O sábado foi estabelecido por causa do homem,

e não o homem por causa do sábado

Idolatria, ritualismo e outros erros semelhantes são deturpações onde "tomou-se a forma e esqueceu-se a função". O caso clássico deste problema de não agrupar bem o binômio "forma-função" é o que ocorreu com a serpente de bronze na história de Israel. Em Nm. 21,4 - 9 vemo-la sendo levantada por Moisés, sob orientação divina, para curar os que tinham fé obediente entre os israelitas. A forma da serpente tinha a função de despertar e evidenciar a fé do povo. Quem tinha fé, olhava para a serpente e a mordedura das cobras não lhes faria mal. Os incrédulos e desobedientes, ao serem mordidos pelas mesmas serpentes, não obedeceriam a ordem de fé e morreriam em grande desespero.

A história da serpente de bronze, contudo, não terminou ali. Em 2Rs. 18,4 somos informados que o rei Ezequias destruiu esta mesma serpente. O motivo da destruição foi o fato dos israelitas adorarem essa imagem de bronze, como um ídolo, um talismã ou um deus. Eles tomaram a mesma forma, de fato o mesmo objeto que Moisés tinha feito, mas mudaram completamente a sua função. O provérbio de Jesus que vamos estudar observa o mesmo problema, em outra situação, e ensina como solucioná-lo.

FORMA CERTA E FUNÇÃO ERRADA

O judaísmo do tempo de Jesus estava cheio de usos errados das formas-funções estabelecidas no Velho Testamento. Um exemplo disto pode ser visto no início do Sermão da montanha (Mt. 5) ou no discurso contra os líderes religiosos (Mt. 23).

O modo como a tradição judaica encarava o sábado também era um exemplo desta distorção das formas e funções vetero-testamentárias. O sábado deveria servir para descanso e meditação, mas acabou sendo transformado em um pesadelo de regulamentos e listas "pode e não-pode".

Jesus corrigiu este problema ensinando: "O sábado foi estabelecido por causa do homem, e não o homem por causa do sábado" (Mc. 2,27). Este aforismo acaba com os conceitos errados sobre a função do sábado.

Como era o costume de Jesus ao ensinar, ele volta à raiz da instituição para poder compreendê-la melhor. O Senhor faz referência à criação e pede que observemos a intenção do Criador ao estabelecer, posteriormente, a instituição do repouso sabático.

Este provérbio foi construído num claro caso de paralelismo antitético, onde as frases têm idéias que se contrapõem. Nos provérbios construídos em paralelismo antitético, geralmente a última frase da parelha recebe maior ênfase, mas este não é o caso aqui. Este provérbio é uma exceção à regra geral (ver Introdução), pois enfatiza mais a idéia: "o sábado foi feito por causa do homem". Esta quebra da regra geral também se explica pelo desejo de Jesus de enfatizar uma frase anexa ao provérbio onde ele disse: "de sorte que o Filho do Homem é senhor também do sábado" (Mc. 2,28). Assim o provérbio tem ênfase na primeira frase do par antitético e também na frase anexa ao final.

O provérbio está em forma quiástica:

A "O sábado foi estabelecido

B por causa do homem,

B' e não o homem

A' por causa do sábado;

C de sorte que o Filho do homem

C' é senhor também do sábado" (Mc. 2,27)

A RAZÃO DA PERSEGUIÇÃO

Mc. 2,1 - 3.6 marca, neste evangelho, o início dos conflitos de Jesus com os líderes religiosos dos judeus que geraram conspirações (Mc. 3,6) que vão persistir (Mc. 12,13) e culminar na morte de Jesus (Mc. 14.1).

Esta oposição "mortal" nasceu no coração dos religiosos contemporâneos de Jesus pelo fato dele não concordar com a interpretação "oficial" da Lei, ou seja, Jesus discordava da Tradição Oral dos mestres judaicos em vários aspectos. Uma das questões sobre o sábado (Mc. 2,23 - 28), onde ocorre o provérbio que estamos estudando encontra-se exatamente dentro desta seção do evangelho.

INTERPRETAÇÃO OFICIAL CONTRA INTERPRETAÇÃO ORIGINAL

O que Jesus e os discípulos estavam fazendo em Mc. 2,23 seria perfeitamente lícito aos olhos dos fariseus se não fosse realizado no sábado (Deuteronômio 23,25). A Tradição oral determinava minuciosamente o que podia e não podia ser feito aos sábados. Havia até uma lista de 39 verbos (trabalhos) que não podiam ser feitos naquele dia. Quatro destes verbos (colher, debulhar, limpar e preparar) eram descrições do que os discípulos estava fazendo ao comer.

Jesus combateu a tradição judaica muitas vezes, especialmente as tradições com respeito ao sétimo dia. Há uma grande quantidade de situações onde Jesus entrou em choque com os judeus nesta questão (Mc. 3,1 - 6; Lc. 13,10 - 17; 14,1 - 6; Jo. 5,1 - 9,16 - 17; 7,22; 9,1 - 14). A seita dos chamados essênios, por exemplo, proibia claramente que um homem tirasse de uma cisterna ou fosso um animal que ali tivesse caído (Documento de Damasco, 11.13 - 14). Jesus, e até mesmo a maioria dos judeus, achava isto um absurdo (Mt. 12.11; Lc. 14,5, também 13,15)

O Mestre citou o exemplo de Davi em 1 Sm. 21.1-6 para chamar atenção dos seus opositores ao fato que nem tudo pode ser resumido ou explicado pela tradição rabínica. Davi comeu os pães da proposição (Lv. 24,5 - 9) numa situação de perigo de vida e não foi punido por isto. De fato, este evento ocorreu num sábado, dia no qual os pães eram retirados do tabernáculo, substituídos por outros e disponibilizados aos sacerdotes para seu alimento. Tal fato não prova que os pães da proposição podiam ser comidos por qualquer um; pelo contrário, a exceção prova a regra. Quebrar a lei de Deus quando houver necessidade não é o que Jesus ensina aqui. O que fica provado é que o modo rígido e legalista dos fariseus de interpretar a Lei não explicava tudo (Mc. 2,25 - 26).

De fato, Davi só comeu os pães da proposição impunemente por ter Deus concedido a ele esta prerrogativa naquele momento. De uma forma similar, Jesus tem prerrogativas e autoridade superiores às da Tradição e da própria Lei judaica. Jesus está dizendo: "Se Davi teve autorização para quebrar o protocolo, muito mais o Senhor de Davi pode fazê-lo".

Mateus ainda menciona o caso dos sacerdotes judaicos que trabalham no templo em pleno sábado (Mt. 12,5 - 7). Se o serviço no templo exige a suspensão da lei do sábado para alguns, a obra de Jesus exige a suspensão da mesma lei, pois Jesus é maior que o templo (Mt. 12,6). Se o templo era maior que o sábado e se Jesus era maior que o templo, certamente era maior que o sábado, um dos grandes preceitos da Lei.

Em tudo isto pode-se notar também que há prioridades dentro das prescrições da Lei, e que há momentos em que um princípio maior supera outras regras menores. A citação de Os. 6,6 aponta nesta direção. O ritual não é maior que a fidelidade; a palavra do Cristo era maior que o ritual do sábado.

A RAZÃO DA INSTITUIÇÃO DO SÁBADO

O provérbio "O sábado foi estabelecido (feito) por causa do homem, e não o homem por causa do sábado" é peculiar a Marcos, não sendo retomada por Mateus e Lucas. É difícil saber o motivo da omissão da frase nestes dois evangelhos. O interesse pode ser simplesmente o de resumir Marcos, gerando espaço para introduzir outros materiais. Este é o costume de Mateus e Lucas. Outro motivo seria o de eliminar qualquer ambigüidade ou mau uso da frase nas comunidades receptoras das obras, embora seja muito questionável e difícil imaginar quais seriam estes maus usos do provérbio.

Mateus e Lucas, ao omitirem o provérbio que estamos estudando, colocaram toda a ênfase do episódio na frase: "O Filho do Homem é senhor do sábado" (Mt. 12,8 e Lc. 6,5). Lucas, inclusive, por não mencionar (como faz Mateus) a questão do serviço do templo, faz com que o leitor seja claramente induzido a entender a comparação que Jesus fez de si mesmo com Davi. Observe que Jesus, como Davi, era o ungido de Deus, que agia sob orientação divina e por causa disto tinha grande autoridade.

"O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado" é uma clara alusão à criação. Jesus usa o verbo na chamada voz passiva ("foi feito") para designar a ação de Deus. Deus criou o homem no sexto dia e estabeleceu o sétimo como dia de repouso.

A própria ordem da criação indica que o homem era o alvo do benefício do repouso sabático. Contudo, o modo rabínico de interpretar o Velho Pacto afastava o mandamento das intenções originais de Deus. O sábado, que era para ser um dom, um presente e um dia de refrigério, acabou sendo um dia de castigo, de opressão e de tensão devido à grande carga de mandamentos associados com ele e dos inúmeros preceitos reguladores. Esqueceram a função do sábado e ficaram apenas com a sua forma externa.

Este método de recorrer às origens e à criação para resolver questões é característico de Jesus. Na questão do divórcio, narrada em Mc. 10,2 - 12, enquanto todos buscavam alguma "interpretação" que permitisse o divórcio, Jesus buscava a intenção original do Criador na instituição do primeiro casal (Mc. 12,6 - 9).

O SENHOR DO SÁBADO

Jesus arremata a questão dizendo: "De sorte que o Filho do Homem é senhor também do sábado" (Mc. 2,28). No evangelho de Marcos esta frase aparece como conclusão do texto, mas apresenta uma verdade que é anterior à argumentação. De fato, o ensino que Jesus é o Senhor do sábado e de tudo mais permite que ele diga como que o mandamento do sábado deve ser obedecido. A razão para aceitar o ensino de Jesus é o fato dele ser o Filho do Homem. Seu ensino não tem validade apenas por sua lógica ou por sua veracidade, mas sobretudo por causa de sua autoridade. O modo de Jesus interpretar a questão é importante, pois a norma é ele mesmo. A era messiânica já havia começado, e o conhecimento de quem era o Messias traria compreensão para saber cumprir a vontade de Deus.

APLICAÇÃO

Quatro lições para serem lembradas e desenvolvidas são:

1. Aprenda com Jesus a interpretar a Palavra de Deus

O método de Jesus para interpretar a Bíblia é exemplo para nós. Jesus buscava compreender a "intenção original do criador" ao ensinar um mandamento. O Sermão da Montanha está saturado de exemplos deste tipo de interpretação. "Não adulterarás ", no entender de Jesus, é uma recomendação à pureza de mente e não apenas a proibição do ato ilícito (Mt. 5,27 - 28). Jesus está expondo as intenções de Deus e não apenas a "letra" do mandamento. O caso de Mc. 10,2 - 12 é do mesmo tipo. A lição para nós é clara e aplicável a muitas situações: é necessário cumprir não somente a forma exterior do mandamento, mas também entender, respeitar e cumprir as intenções divinas por trás daquela ordem. Procedendo assim, não iremos manter uma forma com a função errada.

2. O sábado hoje

Na Nova Aliança não temos de guardar o sábado (Cl. 2,16; Gl. 4,10 - 11). Nove dos dez mandamentos estão repetidos na Nova Aliança como mandamentos para a igreja: o mandamento do sábado é a exceção. Ele foi abolido com a lei do Velho Testamento (Hb. 8,6 - 13). Também não temos de guardar o domingo. Temos de nos reunir no domingo para participar da ceia do Senhor, ofertar a Deus e ter comunhão com os irmãos (At. 20,7; 1 Cr. 16,2; Ap. 1,10), mas isso não implica em guardar esse dia como dia de repouso. O sábado foi uma lei somente para os judeus (Êx. 20,2; Deuteronômio 5,1 - 3). O sábado que aguardamos é o céu (Hb. 4,9 - 11).

3. A bondade de Deus

O provérbio "o sábado foi estabelecido por causa do homem, e não o homem por causa do sábado"

não deve ser usado para exigir obediência ao descanso do sábado; muito pelo contrário, ele só determina a intenção original do estabelecimento do mandamento e a forma como devia ser praticado. Não fala nada a respeito de sua validade para hoje ou não. Ensina, contudo, que mais importante que o sábado em si mesmo é a bondade de Deus em estabelecer este mandamento. Deus é tão bom que providenciou um momento do homem descansar e contemplar o Criador. Jesus é o Senhor do sábado e de tudo mais: foi ele que alterou este manda-mento, convidando-nos agora para o descanso celestial.

 4. Jesus é o Senhor

Esta é a confissão de fé fundamental da igreja de Deus (1Coríntios 12.3; Romanos 10.9-10). Seu senhorio é exercido sobre todo o domínio das coisas espirituais. Ele tem toda autoridade (Mateus 28.18) e direciona a compreensão das Escrituras conforme sua determinação. Jesus governa sobre todas as coisas do Pai.

Álvaro César Pestana