I João: Quem ama nasceu de Deus e conhece a Deus
(parte III)

5. Terceira parte (4,7-5,13): Amor e fé

A terceira parte da carta trata do amor e da fé, dois temas estreitamente unidos sob um único mandamento, como já foi apontado em 3,23: "O mandamento é este: que tenhamos fé no nome do seu Filho Jesus Cristo e nos amemos uns aos outros, conforme ele nos mandou". A carta desenvolve, então, esses dois temas, mostrando-os como colunas que sustentam a comunidade cristã. O amor refere-se às relações entre as pessoas; a fé toca as relações entre as pessoas e Jesus. Amor e fé, portanto, abraçam todo tipo de relação e todas as dimensões da vida.

5.1. O amor (4,7-5,4)

Amados, amemo-nos uns aos outros, pois o amor vem de Deus. E todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus. Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor. Nisto se tornou visível o amor de Deus entre nós: Deus enviou o seu Filho único a este mundo, para dar-nos a vida por meio dele. E o amor consiste no seguinte: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou, e nos enviou o seu Filho como vítima expiatória por nossos pecados.

Amados, se Deus nos amou a tal ponto, também nós devemos amar-nos uns aos outros. Ninguém jamais viu Deus. Se nos amamos uns aos outros, Deus está conosco, e o seu amor se realiza completamente entre nós. Nisto reconhecemos que permanecemos com Deus, e ele conosco: ele nos deu o seu Espírito. E nós vimos e testemunhamos que o Pai enviou o seu Filho como Salvador do mundo. Quando alguém confessa que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece com ele, e ele com Deus. E nós reconhecemos o amor que Deus tem por nós e acreditamos nesse amor. Deus é amor: quem permanece no amor permanece em Deus, e Deus permanece nele. Nisto se realizou completamente o amor entre nós: o fato de termos plena confiança no dia do julgamento, porque tal como Jesus é, assim somos nós neste mundo. No amor não existe medo; pelo contrário, o amor perfeito lança fora o medo, porque o medo supõe castigo. Por conseguinte, quem sente medo ainda não está realizado no amor. Quanto a nós, amemos, porque ele nos amou primeiro. Se alguém diz: "Eu amo a Deus", e no entanto odeia o seu irmão, esse tal é mentiroso; pois quem não ama o seu irmão, a quem vê, não poderá amar a Deus, a quem não vê. E este é justamente o mandamento que dele recebemos: quem ama a Deus ame também o seu irmão.

Quem acredita que Jesus é o Messias nasceu de Deus; e quem ama aquele que gerou ama também aquele que por este foi gerado. Nisto reconhecemos que amamos os filhos de Deus: quando amamos a Deus e cumprimos os seus mandamentos. Porque amar a Deus significa observar os seus mandamentos. E os seus mandamentos não são pesados, porque todo aquele que nasceu de Deus venceu o mundo. E esta é a vitória que venceu o mundo: a nossa fé.

Esse texto desenvolve e aprofunda o tema do amor, que já apareceu anteriormente na carta, e põe um ponto final no segundo nível de conflitos das comunidades joaninas. De modo geral, o amor diz respeito às relações entre as pessoas. Mais ainda: somente aquele que ama o irmão pode ter certeza de estar amando a Deus. Mas quem afirma amar a Deus sem traduzir isso em relações de fraternidade é mentiroso. É por isso que o texto começa pedindo que as pessoas se amem.

Três coisas são ditas a respeito do amor. Primeiramente, afirma-se que o amor vem de Deus. Deus é portanto a origem e a fonte inesgotável do amor. Em segundo lugar, afirma-se que quem ama nasceu de Deus, tema já desenvolvido na segunda parte da carta. Em terceiro lugar, diz-se que quem ama conhece a Deus. Esse último detalhe é muito importante, pois o grupo dos Anticristos, influenciado pelo gnosticismo, afirmava que conhecemos a Deus simplesmente mediante o esforço da razão. Diríamos: conhecemos a Deus com a cabeça, com a mente. Essa é uma característica típica da filosofia grega, ao passo que para o povo da Bíblia conhecer significa experimentar concretamente. O conhecimento se dá pelo contato, pelo encontro e pelo confronto.

O texto oferece a maior e insuperável definição de Deus: Deus é amor (4,8.16). O amor só se concretiza quando o vivemos. De forma semelhante, Deus só é conhecido à medida que amamos. O amor não tem limites, e possui infinitas formas de se expressar, e assim é Deus. Todavia, a expressão mais alta do amor de Deus para conosco é o envio do seu Filho único para dar-nos a vida. O amor, de fato, vem de Deus, pois ele tomou a iniciativa de nos amar. A carta retoma o que já havia dito, ou seja, Deus não pede que o amemos como resposta ao seu amor por nós e ao envio do seu Filho. Se quisermos manifestar nosso amor para com Deus, amemo-nos uns aos outros. O amor de Deus é gratuito e desinteressado. O nosso amor para com Deus está comprometido e só chega a Deus passando pelas pessoas. O amor as pessoas é, de alguma forma, a presença visível do Deus invisível. Para ver, conhecer ou experimentar a Deus, basta amar. O Espírito Santo é o "sacramento" do amor que o Pai tem para com o Filho. É também o "sacramento" do Pai e do Filho em nós. Temos assim, nesse texto, uma formulação trinitária, e descobrimos que a Trindade é amor, que a Trindade não é uma teoria, mas uma prática de amor.

O texto insiste na palavra "permanecer", tema importante também para o Evangelho de João. É o amor às pessoas que dá razão a esse "permanecer" em Deus, como os ramos unidos à videira e que produzem frutos (João 15,lss). Os frutos não são primeiramente para Deus, mas se referem às relações de fraternidade e de justiça entre as pessoas.

A carta toca mais uma vez o terceiro nível de conflitos das comunidades joaninas, falando agora claramente de julgamento em 4,17 (veja também 2,28 e 3,19). Recordemos outra vez a influência do Evangelho de Mateus nesse texto. Quem ama não tem o que temer no dia do julgamento, e não tem o que temer enquanto viver, porque o amor ao próximo é a razão da confiança ao longo da vida e para o dia do julgamento. As relações de quem ama baseiam-se portanto na confiança; as relações de quem não ama baseiam-se no medo, e no medo de um castigo. Quem afirma amar a Deus sem amar as pessoas na verdade não consegue experimentar concretamente o amor que é Deus, e ao invés de permanecer em Deus permanece no medo e na idéia de um Deus que pode castigar.

Já dissemos que a carta vai retomando temas como numa escada em caracol ou como num arranjo de flores. No trecho de 5,1-4 podemos perceber bem como isso acontece. Aqui o autor retoma, relacionando-os ao tema do amor, outros temas já apresentados anteriormente: nascer de Deus, os mandamentos e vencer o "mundo". E ao mesmo tempo em que retoma temas anteriores, aponta já para o próximo tema: a fé (5,4).

5.2. A fé (5,5-13)

De fato, quem pode vencer o mundo, senão aquele que acredita que Jesus é o Filho de Deus? Este é aquele que veio pela água e pelo sangue: Jesus Cristo. (Ele não veio apenas pela água, mas pela água e pelo sangue.) E é o Espírito quem dá testemunho, porque o Espírito é a Verdade. Portanto, são três que dão testemunho: o Espírito, a água e o sangue, e os três estão de acordo entre si. Se aceitamos o testemunho dos homens, com maior razão aceitamos o testemunho de Deus. E o testemunho de que falamos é de Deus: ele deixou um testemunho do seu Filho.

Quem acredita no Filho de Deus tem esse testemunho dentro de si mesmo. Quem não acredita em Deus faz dele um mentiroso, porque não acredita no testemunho que ele deu em favor do seu Filho. E o testemunho é este: Deus nos deu a Vida eterna, e esta Vida está em seu Filho. Quem tem o Filho tem a Vida; quem não tem o Filho de Deus não tem a Vida.

Escrevo tudo isso para que vocês, que acreditam no nome do Filho de Deus, estejam certos de que têm Vida eterna.

A carta afirmou que Deus é amor, e como tal é ponto de partida de todas as coisas. O amor que vem de Deus e se expressa em relações fraternas também possui um poder gerador de vida. O que o amor gera? De acordo com o Evangelho de João, o amor gera a fé, e a fé gera o testemunho. É disso que fala esse texto.

Jesus, o Filho de Deus, com sua morte e ressurreição venceu o "mundo" (ver João 16,33). Aquele que acredita nisso associa-se a essa mesma vitória de Jesus. Tocase aqui mais uma vez o primeiro nível de conflitos das comunidades joaninas.

A expressão "pela água e pelo sangue" talvez se refira à totalidade da vida de Jesus, desde o batismo (água) até a entrega total na cruz (sangue). O texto insiste muito na palavra "testemunho", que aparece dez vezes neste trecho. O contexto parece ser o de um tribunal, em que estão presentes três testemunhas de defesa de Jesus: o Espírito, a água e o sangue. O testemunho de Deus, portanto, é perfeito. E com isso a carta quer motivar o testemunho das pessoas como conseqüência da fé. O resumo do testemunho é assim descrito: "Deus nos deu a Vida eterna, e esta Vida está em seu Filho" (5,11). A carta, pois, começa e termina falando a mesma coisa, ou seja, da vida eterna que está no Filho. E quem adere ao Filho com a fé e dele tornase testemunho participa dessa vida que não termina.

6. Conclusão (5,14-21): Oração e discernimento

Ao nos dirigirmos a Deus, podemos ter esta confiança: quando pedimos alguma coisa conforme o seu projeto, ele nos ouve. E, se sabemos que ele nos ouve em tudo o que lhe pedimos, estamos certos de que já obtivemos o que lhe havíamos pedido.

Se alguém vê o seu irmão cometer um pecado que não leva à morte, que ele reze, e Deus dará a vida a esse irmão. Isso quando o pecado cometido não leva para a morte. Existe um pecado que leva para a morte, mas não é a respeito desse que eu digo para rezar. Toda injustiça é pecado, mas existe pecado que não leva para a morte.

Nós sabemos que todo aquele que nasceu de Deus não peca; Jesus, que foi gerado por Deus, o guarda, e por isso o Maligno não o pode atingir. Nós sabemos que somos de Deus, ao passo que o mundo inteiro está sob o poder do Maligno. Sabemos que o Filho de Deus veio e nos deu inteligência para conhecermos o Deus verdadeiro. E nós estamos com o Verdadeiro, graças a seu Filho Jesus Cristo.

Este é o Deus verdadeiro e a Vida eterna. Filhinhos, cuidado com os ídolos...

A oração não é o único tema deste trecho final. Outros temas, já vistos ao longo da carta, retornam aqui rapidamente: pecado, nascer de Deus, Maligno, verdade, vida eterna etc. Isso demonstra que estamos diante de um resumo da carta, e talvez esse resumo tenha sido elaborado por outra pessoa e acrescentado posteriormente como conclusão da carta.

O tema principal, contudo, é a oração. O que é rezar? É entrar em sintonia com o projeto de Deus. Quando há essa sintonia, podemos ter a confiança de que Deus nos ouve. É, em outras palavras, o que se diz na oração do Pai-nosso: "seja feita a tua vontade" (Mateus 6,10a). Isso não de forma passiva ou como resignação, mas como compromisso com o projeto de Deus. Esse tema já havia aparecido em João 14,12-14. A oração toca também as relações comunitárias num momento delicado, ou seja, quando deparamos com o limite ou a fraqueza da pessoa. O que fazer quando vemos um irmão cometer um pecado que não leva à morte? A carta sugere que se reze, e "Deus dará a vida a esse irmão". É uma proposta nova em relação ao que diz Mateus 18,15-20. Por quê? Talvez o texto de Mateus seja direcionado às lideranças das comunidades que detêm o poder. As comunidades joaninas, por serem de iguais e fraternas, acreditam no poder da oração como forma de superação dos conflitos decorrentes das fraquezas e das limitações humanas.

Retorna o tema do pecado. O texto fala de dois tipos de pecado: um que conduz à morte e outro não. A oração se deve fazer por quem comete pecado que não conduz à morte. Como foi dito, o pecado que não conduz à morte é aquele decorrente das fraquezas e limitações humanas, pecado que comete também aquele que está empenhado no projeto de Jesus. O pecado que conduz à morte, no entanto, refere-se à rejeição radical da proposta de Jesus, e nesse caso o pecado permanece (João 9,41). Assim como Jesus não rezou pelo "mundo" (João 17,9), a carta desconsidera a oração por quem comete o pecado que leva à morte.

Reaparece o tema da injustiça enquanto sinônimo de não amar (5,17), e voltam também outros temas já mencionados. A carta termina com um alerta contra os ídolos. Para nós talvez não seja claro de que ídolos se trate. Com certeza os fiéis das comunidades joaninas tinham uma compreensão mais clara do que a nossa a esse respeito. Quem seriam esses ídolos? Os deuses dos pagãos? Ou os próprios Anticristos? De qualquer forma, terminamos a carta sabendo que toda a sua mensagem se dá num contexto de idolatria. Se os cristãos não discernem entre o que é o projeto de Deus e o projeto dos ídolos (pessoas, coisas e instituições que se absolutizam), a sociedade como um todo se torna espaço para qualquer tipo de idolatria que gera a morte.

Continuando a pensar...

1. Frequentemente pensamos que Deus pede muitas coisas para ele. Rigorosamente falando, Deus não pede nada para si. Se quisermos fazer alguma coisa para Ele, é preciso que a façamos aos outros. Comentar.

2. "O amor perfeito lança fora o medo, porque o medo supõe castigo." Conversar sobre isso.

3. A fé é filha do amor e mãe do testemunho. Conversar sobre isso.

4. Rezar não é querer obrigar Deus a fazer a nossa vontade, mas entrar em sintonia com o projeto dele. O que isso tem a ver com a nossa oração?

5. Quando um pecado leva à morte?

6. No tempo em que esta carta foi escrita, existiam muitos ídolos. E hoje? Quais são os ídolos de hoje? 7. Fazer uma síntese das cartas, salientando as descobertas e anotando as dúvidas.

José Bortolini e Paulo Bazaglia, em “Como ler as Cartas de João”, Editora Paulus