Raízes Afro-Asiáticas nas genealogias bíblicas (1)

Nos meus anos de pesquisa, tenho constatado a carência de trabalhos na América Latina sobre as origens afro-asiáticas da Bíblia. Isto é, sobre as relações existentes entre povos asiáticos e africanos no mundo antigo. Durante muitos anos de pesquisa bíblica, não se estudou a participação dos povos africanos na história do povo de Deus. Até parece que somente chegamos a nos introduzir na tradição bíblica judaico-cristã a partir do período da escravidão e colonização européia. Este artigo quer, em alguma medida, corrigir este erro historiográfico sério. Quer também chegar até as comunidades negras cristãs que acreditam que é possível resgatar a nossa identidade reconstruindo a nossa memória histórica.

Este material quer ser um subsídio de trabalho para as comunidades, queremos integrar a antiga discussão entre o acadêmico e popular. E demonstrar em nossas linhas que é possível fazer ambas discussões sem uma excluir a outra.

O jardim do Éden fica na África?

Alguém de vocês já se fez essa pergunta? A primeira vez que eu me perguntei pelo paraíso, nunca imaginava que poderia ser na África, terra dos meus ancestrais. Mas como poderia, se até então só tinha aprendido que a África podia ser o lugar do purgatório, da morada do diabo, do inferno, mas nunca seria o jardim do Éden, o lugar onde os nossos primeiros pais Eva e Adão viviam em harmonia. Deus poderia, com sua infinita misericórdia, até nos aceitar depois de muitos rogos e penitências, mas nunca escolheria a África como sua morada. Se deus era branco, no meu imaginário, era lógico que ele não escolheria a terra dos negros para estabelecer seu paraíso. Somente hoje, depois de muitos anos de estudo, estou convencida de que a tradição bíblica tinha raízes profundas na África, por isso a nossa pergunta não é absurda. No imaginário religioso e geográfico dos israelitas, terras da África ocupavam um lugar privilegiado. Porém é absurdo nos perguntarmos hoje, depois de mais de dois milênios de história, porque até hoje se nos foi negada a nossa participação na tradição bíblica?

A geografia do paraíso de Gn. 2.10-14, datada antes de 950 a.C (3), fala da mais antiga menção de Cuch ou Etiópia na Bíblia. Para os antigos israelitas, a África fazia parte do Jardim do Éden, sendo um dos extremos limítrofes. Vejamos:

“E um rio saía do Éden para regar o jardim, e daí se dividia, e tinha quatro braços. O nome de um era Pison; ele percorre toda a terra de Havilah, que ali há ouro e o ouro daquela terra é bom, ali há resina e pedra de ônix. E o nome do segundo rio é Gihon; ele é que rodeia toda a terra de Cush. E o nome do terceiro rio é Hidekel, ele é o que corre pelo oriente da Ashur, e o quarto rio é o Perut” (Gn. 2.10-14).

Os dois primeiros braços circundam países da Arábia e África, enquanto que os dois últimos correm em direção à Assíria e à Mesopotâmia. As perguntas que lançamos aqui são as seguintes: quais são as relações existentes entre a Arábia e Cuch? Por que estes países estão no início da lista? Será pela importância que tinha para a cultura israelita da época? Se os israelitas deste período entendiam a África como parte do Éden, por que estes territórios foram omitidos na maioria das histórias e teologias bíblicas?

A terra fértil que rodeia o rio Pison segundo Gn. 2.11, é conhecida pelo ouro, resina e pedra de ônix; todos estes produtos provêm de Havilah, no Sul da Arábia. A árvore de bdélio que dá a resina cresce particularmente na Arábia; também a pedra de ônix foi encontrada em vários lugares do Iêmen. É provável que este ouro de excelente qualidade provenha das minas de ’Ašam.

Hávilah, é conhecido especialmente pelas fragrâncias das resinas e incensos. Encontramos referências a esta terra também em Gn. 25.18. Este texto nos informa que a descendência de Ismael, filho da escrava egípcia Agar, teria habitado “Hávilah até Shur, que está do lado leste do Egito, na direção da Assíria”. Mas o que tem a ver esta terra árabe com a região africana de Cuch?

De acordo com Gn. 2.13, Cuch é o segundo braço a ser mencionado, e se localiza na região sul. A África faz parte do jardim do Éden. Contudo, na história da investigação deste texto, há a tendência de tirar Cuch do continente africano. Inclusive há uma corrente de pesquisadores que considera impensável que a África seja parte da demarcação do mundo feita pelos antigos israelitas. Alguns autores sustentaram a hipótese de que o rio Pison seria o rio Tigre da Mesopotâmia, porém não há nenhum rio da Mesopotâmia com esse nome. Também foi sugerido o rio mais importante de Jerusalém e da Judéia, o Jordão. Mas considero estas hipóteses pouco sustentáveis.

A identificação com o rio Nilo é feita a partir da informação fornecida pelo mesmo texto de que a terra que rodeia o rio Gihon é Cuch. Encontramos outras referências a este rio em 1Rs. 1.33, 38,45; 2Cr. 32.30; 33.14. A partir destas referências podemos dizer que, no Antigo Testamento, os cuchitas estavam organizados em dois grupos. O primeiro está situado ao sul do Egito; e o segundo cruza o Mar Vermelho, incluindo a Península da Arábia, estendendo-se até a Mesopotâmia (Tigre e Eufrates) (4).

A partir disso há fortes indícios que me levam a afirmar que a Arábia seja território cuchita (e esta hipótese já foi defendida por mim na minha tese doutoral), e que os países africanos influenciaram a cultura semítica ocidental, tese já sustentada por vários pesquisadores africanos e norte-americanos, como Martin Bernal. Como vimos, os textos bíblicos desde muito cedo estabeleceram essa ponte entre a África e a cultura ocidental, porém, como já falávamos, essa história nos foi negada.

Diante deste quadro, percebo que as minhas percepções negativas com ralação ao continente africano não eram infundadas, pois a tradição bíblico-teológica cristã na qual me inscrevo fez de tudo para me fazer acreditar que da África não podia sair nada de bom. E essa experiência não é somente minha, ela se estende às muitas comunidades negras latino-americanas que tenho tido o privilegio de acompanhar. Perceber que estávamos lá no jardim do Éden desde o princípio, é uma descoberta fascinante para as comunidades negras. Chegam neste momento à minha memória os olhos brilhantes e saltitantes de tia Eufrásia, Seu Dito, Julio, Ivelin e Betty, entre outras tantas pessoas da comunidade negra que se emocionam com estas descobertas. Entendemos isto como um caminho importante para a recuperação da nossa herança bíblico-teológica.

Os nossos ancestrais estavam na Bíblia?

Esta segunda pergunta também parece absurda para aquelas e aqueles que nós chamamos de cristãos. Absurda pelo fato de sermos herdeiras e herdeiros de uma tradição com um discurso universalista de inclusão de todos os povos e culturas que se assumem como cristãos. O Deus que conhecemos não exclui ninguém, contudo, esse discurso universalista escondeu, durante muitos séculos, a nossa participação na cultura bíblica. Para a maioria dos cristãos, é absurdo pensar que na Bíblia temos a presença de africanos, ou melhor dizendo, de pessoas negras ou “pretas”, como usualmente nos chamam. Muitos pesquisadores chegam até admitir que o Antigo Médio Oriente foi habitado por “morenos”, “mulatos”, meio “negrinhos”, porém nunca negros, e menos ainda “pretos”. Então de onde saíram essas tonalidades? Se para os israelitas não era absurdo que de um só pai como Noé saíssem filhos tão diferentes, por que isso é tão impensável para os eruditos da Bíblia?

A Bíblia nos ensina que o povoamento do mundo se deu a partir da genealogia de Noé, que está registrada no texto de Gn 10. Estes textos são a maior ponte de identificação entre a África Antiga e o Antigo Israel. O patriarca Noé concebeu três filhos: Sem, Cam e Jafté. Os descendentes de Cam são: Cuch, Mizraim, Put e Canaã (Gn. 10.6).  Dos quatro filhos de Cam, três se instalaram na África e um na Ásia. Mizraim se instalou no norte da África. Mizraim se tornou o nome hebreu para designar o Egito. Cuch habitou o sul do Egito, Put, o terceiro filho de Cuch, é situado na Somália; estes povos desceram ao sul do continente, constituindo a nação dos povos Bantu. E Canaã corresponde à terra dos israelitas.

A primeira coisa que se tem que ter em conta ao estudar Gn. 10 é que este capítulo é produto literário de duas tradições ou fontes literárias distintas, a Javista Gn 10.8-19,24-30 (usualmente datada na metade do século 10 a.C.) e a Sacerdotal Gn 10.1-7;20-23 e 31-33 (usualmente datada do século 5 a.C.) Estes escritos têm intencionalidades diferentes.

De acordo com a fonte Javista, o Egito (Gn 10.13-14) teria influência sobre os territórios europeus (5) . Cuch (Gn. 10.8-12), por sua vez, teria influência na Arábia e na Mesopotâmia, pois Cuch, é listado como tendo relação com Betel, Accad e Nínive (6). A formula “X gerou Y” é característica da tradição mais antiga, quer dizer; da tradição Javista. Esta tradição faz alusão às influências políticas e econômicas destas nações dentro desses territórios, idéia essa que se deriva da mesma raiz do verbo yld, (gerar; tornar-se pai”. Cabe notar aqui que no Antigo Testamento há numerosas referências à Cuch, ou antiga Etiópia (7).

Na lista das nações, segundo a fonte Sacerdotal, Egito é um dos filhos de Cam junto com Cuch, Put e Canaã (vs. 6-7). A fórmula “os filhos de X são Y” é característica desta fonte Sacerdotal: “os filhos de Cuch: Sabá, Hévila, Sabata, Regma e Sabataca, os filhos de Regma: Sabá e Dadã.” (v. 7). Sem dúvida, estes compiladores acreditavam que os povos da Arábia eram descendentes dos africanos, ou que estiveram sob seu domínio. Esta idéia veio da tradição Javista. Assim, a tese de que Cuch teria influenciado política e economicamente os povos árabes, continua adicionando um elemento importante, a filiação. Para a tradição Sacerdotal, a relação entre estes povos do horizonte afro-asiático dá-se em termos da filiação da humanidade.

Os irmãos Cuch e Egito aparecem juntos em muitos textos deuteronomistas. Em Is. 20.3-6, Egito e Cuch são nações militarmente poderosas, capazes de dar a Judá esperanças de evitar a invasão assíria. Em Is. 45.14 exalta-se o produto do Egito, as riquezas de Cuch e os povos de Sabá por sua grande estatura.

Em ambas as tradições, as genealogias das terras africanas são apresentadas como principais. Enquanto que as passagens javistas evidenciam influências políticas e econômicas, nas passagens sacerdotais essas influências aparecem como relações genealógicas. Enquanto a fonte Javista apresenta o quadro de influências africanas como primárias dentro do mundo, a fonte sacerdotal descreve um mundo no qual a influência africana é importante em razão da ancestralidade, da filiação e da irmandade. Esta relação genealógica é importante para a preservação da identidade étnica. Por isso, converte-se numa chave hermenêutica importante para as comunidades negras. Isto significa que os nossos ancestrais deixaram para nós também esse legado bíblico que potencializa os nossos anseios de justiça para o povo negro.

No antigo Testamento há diferentes formas que incluem Cush: há referências de nomes de indivíduos: Cushi (Sof. 1.1); de lugares: Cushan (Hab. 3.7); e pessoas nomeadas como cuchitas. Fontes arqueológicas e bíblicas relacionam Cuch com o Egito em diferentes contextos (Ez. 29.10, 30.9; Sal. 68.31; Na. 3.8-9; Is. 20.3-5). Em 1 Rs 19.8-13 e Is 37.9, se conta que o rei Taraca de Cuch entrou em combate com Assíria. Este rei pertence a 25ª Dinastia Cuchita, que comandou o Egito no período de 727-656 (Clayton 1994: 190-193).

O termo Cush, e suas derivações, é empregado 40 vezes no AT. Foram os gregos que batizaram a terra dos cuchitas de Etiópia, e esse título não necessariamente corresponde à localização da Etiópia atual. Heródoto nos diz que os etíopes ocuparam o país imediatamente ao sul de Elefantina (...) onde se chega a uma grande cidade chamada Meroé, esta cidade diz ser a capital da Etiópia (Heródoto II.9). Há acordo total entre os estudiosos de que o reino de Cuch seria o que é na atualidade o Sudão ao sul do Egito. Na Odisséia de Homero os cuchitas foram identificados como os mais remotos dos homens. Em séculos recentes (400 anos atrás), o termo Cuch foi utilizado para designar as partes da África habitadas por “pessoas pretas”. E, em 1800, foi utilizado para incluir toda a África “preta”.

Concluindo

Neste artigo me propus fazer uma aproximação histórica às origens das antigas civilizações cuchitas e suas relações com o povo israelita. A tese fundamental é a afirmação de que o império cuchita é essencialmente africano, que ele se teria formado a partir do povoamento saariano. A população cuchita teria saído da região de Camarões ou da região dos grandes lagos, indo para o norte, isto é, o sul do Egito, estendendo seu domínio até a península da Arábia. Isto permitiu migrações constantes de tribos árabes para o Chifre da África. Os que migraram para o sul do continente formaram a grande família Bantu.

Uma das primeiras referências a respeito das relações de Cuch com o litoral do Iêmen chegou dos textos veterotestamentários. As genealogias bíblicas de Gn. 10.1-32 e a história de Ismael (Gn. 21.8-21 e 25.12-18) falam que os descendentes de Ismael formaram as tribos da Arábia. Estes descendentes ismaelitas se uniram aos habitantes cuchitas já existentes na península da Arábia.

No imaginário e na cosmovisão dos israelitas, existe uma forte influência dos povos do sudeste e do sul – extremo e limite do mundo (8). A vida política, social e religiosa do povo hebreu também se situa no horizonte afro-asiático. A influência ou participação da África nas histórias bíblicas me possibilita observar uma multiplicidade de tendências religiosas e culturais, assim como étnico-raciais, das origens do povo israelita. Assim, permite-se ter uma interpretação paralela ou, por que não, complementar da história “do povo de Deus”, quase só vista a partir da ótica ocidental.

Para finalizar, é importante lembrar que o interesse deste estudo é a inclusão da história e da geografia da África como um dos espaços socioculturais que influenciaram a vida política e econômica da Palestina. Pois a tendência de minimização de qualquer influência africana no Cânon hebreu ainda continua nos dias atuais, e considero isso um erro sério da historiografia tradicional. Mas esta inclusão não pretende justificar a participação destes povos na tradição judaico-cristã, e sim, pelo contrário, resgatar a pluralidade cultural e religiosa como elemento importante na reconstrução da memória histórica e geográfica desta tradição. Assim queremos possibilitar ainda um diálogo intercultural e religioso com as comunidades e religiões de origem africana em nosso continente, as quais motivam as minhas inquietações bíblico-teológicas.

 

Maricel Mena-López (2)

 

(1) Artigo publicado em Identidade, Boletim do Grupo de Negr@s da EST/IECLB, vol 5, jan-jun/2004. Informações: indentidade@est.com.br

(2) Professora de Antigo Testamento na Escola Superior de Teologia. Coordena o grupo de pesquisa Identidade da EST

(3) Esta datação corresponde à primeira menção de Cuch no texto Massorético hebreu. Etiópia, no texto grego do Antigo Testamento (LXX), é mencionada durante o reinado do rei Salomão; confira Otto EISSFELDT, The Old Testament – An Introduction, Nova Iorque, Harper and Row, 1967, p.164-170

(4) Isaac EPHRAIM e Cain H. FELDER, “Reflections on the Origins of the Ethiopian Civilization”, em International Congress of Ethiopians Studies (Novembro, 1983) Addis Ababa, Ethiopia. Conferir a discussão apresentada ao longo do segundo capítulo

(5) Sobre a influência da África sobre territórios europeus confira Martin BERNAL, Black Athena – The Afro-Asiatic Roots of Classical Civilization, New Brunswick: Rutgers University Press, 1987

(6) Confira Modupe ODUYOYE, The Sons of the Gods and the Daughters of Men – An Afro-Asiatic Interpretation of Genesis 1-11, Maryknoll: Orbis, 1987, p. 24-17

(7) A lista sumaria das passagens bíblicas de Cuch/Etiópia pode ser consultada em James STRONG, Strong’s Exaustive Concordance of the Bible, Nashvile, Thomas Nelson Publishers, 1979, p. 230 e 312

 (8) Veja Gn. 2,13; Js. 1,4; Sf. 3,10