VOCAÇÃO  NA  BÍBLIA

Falar da vocação na Bíblia exige uma análise acurada da vida das pessoas que fizeram história em Israel. Falar de vocação é falar da experiência de Deus que eles e elas fizeram. Cada um, a seu modo, soube experimentar Deus e seus mistérios. Viver a vocação é passar a vida inteira procurando explicar o inexplicável em nossas vidas. A vida é igual para a grande maioria dos mortais: nascemos, crescemos, realizamos ou não em uma profissão, geramos ou não filhos, e morremos. A diferença, no entanto, para muitos, reside na experiência de fé em Deus, o Sagrado, o Eterno, Alá. Vários nomes, mas um único Mistério. Judeus, cristãos, mulçumanos, hinduístas, indígenas, etc., procuram demonstrar a presença de Deus e seu mistério. Para nós, cristãos, Jesus Cristo, segundo nossa fé, Deus encarnado no meio de nós, faz o diferencial. Mas Jesus tem sua origem no judaísmo. Ele foi judeu. Filho de mãe judia, o seu nascimento é envolto em um polêmico mistério de fé.

Compreender a nossa vocação significa mergulhar na vida de Jesus, no judaísmo e na Bíblia. Como a Bíblia registrou o chamado de Deus a pessoas e comunidades? Como as pessoas, comunidades e instituições responderam a este chamado? Como Jesus anunciou a sua vocação? Como a Bíblia registrou, de modo oficial, a história de ilustres personagens da história de Israel? Como a Bíblia registrou a vocação de personagens menos importantes e até subalternos? Estas e outras perguntas serão a gasolina que impulsionará as páginas seguintes. Vamos tomar como ponto de partida a história de Israel, contada na Bíblia. Vamos analisar pessoas, etapas e fatos desta história, que recebeu a cunha de “História da Salvação”. A análise dará primazia para os elementos essenciais da vocação aí vivenciadas. Assim, encontraremos os elementos essenciais da vocação de nossos pais e mães na fé. Assim, estaremos falando de nós mesmos e de nossa vocação.

1- Abraão e Sara: chamados para formar um povo

Os textos que falam da vocação de Abraão são: Gn 12,1-9; Sb 10,5; At 7, 2-3 e Hb 11, 8. Abraão, ainda chamado de Abrão, é chamado por Deus, quando ainda estava em Ur, na Caldeia, para iniciar uma peregrinação. Naquele então, levas de forasteiros deixam suas terras em buscas de uma vida melhor no Egito. Abraão e sua família eram um deles. Na caminhada ocorre o chamado. Abraão deixa a sua terra e se estabelece em Canaã, antes mesmo de chegar no Egito. Ele e Sara crêem na promessa de uma terra farta, descendência numerosa e eternidade da bênção divina. Em Abraão todos os povos da terra serão benditos (Gn 12, 19). O livro da Sabedoria conservou a memória da trajetória vocacional de Abraão como homem justo, forte e pleno de Sabedoria. A carta aos Hebreus destaca a fé de Abraão e Sara na promessa. Eles foram obedientes ao chamado. Os elementos da vocação de Abraão e Sara são: fé na promessa divina, sabedoria na vivencia do chamado, certeza que Deus o chamou e caminha com ele.

2- Sara, Agar e Rebeca: sacerdotizas e visionárias

As matriarcas Sara, Agar e Rebeca se destacam na história do povo da Bíblia. Elas exerceram, em um mundo patriarcal, o chamado, a vocação de modo provocador. Elas controlaram seus corpos, vivendo como educadoras, sacerdotisas e visionárias2. Os patriarcas procuraram manter o controle sobre elas, mas, ao contrário, elas reagiram e se mostraram capazes de brigar pelos seus interesses, como fez Agar ou até mesmo tramar com o marido a escolha de um filho em detrimento do outro, como no caso de Rebeca.

A vocação de Sara e Agar se parecem. Estas duas mulheres têm experiências parecidas. Ambas vivem em terra estrangeira. Sara é da Mesopotâmia e Agar, do Egito. Sara e Agar têm o mesmo marido, um único filho e são escolhidas por Deus para se tornarem mãe de um povo.

Agar foi a mulher que complicou a história da salvação, como escreveu Elza Tamez. Por este seu papel decidido, a sua história se impôs no texto canônico da Bíblia.

Rebeca, que em hebraico significa a “Amarradora”, derivado de raiz rbq, “aquela que amarra com rapidez”, em meio aos homens Isaac, Esaú e Jacó, consegue dar um novo rumo ao curso da história. Jacó continua a linhagem dos patriarcas, mesmo não sendo o primogênito. Esaú pagou caro pelo seu casamento com mulheres hititas. E o poder dos homens é aqui diminuído pela ação de Rebeca.

3 – José: vocação narrada em forma de novela

Os textos que falam da vocação e vida de José são: Gn 37-50. Filho predileto de Jacó, José era não muito querido pelos seus irmãos. Ele foi vendido aos mercadores madianitas. Ele acabou indo morar no Egito, onde, de prisioneiro, chegou a ser general do Faraó. A história de José e conservada na Bíblia tem como um dos objetivos justificar a importância da monarquia em Israel. José é escolhido, chamado por Deus, para manter o seu povo vivo em tempos de penúria. O modo como a “Novela José do Egito” é construída demonstra está máxima. A sabedoria e a astúcia de José manteve o povo de Deus no caminho de santificação. Os elementos essenciais da vocação de José são: predileção, sabedoria para governar, decifrar sonhos, interpretar os acontecimentos da vida.

4 – Moisés: a vocação de um libertador

A trajetória da vocação de Moisés aparece em Ex 3, 1-15; 4, 1-17; 6, 2-13: 6, 28-30; 7,1-7. Deus chama Moisés numa chama de fogo, do meio de uma sarça que ardia, mas não se consumia. Deus o chama pelo nome: “Moisés, Moisés”. E ele responde prontamente: “Eis me aqui.” Deus se apresenta e convoca Moisés para voltar ao Egito e libertar o seu povo. Moisés tinha consciência da questão. De lá, ele havia fugido. Esta narrativa que mostrar o caminho vocacional de Moisés: ele tem consciência da situação, sabe que Deus o chama, mas tem medo. Ele apela para vários argumentos, dentre eles, o não saber falar, isto é, não a tarimba de profeta. Isto não é verdade, mas Deus aceita e coloca o irmão pra ajuda-lo. Na verdade, nisto está a justificativa da necessidade do sacerdócio, representado na pessoa de Aarão, para a realização da vocação de Moisés. Moisés recebe o poder de falar com o Faraó, na pessoa de seu irmão Aarão. Moisés já tinha 80 anos, quando foi chamado, isto quer dizer que ele era sábio. Os elementos essenciais da vocação de Moisés são: tomada de consciência da realidade, medo, rejeição do chamado, autoridade divina para denunciar a injustiça, intermediador entre Deus e o seu povo, libertador do seu povo, certeza que Deus Libertador caminha com ele.

5 – Aarão: vocação de intérprete e sacerdote

Ex 29 e Eclo 45, 6-26 contam como Deus escolheu Aarão para ser o seu sacerdote. Aarão e seus filhos são ungidos para este ministério. Aarão fora também escolhido para falar em nome, ser o intérprete de Moisés. Os elementos essenciais da vocação de Aarão são: escolha e unção sacerdotal, interprete da palavra de seu irmão Moisés.

6 – Josué: chamado para continuar a missão de Moisés

Os textos que falam da vocação de Josué são: Dt 31, 1-8; Js 1,1-9. Quando Moisés morre, ele passa a sua missão para Josué. Deus promete que estará sempre com ele e o pede para ser forte e corajoso, seguir a Lei e conduzir o povo até a Terra da Promessa. Interessante é que o antes medroso Moisés agora, no fim da carreira, pede a Josué para não ter medo. Os elementos essenciais da vocação de Josué são: continuar da vocação de Moisés, coragem para lutar e vencer os inimigos, conduzir o povo, manter a identidade do povo a Lei de Deus, certeza que Deus caminha com ele.

7 – Samuel: mediador entre Deus e o povo

Os textos que falam da vocação de Samuel são: 1Sm 3,1-21-4,1. Samuel, ainda menino servido a Deus no templo, ouve de Deus o chamado. A corrupção andava solta em Israel. Os filhos do sacerdote Elí não agradavam a Deus com as suas ações injustas. O chamado de Samuel foi para denunciar esta situação a Eli e a todo o povo. Samuel e tornou-se juiz, profeta, sacerdote e chefe de exercito. Samuel foi comparado a Moisés (Jr 15,1). Os elementos essenciais da vocação de Samuel são: não compreensão do chamado, escolha de Deus para a missão especifica de denunciar e reconduzir o povo para Deus, fazer a passagem do tribalismo para a monarquia, ser abençoado por Deus, ser mediador entre Deus e o povo.

8 – Saul: escolhido e consagrado

Os textos que falam de Saul são: 1Sm 9,1.27- 10,8; 16,1. A instalação da monarquia em Israel começa com Saul, benjaminita poderoso, jovem e bonito. Saul é escolhido por Deus e consagrado por Samuel. Os elementos essenciais da vocação de Saul são: escolha divina, consagração, ação política de julgamento e condução do povo, rejeição divina.

9 – Davi: vocação vivida no erro e na santidade

A vocação de Davi é descrita em 1Sm 16, 1-23. A memória do povo conservou a imagem de Davi como homem justo, piedoso e pecador. A sua escolha foi feita por Deus, quando ainda era menino. Saul não cumpriu bem a sua vocação. Samuel recebe o encargo divino de ir até a casa de Davi e ungi-lo como futuro rei e escolhido de Deus. A primeira proeza de Davi foi a de vencer o inimigo gingante Golias. Com maestria Davi, mesmo sendo rejeitado por Saul, torna-se amigo da família real, conquista o poder com calma e habilidade política. Governa com justiça e inicia a dinastia davídica, da qual nasceria o Messias. Os elementos essenciais da vocação de Davi são: escolha divina, unção, diálogo com Deus e o povo.

10 – Elias: o profeta do povo

O primeiro livro dos Reis 18 e 19 narram a vocação de Elias. Profeta que deixa a corte para viver com povo, Elias recebe a missão de Deus de denunciar as injustiças do rei Acab e constituir Jeú como novo rei de Israel. Os elementos essenciais da vocação de Elias são: fala em nome de Deus, denuncia as injustiças, ação política em defesa dos pobres.

11 – Eliseu: chamado para continuar a missão de Elias

Para continuar a missão de Elias, 1Rs 19, 16.19-21 conta que Elias o ungiu como seu sucessor. Elias o chama, mas Eliseu retruca pedindo para ir despedir-se de seu pai e de sua mãe. Em 2 Rs 2 narra a arrebatação de Elias ao céu e confirmação da missão de Eliseu, através do manto de Elias. Os elementos essenciais da vocação de Eliseu são: escolha, unção, pedido para despedir-se dos pais e confirmação da missão.

12- Isaías: vocação para denunciar e anunciar

Is 6, 1-10 narra a vocação do Isaías. Ela ocorre por meio de uma visão de Deus sentado no trono, com vestes que cobria o santuário e rodeado de seranfins, os quais proclamam a grandeza de Deus. Isaías toma consciência de sua limitação, de sua condição de pecador. Um dos anjos vem com uma brasa e lhe toca a boca, purificando-o e perdoando os seus pecados. Nisto está a escolha. Isaías aceita o chamado e recebe a missão de ser profeta, de denunciar o pecado do povo. Os elementos essenciais da vocação de Isaías são: visão, consagração através da boca com o toque da brasa purificadora, aceitação da missão.

13 – Jeremias: vocação marcada pelo medo

A vocação de Jeremias é descrita em um texto de bela construção literária em Jr 1,4 - 10. Deus se revela a Jeremias e lhe dá missão, tacando a sua boca, colocando as suas palavras na boca de Jeremias. Jeremias retruca dizendo que não sabe falar. A missão de Jeremias é a de destruir, arrancar e plantar a justiça divina. Jeremias teve medo de assumir o seu chamado. Ele dizia o que o povo não queria ouvir. O exílio da Babilônia é culpa vossa e não de vossos pais, dizia. Assumam os seus erros e mudem de vida. Os elementos essenciais da vocação de Jeremias são: escolha desde o ventre materno, consagração, rejeição e medo da missão, confirmação da missão com o toque da mão de Deus na boca de Jeremias.

Jeremias é o profeta medroso. O seu nascimento foi cercado de alegria na casa paterna (Jr 20,15). Jeremias, no entanto, quando já crescido amaldiçoa o dia do seu nascimento: “Maldito o dia em que nasci” (Jr 20,14). Ele demonstra claramente que não queria ter nascido. A sua mãe levou a culpa: “Minha mãe teria sido minha sepultura” (Jr 20,17). “Mãe, minha desgraça é a vida que a senhora me deu” (Jr 15,10).

O não querer assumir a vocação fez de Jeremias um homem de medo. Jeremias sabia que não era fácil viver como profeta. Deus o havia constituído para “destruir, demolir e plantar” (Jr 1,10). “Ah! Senhor Deus, eis que eu não sei falar, porque ainda sou uma criança!” (Jr 1,6). Neste processo vocacional, Deus insiste com seu escolhido: “Não tenhas medo deles, para que eu não te faça ter medo deles” (Jr 1, 17).

Jeremias viveu na roça. Não se casou. Conhecedor do sofrimento de seu povo, Jeremias sabia que algo deveria ser feito, mas ele tinha medo. No ano 627 antes da Era Comum, no décimo terceiro ano do governo de Josias, Jeremias sente o chamado de Deus. O livro que leva o seu nome descreve os elementos essenciais desta vocação nos seguintes pontos:

  • Deus quando chama alguém é porque este já é íntimo seu. “Antes mesmo de te formar no ventre materno, eu te conheci; antes que saísses do seio, eu te consagrei” (Jr 1,1-5). Com estas palavras, Jeremias narra a sua experiência de Deus, remetida às entranhas de seu nascimento.

  • A missão mesma, a sua realização, confirma o chamado. Jeremias tem consciência que ele é um consagrado. “Eu te consagrei” (Jr 1,5b). Ele tem consciência que esta é a sua missão. Ele na sabe fazer outra coisa que ser profeta.

  • O medo e outras limitações humanas são inerentes à vocação. Jeremias, de tanto medo diante do chamado, diz que não sabe falar. “Eu sou criança” (Jr 1,6). Jeremias sabe que ele não pode ser outra pessoa. Ele é Jeremias, e basta.

  • O profeta é porta-voz de Deus (Jr 1,7). Jeremias terá que falar em nome de Deus em sintonia com o povo a quem ele foi enviado por Deus. Deus estará com ele sempre.

  • O profeta é abençoado por Deus. As palavras de Deus são colocadas em sua boca, para que ele fale em nome de Deus (Jr 1,10).

  • O profeta é seduzido por Deus. “Tu me seduziste, Senhor, e eu me deixei seduzir” (Jr 20,7). Estas palavras proferidas por Jeremias demonstram como ele compreendeu o mistério da vocação em sua vida. Deus mudou a vida de Jeremias.

14 – Jonas: medo de anunciar

Este é um personagem bíblico de grande valor para todos nós. A sua ação profética e o simbolismo que moldura a sua história, com certeza, iluminam o nosso caminhar para Deus. Jonas somos todos nós, quando cultivamos medos que nos impedem de ir em frente nos caminhos da vida. Medo de sair proclamando a Palavra que liberta, medo de mergulhar no sagrado, medo de assumir responsabilidades que a vida nos impõe. Jonas nos convoca a mergulha nos mais profundo de nós mesmos, a fazer uma viagem interior ao túnel do tempo, para superar traumas e recobrar forças para o presente. O tema do nosso retiro é: “Jonas: Levanta-te e desperta-te do teu medo”!

O livro de Jonas4 apresenta a história do todo ser humano que vive o medo. Jonas, em hebraico, Yoná,, significa pomba de asas aparadas. No imaginário coletivo, Jonas é aquele que esteve dentro da “baleia”.

Deitado, ele não quer se levantar para pôr-se a caminho em direção a Nínive, a cidade do inimigo povo Assírio, o qual destruiu Israel. Jonas não acredita que Deus o chama para anunciar a boa nova ao opressor. Ele não crê que o opressor possa se salvar. Deus o chama para profetizar e ele foge da tarefa. Ele prefere ir para a colônia de férias, Tarsis. No barco para Tarsis, a tempestade, o capitão e os marinheiros representam a presença de Deus que continua desafiar Jonas. Para salvar a todos, Jonas é jogado ao mar. Ele cai justamente no interior de um peixe grande. Nesse momento, Jonas toma consciência de seus atos, ele mergulha no silêncio de si mesmo, enfrenta o mostro do mar, lugar do perigo, que mora dentro dele mesmo.

Todos nós, em nossas vidas, desde o nascer ao morrer, passamos por experiências de medo e desejo. A vontade, o desejo de nascer nos impulsiona para fora do ventre da mãe. É preciso se libertar. Nessa libertação perdurará sempre o medo de morrer.

A criança tem desejo da presença da mãe e medo da sua ausência. Muitos não chegam a superar essa fase e carregam sempre dentro de si as amarras do cordão umbilical. Muitas mães não querem que seus filhos se tornem adultos. A criança ainda pequena tem desejo de seu próprio corpo, mas tem medo de se decompor. As suas próprias fezes a assusta. Já adulto, passamos pela experiência do desejo de união do sexo oposto, misturado com o medo impotência, da castração. Quem não supera essa fase será sempre desintegrado nas relações afetivas.

Na adolescência, o ser humano vive o drama de corresponder ou não à imagem que os pais têm ou gostaria que ele fosse. O distanciar-se dos pais é normal. Uma nova identidade precisa ser forjada. Muitos não superam essa fase e permanecem eternamente no desejo dos pais. Quem passe dessa fase ainda vive o dilema do desejo de autonomia e medo de autonomia. A liberdade custa caro. Ela exige responsabilidade. A vida continua, e aí vem do desejo da unidade com Deus e o medo de perder a representação de Deus. Deus, muitas vezes é projeção de nossas frustrações e desejos. Não queremos que Deus seja aquilo projetamos. Vencer o complexo de Jonas é superar as imagens falsas e frustrações.

Experimentar Deus, tendo como inspiração Jonas, significa colocar todo o nosso corpo em oração e descobrir com ele as nossas alegrias e frustrações. Todos estão convidados entrar no ventre da “baleia” com Jonas, tomar consciência dos medos e frustrações, e rezar com e a partir deles. Vamos ao desafio: rezar com o corpo. Faremos percurso de Jonas: fugir, deixar-se ser lançado no fundo do mar, entrar no ventre da baleia e colocar-se a caminho de Nínive.

15 –Gedeão: medo

O livro de Juízes 6,11-24.36-40 conta vocação de Gedeão, juiz em Israel, que recebeu a missão de libertar seu povo das mãos de Madian. Gedeão argumenta que o seu clã é mais pobre em Manasses e ele é mais novo da casa de seu pai. Deus lhe garante que o acompanhará no exercício da missão e ele aceita o desafio. Com coragem, Gedeão defende o seu povo, luta contra a idolatria. Os elementos essenciais da vocação de Gedeão são: chamado de Deus para uma missão específica, incapacidade de assumir a missão, Deus garante que o acompanhará, aceitação da missão.

16 - João Batista: vocação de anunciar a chegada do Messias

A comunidade de Lucas conservou em Lc 1,5-22.57-80 a história da vocação de João Batista. Deus escolhe o idoso e piedoso casal Isabel e Zacarias para gerar aquele que seria o percussor do Messias. E Isabel ainda era estéril. Deus traça a missão de João Batista: ser consagrado ao Reino, ser pleno do Espírito Santo, converter os filhos de Israel, preparar a vinda do Messias, vida austera no deserto. Os elementos essenciais da vocação de João Batista são: consagração e escolha desde o seio materno, vida austera de anuncio do messias e pregação da justiça.

17 – Maria: vocação para ser a mãe de Deus

É também a comunidade lucana, em Lc 1,26-38, que conserva o chamado desta mulher de vida exemplar em Israel. Um anjo, isto é, Deus mesmo lhe aparece e lhe anuncia que ela seria a mãe do Salvador de Israel. Maria objeta que ela era ainda namorada de José. Ela ainda não tinha tido relacionamento sexual com nenhum homem. Deus lhe garante que a gestação de seu filho seria por obra do Espírito Santo. Maria, sem muito compreender aquela proposta confia e aceita a missão. Os elementos essenciais da vocação de Maria são: chamado, anúncio da missão, rejeição, explicação da missão e aceitação.

18 – Jesus: síntese da vocação profética

A esperança, anunciada pelos profetas de outrora, se concretizou no profeta Jesus, o “ungido do Senhor”, o descendente de Davi, para aqueles que nele acreditaram. É o testemunho que encontramos no Segundo Testamento. Contraditoriamente ao que pensavam os seus compatriotas a respeito do papel do profeta - adivinho que denuncia as falhas dos outros - Jesus mostrou que a sua esperança profética se baseia na conversão do outro, por mais pecador que ele seja. Vários fatos da sua vida elucidam o que afirmamos.

Basta ver, por exemplo, o caso da mulher de má reputação que entra na casa do fariseu, onde Jesus estava comendo (Lc 7, 36-50). Do mesmo modo, o clássico texto de Lc 4,16-30 (Jesus na sinagoga de Nazaré) revela o programa profético de Jesus5. Jesus entra na Sinagoga e lê o texto Is 61, 61,1-2 e se declara como “evangelizador dos pobres”, apresentando a sua plataforma de missão profética e pastoral. A ação de Jesus é marcada pelos seguintes pontos:

1) Jesus toma a Palavra de Deus, dada aos Profetas;

2) Faz a Palavra ressoar aos ouvidos da comunidade reunida, isto é, a sinagoga;

3) Atualiza a Palavra, ao dizer: “hoje se cumpriu”;

4) Jesus se assenta, isto é, fala com autoridade.

Os primeiros cristãos entenderam que Jesus era o profeta prometido, aquele que o Senhor prometeu e que Israel esperava.

Embora tenha reivindicado para si só de forma indireta o título de profeta (Lc 13,13), Jesus foi o profeta por excelência, a síntese de toda ação profética. Ele, na condição de Filho de Deus, sucede aos profetas como último dos mensageiros de Deus. Chamado pelo povo de “João Batista, Elias ou um outro profeta que ressuscitou” (Lc 9,19)6, Jesus, na sinagoga de Nazaré, onde fora criado, leu o texto de Is 61,1-2, com o qual ele confirma a sua ação profética: “O espírito do senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar a remissão aos presos e aos cegos a recuperação da vista, para restituir a liberdade aos oprimidos e para proclamar um ano de graça do Senhor” (Lc 4,18-19). Denunciando toda e qualquer forma de injustiça do seu tempo, Jesus anunciou um Reino de justiça, paz e liberdade. E por ele morreu crucificado e ressuscitou. A esperança de um “novo tempo”, realizada em Jesus, se eternizou em todos aqueles que nele acreditaram.

Vários textos narram a vocação de Jesus, a saber: Lc 4, 14-22; Hb 5,1-10; Ap 19,13; Jo 1,1-8.30.36; 3,14-19; 3,31-34; 4,25.26.34; 4,42; 5,30.36.38.43; 6,29.38-40; 6,44.50-51.57; 7,16.28-29.33; 8,16.18; 11,27.42.52; 12,13.27.37.46-49; 14,24.31;15,21; 16,5.27; 17,4.6.8; 17,14.18.21.23.25; 18,11.37; 19; 20,21-22. A realização da vocação de Jesus para o serviço do Reino é expressa de modo claro em Lc 4, 14-22: remir os presos, recuperar a vista dos cegos, restituir a liberdade aos oprimidos e proclamar um ano de graça do Senhor. Os outros textos, ainda acrescentam: ele é filho de Deus, Sumo Sacerdote, princípio de Salvação eterna, Verbo de Deus, Verbo encarnado, Cordeiro de Deus, embaixador de Deus, Messias. Os elementos essenciais da vocação de Jesus são: ser enviado como filho de Deus mesmo, ter o Espírito de Deus com ele, fidelidade incondicional a Deus, ter consciência da sua missão, realização da missão, martírio como conseqüência de sua vocação.

19 - Apóstolos: vocação de propagar os ensinamentos de Jesus

Os textos que contam a vocação dos apóstolos são: Jo 1,35-39.40.51; Lc 5,4-10; Lc 6,12-16; Mc 1,17-20; Mc 2, 13-17; Mt 4,12-22; At 1,15-26. Os judeus que se tornaram apóstolos de Jesus, o fizeram de vários modos: vendo Jesus passar o seguiram (André); ouvem falar de Jesus e o procuram para ser seu discípulo (Pedro); são chamados por Jesus mesmo (Pedro, Levi, Filipe, Simão, André, Tiago, João). A narrativa de Lc 6,12-16, por outro lado, mostra que Jesus chamou os 12 apóstolos ao mesmo tempo, dentre tantos outros que estavam com ele em uma noite de oração. A missão dada por Jesus a estes homens, na maioria pescadores, foi de se tornarem “pescadores de homens”. Matias, que substituiu Judas, foi escolhido em uma assembléia, por meio da invocação do Espírito Santo, critérios estabelecidos pelo grupo – dentre o de ser varão – e sorteio. Os elementos essenciais da vocação dos apóstolos são: chamado pessoal por Jesus; opção de seguir de Jesus; realização da missão de expulsar demônio, curar doentes, ungir, ensinar com autoridade e continuar a missão de Jesus; o escolhido passa a ter o compromisso de adesão pessoal ao mestre, Jesus.

20 – Pedro: pedra, gruta e rejeição à mulher

A literatura bíblica canônica e apócrifa nos legou inúmeros relatos da vida de Pedro e Madalena. Eles são colocados em oposição e disputam liderança apostólica. Um pode ser entendido em relação ao outro.

Pedro tem o seu nome mudado por Jesus, de Pedro para Kephas, que significa “gruta escavada na rocha”. Pedro não e somente Pedra. A igreja construída sob a gruta escavada na rocha muda e muito o sentido de Mt 16,31.

Simão Pedro7 nasceu na cidade de Betsaida, na Galiléia, às margens do lago de Genesaré, também conhecido por mar da Galiléia. Simeão era o seu nome hebraico (At 15,14; 2Pd 1,1) e Simão, o nome grego. Jesus chamou Pedro, em aramaico, de Kephas (Jo 1,42). Pedro, em português, foi o modo encontrado pelo grego para traduzir Kephas. O nome Simão Pedro, que aparece 20 vezes no Segundo Testamento, é a junção dos seus dois nomes.

Filho de um tal de Jonas, também chamado de João nos evangelhos (Mt 16,17; Jo 1,42; 21,15-17), Pedro era irmão de André e exercia a profissão de pescador (Mc 1,16). O nome hebraico da sua cidade natal, Betsaida, está relacionado à sua profissão, pois significa Casa (Bet) da pesca (saida). Pedro viveu grande parte de sua vida na cidade de Cafarnaum (Mc 1,29). A vida humilde de Pedro, associada à sua capacidade intelectual e o seu vigor em anunciar a boa nova do evangelho ao povo, rendeu-lhe, bem como a João, prisão e interrogatório no Sinédrio dos judeus. E foi neste episódio que os saduceus constataram: “eles são homens iletrados e sem posição social”.

Pedro era casado e morava com a sogra (Lc 4, 38-39). A primeira carta aos Coríntios, capítulo 9, versículo 25, menciona uma mulher que acompanhava Pedro em suas viagens missionárias, a qual poderia ser a sua esposa. A tradição cristã conservou a memória que a mulher de Pedro tornou-se mártir8. O apócrifo A filha de Pedro conta a história de sua filha, Petronília, e menciona também a sua esposa.

Segundo a literatura canônica, Pedro ouve o chamado de Jesus e se coloca ao serviço do Reino de Deus. Os traços da vocação petrina são: Ser companheiro de Jesus; Ser o primaz da comunidade de fé e do grupo dos apóstolos; Ser homem de muita fé na missão libertadora de Jesus; Ter medo; Ter consciência que é pecador; Ter dificuldade em manter-se em oração; Trair Jesus; Ser testemunha da ressurreição de Jesus; Curar; Ressuscitar; Batizar; Visionário; Ser perseguido e preso; Disputar idéias e liderança com Paulo; Ser missionário. Pedro é descrido nos canônicos como discípulo fiel e traidor do mestre. Homem de muita e de pouca fé. Seguidor e traidor dos costumes judaicos. Missionário do Reino de Deus. Homem perseguido e preso pelo império romano e líderes judeus. Coordenador do grupo dos apóstolos/as. Pedro, homem simples que se tornou forte, foi escolhido por Jesus para dirigir a comunidade de seus seguidores, que mais tarde recebeu o nome de Igreja.

As duas cartas atribuídas a Pedro têm como objetivo animar e fortalecer a fé dos irmãos. Esses deveriam procurar sempre o crescimento espiritual e a confiança na verdade da mensagem cristã. Da mesma forma, deveriam tomar cuidado com os falsos mestres que querem tomar o poder e o controle da Igreja de Deus. Jesus voltará outra vez e aí então tudo vai mudar. A esperança dever ser a toda prova. Nada de desânimo! Pedro animou e fortaleceu a comunidade dos primeiros cristãos.

Quem lê os Atos dos Apóstolos depara com um Pedro pregador, milagreiro, visionário e homem de oração. Pedro batiza, ressuscita e tem autoridade para impor as mãos sobre os apóstolos e confirmar-lhes na missão. Pedro tem o poder de decisão na comunidade, relaciona-se bem com as mulheres. Acolhe os pagãos e é um defensor do judaísmo.

A leitura literatura alternativa apócrifa sobre Pedro confirma muitas qualidades de Pedro, citada nos canônicos, maas apontam outras que chegam até contradizer o Pedro canônico. Podemos até falar de um outro Pedro segundo os apócrifos. Em síntese, os apócrifos apresentam Pedro do seguinte modo: Modelo de gnóstico; Ter primazia sobre os outros apóstolos; Disputar a liderança apostólica com Maria Madalena; Contra o poder das mulheres; Ser ciumento; Ser irascível; Visionário; Condenar a magia; Ser amigo de Jesus; Sentimental; Medroso; Taumaturgo; Protetor das viúvas; Defensor da virgindade; Ser perseguido e martirizado; Tem boas relações com o império romano; Anunciador do evangelho e de Jesus ressuscitado.

O estudo que fizemos sobre a pessoa de Pedro e sua atuação no início do cristianismo nos traz luzes e questionamentos sobre a pessoa de Pedro e seu ministério apostólico. Ele não deixa de ser o Pedro papa, pastor e chefe dos apóstolos. No entanto, em tempos de leitura de gênero, descobrir um outro Pedro, de certa maneira, nos desinstala. Em tempos de questionamentos de verdades estabelecidas, não há como fugir desta trajetória. Na outra ponta da linha, no entanto, é bem verdade que todas essas informações sobre o perfil de Pedro devem ser lidas de modo crítico. Nem tudo que a tradição afirmou sobre Pedro nos apócrifos é verdade. Muitos dados foram atribuídos a ele, com o intuito de apresentar uma outra imagem desse personagem controvertido do início do cristianismo. Pedro foi aceito, é claro, como liderança maior do cristianismo, mas ele também teve opositores. E até mesmo, grupos que o queriam como líder, o apresentaram de modo diverso. Por isso, não podemos afirmar simplesmente os apócrifos sobre Pedro são falsos, por isso, não autorizados a falar sobre ele. É preciso dialogar com esses textos. Foi o que procuramos fazer. Nós também somos críticos aos apócrifos. E isso faz bem para a nossa fé, ainda que em alguns pontos de fé em relação a Pedro sejamos desinstalados. Por outro lado, o Pedro canônico também é apresentado de modo positivo e negativo. Os apócrifos só confirmam esse procedimento.

Pedro canônico e Pedro apócrifo descortinam em nós a humanidade que mora dentro de cada um de nós. Somos bons e menos bons. Por ser humano, o humano é sujeito a erros. Somos Pedro Pedra, poder e serviço. Ora um, ora outro. A Igreja petrina, inspirada nas kephas, lá onde moram os pobres, é sempre um desafio para todos nós. São Pedro rogue por nós! Na lida de sua vocação, no seguimento de Jesus, Pedro foi sendo gradativamente lapidado até tornar-se a própria personificação da fidelidade a Cristo e um líder na missão de propagar a mensagem cristã. Que assim sejamos nós, discípulos/as de Pedro.

21- Madalena: apóstola e amada de Jesus

Maria Madalena ou Miriam de Mágdala é uma personagem controvertida na tradição canônica. Duas imagens de sua personalidade foram conservadas no inconsciente coletivo: testemunha primeira da ressurreição e prostituta arrependida. Sendo que a segunda, reina soberana no inconsciente coletivo. As pesquisas recentes sobre Maria Madalena têm colocado em xeque essa ‘inverdade estabelecida’. Madalena não era prostituta. É o que veremos a seguir.

Como o seu próprio nome indica, Maria Madalena é originária da cidade portuária e também colônia de pescadores, Mágdala, que estava à beira ocidental do lago de Genesaré.

Muitas histórias sobre a vida de Madalena foram transmitidas, sendo muitas delas, de caráter lendário. Conta-se que ela era mulher de Pappus ben Judas. Por amor a um soldado romano, das tropas de Herodes Antipas, chamado Panther, ela deixou o seu marido. O tal soldado morava em Mágdala.

Filmes antigos e modernos não cansam de explorar o imaginário coletivo sobre a personagem Maria Madalena. Nunca falta o jargão ‘prostituta’ e, até mesmo, ‘prostituta arrependida’. Há um filme que conta a saga de Madalena, no qual conta-se que ela fugiu com o soldado romano, sendo posteriormente repudiada por ele e violentada sexualmente por outros soldados. Abandonada, ela é acolhida por Jesus, quem expulsa demônios do seu corpo. Nisso está evidente a ligação de possessão demoníaca com a sexualidade. Madalena deixa de ser prostituta do exército romano para seguir a Jesus.

No Segundo Testamento, somente os evangelhos (Marcos, Mateus, Lucas e João) é que nos oferecem informações sobre a personalidade e atividade apostólica de Maria Madalena, dentre as quais, destacamos: Apostola de Jesus; Mulher possessa de 7 demônios; Sustenta financeiramente a Jesus; Mulher sem laços familiares; Testemunha a morte e o enterro de Jesus; Discípula amada de Jesus; Testemunha a ressurreição de Jesus aos irmãos homens, dizendo ‘Eu vi o Senhor’; Tem medo de anunciar que Jesus ressuscitou; Madalena acredita que Jesus ressuscitou; Mulher de oração.

Maria Madalena, segundo a traição canônica dos evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João, era uma discípula fiel, apóstola, testemunha ocular da ressurreição. Acompanhou o mestre até o fim. Madalena não deixou perder de vista o seu amado, quem expulsou dela ‘sete demônios’, revigorando-a no seguimento do Reino. Eis uma mulher digna de ser seguida como modelo para os primeiros cristãos. Madalena não foi prostituta, mas mestra qual Jesus, seu amado mestre. É o que veremos na tradição alternativa dos evangelhos apócrifos.

A partir dos dados expostos nas páginas anteriores sobre a atuação de Maria Madalena, e munidos de outras informações, podemos traçar o perfil de Maria Madalena do seguinte modo: Companheira, esposa/consorte e amada de Jesus; Não era prostituta; Personificação terrena da gnose/sabedoria; Mulher que sabe demais; Mulher que faz perguntas; Mulher que chora; Mulher que tem medo; Apóstola de Jesus; Intérprete e confidente de Jesus; Acredita que Jesus é um iluminado; Modelo de gnóstica perfeita; Mulher pneumática/carismática; Ensina que o pecado não existe; Ensina a paz, a harmonia e a integração como caminho de espiritualidade.

Os apócrifos apresentam o perfil de Madalena de modo diversificado. Em Pistis Sophia, ela está mais preocupada com o saber e as revelações de Jesus. No seu Evangelho encontramos a mulher mais próxima daquela dos evangelhos canônicos, mulher discípula, mas com um detalhe a mais: ela é também apóstola, discute como os seus irmãos, os homens, anuncia os ensinamentos do mestre e chora. Essa última característica aparece também em Pistis Sophia.

Em relação à autoridade apostólica de Pedro e de Madalena, nos textos apócrifos ela aparece em várias nuances. Com vimos, uns defendem que Pedro é chefe dos apóstolos. Outros ressaltam a liderança e o apostolado de Madalena, Tiago e Paulo, pessoas não consideradas autoridades apostólicas. Todos eles representam a diversidade do pensamento de origem do cristianismo.

O Evangelho de Madalena mostra como ela restabelece as relações entre os apóstolos, ela os humaniza. A sua função é a de levar os apóstolos a compreender os ensinamentos revelados por Jesus e animá-los no anuncio do Reino de Deus. Assim ela viveu a sua vocação.

22 – Paulo: vocação de continuar a missão de Jesus ressuscitado

Os textos que falam sobre a vocação de Paulo são: At 9,1-19; 22,1-21; 26,2-18. Os três relatos são unânimes em afirmar que Paulo, outrora o perseguidor Saulo, tem uma visão no momento de sua chamada. Jesus se revela a Paulo e lhe dá a missão de anunciar o evangelho da Boa Nova a todos os povos. Paulo dialogo com Jesus, fica cego, é batizado e inicia a sua missão. O simbolismo da luz e cegueira demarca a nova caminhada de Paulo. Cair por terra, que não é de um cavalo, significa a tomada de consciência de seus atos diante de uma missão totalmente diversa: de perseguidor para aliado. Os elementos essenciais da vocação de Paulo são: chamado por Jesus ressuscitado, cegueira, revelação da missão e sua realização.

Conclusão: a vocação tem várias nuances

O estudo que fizemos sobre a vocação na Bíblia nos evidencia algumas conclusões, tais como:

a) Os escritores (as) da Bíblia não mediram esforços para registrar o modo como Deus chamou algumas pessoas serem suas testemunhas. E todos procuram responder ao chamado. Os judeus tinham a consciência que o chamado era levar ao mundo, a partir de sua condição de povo escolhido, a proposta da santificação. Já os judeus que se fizeram cristãos vivenciaram a vocação como projeto de salvação. Jesus mesmo já havia dito “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para evangelizar os pobres” (Lc 4,18).

b) A maioria dos casos de vocação na Bíblia é de homens. Fato considerado normal para a sociedade naquele então.

c) Ser chamado por de uma voz, luz, toque, etc, são alguns modos específicos encontrados pelas comunidades para dizer que alguém foi chamado por Deus ou Jesus. Outros também foram chamados, mas isto não é dito claramente.

d) A distinção, no caso dos seguidores de Jesus, entre apóstolos e discípulos, não me parece convincente. Por que seguidores, também da primeira hora, como Madalena não pode ser considerada apóstola?

e) Em muitos casos de vocação na Bíblia são ditos claramente que eles devem continuar a missão do seu antecessor. Assim ocorre com Josué, Eliseu, os 12 apóstolos, etc.

f) Alguns chamados não conseguem viver plenamente a vocação e, por isso, são rejeitados por Deus, como no caso de Saul.

g) A missão dos vocacionados é a de fazer justiça, seja como profeta, rei, juiz, etc.

h) O esquema literário das narrativas vocacionais se repete em muitos casos, do seguinte modo: chamado, rejeição ao chamado, explicitação e aceitação da missão.

i) O exercício da vocação se manifesta de vários modos. Ser profeta, com as suas várias nuances, demonstra a resposta clara ao chamado de Deus na época do Primeiro Testamento. As mulheres matriarcas exercem a sua vocação na soleira dos homens, mas com determinação e firmeza. O medo faz parte da vocação em muitos homens e mulheres da Bíblia. A disputa de liderança também faz parte da vocação, com o foi o caso de Pedro e Madalena.

l) O Segundo Testamento entende a vocação à santidade e consagração a Deus em relação ao Espírito Santo e Jesus. A comunidade de Lucas (1,35) afirma: Jesus, concebido do Espírito Santo é “santo e filho do Altíssimo”. A fé das comunidades paulinas logo compreenderam que todos os cristãos, no Espírito Santo, são santificados. Por ele participamos todos da morte e ressurreição de Jesus (Rm 1,4). A vocação do cristão à Santidade exige viver segundo o Espírito de Deus e testemunhar Jesus à comunidade eclesial (1Pd 1,14: 2,5).

m) Os elementos essenciais da vocação no Segundo Testamento são: Ser chamado um chamado de Jesus Cristo (Rm1,6; 8,29); Ser herdeiro da bênção (1Pd 3,9); Ser testemunha de Jesus (Mt 10,37; Lc 14,26); Ser santo, sendo testemunha para os irmãos (Mt 16,15).

n) A vocação no ST se realiza na santidade, iluminada pelo Espírito Santo, na pessoa de Jesus Cristo.

frei Jacir de Freitas Faria, OFM

1 Jacir de Freitas Faria é padre e frade franciscano.

2 Cf. BRENNER, Athalya (Org.), Gênesis a partir de uma leitura de gênero, São Paulo: Paulinas, p. 259-275.

3 Cf. BLEDSTEIN, Adrien Janis. A amarradora, o trapaceiro, o calcanhar e o cabeludo; relendo Gênesis 27 como trapaça contada por uma mulher. In: BRENNER, Athalya (org.). Gênesis a partir de uma leitura de Gênero. São Paulo: Paulinas, 2000, p. 308-323.

4 As reflexões que seguem são frutos da inspiração de Leloup em: Jean-Ives Leloup, Caminhos da realização. Dos medos do eu ao mergulho do ser, Petrópolis: Vozes, 2000, p. 17-79.

5 Cf. J. ASURMENDI, O profetismo. Das origens à época moderna, Paulinas, São Paulo 1988, 123-124.

6 Para um aprofundamento sobre a relação entre Jesus, Elias, João Batista e Jeremias, veja: G. JOACHIM, Il vangelo di Matteo, I e II, Paideia, Brescia 1998, 92-93. O povo acreditava que o espírito da profecia, extinta desde Malaguias, deveria voltar na era messiânica com a volta de Elias ou na efusão geral do Espírito (At 2,17-18. 33). Os primeiros cristãos reconheceram em Jesus o “profeta” (At 13,22-26; Jo 6,14;7,40) que Moisés tinha predito (Dt 18,15). Com o advento do carisma da profecia em Pentecostes, o título de profeta deixou de ser aplicado a Jesus, dando lugar a outros títulos cristológicos.

7 A reflexão que segue sobre Pedro e Madalena encontra-se publicada em Jacir de Freitas Faria, O outro Pedro e a outra Madalena segundo os apócrifos. Uma leitura de Gênero. Petrópolis: Vozes, 2004.

8 Cf. Eusébio, História Eclesiástica 3, 30, 2