QUEM É JESUS DE NAZARÉ?

Jesus sabia que era Deus? Como e quando Jesus, em sua condição humana histórica, tomou consciência de sua divindade? A estas perguntas tentou responder o padre Giovanni Marchesi, S.J., professor de Teologia Dogmática na Universidade Pontifícia Gregoriana, redator da revista «La Civiltà Cattolica»,

com o livro publicado na Itália com o título “Gesù di Nazaret chi sei?” (Jesus de Nazaré, quem és?) (Edições Paulinas, Turim 2004)

Por que escreveu este livro?

A necessidade de escrever este livro nasceu logo em mim. Já quando era estudante, no quarto ano de teologia, tinha claro o desejo, desde o ponto de vista teológico, espiritual e científico, de estudar a figura de Jesus. Ao longo dos anos, elaborei um projeto de qual deveria ser a estrutura do livro sobre Jesus Cristo. Comecei a escrever ensaios e artigos que, em parte, converteram-se em capítulos até a publicação do livro.

Este livro está dirigido aos estudantes de Teologia, para eles é um manual, mas é também para estudantes de ciências religiosas, para catequese e para quem deseja aprofundar no conhecimento do mistério de Jesus Cristo. Penso em leitores, em primeiro lugar, que crêem que não crêem. Porque todos nós, crentes e não-crentes, há dois mil anos, seguimos fazendo-nos a pergunta: «Jesus de Nazaré, quem és?

É verdade, Cristo interroga a todos. É um homem ou um mito? Depois de tantos anos de estudo, quem pode dizer quem é este homem?

Nestes dias, há um debate nos grandes jornais italianos sobre valores fundamentais, fundados na dignidade da pessoa humana: o intercâmbio direto de mensagens entre Bento XVI e o presidente do senado, Marcello Pera, artigos em outros jornais sobre o que é a fé, um filósofo italiano que segue repetindo que a única medida de valorização para a busca da verdade é a razão e que tudo o que é religião é mito.

Pois bem, a fé em si mesma não é uma abdicação da razão, não é uma renúncia a pensar, a raciocinar. A teologia ocupa-se de Deus, de Jesus Cristo e das verdades reveladas, é inteligência da fé, e a fé em Deus é inteligência.

Jesus Cristo não é um mito, é um personagem da realidade histórica. De Jesus, desde o ponto de vista histórico, sabemos infinitamente mais, e há mais documentos e fontes que de Julio César, Sócrates, Platão e outros grandes personagens que fizeram história.

Hoje todos se interrogam sobre Cristo, ou para maldizê-lo ou para invocá-lo, ou para persegui-lo ou para amá-lo, e atuar seu amor em seu nome e por ele. Porque Jesus está vivo, e mais, o abade Giuseppe Ricciotti escrevia em sua obra mestra «A vida de Jesus», «nenhum ser humano está tão vivo hoje como Jesus».

Hoje, muitos convidam a contemplar o rosto de Jesus para ver o rosto de Deus: há quem sustente que a religião cristã está baseada em mitos e, por outra parte, quem identifica o cristianismo com a civilização cristã. Onde se vê o rosto de Deus?

Muitos viram o rosto de Jesus antes da Páscoa. Viram-no pessoas comuns: fariseus, sumos-sacerdotes, Maria, Madalena, seus discípulos. Há quem o viu, o amou e o seguiu, e há quem o odiou.

Mas nenhum destes, inclusive nenhum dos discípulos, ainda vendo Jesus em sua história, viu-o realmente em sua essência. Começaram a ver Jesus e a compreender seu rosto só a partir da Páscoa. Já antes da Páscoa, Jesus, à pergunta do discípulo Felipe, que lhe pede «mostra-nos o Pai e nos basta», Jesus responde: «Felipe, tanto tempo faz que estou convosco e ainda não me conheces?».

Jesus se deixa conhecer realmente e plenamente pelo que é, à luz do Ressuscitado, «Eu estava morto, mas agora estou vivo pelos séculos dos séculos».

Os discípulos reconhecem Jesus pela tarde, na casa de Emaús. Reconheceram Jesus que toma o pão, abençoa-o, parte-o e o entrega; nesse momento, abriram os olhos, tiveram a intuição, o entendimento de que aquele desconhecido era o Senhor. Mas naquele mesmo momento Jesus desaparece: eis aqui o que significa ver Jesus, intuí-lo, compreendê-lo, com todo o ser, com a inteligência, a razão e o transporte de amor, mas no momento que o vejo e compreendo, não o posso abraçar, porque Jesus é infinitamente maior do que podemos imaginar.

Então, aos ateus, os acéticos, aos agnósticos, aos niilistas, a quem crê que não crê, que seguem ignorando a cultura e a civilização que o cristianismo realizou nestes dois mil anos, aconselho que tomem o Evangelho, que analisem os textos sagrados deste fenômeno mundial que foi o cristianismo, de maneira que, encontrando-se com Cristo, possam ter ao menos a nostalgia do totalmente outro, como escreveu Max Orkheimer (1895 - 1973), ou seja, «a nostalgia do outro que é Deus», porque esta é a novidade do cristianismo: Deus se fez presente na história do homem através de Jesus de Nazaré. O Deus, o absoluto, manifestou-se e revelou em Jesus Cristo.

Pode-se dizer que é possível ver o rosto de Cristo na eucaristia? É a Eucaristia a continuidade do cristianismo?

A eucaristia não é um sacramento qualquer. A eucaristia e o batismo são dois filões que sustentam toda a comunidade de crentes. A comunidade de uma família, de uma aldeia, de uma diocese, de uma nação está fundada nestes dois pilares. A Igreja está construída em dois sacramentos que são o batismo e a eucaristia, simbolizados pela efusão da água e do sangue que se produziu no momento em que o lado de Cristo foi traspassado pela lança. Simbolicamente e misticamente, já o evangelista João viu o nascimento da Igreja neste eflúvio de sangue e água, símbolos do batismo e da eucaristia.

A eucaristia é por excelência o mistério da fé, porque nela se encerram todos os sacramentos e tudo o que significa ser cristão. Por este motivo, um dos mais importantes teólogos católicos do século XX, Henry De Lubac, em seu livro «Meditação sobre a Igreja», afirma que «a eucaristia faz a Igreja e a Igreja faz a eucaristia».