A  FIGURA  DE  JESUS

  “Quem é este a quem até o vento e o mar obedecem?” (Mc. 4,41)

O objetivo desse texto é propor uma breve reflexão sobre o significado da pessoa de Jesus, particularmente sobre como ela se nos apresenta, ou seja, sobre a sua figura (daí o título do mesmo), não esquecendo que Ele não é apenas objeto de estudo histórico, pois qualquer abordagem de sua pessoa exige que a dimensão da fé não seja preterida.

A figura de Jesus, delineada pelas suas palavras e atitudes, revela uma pessoa totalmente original, com uma personalidade até paradoxal, por vezes, mas sempre mostrando um ser inigualável, inconfundível e sem nenhum paralelo humano.

Inicialmente, virá abordada a dimensão histórica de Jesus de Nazaré, com a situação e o ambiente histórico de sua época e o estado atual da pesquisa histórica, para depois tratar da exposição bíblica do mesmo, visto que ambas se completam, pois a Sagrada Escritura retrata a história do Nazareno a partir da sua ressurreição, que O constituiu em “Senhor e Cristo” (cf. At. 2,36). A partir desses dois pressupostos, é possível efetuar a abordagem dogmática, colhendo a reflexão teológica elaborada pela Igreja, baseada nos elementos fornecidos pelos argumentos históricos e escriturísticos.

A situação da época de Jesus

Antes de tudo, é necessário fazer duas observações:

a) As estruturas sociais, políticas, culturais e religiosas estão ligadas à prática de Jesus, pois Ele atuou numa situação histórica determinada;

b) A sociedade da época de Jesus não é literalmente análoga à atual, pois nela existem diferenças qualitativas significativas, que a distingue substancial-mente da nossa. Basta recordar, como exemplo, o modo de produção em vigor, que era o não-capitalista, e a atividade econômica dominante na época, que era a agricultura, contrastando com o da sociedade hodierna, na qual predomina a produção capitalista e a atividade técnico-científica . Assim, a época de Jesus apresenta as seguintes características:

Assim, por exemplo, a compreensão da terra. Os israelitas consideravam-na como pertencente a Deus. E estava ocupada pelos romanos, acarretando descontentamento e o aumento do latifúndio. Isso trouxe o despojamento do camponês pobre, que se tornou mão-de-obra liberada ou diarista. O latifúndio, sistema incorporado com a chegada dos romanos, passa a ser adotado porque dá mais lucro do que o sistema das pequenas propriedades familiares. Os impostos pagos aos romanos aumenta a miséria, porque são em número muito elevado e bastante pesados do ponto de vista econômico.

Os partidos religiosos, existentes então, digladiam-se entre si, cada um procurando impor a sua ideologia própria. O templo, situado na cidade de Jerusalém, enquanto centro religioso, é o lugar da presença de Deus e do culto. Os sacrifícios oferecidos pelo povo, tanto públicos quanto privados, tornaram-no, também, um centro econômico. Nele funcionava o sinédrio, centro do poder político judaico, que resolvia as questões internas do judaísmo.

A época de Jesus é considerada, normalmente, como o período que abarca do ano 7 a.C. a 39 d.C., ano em que Herodes Antipas foi exilado. É uma época caracterizada por uma forte instabilidade política, devido, principalmente, a ocupação da Palestina pelos romanos, apesar de Herodes, o Grande, ter governado durante muito tempo. Os romanos exerciam uma repressão dura, impingindo castigos como a crucificação, escravidão e deportação. Os zelosas começam a aumentar em número e em influência no povo, culminando com a destruição de Jerusalém, em 66 d.C.

Todas essas vicissitudes enfrentadas pelo povo, naquele momento, tornam a época de Jesus efervescente. O messianismo se apresenta como uma resistência surda e inflamada contra o ocupante, apesar de as classes dirigentes tentarem estabelecer uma convivência pacífica aceitável, nunca aprovada pela maioria do povo israelita. Isso acarreta uma esperança messiânica de tipo político, levando a interpretar erroneamente a missão de Jesus, como muito bem comprovam certas passagens evangélicas, entre os quais, o episódio ocorrido após a multiplicação dos pães, quando o povo quis aclamar a Jesus como rei (Jo 6,15), motivado pelo sucesso conseguido pelo milagre. Também por parte do próprio grupo dos Doze, que apresentam a preocupação de saber quem seria o maior dentre eles no futuro reino de Jesus (cf. Mc. 10,37; Mt. 20,23).

No entanto, a atuação de Jesus se dá numa situação social, econômica, política, cultural e religiosa bem configurada. Ele não realiza a sua missão, que é, sem dúvida, eminentemente religiosa, desconhecendo sua época, o que seria impensável para um judeu tão próximo do povo assim como Jesus demonstrou durante toda a sua vida pública. As interpretações sobre a sua missão comprovam tal afirmação (cf. Jo 6,14 - 15; Mt. 2,8 - 10; Lc. 23,1 - 3).

Uma análise, mesmo superficial, revela que Jesus tem compaixão pelo povo com o qual convive e compartilha da mesma sorte (Mc. 6,34; Mt 9,36). Por isso, é chamado de "pastor" e aplica essa figura para si mesmo. Esse é um título de dignidade, que corres-ponde aos chefes do povo . A atitude de Jesus se explica, porque parte da constatação do abandono em que o povo se encontra, pois seus representantes formais estavam completamente desleixados, pois representavam mais Roma do que o povo.

Estrutura  econômica

O povo de Israel tinha consciência, pelo menos no início de sua trajetória, de que não havia propriedade privada, pois a terra pertence a Deus. Mas isso não impede do povo se organizar. Do sistema tribal nômade, como era o sistema inicial, passa para a clã sedentária, com uma porção de terra, que é muito importante, pois serve como garantia de sobrevivência. Do cultivo da terra, o israelita tirava seu sustento e de sua família (1 Mc. 14,12; Zc 3,10). Daí que a estrutura patriarcal, com as suas leis sobre o casamento e a herança (filhos só recebiam-na e o mais velho ficava com a terra), serviam para favorecer a conservação dos bens e evitar a miséria. As leis religiosas a respeito do ano sabático, celebrado no sétimo ano de uma série de sete anos, determinavam que os escravos fossem libertados, a terra ficasse em repouso, o produto da terra fosse distribuído aos pobres e as dívidas perdoadas. O ano jubilar, que ocorria a cada cinqüenta anos, mandava que as terras e as casas alienadas ou vendidas devessem voltar aos seus primeiros proprietários. Essas leis tinham a finalidade de fazer do israelita um homem livre e proteger a propriedade básica de cada clã. Nos tempos de Davi e Salomão, conforme 1 Sm. 8,11 - 17, o mecanismo estatal foi implantado, substituindo essa organização originária. A conseqüência foi o surgimento, a partir do período da monarquia e que se estende até o tempo de Jesus, de grandes propriedades privadas, mas, ainda, não de latifúndios.

A economia da Palestina baseava-se na agricultura, pecuária, artesanato, comércio e pesca no lago de Tiberíades. Na Judéia, região montanhosa e rochosa, havia a criação de ovinos e caprinos; na Galiléia, região mis fértil havia a criação de gado de grande porte (bezerros, bois e jumentos), o cultivo de cereais (trigo, centeio, paio e cevada), vinhedos, olivais, frutas (figos, tâmaras, romãs) e legumes, com indústrias de lã, linho e couro; em Jericó era cultivado o bálsamo. Como adoçante, existia, apenas, o mel.

De modo geral, eram cultivados os legumes e a criação de animais ainda incluía as aves, como as galinhas e os pombos, e os animais domésticos, que serviam tanto para suprir as necessidades habituais quanto as oferendas feitas nos cultos do Templo.

A pesca tinha muita importância, pois o peixe era mais importante do que a carne. Era praticada, sobretudo, no lago de Tiberíades e organizada em cooperativas. Os peixes dividiam-se em puros, destinados unicamente para os judeus, e impuros, que eram vendidos aos pagãos. A profissão de pescador era bem considerada e remunerada razoavelmente, a tal ponto de estarem bem organizados e possuírem até uma indústria de salgar peixes.

O operariado tinha situações diversas. No meio rural, sobrevivia por meio da industrialização familiar. Também haviam os artesãos do ferro, pedra, madeira e argila. Na cidade, dependia muito do mercado: os tecelões na cidade de Séforis, os das conservas de peixes de Tarichés, os oleiros da planície de Saron. Em Jerusalém, aproximadamente com 25.000 habitantes, havia profissões de interesse geral (lã, couro, bronze, argila), que eram organizadas de acordo com a necessidade do Templo, que tinha seus próprios empregados, denominados de templários, quando prestavam serviços ocasionais, e os funcionários permanentes. Diz-se que a restauração do templo ocupou mil sacerdotes, com especializações diferentes, de acordo com as necessidades. A construção civil cresceu muito após Herodes, o Grande. Também havia os médicos.

A evolução técnica parece fraca na Palestina, pois era uma região onde predominava a agricultura. As técnicas agrícolas, pecuárias e artesanais eram bem rudimentares. Por isso, havia muita valorização do trabalho manual, o que se apresenta, indubitavelmente, como um dado original do mundo judaico. Daí, também, as profissões serem hereditárias e com organização corporativa.

O intercâmbio também era desenvolvido na época. O transporte das mercadorias era, normalmente, feito por via marítima, através dos portos de Dor, Jafa, Cesaréia. O meio usual de transporte terrestre era o jumento, ao passo que o camelo, o cavalo e a carroça eram pouco utilizados pelos judeus. Por questões de segurança, os judeus nunca viajavam sozinhos pelas estradas, devido ao medo de assaltos. As rotas comerciais que atravessavam a Galiléia eram Ptolemaida-Damasco e Damasco-Jerusalém.

O sistema monetário usava as moedas, sendo as permutas o meio mais comum de comércio. Circulavam, ainda, as peças de bronze, a dracma grega, o asse, o denário romano, a mina e souz fenício. Existiam os bancos, que, porém, cobravam juros apenas dos pagãos.

O comércio local acontecia nas feiras e mercados, com a presença de fiscais, que examinavam os pesos e as medidas. Na cidade de Jerusalém é que existiam os grandes mercados: gado, cereais, frutas, legumes, madeira e, inclusive, de escravos.

Não faltava a importação. Da Grécia vinha o bronze; do Líbano, a madeira; da Babilônia, os tecidos; da Arábia, os aromas e as pedras preciosas; do Egito, o trigo. Também existia a exportação, que compreendia cereais, frutas, óleo e bálsamo.

Os impostos eram cobrados tanto pelos romanos quanto pelos judeus. Os impostos romanos dividiam-se em diretos, cobrados dos produtos da terra (entre 20 a 25%), os de capitalização ou pessoal, que era o denário, e indiretos, que compreendia os direitos de alfândega, de barreira (na entrada das cidades) e pedágio (pontes, atravessadouros de rios e encruzilhadas). Esses últimos eram arrendados, por isso muito altos. Os impostos judaicos eram os do templo, destinados a manutenção do santuário e dos sacerdotes; o primeiro dízimo, que era a décima parte do primeiro produto da terra (ou primícias) e da agropecuária; o segundo dízimo, a ser pago no primeiro, segundo, quarto, quinto anos numa série de sete anos e cobrado do produto da terra e do gado, que deveria ser gasto em festa e beneficência; o terceiro dízimo ou dízimo dos pobres, a ser pago no terceiro e sexto anos, destinado aos órfãos, viúvas e prosélitos; as rendas do quarto ano, que prescrevia que o produtor, que podia colher o produto da terra nos três primeiros anos, gastasse o resultado dessa primeira colheita em Jerusalém.

A beneficência era muito apreciada pelos judeus. Por isso, havia as leis em favor dos pobres, pela qual o produtor devia ajudá-los no ano sabático, no terceiro dízimo e durante as colheitas. O judeu piedoso devia, ainda, dar esmolas individuais, especialmente durante a peregrinação a Jerusalém. Os grupos religiosos também deviam ajudá-los, assim como as instituições públicas, compreendidas pelo cesto dos pobres, que era semanal, e pelo prato dos pobres, servido no Templo diariamente.

Uma das formas de estabelecer a classificação social era através do critério da riqueza, que assim dividia as pessoas:

 - os ricos, formada pelo pessoal da corte, grandes negociantes, proprietários de terra e nobreza sacerdotal;

 - os judeus medianamente favorecidos; - os pobres, composta pelos diaristas, escravos judeus, escravos pagãos e pelos assistidos, que eram os mendigos e os escribas.

Estrutura  social

Aqui o critério para estabelecer a diferenciação entre as pessoas era a pureza. Assim, quanto mais puro tanto mais alto na escala social judaica. Era composta pelas seguintes classes:

 - Israel puro, formada pelos sacerdotes, levitas e israelitas leigos de ascendência pura;

 - Famílias legítimas atingidas por mancha leve, composta pelos descendentes ilegítimos de sacerdotes, pelos prosélitos, escravos (devido à dívidas) e pagãos libertos;

 - famílias ilegítimas atingidas por mancha leve, da qual faziam parte os bastardos, escravos do templo, filhos de pais desconhecidos e crianças expostas;

 - população estrangeira, formada pelos escravos pagãos, samaritanos e pagãos verdadeiros.

Estrutura  religiosa

A organização religiosa abrangia duas dimensões:

a) o Templo, lugar da habitação de Deus e dos sacrifícios, que podiam ser públicos (diariamente, um cordeiro) e privados. O culto obedecia ao esquema do ano litúrgico, que estava baseado em festas. Essas eram muitas:

 - Páscoa ou de nissan: comemora o êxodo do Egito;

- Pentecostes: celebrava os cinqüenta dias após a Páscoa, no qual Deus deu a lei a Moisés no monte Sinai;

- Tabernáculo ou das Tendas: comemorava os preparativos para a partida do Egito, segundo Nm. 8,14, na qual se construíam cabanas dentro das casas, que simbolizava as tendas erguidas no deserto;

- Yom kipur ou dia das expiações: jejum para comemorar a descida de Moisés do monte Sinai, após ter conseguido o perdão pelo pecado de idolatria do bezerro de ouro. Era o único dia em que era permitido entrar no Santo dos Santos;

- Dedicação: celebra a dedicação de Templo pelos Macabeus, segundo 2 Mc. 10,1-8;

- Purim: comemoração da intervenção de Deus, que destruiu os planos de Aman para assassinar os judeus.

b) Piedade privada: os judeus davam muita importância a própria piedade, pois desejavam ser conhecidos como piedosos. Assim, existia a oração do Shema (Dt. 6,4), que era feita três vezes por dia, nos mesmos momentos em que era oferecido o sacrifício no Templo; o jejum, sinal de humilhação, proteção e expiação das faltas, feito às terças e quintas-feiras; a esmola, também muito apreciada, pois era vista como extensão da misericórdia de Deus e, enfim, as obras de misericórdia.

A sinagoga é um lugar de oração e de leitura da Bíblia, além da vida comunitária também ser aí discutida. Por isso, pode-se afirmar que é o lugar da ideologia e das escolas teológicas. A liturgia da palavra tinha um esquema fixo: hinos e preces; leitura da lei; leitura de um profeta, que dependia do momento, segundo Lc. 4,17; homilia; recitação do “Shema Israel” (escuta Israel) e a bênção do sacerdote.

Mas o israelita vivia num ambiente familiar e comunitário impregnado de oração, pelo qual a família, a comunidade, a sinagoga e o Templo formavam um todo inseparável, em que a lei de Deus norteava o agir. Eles aprendiam os salmos décor, evocando os acontecimentos mais importantes de sua história, propiciando que mantivessem a sua identidade nacional e religiosa.

Estrutura  cultural

A base da cultura é a coleção dos escritos inspirados, fazendo com que a ciência adquirisse uma dimensão teológica. As escolas estavam divididas nos níveis seguintes: primária, onde se aprendia a ler texto hebraico; secundária, dedicada ao ensino da interpretação das escrituras pela tradição oral; superior, reservada para os escribas.

Cada rabino se preocupava em formar discípulos e futuros escribas, para exercer sua atividade nos tribunais e sinagogas. Entre os escribas de orientação farisaica havia duas escolas: a de Hillel, liberal em matéria de pureza ritual, e a de Shamai, rigorista ao exigir a observância estrita da lei.

O poder dos escribas é fruto do saber. Aos 40 anos, ele recebia uma espécie de ordenação, pela qual começava a fazer parte da corporação doutoral. Ele tinha seu dia dividido em três partes: uma parte dedicada à oração, outra ao estudo e, por fim, a terceira ocupada com o trabalho manual.

Estrutura  política

O exercício do poder: poder político tinha origem no templo, que possuía três setores básicos: a ordem fiscal, a ordem pública, o direito e a justiça. O Sinédrio, espécie de tribunal, que resolvia questões internas do judaísmo, era um conselho, formado pelos sacerdotes, anciãos e escribas, que assistiam ao sumo sacerdote, chefe supremo da comunidade judaica. A tarefa do mesmo variou conforme as épocas, mas é no tempo da dominação romana que teve seu apogeu. Exercia, fundamentalmente, três tarefas:

a) cuidado da ordem pública;

b) exercício do poder oridinário jurídico, civil e religioso;

c) o poder executivo, podendo recorrer a corte romana, caso fosse necessário, embora os romanos respeitassem a organização interna dos povos conquistados.

Os partidos políticos da época de Jesus eram os saduceus, os herodianos, os fariseus, os zelosas e os essênios, sobre os quais se discorrerá mais adiante.

Ambiente  histórico

Alguns historiadores e geógrafos antigos, em seus escritos diversos, dão notícias da existência histórica de Jesus de Nazaré. Entre eles, pode-se citar, por exemplo, Estrabão de Amasea-Ponto (60 - 21 a.C.); Plínio, o Velho (27 - 79 d.C.). Muito importante é Celso, com sua obra intitulada Discurso verdadeiro, escrita por volta de 170, na qual traz pormenores sobre o nascimento e a vida de Jesus. Justino refuta as afirmações de Celso com a obra intitulada Contra Celsum. Além desse, Flávio Josefo, nascido na Palestina por volta dos anos trinta, é quem mais abundantemente oferece documentação, servindo-se dos escritos de Nicolau de Damasco. Também Tácito, escritor samaritano, e Suetônio, de origem romana, dão notícias de Jesus em suas obras. Os escritos judaicos são pouco utilizados, porque falta segurança quanto às datas, especialmente Targumin, Mishna e Talmude. Isso sem levar em conta os apócrifos cristãos e a literatura dos santos Padres.

Mas, sem dúvida, as “únicas fontes sobre a vida e a doutrina de Jesus, portanto, são os quatro evangelhos”.

As descobertas arqueológicas das localidades evangélicas, máxime Nazaré, Cafarnaum e Jerusalém, são de grande valia para reconstituir a Palestina do tempo de Jesus. Também alguns papiros, especialmente do arquivo de Zenon, funcionário do ministro das finanças de Ptolomeu II, Apolônio, do século III a.C., achados no Egito, dão informações precisas sobre a economia palestinense da época que antecede ao tempo neotestamentário.

Carlos Mesters observa que a vida do povo estava marcada por três forças, cada uma interferindo a seu modo e criando uma situação confusa e conflitiva:

a) a política do governo de então, que, ao mudar o sistema econômico por causa da convivência com os dominadores romanos, enfraquecia os valores tradicionais da cultura do povo herdada dos antepassados;

b) a religião oficial, que através de suas inúmeras leis e normas, derivadas da lei recebida de Moisés, tornou-se um peso ao impedir o povo de observá-las, como, aliás, Jesus mesmo declara (cf. Mt. 21,13; 11,13 - 36);

c) o movimento popular, que procurava uma saída para a situação, chamando o povo de volta para a aliança.

A origem de Jesus

O nome Jesus, do hebraico yeshua, abreviação de yehoshua, forma tardia do hebraico yeshua, Josué, significa Javé salva ou Iahweh dá salvação. O Novo Testamento usa-o sempre como nome próprio e não como título. Designa, portanto, o “indivíduo particular”, a singularidade da pessoa que viveu na Palestina.

Seu pai chamava-se José, do hebraico yôsef, que, segundo alguns, na forma original é y’osêf, significando ”que ele reúna” . Sua mãe chamava-se Maria, do hebraico Miryam, com significado e etimologia incertos. Talvez proviesse do egípcio mrjt, que significa “amada”.

Jesus nasceu em Belém da Judéia, no tempo do rei Herodes , conforme prova o censo de Quirino. Não se sabe com precisão o ano exato do nascimento de Jesus. A maioria concorda que Jesus nasceu entre o ano 5 e 6 a.C., e não no ano zero da nossa era.

Chega-se a essa data por causa do recenseamento e da afirmação de que Jesus nasceu no tempo de Herodes. A origem do mal-entendido se deve ao monge Dionísio, do século VI, que, ao partir de Lc. 3,23, que afirma Jesus ter começado a sua vida pública aos trinta anos, no “ano quinze do principado de Tibério César (...)”, calculou mal a data do nascimento de Jesus. Isso porque o décimo quinto ano do reinado de Tibério corres-ponde ao ano 782 do calendário romano. Mas Herodes morreu no ano 750 do calendário romano, e não 752, como resulta da conta do monge Dionísio. E ele fixou o ano 752 do calendário romano como o ano 1 da nossa era.

Os seus pais estabeleceram domicílio em Nazaré na Galiléia. Jesus era solteiro. Sua profissão era a de carpinteiro, conforme Mc. 6,3, tendo a mesma profissão de seu pai adotivo, conforme relata Mt. 13,55, apesar da palavra hotekton deixar impreciso qual seria a natureza exata da profissão exercida por ambos, apenas significando uma profissão manual , da qual originavam-se os recursos econômicos necessários para a sobrevivência de José, Maria e Jesus.

Jesus de Nazaré tinha a cultura básica normal dos jovens de um lugarejo da Galiléia. Segundo R. Fabris, a formação bíblico-religiosa associada com o trabalho de carpinteiro contribuiu para lhe dar a capacidade de captar os traços cotidianos e concretos da vida . Ele falava aramaico. Alguns afirmam “com sotaque de judeu da Galiléia”.

O estado civil de Jesus

Ele era celibatário com certeza, revelando-se impensável qualquer hipótese contrária. Parece mais provável ter-se inspirado na figura profética de Jeremias, que assumiu a condição celibatária como sinal para seus contemporâneos (cf. Jr. 16,1 - 13), e não na corrente ascético-espiritual de Qumrân. Segundo Mt. 19,12, seu celibato é sinal do mundo novo inaugurado com a chegada do Reino de Deus à história humana.

A pesquisa histórica sobre Jesus

A pesquisa sobre o Jesus histórico passou por três fases. A primeira, da crítica liberal (Strauss e Renan), surgida num clima iluminista, por isso marcada pelo tom racional, elimina o Cristo do dogma, considerado uma construção indevida da Igreja e se põe a busca do autêntico Jesus da história, questionando a validade das fontes evangélicas, produziu um Jesus humanista e naturalista. Spinoza (1632 - 1677) foi quem deu início a esta mentalidade. Com A. Schweitzer, todos se referiram a são Reimarus (1694 - 1768) e à publicação póstuma (1778) de seu sétimo fragmento, intitulado O fim de Jesus e de seus discípulos. Segundo este, Jesus foi apenas um agitador político, que faliu no momento da morte. Foram os discípulos que reergueram o seu sonho messiânico, não mais em sentido político mas espiritual. Foram eles, portanto, os inventores do Cristo da fé. Essa tese, hoje considerada "idiota e diletantesca" (esta é a apreciação de Jeremias in Problemas do Jesus histórico), teve o grande mérito de abrir a pesquisa sobre o Jesus histórico e do valor histórico das fontes cristãs. A conseqüência foi a desintegração tanto do Cristo da fé quanto do Jesus histórico, que procurava recuperar. Por isso não subsistiu.

A segunda fase iniciou com a reação de A. Schweitzer e pela Formgeschichte, interditando o acesso ao Jesus histórico, indo, portanto, em direção oposta à anterior. Assumiram essa posição K. Barth e R. Bultmann . Contra a tendência racionalista radical da teologia liberal, Barth acentuou, de modo também radical, a transcendência absoluta de Deus, o Totalmente Outro. A sua teologia dialética refutou decisivamente a pergunta sobre o Jesus histórico e a sua impostação liberal, fundando a fé cristã só sobre o querigma de Jesus, como Cristo e Senhor, crucificado e ressuscitado. Essa corrente toma como motivo a frase de 2 Cor 5,16.

R. Bultmann defende o Cristo querigmático, com desatenção total ao Jesus histórico, chegando a recusar que o divino possa revelar-se na história humana. Por isso, leva em conta apenas o querigma da comunidade primitiva, mostrando o apelo existencial de sua morte e ressurreição, e ensinando que só o Cristo da fé é importante, restringindo o Jesus histórico apenas ao fato de que Ele aconteceu. O precedente de sua vida, a pregação e ações, não conta nada para a fé.

A terceira fase, a mítica, vem expressa por J. Jeremias, que, discordando de Bultmann, por ter esvaziado o conteúdo da fórmula da encarnação e por ter substituído Paulo por Jesus, diz que a nossa fé tem início no fato histórico da vida de Jesus e no querigma pós-pascal. Assim, o querigma remete ao próprio Jesus histórico, pois este é continuação daquele a partir do evento salvífico Jesus Cristo, buscando descrever honesta e cientificamente essa existência histórica que nos mostrou a face de Deus.

J. Konings situa o estado atual da questão na busca não tanto de um Jesus sobre-natural, nem exemplarmente humano, nem na manifestação de Deus na existência e compromisso histórico de uma pessoa humana, mas num "Jesus filho de seu tempo, ambiente e cultura, aquele que Martin Buber chamou de ‘meu irmão mais velho' e G. Vermès, não sem um quê de chauvinismo, de "Jesus, o judeu".

No entanto, o primeiro núcleo de qualquer anúncio cristológico deve ser a história de Jesus Cristo. Independentemente dos modelos e metodologias escolhidas e usadas , o anúncio cristão deve fundar-se, confrontar-se e referir-se continuamente à história de Jesus. Ela é a fonte da experiência cristã de todo espaço e tempo.

"História de Jesus" significa:

a) O conjunto de fatos acontecidos em determinadas circunstâncias espácio-temporais e o;

b) Lugar da intervenção de Deus. No cristianismo, a salvação aconteceu na história concreta de Jesus de Nazaré, o Cristo. N'Ele a história torna-se história da salvação. Aí se encontra a tarefa do resgate metodológico contemporâneo.

Ele não é apenas o homem de Nazaré, mas o cristianismo O interpela a partir da revelação salvífica de Deus na história. Jesus é o Cristo, o Salvador absoluto e definitivo, manifestando-se na história com determinadas atitudes, doutrinas e fatos histórico-salvíficos. Isso é o que se pode chamar de significado histórico-teológico da pessoa de Jesus, pois a sua história é uma história teológica, sem possibilidade de separação entre os dois elementos. Uma cristologia radical do Jesus da história apresenta o problema de re-conhecer a divindade de Jesus, tornando impossível chegar ao Cristo da fé.

O cristianismo se funda na história concreta de Jesus de Nazaré e no significado salvífico "para nós" de Cristo. W. Pannenberg afirma: "Jesus adquire significado ‘para nós’ somente enquanto esta significação está apoiada nele mesmo, na sua história e na pessoa que a história manifestou. Somente enquanto esta poderá ser demonstrada, podemos ter certeza que a nossa fé não será uma mera projeção de problemas, desejos e pensamentos pessoais sobre a pessoa de Jesus" .

Bornkamm assevera que mesmo a pesquisa histórica contemporânea, mesmo a mais exigente, aceita que a apresentação de Jesus, da parte do cristianismo primitivo, nos evangelhos e nos Atos corresponde a história, pois a referência à vida concreta e terrena de Jesus de Nazaré faz parte integrante da pregação missionária da Igreja primitiva.

Assim, Bultmann escrevia, já em 1926: "A dúvida se Jesus realmente existiu é infundada e não merece ser abordada. É de todo evidente que Ele é a origem daquele movimento histórico, cujo primeiro estágio tangível está representado pela comunidade cristã primitiva palestinense".

Concluindo, o valor teológico de Cristo se manifesta na história. Por isso, W. Kasper diz: "A cristologia não é outra coisa do que a exegese da profissão ‘Jesus é o Cristo’. (...) A profissão de fé eclesial não se apóia sobre si mesma. Ela, de fato, tem seu conteúdo e norma pré-estabelecida na história e na sorte de Jesus". Portanto, o anúncio dos primeiros discípulos é uma referência teológico-salvífica à história de Cristo, como, por exemplo, At. 2,22 - 24, tendo como conseqüência a historicidade da fé, que não se funda num mito ou numa invenção dos Doze.

Aproximação dogmática

No atual sentido, a palavra "dogma" só se generalizou a partir do século XVIII, embora já conhecida anteriormente com acepções diferentes e apesar de possuir uma certa ambigüidade, segundo R. Latourelle, pelas diferentes significações que pode possuir. Para Tomás, a verdade una deve ser desmembrada em articulifiquei para melhor ser compreendida. Cada artigo deve ter três notas: caráter de verdade, importância salvífica e relação com a comunidade.

Michael Schmaus assim define o dogma: "Uma revelação que o magistério eclesiástico, quer pelo ensino ordinário e universal, quer por solene definição do papa ou de um concílio propôs explicitamente como autêntica verdade revelada que todos são obrigados a crer e que concorre para a salvação".

Karl Rahner apresenta outra definição: "É um enunciado de fé divina e católica, ou seja, uma afirmação que a Igreja proclama explicitamente (através do magistério ordinário e universal, ou mediante uma definição papal ou conciliar) como revelada por Deus (DS 3011) e cuja negação é sancionada com o qualificativo de heresia ou anátema" (CIC 750 - 752).

As propriedades do dogma são duas:

a) É uma verdade contida na revelação divina, que constitui seu elemento material;

b) É uma verdade que a Igreja formulou e propôs expressamente como objeto de fé, o que constitui seu elemento formal. Segundo K. Rahner, as propriedades do dogma são a origem divina, a verdade, a obrigação de crer, a imutabilidade, a historicidade, a capacidade de evolução, a estrutura encarnacionista e a unidade autêntica entre o divino e o humano.

Daí o dogma deve ser sempre adequado à Sagrada Escritura, por conter a revelação de Deus em Cristo, acontecida uma vez para sempre sob determinado aspecto parcial, e por ser de origem divina em seu conteúdo essencial. Por meio dele, a Igreja transmite a Revelação, pois a revelação divina adotou a veste corporal acomodada aos primeiros receptores, expressando a fé de todo povo de Deus, que, por sua vez, já é uma resposta à auto manifestação divina. Daí que a declaração de fé, existente nos dogmas, permanece aquém do multiforme querigma e, muito mais, abaixo da realidade proclamada no querigma. Contudo, não se pode esquecer que a verdade proclamada pelo dogma vive no todo da revelação, e só neste conjunto se pode entender seu verdadeiro sentido e importância.

Sendo uma declaração incondicional da verdade e declaração definitiva da fé, os dogmas são imutáveis (é a dimensão da imutabilidade) sob o aspecto de seu conteúdo. O que não significa estaticidade, pois eles exigem interpretação constantemente nova por parte da Igreja e, por isso, estão em movimento (é a dimensão da mutabilidade). Para distinguir o mutável do imutável, é preciso, em primeiro lugar, reconhecer o interesse da Igreja naquele momento determinado, para lhe entender o sentido, e, em seguida, conhecer o erro contra o qual se dirige o dogma. O interesse da Igreja pode ser melhor compreendido numa situação nova . Todavia, enquanto a comunidade de fé tem estruturas jurídicas, um dogma repercute no campo do direito. Quem o rejeita nega a sua ligação com a comunidade da Igreja juridicamente constituída.

O surgimento do dogma acontece a partir da preocupação de proteger e conservar a revelação de Deus e a resposta de fé à ela, em face de graves perigos. Daí o dogma nasce da passagem da fé irreflexiva à fé consciente. É o estado final de um processo dialético ou de uma evolução que caminhou entre a ortodoxia e a heresia. J. A. Möhler opina que a plena penetração na revelação divina se desenvolve exatamente na base de autênticos movimentos do erro ocorridos na história humana.

Os portadores do magistério eclesiástico não impõem, ao dogmatizarem, mas proclamam, como locutores do povo de Deus, uma verdade que enriquece a todos. Proclamam a fé da comunidade em meio dela. O próprio Deus age no dogma, visto ser ele uma realização da fé, portanto, uma entrega a Cristo, e, por isso, possui verdadeiro dinamismo salvífico.

Mas a doutrina ensinada pela Igreja não é horizontal, pois há uma relação diferente dessa com a verdade recebida de Cristo, o que determina uma “hierarquia de verdades”. É como diz o Vaticano II: “Comparando as doutrinas, lembrem-se que existe uma ordem ou ‘hierarquia’ de verdades na doutrina católica, já que o nexo delas com o fundamento da fé cristã é diverso” (cf. Unitatis Redintegratio 11).

Daí que os dogmas podem ser classificados segundo o critério da necessidade ou não para a salvação, ou seja, de acordo com sua conexão com o fundamento da fé cristã. Assim são classificados:

1º - De fé divina são as verdades formalmente reveladas, que são as atestadas por Deus e contidas na Sagrada Escritura ou na tradição;

2º - De fé divina e católica são as verdades cujo conteúdo são propostos pela Igreja como divinamente revelados, seja por meio de uma declaração solene do Papa ou de um Concílio ou por meio do Magistério ordinário e universal. E ó caso dos dogmas, em seu sentido estrito, como, por exemplo, o da unicidade da pessoa de Jesus Cristo e dualidade de suas naturezas (a humana e a divina), conforme vem proposto pelo concílio de Calcedônia, de 451.

3º - As verdades católicas ou de fé definida, que são propostas pelo Magistério por meio de sua infalibilidade. É o caso dos dogmas marianos, explicitados por dedução, através do método racional teológico, ou pelo conhecimento resultante da lumen fidei, conforme a expressão de Santo Tomás (Summa Theologiae II - II, 1,4, ad 3), das verdades reveladas explicitamente. O ensinamento da Igreja, iluminado pelo Espírito Santo e manifestando progressivamente de maneira infalível o conteúdo da Revelação, pode atestar, com toda certeza, a origem divina dos dogmas marianos. Isso porque Cristo dotou o Magistério da prerrogativa da infalibilidade, que atinge o depósito da fé por resultar de Cristo (Jo 14,26), que ensinará tudo aos pregadores do Evangelho (Mt. 28,20).

4º - As verdades conexas com as doutrinas formalmente reveladas, que, embora não estejam contidas formalmente na Revelação, estão virtualmente presentes dada sua ligação estreita com as mesmas. Essas são:

a) próximas à fé, quando são consideradas contidas na Revelação unanimemente pela Igreja, mas não definidas expressamente;

b) teologicamente certa quando a doutrina é deduzida de uma verdade revelada, cuja negação seria rejeitar um dogma.

O documento Mysterium Ecclesiae, nº. 3, diz: “Segundo a doutrina católica, a infalibilidade do Magistério da Igreja se estende não só ao depósito da fé, mas também a tudo o que é necessário para que ele possa ser guardado e exposto como deve”. Por isso, os cristãos devem obediência ao Magistério e a sua não aceitação, que implica na desobediência em questões de fé e de moral, põe em risco a salvação pessoal (cf. Lumen Gentium 25).

Os principais dogmas podem ser descobertos no índice do Denzinger-Schönmetzer (DS) e na obra La fe de la Iglesia Catolica de J. Collantes (BAC, Madrid, 1984). Eis uma divisão sumária:

1) A razão humana: pode conhecer a existência de Deus; não é imediato, mas através das criaturas;

2) A revelação sobrenatural: é possível e aconteceu;

3) As fontes da revelação: depósito é a SE e a Tradição; SE: cânon;

4) Criação: Deus é criador do mundo e do homem; estado de justiça e pecado original;

5) Jesus Cristo: é verdadeiro Deus e verdadeiro homem; união hipoestática; missão de Cristo; Ressuscitado;

6) Maria: maternidade divina; santidade, imaculada conceição e assunção;

7) Deus: Trino e uno; as pessoas divinas;

8) A Igreja de Cristo: instituída por Cristo; comunidade visível de salvação; comunidade hierárquica (bispos e leigos); regime; primado; infalibilidade;

9) A graça: original, atual e santificante;

10) Sacramentos: número 7 e quais são;

11) As realidades últimas: imortalidade da alma; juízo; céu, inferno, purgatório; ressurreição.

A teologia dogmática é a ciência do dogma eclesiástico ou a reflexão sistemática sobre o dogma da Igreja, ou seja, a exposição e o aprofundamento científico da Palavra de Deus, tal como é pregada e ensinada pela Igreja.

A aproximação dogmática do evento Cristo, de acordo com as indicações da Optatam Totius 16, acontece por meio de três momentos: base na Sagrada Escritura, na Tradição eclesial (tradição patriótica, pronunciamentos conciliares, elaborações teológicas privilegiadas) e a síntese das sistematizações atuais do dado da fé. Para realizar esta síntese, a teologia dogmática parte de dois pressupostos: o primeiro, o horizonte de pré-compreensão é a fé na auto revelação absoluta, única e definitiva de Deus no evento Jesus Cristo; o segundo, a fé, que, sendo um conhecer, não pode elaborar completamente o seu discurso sem o diálogo e o confronto interpretativo com a história, a filosofia e as outras ciências humanas. Desse modo, a cristologia dogmática ou sistemática é chamada a ilustrar o significado e o valor do evento Cristo não só no seu dado escriturístico e da tradição, mas também na sua coerência intrínseca. Para evitar distorções neste diálogo, a cristologia sistemática assegura sua unidade a partir do evento Cristo tanto como objeto primário da pesquisa teológica específica quanto como princípio lógico formal da unidade de toda a teologia.

Sendo a cristologia sistemática a inteligência critica e orgânica do mistério de Cristo, ela inclui dois momentos essenciais: o da escuta (auditus fidei) e o da reflexão (intellectus fidei):

a) O auditus fidei é o momento de recolher o dado bíblico e a tradição eclesial. Mais do que na sua circunscrita validade exegética ou histórico-crítica, o dado bíblico é tomado pela teologia sistemática no seu leito interpretativo mais amplo de toda a tradição da Igreja. Esta não é uma leitura fundamentalista" da Bíblia, mas que existem dois níveis interpretativos diferentes do dado bíblico: o histórico-crítico exegético, que oferece o sentido técnico do texto, e o teológico-sistemático, que oferece o significado mesmo texto no âmbito do mistério global de Cristo. A distinção entre os dois níveis é dado pela presença da tradição eclesial como elemento interpretativo essencial. Por isto, a cristologia sistemática assume o dado histórico-crítico não como absoluto, mas inserindo-o na compreensão da fé da Igreja. A consciência de fé católica está, de fato, intimamente convencida que o Espírito não agiu somente inspirando a Sagrada Escritura, mas também guiando a comunidade dos crentes para o conhecimento sempre mais profundo da verdade revelada. A tradição cristológica é riquíssima neste ponto e tem seus lugares privilegiados na vida litúrgica, na experiência espiritual, na catequese e na pregação, nas decisões conciliares, na reflexão dos teólogos e das escolas teológicas, no "sensus fidei" do povo cristão, no Magistério.

b) O intellectus fidei é o momento da reflexão e da organização de todos os elementos essenciais concernentes ao mistério de Cristo. A cristologia sistemática ausculta a Escritura, a Tradição e o Magistério para elaborar uma resposta adequada às interrogações contemporâneas e a iluminação e formação da hodierna consciência da fé cristã, em relação com a comunidade.

A teologia dogmática assumiu no período pós-conciliar a tarefa de uma ciência "plenária", de reflexão "sapiencial" da fé. A teologia dogmática vem classificada como uma ciência ao lado da liturgia, da história da Igreja, da moral, da filosofia. Para restituí-la o caráter sintético, orgânico e geral que sempre possuiu, se prefere chamá-la "teologia sistemática". Assim emerge o dado de ciência integral da fé, indispensável ao especialista. Alguns preferem "teologia sistemática" porque põe em relevo a apresentação orgânica da globalidade do mistério de Cristo hoje.

A teologia sistemática contemporânea possui algumas características, que podem ser apresentadas da seguinte forma:

- bíblica, eclesial e pneumática porque a cristologia deve ser uma síntese orgânica dessas três realidades;

- existencial, pela exigência de um encontro pessoal com Cristo;

- prática, a partir da mudança provocada pela práxis resultante da mensagem de Cristo;

- ecumênica;

- pluralista, enquanto recolhe os dados teológicos resultantes do diálogo com os diversos horizontes filosóficos, teológicos e existenciais;

- trinitária, enquanto explicita a vida de Cristo no mistério trinitário;

- pneumatológica, por ressaltar o papel fundamental do Espírito Santo no evento Cristo.

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