JESUS  FOI  TENTADO  PELO  DIABO?

1. Muita gente custa a acreditar que Jesus tenha sido tentado pelo Diabo. No fundo é porque considera a tentação como algo desonroso para a pessoa, como sendo uma fraqueza, uma falha.

A tentação não é nada disso. Ela não é nem boa nem má. Simplesmente é inevitável. Todo ser humano tem tentações, porque, ao ser criado livre, sempre lhe serão apresentados dois caminhos, duas possibilidades de ação das quais geralmente uma costuma ser boa e outra má. Esta dualidade de horizonte constitui a tentação. Se a pessoa escolhe a via correta, ela cresce e amadurece. Se ela optar pelo caminho errado, ela se degrada e se diminui. Por si só a tentação carece de moralidade. Será boa ou má conforme a decisão tomada diante dela.

Não é possível viver sem tentações. Se alguém não as tivesse, seria automaticamente desumanizado, já que não lhe apareceriam os desafios à sua liberdade. Um homem sem tentações seria tão anormal que não pertenceria à categoria dos seres humanos.

2. A Bíblia sustenta que Jesus é verdadeiro homem, em tudo semelhante aos outros homens (Hb 2,17). Que "padeceu e teve tentações" (Hb 2,18). E que ele "pode entender a nossa debilidade, pois teve as mesmas tentações que nós, só que jamais pecou" (Hb 4,15).

Porém as tentações que aconteceram a Jesus, conforme o Evangelho, são raríssimas. Como podemos dizer que as tentações de Jesus são como as nossas?

Primeiro, é muito estranho o modo como o diabo se apresenta a Jesus. Ele aparece de modo frontal, sem camuflagens e subterfúgios... Completamente diferente da maneira de ele nos tentar. E, assim cara-a-cara, convida Jesus a pecar... Depois, outra coisa estranha: o diabo aparece uma só vez em toda vida de Jesus, depois de um jejum de 40 dias no deserto. Ele desafia Jesus. E, ao ser derrotado, desaparece e nunca mais volta durante todo o ministério de Jesus Cristo. É muito diferente de nós que sofremos o aguilhão das tentações todos os dias, todas as horas...

3. As tentações de Jesus parecem bem insólitas, com uma extravagante mudança de cenário. A primeira, por exemplo, ocorre no deserto.

Mas, para a segunda, o diabo aparece levando Jesus pessoalmente ao Templo de Jerusalém (Mt 4,5). Como o transportou do deserto a Jerusalém? Carregando-o? Voando? Isto exigiria aceitar que o diabo teria realizado um portento impressionante. De onde tirou o diabo este poder de fazer milagres, quando a tradição bíblica sustenta que só Javé pode fazer milagres? (Sal 72,18; 86,10; 136,4).

Na terceira tentação, o diabo é apresentado levando Jesus ao cume de um alto monte, donde lhe mostra todos os reinos e nações do mundo (Mt 4,8). Existe na terra esta extraordinária montanha da qual se possa contemplar semelhante espetáculo? E mais... como pode Jesus permanecer 40 dias no deserto sem comer e, sobretudo, sem beber? A desidratação não perdoa ninguém... A não ser que Jesus tenha feito um milagre para superá-la. E aí? Que sentido teve o seu jejum? Teria sido uma farsa. Finalmente, como foi que os discípulos ficaram sabendo deste duelo entre Jesus e o diabo, ocorrido no deserto? Será que Jesus andava contando esta suas intimidades pessoais?

4. Tudo isto nos leva a supor que, embora Jesus tenha tido tentações durante a sua vida, a forma como estão aqui contadas no Evangelho não é histórica. É muito mais uma criação literária dos evangelistas com a finalidade de passar um ensinamento religioso, uma idéia válida para a vida dos crentes que tropeçam cada momento com suas tentações no deserto da vida.

O importante é saber que Jesus teve tentações não só um dia, mas todos os dias de sua vida. Ele mesmo disse uma vez aos apóstolos: "Vocês me tem acompanhado ao longo de todas minhas tentações. Por isso lhes darei um Reino como aquele que o Pai me deu" (Lc 22,28 - 29). Em que tentações os apóstolos acompanharam o Senhor? Certamente não foi naquelas do deserto, quando Ele estava sozinho. Com certeza eles o acompanharam ao longo de sua vida pública. Realmente, pelos evangelhos sabemos que muitas vezes quiseram tentar Jesus: Quando "se aproximaram os fariseus e saduceus para tentá-lo e lhe pediram um sinal do céu" (Mt 16,1). Quando lhe perguntaram "para tentá-lo pode alguém, por qualquer motivo, divorciar-se de sua mulher?" (Mt 19,3), ou quando respondeu àqueles que o interrogavam se deviam ou não pagar os impostos: "Hipócritas, por que me tentais?" (22,18), ou no dia em que lhe trouxeram uma mulher surpreendida em adultério" para tentá-lo" (Jo 8,6).

5. Como se vê, a vida de Jesus esteve sempre sobrecarregada de tentações. Os autores bíblicos, entretanto, quiseram resumi-las em três, porque este é um número simbólico que aparece muitas vezes na Bíblia com o sentido de "totalidade". Tal simbolismo, talvez, decorra do fato de que três são as dimensão do tempo: passado, presente e futuro. Portanto dizer três é como dizer "sempre" ou "todo". Por exemplo: os três filhos de Noé (Gn 6,10) representam a "totalidade" de seus descendentes. As três vezes que Pedro negou Jesus (Mt 26,34) simbolizam "todas" as vezes que lhe foi infiel. As três tentações do Senhor, então, refletem "todas" as vezes que Ele esteve exposto a elas durante a sua vida.

6. Agora: por que os Evangelistas escolheram estas três tentações? - Aqui está a chave e o segredo de todo o relato. Escolheram estas três tentações para traçar um paralelo com o que aconteceu com o povo de Israel assim que saiu do Egito. Segundo o Antigo Testamento, depois de atravessar de modo prodigioso o mar Vermelho (Ex 14,15-31), os israelitas entraram no deserto (Ex 15,22), conduzidos pelo Espírito de Javé (Si 63,13-14). Ali permaneceram 40 anos (Num 31,13) e sofreram, principalmente, três tentações. Levando em conta estes detalhes, os autores bíblicos apresentam Jesus como o novo Israel que veio tomar o lugar do antigo. Por isso todos os detalhes se repetem: Jesus, depois de atravessar com prodígios as águas do Jordão, no seu batismo, (Mt 3,13-17), entra no deserto por 40 dias (4,1), conduzido pelo Espírito de Javé, e aí é tentado por três vezes (Mt 4,11, Lc 4,1-13). E por que Jesus vem tomar o lugar do Antigo Israel? Porque Israel fracassou. Cada vez foi tentado no deserto saiu derrotado, ao contrário, Jesus sai vitorioso das mesmas tentações. Por isso Ele forma agora o novo povo, a nova geração de homens e mulheres, e poderá realizar o programa libertador, confiado por Deus ao antigo Israel que não conseguiu realizá-lo, por causa de sua infidelidade.

7. A tentação do deserto

Conforme o relato dos evangelistas a primeira tentação de Jesus teve por cenário o deserto. Ali Jesus, depois de 40 dias sem comer, sente fome e o tentador o incita a deixar o seu plano de jejum, transformando pedras em Pão. Ora, o povo de Israel teve a mesma experiência. Depois de sair da escravidão do Egito e entrar na liberdade do deserto, por 40 anos experimentou uma fome parecida. Diante da escassez de alimento, o povo caiu na tentação. Revoltou-se contra Moisés, exigiu poderes especiais para fazer aparecer alimento, e até chegou desejar voltar à escravidão do Egito, onde podiam comer bem (Ex 16). Muitos anos depois Moisés lançou no rosto deles esta sua fraqueza, dizendo-lhes que deveriam ter pensado que não só de pão vive o homem, senão também tudo aquilo que sai da boca de Javé (Dt 8,3). Quando, porém, sobreveio a Jesus a mesma tentação, Ele se negou a usar seus poderes especiais em benefício próprio e, recordando aquelas palavras de Moisés, as apresentou ao diabo, e o derrotou.

8. A tentação do pináculo do Templo

O segundo encontro entre Jesus e o diabo aconteceu, segundo Mateus, no teto de uma das galerias do Templo, sobre um precipício de mais de 100 metros que dava para a corrente do Cedron. Ali Jesus é convidado a atirar-se no vazio para provar que Deus está sempre cuidando dele e que nunca permitirá que algum mal lhe suceda. Enfim, Jesus é convidado a realizar um milagre maravilhoso.

Também Israel passou por uma situação semelhante. Em Massá, no deserto, faltou água. Eles tinham certeza que Javé estava com eles e que nunca os abandonaria. Entretanto exigem uma prova de que Javé realmente cuida deles. E exigem que Moisés faça algo Maravilhoso para obter água para eles. Caíram na tentação e usar Deus... E Deus operou o Milagre para eles (Ex 17). Algum tempo depois, relembrando este episódio, o repreende: "Nunca mais voltem a tentar a Moisés, o Deus" (Dt 6,16).

Agora era Jesus que passava por esta mesma tentação de por Deus à prova, atirando-se do alto do pináculo do Templo para mostrar que Deus não o abandona e não vai permitir que lhe aconteça algum mal. O Senhor, porém, recordando outra vez as palavras de Moisés, as atira sobre o diabo para vencê-lo.

9. A tentação da montanha

A terceira vez que se defronta Jesus com o tentador é em cima de uma montanha muito alta, donde, numa visão imaginária, podem-se contemplar todos os reinos e nações daquele tempo. Desta vez satanás vai ao âmago da questão e manifesta a finalidade dessas suas investidas:

- que Jesus abandone o serviço exclusivo do Pai e se torne um adorador do diabo para usufruir maiores vantagens e riquezas em sua vida.

Também Israel no deserto teve esta tentação: abandonar Javé e construir um ídolo, um bezerro de ouro para ser adorado. E o povo foi mais uma vez vencido por esta tentação (Ex 32). Com sua infinita e habitual paciência, Moisés dirigiu um discurso ao povo, antes de entrar na terra prometida, pedindo-lhes que não se deixassem envolver por outros deuses que, porventura, viessem encontrar na nova terra, porque "só a Deus deverão adorar e a ele prestar culto" (Dt 6,13).

Segundo os evangelistas, Jesus teria vivenciado esta mesma tentação de adorar outro que não o Pai. E mais uma vez saiu vitorioso com as palavras de Moisés que lhe serviram de arma vencedora.

10. Israel fora derrotado em todas as provas do deserto. Foram tantas as transgressões e desprezos a Javé que Deus não pôde realizar o seu projeto de engrandecimento do povo eleito. É certo que este povo chegou a terra prometida. Mas não conseguiu levar a toda humanidade as mensagens de paz e amor, de prosperidade, como era o plano de Deus. Não soube ensinar como deve viver um povo em cujo meio Deus está presente. Por isso os profetas, olhando para o futuro, tinham fé que Deus mandaria um Messias suficientemente forte para vencer todas tentações e converter em realidades as esperanças antigas do Povo. Com a chegada do Senhor, os evangelistas sugerem que se "inaugure um novo povo de Israel", formado por Jesus Cristo e seus seguidores. Estes tem agora a difícil tarefa de, todos os dias, reconquistar esta terra prometida, que agora é o mundo inteiro.e instaurar nela uma nova era de harmonia, de Paz, de Salvação. O que não conseguiu o Israel dos patriarcas.

Desta vez será possível, pois o iniciador desta empreitada, Jesus, saiu triunfante das provas. E todo aquele que vive unido a Ele, também poderá vencer as tentações. por isso os Autores sagrados reuniram as tentações de Jesus no início de sua vida pública para realçar que, se alguém se esforça por vencer as tentações, terá aberto o caminho em frente e assegurada a vitória final em Jesus Cristo.

11. Nenhum exegeta sustenta que Jesus tenha sido realmente levado ao deserto e que ali passou fome e foi tentado. Que em seguida fora levado a Jerusalém, e tenha terminado no cimo de uma montanha. Toda esta coreografia é uma criação dos evangelistas para nos transmitir um ensinamento.

Fica, porém, a pergunta: estes relatos das tentações foram totalmente inventados pelos hagiógrafos ou se fundamentam em episódios reais da vida de Jesus? Tudo leva a pensar que foram baseados em fatos da vida de Jesus. Com efeito, na primeira tentação a palavra "Pão" nos dá uma pista de quando teria acontecido a real tentação de Jesus. Provavelmente foi no dia em que, diante da fome da multidão, multiplicou os pães (Mc 6,30 - 40).

São João diz que, ao ver o milagre que Jesus fizera, o povo quis agarrá-lo para fazê-lo rei afim de ter sempre alguém que pudesse satisfazer suas necessidades materiais. Jesus, diante da miséria e da dor do povão, teria tido a inclinação de aceitar tal proposta. Ao dar-se conta, porém, que era uma falaz tentação, se retirou sozinho para a montanha (Jo 69,14). Quem foi o diabo-tentador desta primeira tentação? Foi o próprio povo que o tentava a usar seus poderes milagrosos para continuar tirando do nada mais pão, reduzindo a isto a sua missão salvadora.

12. Quando teria ocorrido a segunda tentação de Cristo?

O tentador manda Jesus faça um milagre, atirando-se do alto num precipício para mostrar às pessoas os seus poderes extraordinários. O diabo desta segunda tentação é mais esperto e inteligente do que aquele da primeira tentação. E, interessante, conhece a bíblia, pois cita o salmo 91.

Temos também aqui uma pista. Sabemos que um dia "acercaram-se de Jesus os fariseus e saduceus e, para tentá-lo, lhe pediram que fizesse um sinal dos céus" afim de poderem crer definitivamente nEle (Mt 16,1). Jesus já levava tempo pregando, mas a dureza do coração desta gente não a deixava converter-se. Só recebia dela ironias e desprezo. Agora poderia convencê-la com um portentoso milagre e, assim, fechar-lhe definitivamente a boca. Jesus, porém, reagiu a esta tentação e "deixando-os foi se embora" (Mt 16,4). Quem foi o tentador desta vez? O domínio que tem da Bíblia nos dá um indício - alguém que conhece muito bem a religião. Com efeito, foram as autoridades religiosas que, intrigadas pela atividade desenvolvida por Jesus no meio do povo, o desafiam a realizar um grande milagre para verem até onde vai o seu poder.

13. A terceira tentação, chamada "tentação do facilismo", na qual o diabo propõe a Jesus conquistar todos os reinos do mundo sem sofrimentos e sacrifícios, bastando somente adorar o diabo.

Jesus a sofreu na vida real, quando Simão Pedro, ao ouvir Jesus anunciando a sua futura paixão e sofrimentos, o aconselhou a não aceitar a morte de cruz, mas que salvasse o mundo de um modo mais fácil. Jesus não duvidou e disse a Pedro: "Afasta-te de mim, Satanás" (Mt 16,21 - 23). Desta vez o diabo foi na realidade o próprio apóstolo Pedro.

14. Jesus foi tentado durante toda sua vida. Porém a experiência das tentações de Jesus foi resumida em três pelos Evangelistas. Com isto eles nos ensinam que também nós seremos tentados durante toda nossa vida. Estejamos preparados para isto. Só uma pessoa sem compromissos poderá vangloriar-se de nunca ser tentado. Por outro lado, as tentações vão ficando mais fortes na medida em que a pessoa vai se aproximando do ideal a que ela se propôs. Mas, sobretudo, os Evangelistas quiseram nos ensinar que, se Jesus como homem foi capaz de superar suas tentações também cada um de nós poderá vencer as suas. Nunca uma tentação estará acima de nossas forças. Ninguém poderá dizer que pecou porque a tentação foi superior a suas forças. Isto porque, em Jesus Cristo, aqueles que se deixam guiar pelo Espírito Santo, sempre serão vitoriosos. Principalmente se conhecem a palavra de Deus, graças à qual, Jesus Venceu os embates do diabo.