EVANGELHOS  SINÓTICOS

EVANGELHO SEGUNDO MATEUS

1. DISCUSSÃO ACERCA DA AUTORIA

O primeiro problema que se coloca acerca deste Evangelho é a sua autenticidade. Discute-se a autoria deste evangelho por parte de Mateus. Contudo, o fato é que nenhum dos evangelista colocou o seu nome no escrito. Este primeiro evangelho foi abribuído a Mateus por causa de uma notícia veiculada por Eusébio, citando Papias, de que "Levi (Mateus) escreveu as palavras do Senhor na língua dos judeus”, e desde então interpretou-se que este escrito cujo autor não fora identificado poderia ser de sua autoria. Esta tradição foi abandonada posteriormente depois de se descobrir que o original deste evangelho foi escrito em grego e não aramaico.

2. PERFIL DO AUTOR

Embora sem ter certeza do nome do autor, verifica-se que este evangelho foi escrito por um cristão vindo do judaísmo, conhecedor da Escritura, fiel à tradição. Sabe-se da sua origem judaica porque este evangelho fala em 'reino dos céus' e não 'reino de Deus', porque os judeus não pronunciavam o nome de Deus. Além disso, dispensa a explicação dos costumes dos judeus, porque era fato corriqueiro para o seu autor, no entanto Marcos explica estes costumes, que para ele eram novidades. Por exemplo, em 24, 20 tem a seguinte passagem: "pedi para que a vossa fuga não seja no inverno nem no sábado. A mesma passagem há em Marcos 13,18, porém sem a parte final ('nem no sábado'), que é um acréscimo de Mateus, por causa do costume judeu.

3. COMPOSIÇÃO LITERÁRIA

Na composição literária deste evangelho, o autor empregou como fontes o próprio Evangelho de Marcos, a fonte Q e outros escritos particulares. Fez um trabalho de compilação bastante pessoal, adaptando e completando as "fontes" com conhecimentos próprios. Ele é chamado 'o homem dos discursos', porque é o que os cita maior número de vezes as fontes.

4. OBJETIVO DOUTRINÁRIO

Do ponto de vista teológico, Mateus tinha em vista mostrar aos judeus que JC é filho de Davi e Abraão, portanto, o Messias de Israel. Cita constantemente o Antigo Testamento. Exorta os fiéis a aceitarem JC como Messias. No tempo em que foi escrito, a Igreja já ultrapassara os limites de Israel. Fala na universalidade da Igreja, à qual são convidados os judeus e mas também todos os outros povos. Termina com a missão universal: "Ide, batizai e pregai a todos os povos...”  Do ponto de vista cristológico, considera JC como Rei, Messias que foi rejeitado e criou outro povo, que é a "Ecclesia" (Igreja). Emprega o termo 'kyrios' (Senhor), enquanto os outros usam o termo 'Mestre'.

5. CRONOLOGIA

O tempo em que foi escrito este evangelho varia entre 80 e 100 d.C. Seguramente foi depois de 70, pois pressupõe que já houve a destruição de Jerusalém, e também é posterior ao evangelho de Marcos, pois demonstra grande evolução teológica em relação a este. Foi escrito na Palestina em grego, em bom estilo literário, para leitores de língua grega.

EVANGELHO SEGUNDO MARCOS

1. PERFIL DO AUTOR

Conforme a mais antiga tradição, foi escrito por um tal João Marcos, filho de uma mulher chamada Maria, que tinha uma casa em Jerusalém. É o que noticia Papias. Em At 12,12 e 12,25, há referência a João Marcos e sua mãe. Serviu como fonte para Lucas e Mateus, tendo ele próprio se utilizado de outras "fontes".

2. COMPOSIÇÃO LITERÁRIA

É escrito em estilo muito simples e com pouca precisão no aspecto histórico. Descuida-se com a sequência cronológica. Tem pouca elaboração teológica. Usa muitas palavras aramaicas, o que mostra sua proximidade dos originais em que se baseou. (Por ex: boanerges 3,17; talita cumi 5, 41; efeta 7, 34; aba 14,36; eloi, eloi l5, 34 ). Mostra ainda resquícios de uma tradição oral.

Diz uma tradição antiga que Marcos escreveu o Evangelho com base na pregação de Pedro. Ele próprio deve ter testemunhado alguns dos fatos narrados.  Há um fundamento para esta tradição no próprio evangelho (14,51) que embora não seja prova apodítica, é no mínimo uma grande coincidencia.

Há indícios de que tenha sido escrito em Roma. Baseia-se isso sobretudo naquela famosa questão acerca do divórcio (10, 1-12), que era um problema para os romanos naquela época. Há ainda o uso de palavras latinas como 'kenturiôn' para dizer ’centurião’, apenas escrevendo a pronúncia da palavra latina em grego, ao invés de em vez de 'acatoûtarkos',  a palavra grega correspondente. Em 12,41 (oferta da viúva), explica o nome da moeda, ao que ela correspondia em latim, para ser entendido pelos romanos. Explica também o nome da sala em que JC foi julgado, isto é, 'pretorion'. O final do escrito provavelmente não é do próprio Marcos, mas talvez acréscimo posterior de algum discípulo dele.

3. OBJETIVO DOUTRINÁRIO

Teologicamente, o evangelho de Marcos quer mostrar que JC é o Messias esperado e prometido. Usa os mesmos títulos messiânicos que eram com frequência usados pelo povo. O ponto culminante do seu evangelho é a confissão de Pedro, em Cesaréia (8, 27-30) e a resposta de Cristo. JC não declarara antes ser o Messias, por causa do falso conceito de Messias que o povo tinha, o libertador temporal. Tanto assim que na ocasião em que após um milagre a multidão quis aclamá-lo, ele fugiu.

Alguns autores dizem que Marcos usou este "segredo messianico" para evitar explicações embaraçosas pelo fato de que Cristo, que devia ser o libertador, tinha morrido da maneira que morreu. A história da paixão é apresentada como uma vitória, um fracasso apenas aparente.

4. CRONOLOGIA

Foi o primeiro evangelho a ser escrito. O tempo em que foi escrito não está muito longe da destruição de Jerusalém, que ocorreu em 70 d.C. Apresenta pouca evolução da doutrina cristã e contém pouca reflexão teológica. Deve ter sido escrito entre os anos 60 e 70, mais próximo de 70. É provável que Marcos tenha sido contemporâneo dos acontecimentos da paixão e morte de Cristo.

EVANGELHO SEGUNDO LUCAS

1. PERFIL DO AUTOR

Segundo antiga tradição, este Evangelho foi escrito por Lucas, um médico de Antioquia. Ele não foi discípulo de Cristo, deduz-se isto logo no início, pois se coloca fora das testemunhas oculares. Ele teria se encontrado com S. Paulo, em Antioquia. Nos Atos, ele fala muito de Antioquia, sua terra. Paulo fala dele em suas epístolas (Col. 4,14), (Fil, 24) (II Tim 4, 11).

É um bom escritor, vê-se pelo estilo do grego usado no prólogo, considerado um clássico da época. O próprio costume de escrever prólogos, dedicando o livro era costume entre os grandes escritores. Corrige muito o estilo do grego de Marcos, substituindo termos vulgares por palavras mais eruditas. Foi um homem culto. À vista dos acontecimentos da época, procurou relacionar os acontecimentos narrados com fatos conhecidos da história, com detalhes cronológicos.

2. COMPOSIÇÃO LITERÁRIA

Alguns estudiosos procuram ver no seu Evangelho um certo "olho clínico", por ser ele um médico. Vê-se isto, por exemplo, nos episódios da sogra de Pedro, do Samaritano, da hemorroíssa. Enquanto no evangelho de Marcos, ele fala 'que há 18 anos esta mulher sofria deste mal e tinha gasto tudo com os médicos...', Lucas omite este detalhe, certamente defendendo a classe médica.

No prólogo, ele se propõe a escrever um evangelho completo desde o início. Utilizou como fontes o evangelho de Marcos, a fonte Q, além de outras fontes particulares da região onde viveu.

3. OBJETIVO DOUTRINÁRIO

A característica teológica deste evangelho é o Messias dos pobres, humildes, desprezados, doentes e pecadores. Exemplos: em 19, 10, fala em salvar o que estava perdido; em 7, 36-50, traz o relato da pecadora que banhou os pés de Cristo; em 15, 1-32, fala da ovelha perdida, dracma perdida, filho pródigo; em 10, 9-14, fala do publicado e o fariseu; em 16, 19-31, fala do rico avarento e do pobre lázaro; em 11, 41; 12, 33; 14,13; refere-se a esmolas.

Nota-se ainda uma preocupação de Lucas pelo conceito da mulher, valorizando a atuação delas, tendo em vista a situação destas naquela sociedade. Refere-se a Ana, Isabel, as mulheres que acompanhavam os Apóstolos, Maria e Marta de Betânia, a viúva de Naim; a mulher da multidão, que exaltou a mãe de Cristo...E num lugar todo especial está Maria, Mãe de Jesus. Dá tantos detalhes da vida familiar da Sagrada Familia que muitas vezes se pensou que ele a tivesse entrevistado antes de escrever.

Corrige certas referências extraordinárias a respeito de JC que pudessem escandalizar os não judeus (multiplicação dos pães, sogra de Pedro, discussão no caminho... ). Faz a genealogia de Cristo diferente de Mateus, começando por Adão.

4.  CRONOLOGIA

O tempo em que foi escrito situa-se entre 70 e 80 d.C.