AS TENTAÇÕES NO DESERTO

Estamos entrando na Quaresma, esses quarenta dias de oração e penitência com que a Igreja nos prepara para a solene celebração da Páscoa. Quarenta era um número particularmente significativo no mundo bíblico. O dilúvio durou quarenta dias e quarenta noites. O povo hebreu viveu quarenta anos de vida nômade no deserto. Moisés passou quarenta dias junto de Deus no Sinai. Mas, sobretudo, Jesus passou quarenta dias de jejum no deserto, o que inspirou o estabelecer-se na Igreja destes quarenta dias de penitência da Quaresma. O deserto de que se fala aqui não é um deserto de areia, como o Saara. É uma região pedregosa, árida e inculta, onde apenas na primavera uma escassa vegetação dá uns sinais de vida. Trata-se do deserto de Judá e, segundo a tradição, da elevação chamada Djebel-Qarantal, não longe de Jericó.Aí se estabeleceram monges desde o século IV. Hoje está em mãos dos cristãos ortodoxos.

É sempre muito misterioso pensar em Jesus submetido às tentações do demônio. Ele o Santo, Ele o impecável, Ele que jamais poderia sucumbir á tentação! A carta aos hebreus diz que tendo Ele mesmo sofrido pela tentação, é capaz de socorrer os que são tentados (Hb 2, 18). Uma vez que Ele se fez em tudo igual a nós, exceto no pecado. Há proveitosas reflexões de comentadores do Evangelho e de mestres espirituais, que nos mostram como Jesus passou pelas várias espécies de tentação por que nós passamos, resumidas na gula, na soberba e na avareza. E nos mostrou como é na força da Palavra de Deus que encontramos o meio de resistir às tentações. O nosso Padre Vieira disse elegantemente: Permitiu pois Cristo Senhor Nosso ser tentado do demônio hoje, não para se honrar com a vitória (que era pequeno triunfo) mas para nos ensinar a vencer com seu exemplo (Sermão do 1º Domingo da Quaresma).

Mas, segundo as mais ponderadas considerações dos estudiosos, as tentações visavam o messianismo de Jesus. O demônio queria tirar a dúvida se Ele era realmente o Messias. E queria desencaminhá-lo da idéia de um Messias sofredor, destinado à morte, como está nas profecias de lsaías, e levá-lo para a idéia de um Messias político e triunfador. São três desafios - se és o Filho de Deus - iguais ao que vai aparecer no dia da crucifixão: Se és o Filho de Deus, desce da cruz (Mt 27, 40). E, como só podia ser, Jesus resistiu a tudo com divina sabedoria.

Primeiro foi a tentação de satisfazer a fome. Jesus tinha jejuado quarenta dias e quarenta noites (não como os muçulmanos no mês de Ramadan, que jejuam de dia, mas comem durante a noite). Teve fome. Na frente estavam as pedras daquele lugar selvagem. O demônio se aproximou e lançou a tentadora insinuação: Se és o Filho de Deus, manda que estas pedras se transformem em pães , E Jesus, prontamente, respondeu: Está escrito: não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus (Mt 4, 4). O demônio, então, o arrebata até Jerusalém e o coloca sobre o pináculo do Templo. E lhe diz: Se és Filho de Deus, atira-te daqui abaixo, porque está escrito: Dará ordem aos seus anjos a teu respeito, a fim de que te guardem . E também: Hão de te levar em suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra (Lc 4, 3-4). E a resposta de Jesus foi mais do que pronta: Foi dito: Não tentarás ao Senhor teu Deus (lbid., v 12). Deus pode fazer milagres, e os faz, porém nunca para satisfazer à vaidade de alguém. Ele os faz, quando assim o determina sua santíssima vontade. E veio a terceira tentação (em Lucas está em segundo lugar). Por não se saber qual prodígio de fantasmagoria, o demônio levou Cristo ao cimo de um altíssimo monte, donde se viam todos os reinos do mundo, com todo o seu esplendor. E lhe disse: Tudo isso te darei, se prostrado me adorares . Foi quando Jesus respondeu com vibrante energia: Vai-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor teu Deus adorarás e só a Ele prestarás culto (Mt 4, 8-1 0). Três ataques! Três vitórias! Tudo pela força da Palavra de Deus!

O demônio então se retirou. E os anjos do céu se aproximaram de Jesus para servi-lo (Mt 4, 11).

dom João Resende Costa - Jornal O Estado de Minas (fev. 2001)