O Deus de Jesus Cristo

A pergunta sobre Deus é sempre atual e necessária. Deus é Deus em todos os tempos e épocas. Faz-se presente em muitas culturas nas mais diferentes formas. Também em nosso meio Deus arma sua tenda e faz parte do cotidiano de nossa época e sociedade. A partir desse fato, a pergunta sobre Deus se concretiza e se faz necessária.

Interessa a nós, cristãos, procurar conhecer sempre mais a respeito do Deus professado em nossa fé. Nesta busca de saber quem é Deus, procuramos saber quem é o Deus de Jesus Cristo e o que significa esta descoberta para nós hoje.

Quem é o Deus de Jesus Cristo?

A pergunta precedente não é tão fácil de ser respondida logo de imediato. O fato é que Jesus não nos apresenta um ensinamento sistematizado sobre Deus. A ausência de um ensinamento sistemático não quer significar que Jesus não tinha um pensamento claro a respeito de Deus. Ao contrário, seu conhecimento de Deus era bastante claro e ligado à concretude da vida e de sua cultura. É também um Deus em continuidade com a tradição do povo de Israel. Os Evangelhos apresentam-nos a profunda experiência de Deus que Jesus teve. Mostram-nos como essa experiência era central em sua vida.

O Evangelho de Lucas (12,26.29) nos mostra que o Deus de Jesus é o mesmo Deus dos pais e o Senhor que mantém a Aliança. É um Deus já presente na tradição do seu povo. Pode-se afirmar que Jesus não se preocupa em acrescentar nada além da herança provinda de seus antepassados. Salta aos olhos, porém, a maneira como Jesus dirige-se e procura relacionar-se com Deus. É uma maneira totalmente nova e diferente. Teremos a oportunidade de analisar essa maneira mais adiante.

Segundo Sobrino, com relação ao conteúdo da realidade de Deus, Jesus faz uso das diferentes tradições provenientes do Antigo Testamento. Na tradição profética, Deus aparece como parcial e defensor dos fracos; na tradição apocalíptica, Deus é aquele que, no futuro, transformará a realidade; na tradição do Deus do reino, Deus está profundamente ligado à justiça dos pobres; nas tradições sapienciais, Deus é criador-providente; nas tradições existenciais, Deus é aquele do qual só se ouve o seu silêncio.

Estas diferentes tradições não são facilmente conciliáveis. Dentre todas elas podemos concluir que Jesus nos apresenta um Deus que é "o bom". Em relação à formalidade de Deus, Jesus nos apresenta um Deus que é "transcendente". Notamos este fato quando fala de Deus que cria (Mc 10,6) ou quando fala de Deus como soberano absoluto (Mt 10,28). O Deus que Jesus procura tornar conhecido é essencialmente o Deus Pai.

Jesus revela um Deus que é Pai

Dentre todas as maneiras de Jesus se referir a Deus, chama-nos a atenção a maneira como ele se refere a Deus como Pai. Esta é a maneira que aparece com mais freqüência nos Evangelhos: Mateus, 43 vezes; Marcos, 5 vezes; Lucas, 15 vezes; João 113 vezes. Jesus não só se refere a Deus como Pai em seu ensinamento geral, mas usa essa designação com freqüência em suas orações. Tome-se por exemplo Jo 17,5.11.21.24.25.

Chamar a Deus de Pai não é novidade trazida por Jesus Cristo. No Antigo Testamento já existiam várias referências a Deus como Pai, mas, quando apareciam, eram sempre revestidas de um "clima de enorme respeito e majestade, acrescentando-lhe títulos divinos ostentosos". Essa maneira de se referir a Deus, porém, era invocada somente no sentido de paternidade de todo o povo de Israel. Note-se, por exemplo, Ex 4,22. Não se tem notícias da invocação de Deus como Pai de alguma pessoa em particular.

Aqui encontramos a novidade trazida por Jesus: a maneira de invocar a Deus em novas circunstâncias. Não ensina nenhuma doutrina nova sobre a paternidade de Deus. O original nele está no fato de invocar a Deus em novas situações, dando novas ênfases. O Deus apresentado por Jesus Cristo não é um Deus formal, mas um Deus próximo e familiar. Essa acentuada proximidade com o Pai faz Jesus exclamar: abba! (Mc 14,36).

Essa maneira de se referir a Deus nos chama particularmente a atenção. O termo "abba" é uma palavra aramaica que, traduzida para o Português, seria o equivalente a "papai", "paizinho". É uma forma das crianças se referirem a seus pais e que Jesus, provavelmente, usava ao dirigir-se a José. Esse termo jamais seria usado numa oração pelos contemporâneos de Jesus para se referirem a Deus, uma vez que eram acostumados com uma linguagem mais reservada e formal em suas orações. O significado deste fato foi muito bem expresso por Moltmann. Diz ele: "Quando Jesus se dirige a Deus como abba, conseqüentemente a tônica não está na masculinidade de um Deus Pai e nem na sua majestade de Deus Senhor, mas na inaudita proximidade, na qual experimenta o mistério divino. Deus lhe está tão próximo em termos de espaço quanto o reino de Deus se 'aproximou' por meio dele em termos de tempo. O reino está tão próximo que se pode dizer abba para Deus, e se é possível dizer abba para Deus, então o seu reino já está aí".

Este fato mostra-nos o rosto de Deus que se aproxima cada vez mais. Dá permissão e abertura para se entregar a ele com toda confiança. Jesus não só chama Deus de Pai, mas ensina-nos a fazer o mesmo. Jesus emprega a expressão "vosso Pai" não menos que 20 vezes. Ele revela um Deus que é "seu Pai" mas que também é "nosso Pai". Ao falar que Deus é nosso Pai, Jesus nos leva a refletir sobre essa paternidade. Vimos a relação de intimidade entre o Filho e o Pai. Essa relação é ensinada a nós também. Passamos a fazer uso da expressão "abba" no nosso relacionamento com Deus.

Há, porém, uma diferença entre a nossa filiação e a filiação de Jesus. Ele sempre usa a expressão "meu Pai" e "vosso Pai", mas nunca o termo "nosso Pai". Conclui-se que "o que Jesus é por natureza, nós somos por graça".

O nome de Deus é, portanto, Pai. Todos os outros nomes que por ventura venhamos a dar, nada mais são que apelativos a Deus. O Deus apresentado por Jesus é um Deus que é Pai e cuja infinita bondade levou-o a criar tudo. Poderíamos ainda elencar tantas outras qualidades para o Pai que nos foram mostradas por Jesus. O Pai que é perdão, tão bem mostrado na parábola do filho pródigo (Lc 15,11-32), o Pai que é perfeito, mostrado na exortação de Jesus: "Sede perfeitos como vosso Pai é perfeito" (Mt 5,48).

Estas coisas todas foram reveladas a Jesus pelo próprio Deus: "Todas estas coisas me foram dadas por meu Pai e ninguém conhece o Pai senão o filho e aquele a que o filho quiser revelar. (Mt 11,27). É Jesus também quem conclui dizendo: "Quem me vê, vê o Pai"(Jo, 14,9). Deus-Pai se revela e se manifesta no próprio Jesus. Jesus é a própria imagem do Pai. É o Pai que se mostra com toda sua bondade e vigor. As ações de Jesus nos mostram que Ele nos revela o Pai e o Pai se revela n'Ele.

Chamar hoje a Deus de Pai

O que foi dito até agora nos leva a um grande questionamento: Que sentido há hoje em dizer que Deus é nosso Pai?

O mundo hoje não nos parece ser muito fraterno. Nos deparamos a todo momento com injustiças, marginalização e tantos outros males. Ao nos dirigirmos a Deus como Pai-abba, somos levados por uma consciência de filhos a uma busca constante da justiça e a recuperar a utopia da fraternidade. Ser filhos do mesmo Pai nos faz todos irmãos. Nos compromete a viver os seus mandamentos. E, dentre eles, o maior é o mandamento do amor.

Somos conscientes de que o amor a Deus passa necessariamente pelo amor ao próximo. Não é, porém, um amor-fantasia ou obscurecido pelo romantismo. É uma amor histórico, concreto e real a homens e mulheres do nosso mundo. E nessa historicidade devemos ter sensibilidade para perceber quem necessita de nosso amor traduzido em obras. Não restam dúvidas de que os destinatários são aqueles que, vítimas do crescente processo de empobrecimento, foram relegados à margem da convivência social.

Precisamos sempre mais buscar viver essa filiação de Deus. Devemos a cada dia mais procurar conhecer e viver a vontade do Pai.

Geldes de Campos Castro

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

BOFF, Leonardo. O Pai Nosso: A Oração da Libertação Integral. Petrópolis, Vozes, 1979.

CARAVIAS. José L. O Deus de Jesus. Petrópolis, Vozes, 1987.

GRENIER, Brian. Jesus, O Mestre. São Paulo, Paulus, 1998.

MOLTMANN, Jürgen. O Caminho de Jesus Cristo: Cristologia em dimensões messiânicas. Petrópolis, Vozes, 1994.

SOBRINO, Jon. Jesus, O Libertador: I. A história de Jesus de Nazaré. São Paulo, Vozes, 1994. (Col. Teologia e Libertação).