito da fé se expressando (é escrito sob inspiração do Espírito): “Creio, por isso falo”. Tendo este Espírito, Paulo fala: seu testemunho evangélico a respeito da Ressurreição de Cristo e nossa. Isso é o que o toma firme (2Cor. 4,16). Mesmo que agora estejamos na tribulação (vaso de barro!), este “pesar” é leve em comparação com o “peso” da glória (“glória”, kabod, significa “peso”), pois nós enxergamos o que não se vê! A morada em que estamos (a existência neste mundo) será desfeita, mas teremos uma que não é feita com mãos humanas (termos que Cristo usou para anunciar sua ressurreição, cf. Me. 14,58).

O espírito global da presente liturgia é o da força de Cristo, em que devemos confiar, para que ela se manifeste em nós também.

(6). Este é um dos principais demônios. O judaísmo contemporâneo de Jesus tinha elaborado toda uma doutrina sobre os anjos e demônios. O demônio é considerado como um anjo decaído, por causa de seu orgulho, e isso, antes da criação do mundo. Em Sb. 2,24 é identificado com a serpente que seduziu o primeiro casal humano a pecar contra Deus, por orgulho, causando a morte. Por esta razão, a 1ª leitura de hoje é o relato do pecado original, terminando com o tema da descendência humana esmagando a cabeça da serpente. Mais tarde, este tema foi interpretado num sentido messiânico, como tratando não mais da raça humana em geral, mas de um descendente específico, o Messias, que venceria o demônio. É exatamente isso que é sugerido nas entrelinhas do episódio central do evangelho.

padre Johan Konings "Liturgia dominical"

 
 

As “conexões” de Jesus

O evangelho de Marcos evoca em palavras sucintas, mas dinâmicas, a chegada ao mundo do profeta que anuncia a instauração do Reino de Deus: Jesus de Nazaré. Nos primeiros capítulos, Marcos esboça a admiração do povo e dos discípulos diante da poderosa palavra do pregador e taumaturgo de Nazaré (1,27-28!). Mas nem todos vêem na palavra e nos gestos de poder de Jesus a mão de Deus respaldando seu profeta. Seus próprios parentes acham que ele está fora de si. Os líderes religiosos vão mais longe: acusam-no de expulsar os demônios pelo poder do próprio demônio, como se Jesus executasse alguma estratégia de Satanás para enganar os piedosos...

Diante disso, Jesus define suas alianças, mostra quais são suas “conexões”. Trata-se de Mc. 3,20-36, um episódio às vezes chamado de “sanduíche literário”: entre duas fatias que tratam dos parentes de Jesus (3,20-21 e 3,31-35), encontra-se prensada uma discussão com os escribas acerca da origem diabólica ou não do poder de Jesus (vv. 22-30).

Em 3,20-21, Jesus vai para casa e grande multidão o acompanha. Jesus e seus discípulos nem sequer encontram oportunidade para comer. Seus parentes saem para segurá-lo, pois dizem que está fora de si.

Nos vv. 22-30, aparecem os teólogos (escribas) vindos de Jerusalém (pois lá se encontravam e podiam ser estudados em profundidade os rolos completos da S. Escritura de Israel). Dizem que Jesus mantém aliança com Beelzebul, chefe dos demônios, e recebe deste o poder de mandar nos maus espíritos. Jesus ridiculariza tal “explicação” (que provavelmente foi repetida pelos adversários de Jesus muitos anos depois de sua morte). Será que Satanás se expulsa a si mesmo? Um reino internamente dividido está fadado a se dissolver! Ou será que alguém pode saquear a casa de um homem valente sem amarrá-lo? Com estas últimas palavras, Jesus dá a entender que seu poder não é do diabo, mas de quem é mais forte que este, e os ouvintes sabem que “Forte” é um título divino e messiânico. Jesus deixa os ouvintes tirarem a conclusão. Quem tem o olhar puro e objetivo vê que Jesus está dominando Satanás. Mas a alguns falta o olhar puro para reconhecer isso.

Os que criticam Jesus têm as vistas viciadas. Por isso, Jesus acrescenta: “Em verdade, tudo pode ser perdoado às pessoas humanas, os pecados e mesmo as blasfêmias que proferirem, mas quem blasfema contra o Espírito Santo (= o Espírito de Deus que age em Jesus) não recebe perdão nunca. Ele é réu de pecado para sempre”. Pelo menos, enquanto não retrai sua “blasfêmia”, sua má vontade, incompatível com a graça e o perdão de Deus.

Acabado esse assunto — o recheio do sanduíche — Jesus volta às fatias externas: a questão dos parentes. Negada a aliança com Satanás, Jesus põe agora os pingos nos is quanto às suas conexões familiares. Será que seus parentes têm autoridade sobre ele? O normal seria isso, no mundo oriental, onde o espírito do clã ou da grande família é muito forte (até hoje). Os parentes querem interromper Jesus na sua atividade de pregação e de exorcismo. Usam até chantagem sentimental, pondo a mãe de Jesus no meio (3,32). Então, Jesus define suas verdadeiras conexões, declarando a quem ele se liga. Passando o olhar sobre os ouvintes em seu redor, ele diz: “Aqui estão minha mãe e meus irmãos! Quem faz a vontade de Deus, este é meu irmão e irmã e mãe”.

padre Johan Konings "Descobrir a Bíblia partir da liturgia"

 
 

Se levardes em conta nossas faltas, quem haverá de subsistir?

Mas em vós se encontra o perdão. [Sl. 129(130), 3-4a].

Com a Liturgia da Palavra deste domingo Deus nos consola porque sentimos culpa de nossos pecados, e tememos a punição eterna.

A Primeira Leitura nos mostra o sentimento de culpa de Adão depois de ter comido o fruto proibido: “Ouvi tua voz no jardim e fiquei com medo” (Gn. 3,10b).

Adão teve a consciência de ter cometido o pecado, porque era plenamente consciente da proibição divina. Entregue a si mesmo, como poderia reagir à esperada interpelação de Deus? Por que não levou a sério o risco de perder a imortalidade com a qual fora criado? Somente podia sentir-se culpado. Por si mesmo não poderia jamais reparar a culpa. Sua única esperança era a misericórdia de Deus para enfrentar a dura existência terrena fora do paraíso.

Com Jesus Cristo, porém, veio a esperança do perdão e remissão de todos os pecados. 

Mas um tipo de pecado jamais será perdoado: o da rejeição do Espírito Santo, isto é, do Amor que une o Pai ao Filho inseparavelmente. Em outras palavras, este pecado consiste em renegar a Deus, a Santíssima Trindade. Assim diz Jesus no Evangelho de hoje:

“[...] tudo será perdoado aos homens [...] 

Mas quem blasfemar contra o Espírito Santo nunca será perdoado: [...]”. (Mc. 3,28b;29a).

Adão somente foi perdoado quando por ele também Jesus Cristo deu sua vida para a remissão dos pecados. O pecado de Adão foi perdoado pela grandeza da misericórdia divina: maior Salvador Deus não poderia dar à humanidade. É disto que nos lembramos na Vigília Pascal, quando cantamos: ‘Ó feliz culpa (de Adão), que nos fez merecer tão grande Redentor!’ 

Adão e Eva perdoados foram levados por Jesus ao céu no dia em que Ele, depois de sua morte terrena, desceu à mansão dos mortos. Portanto, até o pecado dos primeiros pais da humanidade pôde ser perdoado. Pelo contrário, se Deus não nos perdoasse, como conseguiríamos viver sob o peso da culpa e desespero na falta do perdão? O Salmo Responsorial nos lembra:

“Se levardes em conta nossas faltas, quem haverá de subsistir?

Mas em vós se encontra o perdão [...]” [Sl. 129(130), 3-4a].

Com o perdão merecido pela morte de Jesus nossos pecados são apagados em nosso Batismo. Por nós espera nossa moradia nos céus, como nos diz São Paulo na Segunda Leitura de hoje:

“[...] , sabemos que, se a tenda em que moramos neste mundo for destruída, 

Deus nos dará uma outra moradia no céu

que não é obra de mãos humanas,

mas é eterna” (2Cor. 5,1).

Se Adão perdeu o paraíso e a Vida Eterna, Jesus Cristo os recuperou para ele e para seus descendentes, que somos nós, os batizados em nome da Santíssima Trindade. Nossa alegria deve ser grande já neste mundo passageiro, e plena quando Deus nos der a imortalidade na Vida Eterna.

padre Valdir Marques, SJ

 
 

Jesus está de volta à Cafarnaum. Ali Ele está seguro e rodeado pela multidão. A sua casa é o local onde se reúnem os sofredores de toda a espécie e Ele está sempre pronto para atendê-los.

Junto daqueles que precisam de Jesus, estão também os doutores da Lei que vieram de Jerusalém para confirmar os boatos sobre o que Ele faz e porque é tão popular. Os doutores da Lei ou escribas são especialistas em interpretar as leis, para dizer o que se pode ou não fazer, e chegam ali para condenar Jesus.

Naquele momento estão reunidos dois grupos que não concordam com o que Jesus está fazendo: os seus parentes e os fariseus. Mas qual era a preocupação dos seus parentes? Jesus praticava atos e falava coisas que desobedeciam as normas e costumes da época, por isso, pensavam que Ele estava ficando louco, por estar colocando a sua vida em risco. Eles não entendiam que a Boa Nova demandava postura nova também! Jesus não pactua com o mal, e tem a missão de libertar todas as pessoas de qualquer tipo de opressão que as excluem da vida social e religiosa.

Os doutores da Lei diziam que Jesus estava possuído por Belzebu, o pior dos demônios, e que agia em nome dele.

Jesus, então, faz duas comparações ao responder a acusação feita: o reino dividido e o homem forte. A primeira refere-se ao absurdo de expulsar demônios pelo poder do demônio, pois assim Satanás estaria destruindo a si mesmo. Quanto à segunda comparação, Jesus afirma que o príncipe dos demônios (homem forte) está amarrado, ou seja, enfraquecido diante da prática de Jesus de expulsar demônios, e que assim, o Reino de Deus está ocupando o lugar do reino de Satanás.

Jesus ainda afirma, ainda, que eles estão pervertendo a ação de Deus, ao afirmarem gravemente que o bem realizado por Jesus é obra do demônio. Esta acusação é a maior ofensa que eles poderiam fazer contra o Espírito Santo que é quem age em Jesus curando os doentes, afastando os demônios e operando os milagres.

Continuando a cena, Marcos descreve quem é a verdadeira família de Jesus, composta por todos aqueles que com Ele comungam da mesma fé, seguem seus ensinamentos e partilham do amor ao Pai e aos irmãos. Com a expressão, “quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”, Jesus não está excluindo Maria, sua Mãe. Ao contrário, Ela não tem somente importância pela relação sanguínea com Ele, mas pela sua fé e dedicação incondicional ao projeto do Pai. A verdadeira família de Jesus é formada pelos que estão ao redor dele, em atitude de discípulos que fazem a vontade de Deus.

 
 

O pecado contra o Espírito Santo

Existe um tipo de pecado para o qual não haverá perdão. É o pecado contra o Espírito Santo. Em que consiste a gravidade deste pecado que o torna imperdoável? Jesus, desde o seu batismo, foi apresentado como o Filho de Deus, a quem se devia dar ouvido. Ele foi constituído mediador da salvação divina oferecida a toda humanidade. Suas palavras e ações, porém, tinham como princípio dinamizador o Espírito Santo, poder de Deus atuando nele, manifestado já por ocasião do batismo.

Portanto, a atitude de seus parentes, que o acusavam de louco ao verem as multidões acorrem a ele, e a interpretação dos mestres da Lei, para quem ele agia pelo poder de Belzebu, chocava-se com a realidade da ação divina em Jesus. Pois significava negar que o Espírito Santo agia através de Jesus e atribuir ao demônio o que pertencia ao Espírito de Deus. Eis uma autêntica blasfêmia!

As acusações contundentes levantadas contra Jesus manifestam um fechamento à ação do Espírito. Assim como Jesus agia pela força do Espírito, do mesmo modo só quem se deixasse iluminar pelo Espírito poderia percebê-la. Quem se fechava ao Espírito, tornava-se incapaz de discernir a manifestação da misericórdia de Deus, em Jesus. Fechar-se para Jesus, portanto, significa fechar-se para Deus e, por conseguinte, tornar-se indigno de perdão.

padre Jaldemir Vitório

 
 

O fechamento à graça de Deus

A contar pelo contexto literário, os textos anteriores ao nosso nos permitem ter o pano de fundo a partir do qual é feita a acusação pelos escribas oriundos de Jerusalém, de que Jesus agia impulsionado por um espírito mal, Beelzebu. Efetivamente, o modo como Jesus interpretava e praticava a Lei de Moisés não só punha em crise como fazia desmoronar o sistema de pureza e a prática da Lei, pautada por um rigorismo tal que, mais adiante no relato de Marcos, Jesus dirá ser “tradição humana” (cf. Mc. 7,8.13) que deixa de lado o “mandamento de Deus”. Os escribas e com eles os fariseus, entre outros, se sentiam ameaçados em seu modo de praticar a religião. A esclerocardia deles (cf. Mc. 3,5) impedia-os de questionar o seu próprio modo de viver a religião. Julgando-se justos por essa prática da Lei, para eles todos os demais estavam equivocados. Daí a crítica intempestiva e contraditória a Jesus. O ouvinte e o leitor do evangelho que conhecem o relato do batismo de Jesus sabem que é revestido do Espírito Santo (Mc. 1,9-11); é essa força interior que inspira as palavras e impulsiona a ação de Jesus. Por isso, não pode admitir, a não ser como absurda, a acusação dos escribas. Ninguém podia fazer o bem que Jesus fazia se Deus não estivesse com ele (cf. Jo. 9,33). A blasfêmia contra o Espírito Santo é fechamento à graça de Deus. Ela fecha o caminho da salvação. Ela consiste em sustentar que em Jesus age um espírito impuro. É essa acusação que é portadora do mal. A vida de Jesus era desconcertante não somente para os opositores de Jesus, mas também para a sua família. O início do evangelho de hoje já nos informa acerca do juízo e da intenção da família de Jesus (cf. vv. 20-21). No entendimento da família de Jesus, ele estava “fora de si”. Essa é a razão pela qual a família de Jesus, chegando ao lugar onde ele se encontrava, manda chamá-lo, mas permanece do lado de fora da casa. Ora, para os que estão do lado de fora, parece loucura o que Jesus faz e ensina (cf. Mc. 3,20.31). Mas, para os que estão ao redor de Jesus e dentro da casa, o que Jesus ensina e faz, o modo como vive, não somente faz sentido, mas dá sentido à vida e faz viver. O episódio é a ocasião para afirmar que tudo na vida de Jesus é expressão e engajamento para a realização da vontade de Deus. O que caracteriza o povo, a família, que se reúne em torno dele, é a disposição de fazer a vontade de Deus.

Carlos Alberto Contieri,sj

 

 

Jesus revela novos laços familiares no Reino

O evangelho de Marcos revela a nova relação entre o povo e Deus, que se estabelece através de Jesus. O que se vê é uma grande multidão de excluídos (ochlós), seja dentre os gentios, seja da dispersão do judaísmo, que se reúne em torno da casa onde se encontra Jesus. Esta multidão se diferencia do "pequeno resto", estabelecido na sinagoga e no Templo, gozando de privilégios e isolado da maioria do povo, considerada pecadora por infringir qualquer um dos 613 mandamentos da Lei, tendo como protótipo Eva, que infringiu a proibição do Criador (primeira leitura). Com Jesus temos uma nova realidade, destacada pelos evangelhos ao mencionarem cento e quarenta e nove vezes a "multidão" que se relaciona com Jesus. Esta relação é uma característica muito mais marcante da índole e da personalidade de Jesus do que as narrativas de seus milagres possam significar. É uma chave de leitura para compreendermos a presença de Jesus no mundo, em relação com todos os povos e culturas, não se limitando a grupos religiosos específicos.

O termo grego traduzido por "familiares" pode significar uma proximidade consanguínea ou de amizade. Pode-se também interpretar que o verbo usado no texto, "enlouqueceu", refira-se a Jesus ou à multidão. Assim, pode-se entender que, ou os familiares ou os discípulos de Jesus, não o compreendendo e julgando-o fora de si, queiram retê-lo, ou julgando a multidão demais agitada queiram protegê-lo.

Os escribas vindos de Jerusalém são os enviados dos chefes religiosos que tinham em mãos o culto sacrifical do templo e o dinheiro do tesouro, anexo ao templo. Eles se empenham em difamar Jesus, para afastar o povo dele. O Espírito Santo é o amor. Considerar as obras de amor do Espírito como sendo obras do demônio significa o distanciamento e até a ruptura com o próprio amor de Deus. Rejeitar e matar os que com amor buscam resgatar a dignidade humana dos empobrecidos explorados e excluídos significa a rejeição da vida e do amor de Deus.

A partir de uma referência à sua família carnal, Jesus afirma: "Quem é minha mãe? Quem são meus irmãos?... Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe". É a união em torno da prática da vontade de Deus que cria os novos laços familiares no Reino. Viver o amor, o serviço, a partilha, a misericórdia, solidariamente com os mais necessitados, é inserir-se na família de Jesus, quer seja por laços consanguíneos, quer não, certos da comunhão de vida eterna com Jesus (segunda leitura).

José Raimundo Oliva

 
 

Iniciemos a nossa meditação da Palavra que o Senhor nos dirige neste X domingo comum partindo da tremenda pergunta que o Senhor Deus fez aos nossos primeiros pais e nos faz a nós, filhos de Adão de todos os tempos: “Onde estás?” Onde te encontras, ó homem, com tua ânsia de ser como Deus, de ser dono da tua vida, de viver fechado em ti mesmo, no teu comodismo, na tua frieza, na tua autossuficiência, como se te bastasses? Onde estás, ó homem, bicho tirado do pó da terra, no qual soprei, com Meu Espírito, o desejo do Infinito?

E quão triste a situação do homem, a nossa situação: ei-lo envergonhado, ei-lo escondido! Envergonhado porque nu, escondido porque não se aceita na sua condição de pobre criatura e dela sente vergonha!

Somente quem é inocente como as crianças não sentiria vergonha da própria nudez!

Mas, o homem - eu você - esse bicho que deseja ser autônomo e se pensa Deus, como não se sentir envergonhado?

Então se esconde de Deus, atrás das tantas moitas que a vida lhe oferece: diversões, dispersão, poder, posses, dominação, prestígio, satisfação desmesurada dos instintos descontrolados! Quantas moitas para se esconder de Deus, para esconder, disfarçando a própria nudez!

E lá vai o homem, quebrado, jogando a culpa nos outros, no mundo, em Deus, no Diabo, contanto que se justifique e se desculpe a si próprio, sempre fugindo de si e da sua triste realidade, sempre se protegendo ilusoriamente com frágeis folhinhas de parreira!

Ao invés de fugir, desse esconder, Irmãos, seria mais útil, maduro e coerente abrir o coração ao Senhor, como o Salmista: “Das profundezas eu clamo a Vós, Senhor! Escutai a minha voz! Se levardes em conta as nossas faltas, quem poderá subsistir? Mas, em Vós se encontra o perdão: eu Vos temo e em Vós espero!” Eis aqui a atitude correta diante do Senhor, atitude que nós devemos cultivar, caros Irmãos, mas que, infelizmente, não é a nossa tendência! Naturalmente, diante do Senhor, nossa tendência ainda é aquela dos primeiros pais: a autonomia blasfema de nos fazer deuses de nós mesmos!

E isto aparece também no Evangelho de hoje: primeiro, nos adversários de Jesus, os escribas de Jerusalém que, afirmam logo, para desmoralizá-Lo, que Ele age pelos demônios! É um modo fácil, covarde de não escutar o Senhor, de não se dar ao trabalho de se deixar converter! Não temos nós a tendência de fazer o mesmo com aqueles que nos convidam à conversão, aqueles que com sua palavra ou seu modo de viver nos incomodam, sendo um sinal de Deus? Vemos tantas vezes isto, mesmo na Igreja: a tendência de fazer pouco caso e até criticar e combater verdadeiros sinais que o Senhor nos envia através da vida de pessoas santas, capazes de loucuras e radicalidades pelo Senhor! A sentença do Senhor é dura: isto é pecado contra aquilo que o Espírito de Deus suscita! Que coisa: sufocar o Espírito, contristá-Lo porque não cabe na nossa lógica tacanha, na nossa medida mesquinha! Cuidado, Irmãos! Cuidado para não pecarmos contra o Espírito! Não aconteça combatermos contra Deus!

Mas, há também aquele outro perigo: o dos parentes do Senhor: não reconhecê-Lo como presença de Deus, ficando num nível meramente humano! Quantas vezes nós, cristãos, somos incapazes de perceber a presença do Senhor nas pessoas, nos acontecimentos e até na Sua própria Palavra? Quantas vezes nossa fé é tão morna e somos tão cegos para enxergar! Ainda que não sejamos adversários como os escribas, somos realmente desconfiados como os parentes do Senhor, que chegam a levar a própria Virgem Santíssima com eles para trazerem Jesus para casa, querendo aprisiona-Lo numa simples relação humana, deste mundo! Irmãos no Senhor, tenhamos fé! Irmãos no Senhor, aprendamos a ver com o olhar de Deus, a medir com a medida do Coração de Deus! Não é possível que sejamos cristãos sendo tão terrenos e até mundanos no nosso modo de sentir e de ver!

Mas, estejamos certos, caríssimos: Jesus é o mais forte que derrota o forte, Jesus é o Vencedor da Morte que, vencendo o Príncipe deste mundo e o amarrando, nos dá a possibilidade de vencer o pecado em nós e no mundo. Por isso mesmo, por esta certeza, o ânimo contagioso de São Paulo, na segunda leitura de hoje: “Sustentado pelo mesmo espírito de fé, nós também cremos e, por isso, falamos, certos de que Aquele Deus que ressuscitou o Senhor Jesus nos ressuscitará também com Jesus!”

Ainda cremos realmente nisto, caríssimos: que nossa vida neste mundo caminha para a plenitude eterna, participando da Ressurreição de Jesus, nosso Senhor na glória do Céu?

Cremos que “mesmo que o nosso homem exterior – nossa humanidade nesta situação mortal – se vai arruinando, o nosso homem interior – com a Vida de Cristo, recebida no Batismo – vai se renovando, dia a dia”?

Levamos a sério que nos espera “uma Glória eterna e incomensurável?”

Temos realmente como certo que, em Cristo, o Vencedor do Pecado e da Morte, quando “a tenda em que moramos neste mundo for destruída, Deus nos dará uma outra morada no Céu, que não é obra de mãos humanas, mas que é eterna”, isto é, morada viva da Vida do Eterno?

Não será que nossa frieza, o pouco vigor de muitos para ser generoso com o que é do Senhor não decorreria da falta de fé verdadeira na Vida eterna, na recompensa que o Senhor nos prepara? – Falamos tanto da terra e tão pouco do céu!

Não será que estamos numa situação de marasmo, com uma visão meramente humana das coisas de Deus, como os parentes de Jesus?

Será que, às vezes, pior ainda, não estamos sendo adversários do Espírito de Deus, que Se manifesta em tantos que são entusiasmado radicalmente pelas coisas do Senhor, são, para nós e para o mundo, sinais do céu, e nós os criticamos?

aríssimos, reconheçamo-nos pequenos, reconheçamo-nos deficientes diante do Senhor! Abramo-nos ao Seu Espírito: acreditemos, confiemos, deixemo-nos ser instrumentos generosos do Senhor na obra da salvação do mundo, vivendo o Cristo, testemunhando o Cristo, pregando o Cristo, para, vencido o Pecado e a Morte, participarmos “da Glória eterna e incomensurável que o Senhor nos prepara”.

dom Henrique Soares da Costa

 
 

Neste 10º domingo do tempo comum, a Palavra de Deus leva-nos a meditar sobre a nossa resposta de vida ao projeto de Deus para nós, na liberdade de optar pelo bem e pelo mal.

O Evangelho centra o nosso olhar na pessoa de Jesus, que os seus conterrâneos, entre eles tantos familiares, não aceitaram como enviado de Deus e não perceberam, até se opuseram, à vontade de Deus revelada em Jesus. Na caminhada da fé, cada um é livre de optar: ou ficar pelos dispersos sentidos de vida, ou permanecer na única família de Jesus, de «quem quiser fazer a vontade de Deus».

A segunda leitura realça que, para o cristão, viver só faz sentido na certeza da ressurreição, na caminhada de vida interior que se renova dia a dia em perspectiva da eternidade.

Neste horizonte neo-testamentário, meditemos em particular a primeira leitura que nos mostra, recorrendo à história mítica de Adão e Eva, o que acontece quando rejeitamos as propostas de Deus e preferimos caminhos de egoísmo, de orgulho e de auto-suficiência… Viver à margem de Deus leva, inevitavelmente, a trilhar caminhos de sofrimento, de destruição, de infelicidade e de morte.

1ª leitura – Gn. 3,9-15 - AMBIENTE

O relato jahwista de Gn. 2,4b-3,24 sobre as origens da vida e do pecado (ao qual pertence o texto que hoje nos é proposto como primeira leitura) é, de acordo com a maioria dos comentadores, um texto do séc. X a.C., que deve ter aparecido em Judá na época do rei Salomão. Apresenta-se num estilo exuberante e vivo e parece ser obra de um catequista popular, que ensina recorrendo a imagens sugestivas, coloridas e fortes.

Não podemos, de forma nenhuma, ver neste texto uma reportagem jornalística de acontecimentos passados na aurora da humanidade. A finalidade do autor não é científica ou histórica, mas teológica: mais do que ensinar como o mundo e o homem apareceram, ele quer dizer-nos que na origem da vida e do homem está Jahwéh e que na origem do mal e do pecado estão as opções erradas do homem. Trata-se, portanto, de uma página de catequese.

Esta longa reflexão sobre as origens da vida e do mal que desfeia o mundo está estruturada num esquema tripartido, com duas situações claramente opostas e uma realidade central que aparece como charneira e ao redor da qual giram a primeira e a terceira parte… Na primeira parte (cf. Gn. 2,4b-25), o autor descreve a criação do paraíso e do homem; apresenta a criação de Deus como um espaço ideal de felicidade, onde tudo é bom e o homem vive em comunhão total com o criador e com as outras criaturas. Na segunda parte (cf. Gn. 3,1-7), o autor descreve o pecado do homem e da mulher; mostra como as opções erradas do homem introduziram na comunhão do homem com Deus e com o resto da criação fatores de desequilíbrio e de morte. Na terceira parte (cf. Gn. 3,8-24), o autor apresenta o homem e a mulher confrontados com o resultado das suas opções erradas e as consequências que daí advieram, quer para o homem, quer para o resto da criação.

Na perspectiva do catequista jahwista, Deus criou o homem para a felicidade… Então, pergunta Ele: como é que hoje conhecemos o egoísmo, a injustiça, a violência que desfeiam o mundo? A resposta é: algures na história humana, o homem que Deus criou livre e feliz fez escolhas erradas e introduziu na criação boa de Deus dinamismos de sofrimento e de morte.

O nosso texto pertence à terceira parte do trítico. As personagens intervenientes são Deus (que “passeia no jardim à brisa do dia” – v. 8a), Adão e Eva (que se esconderam de Deus por entre o arvoredo do jardim – v. 8b).

MENSAGEM

A nossa leitura começa com a “investigação” de Deus… Antes de proferir a sua acusação, Deus – o acusador e juiz – investiga, descobre e estabelece os fatos.

Primeira pergunta feita por Deus ao homem: “onde estás?” A resposta do homem é já uma confissão da sua culpabilidade: “ouvi o rumor dos vossos passos no jardim e, como estava nu, tive medo e escondi-me” (v. 9-10). A vergonha e o medo são sinal de uma perturbação interior, de uma ruptura com a anterior situação de inocência, de harmonia, de serenidade e de paz. Como é que o homem chegou a esta situação? Evidentemente, desobedecendo a Deus e percorrendo caminhos contrários àqueles que Deus lhe havia proposto. A resposta do homem trai, portanto, o seu segredo e a sua culpa.

Depois desta constatação, a segunda pergunta feita por Deus ao homem é meramente retórica: “terias tu comido dessa árvore, da qual te proibira de comer?” (v. 11). A árvore em causa – a “árvore do conhecimento do bem e do mal” – significa o orgulho, a auto-suficiência, o prescindir de Deus e das suas propostas, o querer decidir por si só o que é bem e o que é mal, o pôr-se a si próprio em lugar de Deus, o reivindicar autonomia total em relação ao criador. A situação do homem, perturbado e em ruptura, é já uma resposta clara à pergunta de Deus… É evidente que o homem “comeu da árvore proibida” – isto é, escolheu um caminho de orgulho e de auto-suficiência em relação a Deus. Daí a vergonha e o medo.

Ao defender-se, o homem acusa a mulher e, ao mesmo tempo, acusa veladamente o próprio Deus pela situação em que está (“a mulher que me deste por companheira deu-me do fruto da árvore e eu comi” – v. 12). Adão representa essa humanidade que, mergulhada no egoísmo e na auto-suficiência, esqueceu os dons de Deus e vê em Deus um adversário; por outro lado, a resposta de Adão mostra, igualmente, uma humanidade que quebrou a sua unidade e se instalou na cobardia, na falta de solidariedade, no ódio. Escolher caminhos contrários aos de Deus não pode senão conduzir a uma vida de ruptura com Deus e com os outros irmãos.

Vem, depois, a “defesa” da mulher: “a serpente enganou-me e eu comi” (v. 13). Entre os povos cananeus, a serpente estava ligada aos rituais de fertilidade e de fecundidade. Os israelitas deixavam-se fascinar por esses cultos e, com frequência, abandonavam Jahwéh para seguir os rituais religiosos dos cananeus e assegurar, assim, a fecundidade dos campos e dos rebanhos. Na época em que o autor jahwista escreve, a serpente era, pois, o “fruto proibido”, que seduzia os crentes e os levava a abandonar a Lei de Deus. A “serpente” é, neste contexto, um símbolo literário de tudo aquilo que afastava os israelitas de Jahwéh. A resposta da “mulher” confirma tudo aquilo que até agora estava sugerido: é verdade, a humanidade que Deus criou prescindiu de Deus, ignorou as suas propostas e enveredou por outros caminhos. Achou, no seu egoísmo e auto-suficiência, que podia encontrar a verdadeira vida à margem de Deus, prescindindo das propostas de Deus.

Diante disto, não são precisas mais perguntas. Está claramente definida a culpa de uma humanidade que pensou poder ser feliz em caminhos de egoísmo e de auto-suficiência, totalmente à margem dos caminhos que foram propostos por Deus.

Que tem Deus a acrescentar? Pouco mais, a não ser condenar como falsos e enganosos esses cultos e essas tentações que seduziam os israelitas e os colocavam fora da dinâmica da Aliança e dos mandamentos (v. 14-15). O nosso catequista jahwista sabe que a serpente é um animal miserável, que passa toda a sua existência mordendo o pó da terra. O autor vai servir-se deste dado para pintar, plasticamente, a condenação radical de tudo aquilo que leva os homens a afastar-se dos caminhos de Deus e a enveredar por caminhos de egoísmo e de auto-suficiência.

O que é que significa a inimizade e a luta entre a “descendência” da mulher e a “descendência” da serpente? Provavelmente, o autor jahwista está, apenas, dando uma explicação etiológica (uma “etiologia” é uma tentativa de explicar o porquê de uma determinada realidade que o autor conhece no seu tempo, a partir de um pretenso acontecimento primordial, que seria o responsável pela situação atual) para o fato de a serpente inspirar horror aos humanos e de toda a gente lhe procurar “esmagar a cabeça”; mas a interpretação judaica e cristã viu nestas palavras uma profecia messiânica: Deus anuncia que um “filho da mulher” (o Messias) acabará com as consequências do pecado e inserirá a humanidade numa dinâmica de graça.

Atenção: o autor sagrado não está falando de um pecado cometido nos primórdios da humanidade pelo primeiro homem e pela primeira mulher; mas está falando do pecado cometido por todos os homens e mulheres de todos os tempos… Ele está apenas ensinando que a raiz de todos os males está no fato de o homem prescindir de Deus e construir o mundo a partir de critérios de egoísmo e de auto-suficiência. Não conhecemos bem este quadro?

ATUALIZAÇÃO

• Um dos mistérios que mais questiona os nossos contemporâneos é o mistério do mal… Esse mal que vemos, todos os dias, tornar sombria e deprimente essa “casa” que é o mundo, vem de Deus, ou vem do homem? A Palavra de Deus responde: o mal nunca vem de Deus… Deus criou-nos para a vida e para a felicidade e deu-nos todas as condições para imprimirmos à nossa existência uma dinâmica de vida, de felicidade, de realização plena.

• O mal resulta das nossas escolhas erradas, do nosso orgulho, do nosso egoísmo e auto-suficiência. Quando o homem escolhe viver orgulhosamente só, ignorando as propostas de Deus e prescindindo do amor, constrói cidades de egoísmo, de injustiça, de prepotência, de sofrimento, de pecado… Quais os caminhos que eu escolho? As propostas de Deus fazem sentido e são, para mim, indicações seguras para a felicidade, ou prefiro ser eu próprio a fazer as minhas escolhas, à margem das propostas de Deus?

• O nosso texto deixa também claro que prescindir de Deus e caminhar longe d’Ele, leva o homem ao confronto e à hostilidade com os outros homens e mulheres. Nasce, então, a injustiça, a exploração, a violência. Os outros homens e mulheres deixam de ser irmãos, para passarem a ser ameaças ao próprio bem-estar, à própria segurança, aos próprios interesses. Como é que eu me situo face aos meus irmãos? Como é que eu me relaciono com aqueles que são diferentes, que invadem o meu espaço e interesses, que me questionam e interpelam?

• O nosso texto ensina, ainda, que prescindir de Deus e dos seus caminhos significa construir uma história de inimizade com o resto da criação. A natureza deixa de ser, então, a casa comum que Deus ofereceu a todos os homens como espaço de vida e de felicidade, para se tornar algo que eu uso e exploro em meu proveito próprio, sem considerar a sua dignidade, beleza e grandeza. O que é que a criação de Deus significa para mim: algo que eu posso explorar de forma egoísta, ou algo que Deus ofereceu a todos os homens e mulheres e que eu devo respeitar e guardar com amor?

2ª leitura – 2Cor. 4,13 – 5,1

A segunda carta de Paulo aos Coríntios apareceu num momento particularmente tenso da relação entre o apóstolo e essa comunidade cristã da Grécia. Algumas duras críticas de Paulo (na primeira carta aos Coríntios) a certos membros da comunidade que viviam de forma pouco coerente com a fé cristã provocaram um certo desconforto na comunidade, que foi aproveitado pelos opositores de Paulo, que criaram um clima de hostilidade contra o apóstolo. Paulo foi acusado de estar cuidando apenas dos seus próprios interesses e de pregar uma doutrina que não estava em consonância com o Evangelho anunciado pelos outros apóstolos. Na opinião dos seus detratores, o fato de Paulo não ter apresentado qualquer “carta de recomendação” que comprovasse a sua autoridade para anunciar o Evangelho significava que a doutrina por ele pregada não era digna de fé.

Ao saber do que se passava, Paulo foi a Corinto; mas essa ida não só não resolveu o problema, como até o radicalizou. Deve ter havido uma troca violenta de argumentos e de palavras e Paulo foi gravemente ofendido por um membro da comunidade. Algum tempo depois, Tito, amigo e colaborador de Paulo, partiu para Corinto com a missão de acalmar os ânimos e de tentar a reconciliação. Quando voltou, Tito trazia notícias animadoras: o diferendo fora ultrapassado e os Coríntios estavam, outra vez, em comunhão com Paulo. Foi então que Paulo escreveu a nossa segunda Carta aos Coríntios. Nela, o apóstolo explicava tranquilamente aos Coríntios os princípios que sempre orientaram o seu trabalho apostólico (cf. 2Cor. 1,3-7,16) e desmontava os argumentos dos adversários (cf. 2Cor. 10,1-13,10). Estávamos nos anos 56/57.

Neste contexto, o texto de hoje situa-nos na opção pelo sentido da nossa vida em Cristo. Paulo apresenta duas fortes convicções de fé: «com este mesmo espírito de fé, também acreditamos, e falamos», que Deus há-de ressuscitar-nos com Jesus e vai levar-nos para ficarmos eternamente em comunhão com Ele; o homem interior renova-se em cada dia na medida em que intensifica o seu olhar nas coisas invisíveis que são eternas. Em consequência, há que renovar constantemente, sem desanimar, esta opção pela habitação eterna, em comunhão plena com Deus. Coisas essenciais, ditas de modo claro, a exigir coerência àqueles que querem continuar a viver como autênticos discípulos de Cristo.

Evangelho – Mc. 3,20-35

Jesus continua a percorrer o espaço geográfico da Galileia e a cumprir a sua missão de anunciar o “Reino”. Começa, no entanto, a crescer a onda de contestação à sua pregação. Tomando como pretexto alguns casos particulares cada vez mais insignificantes, os líderes judaicos manifestam a sua firme oposição à novidade do “Reino”. As polêmicas e controvérsias marcam esta fase da caminhada de Jesus.

De uma forma geral, Marcos narra as controvérsias seguindo um esquema fixo e sempre igual: começa com a apresentação da questão, continua com a discussão e termina com um “dito” final de Jesus. Este “dito” não oferece a mera solução do “caso” em questão, mas é sempre uma auto-revelação de Jesus, de importância decisiva para a comunidade cristã do tempo de Marcos e de todos os tempos.

Toda a cena se passa numa “casa”. Que casa é essa? É uma casa onde Jesus está pregando a Palavra e é uma casa onde «de novo acorreu tanta gente, de modo que nem sequer podiam comer». É também uma casa onde estão sentados/instalados alguns especialistas da Lei (escribas). A “casa” onde Jesus prega, onde se congrega a comunidade judaica e onde há escribas instalados, poderia ser uma figura da sinagoga, entendida como assembléia do Povo de Deus. O fato de se referir que a “casa” em questão estava situada na cidade de Cafarnaum (o centro a partir do qual irradia a atividade de Jesus na Galileia) poderia indicar que Marcos está falando da comunidade judaica da Galileia, em cujas sinagogas Jesus acabou de passar (cf. Mc. 1,39), anunciando a Boa Nova do Reino. Em qualquer caso, a “casa” representa essa comunidade judaica a quem Jesus dirige a pregação do “Reino”.

A mensagem evangélica de hoje apresenta três diálogos de Jesus: dois com os seus familiares, no princípio e no fim, outro com os escribas, no meio. Fiquemo-nos pelos familiares de Jesus. Diz-se que vão a Cafarnaum para levar Jesus desta casa onde está para a sua casa em Nazaré. Muitas são as razões: muito tempo fora da família, notícias contraditórias sobre a sua atividade, mensagem em contraste com a doutrina oficial dos escribas e fariseus, contacto com os pecadores de quem é amigo, não seguimento da tradição dos antigos nem respeito pelo sábado; enfim, Jesus é considerado louco e herético. A intenção principal é reconduzi-lo ao caminho reto de um autêntico judeu.

Há os que ficam de fora e os que estão dentro. Imagem atualíssima para nós hoje. Podemos andar por fora, arredios, ficar à porta, até nos chamarmos “católicos não praticantes”. Que significa isso? Faz sentido? Ou se é ou não se é. Aí está de novo a radicalidade da opção por Jesus. Ou ficamos fora, ou estamos dentro da casa, unidos a Jesus, a escutá-l’O e a segui-l’O com todo o nosso ser, com todo o nosso coração.

Em outubro próximo inicia-se a celebração do Ano fé, anunciado há meses por Bento XVI através de um breve mas belíssimo documento. Aí está: ou entramos na porta da casa, na Porta da Fé, e continuamos o caminho apenas com Jesus como único nas nossas vidas, ou ficamos à porta ou a espreitar pelas janelas, continuando a apanhar ou a soprar outros ventos que não nos centram em Jesus.

Na caminhada da fé, cada um é livre de optar pela família que quiser: ou ficar pelas famílias que dispersam do sentido da vida, ou permanecer na única família de Jesus, de «quem quiser fazer a vontade de Deus».

P. Joaquim Garrido, P. Manuel Barbosa, P. José Ornelas Carvalho

 
 

As raízes do mal

I. Deus situou o homem no cume da Criação para que dominasse sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos e sobre todos os répteis que se arrastam pela terra (1). Por isso dotou-o de inteligência e vontade, de modo que oferecesse livremente ao seu Criador uma glória muito mais excelente do que a que lhe prestam as demais criaturas.

Enriqueceu-o, além disso, com os dons da imunidade da morte, da concupiscência e da ignorância, chamados dons preternaturais, pelos quais não podia enganar-se ao conhecer e ficava livre de todo o erro; o próprio corpo gozava de imortalidade, “não por virtude própria, mas por uma força sobrenatural impressa na alma, que preservava o corpo da corrupção enquanto estivesse unido a Deus” (2).

Levado pelo seu amor, Deus foi ainda mais longe e decretou também a elevação sobrenatural do homem, para que tomasse parte na sua vida divina (3) e conhecesse de alguma forma os seus mistérios íntimos, que superam absolutamente todas as exigências naturais. Para isso, revestiu-o gratuitamente da graça santificante (4) e das virtudes e dons sobrenaturais, constituindo-o em santidade e justiça e capacitando-o para agir sobrenaturalmente (5).

Esta ação divina teve lugar na pessoa de Adão, mas Deus contemplava nele todo o gênero humano. O dom de justiça e santidade originais foi-lhe conferido “não enquanto pessoa singular, mas enquanto princípio geral de toda a natureza humana, de modo que depois dele se propagasse mediante a geração a todos os homens que viessem a seguir” (6).

Todos deveríamos nascer em estado de amizade com Deus e com a alma e o corpo embelezados pelas perfeições outorgadas pelo Senhor. E, no momento devido, o Senhor confirmaria cada homem na graça, arrebatando-o da terra sem dor e sem passar pelo transe da morte, para fazê-lo gozar da sua felicidade eterna no Céu.

Este foi o plano divino, repleto de bondade para com o gênero humano. Em face dele, devemos agora deter-nos a agradecer ao Senhor a sua magnanimidade infinita para com o ser humano, o seu esbanjamento de amor por umas criaturas de que absolutamente não precisava. Louvai o Senhor, porque Ele é bom.

II. “A presença da justiça original e da perfeição no homem, criado à imagem de Deus [...], não excluía que esse homem, enquanto criatura dotada de liberdade, fosse submetido desde o princípio, como os demais seres espirituais, à prova da liberdade” (7). Deus impôs-lhe uma única condição: "Podes comer de todas as árvores do paraíso, mas não comerás da árvore da ciência do bem e do mal, porque, no dia que dela comeres, certamente morrerás" (8).

Conhecemos pela Sagrada Escritura a triste transgressão dessa ordem do Senhor, e hoje a primeira leitura da missa (9) descreve-nos o estado a que o homem ficou reduzido depois do seu ato de desobediência. Quebrou-se imediatamente a sua sujeição ao Criador e desintegrou-se a harmonia que havia nas suas potências: perdeu a santidade e a justiça originais, o dom da imortalidade, e caiu “no cativeiro daquele que tem o império da morte (Hb. 2,14), ou seja, do diabo; e toda a pessoa de Adão, por aquela ofensa de prevaricação, foi mudada para pior no corpo e na alma” (10).

Assim cometeram os nossos primeiros pais o pecado original no começo da história, um pecado que se propaga por geração a cada homem que vem a este mundo (11).

A realidade desse pecado e o conflito que cria na intimidade de cada homem é um dado que se comprova facilmente. A fé explica a sua origem, mas todos experimentamos as suas conseqüências. “O que a Revelação divina nos diz coincide com a experiência. O homem, com efeito, quando examina o seu coração, comprova a sua inclinação para o mal e sente-se afogado em muitos males que não podem ter a sua origem no seu santo Criador” (12).

Paulo VI ensina que o homem nasce em pecado, com uma natureza caída que já não possui o dom da graça de que outrora estava adornada, antes está ferida nas suas próprias forças naturais e submetida ao império da morte. Além disso, “o pecado original transmite-se juntamente com a natureza humana, por propagação, não por imitação”, e “encontra-se em cada um como próprio” (13).

Com efeito, dá-se uma misteriosa solidariedade de todos os homens em Adão, de modo que “todos podem considerar-se como um só homem, enquanto a todos convém uma mesma natureza recebida do primeiro pai” (14). Mas a solidariedade da graça que unia todos os homens em Adão antes da sua falta, transformou-se em solidariedade no pecado. “Por isso, assim como a justiça original se teria transmitido aos descendentes, assim se transmitiu a desordem” (15).

O espetáculo que o mal apresenta no mundo e em nós, as tendências e os instintos do corpo que não se submetem à razão, convencem-nos da profunda verdade contida na Revelação e incitam-nos a lutar contra o pecado, único verdadeiro mal e raiz de todos os males que existem no mundo.

“Quanta miséria! Quantas ofensas! As minhas, as tuas, as da humanidade inteira...

Et in peccatis concepit me mater mea! (Sl. 50,7). E minha mãe concebeu-me no pecado. Nasci, como todos os homens, manchado com a culpa dos nossos primeiros pais. Depois..., os meus pecados pessoais: rebeldias pensadas, desejadas, cometidas...

“Para nos purificar dessa podridão, Jesus quis humilhar-se e tomar a forma de servo (cf. Fl. 2,7), encarnando-se nas entranhas sem mácula de Nossa Senhora, sua Mãe e Mãe tua e minha. Passou trinta anos de obscuridade, trabalhando como outro qualquer, junto de José. Pregou. Fez milagres... E nós lhe pagamos com uma Cruz.

“Precisas de mais motivos para a contrição?”16

III. O Senhor expulsou os nossos primeiros pais do paraíso (17), indicando assim que os homens viriam ao mundo em estado de separação de Deus. Em vez dos dons sobrenaturais, Adão e Eva transmitiram-nos o pecado. Perderam a herança que deveriam deixar aos seus descendentes, e já entre os seus primeiros filhos se fizeram notar imediatamente as conseqüências do pecado: Caim mata Abel por inveja.

Da mesma forma, todos os males pessoais e sociais têm a sua origem no primeiro pecado do homem. Embora o Batismo perdoe totalmente a culpa e a pena do pecado original, bem como os pecados que se possam ter cometido pessoalmente antes de tê-lo recebido, não livra, no entanto, dos efeitos do pecado: o homem continua sujeito ao erro, à concupiscência e à morte.

O pecado original foi um pecado de soberba (18). E cada um de nós cai também na mesma tentação de orgulho quando procura ocupar o lugar de Deus, quer na vida privada, quer na sociedade: Sereis como deuses (19). São as mesmas palavras que o homem ouve no meio da desordem dos seus sentidos e potências. Tal como no princípio, também agora busca ele a autonomia que o converta em árbitro do bem e do mal, e esquece-se de que o seu maior bem consiste no amor e na submissão ao seu Criador; de que só nEle é que se recuperam a paz, a harmonia dos instintos e sentidos, bem como todos os demais bens.

A nossa ação apostólica no meio do mundo mover-nos-á a situar cada homem e as suas obras (o ordenamento jurídico, o trabalho, o ensino...) no legítimo lugar que lhes cabe em face do seu Criador. Quando Deus está presente num povo, numa sociedade, a convivência torna-se mais humana. Não existe solução alguma para os conflitos que assolam o mundo, para uma maior justiça social, que não passe antes por uma aproximação de Deus, por uma conversão do coração. O mal está na raiz – no coração do homem –, e é aí que é preciso curá-lo. A doutrina sobre o pecado original, tão ativo hoje no homem e na sociedade, é um ponto fundamental que não se pode esquecer na catequese e em todo o trabalho de formação cristã.

Perante um mundo que parece girar fora dos eixos, não podemos cruzar os braços como quem nada pode diante de uma situação que o supera. Não é necessário que intervenhamos nas grandes decisões, que talvez não nos digam respeito, mas devemos fazê-lo nesses campos que Deus pôs ao nosso alcance para que lhes demos uma orientação cristã.

A nossa Mãe Santa Maria, que “foi preservada imune de toda a mancha da culpa do pecado original desde o primeiro instante da sua concepção imaculada, por singular graça e privilégio” (20) de Deus, há de ensinar-nos a ir à raiz dos males que nos afetam, ajudando-nos a fortalecer em primeiro lugar e em cada situação a nossa amizade com Deus.

Francisco Fernández-Carvajal

(1) Gên 1, 26;

(2) São Tomás, Suma Teológica, I, q. 97, a. 1;

(3) cfr. Conc. Vat. II, Const. Lumen gentium, 2;

(4) cfr. Pio XII, Enc. Humani generis, 12-VIII-1950;

(5) cfr. Conc. de Trento, Sessão V, can. 1;

(6) São Tomás, De malo, q. 4, a. 1;

(7) João Paulo II, Alocução, 3-IX-1986;

(8) Gên 2, 17; Primeira leitura da Missa do décimo domingo do TC, ciclo B;

(9) Gên 3, 9-15; (10) Conc. de Trento, Sessão V, can. 1;

(11) cfr. Conc. de Orange, can. 2;

(12) Conc. Vat. II, Const. Gaudium et spes, 13;

(13) Paulo VI, Credo do Povo de Deus, 16;

(14) São Tomás, Suma Teológica, I-II, q. 81, a. 1;

(15) ib., q. 81, a. 2;

(16) Josemaría Escrivá, Via Sacra, IVª est., n. 2;

(17) Gên 3, 23;

(18) cfr. São Tomás, op. cit., II-II, q. 163, a. 1;

(19) Gên 3, 5;

(20) Pio IX, Bula Ineffabilis Deus, 8-XII-1854.

 

 

Por que procuramos Jesus?

Hoje, a Liturgia convida-nos a continuar nossa leitura sobre o Evangelho de Marcos. Num primeiro momento Jesus dirige-se para sua casa e “de novo” um grupo de pessoas se reúne ao redor de Jesus, mas isso não “lhes permite comer nem sequer um pedaço de pão”.

Podemos imaginar a cena. Possivelmente um grupo grande de pessoas que estava ao redor de Jesus fazia-lhe perguntas, apresentava-lhe suas doenças físicas, da sua família, a escravidão que sofriam, a marginalização, as dificuldades religiosas e tantas realidades padecidas por cada um e cada uma delas.

Pessoas que desejavam sua chegada, tocar seu manto, ficar perto dele. Jesus sabia e possivelmente queria  estar perto deles. Nesse momento sua comida não era o mais importante. No Evangelho de João, Jesus disse: “O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra.” (Jo 4,32) Neste momento ele se alimenta desta comida que é diferente!

Mas os parentes consideram que ele está louco devido ao seu comportamento. Por isso se dirigem até Jesus para afastá-lo e impedir que continue nessa situação. Num primeiro momento não fica claro quem é sua família, mas um pouco mais adiante esclarece que esse grupo é sua mãe e seus irmãos. No Evangelho de João aparece uma vez mais esta desconfiança de seus irmãos: “Nem mesmo os irmãos de Jesus acreditavam nele.” (Jo 7,5)

Possivelmente eles tinham dúvidas sobre suas atitudes, ele quebrava muitas fronteiras preestabelecidas. De onde recebe o poder de curar, de sanar? No fundo desconfiam de Jesus e não acreditam nem no seu poder. Sua conduta produz confusão.

“Alguns doutores da Lei, que tinham ido de Jerusalém, diziam: ‘Ele está possuído por Belzebu’.”

Jesus está falando e atuando em nome de Deus e estas pessoas o consideram “possuído pelo Belzebu”. Eles acusam-no de estar “possuído pelo Belzebu” e dizem que a origem de seu poder é o príncipe dos demônios. Justamente o contrário do que Jesus faz, que é dirigir-se ao pobres, os que carregam o sofrimento da opressão e da marginalização, de libertá-los em nome de Deus, o Pai.

A resposta de Jesus, colocada pelo evangelista como parábolas, contém três elementos a considerar.

Respeito ao poder de Jesus. Se a origem provém de Satanás, então é um reino dividido que nunca conseguiria ficar em pé. Utiliza também a imagem da família que, se estiver dividida em grupos, nunca poderá subsistir.

Num segundo momento, Jesus fala a respeito de sua pessoa. Para arrombar uma casa onde mora um homem forte, é preciso primeiro amarrá-lo antes e derrubá-lo. Só dessa forma é possível roubar sua casa. Fica claro que aquele homem tem menos poder porque foi vencido.

Respeito aos escribas. O pecado contra o Espírito Santo é uma referência à rejeição da força reconciliadora de Deus que se revela na atuação de Jesus vencendo todo o mal. 

Falando sobre o Sacerdócio de Cristo, Francisco disse que o Papa fez referência à grande unção sacerdotal de Jesus realizada pelo Espírito Santo no seio de Maria, ao passo que os sacerdotes, na cerimônia de ordenação, são ungidos com o óleo. “Também Jesus, como Sumo Sacerdote, recebeu esta unção. E qual foi a primeira unção? A carne de Maria com a obra do Espírito Santo. E aquele que blasfema sobre isto, blasfema sobre o fundamento do amor de Deus, que é a redenção, a recriação. Blasfema sobre o sacerdócio de Cristo. ‘Mas que mal!, o Senhor não perdoa?’ – ‘Não! O Senhor perdoa tudo! Mas, aquele que diz estas coisas se fecha ao perdão. Não quer ser perdoado! Não se deixa perdoar!’. Isto é o feio da blasfêmia contra o Espírito Santo: não se deixar perdoar, porque renega a unção sacerdotal de Jesus, realizada pelo Espírito Santo”. (Texto disponível em: "Há uma blasfêmia imperdoável: a contra o Espírito Santo”, prega o Papa).

Nesta semana o texto evangélico convida-nos a interiorizar as diferentes situações que lemos e meditamos hoje e a perguntar-nos: qual é a nossa atitude interior quando procuramos estar com Jesus?

Acreditamos realmente no seu poder que liberta profundamente, somos pobres e necessitados da sua presença libertadora ou, pelo contrário, nos fechamos consciente ou inconscientemente ao Espírito que não pode atuar em nós nem em nossas comunidades porque as portas da necessidade, do desejo, da procura, ficam fechadas para ele?

Há um grupo que procura Jesus e fica sentado ao seu redor e ele os reconhece como sua família. São os que estão ao seu lado, que não têm medo de quebrar fronteiras estabelecidas para estar ao seu redor. São os que contribuíram com seu grande desejo para que o Espírito os guie e os leve pelos seus caminhos.

Eles recebem a Boa Nova que proclama Jesus.

É uma nova família que está se constituindo, que são aqueles que entram na casa com Jesus, abrem suas portas ao Espírito Santo. Os que têm olhos para ver e ouvidos para entender.

Ana Maria Casarotti

 

 

O que é mais são?

A cultura moderna exalta o valor da saúde física e mental, e dedica todo um conjunto de esforços para prevenir e combater as doenças. Mas, ao mesmo tempo, estamos construindo, entre todos, uma sociedade onde não é fácil viver de forma sã.

Nunca esteve a vida tão ameaçada pelo desequilíbrio ecológico, a contaminação, o estresse ou a depressão. Por outra parte, temos fomentado um estilo de vida onde a falta de sentido, a carência de valores, certo tipo de consumismo, a banalização do sexo, a falta de comunicação e tantas outras frustrações impedem as pessoas de crescer de forma sã.

Já S. Freud, na sua obra O mal-estar na civilização, considerou a possibilidade de que uma sociedade esteja doente no seu conjunto e possa padecer de neuroses coletivas das quais talvez poucos indivíduos estejam conscientes. Pode inclusive acontecer que dentro de uma sociedade doente se considerem precisamente doentes aqueles que estão mais sãos.

Algo disso acontece com Jesus, cujos familiares pensam que «não está no seu juízo», enquanto os letrados vindos de Jerusalém consideram que ele «tem dentro Belzebu».

Em qualquer caso, temos de afirmar que uma sociedade é sã na medida em que favorece o desenvolvimento são das pessoas. Quando, pelo contrário, as conduz ao seu esvaziamento interior, à fragmentação, à dissolução como seres humanos, deve-se dizer que essa sociedade é, pelo menos em parte, patogênica.

Por isso devemos ser suficientemente lúcidos para nos perguntarmos se não estamos caindo em neuroses coletivas e condutas pouco sãs sem estarmos conscientes disso.

O que é mais são, deixar-nos arrastar por uma vida de conforto, comodidade e excesso que provoca letargia no espírito e diminui a criatividade das pessoas ou viver de modo sóbrio e moderado, sem cair na «patologia da abundância»?

O que é mais são, continuar a funcionar como «objetos» que giram pela vida sem sentido, reduzindo-a a um «sistema de desejos e satisfações», ou construir a existência dia a dia, dando-lhe um sentido último a partir da fé? Não esqueçamos que Carl G. Jung ousou considerar a neurose como «o sofrimento da alma que não encontrou o seu sentido».

O que é mais são, encher a vida de coisas, produtos da moda, vestidos, bebidas, revistas e televisão ou cuidar das necessidades mais profundas e cativantes do ser humano na relação do casal, no lar e na convivência social?

O que é mais são, reprimir a dimensão religiosa esvaziando de transcendência a nossa vida ou viver a partir de uma atitude de confiança nesse Deus «amigo da vida» que só quer e busca a plenitude do ser humano?

José Antonio Pagola

 

 

A nova família de Jesus

Retomamos a leitura quase cursiva do Evangelho segundo Marcos, neste tempo per annum, e busquemos ficar muito atentos à especificidade da mensagem desse Evangelho.

Jesus já é reconhecido como mestre confiável, para alguns como um profeta que continua a missão de João Batista. Mas Jesus não habita no deserto, não vive em solidão e reuniu ao seu redor uma comunidade de discípulos e discípulas, entre os quais emergem 12 pela vida vivida junto dele e pela participação no anúncio da vinda do reino de Deus.

A palavra de autoridade de Jesus e a sua atividade de cuidado e cura dos doentes ativam muitas pessoas, que querem escutá-lo e vê-lo. Esse sucesso da sua pregação às vezes impede, de fato, que ele e sua comunidade se saciem até mesmo com um pouco de pão: não há tempo...

Quando Jesus está em casa, em Cafarnaum, as pessoas, sabendo onde ele se encontra, vão procurá-lo, e, assim, essa fama desperta preocupação na família de origem de Jesus e também na sua comunidade religiosa. Marcos ousa até atestar aquela desconfiança hostil a Jesus por parte dos “seus”, os familiares que, tendo vindo do seu vilarejo, tentam pôr as mãos nele, pegá-lo e levá-lo embora, julgando-o “fora de si”, exaltado, enlouquecido.

Jesus tinha feito escolhas de vida que, aos seus familiares, podiam parecer tolice e loucura. De fato, tinha abandonado a família, havia assumido uma vida itinerante, vivia a condição de celibatário, de não casado, infame para a cultura da época, e, com o seu sucesso, tinha feito inimizade com as próprias autoridades religiosas.

Julgado “subversivo”, portanto, devia ser detido. Mas não havia sido esse o destino dos profetas? Com o seu jeito de viver e de falar, de fato, o profeta perturba, por isso preferem calá-lo, julgando-o louco, delirante, até pensarem em eliminá-lo fisicamente (cf. Os 9, 7).

Mas a hostilidade dos familiares se soma à das legítimas autoridades judaicas. Os escribas, tendo descido de Jerusalém à Galileia, estão preocupados com a escuta de Jesus por parte das multidões. Se, para os seus familiares, Jesus está louco, os especialistas nas Sagradas Escrituras o consideram possuído por Belzebu, o chefe dos demônios, que – afirmam estes – trabalha nele para expulsar das pessoas os demônios inferiores.

Preste-se atenção: estes não negam que Jesus realiza uma obra de libertação, de cura das pessoas que ele encontra e cuida. Eles pensam que Jesus expulsa os demônios que mantêm os homens e as mulheres na escravidão, mas que faz isso como endemoninhado: nele, age o chefe dos demônios, Belzebu (literalmente: o senhor do esterco)! Essa é a insinuação e o julgamento daqueles que importam, das autoridades da comunidade religiosa a que Jesus pertence.

Mas Jesus os chama para si, desmascara-os e se dirige a eles com linguagem parabólica, mediante uma pergunta seguida por algumas afirmações: “Como é que Satanás pode expulsar a Satanás? Se um reino se divide contra si mesmo, ele não poderá manter-se. Se uma família se divide contra si mesma, ela não poderá manter-se. Assim, se Satanás se levanta contra si mesmo e se divide, não poderá sobreviver, mas será destruído”.

O conceito expressado por Jesus é claro: se fosse verdade aquilo que os escribas dizem, se Satanás, através das suas ações, se insurgisse contra si mesmo, isso significaria que o seu poder está se arruinando, que ele não é mais vencedor, mas vencido.

Por isso, Jesus acrescenta, de modo decididamente convincente e incontestável: “Ninguém pode entrar na casa de um homem forte para roubar seus bens, sem antes o amarrar. Só depois poderá saquear sua casa”.

Jesus, portanto, pode expulsar Satanás porque o amarrou, porque tornou impotente aquele que é forte, desde a sua imersão no Jordão (cf. Mc 1, 9-11) e da sua luta contra Satanás no deserto (cf. Mc 1, 12-13).

Além disso, Jesus havia sido anunciado por João Batista como “o mais forte” (Mc 1, 7), aquele que, munido pela força de Deus, tem “autoridade” (exousía: Mc 1, 22) e pode mandar nos demônios que lhe obedecem (cf. Mc 1, 27).

Mas a resposta de Jesus se torna também uma advertência grave e ameaçadora, introduzida por um solene “Amém”: “Amém, em verdade vos digo: tudo será perdoado aos homens, tanto os pecados, como qualquer blasfêmia que tiverem dito. Mas quem blasfemar contra o Espírito Santo, nunca será perdoado, mas será culpado de um pecado eterno”.

Palavras duras, mas que devem ser acolhidas sem se entregar a fantasias ou imaginações sobre esse pecado contra o Espírito Santo. Na realidade, é um pecado banal, assim como o mal é banal; é um pecado que não requer maldades particulares, mas é simplesmente cometido por aqueles que veem e discernem o bem que é feito, mas, em vez de reconhecerem essa verdade, preferem chamá-lo de mal, atribuindo-o a Satanás. É o pecado que procede da inveja, do fato de não suportar que outro tenha feito ou faça o bem, porque se gostaria que apenas si mesmo fosse sujeito do bem; e, não querendo reconhecer em outro aquele bem que vem de Deus, prefere-se atribuí-lo ao demônio.

Aqueles escribas viam o bem realizado por Jesus, mas, em vez de reconhecê-lo como obra inspirada por Deus, optavam deliberadamente por imputá-lo a Satanás. Não reconhecer a obra de Deus, não reconhecer a ação do Espírito Santo, até inverter o olhar e o julgamento, atribuindo o bem realizado a Satanás, é realmente o pecado imperdoável, diz Jesus! E isso – lembremo-nos – é um pecado cometido muitas vezes por pessoas religiosas, até hoje na Igreja!

Como complemento do julgamento negativo sobre Jesus por parte dos seus e dos escribas, Marcos também conta que a mãe e os irmãos de Jesus chegam à casa onde ele mora e, do lado de fora, mandam chamá-lo. Trata-se dos seus familiares, daqueles que haviam saído para levá-lo embora, julgando-o louco, ou Marcos se refere a outro episódio em que se destaca principalmente a mãe de Jesus?

Em todo o caso, o evangelista parece sublinhar que justamente os seus familiares que haviam declarado Jesus como fora de si (exéste), na realidade, permanecem fora (éxo), fora do espaço de Jesus. Ele é advertido: “Tua mãe e teus irmãos estão lá fora à tua procura”. Querem encontrá-lo, mas ficam fora do seu espaço.

Jesus, de sua parte, não se move na direção deles, permanece no seu lugar, entre os seus discípulos, no meio da comunidade reunida em círculo ao redor dele e, voltando o olhar para esse grupo, diz com força: “Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos? Aqui estão minha mãe e meus irmãos. Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”.

Desse modo, ele declara conhecer e viver os laços de uma nova família, a comunidade dos discípulos, laços que não nascem da carne ou do sangue, isto é, da história familiar, mas do fato de fazer a vontade de Deus. A proximidade a Jesus não é decidida pelo vinculo parental, mas se baseia na escuta da palavra de Deus, na realização da sua vontade, na vivência da fraternidade no vínculo do amor como filhos e filhas de um único Pai: Deus.

Após essa declaração de Jesus, portanto, devemos nos perguntar: quem está realmente fora e quem está dentro do espaço de relação e de comunhão com ele?

Certamente, essa página evangélica parece ser dura, e nós também nos perguntamos como a mãe de Jesus, Maria, viveu esse encontro perdido. Podemos responder que ela o viveu na fé, porque essas palavras de Jesus aparentemente duras, na realidade, atestam a sua grandeza: Maria cumpriu plenamente a vontade de Deus, por isso foi mãe para Jesus, digna de ser mãe na sua carne.

A leitura desse trecho adverte, em todo o caso, os discípulos e as discípulas de Jesus de todos os tempos: também eles conhecerão a desconfiança e a inimizade por parte da família de origem, conhecerão a oposição por parte das autoridades religiosas, sempre terão que se interrogar sobre a sua proximidade a Jesus, experimentável apenas no cumprimento da vontade de Deus, na realização da sua palavra e na acolhida da ajuda preventiva e gratuita da sua misericórdia.

Enzo Bianchi

 

 

Pertence à família de Jesus quem faz a vontade de Deus!

Depois de quase três meses marcados por liturgias muito especiais, dinamizadas pelo espírito da quaresma e da páscoa, voltamos ao tempo comum, ao belo e exigente desafio da vida cotidiana. Abramos a mente e o coração ao ensinamento de Jesus, mesmo que inicialmente nos choque e escandalize. Jesus não tem prazer em colocar pedras na estrada do nosso amadurecimento na fé... Na verdade, ele quer nos ajudar a perceber as lutas que este percurso exige e as amarras que precisamos desfazer,  inclusive aquelas inconscientes ou que assumem a aparência de piedade.

O atual e inesperado ressurgimento das práticas de exorcismo, acompanhadas de um indisfarçável desejo de amedrontar e dominar, podem  nos induzir a pensar que o núcleo do evangelho deste domingo seja o combate ao diabo. Na verdade, o que temos na narração de Marcos é a radicalização e a explicitação do conflito entre a prática libertária de Jesus e o fechamento ideológico das elites religiosas, agarradas à defesa do seu poder de domínio.Precisamos distinguir entre a realidade e a linguagem: a linguagem é apocalíptica, mas a realidade é um conflito político e social.

Jesus havia desmascarado a escravidão mantida pela ideologia do templo curando um paralítico e declarando-o sem culpa diante de Deus, calando e expulsando o espírito que fazia calar um doente, purificando um leproso e enviando-o aos sacerdotes, curando os doentes que se aproximavam...Os escribas contra-atacam para neutralizar sua ação desestabilizadora, identificando Jesus com o diabo, protótipo dos inimigos do ser humano.Pretendendo ser os únicos representantes de Deus, os escribas e doutores da lei dizem que aquele que os desmascara é guiado e motivado por um espírito diabólico...

Jesus entra neste jogo de linguagem e fala do reino de satanás como a acentuação simbólica das práticas opressoras da sociedade judaica. Ele se defende atacando com as armas dos próprios adversários! Entra no jogo linguístico dos seus opositores para "puxar o tapete" e mostrar a contradição em que estão atolados. Ironicamente, diz que se agisse mesmo em nome do diabo, o reino de satanás estaria dividido e fadado à ruína. Jesus e os pobres libertados interpretam sua ação como obra libertadora e regeneradora de Deus.

Mas o clímax da disputa está na afirmação indireta de que os verdadeiros pecadores, aqueles que estão irremediavelmente condenados, são os próprios escribas e doutores da lei, a elite que desqualifica a ação divinamente libertadora de Jesus dizendo que é diabólica. Esse grupo é réu de um pecado eterno, está coberto de impureza e envolvido numa cegueira que não permite que veja um palmo à frente do nariz. Os membros dessa elite pecam contra o Espírito Santo, iludem a si mesmo e aos outros dizendo que é mau e escravizador aquilo que na realidade é bom e libertador.

É no quadro deste conflito que podemos compreender a tensão de Jesus com seus familiares. Eles haviam tomado conhecimento daquilo que Jesus fazia e dizia, sentem-se importunados pela multidão que invade sua casa, e começam a temer pela integridade de Jesus e pelo bom nome da família. Eles têm a nítida impressão de que Jesus enlouqueceu, e decidem pôr um fim nisso tudo.Parece que a mãe e os irmãos evitam ultrapassar o círculo dos discípulos e chegar perto de Jesus. Dão até a impressão compartilhar da visão dos escribas, e tentam fazer Jesus interromper ou desistir da sua missão.

A família patriarcal, centrada na figura masculina e nos laços de sangue, era um dos eixos da sociedade antiga, um dos anéis da corrente da dominação, uma célula de reprodução de uma sociedade excludente e intolerante. Jesus dá mais um passo na superação do sistema de opressão que impede a vida e a liberdade do povo, mas não se detém na crítica destruidora das instituições, dos modelos de relacionamento. Ele coloca Deus no lugar da autoridade patriarcal; substitui a estreiteza dos laços de sangue pelos vínculos que brotam da condição humana compartilhada. Do ponto de vista do Evangelho, Deus e o seu Reino são absolutos, e todas as instituições e autoridades são transitórias.

A ti, Jesus de Nazaré, irmão de todos os homens e mulheres que se regeneram à luz do Reino, dirigimos nosso olhar e nossa prece. Fortalece nossa vontade, a fim de que tenhamos a coragem de romper com os laços que nos amarram a nós mesmos e aos sistemas que oprimem. Amplia o círculo da nossa comunhão, para que inclua todos os seres humanos, começando pelas vítimas da seca de nordeste e chegando aos povos ribeirinhos atingidos pela cheia do rio Amazonas. E faz com que nossas comunidades sejam uma família de homens e mulheres iguais. Assim seja! Amém!

padre Itacir Brassiani msf

 

 

Voz de Deus e vozes diabólicas

Distinguir a voz de Deus das vozes diabólicas nem sempre é tão simples! Muitas violências e injustiças já foram cometidas "em nome de Deus". Confundir as vozes diabólicas com a voz de Deus pode acontecer com pessoas que pretendem ser as mais religiosas e santas. Pode ocorrer com pessoas que se agarram à bíblia, pessoas muito piedosas, ou gente que não aceita as crenças dos outros. Tais pessoas acham que o diabo está agindo nos outros, isto é, naqueles que pensam de maneira diferente ou que questionam as incoerências de sua Igreja ou religião.

Foi isso que também aconteceu com Jesus. No Evangelho de hoje, aparecem dois grupos de pessoas que, em nome de Deus, têm dificuldades para aceitar os comportamentos e as ideias de Jesus. Em  primeiro lugar, entram em cena os parentes de Jesus. Eles vão ao encontro dele para segurá-lo, para impedir que ele continue sua missão, porque pensam que Jesus tinha ficado louco. Em outras palavras, eles não dizem, mas pensam que um demônio tomou conta de Jesus.

Outro grupo, com ótima formação bíblica e teológica, vai mais longe e diz que "Ele está possuído por Belzebu", e que "é pelo príncipe dos demônios que ele expulsa os demônios". Eles justificam, assim, a sua perseguição contra Jesus.

Jesus desmascara essa inversão que acha que é diabólico aquilo que vem de Deus. Ele mostra que esses seus adversários estão pecando contra o Espírito Santo, justamente porque  invertem o que é de Deus e o que é diabólico. A avaliação de Jesus é grave, porque esse pecado contra o Espírito Santo impede as pessoas de ouvirem o que Deus tem a dizer, porque elas estão vendo tudo com os olhos de seus próprios interesses.

O Evangelho termina com um anúncio esperançoso: há novos irmãos e novas mães de Jesus que não o consideram louco. São aqueles que aprendem com Jesus a fazer a vontade de Deus.

Quem vive assim, diz Jesus, "esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe".

Que Deus nos conceda estarmos sempre entre esses novos familiares de Jesus!

padre Léo Zeno Konze

 

 

“Das profundezas eu clamo a vós, Senhor!”

1. Acolhida.

Reiniciamos a liturgia do “Tempo Comum”; não domingos de segunda classe, mas aprofundam os ensinamentos de Jesus para a vida cotidiana. Hoje, meditamos o mistério do pecado que rompe com a harmonia da graça e instala o conflito no coração do ser humano, que perde a paz; envergonhado por sua nudez, esconde-se, e, questionado por Deus, acusa a sua mulher! A vida humana deixou de ser maravilhosa para tornar-se conflituosa!

Mas Deus mandou um “homem forte” (Jesus) para vencer o demônio e a morte e restituir para a criatura humana a dignidade de filhos adotivos, novamente participantes da natureza divina.

2. Palavra de Deus.

Gn 3,9-15 – Aqui inicia o maior e mais dramático problema humano: o pecado e suas consequências de sofrimento, de morte e da ausência de Deus! Deus, na sua justiça, deixou a criatura humana no sofrimento, e na sua bondade infinita, promete-lhe um Salvador que esmagaria a cabeça da serpente mentirosa.

2Co 4,13-5,11 – A fé viva de Paulo dá-lhe força para falar e anunciar a salvação em Jesus Cristo. Todos nós clamamos desde as profundezas de nosso pecado, mas, ao mesmo tempo, proclamamos que o Senhor é minha rocha e fortaleza! A vida de sofrimento é breve, passa rápido e teremos, na eternidade, um peso incomensurável de glória.

Mc 3,20-35 – Jesus não fez conchavo com satanás; pelo contrário, Ele é o homem forte que amarra satanás e devolve a esperança da salvação ao ser humano, passamos do reino das trevas para o Reino do amado Filho de Deus. Não somos família de satanás, mas somos membros da nova Família de Jesus – a Família dos filhos adotivos do Pai celeste.

3. Reflexão.

Satanás é o pai da mentira – mente desde o início quando enganou nossos pais no “Jardim do Éden”. Prometeu-lhe vida gloriosa, sabedoria e autonomia insuperável: “sereis como Deus”! A morte foi o presente da serpente para o ser humano. Dominado pelo orgulho, agora, tem vergonha de si mesmo, o medo de Deus! Antes, pacífico; agora em conflito interminável consigo mesmo e com sua própria companheira. A terra se tronou ingrata e os animais selvagens ameaçam-lhe a vida.

A vida humana se tornou um gemido interminável: “Das profundezas eu clamo a voz, Senhor (...). Se levardes em conta nossas culpas, que haverá de subsistir?” São gemidos de dor, de aflição, de fome, de depressão e de insegurança total! Mas “no Senhor se encontra toda a graça e copiosa redenção” e, por isso, nosso coração se enche de esperança porque Deus é infinitamente misericordioso.

O mundo afirma que o diabo não existe! “É disso que o diabo gosta!” Assim, ele pode trabalhar livremente e lavar a criatura humana à morte pela droga, pelo pecado, pela violência. Para Adão e Eva a serpente garantiu que a fruta era gostosa... E os faria inteligentes como Deus. Foram enganados! Do mesmo modo, o mundo da droga promete felicidade, mas acelera a morte e a destruição! O rosto de um drogado não é o rosto que Deus quer para seus filhos adotivos. Ouçamos a Palavra de Cristo – Caminho, Verdade e Vida - e não a do diabo, mentiroso e assassino!

“Mas em vós se encontra o perdão, Eu vos temo e em vós espero!”

frei Carlos Zagonel

 

 

Quem é culpado?

As primeiras páginas da Bíblia relatam de forma ao mesmo tempo realista e poética a situação humana, inclusive os dramas vividos por todas as gerações que se sucederiam. Lá dentro de nosso coração existe o terrível drama do pecado, a possibilidade de dizer não ao projeto de amor desenhado por Deus, quando por amor e para o amor nos criou (Cf. Gn 3, 9-15). Adão e Eva refletem o que todos podemos viver, quando o mistério da liberdade se apresenta inquietante e provocante. Chamado à própria responsabilidade, Adão joga a culpa da desobediência sobre Eva, e esta a atribui a serpente. Alguém, jocosamente, já disse que a serpente, olhando para trás, acabou ficando com todo o peso, por não encontrar ninguém para acusar. Sabemos que não foi assim, pois a figura da serpente aponta para a ação do maligno, que continuamente provoca com a tentação todos os seres humanos. Entretanto, fica o desafio da liberdade e da responsabilidade.

Não é fácil assumir o que fazemos de errado! E o que chamamos de arrependimento é, em nossa vida, uma das atitudes mais corajosas e libertadoras, ainda que marcada pela dor, e esta purifica, pois abre o coração para acolher o perdão, coisa divina! Ao nos apresentarmos diante do Senhor, com o coração contrito e humilhado, muitas vezes e sempre seremos acolhidos por aquele que não se cansa de perdoar. Só que a porta da contrição é o espaço estreito por ponde quer passar o amor de Deus, para abrir novos e inimagináveis horizontes à nossa realização nesta vida e para a eternidade.

Diante de Jesus se apresentaram continuamente grupos diversos de pessoas (Cf. Mc 3, 30-35). A multidão que o cerca é tamanha que "nem sequer podiam comer". É o primeiro e maior dos grupos, do qual emergem, pouco a pouco, os que foram chamados de discípulos. Um terceiro é formado por parentes de Jesus e um outro por mestres da lei e gente que vivia em Jerusalém. Parentes e o pessoal das rodas importantes de Jerusalém são vistos no Evangelho de São Marcos como adversários, que se contrapõem continuamente a Jesus. Os parentes acham que está fora de si e os outros, pior ainda, atribuem a Satanás o bem que é feito pelo Senhor. Este desmascara com firmeza as acusações que lhe são feitas. Ainda bem que suas palavras anunciam que o reino de Satanás não sobrevive, pois está dividido e será destruído! A insistência dos que acusam Jesus o leva a identificar, a nosso favor, o que significa o pecado contra o Espírito Santo, fundamentalmente o não reconhecimento do Senhor e Salvador. Sabemos com São Paulo que ninguém pode chamá-lo de Senhor a não ser pela ação do Espírito Santo (cf. 1Cor. 12,3). Trata-se, pois, de tomar uma decisão que muda a vida!

Este mesmo apóstolo fez a experiência da conversão, que significa aceitar a responsabilidade pelos próprios pecados, submeter-se ao senhorio de Jesus Cristo e abrir-se à maravilhosa liberdade dos filhos de Deus: "É digna de fé e de ser acolhida por todos esta palavra: Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o primeiro. Mas alcancei misericórdia, para que em mim, o primeiro dos pecadores, Jesus Cristo mostrasse toda a sua paciência, fazendo de mim um exemplo para todos os que crerão nele, em vista da vida eterna" (1 Tm 1, 15-16). E não fez pouca coisa: "Eu sou o menor dos apóstolos, nem mereço o nome de apóstolo, pois eu persegui a Igreja de Deus" (1Cor. 15,9). Sabemos que esteve presente ao martírio de Estevão, com o qual concordava (cf. At. 7,58 - 8,1), ou que respirava ameaças de morte contra os discípulos do Senhor (At. 9,1). Parece que Deus tem o fraco gosto de escolher os que são piores, e assim sua obra de misericórdia fica mais patente!

Antes tinha escolhido Simão, a quem Jesus chamou de Pedro, uma rocha tão limitada que a grandeza do amor de Deus se mostrou infinita. Ele experimentou a grandeza do arrependimento libertador: "O Senhor se voltou e olhou para Pedro. E Pedro lembrou-se da palavra que o Senhor lhe tinha dito: 'Hoje, antes que o galo cante, três vezes me negarás'. Então Pedro saiu do pátio e pôs-se a chorar amargamente" (Lc 22, 61-62) lágrimas que abriram seu coração ao Senhor, a quem declarou três vezes seu amor, na confirmação de sua vocação, após a Ressurreição.

A história se repete, com lances cada vez mais provocantes, quando chega perto de nós e às nossas aventuras pessoais, marcadas por quedas e reerguimentos, vividos às centenas de vezes. Os santos, retratados na hagiografia eclesiástica com traços tão belos, foram homens e mulheres resgatados do pecado, escolhidos de famílias com currículo nem sempre admirável. Quer dizer que cabem todos no Reino de Deus e em sua Igreja, culpados e inocentes, justos e injustos, todos os que se abrirem à verdade do Evangelho, que passa necessariamente pelo reconhecimento da própria pequenez. A altivez orgulhosa é o único impedimento! Quem já visitou Belém de Judá passou pela porta da Basílica da Natividade, inclinando-se necessariamente para penetrar naquele lugar santo, gesto que se torna ícone das virtudes necessárias ao acolhimento da salvação que vem de Deus.

Mas sabemos o quanto custa, na hora da verdade, reconhecer-nos frágeis, culpados e necessitados de perdão. Há um nó a ser desatado, que se chama confissão. O orgulho pode levar-nos a não aceitar a beleza do Sacramento da Reconciliação, que nos convida a abrir o coração justamente diante de um homem, o confessor, também ele carente de perdão! Há até pessoas que se gabam de terem se confessado apenas em tempo de primeira comunhão. É uma pena ver o quanto perdem e quando buscam subterfúgios para se "confessarem", algumas delas até com um copo de bebida, ou outras drogas mais pesadas. E, infelizmente, com frequência vemos vidas desrespeitadas e expostas em público, sem o respeito que só o sigilo sacramental garante, além do fato de a confissão sempre se concluir com a sentença da absolvição!

Voltando ao Evangelho de São Marcos (Cf. Mc 3, 30-35), ao final do episódio, comparece uma pessoa, Maria, a Mãe de Jesus. A ela se aplica de forma completa o elogio de Jesus: "Quem é minha mãe? Quem são meus irmãos? E passando o olhar sobre os que estavam sentados ao seu redor, disse: 'Eis minha mãe e meus irmãos! Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe'” (Mc 10, 33-35). Sabemos que foi preservada do pecado justamente pelos méritos de seu Filho e que nela se realizou a profecia do livro do Gênesis: "Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela" (Gn 3,15). No entanto, fez-se pequena para que os pecadores, que somos nós, encontremos o modelo para entrar na plena comunhão com Deus: "Eis a escrava"! "Olhou para a humildade de sua serva" (Lc 1, 38-48).

dom Alberto Taveira Corrêa

 

 

Condição humana

A pessoa humana, experimentando seus próprios limites, ora faz opção pelo bem, ora pelo mal. Mas sempre lutando por se sobreviver, tendo como pano de fundo a confirmação de sua existência, estabilidade e realização final. O importante é não ser enganado pelo mal que a cerda e se tornar uma pessoa infeliz.

Na descrição bíblica do paraíso, havia ali a árvore do bem e do mal. Diante dela, o homem e a mulher deveriam fazer sua opção e escolha de vida. Era um ato de obediência ou não, uma escolha que teria grandes consequências. Aí estava em jogo o destino de toda a humanidade e, também, até a perda do paraíso.

Nesse cenário bíblico encontramos inspirações profundas para nossas realizações de hoje. Às vezes descartamos a esperança diante de opções que matam a vida. Podemos até perder o sentido do novo paraíso, a vida em Deus. Isto acontece quando desconhecemos o sentido do sagrado e da dignidade da pessoa humana.

A força do mal leva consigo falsas promessas. É como o poder dominador, que faz parceria com quem age da mesma forma e não dá valor às iniciativas dos outros. Cai por terra a prática da fraternidade e a convivência entre os irmãos. As consequências de tudo isto é o endeusamento do individualismo, fato tão proclamado pela nova cultura.

A condição humana está ligada à liberdade e à capacidade de escolha. Tem como segurança a esperança, que deve sempre ser alimentada e concretizada em Jesus Cristo. Supõe firme convicção de fé na ressurreição e na vida eterna. A morada terrestre, que será destruída, transformar-se-á em uma morada eterna em Deus.

A vida é sempre marcada por um paraíso perdido, passageiro, e pelo mal que nos leva a perdê-lo. Isto é fruto da tendência que todos temos para o mal, para atos de injustiça e por atitudes muitas vezes desumanas. Assim ficamos perdidos na busca do bem e de uma condição humana que nos terna realizados. A dignidade é fonte de humanização e divinização.

dom Paulo Mendes Peixoto

 

 

Rastejar

É próprio da serpente rastejar. Passar perto dela pode ser perigoso devido a seu veneno, que pode ser mortal. No texto bíblico vemos a figura desse animal colocado como tentador para os primeiros seres humanos da terra (cf. Gênesis 3,9-15). A lenda da serpente, que exercia domínio sobre os homens, fez o autor bíblico colocá-la como protótipo da tentação do endeusamento humano, deixando o verdadeiro Deus de lado. O ser humano sem Deus se vê nu, com a falta, não de roupa, mas de proteção e sentido para a vida. Estamos numa sociedade que coloca demais a vontade humana e o individualismo acima dos valores da convivência na justiça e solidariedade. A própria manifestação religiosa, se enfocada predominantemente na busca de algo para si, sem dar de si, por causa do Criador, para o serviço ao outro, perde o enfoque da fé atuante e transformadora da vida.

O veneno da serpente que rasteja faz com que o ser humano também tenha vontade de rastejar, olhando a vida com o objetivo no que é material, terreno e de conquista do transitório como fosse permanente. Faz com que o humano se animalize e perca o sentido da história, da dignidade da vida e de sua imagem e semelhança com Deus. O Criador faz tudo bem e cuida do universo, criatura sua. Dá ao ser humano a incumbência de cuidar da terra e da convivência com o semelhante e a natureza com o mesmo carinho com que Ele toma conta de tudo. Mas é preciso assumir as virtudes da humildade e da obediência. A própria ciência é o uso da Inteligência para descobrir as leis, os valores e os benefícios da natureza para o serviço à humanidade. Ela se coaduna com Deus e a fé, para ser instrumento de promoção da vida de qualidade a todos. A humildade faz a pessoa humana saber que não é deusa e que os outros são irmãos, que precisam ser amados, conforme a vontade do Pai comum. A obediência sempre traz resultado positivo para a pessoa que não é dura de cabeça, ou seja, que aceita a verdade de si, da natureza, do outro e de Deus. Ninguém é deus no lugar do verdadeiro Deus. Ele é o tudo, que dá condição à vida e às qualidades humanas. Estas devem ser usadas conforme o projeto do Criador. Ao contrário, o ser humano se torna desumano, rastejando na pequenez de seu egoísmo, desacerto e pecado. Aliás, quando alguém faz o mal aos outros, o faz com consequências danosas para si mesmo: “Aqueles, porém, que cometem o pecado e a injustiça são inimigos de si mesmos” (Tobias 12,10).

Quem percebe e vive com o sentido da vida apresentado pelo Criador, não desanima em praticar o bem, evitando os venenos das serpentes enganadoras e danificadoras. Trabalha para a superação dos mecanismos de morte na sociedade. Não cede ao mal. Promove o bem da vida e da dignidade humana, a despeito de toda uma avalanche em contrário, propondo o consumismo, a busca de benesses e prazeres colocados como finalidade de vida, desrespeitando os humildes, os deixados de lado no convívio social digno... Além de não rastejar ou se deixar levar pela visão estreita da vida, ajuda o semelhante com a prática e o anúncio de valores promotores da vida de sentido. Sua fé o leva a transmitir aos outros aquilo que tem convicção de ser bom: “Acreditei e, por isso, falei” (2 Coríntios 4, 13).

Jesus foi sempre obstinado em executar a vontade do Pai. Mesmo criticado, perseguido e incompreendido, levou a efeito sua missão de implantar critérios e valores que façam o ser humano olhar para o alto, ou o sentido da vida passageira na terra, para mostrar o tesouro do Reino de Deus, que dá vida plena ao ser humano.

dom José Alberto Moura

 

 

Jesus age no amor

Se na Trindade as relações são perfeitas; entre nós, pobres mortais, elas acontecem na base de acusações. A gente se defende, acusando. Isso começou quando Deus, procurando por Adão, que se escondia, ouviu a resposta: “A culpa não foi minha, foi da mulher que o Senhor me deu”. A partir de então, nós nos defendemos acusando os outros. O bom relacionamento existente entre Adão, Eva e Deus se deteriorou. No começo não era assim. Eles se encontravam na hora da brisa da tarde, num encontro muito familiar e fraterno. Sabemos como é desagradável marcar encontro com alguém, e este não comparecer.

Deus veio e não encontrou os primeiros pais, que tinham se escondido. Alguma coisa aconteceu! Sempre se deram bem, por que agora há medo, há fuga, há acusação mútua? O que aconteceu foi que, num dado momento da história humana, alguém tomou uma decisão errada que abalou o bom relacionamento entre as pessoas e das pessoas com Deus. Pensando na ressurreição dos mortos, são Paulo escrevia aos coríntios que “o nosso homem exterior vai se arruinando”. Tudo se corrompe e se deteriora, mas “não desanimamos”, diz são Paulo, porque “o nosso homem interior vai se renovando dia a dia”. E assim é. Vamos trabalhando para dar nova qualidade aos nossos relacionamentos.

A incompreensão mútua, que aparece com frequência entre os familiares, como no caso de Adão e Eva, também foi experimentada por Jesus com seus familiares, que envolveram até sua mãe, Nossa Senhora. O demônio, em forma de serpente, causou a divisão entre os primeiros pais. Jesus enfrentou o demônio aproximando os corações, libertando os cativos de todo tipo de dominação, restaurando o ser humano segundo o projeto criador do Pai. E ele foi acusado de estar fazendo a obra do demônio com o poder de satanás. Na resposta a seus adversários, Jesus lembrou que nada pode se manter num ambiente de divisão, nem o próprio demônio se estiver contra si mesmo. Se Jesus expulsa os demônios com o poder do demônio, o demônio está contra si mesmo e seu poder não se manterá.

No relato de são Marcos se diz que Jesus foi acusado de estar possuído por Belzebu e de expulsar demônios com o poder do príncipe dos demônios. A resposta de Jesus mostra o absurdo da acusação porque “se uma família se divide contra si mesma, ela não poderá se manter”. Fala também do homem forte que precisa ser amarrado antes de ser roubado, e da blasfêmia contra o Espírito Santo. Diferentemente de Mateus e Lucas, o texto de Marcos não menciona a pessoa que Jesus estava curando. O relato termina com a mãe e os irmãos chamando Jesus.

Jesus age por amor, por isso a menção da blasfêmia contra o Espírito Santo, que é Amor. As dificuldades aparecem em primeiro lugar com aqueles que estão mais próximos, os familiares, esposos, pais, irmãos.

Conclusão: a família não pode estar dividida, nem a família de sangue, nem a família de fé, nem a família da pátria. Jesus une, o demônio divide. Jesus dá qualidade às nossas relações. O demônio injeta má vontade e desconfiança. “Sustentados pelo mesmo espírito de fé”, vamos falar, como escreve são Paulo, falar, dialogar, conversar, para encurtar as distâncias e dar qualidade aos relacionamentos.

cônego Celso Pedro da Silva

 

 

Belíssima catequese nos apresenta a liturgia da Palavra deste 10º domingo do tempo comum. A primeira leitura nos põe diante do relato da criação: trata-se de uma interpretação teológica da história humana. A origem do mal nos é apresentada como que, de certo modo, originária nas livres escolhas do homem e da mulher que optam em querer ser Deus “às avessas”.

Optar por ser Deus “às avessas”, é o mesmo que querer buscar apenas com as próprias forças a salvação individual. O homem quando assim se comporta, coloca-se fora do plano de Deus, que é “fonte de todo bem”; encontra somente o egoísmo e a solidão.

De fato, só em Deus é possível a plenitude da vida: “Ó Deus, fonte de todo bem, [...] fazei-nos, por vossa inspiração, pensar o que é certo e realizá-lo com vossa ajuda” (Oração do dia).

A pergunta feita por Deus a Adão é por ele mesmo repetida de modo admirável na celebração litúrgica a cada um de nós: “Onde estás?”.

Onde nos encontramos diante de Deus que vem nos visitar através de “seu passeio no jardim”, isto é, através da liturgia celebrada no hoje de nossa existência? O que podemos responder à essa pergunta divina?

Deus em sua onisciência, isto é, ele que já sabia do pecado de Adão e Eva, não desdenhou o homem, sua criação, mas tal qual um pai carinhoso se aproximou do primeiro casal. Deus em sua misericórdia, não desdenha a nenhum de nós, mas se nos faz próximo, dirigindo-nos sua Palavra vivificadora: “Onde está você, meu filho?”.

Porém, à primeira vista, dentro de uma perspectiva bem humana, o que seria de se esperar de Deus pareceria ser a condenação, a morte certa e uma vida de maldição; surge ao invés, um vislumbre de luz: da descendência da mulher surgirá o novo Adão, o Messias, aquele que poderá sim esmagar a cabeça da serpente.

São Paulo nos descreve esse novo Adão: é Jesus, o Ressuscitado; aquele que nos colocará ao seu lado no jardim/casa do Pai. É bem por isso que devemos ter os olhos voltados não para a cena deste mundo, mutável em sua natureza, mas para aquilo que de fato basta ao coração do homem e da mulher: Jesus, o novo Adão.

Deus é sempre surpreendente: supera todas as expectativas humanas. Nesse sentido, o Evangelho narra que, sob os olhos dos parentes, Jesus parece ter se tornado louco ou herege. Para os olhos dos doutores da Lei, Jesus estava possuído pelo demônio e precisava de um exorcismo: é ainda a visão humana do velho Adão. O novo Adão, ao invés, nos convida a olhar para além do mutável; olhar para a presença do Espírito Santo, capaz de regenerar todo homem e toda mulher que acolhem a palavra de Jesus e a põe em prática.

Obstinar-se na cegueira, isto é, no fechamento à ação de Deus - considerar impossível a própria mudança de vida; presumir a salvação nas próprias forças; invejar os dons e as virtudes em alguém... - isto poderá de fato configurar a referência que o evangelho faz ao “pecado/blasfêmia” contra o Espírito Santo, como algo imperdoável.

Certamente não se deve ver neste pecado que “nunca poderá ser perdoado” narrado no evangelho, uma espécie de capricho de Deus; mas sim, a realidade bem concreta de um fechamento misterioso por parte do homem em aceitar Deus.

“Ó Deus, que curais nossos males, agi em nós por esta Eucaristia, libertando-nos das más inclinações e orientando para o bem a nossa vida” (Oração depois da comunhão).

Gabriel Frade

 

 

O garoto, mãos dadas com a mãe na volta da Igreja, está calado. “Meu filho, você não diz nada. O que achou da nossa comunidade?” “Ah, mamãe, não entendi nada. Deus não é todo poderoso?” “Sim, Ele é sempre mais”. “Nós não fazemos parte da sua família e buscamos segui-lo?” “Sim, você está correto.” “Então, se Ele é assim, sempre maior e mais poderoso, se somos parte da sua família e o seguimos, por que escuto falar mais do demônio do que dele?” A mãe agora é que segue em silêncio para casa.

Nesses tempos pós-modernos assistimos a um recrudescimento em algumas igrejas, do exagero em se falar do diabo. Nelas parece haver mais atenção com os exorcismos do que com a graça de Deus. Nos tempos de Jesus isto era até compreensível, eis que muita coisa que não se conseguia explicar era posta na conta de satanás

Veremos esta preocupação com o demônio no Evangelho do próximo domingo. Nele nos depararemos com algumas das dificuldades que Jesus vivia com o seu povo e uma delas era essa de achar que Ele era uma pessoal do mal. Seus mestres, voltando de Jerusalém são explícitos em dizer que seu poder vem de Belzebu e que é em nome dele que realiza os milagres.

Fosse só isto, mas seus problemas iam mais além. Jesus de Nazaré sentia haver falta de apoio daqueles mais próximos. Das pessoas que amava e de quem devia esperar que o ajudassem a cumprir sua missão. Essa era incompreendida pela própria família. Seus parentes desejavam afastá-lo da fidelidade ao caminho do Pai.

Sentiam-se incomodados porque Ele fugia totalmente ao padrão familiar. Não assumira a profissão do pai, nem tinha namorada para se casar e gerar filhos. Seguir enfim a vida normal da sua gente, morando ali por perto, em volta dos parentes. Impacientam-se com a situação e resolvem buscá-lo. Deviam sentir vergonha e até o consideram louco. Era preciso agarrá-lo e até mesmo interditá-lo, diríamos hoje em dia.

A cena começa bem bonita. Jesus, acompanhado dos companheiros, volta a Nazaré e seus conterrâneos acorrem para vê-lo. Há tanta gente que ficam impossibilitados de comer. Todos a requererem uma benção, um olhar, um toque de carinho, uma palavra e possivelmente até alguns milagres.

Ao contrário do seu povo que o compreende, sua família não consegue entendê-lo. Como qualquer um de nós, eles também têm necessidade de conversão. É possível vermos aí as eternas dificuldades geracionais. Os filhos precisando construir suas vidas e tendo que lidar com as “amarras” da família. Esse jeito de proceder pode conter, bem escondida, certa inveja pelo que estão conquistando os mais novos e que as gerações mais antigas não conseguiram realizar.

A tensão familiar é a mesma que ocorre nas comunidades. Ela não pode querer jamais que as pessoas, principalmente as mais jovens, se acomodem e se amoldem automaticamente ao ambiente. A tensão existente entre as gerações precisa ser criativa, propiciadora de espaços de crescimento, que são de Deus. E não das divisões que diminuem, inibem, afastam e enfraquecem e que por isso são diabólicas.

Essa tensão criativa seja familiar ou comunitária é amorosa. Aumenta a atenção e o cuidado. É energia servidora a levar para os outros e não, como costuma acontecer, a energia diabólica do fechamento e da separação. Conversão é descobrir-se o quanto estamos voltados para nós mesmos e invertermos a direção.

Nessa passagem Jesus nos traz três explicações. A primeira bastante obvia. Ele não está com satanás, ao contrário, o que realiza o faz em nome de Deus. O diabo, ou divisor, não consegue gerar nada de bom. É invejoso e está sempre a separar, criando conflitos e puxando para baixo aqueles que começam a se sobressair fazendo o bem.

Precisa lhes dizer também que o pecado contra o Espírito Santo não tem perdão. Que mal seria este assim imperdoável? Pecado sem remissão é incoerente, em se tratando de Deus. Ele pode perdoar a tudo e a todos, eis que o perdão é inerente à essência divina. O pecado contra o Espírito é imperdoável não porque Ele se negue a absolvê-lo, mas devido à liberdade.

Usando-a mal nos arvoramos a achar que somos deuses. Imaginamos ter a capacidade de nos absolver do mal, nos salvando. Esquecidos de Deus acabamos por dispensá-lo. O pecado contra o seu Espírito é o de nos endeusarmos, recusando, de forma absoluta, a nos ver como criaturas, negando-lhe o louvor, a reverência e o serviço.

A terceira explicação de Jesus diz respeito aos laços familiares. Ele é assertivo e sua postura pode até parecer dura para com os seus, ao dizer que sua família é constituída por quem faz a vontade de Deus. Jesus quer nos dizer que não podemos e nem devemos tratar de forma absoluta os laços sanguíneos. Eles são importantes, mas é preciso que nos abramos para além deles, eis que todos possuam ou não algum parentesco conosco, são nossos irmãos.

Fernando Cyrino

 

 

As leituras da missa de hoje, sobretudo a primeira leitura e o evangelho, acenam-nos para uma realidade muitas vezes questionada nos tempos modernos: a existência do demônio.

A primeira leitura fala-nos da serpente que engana a mulher e que a faz comer da fruta da árvore da qual os primeiros homens tinham sido proibidos de comer. A serpente que aparece nessa narrativa bíblica é como que uma máscara do demônio, que vai aparecer sob forma de um dragão, no livro do Apocalipse.

Do primeiro livro da Bíblia, o Gênesis, até o último, o Apocalipse, aparece com frequência, o espírito do mal: satanás.

O demônio aparece com insistência nas páginas do evangelho. Ele é o tentador, que tentou Cristo no deserto. Ele é o inimigo que semeia o joio no meio do trigo da palavra de Deus semeada no coração do homem.

O demônio ataca os próprios apóstolos, peneirando-os como se peneira o grão. Porá obstáculos à pregação de Paulo na caminhada missionária do Evangelho.

Olhando para a Bíblia, para os Evangelhos, a nossa fé nos leva a admitir essa realidade: existem esses seres espirituais que podem fazer o mal e hostilizar o homem no seu caminho para Deus.

Mas diante da existência do demônio, qual deve ser a nossa atitude?

É importante pensar que Jesus venceu o venceu e nos dá forças para também vencê-lo.

“Vosso adversário, o diabo, vos rodeia como um leão a rugir”, escreve São Pedro, e deveis resistir-lhe na sobriedade, na vigilância e na força da fé (1Pd. 5,8s).

O evangelho de hoje nos fala de Jesus que expulsa o demônio, mas esse seu gesto é sinal de uma vitória muito maior que Ele veio anunciar: a chegada do Reino de Deus: “Se é pelo Espírito de Deus que eu expulso os demônios, então o Reino de Deus já chegou a vós” (Mt. 12,28).

É assim que Jesus responde aos escribas, quando disseram que Ele expulsava os demônios pelo poder do príncipe dos demônios.

Diante da certeza da existência do demônio, a nossa atitude não pode ser a de ficarmos apavorados, mas sim aquela de seguir Jesus, de fazer na nossa vida aquilo que Jesus quer que nós façamos. Seguir os seus ensinamentos.

Jesus é o grande vencedor. Aquele que esmaga a cabeça da serpente, como nos fala a primeira leitura. É aquele que subjuga o que pretendia ser o dono invencível da casa como aparece no evangelho de hoje.

Por maior que seja a luta e exija de nós bastante coragem, é importante ter presente que a graça de Deus nos dará a vitória.

E para maior certeza da vitória contra o poder do demônio, o cristão conta com uma grande aliada celeste: a Virgem Maria. É dela que fala o texto bíblico do Gn, quando Deus disse à serpente, como lemos na primeira leitura: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela”.

E de Maria fala também o Apocalipse: “Apareceu no céu um grande sinal: uma mulher vestida de sol, coroada de doze estrelas e tendo a lua como pedestal de seus pés”.

Contra ela o demônio não pode fazer nada. Ela é com Cristo a vencedora. Vitoriosa pela vitória de Cristo, ela esmaga a cabeça da serpente.

Ela é a cheia de graça. A Imaculada! Deus escuta sempre os seus rogos em favor da humanidade.

 

 

Naquele episódio que hoje o Evangelho nos oferece para a reflexão, se deu logo no início da vida pública de Jesus. Ele, após uma noite de oração, tinha convocado doze entre os seus discípulos para constituir o “novo Israel”, o “resto do Israel” do qual, conforme os profetas, deveria aparecer o Messias preparado por Jahvé há séculos e séculos. Tendo chamado os Doze para junto de si numa montanha, deu-lhes a “nova Lei” que tornaria mais eficaz e significativa a mesma Lei que Moisés havia recebido no monte Sinai. Em seguida Jesus voltou em companhia dos seus para «casa»: era o sinal de que, a partir daquele momento, Jesus e “os seus Doze” seriam uma só coisa para sempre. O evangelista não dá alguma especificação sobre qual fosse essa «casa», mas podemos supor que se tratasse da casa de algum dos seus familiares; se assim for, fica ainda mais clara a contraposição entre a família natural (formada por pessoas que estão unidas por laços de sangue) e a família formada por aqueles que estão unidos porque Jesus é o centro das relações. Temos desde já uma antecipação da afirmação que Jesus fará mais tarde quanto às relações de comunhão como Deus as entende; é como se o evangelista preparasse o contexto. Desse modo já temos algumas indicações fortes sobre o que Jesus considera uma “comunidade de fé”: é uma comunhão de relações que tem como centro Jesus e o “seu” modo de agir. Uma comunidade assim pode servir como antecipação do Reino e declaração pública de que o Reino não é uma fantasia, mas sim uma realidade possível e visível. A «casa» não é um “templo”, nem uma “sinagoga” onde existem restrições rituais, éticas, culturais etc. Uma «casa» é uma «casa», um lar; um lugar onde quem chega pode sentir-se em «casa»! Ali é que Jesus recebeu as primeiras pessoas interessadas à Sua mensagem e à nova maneira de viver a vida que Ele estava apresentando ao seu mundo. Creio que seja uma indicação clara de como começa a evangelização: antes de qualquer estrutura, antes de qualquer rito ou disciplina, a pessoa precisa sentir-se em «casa» para poder abrir seu coração e, por consequência, receber uma palavra de “novidade” capaz de mudar a sua vida.

A atitude de Jesus atraia muitas pessoas; sim, com certeza nem todos tinham as melhores atitudes; alguns O consideravam apenas um rabino, por outros era um curandeiro, por outros ainda um homem envolvido por algo inexplicável... seja o que fosse, Jesus acolhia a todos, antes mesmo de julgar com que ânimo as pessoas se dirigissem a Ele. A simples “curiosidade” é uma porta aberta para entrar na «casa» onde Jesus, ainda hoje, acolhe a todos. Aquela «casa» fazia com que também Jesus se sentisse em «casa», embora, muito provavelmente não fosse a casa paterna; sim Jesus estava junto com aqueles que se sentem necessitados de “ouvir” a Palavra. Saber ouvir é um ato de louvor a Deus que deixa, por assim dizer, Jesus à vontade, em seu lugar, “contente” de poder realizar a sua obra.... Tudo isso será de base à resposta que Jesus dará aos seus “familiares”: «Aqui estão minha mãe e meus irmãos. Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe .»

Mas, quem eram esses “familiares” e porque foram buscar a Jesus?

A motivação imediata é simplória: «não tinham tempo nem para comer» (não se sabe se é Jesus com os seus ou a multidão!); isso evidencia claramente que se tratava de uma desculpa, um pretexto. De fato, o que eles pensavam, era que Jesus estivesse «fora de si» ou seja, não se dando conta das consequências daquilo que Ele estava começando a fazer. Naquele contexto histórico faltaria pouco, uma pequena faísca para atiçar um incêndio religioso e político; era muito melhor “recolher” Jesus antes que fosse tarde demais. É interessante que os evangelistas usam a expressão «à tua procura» quando descrevem a ação desses “familiares”; ora trata-se do mesmo termo usado durante a “paixão” de Jesus quando o poder constituído tenta “prender”, “limitar” a ação salvadora de Jesus. É aqui, então que começa a divisão entre a comunidade como Jesus a entende e uma qualquer comunidade embasada sobre interesses naturais. A primeira está aberta à novidade que Jesus propõe e se aventura, a segunda tem medo de perder uma estabilidade adquirida e já garantida! Essa última não se deixa conduzir para além das suas certezas. Desse modo o seu interesse fica restrito principalmente num âmbito “humano”, já que as pessoas regem suas escolhas sobre princípios apenas “humanos”.

Quem eram esses “irmãos de Jesus”? A menção dos “irmãos de Jesus” não contradiz com a nossa fé a qual não reconhece a existência de outros filhos de Maria. O uso da palavra “irmão” não se limitava ao filhos da mesma mãe mas sim a primos diretos e indiretos (como se pode constatar perfeitamente lendo Gn. 13,8 onde se lê assim: «Abrão disse a Lot: “Não haja discórdias entre nós porque somos irmãos»; ora, pouco antes é descrita claramente a relação de parentesco entre os dois: eram primos – cf. Gn. 12,5). Existem outros elementos jurídicos e culturais que dão fundamento à fé da Igreja, mas agora não é o caso de os expor.

Porque a menção da Mãe de Jesus? Numa leitura aparente, aqui Maria parece ter uma posição que “destoa” com as atitudes que se reconhecem Nela nos quatro Evangelhos. Será que Maria tivesse uma visão tão limitada das coisas? Evidentemente não se sustenta uma leitura tão restritiva. A questão é outra. No início das comunidades cristãs, antes que o Evangelho de Marcos fosse escrito (por volta do ano 60) houve uma veneração a Maria que misturava duas atitudes: a admiração dEla pela sua adesão ao plano de salvação e uma pequena distorção religiosa, que encontramos veladamente na frase de uma mulher anônima da qual narra Lucas: «Bem-aventurada aquela que te concebeu, e os seios que te amamentaram » (Lc. 11,27). Ou seja, como se Maria tivesse tido a “sorte” de ser chamada, comparando-A com as outras mulheres que não foram “privilegiadas”. Desse modo a grandeza de Maria era reduzida apenas ao fato de ter sido a “mãe natural” de Jesus... Um privilégio dado de modo quase arbitrário (já que Jesus deveria nascer de um mulher...). Eis então que se compreende a resposta de Jesus e a motivação pela qual o evangelista quis deixar essa resposta como uma herança para nós. É como se Jesus dissesse: “Ela é mãe porque ouviu, porque aderiu, porque arriscou, porque não quis segurar nada para si!”; “Ela é mãe como estes que estão aqui em torno de mim são os verdadeiros familiares, não aqueles que querem impedir o avanço do Reino por seus interesses...”.

Contudo, os inimigos do reino não estão apenas em pessoas que não querem se expor... Existem também aqueles que combatem diretamente Jesus. Tal categoria de pessoas é representada pelo «escribas vindos de Jerusalém».

Por qual razão eles vieram de tão longe? Sem dúvida o motivo não era dos mais puros e nem ingênuos!

Vendo o que Jesus estava fazendo, os escribas interpretavam isso como sendo obra de satanás e atribuíam ao demônio o que é obra do Espírito. Na leitura fica bem clara a malícia que está nas atitudes deles. Creio que será fácil para todos entender o que houve entre Jesus e os escribas a ponto de Jesus fazer uma das afirmações mais marcantes narradas nos Evangelhos. Para entender preciso colocar algumas breves informações.

Entre todos os demônios que atemorizavam o povo, o mais comum era «Belzebul» (uma forma popular de indicar uma divindade cananeia: Baal-Zebuh que significa “Senhor de moscas” cf. 2Rs. 1,2-6). Esse deus protegia as pessoas das moscas as quais eram tidas como o veículo principal das doenças. As moscas também eram consideradas “demônios” porque acorriam sobre qualquer coisa impura, especialmente sobre o esterco e as carcaças de animais mortos em putrefação.

Para desfazer de Jesus, os fariseus mudaram até o nome do demônio usando Zebul (que significa “esterco”) no lugar de Zebuh (que significa “moscas”). Desse modo é como se dissessem ao povo: “Jesus é um emissário do príncipe do esterco e, quando aproxima as pessoas a si age como o esterco faz em relação às moscas”.

Assim Jesus é visto como alguém maligno que é fonte de doença e espalha a doença através das pessoas que se “apoiam sobre Ele”. É clara a alusão aos discípulos e aqueles que escutavam o Senhor. A posição dos escribas é maliciosa e visa distorcer a realidade, o que é típico do demônio, cuja força não está na mentira (à qual, às vezes pode ser identificada), mas sim na distorção da verdade, e isso é o que é realmente maligno!

Eis, em resumo, a calúnia contra Jesus: “Ele é quem contagia vocês assim como o esterco gera impureza e doenças que as moscas levam em todo lugar”. Jesus é comparado a Baalzebu porque muitas pessoas, por medo das doenças, mesmo que acreditassem num único Deus, todavia iam venerar também o senhor das moscas (como nos é narrado em 2Rs. 1) bem como agora estava fazendo a multidão. Ora, esta é a blasfêmia contra o “filho do Homem”; essa pode ser perdoada.

Mas a blasfêmia contra o Espírito? Pois bem o fato de que as pessoas iam a Jesus, vão a Jesus, sempre irão a Jesus é exclusivamente fruto da ação do Espírito Santo que tende a unir as pessoas em torno de Jesus, tende a unificar sentimentos, atitudes, corações sem que se perca a identidade própria de cada um. É o que acontece eternamente no seio da Trindade! A blasfêmia contra o Espírito implica em não querer reconhecer o que é evidente: todas as pessoas bem dispostas se encontram “em Jesus” e, também, “encontram a si mesmas e aos outro em Jesus”. Isso é fruto do Espírito e de nenhum “acordo” humano. Aqui Maria aparece como a Imagem de quem sabe reconhecer “como” e onde o Espírito age e, sendo assim, confia plenamente no resultado final que irá corresponder necessariamente ao desejo de Deus. O inimigo, o demônio é aquele que obstacula, adia, enche de sofrimento desnecessário o caminho já aberto para a realização do Reino.

Como entender o pronunciamento de Jesus? O que é uma “blasfêmia”? O sentido mais comum é de injuria, calunia direta em modo ofensivo. O significado mais próprio vem do grego = vão, = dizer) e significa: “dizer que é em vão”, “inútil”. É aqui que a blasfêmia contra o Espírito adquire todo o seu peso negativo, ou seja quando indica o ato de renunciar à potência transformadora e inovadora do Espírito Santo. Corresponde a dizer que uma situação “x” não tem saída, qualquer coisa é em vão, inútil. Nesse sentido é uma injuria direta a Deus ao poder do seu amor manifestado na força do Espírito que move as pessoas, muda seus corações assim como «muda as montanhas», «contorce os carvalhos»... É desistir, renunciar de confiar na potencia libertadora que Deus pode exercer sobre os nossos males e ir procurar um “senhor de moscas” para ser defendido. É renunciar a um dom gratuito para ir buscar o próprio remédio, assim como escrevia Jeremias: «deixaram a mim, o manancial de águas vivas, e cavaram para si cisternas, cisternas rotas, que não retêm a água» (Jr. 2,13).

Santo Tomás de Aquino, escrevia que esse pecado se manifesta fundamentalmente nas seguintes atitudes: “Não acreditar que seja ainda possível ser salvos”, “ter a presunção de se salvar mesmo que sem ter dado resposta a Deus”; quando se “impugna” uma verdade conhecida (ou seja, mesmo percebendo que existe outra realidade além daquela que alguém assume para si, ainda assim ele teima em não admitir o que se faz evidente), por última a “inveja da graça que Deus concede” (Summa Teologica, II-II, 14,2). Enfim é a “obstinação” no pecado e o “não desejo de conversão”. Evidentemente tal atitude não permite a Deus de poder agir pois Ele respeita profundamente as nossas decisões, mesmo nos oferecendo todas as possíveis oportunidades para mudar o ponto de vista. Tem sempre algo que somente nós e apenas nós podemos fazer, e o que podemos fazer não «está acima de nossa forças» (cf. 1Cor. 10,13).

O “bem” e o “mal” não estão ao alcance do nosso julgamento; nós percebemos apenas alguns aspectos do bem e do mal; sabemos perfeitamente como algo que se mostra como “bem”, na verdade é um “mal” e vice-versa! Ninguém de nós pode proferir um julgamento sobre o poder do Bem e também sobre o poder do mal; ninguém pode dizer: “não adianta mais...”. Significativa a esse respeito é a carta de são Judas na qual encontramos também a “blasfêmia”, dessa vez em relação ao demônio: até o arcanjo Miguel leva a sério o poder do mal... Não podendo explicar aqui o versículo, apenas me limito a citar: «Contudo, o arcanjo Miguel, quando contendia com o diabo e disputava a respeito do corpo de Moisés, não se atreveu a proferir uma blasfêmia contra ele; pelo contrário, disse: “O Senhor te julgue”» (Jd. 1,9).

Que o Senhor no encontre sempre sedentos de Sua palavra, prontos para a aventura que nos oferece, dispostos a não julgar o que não temos como julgar, atentos e dóceis como Maria.

padre Carlo Battistoni