A RELEITURA DO SHEMÁ ISRAEL NOS EVANGELHOS E ATOS DOS APÓSTOLOS

Resumo

O presente estudo é uma análise de Dt 6,4 - 9, o Shemá Israel, (Escuta , ó Israel) nos textos dos Evangelhos e Atos dos Apóstolos. Essa preciosidade da fé de Israel ficou gravada no coração dos primeiros cristãos, os quais não poderiam deixar viver o evento Jesus Cristo sem referir-se ao modo judaico de ser povo eleito. Atos de Jesus e de seus discípulos/as serão analisados na perspectiva do Escutar, Ouvir e Interpretar da fé em Jesus, bem como a presença de Deus no meio dos seus.

Abstract

Introdução

A releitura do Primeiro Testamento (PT) no Segundo Testamento (ST) conservou-nos a preciosidade do Shemá, verbo hebraico que em português significa ouvir, escutar, interpretar. Os evangelhos de Mateus e João interpretaram a vida de Jesus e seus seguidores na perspectiva do Shemá Israel. Basta reler os textos do ST nessa perspectiva e encontraremos intuições antes não percebidas 2. O Shemá estava no coração de cada judeu. Quem, ainda hoje, já não ouviu ou cantou as palavras de Dt 6,4: “Escuta (Shemá), ó Israel! O Senhor nosso Deus, o Senhor é Um.” “Esse versículo constitui a profissão de fé israelita. Todo israelita deve recitá-lo, conforme se acha escrito no ritual, todos os dias, pela manhã e a noite. As primeiras palavras que uma criança deve aprender a pronunciar são: Shemá Israel ... e as últimas palavras que pronuncia um israelita morrendo são: Hashem Elohénu, Hashem Ehad (O Eterno é nosso Deus, o Eterno é um)”3.

No espírito do diálogo com o pensamento judaico, procuraremos reler o Shemá nos Evangelhos e Atos dos Apóstolos. Antes, porém, vamos demonstrar o significado do Shemá e a sua relação com o tema da presença de Deus. O Shemá nos ensina que são necessários três modos para amar a Deus. O numero três significa a perfeição. Seguindo essa lógica, 3 X 3 significa, então, perfeição X perfeição. Por isso, escolhemos 9 textos dos Evangelhos e Atos dos Apóstolos para a nossa análise. Com certeza, não fomos perfeitos em nossas análises dos textos, pois só Deus é UM, perfeito e eterno.

PRELIMINARES

A releitura do Shemá nos textos do ST tem dois antecedentes: a relação desse com o tema da Presença de Deus e o significado judaico dos termos, normalmente traduzidos por coração, alma e força, os quais formam o tripé da profissão de fé em Dt 6,4 - 9. E a esses está ligado a Torá, sinal visível de Deus que pede fé e amor ao próximo.

1 – O Shemá e a presença de Deus

No tempo do Primeiro Testamento, a presença por excelência de Deus estava no Templo de Jerusalém. A destruição desse, no ano 70 e.C., obrigou judeus e cristãos a encontrar um novo modo de falar da presença visível de Deus. Na verdade, os judeus acreditavam que a presença de Deus estava não só no Templo, mas também em todo lugar. Não há lugar que não tenha a presença de Deus. Por isso, a destruição do Templo não foi tão problemática para Israel. E Jesus, ao dizer: “Destruí esse templo, e em três dias eu o reconstruirei” (Jo 2, 19) estaria nessa linha de pensamento. O Templo pode ruir nas suas pedras, mas o Templo/Presença de Deus que mora em cada um de nós, jamais será destruído. Em Jesus, as comunidades do Segundo Testamento iniciam uma nova experiência da Presença de Deus. Ademais, Jesus disse: “E onde dois ou três estiverem reunidos, eu estarei no meio deles”.

Uma história do tempo dos rabinos diz que três rabinos choravam diante da destruição do Templo, mas Rabi Akiba ria. Os rabinos lhe perguntaram: - Por que sorris, quando choramos?

E Rabi Akiba respondeu: - O Templo destruído nos mostra um caminho novo. O Templo depende da Torá. Não temos mais o Templo, mas temos o essencial: a Torá. Se no Templo subia a fumaça dos sacrifícios, agora sobe o louvor do nosso coração. Deus está presente nos corações, lá onde a Torá habita, não a Torá de pergaminho, mas a Torá encarnada.

E os rabinos responderam:

- Mais uma vez es tu Akibas a nos consolar.

Segundo o Rabi Akiba a destruição do Templo de Jerusalém foi um bem, ele serviu para abrir um caminho novo de serviço a Deus e de seguimento da Torá. Com a destruição do Templo o judaísmo se volta mais para a Torá e o cristianismo vê em Cristo a realização da promessa. Jesus é o Messias, o Deus encarnado que devia ser anunciado a todos os povos. Israel, por sua vez, toma consciência que é povo eleito com a missão de levar Deus para todos os povos. Na verdade, um caminho não invalida o outro. A diferença se encontra, no entanto, na interpretação da presença de Deus. E por isso que judeus e cristãos vão manter o Shemá como experiência vital de fé, e, a partir dele, vão fazer a experiência de fé que procura interpretar a presença de Deus.

2 - O significado de Dt 6,4 - 9

Esse clássico texto da fé de Israel diz o seguinte:

“ Escuta,ó Israel: O Senhor é nosso Deus, o Senhor é um. Portanto, amarás o senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com todo a tua alma e com todas a tua força. Que as palavras dos mandamentos que hoje te dou estejam em teu coração. Tu as repetirás a teus filhos e delas falarás quando estiveres em casa e quando andares pela estrada, quando estiveres deitado e quando estiveres de pé. Tu também as atarás à tua mão como um sinal, e serão como um frontal entre os teus olhos; tu as inscreverás sobre as ombreiras da porta de tua casa e na entrada de tua cidade”.

Para compreender a releitura desse texto no Segundo Testamento, é necessário entender o significado de Shemá, ehad, ‘hab, lêb, nêfesh e Me‘ôd. Vejamos:

SHEMÁ = OUVIR: interpretar, comentar a Torá.
Daí que o Shemá está ligado diretamente à Torá escrita e oral. E a Torá sem ser comentada é morta. É um texto se vida. O segredo, ao comentar a Torá escrita, está em ligá-lo com a Torá oral. As homilias, pregações ou sermões em nossas Igrejas deveriam seguir esse princípio judaico de interpretação. Portanto, a homilia bem feita é a que está em sintonia com a vida. Os judeus chamam homilia de Midrashe. O método usado por Jesus para falar da presença de Deus foi esse. Ele sempre falava a partir da vida. Parábolas de cunho rural não faltaram nas suas pregações.

EHAD = UM: completo, sem divisão interior.
Essa é uma melhor tradução para o termo hebraico ehad. Algumas Bíblias traduzem ehad por único, mas essa não é uma boa tradução. Único está sempre em relação a alguém. Quando digo: “Dentre as mulheres desse recinto, Luciana Heloísa é mais bela”, estou automaticamente comparando a beleza das mulheres presentes e chamando a atenção para a beleza de uma delas. “A bela entre as belas!” Assim, dizer que o nosso Deus é Um é dizer que Ele não está em relação a outros deuses. Não existem outros deuses para serem comparados ao Deus de Israel. Deus é indivisível, é UM.

‘HAD = AMAR: é a tarefa de todo judeu.
Amar exige integridade, doação, entrega, crer. Por isso, o amor apregoado em Dt 6,4 - 9 deve perpassar todos os momentos do dia-a-dia, estando sentado, andando, deitado ou de pé. Não é possível escapar da faina diária do amor. Ademais, o amor é tridimensional. Ele deve ser realizado com o coração, a alma e a força (posses). Dizer essas três coisas é dizer a perfeição de um triangulo eqüilátero. Mais tarde, a fé cristã não entendeu como se fosse três em um? Deus é Pai, Filho e Espírito Santo, mas todos são um. Quer maior perfeição que essa? Mais o que é mesmo coração, alma e força?

LÊB = CORAÇÃO: sentimento e razão integrados.
Em nossos dias, coração simboliza as emoções. Uma namorada diz ao amor: “Te amo com todo o meu coração!” Prontamente o namorado compreenderá a significado de tão belas palavras. Mas no tempo de Jesus não era assim. O povo daquela época entendia o coração mais como sede da razão, do raciocínio. Nós, hoje, entendemos que o lugar da razão é a cabeça. No mundo semita, para expressar o sentimento era usado o fígado, as entranhas. A expressão de amor devia então ser: “Te amo com todo o meu fígado, as minhas entranhas!” Quando os evangelhos dizem que Maria guardava tudo no seu coração, quer dizer que ela raciocinava, raciocinava e não compreendia tão grande mistério, mas que a ele, ela se entregou com razão e sentimentos integrados.

NEFESH = ALMA: aquilo que me faz ser, que me confere dignidade.
Aquilo que faz também o outro ser. Alma é dignidade, personalidade, individualidade, vida, estado de ânimo, espiritualidade, vontade.

ME‘ÔD # FORÇA: poder aquisitivo, dinheiro, posses.
Me‘ôd não é força no sentido de vigor, conformes as traduções de nossas Bíblias, mas tudo aquilo que tenho, que possuo e que deve ser colocado a serviço do outro. Vamos continuar usando o substantivo força por ser ele mais conhecido. Melhor mesmo, seria dizer posses.

A RELEITURA DO SHEMÁ NOS EVANGELHOS

E não existe uma pessoa sem essas três dimensões: coração, alma e força. E é com elas que o bom judeu, o bom cristão devia amar a Deus. Josias, rei de Judá, é um exemplo do rei seguiu o Shemá. O livro dos Reis assim registrou a sua memória: “Não houve antes dele (Josias) rei algum que tivesse voltado, como ele, para o Senhor, de todo o seu coração, de toda a sua alma e com toda a sua força, em toda a sua fidelidade à Torá dada a Moisés, nem depois dele houve algum que se lhe pudesse comparar” (2 Rs 23,25).

A comunidade do evangelho de Mateus, a mais próxima do judaísmo, não deixou analisar Jesus e seus seguidores na perspectiva do Shemá. Leiamos algumas passagens desse evangelho na perspectiva do Shemá.

1 – O Shemá em Mt 6,1 - 18 exige oração, esmola e jejum

Esse texto é muito conhecido de todos nós. Ele faz parte do Sermão da Montanha. Jesus coloca para os seus ouvintes três modos de viver a justiça: esmola, oração e o jejum. Que vive o Shemá pratica essas três coisas. Em que elas correspondem no esquema do Shemá?

Coração: oração. No judaísmo, liturgia é o serviço do coração. Cada judeu é chamado a amar a Deus com todo o seu coração. A liturgia é o lugar de fazer memória da presença de Deus entre o seu povo de ontem e de hoje. A oração nos coloca no caminho da santificação. E não basta santificar os outros, é preciso também que me santifique através da oração, do encontro com Deus.

Alma: jejum. O jejum é a aflição da alma, que sacrifica si mesma a Deus e ao próximo, na simplicidade e no silêncio. Os judeus fazem jejuns públicos de caráter penitencial, como no “Dia do Perdão” (Yom kipur), ou de memória penitencial dos eventos tristes ocorridos na história de Israel. O jejum está também ligado à oferta como gesto de caridade para com o outro que passa por necessidade econômicas. O jejum devolve ao ser (alma) de quem o faz a dignidade, bem como ao outro recebe o ato do jejum, seja Deus mesmo ou o pobre. não devemos ser hipócritas, fingidos, auto-suficientes, mas simples em nosso silêncio.

Força (posses): esmola. O oferecido como esmola faz parte das posses daquele que coloca os seus bens a serviço do empobrecido. Em hebraico, esmola se diz Tzedakah e justiça Tzedek. Esmola deriva de Justiça. Dar esmola significa cumprir a Torá, isto é, fazer justiça. Quando um judeu pobre gritava pelas ruas Tsedakah, todos entendiam: “Faça justiça! Cumpra a Torá!” E esse grito incomodava qualquer judeu piedoso. A Torá não estava sendo cumprida, o que implicava estar fora do caminho pedido pro Deus. O judaísmo conclama os seus adeptos a fazer de não dar esmola. E fazer esmola (Tzedakah) é agir com justiça no que diz respeito a como cada judeu ganha, gasta e compartilha suas riquezas4. No pensamento judaico, esmola não tem um sentido religioso moral ligado ao fazer caridade. Esmola é um modo de ser, mais que oferecer ou dar. Tzedakah é mais que caridade, expressão de fé piedosa diante do sofrimento do outro. Viver de modo justo na relação com as pessoas é fazer Tzedakah. A esmola não pode ser em função da vanglória daquele dá esmola, mas deve um gesto de solidariedade e justiça. Fazer esmola, fazer justiça é melhor que dar esmola.

A comunidade de Mateus, ao relatar esses três modos de viver a justiça, quis deixar claro que no programa de vida proposto por Jesus estava incluída a mais genuína tradição da fé israleita, o Shemá, Israel.

2 – O Shemá em Mt 4,1 - 11: o mestre Jesus foi tentado no início do seu ministério e provou que estava preparado

Mt 4,1 - 11 relata as três tentações de Jesus. Jesus é levado para o deserto pelo Espírito para ser tentado pelo diabo. Por quarenta dias e quarenta noites esteve jejuando e depois teve fome. O diabo aparece em cena e lhe oferece pão, poder e riquezas. A comunidade de Mateus quis, com esse texto, mostrar como Jesus, passa por três tentações as vence. Ele foi provado e se mostrou preparado. Jesus ama a Deus de verdade, com todo o seu coração, seu ser e suas posses. A expressão “Está escrito”, que aparece várias vezes na narração, faz parte do método judaico de ler a Bíblia, chamado raciocínio por analogia, isto é, aproximação de passagens da Escritura que apresentam pontos comuns 5. Esse método tem como objetivo mostrar a unidade das Escrituras. Mateus conhece esse modo de raciocinar e o usa para convencer aos seus ouvintes que Jesus é o novo Adão, aquele que não se sucumbiu diante da tentação.

Jesus é o mestre. E na mentalidade judaica, o mestre deveria ser provado três vezes. Ademais, esse Mestre está unido à tradição do seu povo que esteve 40 anos no deserto. O deserto foi o lugar de sofrimento e provação. Daí a simbologia de: Jesus esteve durante quarenta dias e quarenta noites no deserto, o que, porém, não invalida o fato dele ter estado, de fato, no deserto. E nessa perspectiva, a releitura que o espírito sinagogal da comunidade de Mateus fez do fato parece claro. Vejamos:

Coração: primeira tentação, a fome de Jesus. Também o povo eleito, no deserto, teve fome. E Deus lhe enviou o maná (Dt. 8,3). A fome produz um sentimento de impotência. O desejo por alimento, a fome produz revolta consciente do povo no deserto. Jesus sabe que tem fome, mas prefere, com o uso da mesma razão que o levou para o deserto jejuar, a não aceitar a proposta do tentador. Já o povo, no deserto, clamou a Deus e pediu a volta para o Egito.

Alma: Segunda tentação, sede de poder. O diabo coloca Jesus à prova. Também, no deserto, em Massa e Meriba, o povo discutiu com Deus e o colocou à prova (Ex. 17,1 - 7). A dignidade de Jesus permanece firme. O seu ser não tem sede de vanglória. Ele, Deus mesmo, mesmo sabendo que seria tomado pelas mãos do Pai, não ousa testá-lo. O povo no deserto não compreendeu que Deus caminhava com eles. E eles desafiaram a Deus na pessoa de Moisés.

Força (posse): terceira tentação, a riqueza. O diabo promete a Jesus a riqueza dos reinos, caso Jesus o adorasse. O povo, no deserto, acabou cedendo a tentação do bezerro de ouro (Dt. 9,12). Moisés, depois de passar quarenta dias e quarenta noites sem beber e comer no Horeb, desce e vê o povo adorando um bezerro de ouro. Jesus, o mestre, não seguiu o caminho do povo infiel do deserto. Ele preferiu prestar culto somente a Deus que adorar as riquezas do mundo.

Jesus, o mestre está preparado: o jejum no deserto mostrou-lhe o caminho de Deus; ele não está preocupado com a vanglória; nem tampouco com riquezas. Jesus é o novo Adão que resistiu ao tentador. Jesus é o novo Moisés que passou pelo deserto e carregou sobre si a tentação do povo. Ele resistiu e, por isso, está preparado para reconduzir o seu povo à Terra da promissão.

3 – O Shemá em Mt. 26,20 - 25.47-50; 27,3 - 10: Judas não está preparado para o Reino

Judas é um dos personagens do Segundo Testamento de notória fama entre os cristãos. Ainda hoje, se pratica a queima do Judas. Infelizmente, essa tradição traz um quê de anti-semitismo. Queima-se o Judas com o intuito de queimar o povo judeu que não aceitou Jesus. Ainda bem que a atualização dessa tradição ganhou corpo na pessoa de muitos políticos corruptos de nosso tempo.

A comunidade de Mateus conservou três passagens significativas da vida de Judas para mostrar que ele não seguiu a máxima do Shemá,isto é, não viveu os ensinamentos da Torá. Os textos relatam que Judas come a páscoa com Jesus, depois o entrega, com um beijo, aos romanos e, por fim, devolve o dinheiro recebido pela traição. Aqui também os três níveis do Shemá parecem claro.

Coração: comer no mesmo prato. Judas sabe que irá trair Jesus. Ele já tinha decidido por isso, mas come com o Mestre, demonstrando-lhe um falso sentimento. Jesus conhece a sua pretensão e dá a conhecê-la. Qual Mestre/Pai/Mãe que não conhece o seu discípulo. Não é Deus quem escolhe Judas para trai-lo, Judas opta por agir desse modo. Judas não ama de verdade a Jesus. Ele usou a razão para trair o Mestre, por isso, os seus sentimentos só poderiam ser falsos. Ele mesmo se entrega com seus falsos atos.

Alma: o beijo no ‘Mestre’ propicia o derramamento de sangue inocente. Judas, quando avista Jesus, o beija e o chama de Rabi. Jesus responde, chamando-o de amigo. Esse modo de cumprimentar poderia passar desapercebido se não fosse o simbolismo que ele carrega. Chamar alguém de Rabi no judaísmo é o mesmo que dizer: meu mestre, meu amado. O mestre era tudo para o discípulo. O mestre conferia dignidade ao discípulo. Judas age ironicamente com aquele que lhe ensinou da vida em Deus. A resposta de Jesus não segue a lógica de Judas. Ele o chama de amigo. Em hebraico, a raiz dos substantivos amigo, pastor e amada são parecidas (re‘êh, ro‘êh e ra‘îh). Chamar alguém de amigo é dizer essas três coisas. Parece que Jesus estava querendo dizer a Judas: “não obstante você não me ama o suficiente, você continuaram sendo para mim amigo, pastor e amado”.

Força (posses): Trinta moedas de prata. É dramático o final da história de Judas. Ele procurou os chefes dos sacerdotes e anciãos para devolver o dinheiro recebido pela traição. Esses nem fizeram caso do sofrimento interior de Judas. Disseram: “Quem temos nós com isso? O problema é teu”. Judas, então, atirou as moedas no Templo e foi enforcar-se. As moedas serviram para comprar um terreno e nele fazer um cemitério para estrangeiros. Esse lugar recebeu o nome de “Campo do Sangue”. O exemplo de Judas mostra como o poder aquisitivo pode também ser usado para não amar. É esse parece ser o caminho de tantos “Judas” que existem em nossos dias.

O Shemá não vivido em plenitude na pessoa de Judas revela a ironia do destino de quem não segue a Torá: Ao entregar Jesus, ele entregou a si mesmo. Quem não segue a Torá encontrará o caminho da morte sem retorno à vida: a forca, o suicídio.

4 - O Shemá em Mt. 27,33 - 50: na paixão, fim do ministério do mestre Jesus, ele é tentado novamente. Sua morte foi o sinal evidente de seu amor por Deus

Na paixão, como no início do ministério, Jesus, o mestre, é tentado novamente. A comunidade de Mateus mostra como Jesus viveu a agonia da crucifixão. Já crucificado, num local chamado popularmente de “Lugar da Caveira”, Jesus está exposto aos transeuntes como qualquer bandido condenado à morte pelo Império romano. Ele sente sede e recebe vinho misturado com fel e vinagre. Despido de suas vestes, ele é crucificado. Os romanos usavam dois modos para matar os condenados: crucifixão ou empalação. O primeiro caso foi o que aconteceu com Jesus. Nu a pessoa era crucificada. O pano que normalmente vemos no corpo de Jesus é uma informação piedosa e posterior, acrescentada pelos evangelhos apócrifos, mas não de cunho histórico. O segundo caso, a empalação, consistia em sentar a pessoa nua em uma estaca de pau, de modo que a estaca pudesse atravessar o corpo do condenado e sair pela sua boca. Causando, assim, morte violenta e dolorosa. Qualquer que fosse o tipo da pena de morte, ela era cruel e humilhante. E o mestre Jesus passou por essa humilhação demonstrando que amava a Deus como o coração, alma e força (posses).

A narração da paixão em Mt. 27,33 - 50 não é tão clara em relação aos três pontos do Shemá, quanta Mt. 4,1 - 11. A comunidade de Mateus liga a tentação inicial com a final, com o intuito de mostrar que o Mestre vence novamente as tentações. Vejamos na passagem esse modo de proceder.

Coração: Terceira tentação: morte violenta na cruz e entrega total nas mãos de Deus. Na tentação do deserto, o povo teve fome e preferiu voltar ao Egito. Jesus, sofrendo injúrias, abatido sentimentalmente e, mesmo sabendo que Deus jamais aceitaria a sua morte em tal situação, ele, no uso de sua razão, renuncia a sua vontade própria. Ele vence a tentação de impedir a morte. Ele renuncia a sua vontade própria.

Alma: Primeira tentação: sede. No deserto, a sede do povo o levou a discutir com Deus em Massa e Meriba. Na cruz, Jesus não se revolta contra Deus. Essa seria a reação normal de um condenado. A atitude do povo do deserto, que também se viu ferido na sua dignidade, foi a revolta contra Deus que os tinha libertado do Egito. Jesus venceu a tentação da revolta, dando, ao contrário, provas de amor.

Força (posses): Segunda tentação: veste. Jesus é despido. As vestes de Jesus representam posse, poder e dignidade do condenado. E até mesmo essa “irrisória” posse, ele as perde. Com isso, Jesus perde o poder. Ele se vê violentamente crucificado. Não poderia ser esse o final trágico de quem tanto amou. Jesus preferiu aceitar o jugo do Reino. O que isso significa? Após o casamento, os noivos passam ser chamados de cônjuges, isto é, eles assumem carregar juntos o jugo, a canga do casamento. Quem consegue fazer isso com amor, poderá dizer que venceu a tarefa do amor inerente ao casamento. Para os judeus e Jesus, o jugo se chama Torá. Esse é o casamento que cada faz para seguir a Deus. “Meu jugo é leve”, já dizia Jesus durante a sua vida missionária. O que faz o jugo leve é o amor. Jesus sabia disso e, por isso, aceitou morrer por amor à Torá. Ele não rejeitou o seu jugo.

O Mestre que tanto amou, amou até o fim. E quer prova de amor maior que essa?

5 – O Shemá em Mt. 13,1 - 23: quem semeia bem produzirá frutos cem por um!

Quem já não ouviu a Parábola do Semeador e a sua explicação? Um semeador saiu a semear. As sementes caíram em três lugares diferentes: à beira do caminho, em solo pedregoso e entre espinhos. O quarto lugar, a terra boa, é colocado em contraste com os outros três lugares. O recurso literário é 3 + 1. O simples fato de enumerar três coisas já nos remete ao Shemá. O ouvinte, certamente, terá compreendido que Jesus pedia o cumprimento da Torá expresso pelo Shemá. A comunidade de Mateus era formada por pessoas que ao ouvir a Palavra a acolhiam, mas também pelos que a rejeitavam. As dimensões do Shemá aparecem no texto do seguinte modo:

Coração: aqueles que estão à beira do caminho. Quem é superficial não coloca paixão naquilo que faz. A semente semeada será comida pelos pássaros. Que está à beira do caminho ouve a Palavra e não a entende, vem o Maligno e arrebata o que foi semeado no seu coração (v. 19).

Alma: aqueles semeiam entre pedregulhos. O amor à Palavra pode exigir até o martírio. Quem tem medo da perseguição não está preparado. Morrer por causa do Reino é conferir dignidade à Palavra semeada. Quem não tem profundidade no seu modo de ser, ouve a Palavra, mas diante da perseguição, logo sucumbe (v. 21).

Força (Posses): aqueles que semeiam entre espinhos. Semear entre espinhos significar ter apego aos bens materiais. Quem assim age é sufocado pelo dinheiro. E a Palavra ouvida deixa de dar frutos de vida e esperança. A sedução da riqueza sufoca a Palavra e ela se torna infrutífera (v. 22).

Todos ouvem a Palavra, mas nem todos dão fruto em plenitude. Quem produz cem por um ama a Deus de coração, alma e força. Quem produz sessenta por ama a Deus de com o coração e forças, mas não é capaz sacrificar a sua alma pelo reino. Quem produz trinta por um ama a Deus somente com o coração. Por outro lado, amar a Deus é amá-lo com minha limitação, naquilo que me é possível. Nisso também está o desafio.

6 - O Shemá em Mt. 19,16 - 22: faltou pouco ao jovem rico

Esse clássico texto narra o encontro de Jesus com um jovem rico e bom, que procurava viver o Shemá de modo profundo. O jovem chama Jesus de Mestre e pergunta pelas atitudes boas que ele deve tomar para, assim, obter a vida eterna. O jovem sabia que a sua vida era já uma tentativa de ser bom, mas quis saber do Mestre o que lhe faltava para encontrar a plenitude. Jesus lhe responde dizendo que Bom é Um só. Nisso está o Shemá quando afirma ser Deus Um. A resposta de Jesus é simples: “Guarda os mandamentos”. Isso o jovem já fazia. E Jesus acrescenta: “Isso não basta, agora vai e vendes os teus bens e dá aos pobres. Depois, vem e segue-me”. Mas isso o jovem não foi capaz. É o quem mostra a passagem, lida na perspectiva do Shemá.

Coração: mandamentos relacionados a Deus. O jovem rico não adorava outros deuses; não fazia imagem de Deus; não pronunciava o nome de Deus em vão; guardava o dia de sábado.

Alma: mandamentos relacionados ao próximo. O jovem rico honrava, cuidava de seus pais idosos; não matava o próximo; não cometia adultério; não roubava; não apresentava falso testemunho contra o seu irmão; não cobiçava as coisas do seu próximo.

Força (Posses): vender os bens e dar o arrecadado aos pobres. Esse foi o grande problema para o jovem rico. Ele não foi capaz de viver plenamente o Shemá. Jesus sabia que esse mandamento da fé israelita é muito difícil de ser cumprido. São poucos que conseguem viver essa dimensão da justiça eqüitativa. A passagem seguinte mostra que o discurso de Jesus sobre as riquezas. “E mais fácil um camelo entrar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus” diz Jesus depois que o jovem partiu entristecido.

O episódio do encontro de Jesus com o jovem rico conclui com a constatação corriqueira: amar com o coração e alma é um caminho mais fácil. Amar com as posses é muito difícil para um rico. E daí a conclusão: “É mais fácil um camelo passar no fundo de uma agulha, que um rico entrar no reino dos Céus” (Mt 19,24).

7 - O Shemá em Jo 3,1 - 21; 7,40 - 52; 19,38 - 42: Nicodemos aprendeu a viver segundo o Shemá

O bom fariseu e intérprete popular da Torá, Nicodemos, aparece três vezes no evangelho de João. O conjunto dos três textos mostra, num crescendo, que Nicodemos procura viver o Shemá nas suas três dimensões.

Coração: Diálogo de Nicodemos com Jesus. É o que nos relata Jo 3,1 - 21. Nicodemos reconhece Jesus como Mestre. A respeito de Jesus, Nicodemos afirmou: “Rabi, sabemos que vens da parte de Deus como um Mestre, pois ninguém pode fazer sinais que fazes, se Deus não estiver com ele” (v. 2). Nicodemos, pelo uso da razão, sabe o que está afirmando. Ele tem sentimentos de pertença a Jesus. No entanto, ele ainda tem medo de declarar publicamente que ama a Deus com o seu coração. Nicodemos procura por à noite. Noite simboliza a sua imperfeição e seu medo de se expor. E Jesus lhe mostra o caminho: “É preciso nascer de novo, Nicodemos”. Com certeza, Nicodemos saiu pensativo desse encontro com Jesus. Foi preciso o uso da razão (coração) para compreender o sentido das sábias palavras do Mestre.

Alma: Defesa de Jesus por Nicodemos diante dos chefes dos fariseus e sacerdotes. O contexto de Jo 7, 40 - 52 é a discussão travada entre o povo e os seus doutos: fariseus e sacerdotes. Era plena luz do dia. O texto anterior falava de noite. Alguns do povo reconheciam Jesus como profeta. Os fariseus e sacerdotes não aceitam a opinião do povo. Um seguidor da Torá não podia pensar assim. Criou-se uma confusão em torno ao fato. Uns queriam prendê-lo. Eis que Nicodemos sai em defesa de Jesus, afirmando que não pode prender ninguém sem antes ouvi-lo. Nicodemos, o Mestre da Torá, é acusado e aconselhado a estudar a Torá. Que ironia. Essa atitude de Nicodemos foi audaciosa, ele arriscou a sua vida, a sua posição no sinédrio. Nicodemos mostrou que amava Jesus com a sua alma. Ele defendeu a dignidade de Jesus. Jesus foi salvo pelo seu gesto.

Força (Posses): Mirra e aloés levados por Nicodemos ao túmulo de Jesus. Jo 19,38 - 42 narra como Nicodemos usa de suas posses para comprar cem gramas de mistura de mirra e aloés para colocar no corpo de Jesus. Essa quantidade de aromas custava muito dinheiro e era usada somente em funerais de um rei. Para Nicodemos, não importa o valor dos aromas. Com o Mestre ele havia aprendido a lição do amor com as posses. Nicodemos, que agora é chamado de discípulo de Jesus, mostra todo o seu amor pelo Mestre, com quem ele tanto aprendeu.

No seu itinerário espiritual, Nicodemos é parecido com tantos que lutam durante suas vidas para amar a Deus com todo o coração, alma e posses.

8 – O Shemá em At 2,42 – 47: as primeiras comunidades cristãs viviam segundo o Shemá

Os primeiros cristãos procuraram colocar-se no caminho do Shemá ensinado pelo Mestre Jesus. É o que nos mostra o livro dos Atos dos Apóstolos. A comunidade de Jerusalém foi quem por primeiro estabeleceu as linhas de seguimento da Torá. At. 2,42 - 47 é o testemunho vivo dos cristãos e cristãs da primeira hora, os quais entenderam Jesus a partir da fé judaica no Shemá. Não é muito difícil perceber o coração, a alma e a força (posses) nessa passagem.

Coração: Oração comunitária no Templo e ensinamentos dos apóstolos. Os primeiros cristãos eram assíduos às orações. Liturgia, segundo o pensamento judaico, consiste no “serviço do coração”. Os apóstolos e apóstolas ensinavam e as comunidades permaneciam nos seus ensinamentos, o que não nos impede de considerar que entre as lideranças havia discórdias, brigas pelo poder de condução ideológica da comunidade. Por outro lado, simplicidade de coração fazia parte do proceder dos membros da comunidade de Jerusalém.

Alma: Ter tudo em comum, dividir os bens com os necessitados. O modo de ser dos primeiros cristãos não excluía ninguém. Todos se sentiam irmãos. Não havia necessitados entre eles. Partiam o pão e tomavam o alimento com alegria. Eles eram pessoas simpáticas ao povo. A dignidade de cada um deles conferia também dignidade aos outros.

Força (Posses): Vender as propriedades. O colocar as posses a serviço dos necessitados, com certeza, ajudou a resolver o problema econômico de muitos cristãos pobres daquela época. E nisso consistia a fé judaica que eles tinham aprendido dos pais e mães da fé.

A comunidade de Jerusalém, modelo de vida cristã segundo o Shemá, continua viva em nossos dias quando nos esforçamos para eliminar toda e qualquer situação de injustiça. Desse modo, o Deus que se revelou no Primeiro Testamento renasce em nós e nos impulsiona no caminho da fraternidade, da dignidade e da partilha.

9 – O Shemá em Lc. 10,30 - 37: o samaritano é bom porque seguiu os preceitos do Shemá

Assim como na Parábola do Semeador, o recurso literário 3 + 1 reaparece para falar do Shemá. São três personagens, o levita, o sacerdote e o samaritano, os quais agem em relação a um homem que fora vitima dos assaltantes e jazia espancado e machucado no caminho entre Jerusalém e Jericó. Cada uma dessas cidades e seus personagens têm um significado todo especial nesse relato que, aos nossos olhos, pode parecer uma ingênua historia. A Torá, venerada em Jerusalém pelo sacerdote e o levita no Templo de Jerusalém, não foi percebida no homem caído no caminho. Jericó era uma cidade de levitas. Os levitas receberam Jericó de Josué, quando a terra prometida foi ocupada e repartida entre os filhos de Jacó. Os levitas eram descendentes da tribo de Levi. Os levitas eram servidores no Templo de Jerusalém e catequistas ambulantes da Torá. O substantivo hebraico Levi quer dizer “meu coração”. E recordemos que liturgia no pensamento judaico é “serviço do coração”. Os samaritanos não eram bem vistos pelos judeus. Eram consideravam judeus de segunda categoria. Os samaritanos eram frutos da mistura das raças que os persas colocaram na Samaria, quando a tomaram em 722 a.E.C. Essas informações nos ajudam a compreender o Shemá nessa parábola conservada para nós pela comunidade de Lucas.

Coração: Compaixão do samaritano. Ao encontrar o necessitado caído pela estrada, o samaritano sente-se comovido diante dele. Os seguidores da Torá, o levita e o sacerdote, voltando do culto em Jerusalém, isto é, do “serviço do coração”, não foram capazes de cumprir a Torá, na voz do pobre que dizia: “Cumpra a Torá!” “Faça justiça!” Quando o judeu via um pobre nas ruas vinha automaticamente na sua cabeça a Torá e seu não cumprimento. Esse homem caído era qual um pobre, pois fora vítima de um assalto. Havia perdido tudo e jazia semimorto à beira da estrada. O levita e o sacerdote não amavam a Deus com o coração, embora quisessem demonstrar isso no serviço religioso de Jerusalém.

Alma: Assistência prestada pelo samaritano. Diz o texto que o samaritano “aproximou-se, cuidou de suas chagas, derramando óleo e vinho, depois o colocou em seu próprio animal, conduziu-o à hospedaria e dispensou-lhe cuidados” (v. 34). O gesto de acolhimento do samaritano conferiu dignidade ao “pobre” do caminho entre Jerusalém e Jericó. O samaritano compreendeu que estava diante do seu próximo. O sacerdote e levita, talvez tivessem pensado: “Esse está morto e não vou me contaminar com um morto”. Quem tocava um morto ficava impuro, segundo o pensamento judaico. Levita e sacerdote jamais podiam ficar impuros. Eles eram homens do altar. Para fazer valer o preceito, não importava nem mesmo próximo necessitado.

Força (Posses): Dinheiro usado pelo levita para pagar os cuidados recebidos pelo homem. Essa atitude do samaritano está assim relatada: “No dia seguinte, tirou dois denários e deu-os ao hospedeiro, dizendo: Cuida dele, e o que gastares a mais, em meu regresso te pagarei” (v. 35). O samaritano usou as suas posses para salvar a vida do homem que caiu nas mãos dos assaltantes. A sua misericórdia foi humana e material.

A parábola do bom samaritano foi contada por Jesus para mostrar que a misericórdia é o maior mandamento dado por Deus. Quem vive o Shemá sabe disso. Basta repetir o gesto do samaritano para também nos tornamos bons, assim como Deus é bom.

CONCLUSÃO

Os evangelhos releram o Shemá como itinerário espiritual para as comunidades cristãs. Nicodemos tem medo, a comunidade tem medo. Nicodemos arrisca o seu prestígio de mestre fariseu, a comunidade se arrisca diante do novo. Judas traiu o Mestre da Torá. Judas somos nós. O jovem rico quase chegou lá. Riquezas, sempre riquezas. Coisa boa e querida por Deus, desde que seja fruto da justiça e partilhada. Jesus, judeu plenamente. Plenamente viveu o Shemá. Foi tentado e resistiu. Mas também ele é o Mestre, o Amado, o Bom, o UM. Com ele fica o desafio de aprender a semear em terra boa. Quem sabe um dia também nós produziremos 100 por 1.

A comunidades fizeram a experiência de procurar viver o Shemá com profundidade. Com certeza essa não foi uma empresa fácil. Assim é vida: sempre um caminho a percorrer em da busca da dignidade perdida, com amor no coração e esforço sempre necessário para aprender a partilhar os bens materiais, o que exige uso pleno da razão. Nesse peregrinar, muitos caem ou são caídos no caminho entre o ocidente cristão e o oriente judeu e islâmico. Só Deus permanece Eterno, Bom, Um... Muitos morrem sem conseguir essa façanha de amar a Deus/Próximo com todo o seu coração, a sua alma e as suas posses. O importante, porém, é cada um procure manter-se na dinâmica do ouvir (shemá) para bem interpretar (shemá) e amar segundo suas possibilidades, suas limitações. O caminho da fé está sempre a nós incomodar com o grito: “Escuta, ó judeus, ó cristãos, o Senhor nosso Deus, o Senhor é Um”.

frei Jacir de Freitas Faria

1 Jacir de Freitas Faria é frade e padre franciscano.

2 Cf. Frédéric Manns, Israël de Dieu, Essais sur lê christianisme primit, Jerusalém: Franciscan Printing Press, 1996, p. 24-32. A nossa reflexão deve muito às intuições de Frédéric Manns.

3 Cf. Meir Matzliah Melamed, A lei de Moisés: tradução de comentários, Rio de Janeiro: Gráfica Danúbio, 1980.

4 Cf. Rami Shapiro, “Simplesmente Judaísmo. Ser judeu no século XXI?”, PARDES , n. 1, p.15, 2001.

5 Jacir de Freitas Faria, “Judaísmo e cristianismo: dois caminhos, duas culturas afins”, ESTUDOS BÍBLICOS, n. 61, p. 54, Vozes: Petrópolis, 1999