OS "IRMÃOS" DE JESUS

São sete os textos de Novo Testamento que mencionam irmãos de Jesus: Mc. 6,3; Mc. 3,31 -35; Jô 2,12; 7,2 - 10; At. 1,14; Gl. 1,19; 1 Cr. 9,5. Chamavam-se, conforme Mc. 6,3; Mt. 13,55 s: Tiago, José, Judas e Simão. Vejamos quem eram eles segundo os evangelhos:

1. Jesus, Filho único

1) Lc. 2,41 - 52: Jesus, aos doze anos, foi com José e Maria a Jerusalém, permanecendo aí os sete dias da festa de Páscoa (ver Lc. 2, 43). Contando com os dias de viagem de ida e volta, a Sagrada Família deve ter ficado cerca de quinze dias fora de casa. Ora, Maria não pode ter deixado no lar, e por tanto tempo, filhos pequenos. Donde se conclui com muita verossimilhança que aos doze anos Jesus era filho único. Esta conclusão é confirmada pelo texto seguinte:

2) Jô 19, 26 s.: Jesus ao morrer, confiou sua mãe a João, filho de Zebedeu, membro de outra família. Este gesto do Senhor seria incompreensível, se Maria tivesse outros filhos em casa.

3) O Novo Testamento nunca fala de filhos de Maria e José. Jesus é dito "filho de José", putativo ou suposto em Lc. 3,23; é dito "o filho de Maria" (com artigo) em Mc. 6,3. O Evangelho nunca diz: "a Mãe de Jesus e seus filhos", embora isto fosse muito natural se ela tivesse muitos filhos (ver Mc. 3,31 - 35; At. 1,14). O Evangelho se refere sempre a "Maria e os irmãos de Jesus".

Estas considerações dão a concluir que Jesus era filho único de Maria. - Por que então os Evangelhos falam de irmãos de Jesus?

2. Por que "irmãos"?

O aramaico, que os judeus falam no tempo de Jesus e que os evangelistas supõem, era uma língua pobre de vocábulos. A palavra aramaica e hebraica "ha" podia significar não somente os filhos dos mesmos genitores, mas também os primos ou até parentes mais distantes. No Antigo testamento vinte passagens atestam esse significado amplo de irmão.

Assim, por exemplo:

Gn. 13,8: Abraão disse a seu sobrinho Lote, filho do seu irmão: "Somos irmãos". Ver também Gn. 14,14 - 16

Gn. 29,12.15: Jacó se declara irmão de Labão, quando na verdade era filho de Rebeca, irmã de Labão.

Gn. 31, 23 refere que com seus irmãos, isto é, com seus parentes de sexo masculino, foi ao encalço de Jacó.

1 Cr. 23,21 - 23: "Os filhos de Merari foram Moholi e Musi. Os filhos de Moholi foram Ecleázaro e Cis. Ecleázaro morreu sem ter filhos, mas apenas filhas; os filhos de Cis, seus irmãos (= primos), as tomaram por mulheres".

Ver ainda 1 Cr. 15,5; 2 Cr. 36,10; 2 Rs. 10,13; Jz. 9,3; 1 Sm 20,29 ... Na base desta verificação, não teremos dificuldades de compreender que "os irmão" de Jesus eram, na verdade, primos de Jesus. Este parentesco se deduz dos seguintes textos:

Em Mt. 27,56 lê-se: "Estavam ali (no Calvário), a observar de longe..., Maria de Mágdala, Maria mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu".

Essa Maria mãe de Tiago e José, não é esposa de São José, mas de Cleofas, conforme Jô 19, 25; era também a irmã de Maria Mãe de Jesus, como se lê abaixo:

Jo. 19,25: "Estavam junto à Cruz de Jesus sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria (esposa) de Cleofas, e Maria de Mágdala".

Pois bem; os nomes Cleofas e Alfeu designam em grego a mesma pessoa, pois são formas gregas do nome aramaico Claphai. Ora, o mais antigo historiador da Igreja, Hegesipo, nos diz que Cleofas e Maria de Cleofas tiveram como filhos Tiago, José, Judas e Simão. Estes, portanto, eram primos de Jesus. O fato de que no Evangelho sempre aparecem com Maria embora não fossem filhos, mas sobrinhos de Maria, se explica do seguinte modo:

No judaísmo antigo, a mulher não costumava apresentar-se sozinha em público, mas sempre acompanhada por parentes próximos do sexo masculino. Ora, julga-se que José, esposo de Maria, tenha falecido antes do início da vida pública de Jesus; quando Jesus saiu de casa para iniciar sua missão, Maria passou a ser acompanhada pelos irmãos de Jesus, que eram sobrinhos de Maria.

Uma vez explicado o parentesco, consideremos algumas objeções.

3. Objeções

1) "Até que..." (Mt. 1,25)

Lê-se em Mt. 1,25: "José não conheceu Maria (= não teve relações com Maria) até que ela desse à luz um filho (Jesus)". Significa isto que, depois de ter dado à luz Jesus, Maria teve relações conjugais com José?

Não necessariamente. A expressão "até que" corresponde ao hebraico ad ki. Ora, esta partícula na Escritura ocorre para designar apenas o que se deu (ou não se deu) no passado sem indicação do que havia de acontecer no futuro. Tenhamos em vista, por exemplo, Gn. 8,7. O corvo que Noé soltou após o dilúvio, não voltou à arca "até que as águas secassem". Isto não quer dizer que, depois do dilúvio, o corvo voltou à arca. Ver também Sl. 109 (110) 1.

Ainda hoje usa-se semelhante modo de falar, quando, por exemplo, se diz: "Tal homem morreu antes de ter realizado os seus planos" ou "antes de ter pedido perdão". Isto não significa que, depois da morte, o defunto realizou seus planos ou pediu perdão... Vê-se que, nestes casos, há referencias ao passado, prescindindo do futuro, como no caso de Mt. 1,25. Por conseguinte, poderíamos traduzir este versículo como se segue: "Sem que ele (José) a tivesse conhecido (isto é, tomado em consórcio marital), ela (Maria) deu à luz..."

2) "Primogênito" (Lc. 2,7)

Lê-se em Lc. 2,7: "Maria deu à luz o seu filho primogênito, envolveu-o em faixas e deitou-o numa manjedoura".

O termo "primogênito" não significa que Maria tenha tido outros filhos após Jesus. Em hebraico bekor, primogênito, podia designar simplesmente "o bem-amado", pois o primogênito é certamente aquele dos filhos no qual durante certo tempo se concentra todo o amor dos pais; além disto, o primogênito era pelos hebreus julgado alvo de especial amor da parte de Deus, pois devia ser consagrado ao Senhor desde os seus primeiros dias (cf. Lc. 2,22; Ex. 13,2; 34,19). A palavra "primogênito" podia mesmo ser sinônima de "unigênito", pois um e outro vocábulo na mentalidade semita designam "o bem amado". Tenhamos em vista, por exemplo, Zc. 12,11: "Quanto áquele que transpassaram, chorá-lo-ão como se chora um filho unigênito; chorá-lo-ão amargamente como se chora um primogênito". Mesmo fora da terra de Israel podia-se chamar "primogênito" o menino que não tivesse um irmão nem irmã mais jovem. É o que atesta uma inscrição sepulcral judaica datada de 5 a.C. e descoberta em Tell-el-Yedouhieh (Egito) no ano de 1922; lê-se aí que uma jovem mulher chamada Arsinoé morreu "nas dores do parto de seu filho primogênito". Notemos neste texto o modo de falar que observamos a respeito de Mt. 12,5; "primogênito" vem a ser apenas o filho antes do qual não houve outro, não necessariamente aquele após o qual houve outros.

Estas considerações dão a ver claramente que não se podem apoiar na Bíblia aqueles que querem atribuir a Maria a maternidade de muitos filhos.