EPISTOLÁRIO  PAULINO

1. Uma cronologia paulina

São Paulo deve ter nascido poucos anos antes de Cristo, pois escreve a Filêmon e lá diz que era sexagenário (Fm. 9). Nasceu em Tarso na Silícia (na Ásia Menor - Turquia de hoje): At. 21,29. Nasceu na Diáspora, da tribo de Benjamin. Era fariseu. Tinha traços da cultura helenística; em Fm. 3,5 ele fala de sua família. Era judeu e recebe a tradição religiosa de Israel. Além disto Paulo era cidadão romano, o que o defende de determinados atos; por isso apela a César. Era cidadão porque podia-se comprar a cidadania e seus pais compraram. Então Paulo recebe de casa a tradição judaica, recebe da cidade a cultura grega e recebe a cidadania romana. Ele vai para Jerusalém, onde se faz discípulo de Gamaliel (At. 22,3; 5,34). Aprende o manejo das Escrituras com Gamaliel. Eles tinham o hábito de cada um interpretar as Escrituras (cf. Ef 4,7-8; Rm. 9,25-33).

Era costume o rabino saber alguma profissão. Parece que a sua foi curtidor de pele. Por isso dizia que o trabalhador é digno de seu salário.

Após a ascensão do Senhor, são Paulo persegue os cristãos e na estrada de Damasco (na Síria) se converte, no ano 36 d.C. (At. 9,1 - 18; 22,4 - 21; 1Cor. 15,8). É batizado por Ananias. Ele agora quer pregar, só que não encontra eco, porque até então perseguia os cristãos. Assim ele é frustrado em suas primeiras tentativas. Por conseguinte, deixa Damasco e vai para Arábia, um deserto próximo a Damasco. E lá ficou três anos em retiro (At. 9,19 - 25; Gl. 1,17 - 18)

(Em Gálatas ele quer mostrar que não é discípulo de apóstolo mas de Cristo; ele faz sua apologia)

At 9,23 é igual a três anos. E quer pregar outra vez em Damasco e é outra vez rechaçado e nem podia fugir, pois o queriam matar. É um começo de vida apostólica bastante trágico. Ele deixa Damasco e aí vai a Jerusalém para comparar seu Evangelho a Pedro, Tiago e João (At. 9,26-28) mas estes não o queriam receber, pois tinham medo. Barnabé é quem intercede em seu favor e outra vez é rechaçado. Volta para Tarso e alí fica cerca de cinco anos (Gl. 1,18 - 20). Está numa situação obscura. Barnabé o vai procurar em Tarso para ajudá-lo na evangelização dos pagãos na Antioquia, na Síria (é o 1º centro missionário pagão). Forma-se uma próspera comunidade cristã recheada de pagãos (At. 11,25s). Paulo passa um ano inteiro em Antioquia (Lucas era antioqueno). Paulo agora é eleito sob a tutela de Barnabé.

Em 44 há fome em Jerusalém por causa da influência dos judeus da diáspora. Daí a viagem da coleta a Jerusalém em At. 11,27 - 30; 12,25.

Aos poucos ele vai sendo aceito e já pode empreender a primeira viagem missionária em 45-48 (At 13,1 - 3). Também vai João Marcos com Paulo e Barnabé. Essa primeira viagem é tímida. Atravessam a ilha de Chipre, Paulo tomando a dianteira vão à Ásia Menor (At 13 - 14). Foi um trabalho inédito, pois Paulo batizava sem impor as leis de Moisés aos pagãos convertidos; isso vai levar ao martírio incruento de Paulo, porque os judeus reclamam (os judaizantes).

[Judaizantes: judeus convertidos ao cristianismo e que querem guardar a lei de Moisés].

Isso vai dar no Concílio de Jerusalém, onde ele vai falar das maravilhas que Deus fez no meio dos gentios (ano 49: At. 15,1-35; Gl. 2,1 - 10). Para manter um bom convívio entre os cristãos e os judaizantes Tiago vai fazer as quatro cláusulas: idolotitos (sacrifícios pagãos, carne desses sacrifícios - cf. 1Cor 8,1-3), fornicação, sangue, carne com sangue.

A atitude de Pedro observar a lei de Moisés leva Paulo a chamá-lo atenção por isso, como se o cristianismo fosse uma parte do judaísmo. Pedro, por seu exemplo, podia dar normas.

A segunda viagem de Paulo (50 - 53) (At. 15,36 - 18,22). Nessa viagem Paulo prega aos gentios e é expulso pelos judeus em todas as cidades da Grécia. Paulo primeiro ia a eles e depois ia aos gentios. Quando os judeus viam os gentios abraçar a fé expulsavam Paulo, que não impunha aos gentios a circuncisão. São cinco cidades nas quais Paulo prega na Grécia.

Forma uma comunidade de gentios em cada cidade. Em Atenas ele prega no aerópago aos filósofos e lhes propõe a ressurreição e quando os filósofos ouvem falar de ressurreição pensam que é uma nova mitologia e escarnecem de Paulo. Ele vai para Corinto arrasado, cansado e abatido. Chega em Corinto consciente do que é ser apóstolo, o quanto sofre.

Paulo, nesta segunda viagem, escreve as duas Cartas aos Tessalonicenses procurando esclarecer o que ficara em dúvida, pois ele fora expulso. A grande preocupação era saber quando Cristo voltava e qual a sorte dos que morreram antes da vinda de Cristo.

Importa notar que a primeira concepção paulina é escatológica. A iminência da parusia é certa para os primeiros cristãos.

Essa segunda viagem termina com o retorno a Jerusalém. Paulo inicia a 3ª viagem missionária (53 - 58) pela Ásia Menor, detém-se em Éfeso, na Turquia de hoje (At. 20,31). Seu itinerário foi muito fecundo. Escreve suas quatro principais cartas: Gl., 1 e 2Cor., Rm.: Cristo presente na sua Igreja como cabeça (são ditas das Grandes Epístolas).

Essa 3ª viagem conclui-se em Jerusalém e é assediado pelos judeus (At 21,17 - 26). Ele não é um adversário da lei; por isso aceita o ritual e por causa disso os judeus o denunciam de impostor. Paulo é preso e procura se defender. Vai para Cesaréia e lá é detido (anos 58-60). Os romanos não entendem a razão. Não tomam atitude porque a razão para eles é desconhecida. O procurador deixa Paulo preso para ganhar suborno e libertá-lo. Paulo percebe e diz que é cidadão romano. É época de difícil navegação. Contudo vai ser julgado por César em Roma entre 60-61 (At. 27-28). Na Ilha de Malta sofre o naufrágio e é recolhido. Espera por lá o fim do inverno. Lá faz seu apostolado. Vai, enfim, para Roma. Fica numa prisão que lhe permite receber visitas. É uma prisão fecunda: daqui surgem quatro Cartas (Fm., Cl., Ef., Fl.): o Cristo cósmico. As três primeiras Cartas se concatenam bem. A Carta aos Colossenses enfatiza a cristologia e a aos Efésio a eclesiologia. Já a Carta aos Filipenses é muito paternal. Convencionalmente esta Carta é posta aqui, mas ela é de outro teor. É a Carta que fala de Cristo que é Deus e que foi obediente ao Pai. Parece que Paulo foi absolvido. Foi para Espanha? Talvez (anos 63 - 64). Rm 15,24. Depois deve ter regressado à Ásia e faz dois presbíteros: Timóteo e Tito.

Em 64 Nero decreta a primeira perseguição aos cristãos. Assim, são anos difíceis. Ser cristão é ser réu. Julga-se que em 66 - 67 Paulo vai para o 2° cativeiro, que é extremamente penoso (2 Tm 4,10 - 18).

Há quem diga que Paulo foi martirizado com a degolação em 67.

Temos um perfil de Paulo lendo a 2Cor. 11,23 - 29 (esta foi escrita em 57)

Deixou-nos 13 cartas:

1Tm., Tt., 2Tm. - pastorais;

1Ts., 2Ts.;

Fm., Cl., Ef., Fl. - cartas do cativeiro;

Gl., Rm., 1Cor., 2Cor. - as grandes cartas.

A epístola aos Hebreus não é tida como carta sua.

Em Paulo vai direto ao Cristo ressuscitado e nos evangelhos vai-se do Cristo terrestre ao Cristo glorioso

Paulo escreve concomitantemente aos evangelhos e até antes. A partir das epístolas de Paulo podemos ver os problemas das primeiras comunidades cristãs.

 2. A arte paulina de escrever

O material usado era papiro - bambu aclimatado feito pano, cuja face era áspera e a folha era enrolada.

Havia também o pergaminho - pele de animal. O descobridor desde animal foi o rei Eumenes II de Pérgamo - que reinou de197 a 159 a.C. As folhas não eram enroladas mas cortadas a darem o quatérnio.

A matéria para escrever era estilete e a pena de ganso. Usava-se uma goma com cinzas passada ao fogo (tinta da época). Dava o que se chama "enkayston". A escrita antiga era feita em maiúscula e espaçada, escrevia-se devagar, pouco e em muito tempo.

Os intelectuais não escreviam. Quem os fazia eram os designados para a arte de escrever, ditos amanuenses. Hoje também o chefe do escritório também não escreve, mas sim a secretária.

Silvano, Tércio, Timóteo são ajudantes do apóstolo. Paulo só escrevia à noite com lâmpada de azeite. Durante o dia pregava e trabalhava em sua profissão.

Escrevia-se com luz pálida e em situação incômoda. Junta-se o material, o cansaço do dia etc., e escrevia-se três letras por minuto.

Calcula-se que a Carta aos Romanos que tem 7.100 palavras (no original) pode ter levado 98 horas de escrita e cinquenta folhas de papiro (cêrca de 32 dias com 3 horas de trabalho diário). Mas pode ter levado mais dias, uns 49, se fossem 2 horas por noite. Mas também por empecilhos pode ter levado 2 meses.

Isso explica a falta de concatenação de idéias, pois parava-se muito. Já a carta aos Tessaloniocenses tem 1472 palavras e deve ter levado uns 10 dias em duas horas de trabalho diário. E Filemom com 335 palavras, pode ter sido escrita em 6 a 8 horas.

A redação era muito lenta.

Há pessoas que dizem que o temperamento de Paulo não o deixaria esperar tantos dias para redigir a carta e assim teria se aplicado mais.

Os oradores latinos falam da rapidez dos romanos.

Mas o melhor é dizer que foi devagar mesmo.

As cartas paulinas foram escritas com interrupções. Isso explica as mudanças repentinas de estilo, de sintaxe. Há repetições, períodos inacabados.

Pensou-se que isto era por causa dos copistas mas esta idéia está de lado. Basta lembrar da forma com que Paulo escrevia.

Parece que a carta a Filemon foi escrita pelo próprio são Paulo (Fm 19.21). Quando não era o apóstolo que escrevia ele punha no fim da carta sua assinatura para ser identificada (Gl 6,11; 2 Ts. 3,17). Esta ênfase se explica porque eles receberam uma falsa carta falando da vinda de Cristo, dando o dia marcado (1Cor. 16,21; Cl. 4,18). Esse também era um costume dos homens da época.

 2.1. Curso das Cartas Paulinas

Era costume distinguir três partes na redação de então.

1. Exórdio: nome do autor, destinatário e saudação;

2. Corpo da Carta: Onde são abordados os assuntos de interesse do remetente;

3. Conclusão: saudação, conselhos, lugar e data da redação.

Pergunta-se se este estilo se chama Carta ou Epístola. A diferença entre um e outro é que a Carta é um escrito pessoal, de índole particular e muitas vezes secreta, aborda temas de interesse dos dois. As Epístolas são destinadas ao público, sem destinatário exclusivo. É prolixo.

Paulo escreveu o quê? As duas. Escreveu a destinatários pessoais ou comunidades definidas (características de Carta). Além disso, dizia respeito a problemas daquela comunidade, não é em caráter universal (cf. Gl 1,6; 1 Cor 7,1). Quando Paulo escrevia supunha a pregação já feita naquela comunidade (2 Ts. 2,5 - 6). Também temos censuras feitas a destinatários que tratam de temas das comunidades (1Cor). As Cartas eram destinadas a todo público. Veja que Paulo pede para mandá-las a outras comunidades, isto já é próprio de Epístola (Cl. 4,16 e 1 Ts. 5,27). Os temas abordados por Paulo interessavam a todos os cristãos.

Por isso se pode falar de Carta e de Epístola Paulina. O fato de Paulo escrever carta que era epístola não sendo tratados doutrinais, é por causa de problemas das comunidades. Os textos são pouco arrumados, onde o coração se sobrepõe à razão. São Paulo sabe mesclar e muitas vezes o coração se sobrepõe. Não se restringe a um planejamento. Deixa fluir do coração. Essa mescla de gênero explica-se por isso. Além disso, sendo circunstanciada a carta, não são cartas que se pode ler em todo tempo. Temos que ver a situação para a qual foi escrita. Temos que conhecer a vida da Igreja nascente pois ele faz alusões que para eles não precisava explicar e para nós? Assim, a 2 Ts. 2,5 - 6 tem que entender o porquê, pois não mais trabalhavam esperando a segunda vinda de Cristo para já. Daí que Paulo diz que alguns sinais precederão a segunda vinda. Diz que algo segura o mistério da iniquidade.

2.2. O estilo paulino

Quem lê Paulo fica na dúvida do valor estilístico. Ele dizia que era fraco em matéria de eloquência (2Cor 11,6), não era pomposo, bombástico, retórico. Diziam os seus contemporâneos que suas cartas são enérgicas (2Cor. 10,10) e severas, de longe ameaça e de perto é homem fraco, de linguagem desprezível. Paulo não fazia questão de impor-se pela oratória. Tinha a seu favor o fogo, falava com o coração; assim, em Listra, Barnabé e Paulo pregam e Barnabé é tido como Júpiter, que se impunha fisicamente. Já Paulo era fraco mas tinha uma palavra de força, sendo, por isto, chamado de Mercúrio. Ele se impõe pela palavra que sai do coração. Sua palavra tocava a todos (2 Cor 2,16). Ninguém ficava neutro; sua palavra era eficaz.

Por sua linguagem os comentadores se dividem. Há quem diga que é grande escritor, comparado a Platão (vide 1Cor. 13 e Rm. 8). São páginas que tornam Paulo renomado entre os escritores antigos. Além disso, chama a atenção 1Cor.1,25 - 29.

Quintiliano - escritor romano - diz que o coração é que torna o homem eloqüente.

2Cor. 11,16: imperito no falar mas perito no conhecimento de Cristo.

Exemplos de falta de concatenação em Paulo:

* Rm 1,1-7 pode ler os vv 1.7 e não fará falta. Os vv 1.7 são o exórdio normal. Os vv 2-6 são idéias concatenadas e isto tudo fica por conta das idéias que se associa, Paulo se deixa levar.

* Rm 5,12-13: o complemento está no v. 17. A frase do v. 12 não é levada adiante.

Temos também casos em que Paulo vai terminar a Carta e de repente se lembra de alguma coisa. Fl 3,1 - 2 muda o tom bruscamente, retoma a Carta por causa dos judaizantes.

Paulo não é um orador mas é alguém cheio de vida transbordante, suas armas não são a dos oradores da época mas as de Deus (2Cor. 10,4-5).

Por isso Paulo deixa folhas lindas em 1Cor. 1,18 - 30; Rm. 8,31 - 39; 1Cor. 13,1 - 13.

Fala mais com o coração que com a lógica.

padre Marcelo Chelles Moraes - anotações