LEVÍTICO (1)

Este livro da Bíblia recebeu este nome a partir da tribo de Levi principal protagonista do

sacerdócio instituído em duas ramificações: por primeiro a Casa de Aarão a quem foi outorgado

o sacerdócio pleno e por segundo os demais levitas para o sacerdócio auxiliar.

Nele se descrevem os principais sacrifícios e as festas com seus rituais e com as funções sacerdotais bem delineadas, bem como regras morais e de purificação ou santificação.

Por isso o nome derivado de Levi - Levítico.

O SACERDÓCIO

Antes de se adentrar mais detalhadamente nos Sacrifícios é bom que se complete o que foi anunciado a respeito do sacerdócio, sem o qual não se realizam. Desde a "eleição" dos primogênitos, "consagrados a Iahweh" após a libertação do Egito (Ex 13,1-2), o Sacerdócio passa a ser uma instituição definitiva que vai ser ratificada com a construção e ereção do santuário:

"Depois manda que do meio dos israelitas se aproximem a ti o teu irmão Aarão e seus filhos Nadab, Abiú, Eleazar e Itamar, para que me sirvam como sacerdotes. Mandarás fazer vestes litúrgicas para teu irmão Aarão, em sinal de honra e distinção. Incumbirás por isso artistas bem preparados, que dotei do espírito de sabedoria, de confeccionar as vestes de Aarão, para consagrá-lo como sacerdote a meu serviço. Estas são as vestes que deverão fazer: um peitoral, um efod, um manto, uma túnica bordada, uma mitra e um cinto. Assim farão vestes litúrgicas para teu irmão Aarão e seus filhos para que sejam meus sacerdotes. Utilizarão ouro, púrpura violácea, vermelha e carmesim e linho fino (...) Para os filhos de Aarão farás túnicas, cintos e turbantes em sinal de honra e distinção. Destas vestimentas revestirás teu irmão Aarão e seus filhos e os ungirás, investindo-os e consagrando-os para que me sirvam como sacerdotes. Faze-lhes calções de linho para cobrirem a nudez, da cintura até as coxas. Aarão e seus filhos os usarão quando entrarem na tenda de reunião ou quando se aproximarem do altar para servir no santuário, a fim de não incorrerem em falta e não morrerem. Esta é uma lei perpétua para Aarão e seus descendentes" (Ex 28,1-43).

A investidura obedeceria ritual próprio (Ex 29), durante o qual, além da unção de Aarão e seus filhos, vários ritos de purificação seriam executados para a indispensável santificação geral e deles, oferecendo-se durante o cerimonial os seguintes tipos de Sacrifícios:

Sacrifício pelo pecado (Ex 29,10-14);

Holocausto (Ex 29,15-18); e,

Sacrifício pacífico (Ex 29,19-26).

Quando da ereção do santuário (Ex 35 - 40) o sacerdócio deveria ter sido também então estruturado junto:

"Pegarás o óleo de unção, ungirás a morada e tudo o que nela estiver, consagrando-a assim com todos os pertences, e ela será santa. Ungirás o altar dos holocaustos e todos os utensílios, consagrando assim para que seja santíssimo. Ungirás a bacia com a base, para consagrá-la. Mandarás Aarão e seus filhos aproximar-se da entrada da tenda de reunião e os lavarás com água. Depois revestirás Aarão com as vestes litúrgicas, e o ungirás consagrando-o para que me sirva como sacerdote. Farás os filhos aproximar-se e, depois de revesti-los com as túnicas, os ungirás como ungiste o pai, para que me sirvam como sacerdotes. Esta unção lhes há de conferir o sacerdócio perpétuo por todas as gerações". Moisés executou tudo exatamente como o Senhor lhe havia ordenado" (Ex 40,9-16).

O que se observa porém, é Moisés oferecendo os sacrifícios e cometendo os atos litúrgicos pertinentes à ordenação sacerdotal de Aarão e seus filhos:

"Diante da entrada da morada, da tenda de reunião, colocou o altar dos holocaustos, e ofereceu o holocausto e a oblação, assim como Senhor tinha mandado a Moisés. Instalou a bacia entre a tenda de reunião e o altar, e pôs a água para as abluções, onde Moisés, Aarão e os filhos lavavam as mãos e os pés. Lavavam-se toda vez que entravam na tenda de reunião e se aproximavam do altar, assim como o Senhor havia mandado a Moisés. Levantou o átrio em torno da morada e do altar, e pendurou a cortina na entrada do átrio. Assim Moisés deu por concluída a obra" (Ex 40,29-33).

Somente após a apresentação sistemática dos Sacrifícios é que se dará a investidura oficial de Aarão e seus filhos no Sacerdócio, praticando-se então todas as operações já delineadas para a "consagração ou santificação" exigida (Ex 29):

"O Senhor falou a Moisés, dizendo: "Toma contigo Aarão e seus filhos, as vestes, o óleo da unção, o bezerro para o sacrifício expiatório, os dois carneiros e o cesto de pães sem fermento, e reúne toda a comunidade à entrada da tenda de reunião". Moisés fez como o Senhor lhe tinha mandado e a comunidade se reuniu à entrada da tenda de reunião. Moisés disse à comunidade: "É isto que o Senhor mandou fazer". Depois mandou que se aproximassem Aarão e seus filhos, e os lavou com água. Vestiu Aarão (...).Depois Moisés pegou o óleo da unção, ungiu o tabernáculo e tudo o que nele havia, para consagrá-lo. Aspergiu sete vezes o altar, e ungiu-o com todos os utensílios, bem como a bacia com o suporte, consagrando-os. Derramou óleo de unção sobre a cabeça de Aarão, e ungiu para consagrá-lo. Depois mandou aproximarem-se os filhos de Aarão, vestiu-lhes as túnicas, cingiu-lhes o cinto e lhes pôs os turbantes, como o Senhor havia mandado a Moisés. Mandou trazer o bezerro para o sacrifício pelo pecado. Aarão e seus filhos impuseram as mãos sobre a cabeça deste bezerro. Depois de imolá-lo, Moisés pegou sangue e untou com o dedo as pontas em volta do altar, purificando-o. Derramou o sangue ao pé do altar, e o consagrou, fazendo sobre ele a expiação. Moisés pegou toda a gordura que envolve as vísceras, a camada gordurosa do fígado e os dois rins com a respectiva gordura, e queimou tudo no altar. O bezerro, com pele, carne e excrementos, queimou-o fora do acampamento, como o Senhor lhe tinha mandado. Mandou trazer o carneiro do holocausto, para que Aarão e os filhos impusessem-lhe as mãos sobre a cabeça. Moisés o imolou, e derramou o sangue em volta do altar. Depois de esquartejar o carneiro, Moisés queimou a cabeça e os pedaços com a gordura. Moisés lavou com água as vísceras e as patas, e assim queimou o carneiro inteiro no altar. Era um holocausto de suave odor, um sacrifício feito pelo fogo ao Senhor, como o Senhor tinha mandado a Moisés. Mandou trazer o segundo carneiro, o carneiro da consagração, e Aarão e seus filhos impuseram as mãos sobre a cabeça do animal. Depois de imolá-lo, Moisés pegou o sangue e untou o lobo da orelha direita de Aarão, o polegar da mão direita e o polegar do pé direito. Mandou aproximarem-se os filhos de Aarão, e untou-lhes com sangue o lobo da orelha direita, o polegar da mão direita e o polegar do pé direito, e depois derramou o sangue em torno do altar. Pegou a gordura, a cauda, toda a gordura que cobre as vísceras, a camada gordurosa do fígado, os dois rins com a gordura, e a perna direita. Do cesto dos ázimos, posto diante do Senhor, tomou um pão sem fermento, uma torta sem fermento amassada com azeite e um bolinho, e colocou sobre as partes gordurosas e sobre a perna direita. Entregou tudo isso nas mãos de Aarão e de seus filhos, para que apresentassem com um gesto de oferta ao Senhor. Depois, tomou tudo das mãos deles e queimou no altar, em cima do holocausto. Era o sacrifício consecratório de suave odor, um sacrifício pelo fogo ao Senhor. Depois Moisés pegou o peito do carneiro e o apresentou com um gesto de oferenda ao Senhor. Esta foi a porção do carneiro da consagração, pertencente a Moisés, como o Senhor lhe tinha mandado. Moisés tomou um pouco do óleo de unção e do sangue que estava sobre o altar, aspergiu Aarão e suas vestes, bem como os filhos de Aarão e suas vestes. Assim consagrou Aarão, seus filhos e as respectivas vestes. Moisés disse para Aarão e seus filhos: "Cozinhai a carne à entrada da tenda de reunião. Ali mesmo a comereis com o pão que está na cesta das ofertas da consagração, conforme eu mandei, dizendo: Aarão e seus filhos hão de comê-la. O que restar da carne e do pão, devereis queimá-lo" (Lv 9,-32).

Durante a Investidura foi seguido o ritual já estabelecido e próprio (Ex 29), durante o qual, além da Unção de Aarão e seus filhos, vários ritos de purificação foram executados para a indispensável Santificação geral e deles, oferecendo-se durante o cerimonial os seguintes tipos de Sacrifícios:

Sacrifício pelo Pecado (Lv 8,14-17 / Ex 29,10-14);

Holocausto (Lv 8,18-21 / Ex 29,15-18); e,

Sacrifício Pacífico (Lv 8,22-32 / Ex 29,19-26).

Limitar-se-á por enquanto apenas à ordenação sacerdotal, necessária por causa dos rituais dos vários Sacrifícios narrados no início, antes dessa investidura simplesmente porque o Sacerdote oficiante de toda esta cerimônia foi Moisés, o Sacerdote da Aliança, que a completa com o Preparo .e a Oferta das Primícias Sacerdotais, assumindo assim as funções Aarão e os seus filhos (Ex 8,33-9,24).

"Durante sete dias não saireis da entrada da tenda de reunião, até se completarem os dias da vossa consagração, pois ela durará sete dias. O que se fez no dia hoje, o Senhor ordenou que se fizesse para expiar por vós. Ficareis durante sete dias, dia e noite, à entrada da tenda de reunião, e observareis o que o Senhor mandou, para não morrerdes, pois esta é a ordem que recebi". Aarão e seus filhos fizeram tudo o que o Senhor lhes mandou por meio de Moisés" (Lv 8,33-36).

Toda a cerimônia se completará com as Primícias dos Novos Sacerdotes:

"No oitavo dia Moisés chamou Aarão, seus filhos e os anciãos de Israel, e disse para Aarão: 'Escolhe um bezerro para o sacrifício expiatório pelo pecado, e um carneiro para o holocausto, ambos sem defeito, e apresenta-os ao Senhor. Falarás aos israelitas, dizendo: Tomai um bode para o sacrifício expiatório, um bezerro e um cordeiro, ambos de um ano e sem defeito, para o holocausto, um touro e um carneiro para o sacrifício pacífico, a fim de sacrificá-los perante o Senhor, e uma oblação amassada com azeite, porque hoje o Senhor vos aparecerá". Trouxeram diante da tenda de reunião o que Moisés tinha mandado. A comunidade toda aproximou-se e se pôs de pé diante do Senhor. Moisés disse: "É isto que o Senhor mandou que fizésseis para que vos apareça a glória do Senhor ". Moisés disse para Aarão: "Aproxima-te do altar. Oferece o teu sacrifício pelo pecado e o holocausto, e faze a expiação por ti e pelo povo. Apresenta também a oferta do povo, e faze por eles a expiação, conforme o Senhor mandou (...) Levantando as mãos para o povo Aarão os abençoou. Tendo oferecido o sacrifício expiatório, o holocausto e o sacrifício pacífico, desceu, e Moisés e Aarão entraram na tenda de reunião. Ao sair, abençoaram o povo. Então a glória do Senhor apareceu a todo o povo, e um fogo enviado pelo Senhor consumiu no altar o holocausto e as gorduras. Vendo, o povo inteiro prorrompeu em gritos de alegria, e prostraram-se todos com o rosto por terra'" (Lv 9,1-24).

Pode-se até mesmo atrever-se um pouco e dizer que aqui deve ser o lugar certo do fenômeno da tomada de posse com a habitual teofania final:

"Então a nuvem envolveu a tenda de reunião, e a glória do Senhor tomou conta da morada. Moisés não podia entrar na tenda de reunião, porque sobre ela repousava a nuvem, e a glória do Senhor ocupava a morada. Em todas as etapas da viagem os israelitas punham-se em movimento sempre que a nuvem se elevava de cima da morada; nunca partiam antes que a nuvem se levantasse. De fato, a nuvem do Senhor ficava durante o dia sobre a morada, e durante a noite havia um fogo visível a todos os israelitas, ao longo de todas as etapas da viagem" (Ex 40,34-38).

 O SACRIFÍCIO

Muitas religiões giram em torno do sacrifício, cujo significado atual cada vez mais se afasta do original. É que, culturalmente, mudou tanto de sentido que não mais reflete a mesma realidade. Por causa disso, nem mesmo um dicionário atual registra aquilo que correspondia ao seu significado, principalmente entre os judeus ou israelitas. Pelo menos biblicamente tem um sentido bem mais profundo até mesmo que o, "a grosso modo" perceptível, sentido de "sacri-ficar" = "ficar-sagrado". E nem pode se limitar à uma "renúncia" ou à uma "privação", dolorosa para quem a faz, a cujo sentido é reduzido vulgarmente.

Quando Jesus a ele se referiu ou o insinuou, confundiu os chefes religiosos e os de seu povo, seja por ocasião da "expulsão dos vendilhões do Templo" (Jo 2,13 - 22), seja por ocasião do Anúncio da Eucaristia, ao dizer-se "comida" (Jo 6,50 - 52). No primeiro caso Jesus não tinha nenhum direito de fazer o que fez, eis que, não pertencendo à Tribo de Levi ou à Casa de Aarão, não era sacerdote e assim não lhe competia a administração do Templo. Além de tudo isso, aquela área fora destinada para o que lá se praticava, qual seja, a troca de moeda estrangeira ou a venda de animais para as oferendas, a fim de que os judeus em peregrinação pudessem cumprir os seus votos e deveres religiosos. Em si, fora os abusos, nada havia de errôneo no que lá se fazia e, por causa disso, em face de sua atitude, dois fatos acontecem. Primeiro, "os sacerdotes e escribas" perguntam a Jesus "com que autoridade fazia estas coisas" (Mt 21,23), e "que sinais lhes mostraria para assim agir" (Jo 2,18), e, por segundo, o Evangelista "recorda que os discípulos pensaram" que agia assim porque "o zelo pela casa de seu Pai o dominara" (Jo 2,17 / Sl 69,10). A resposta de Jesus foi por demais desconcertante, tanto que os seus discípulos só a compreenderam após a sua Ressurreição. Desafiara a "destruição do Templo e a sua reconstrução por Ele em três dias" ... "referindo-se ao seu próprio Corpo" (Jo 2,18 - 22), com o que iria se tornar o único sacrifício. Por causa disso tornava-se tudo aquilo obsoleto, sem sentido e, então, "fazendo da Casa do Pai uma casa de comércio" (Jo 2,16), pela perda do objetivo a que se destinara. No segundo caso, ao dizer que "meu corpo é verdadeiramente comida", confunde os judeus de tal forma que, após dizerem "como pode este homem nos dar a sua carne para comer" (Jo 6,52), "o abandonam" (Jo 6,66).

O sacrifício tanto fazia parte da compreensão cultural israelita, que estava impregnado em seus hábitos ou costumes, até mesmo os especificamente não religiosos. Mesmo quando participavam de uma refeição comum ou trivial, era-lhes necessário "derramar o sangue na terra" (Lv 17,13s; Dt 12,16.23), a abster-se do "impuro" (Lv 11,1) e a seguir determinadas normas de "purificação" (Mc 7,4), sem o que não deveriam tomar alimento. Percebe-se que toda refeição tinha algo de sagrado e a idéia de sacrifício era-lhe vinculada pelo comer que nela se pratica. O seu uso, mesmo ao tempo de Cristo, já era milenar, eis que a Bíblia, apesar de não informar a sua origem, relata ter sido ele a causa da desgraça de Caim, que matou Abel porque "Deus agradou-se da oferenda dele (em "sacrifício") e não da sua" (Gn 4,3-8). Relata também que Noé o ofereceu quando do término do Dilúvio (Gn 8,20) e, a partir de Abrão, desde a Promessa, registra o seu uso como forma de expressão da adesão da fé em Iahweh (Gn 12,7 e 12,8). Prossegue com a Aliança então contraída com Abraão, e com os demais Patriarcas Isaac e Jacó (Gn 17,4-14; 26,3-24; 28,13-15) que a ratificaram oferecendo-o (Gn 12,7.8; 26,25; 28,17-22). E, em virtude dessa mesma Aliança, torna-se o centro gravitacional do culto. De Jacó adveio o povo israelita, formado pelas doze tribos oriundas de seus doze filhos. Moisés, descendente de um deles, da Tribo de Levi, confirma e repete essa Aliança, agora com todo o povo, no Monte Sinai, selando-a também com o sangue de um sacrifício (Ex 24,1-8). Tudo isto já foi examinado e estudado, repete-se para facilitar a memorização e o entendimento da exposição.

O sacrifício torna-se essencial ao culto, para significar, realizar e atualizar a união de Iahweh - Deus com o Seu Povo pela Aliança. Após a Instituição da Páscoa (Ex 12), que era inicialmente uma comemoração familiar, institui-se o sacerdócio, indispensável e até mesmo essencial para a celebração dele (Hb 8,3), oficializando-se para o seu exercício os Primogênitos (Ex 13,1-2) e, depois, a Casa de Aarão (Ex 28 - 29), "figura" do que Cristo fará quando da Instituição da Eucaristia, na inauguração da Páscoa Cristã, instituindo os Apóstolos para que a celebrassem "em sua memória" (Lc 22,19 - 20 / 1Cor 11,23 - 25). O Sacerdócio Pleno da Casa de Aarão e o Auxiliar constituído pelo restante da mesma Tribo de Levi (Nm 8,14 - 19), completam a organização religiosa e de cúpula de Israel, e se tornam um centro de unidade de todo o Povo de Deus pela consagração, significação e difusão da Santidade de Iahweh entre as demais tribos, por meio deles (Lv 21,8), medianeiros entre o Povo e Iahweh.

Em outra ocasião Jesus se refere ao sacrifício ao dizer que "é o altar que santifica a oferenda" (Mt 23,19). É que, desde o Sinai, o altar era "ungido", tal como os "sacerdotes", com o "Óleo da Unção" (Ex 30,25-30), preparado de acordo com normas do próprio Iahweh, em virtude do que "santificava tudo que o tocasse":

"Oferecerás pelo altar um sacrifício pelo pecado, quando fizeres por ele a expiação ("com sangue"), e o ungirás para consagrá-lo. (...); assim o altar será santíssimo e tudo que o tocar, será santificado" (Ex 29,36-37).

Um novo elemento aparece aqui, com o rito do sacrifício pelo pecado, a expiação, que tem como integrante essencial o sangue que expia (Lv 17,11), sem o qual não há remissão (Hb 9,22). Ao que se conclui que, pela unção sagrada se santifica o altar e o sacerdote, completando-se a eficácia do ato com o sangue do sacrifício pelo pecado (Lv 6,17-22 / Hb 9,22). E, a partir desta Aliança, organizou-se um ritual, sabendo-se que sem altar, sacerdote, sangue e vítima (= hóstia) não há sacrifício, nem se consegue a santificação (Hb 9,19-22), um de seus objetivos. Jesus resume tudo isso numa frase apenas. ("é o Altar que santifica a Oferenda")

Também, somente poderia participar do sacrifício quem estivesse em estado de pureza legal (Lv 7,20-21; 11,44-45) e de santidade. Caso algo as comprometesse, o israelita deveria purificar-se antes, conforme os rituais legais (Lv 11,25.28.32.40). No caso da santidade comprometida havia os sacrifícios para a remissão: o holocausto e o sacrifício de expiação ou de reparação ou pelo pecado. Têm em comum que o ofertante impunha as suas mãos na cabeça da vítima, praticando assim a substituição dele por ela (instituída pelo próprio Deus em Gn 22,13), imolava-a e a esquartejava, e o sacerdote, após queimá-la, completava o ritual com o oferecimento do sangue (Lv 1,4-5). No holocausto a vítima (ou hóstia) era toda queimada, nenhuma de suas partes era "comida" por ninguém; já, nos sacrifícios pelo pecado, algumas partes eram comidas pelo sacerdote apenas (Lv 6,19-23), e outras queimadas, significando a "participação e satisfação" do próprio Deus (Lv 7,1-10 / Gn 15,17). Havia ainda o sacrifício de comunhão ou refeição sagrada, do qual todos "comem" (Lv 3,1-7), cada qual a sua parte: o ofertante e seus familiares ou amigos, o sacerdote e o próprio Deus, "aspirando a oferenda queimada em perfume de suave odor a Iahweh" (Lv 3,5):

"Iahweh falou a Moisés e disse: ‘Ordena aos filhos de Israel o seguinte: Tereis cuidado de me trazer no tempo determinado a minha oferenda, o meu manjar, na forma de oferenda queimada de perfume agradável" (Nm 28,1-2).

É são Paulo quem melhor nos esclarece do fundamento teológico de toda a instituição, ao dizer:

"Aqueles que comem as vítimas sacrificadas, não estão em comunhão com o altar?" (1Cor 10,16-18).

Deduz-se destas palavras que pelo sacrifício se estabelece íntima comunhão entre o Ofertante, o Altar e Deus, pelo Sacerdote e com a expiação do pecado pelo sangue. Assim, quando se fala em "altar", se fala em "vítima" e em "sacerdote"; quando se fala em "sacerdote" se fala em "Deus" e no "sangue que expia"; quando se fala em "sangue que expia" se fala em "vítima ou hóstia" de que se alimenta em comum e em "santificação"; e, quando se fala em "santificação", se fala em "comunhão" de pessoas, a partir da "comunhão" com "altar" formando-se uma "comunidade" de todos com "Deus".

Além da substituição há outra conotação cultural do sacrifício israelita que é necessário mencionar. É que não deixa de ser muito curiosa a distribuição das partes da vítima do sacrifício (a serem "comidas"), entre o Ofertante, o Sacerdote e Iahweh, com a queima do "Pão de Deus" (Lv 21,8; Nm 28,1). Até mesmo as oferendas ou dízimos estavam sujeitos a essa distribuição sacrificial, sendo entregues num ritual onde uma parte apenas era "comida":

"Em relação a Iahweh, vosso Deus... buscá-lo-eis somente no lugar... escolhido... para aí colocar o seu nome e fazê-lo habitar. Levareis para lá os vossos holocaustos e vossos sacrifícios, vossos dízimos e os dons de vossas mãos, vossos sacrifícios votivos e vossos sacrifícios espontâneos, os primogênitos de vossas vacas e das vossas ovelhas. E comereis lá, diante de Iahweh, vosso Deus,... vós e vossas famílias... (...). Não poderás comer em tuas cidades o dízimo do teu trigo, do teu vinho novo e do teu óleo, nem os primogênitos das tuas vacas e ovelhas, nem algo dos sacrifícios votivos que hajas prometido, ou dos sacrifícios espontâneos, ou ainda dons da tua mão. Tu os comerás diante de Iahweh, teu Deus, somente no lugar que Iahweh, teu Deus, houver escolhido, tu, teu filho, tua filha..." (Dt 12,4-18; leia-se ainda Dt 12,11-12; 14,22-26).

Da citação acima vê-se que somente no lugar indicado por Deus é que se podia comer os sacrifícios, incluído como um deles as oferendas constituídas pelos primogênitos do gado, pelas primícias das plantações, vinho, óleo, pão, pelos dons etc. É de se observar que as oferendas ou dízimos não podiam ser "totalmente comidos", mas apenas "uma parte deles", pois pertenciam por direito aos sacerdotes (Nm 18,9.20.23-24). Fossem "todos comidos" nada se lhes entregaria. Somente "uma parte" era objeto da "santificação sacrificial", entregando-se o "todo" no Templo. Nessa perspectiva, é São Paulo quem esclarece da outra concepção vigente, fazendo com que se entenda melhor o alcance do sacrifício, qual seja a existência de uma solidariedade da parte com o todo, de modos que "à santificação da parte corresponde a santificação do todo":

"E se as primícias são santas, a massa também o será; e se as raízes são santas, os ramos também o serão" (Rm 11,16).

Fundamentou-se naturalmente no que se prescreveu a respeito das primícias da massa do primeiro pão a ser preparado em Israel, qual seja:

"Quando tiverdes entrado na terra para a qual eu vos conduzo, devereis oferecer uma oferenda a Iahweh, tão logo comais do pão dessa terra. Como primícias da vossa massa separareis um pão; fareis esta separação como aquela que se faz com a eira. Dareis a Iahweh uma oferenda do melhor das vossas massas" (Nm 15,18-21).

"Cada dia de sábado serão colocados, permanentemente, diante de Iahweh. ...; pertencerão a Aarão e seus filhos, que os comerão no lugar santo, pois é coisa santíssima para ele, ..." (Lv 24,8-9).

Atinge-se assim ao âmago do que poder-se-ia denominar de Teologia do Sacrifício, qual seja o fato de que " santificação de uma parte corresponde a santificação do todo":

"Eles me farão um santuário, e eu habitarei no meio deles" (Ex 25,8)

OS VÁRIOS TIPOS DE SACRIFÍCIO

Pode-se até mesmo pensar que não seja de muita utilidade um exame do cerimonial dos sacrifícios, tendo-se em vista que atualmente não mais se tem por eles a mesma compreensão cultural. Acontece porém que, por causa disso mesmo, os cerimoniais litúrgicos são muitas vezes incompreendidos, mal vistos ou menosprezados como mera e desnecessária pompa. Além disso, por desconhecer a Teologia do Sacrifício é que hoje não se tem na devida conta o valor da Cerimônia Eucarística em seus elementos constitutivos bem como não se entende muitas vezes as várias partes em que se costuma dividir a Missa. Há até quem admita que venha contrariar os princípios da simplicidade e pobreza evangélicas. Não é bem assim, porém! Principalmente por que a Igreja foi lá encontrar inspiração para a sua liturgia, para vários conceitos de doutrina e até mesmo de moral. Não que a Igreja tenha copiado ou plagiado tais disposições assim propositadamente, mas decorre do próprio fato de que o cristianismo foi sedimentado em cima do judaísmo. Tal como já se disse alhures, Jesus não fundou uma nova religião mas deu plenitude à Lei e aos Profetas (Mt 5,17), no que foi seguido pelos primeiros cristãos, que acomodaram à doutrina cristã tudo aquilo que lhe era apropriado. Em virtude disso, não se pode deixar de abordar pelo menos resumidamente certos detalhes sacrificiais ou da liturgia dos Israelitas pela sua importância na continuidade desejada por Jesus Cristo, na perspectiva de "pleno cumprimento" (Mt 5,17-20) que lhe impôs. 

Pelo que já se viu até aqui, os Sacrifícios se compõem de algumas partes litúrgicas comuns tais como o Altar, o Ofertante, o Sacerdote, a Oferenda, a Imposição das Mãos, a Expiação, Aspersão ou Oferecimento do Sangue ou de Farinha, a Oblação e o Memorial significado na expressão "...de suave odor para o Senhor" [Lv 1,9 / 5,11-13; hebraico = "o bom cheiro que aplaca" (Gn 8,21)]. Apesar de sensíveis diferenças, as mais das vezes, todos estes elementos destacam-se facilmente nos vários tipos que existem. Exatamente no exame dessas diferenças é que se compreende tanto a finalidade deles como sua eficácia e uso, atingindo-se assim em cheio a sua Teologia ou os seus fundamentos religiosos:

1) - Os Holocaustos: Este é o ritual mais perfeito, pleno e solene de culto, pelo reconhecimento da soberania divina e de homenagem ao Criador que traduz. É o Sacrifício por excelência, de adoração, ação de graças ou expiação de pecados, sempre usado desde antes dos Patriarcas e por eles (Gn 4,3-4; 8,20; 22,13; Ex 18,12; 24,50), significando, na queima total da vítima, o nada da criatura e de seus bens perante Iahweh. É escolhido do gado maior da manada, - o bovino, ou o gado menor do rebanho, - o ovino, ou das aves, - as rolas ou os pombos. A única diferença que ocorre é que o ofertante "imolará o animal" menor "junto ao flanco norte do altar" (Lv 1,11) e o maior à entrada da Tenda da Reunião (Lv 1,3-5). Com a oferta de aves "o sacerdote levará a vítima ao altar e, destroncando-lhe a cabeça, a queimará sobre ele. Depois de deixar escorrer o sangue sobre a parede do altar, tirará o papo e a plumagem e os lançará do lado leste do altar, no lugar das cinzas. Então o sacerdote dividirá a ave pelas asas, mas sem as separar, e a queimará sobre a lenha acesa no altar" (Lv 1,15-17).

A vítima da manada deve ser um macho sem defeito, impondo-lhe as mãos o ofertante, para a substituição que se perfaz, estabelecendo assim a solidariedade dela com ele, apresenta-a na entrada da Tenda da Reunião e imola-a "na presença de Iahweh", diante do Santuário, no Átrio (Lv 1,5), cujo sangue, "sede da vida" (Gn 9,4), é derramado pelo sacerdote em torno do Altar. Então o Ofertante a esquartejará (Lv 1,6) e os Sacerdotes disporão as várias partes no Altar onde tudo será totalmente queimado, no fogo ai existente e que não se apaga (Lv 6,5-6), bem como a gordura, as patas e vísceras devidamente lavadas. É este o Sacrifício por excelência junto aos Israelitas, tão importante que se consideraria uma desgraça nacional a profanação ou extinção do Holocausto Quotidiano, que deveria ser praticado cada manhã e tarde de todos os dias, mantendo-o aceso "sem jamais se apagar" (Lv 6,6 / Dn 8,13; 11,31):

"O Senhor falou a Moisés: "Manda dizer a Aarão e a seus filhos: Esta é a lei do holocausto: o holocausto ficará sobre a lareira do altar a noite inteira, até a manhã seguinte, e o fogo do altar será mantido aceso" (Lv 6,1-3 / Nm 28,3-8).

Identificam-se, tanto este Sacrifício, como os demais, ao de Cristo de que são "figura" (Hb 9,24; Rm 15,4; 1Co 10,6; Gl 4,24; 1Pe 3,21), de quem lhes vêm o valor e a eficácia como adoração, expiação e ação de graças (Hb 9,11-14). Cristo, entregue para a Redenção do Homem, Humanidade e Divindade, todo e inteiro, subindo ao Altar de Cruz e "derramando o Seu Sangue": - Deixando-se consumir completamente pela Caridade, melhor, pelo Amor de Deus, como Substituição Salutar do Homem, em Expiação e em Ação de Graças e subindo ao céu, Ressuscitado, tal como o "perfume de agradável odor a Deus" (Lv 1,9.13.17), realizou com plenitude e perfeição o Holocausto de Si mesmo:

"Com efeito, segundo a Lei, quase todas as coisas devem ser purificadas com sangue e não há remissão sem efusão de sangue. Era necessário, pois, que as 'figuras' das realidades celestes fossem purificadas. Mas as próprias realidades celestes requerem sacrifícios mais excelentes do que aqueles. Pois Cristo não entrou num santuário feito por mão humana, figura do verdadeiro, mas no próprio céu, para comparecer agora na presença de Deus em nosso favor. E não entrou para se oferecer muitas vezes a si mesmo, como o Sumo Sacerdote que entrava todos os anos no santuário, para oferecer sangue alheio. Do contrário lhe seria necessário padecer muitas vezes desde o princípio do mundo. Mas só apareceu agora, uma vez apenas, na plenitude dos séculos, para destruir o pecado pelo sacrifício de si mesmo" (Hb 9,19-26).

Assim ensina o atual Catecismo da Igreja Católica:

"É com base na harmonia dos dois testamentos (v. "Dei Verbum" n.°s. 14-16) que se articula a catequese pascal do Senhor (cf. Lc 24,13-49) e, depois, a dos Apóstolos e dos Padres da Igreja. Esta catequese desvenda o que estava oculto sob a letra do Antigo Testamento: o mistério de Cristo. É chamada "tipológica", porque revela a novidade de Cristo a partir das "figuras" (tipos) que a anunciavam nos fatos, palavras e símbolos da primeira Aliança. Aquelas figuras são desvendadas por esta releitura no Espírito de verdade a partir de Cristo (v. 2Co 3,14-16). Assim, o dilúvio e a arca de Noé prefiguravam a salvação pelo Batismo (cf. 1Pe 3,21); igualmente a nuvem e a travessia do Mar Vermelho, e a água do rochedo eram figura dos dons espirituais de Cristo (cf. 1Co 10,1-6); e o maná do deserto prefigurava a Eucaristia, "verdadeiro Pão do Céu" (Jo 6,32)" (n.° 1094, os negritos são propositais).

2) - As Oblações: São os Sacrifícios Incruentos por não ocorrer o derramamento de sangue, praticados com produtos do solo, cultivados para alimento do Homem, tal como farinha de trigo no estado natural (Lv 2,1-3) ou em forma de pão sem fermento cozido no forno ou em assadeira (Lv 2,4-7) a que o Sacerdote ajunta, o azeite e o incenso oferecido, à uma parte queimada em "suave odor ao Senhor". O restante, pertencente aos Sacerdotes (Lv 2,2-3), seria comido no Átrio da Tenda da Reunião, o "lugar sagrado" (Lv 6,9). Formam uma exceção, pois o verdadeiro Sacrifício exige o derramamento do sangue "que expia" (Lv 17,11). Só raramente são praticadas isoladamente (Lv 5,11; 6,12-16), então usadas como alternativa para os pobres tendo o mesmo valor expiatório (Lv 5,11-13). Geralmente é um complemento obrigatório no Holocausto e nos Sacrifícios Pacíficos, motivo porque vem apresentado entre ambos. Não se pode usar fermento, nem mel, e "...porás sal... o Sal da Aliança do Senhor às ofertas e em todas as ofertas oferecerás sal" (Lv 2,13). É a este sal que compara Jesus seus Apóstolos pela consagração feita: 

"Vós sois o sal da terra. Mas se o sal perder o seu sabor, com o que se há de salgar? Já não servirá para nada, apenas para ser jogado fora e pisado pelas pessoas" (Mt 5,13).

Não se podia usar o fermento e o mel eis que facilmente degeneráveis, enquanto que o sal, que conserva os alimentos, tem, no Oriente Médio, o condão de unir até mesmo inimigos, eis que o ingerir em comum significa a "união de coração", de duração perene e inviolável, caráter esse que se tornou presente no significado da Aliança, donde a denominação de Aliança de Sal: 

"Sabeis muito bem que o Senhor Deus de Israel concedeu a Davi o direito de reinar sobre Israel para sempre, a ele e seus descendentes, por uma aliança de sal" (2Cro 13,4-5).

Vem em seguida a Oblação das Primícias "Se fizeres ao Senhor uma oblação de primícias, deverá ser de espigas tostadas ao fogo e grãos moídos do fruto fresco. Sobre ela oferecerás azeite e porás incenso. É uma oblação. Dela o sacerdote queimará como memorial uma parte dos grãos moídos e do azeite, além de todo o incenso. É um sacrifício pelo fogo ao Senhor" (Lv 2,14-16), uma oblação particular pelo que difere das oferendas públicas das primícias (Ex 13,2; 22,28-29). 

Desde os primórdios do Cristianismo a Tradição vê no Sacrifício da Missa o cumprimento da Profecia de Malaquias com referência à "oblação pura" e incruenta (v. tb. Catecismo da Igreja Católica n.°s. 1330, 1350 e 2643):

"Sim, do levantar ao pôr-do-sol, meu nome será grande entre as nações e em todo lugar será oferecido a meu nome um sacrifício de incenso e uma oblação pura. Porque meu nome é grande entre as nações! – diz o Senhor Todo-Poderoso" (Ml 1,11) 

3) - Os sacrifícios pacíficos ou salutares: São as denominadas Refeições Sagradas, celebradas em agradecimento por algum favor recebido ou para o conseguir, em que determinadas partes da vítima eram comidas pelo ofertante e seus convidados no Santuário. Tanto as partes gordas eram queimadas, como o sangue era derramado sobre o Altar, ao redor, e duas partes eram destinadas aos Sacerdotes. Distinguem-se do Holocausto essencialmente nas partes de Deus, que passam a se resumir apenas no sangue e na gordura da vítima. Esta tanto pode ser macho ou fêmea, o peito e uma perna vão para os Sacerdotes e o restante é "banqueteado" pelo Ofertante e seus familiares ou convidados. Não há necessidade de se expender, detalhando-se minuciosamente todas as espécies deles, eis que muito se assemelham, sem muita variação de monta e facilmente perceptíveis por uma simples leitura do texto.

É a estes tipos de Sacrifícios que São Paulo se refere ao compará-los com a Eucaristia (Veja acima o n.° 8 do Capítulo 3):

"Olhai o Israel segundo a carne. Não entram em comunhão com o altar os que comem das vítimas sacrificadas?" (1Cor 10,18).

Esse "banquete" do qual todos participam (Iahweh-Deus, os Sacerdotes, o Ofertante, seus familiares e convidados), parte obrigatória do ritual, imprime aquela intimidade de vidas que é a principal característica do aconchego de uma refeição familiar, aquela comunhão plena que se manifesta na liberdade de ampla e descontraída comunicação mútua. Tudo indica que culturalmente está enraizado na própria natureza humana, eis que se trata de acontecimento comum a todas as épocas e civilizações. Basta mencionar a realização costumeira de banquetes por ocasiões de fatos ou comemorações especiais como o noivado, o casamento, o batizado, o aniversário etc.. Também nos atos públicos de inaugurações, instalações, visitas de pessoas célebres, acordos internacionais etc., essas cerimônias sempre se completam com uma refeição festiva. Nessas ocasiões todos se confraternizam em intimidades descontraídas e se harmonizam a partir e em torno de um paladar as mais das vezes agradável, comum e habitual. Jesus se despediu dos Seus Discípulos em uma "Refeição Sagrada", na Santa Ceia, onde instituiu a Eucaristia, conhecida como "comunhão", "fonte e ápice da vida cristã" (Conc. Do Vat. II, "Lumen Gentium", n.° 11):

"Jesus fez a manifestação suprema da oblação livre de Si mesmo na refeição que tomou com os doze Apóstolos (cf. Mt 26,20), na "noite em que foi entregue" (1Co 11,23). Na véspera da Sua Paixão, quando ainda era livre, Jesus fez desta Última Ceia com os Apóstolos o memorial de sua oblação voluntária ao Pai (cf. 1Co 5,7) para a salvação dos homens: "Isto é o meu Corpo, que vai ser entregue por vós" (Lc 22,19). "Isto é (...) o Meu Sangue da Nova Aliança, que vai ser derramado por uma multidão, para remissão dos pecados" (Mt 26,28)" (Catecismo da Igreja Católica n.° 610, negritos propositais).

4) - Os sacrifícios pelo pecado: são também conhecidos como Sacrifícios Expiatórios ou De Expiação, eis que não existia uma palavra específica para "pecado", tal como atualmente. O Israelita usava "iniqüidade", "impiedade", "falta", "mancha", "transgressão", "revolta", "injustiça", "dívida" etc.. Contracenando com a figura do "justo", o que "anda ("faz o bem") na presença de Deus", o pecador de então é "aquele que faz o mal na face de Deus", um "ímpio", "mau" etc.. Também não se usava o termo "perdão" nas dimensões atuais da "justificação batismal", com referência a ele, mas esse termo "expiação", como que uma purificação "propiciatória", levando o Homem a se predispor em condições de agradar a Deus, que desagradou com algum ato que necessita "expiar", extinguir, purificando-se. Impondo as mãos sobre a cabeça da vítima identificava-se com ela, representada na substituição e solidariedade estabelecida. Todo Sacrifício Pelo Pecado se identifica ao Holocausto, a ele se assemelha distinguindo-se na variedade casuística em que se apresenta.

Após uma breve introdução onde se situam os pecados por inadvertência ou por erro, fruto da fraqueza humana contra qualquer dos Mandamentos (Lv 4,1-12), apresenta-se o Sacrifício pelo pecado do Sumo Sacerdote (Lv 4,3-12), de todo o povo (Lv 4,13-21), de um chefe (Lv 4,22-26) e de um simples Israelita (Lv 4,27-35), completando-se com a exceção do Sacrifício especial para a Pobreza (Lv 5,7.11-13).

4.1 - Seguem-se dispositivos atinentes aos Sacrifícios de Reparação ou Pelo Delito, um ato involuntário ou por ignorância (Lv 5,1-10.14-26).  É necessário esclarecer que dessa "classificação" dos pecados há que se distinguir aqueles praticados "com a mão levantada" (Nm 15,30-31), para os quais não há remissão, resultando sempre na eliminação do culpado do seio do Povo, uma espécie de "excomunhão". Essa divisão caracteriza ainda a gravidade do pecado, que tem maior efeito danoso, quando praticado por pessoa responsável pela integridade moral do meio social, a começar com "o que foi ungido" (Lv 4,3.16; 6,15; 7,35), e recebe a denominação de Sumo Sacerdote. 

A mais importante personalidade de Israel, cometendo falta no exercício de suas funções, compromete em muito a santificação de toda a comunidade, exigindo assim um Sacrifício especial: oferece então um novilho sem defeito, impondo-lhe as mãos e imolando-o em frente ao Santuário; em seguida, tomando do sangue, vai à Tenda da Reunião onde molha nele o dedo e faz sete aspersões em frente do véu; "unge" com ele os chifres do Altar do Incenso, derramando o resto ao pé do Altar dos Holocaustos; "tirará depois a gordura do bezerro sacrificado pelo pecado, a gordura que cobre as vísceras e toda a gordura aderente, os dois rins com a gordura que os cobre na região lombar, e a camada gordurosa do fígado, que deverá separar com os rins – exatamente como se faz com o touro de um sacrifício pacífico – e o sacerdote queimará tudo sobre o altar dos holocaustos. O couro do bezerro, toda a carne, além da cabeça, pernas, vísceras e excrementos, enfim, será levado o bezerro inteiro para fora do acampamento, a um lugar puro, onde se jogam as cinzas, e o queimará sobre um fogo de lenha. Será queimado no lugar onde se jogam as cinzas" (Lv 4,8-12).

Os demais seguem o mesmo esquema mudando-se o tipo de vítima e alguns detalhes do ritual seguido, mas sempre mantido o caráter de um verdadeiro Holocausto, ninguém se alimentando das vítimas imoladas, e não se beneficiando o pecador com a "vítima" do seu pecado. Pelo fato de ser assim, queimado fora do acampamento, esse Sacrifício pelo Pecado do Sumo Sacerdote é comparado com a Crucifixão de Jesus, que se renova na Missa de maneira incruenta:

"Os corpos daqueles animais cujo sangue, para a expiação dos pecados, é introduzido no santuário pelo Sumo Sacerdote, são queimados fora do acampamento. Pelo que também Jesus, a fim de santificar o povo com seu sangue, padeceu fora das portas. Saiamos, pois, para ir ter com ele fora do acampamento carregando a sua ignomínia, pois não temos aqui cidade permanente, ao contrário, buscamos a futura. Por ele ofereçamos continuamente a Deus sacrifícios de louvor, isto é, o fruto dos lábios que celebram seu nome. Da beneficência e da mútua assistência não vos esqueçais, pois Deus se compraz com estes sacrifícios" (Hb 13,10-16).

Esta variedade de Sacrifícios conforme a gravidade das faltas cometidas servem para se conhecer a existência de uma graduação de pecados, tal como ainda são dispostos em mortais e veniais:

"Se alguém vir o irmão cometer um pecado que não leva à morte, ore e alcançará a vida para os que não pecam para a morte. Há um pecado para a morte, mas não é por este que digo que se rogue. Toda injustiça é pecado, mas há pecado que não é para a morte" (1Jo 5,16-17).

"Há um pecado para a morte...há pecado que não é para a morte" - eis ai uma graduação bem clara com o que mais uma vez se identifica a continuidade de algumas noções teológicas do judaísmo (cf. Catecismo da Igreja Católica n.°s. 1852 a 1861 e1862 a 1864).

Quanto aos demais conteúdos dos sacrifícios, basta uma simples leitura do contexto todo para se distinguir todas as diferenças e semelhanças, dispensando-se maiores comentários.