EMAÚS, PASSO A PASSO

1 - Um dos textos mais importantes da Bíblia e que nos serve de rica experiência catéquica e de evangelização é, sem dúvida, Lc. 24, 13-35, o famoso episódio dos discípulos de Emaús, peculiar a Lucas, diríamos, porque o que Mc. 16,12-13 diz com relação ao acontecimento é pouco expressivo, tendo também outra ótica, não tão objetiva como a de Lucas.

2 - Narra o Evangelho que dois discípulos do Senhor, na tarde do domingo da ressurreição, desanimados, cabisbaixos e frustrados, voltam para Emaús, aldeia próxima de Jerusalém, ignorando totalmente o fato histórico da ressurreição de Cristo, mas julgando-se, porém, bem informados do que lá acontecera.

3 - O que aí acontece mostra, na pedagogia de Deus, o que é essencial a todo cristão, na aprendizagem da vida cristã e na vivência do espírito evangelizador. Vamos, pois, neste trabalho comentar a perícope bíblica de Lucas e colocar nossa experiência de Igreja no mesmo caminho. Tenhamos atenção para com os verbos que aparecem no texto, os quais, pedagogicamente, indicam muitas vezes a atitude do espírito dos caminhantes, pois são próprios da vida de peregrinação de todos nós.

Assim é que devemos ver, por exemplo, a importância de verbos como: caminhar, partir, conversar, dialogar, escutar, aproximar-se, celebrar, anunciar etc.. O verbo voltar, por exemplo, em Lucas, aparece vinte e cinco vezes, e aproximar-se, trinta e quatro vezes, sendo dezoito no Evangelho e dezesseis no Atos dos Apóstolos. Dizemos então, como estudo, que tais verbos fazem parte dos temas lucanos.

4 - Em Lucas, é importante observar também como ele é cuidadoso no trato com as pessoas, pois se narra que Cristo chama os discípulos de Emaús, por exemplo, de "insensatos e lentos de coração...", deixa antes transparecer que eram virtuosos e compreensivos, pois aceitam um estrangeiro e desconhecido como companheiro de caminhada e a ele revelam toda a experiência de suas vidas, de esperança e de decepções.

5 - Vejamos então o texto bíblico em sua expressividade evangélica, dividindo-o em cinco passos, e deixemos também que o nosso coração arda no mesmo fogo do amor de Deus.

1º PASSO (Lc. 24,13-17)

6 - Aqui os discípulos, decepcionados e sem esperança, partem para Emaús, ou seja, não ficam acomodados a uma situação, que, para eles, naquele momento, era de fracasso e de desilusão. Partilham a dureza daquela experiência e conversam sobre os acontecimentos, segundo o Evangelho também discutindo entre si. Mas, nesse momento difícil de suas vidas, Cristo deles se aproxima e se põe a caminhar com eles. Estavam, porém, cegos espiritualmente, a ponto de não reconhecerem o ressuscitado, com quem antes já haviam convivido e do qual eram discípulos.

Vemos aqui o carinho de Deus, que, nas horas difíceis, sempre se coloca ao lado de quem sofre. E qual é, inicialmente, a atitude de Cristo? Não é, como vemos, a de um falador, de quem tudo sabe, mas sim a de quem procura ouvir primeiro, e, como se ignorasse tudo, faz-lhes então uma pergunta sobre o que eles falavam pelo caminho. Portanto, aproximar-se e ouvir deve ser a nossa primeira atitude diante do irmão que sofre, desesperançoso e sombrio. O samaritano, como exemplo do que aqui se diz, aproximou-se do ferido e o socorreu (cf. Lc. 10,34)

2º PASSO (Lc. 24,18-24)

7 - Inicialmente, um dos discípulos, chamado Cléopas, em tom irônico, em vez de responder a pergunta de Jesus, faz-lhe outra, pois sentiam-se bem informados, e só mesmo um estrangeiro, desligado portanto do ideal de um povo, podia ignorar o que se passara naqueles dias em Jerusalém. Jesus não condena a ironia do discípulo e provoca então a reflexão, perguntando sobre o acontecido, mais uma vez colocando-se como desinformado.

E o discípulo abre então o verbo e narra os fatos a Jesus, mostrando, porém, a sua cabecinha de judeu mal formado e informado, pois o objeto de suas esperanças, como também de todo o Israel, era um Cristo-Messias, político e libertador, que de fato libertasse a nação das garras do Império ("Nós esperávamos que ele fosse quem iria redimir Israel..."). Cléopas, aqui, mesmo sendo bom discípulo de Cristo, não demonstra, de início, ter aquela sede do Deus vivo, como a tinha o salmista piedoso (Cf. Sl. 42,2; 62,2), mas identifica-se com a maioria dos judeus de seu tempo. E o tempo de aprendizagem com Cristo? Não lhe valeu para ter uma cabecinha melhor?

3º PASSO (Lc. 24,25-27)

8 - Aqui podemos dizer que a censura de Cristo aos discípulos, inicialmente, tem também um gostinho indulgente, quando os julga lentos de coração para entender as profecias messiânicas, uma vez que estas têm também uma dimensão mistérica. Lentos de coração, isto é, incapazes de entender e sentir, de maneira viva, o que Deus revelava através dos profetas. Uma lentidão da cabeça, da mente, do intelecto, racional, ou seja, uma pequenez do que é puramente humano, seria aqui menos expressiva, pois o que Deus revelava não estava, muitas vezes, ao alcance da simples razão humana, e também porque Deus sempre fala, inicialmente, ao coração. Em Os 11,7, Deus já lamentava a lentidão do povo, que não sabia de modo algum elevar-se, quando chamado do alto. Na continuação do texto em estudo, Cristo então dá aos dois discípulos, como autêntico catequista do Reino, uma catequese da história da salvação, começando por Moisés e por todos os profetas, o que fez arder o coração dos discípulos.

9 - É interessante notar que somente depois que os discípulos mostraram toda a sua realidade interior e limitações humanas é que Cristo se põe a evangelizá-los. Às vezes, isto não acontece conosco. Gostamos, não raro, de ir pregando para outras vidas sem conhecê-las devidamente, sem saber qual é a dimensão de seu vazio ou o nível de riqueza que elas já trazem. Não nos esqueçamos de que o Evangelho é profundamente humano, e quando pensamos que estamos levando-o a alguém, não raro ele aí já se encontra, às vezes até num grau maior do que em nós.

Nota: Aqui, deve-se abrir um parêntese para verificar o modelo das atividades missionárias da Igreja, tanto no passado como no presente, sendo que, no presente, há uma consciência maior da Igreja no tocante a esse fato, como se comenta no número treze deste trabalho.

4º PASSO (Lc. 24,28-32)

10 - Já aqui, aproximando-se da aldeia para onde iam, Jesus provoca novamente neles uma atitude fraterna, "fazendo de conta que ia mais adiante". Lucas, que gosta de detalhes, para enfatizar temas a ele caros, deixa transparecer aqui o desejo de Cristo de ser convidado para um repouso, para uma refeição judaica, costume próprio do povo de Israel, e que, no pensamento de Cristo, naquela noite, ia revestir-se de um sentido novo. Também a atitude de Cristo é simpática aos olhos do evangelista, ao valorizar a simplicidade daqueles discípulos, agora o tratando não mais como forasteiro, mas como amigo.

O texto fala, pois, da insistência dos discípulos para que Cristo permanecesse com eles. Hoje sabemos, pelo contexto, que não era preciso insistir tanto, dado o desejo de Cristo, revelado pelo evangelista. Veja-se a sublimação de toda verdadeira evangelização: os evangelizados insistem para que o evangelizador permaneça com eles, e até apontam um motivo, que é simples, e, ao mesmo tempo, simbólico: cai a tarde e o dia já declina. Não seria este, depois, um pedido também de todo cristão para que Cristo com ele permaneça sempre, principalmente no entardecer da vida?

11 - É consolador verificar que Cristo provoca e aceita um encontro mais íntimo e espiritual com os discípulos. E como se deu esse encontro? Juntos à mesa, numa refeição judaica, é verdade, mas também, segundo Lucas, em sentido celebrativo . Aqui o verbo que dá ênfase ao momento é, portanto, celebrar. E Lucas tem a clara intenção de, narrando uma refeição comum, dirigir nossa atenção para a Eucaristia. O rito do versículo trinta é o mesmo da instituição eucarística, como se vê em Lc. 22,19. Nesse momento, narra o Evangelho, os discípulos reconhecem o Cristo Ressuscitado.

Daí a convicção da Igreja: é no partir o pão, isto é, na celebração da Eucaristia, que podemos reconhecer Cristo, plenamente, como o nosso Salvador, ao mesmo tempo em que somos despertados para a nossa vida de comunhão e de partilha. Alargando ainda mais o nosso horizonte de compreensão eucarística, podemos também observar que os discípulos de Emaús não faziam parte do grupo dos apóstolos, por isso não estavam presentes na última ceia. Assim, o rito da fração do pão que, sacramentalmente, só viveriam depois, realizou neles, antecipadamente, a importância vital da Eucaristia.

Parece que Lucas quis de fato deixar transparecer esta verdade, ao falar de fração do pão, pois este era o nome da missa nos primórdios da Igreja (Cf. At. 2,42). Observemos também que todo o episódio de Emaús se assemelha aos ritos da celebração litúrgica da missa: uma interiorização pelos caminhos, com questionamentos, como nos ritos iniciais; uma Palavra viva, de Cristo, iluminando a vida, como na Liturgia da Palavra; e, culminando, a refeição celebrativa, como na parte eucarística da missa.

12 - Como vimos na reflexão acima, a Palavra prepara então a Eucaristia, e tal se deu também no episódio de Emaús: a palavra de Cristo fazia arder o coração dos discípulos, no caminho, mas não lhes dava ainda a capacidade de reconhecê-lo plenamente. Isto só aconteceu quando se puseram à mesa e partiram o pão. Daí então, no mistério da liturgia, a presença de duas mesas: a da Palavra, que orienta para a Eucaristia, já como alimento redentor, e a mesa eucarística, que dá culminância e plenitude à Palavra. Se o Verbo se fez carne e habitou entre nós, no Mistério da Encarnação, (Cf. Jo. 1,14), no Mistério da Páscoa, o Verbo se faz Pão, para ser nosso alimento eterno (Cf. Jo. 6,35).

13 - Outro dado importante no acontecimento de Emaús, e que serve de modelo para todo processo de evangelização, é que a celebração vem como culminância da caminhada e do processo. Em Emaús, só depois da preparação, evangelização e catequese é que se celebra, o que, em parte, hoje também já acontece na ação missionária da Igreja: procura-se conhecer primeiro, de maneira objetiva, toda a realidade dos povos, pessoas ou grupos a serem evangelizados, no tocante inclusive a seus valores, culturas e tradições. Podemos dizer, após límpida reflexão, que tudo deve convergir para a celebração, como em Emaús, ao mesmo tempo que afirmamos, sem paradoxo, que a celebração é fonte de todo trabalho apostólico e missionário. Não nos esqueçamos de que, se em Emaús, os discípulos só reconheceram o Senhor ressuscitado na fração do pão, depois de o reconhecerem, sem medir consequências, partiram para Jerusalém, a fim de anunciar a ressurreição.

5º PASSO (Lc. 24,33-35)

14 - O primeiro elemento fundamental deste passo é o inverso do que aconteceu no início. Lá os discípulos, tristes, sem esperança, frustrados e sombrios, deixam Jerusalém e vão a caminho da aldeia de Emaús. Aqui, alegres, felizes, com a certeza cristã da ressurreição do Senhor, eles voltam para Jerusalém. E caminhar para Jerusalém é uma forte expressão simbólica de Lucas: significa querer assumir os passos decisivos do sacrifício, como os de Cristo.

Podemos dizer que o verbo mais importante aqui é anunciar, e anunciar a ressurreição, a essência do Evangelho, como fez, antes, Maria Madalena (Cf. Jo. 20,18). Notemos que os discípulos não olham para o que é desfavorável à sua atitude, como o fato, por exemplo, de já ser noite, e os perigos naquele caminho serem notórios. Aqui se abre, pois, para nós o horizonte da missão. E quando se trata, como vemos, das maravilhas de Deus, há pressa nas iniciativas do missionário, pois é preciso anunciar tais maravilhas. Foi assim também com Maria, na visitação a Isabel, como nos narra o mesmo Lucas, no início de seu evangelho: Ela foi apressadamente... (Cf. Lc. 1,39).

15 - Outro dado também significativo, é que a notícia é dada, inicialmente, aos irmãos na fé, os apóstolos, que se encontravam reunidos em Jerusalém, depois, naturalmente, numa manifestação jubilosa, que confirmava, misteriosamente, a primazia de Pedro, no tocante à própria aparição do ressuscitado. Por isso, Lucas põe na boca dos discípulos de Emaús a expressão: "É verdade! O Senhor ressurgiu e apareceu a Simão!". Em seguida, narram os acontecimentos daquela tarde e daquela noite e como haviam reconhecido Cristo, na fração do pão.

16 - Notemos que, tomando o termo técnico da fração do pão, como também em At. 2,42, Lucas deve ter pensado na Eucaristia, como já se falou neste trabalho. Também podemos afirmar que a invisibilidade de Cristo nas espécies eucarísticas, como se dá no culto cristão da missa, pode-se antever no final do versículo trinta e um da perícope de Lucas aqui comentada: "...Ele ficou invisível aos olhos deles". Seria uma mera coincidência, sem forte sentido litúrgico? Parece-nos que é mais correto dizer que se trata de verdadeira ligação, em sentido bíblico.

PASSAGENS DE EMAÚS, PASSAGENS TAMBÉM NOSSAS

17 - Acabamos de ver, de maneira ainda pobre, é verdade, como o episódio dos discípulos de Emaús constitui sábia pedagogia no processo da formação cristã, em todas as suas dimensões. Vamos agora ver como podemos nos situar no mesmo itinerário, já conscientes de que a passagem e caminhada de Cristo com os discípulos também se renova em cada um de nós, principalmente na dimensão comunitária, ou seja, no viver consciente da fé em comunidade.

18 - Reforçando, pois, o tema da vida em comunidade, lembremo-nos de que dois são os discípulos de Emaús, como onze são os que recebem em Jerusalém a notícia da ressurreição. Somente em situações especiais, é que o evangelho costuma particularizar um fato. Tal se dá, por exemplo, com a aparição a Maria Madalena, mas também ela não guarda para si a alegria do acontecimento e vai anunciá-lo aos discípulos (Cf. Mc 16,9-10; Jo 20,11). Diante do acontecimento de Emaús, e de suas conotações comunitárias, devemos também nós passar:

Do afastamento - para a aproximação

• Da partida - para o retorno

• Do isolamento e da solidão - para a comunhão

• Do fechamento - para a abertura

• Da cegueira - para a iluminação

• Do lamento - para o agradecimento

• Da tristeza - para a alegria

• Do não reconhecimento - para o reconhecimento

• Da lentidão - para a prontidão

• Do vazio do coração - para o ardor do Espírito

• Da escuridão - para a luz

• Do refúgio e da acomodação - para a missão apostólica

19 - Como conclusão, também nós, após encontrar e reconhecer o Senhor em nossas vidas, devemos voltar para os irmãos, não mais cabisbaixos, tristes e sombrios, mas alegres e esperançosos. Devemos aprender com Cristo: a aproximação, o colocar-se ao lado dos caminhantes sofridos, sem esperança e frustrados; o ouvir, em primeiro lugar, as suas queixas; o respeito para com os seus limites e suas precariedades, como também o reconhecimento de suas qualidades e virtudes. Com Cristo devemos ainda aprender a falar, na hora certa, o essencial, a valorizar os pequenos gestos e a dar graças pelo pão partilhado.

20 - Com Cristo devemos, sim, aprender, e com seus discípulos também, como é o caso dos discípulos de Emaús. Eles nos ensinam: a aceitar o outro, mesmo estrangeiro, em nossa caminhada, evitando assim o nosso elitismo ou nossas panelinhas; a ouví-lo, mesmo que aquilo que ele tem a dizer não tem importância objetiva para a nossa vida; a elogiá-lo, quando suas palavras fazem arder também o nosso coração; a não censurá-lo, quando seus questionamentos de nossas atitudes e de nossa formação não param em simples questionamentos, mas nos orientam para a nossa verdadeira posição no corpo da Igreja e da família humana.

21 - Vejam como tantos são, pois, os ensinamentos de uma simples passagem bíblica! Oxalá não substituamos nós este profundo manancial da salvação de nosso Deus (Cf. Is. 12,3) - a Bíblia Sagrada - pelas cisternas secas dos homens (Cf. Jr. 14,3), abertas em corações vazios de amor.

João de Araújo - www.joaodearaujo.com.br