O  ÊXODO

1. Contextualização histórica

O êxodo histórico do povo de Israel começa por volta do século XIII a.C. O v. 8 do cap. 1 se refere a Ramsés II, faraó do Egito. Há um espaço de vários séculos entre este fato e os fatos que se seguem. Por isso, o compilador colocou entre eles uma genealogia. Este tipo de literatura com genealogia intercalada é do tipo da tradição sacerdotal. É uma genealogia artificial. Os nomes são epônimos para explicar-lhes a origem. Como a história só foi composta muito tempo depois (séc. VI), eles provavelmente não sabiam mais quem teria sido primeiro.

Mas havia muitas lendas e tradições e naturalmente eles se basearam nelas. Por exemplo, com Judá. Quando os hebreus chegaram, já havia lá as montanhas conhecidas como montanhas de Judá. Os que habitaram aquela região ficaram sendo chamados filhos de Judá, judeus... Quando, tempos depois, foram escrever a história, completaram o restante com as lendas e tradições, resultando daí o que está na Bíblia. Contudo, sabe-se que a citação de Ex 1,11 é histórica: foram cidades construídas no tempo de Ramsés II, que foi um dos maiores faraós e teve um reinado de muito progresso.

Na história do Egito, os historiadores dividem três períodos:

        1. antigo império - 3a. a 6a. dinastia (2800 a 2300 a.C.);

        2. médio império - 11a. a 17a. dinastia (2100 a 1580 a. C.);

        3. novo império - 18a. a 20a. dinastia (1580 a 1090 ou 660 a. C.)

Os fatos relatados no Êxodo se passaram na terceira fase, mais precisamente na 19a. dinastia, fundada por Ramsés I. Foi um período de grande prosperidade, extensão de domínios, crescimento...

Por causa disto, muita gente migrava da Ásia para lá, inclusive prisioneiros de guerra, e também de outros países vinha gente para trabalhar, para adquirir melhores condições de vida. Então, muitos foram feitos escravos nos empregos a que se incorporaram, com as mudanças na conjuntura política.

Com a decadência do império faraônico, em certa época fracassou a vigilância e muitos fugiram. Foi mais ou menos neste contexto que se deu a saída dos hebreus do Egito, contada na Bíblia com toda aquela linguagem mítica e épica. Não foram, portanto, só os Israelitas que fugiram do Egito naquela ocasião, mas diversos povos que se encontravam num regime de opressão, por serem estrangeiros nas terras do Egito. A opressão, historicamente, era fato. A fuga dos escravos, também.

Os primeiros capítulos do Êxodo contam a preparação da fuga. E neles há dois fatos que serão perpetuamente lembrados: a libertação do Egito e a aliança no Sinai.

2. Moisés

O nascimento de Moisés é uma saga etimológica, para explicar o seu nome. Moisés significa "aquele que foi tirado". Seu nome, originalmente, seria Tutmoses, o que significaria 'filho de Tut'. Eles, certamente subtraíram o primeiro nome, por se identificar com um Deus pagão, e ficou apenas Moses, que deu MOSHE, em hebraico. Historicamente, quase nada consta de Moisés. Mas não há motivos para se negar sua existência.

Em Ex. 2,11, conta a fuga de Moisés para Madian. Ele teria visto um feitor açoitando um israelita e o matou. Foi descoberto e, por isso, obrigado a fugir. O seu romance com Séfora e os relatos associados são uma introdução para apresentar Moisés como vindo do deserto com a missão de salvar o povo. A narração de Ex 3,1 a 10 refere-se ao monte Horeb que, talvez, já era uma montanha sagrada; e a sarça ardente seria referente a uma árvore sagrada na qual os pagãos ofereciam sacrifícios aos seus deuses. O cap.3 fala da vocação de Moisés, em linguagem mítica, como acontecera aos profetas. O hebreu, para dizer que um tal fato era divino, necessitava visualizar um fato histórico. Todo profeta, quando recebe uma missão de Deus, a princípio recusa. Mas depois, Deus faz a promessa... assim aconteceu com Moisés.

3. Autodefinição de Javé

A citação "Eu sou aquele que é" foi sempre interpretada filosoficamente, mas por um aspecto ontológico insinuado muito depois. Deus, na verdade, apenas deixou de citar um nome, por causa do que isto iria significar na mentalidade deles. Os verbos "ser" e "existir" em hebraico distinguem-se apenas por uma letra. Aquele que é, que vive, que existe... são expressões equivalentes.

Javé e Jeová são a tradução verbal do tetragrama que os judeus não pronunciavam. De principio, se adotava a forma Jeová, pelo seguinte fato. Descobriu-se que pelo excessivo medo de pronunciar o Santo Nome em vão (2o. mandamento), todas as vezes que na leitura aparecia o nome de Deus, o substituíam por outro correspondente. Usavam muito "Adonai" (Senhor) ou "Elion" (Altíssimo). Então, os estudiosos colocaram as vogais da palavra "Adonai" entre as consoantes do tetragrama JV, o que deu Jeová. Posteriormente, se descobriu que Javé será a forma mais apropriada, e não Jeová.

Num breve retrospecto, devemos dizer que sempre ao analisar um fato distinguiremos duas épocas: o tempo em que o fato realmente aconteceu (séc. XIII) e o tempo em que foi escrito (séc. VI ou V). Há grande modificação durante o tempo em que o fato passou transmitido oralmente, e há também muita projeção de fatos da época em que foi escrito, muita estilização.

4. As pragas

São histórias estilizadas e artificiais. Quando os mais velhos foram contar para os mais novos a história da libertação do Egito, eles se quiseram mostrar muitas vezes a intervenção poderosa de Deus contra o inimigo e assim glosaram os fatos com situações fantasiosas. Que há aí de histórico? Cada fato tem relação com algum fenômeno acontecido, mas não na quantidade que a Bíblia relata. Eles transportaram tudo para um tempo determinado e deram uma significação e interpretação religiosa.

Com relação à morte dos primogênitos, certamente durante o tempo em que os hebreus estiveram lá aconteceu a morte de um filho do Faraó e eles atribuíram também significação religiosa a este fato, como sendo um desígnio divino. Mas o que interessa não é o fato, e sim a interpretação do fato. Eles queriam convencer o leitor de que foi Deus quem fez tudo isso.

A história das pragas evoluiu do tempo em que se passaram historicamente para o tempo em que foi escrita. Na água que se transformou em sangue está o melhor exemplo desta evolução: estão presentes as três tradições (Javista, Eloísta e Sacerdotal). Em Ex. 4,9, diz: 'pouco de água tirada num balde, com a ação de Moisés se transformou em sangue' (javista); em 7,17 - 19, diz que 'todo o Nilo se transformou em sangue'. É uma evolução da anterior (sacerdotal). A seguir, diz que 'todas as águas ficaram vermelhas'. Note-se nisto tudo uma constante evolução do fenômeno, certamente ocasionado pela tradição oral, antes das histórias serem escritas.

5. Instituição da Páscoa (cap. 12)

O autor retrojeta para o tempo de Moisés um rito pascal instituído depois do exílio, usado no templo de Jerusalém. O v. 1 é a ligação. Será o primeiro mês do ano, isto porque até o tempo de Josias (séc. VII) o ano começava no outono (outubro), igual ao calendário dos babilônios. Com o reinado de Josias, a festa foi mudada de data para a primavera, a fim de não se confundir com o culto da fertilidade, celebrado pelos pagãos no inicio do ano. A páscoa já existia mesmo antes dos cananeus.

A origem da palavra 'páscoa' vem de "pashá", que significa coxear, mancar. Daí passou para pular, dançar, festejar, passar por cima, salvar. "O anjo de Deus saltou as casas dos hebreus para não lhes fazer mal." A festa dos ázimos também era pagã, mas era a festa agrícola correspondente à páscoa, que era pastoril. O caso de não comer pão com fermento é porque fermento é deterioração da matéria, sinal de impureza. Não se sabe como, depois eles juntaram as duas festas.

O fato narrado em Ex 12,6 é uma alusão á saída do Egito, é um rito supersticioso e mágico dos nômades, para livrar de qualquer mal espírito as casas: pintar os umbrais com sangue. O autor coloca aí como se fosse na noite posterior às pragas, na noite da partida. Em 12,15, fala da festa dos ázimos. Na pressa da saída, não tiveram tempo de fermentar o pão. E manda comer pão assim por sete dias. Em 12, 27, há um rito que se cumpre ainda hoje na tradição dos hebreus: um menino pergunta ao pai, que conta toda a história. Fala da libertação, mas não como fato passado, e sim como se acontecesse com eles. Todas as vezes que celebravam uma libertação, eles referiam este fato.

A passagem do Mar Vermelho é uma narração epopéica, enriquecida pela liturgia. O cap.15 é o canto de Moisés, mas este canto não é exatamente dele. Fala de vitórias sobre os filisteus, os amalecitas, povos posteriores a ele. Foi feito por outro autor e atribuído a Moisés. A passagem 15, 20 - 21 é um texto muito antigo. Teria sido mesmo após a passagem do mar vermelho.

Em 19,4 começa a narração da aliança. A arqueologia mostrou várias alianças entre reis antigos, parecidos com esta do Sinai, redigidas no mesmo esquema. A de Israel tem sua conotação própria, porque é com Deus. A insistência em trovões e relâmpagos talvez são fatos que provavelmente teriam acontecido o que é muito possível em região vulcânica como lá.

6. A Aliança

A narração da entrega dos mandamentos é um esforço para colocar dentro da aliança o decálogo, uns preceitos imperativos e outros explicativos, uns mais antigos e outros mais recentes. Em parte vêm de Moisés, pois ele teria dado alguns princípios gerais para o governo do povo, e outros foram acrescentados, tirados de outros povos, preceitos conhecidos e adotados pelos povos vizinhos.

Eis o esquema comum das alianças, que foi seguido pelos hebreus:

        l. introdução histórica

        2. proposta (mandamentos)

        3. pacto (compromisso)

        4. bênçãos e maldições

        5. sacrifício: a tábua é colocada no santuário de um deus.

Este esquema era das alianças que ordinariamente se faziam naquela época. Como se vê, pouco ou nada há de diferente na esquematização da Aliança de Deus com Israel. Até a conservação das tábuas houve também.

A introdução (19,3 - 19) é de origem sacerdotal.

3 - 6 é o discurso de Deus como introdução à Aliança;

7 - 15 é a preparação da vinda de Deus para onde está o povo;

16 - 19 é uma teofania (aparição de Deus na tempestade).

O v. 20 é uma repetição disto tudo, originária de outra tradição. A seguir, a narração é interrompida para que sejam intercalados os mandamentos. O decálogo está em 20,1 - 17. É um código de leis bastante antigo, muito inspirado em Hamurabi.

As tempestades a que se refere o cap. 19 são teofanias e constam nas tradições Javista, Eloísta e Deuteronômica. Para os antigos, relâmpagos e trovões eram manifestações de Deus. Os exegetas não negam que possa ser a narração de um fato natural da época. No seu discurso, Deus faz questão de dizer "toda a terra é minha", para que o povo não pense numa religião nacionalista, mas universal. "Reino de Sacerdotes", porque no mundo de Javé todos são mediadores; "nação santa", ou seja, em hebraico 'kadosh' = separada. A "nuvem" é a presença de Deus, e o "som da trombeta" é um modo de descrever o ruído do trovão. O povo não vê Deus, vê apenas os sinais.

O v. 22 é da lei de talião. É muito rigorosa, em relação ao Evangelho, mas é um grande progresso comparada às leis mais antigas. O cap. 24 é quase todo de origem eloista. Tem algo de sacerdotal. Versículo 3 é um compromisso do povo; v. 5 é o holocausto, vítima pacífica. A seguir, a aspersão do povo com o sangue, para consumar a aliança. JC na instituição da eucaristia faz alusão às palavras de Moisés. O v. 11 é o mesmo sacrifício, descrito na tradição javista.

Os hebreus nem sempre entenderam bem o sentido da aliança. O seu significado foi dado pelos profetas, mais tarde, acentuando não tanto o contrato jurídico, mas o relacionamento pessoal de Deus, acompanhando-os no deserto.

7. Os mandamentos

Um problema que sempre perturbou os hebreus foi eles distinguirem o Deus verdadeiro da imagem de Deus. Se Moisés deixasse o povo fazer imagens, eles a adorariam como Deus. Foi preciso muito tempo para que eles chegassem a uma concepção abstrata da divindade. O "Deus que ninguém vê" era um problema sério, e por isso eles caíram muitas vezes em idolatria. Dai a séria proibição na Bíblia de se fazerem imagens.

O Decálogo católico é uma adaptação. Nele está modificado o 6o. mandamento. Na Bíblia diz: "não cometer adultério", e no catecismo diz: 'não pecar contra a castidade'; também os 9 e 10 mandamentos na Bíblia são um só, e no catecismo está dividido. Esta distinção foi precisa para se completarem os dez, porque eles suprimiram o que proibia a fabricação de imagens, e isto sempre foi causa de polêmica com os protestantes.

Aqui está a discriminação dos mandamentos na Bíblia (cap. 20):

1º mandamento = v. 3 - (Não terás outros deuses diante de mim.)

2º mandamento = vs. 4 a 6 - (Não farás para ti imagem esculpida... não te prostrarás diante estes deuses e não os servirás...)

3º mandamento = v. 7 - (Não pronunciarás em vão o nome do teu Deus)

4º mandamento = vs. 8 a 11 - (Trabalharás durante seis dias... o sétimo dia é o sábado de Javé)

5º mandamento = v. 12 - (Honra teu pai e tua mãe)

6º mandamento = v. 13 - (Não matarás)

7º mandamento = v. 14  - (Não cometerás adultério)

8º mandamento = v. 15 - (Não roubarás)

9º mandamento = v. 16 - (Não apresentarás um falso testemunho contra o próximo)

10º mandamento = v. 17 - (Não cobiçarás a casa do próximo, nem sua mulher, nem seu escravo nem sua escrava, nem seu boi, seu jumento nem coisa alguma que lhe pertença.