SOMOS TODOS DESCENDENTES DE NOÉ?

Na madrugada do dia 12 de outubro de 1492, quando Cristóvão Colombo tocava as costas da Ilha de São Salvador e o mundo se despertava com a aparição de um novo continente, jamais o navegador genovês imaginava que esta sua descoberta, além dos problemas políticos, econômicos, culturais e étnicos, fossem também abalar o mundo da Bíblia.

Se, naquele dia, Colombo tivesse desembarcado nas Índias, que era o seu destino desejado, tudo estaria tranqüilo. Mas é que ele chegou a um "Novo Mundo", conforme a expressão de Américo Vespúcio. Portanto, os nativos deste mundo novo não eram asiáticos, pertenciam a um grupo de gente até o momento desconhecido. Isto trouxe um sério problema para os eruditos e para os clérigos daquela época.

Todos de um só. No século XVI, pensava-se que todos os povos do mundo descendiam originalmente de Adão e Eva, e que podiam ser rastreados facilmente em suas origens até chegar a Noé. Isto conforme está na Bíblia, no capítulo 10 do Gênesis.

Na Bíblia se conta como todos os habitantes da Terra desapareceram com o Dilúvio, ficando só a família de Noé. E, a partir dos 3 filhos de Noé (Shen, Chan e Jafet) começou novamente a ser repovoada a face da terra. E, no capítulo 10 do Gênesis, está a lista de todas as nações e sua progressiva expansão. Esta tabela etnográfica, documento único da literatura antiga, já que não se encontra nenhum outro tão completo nas demais literaturas da época, servia na Bíblia para mostrar como a descendência de Noé cumpriu o mandato divino de crescer, multiplicar e encher a terra (Gn 1,28), com o que Noé passou a ser o novo progenitor da humanidade.

A "Tábua das Nações". Mas de onde saiu esta "Tábua das Nações" que consta neste citado capítulo do Gênesis? Na verdade se trata de um velho católogo de povos e nações composto no século 10 a.C., quando o rei Daví começou a organizar o seu Reino. Com efeito, ao estabelecer relações comerciais e diplomáticas com seus vizinhos, os Israelitas descobriram a enorme diversidade de povos que habitavam o já dilatado mundo daquele tempo. Resolveram, então, classificá-los para colocar um pouco de ordem naquela multiplicidade e criaram esta "Tábua das Nações".

Na composição deste elenco de povos, o autor agrupou as nações de acordo com 3 categorias:

1) aqueles povos com os quais Israel mantinha relações amistosas, seja por razões históricas, comerciais ou étnicas, foram colocados como descendentes de Shen;

2) o segundo grupo era formado pelas nações inimigas de Israel que foram colocadas como descendentes de Chan, o filho maldito de Noé (Gen 9,22 - 25);

3) finalmente, todas as outras raças e nações que lhes eram indiferentes ou neutras foram colocadas como filhas de Jafet. Deste modo se obteve um mundo divido em 3 partes que, geograficamente, ficavam: ao norte e ao oeste de Israel, isto é, toda região da Ásia Menor e das Ilhas do Mediterrâneo, habitadas pelos descentes de Jafet; ao sul, isto é, o Egito e sua zona de influência, filhos de Chan; e o grupo oriental, Mesopotâmia e arredores, terra de Shen.

Como Pais e Filhos. Para compor esta sua "Tábua das Nações", o autor sagrado utilizou um gênero literário especial, chamado genealogia, muito usado em toda antigüidade. Consiste em descrever as relações comerciais, históricas ou étnicas em termos de parentesco. A maior ou menor proximidade entre os povos os fazia irmãos, primos, sobrinhos; a maior ou menor distância no tempo os fazia pais, filhos, netos. Por exemplo: se nós quiséssemos contar a genealogia de um pedaço do Brasil, nós diríamos, mais ou menos, assim: os descendentes de Europa foram: Espanha França, Portugal. Os Brasil são Rio Amazonas e Rio Tocantins. Os descendentes de Tocantins foram Pará e Goiás. Goiás foi pai de Brasília que gerou Taguatinga e Ceilândia. Os povos e nações eram, pois, apresentados como pessoas. Nós encontramos este gênero literário no capítulo 36 de Gênesis e nos capítulos de 1 a 11 do 1º Livro das Crônicas.

Foi uma empresa limitada. A primeira coisa a destacar é que a Tábua do capítulo 10 de Gênesis menciona somente gente de raça branca ou negra. Nada é dito sobre outras etnias. Isto porque a área geográfica de que fala o autor sagrado está delimitada pelo Oriente mais próximo, já que o todo em volta era desconhecido. Com efeito, o antigo Israel, fechado em seu nacionalismo e com a proibição de Javé de ter demasiados contatos com as outras nações pelo perigo da apostasia, não se interessava muito pelos povos que habitavam fora de suas fronteiras. Por serem seus conhecimentos geográficos muito limitados, simplesmente se propuseram compor um elenco simbólico, sem nenhuma pretensão de exatidão. Inclusive, o total mencionado - 70 povos - mostra claramente que não se trata de nenhum documento científico, já que na Bíblia o número 70 simboliza a totalidade, a universalidade, a perfeição.

A perigosa leitura literal. Não era isto que entendiam os estudiosos da Bíblia da época de Colombo. Partidários da interpretação literal da Bíblia, ao constatar que os aborígines recém-encontrados na América não eram asiáticos, concluíram que eles não descendiam nem de Shen, nem de Chan, nem de Jafet. E, como não existia um 4º filho de Noé que pudesse ter gerado esta 4ª raça, aquela gente não podia ser considerada como verdadeiros seres humanos, a não ser que a Bíblia estivesse equivocada. Alguns eruditos, como Isac de la Peyère, em 1655, sugeriram timidamente que esses nativos pertenceriam a uma criação separada "pré-adâmica" que não fora destruída pelo dilúvio. Nem deram ouvidos a esta opinião. Surgiu, então, na Europa, um acirrado debate entre aqueles que queriam defender os direitos dos índios e aqueles que queriam impor o argumento bíblico-teológico para negar que eles pertenciam à raça humana.

Os eruditos e a virgem. Mas um acontecimento inesperado, em 1531, veio trazer nova luz sobre a questão. Enquanto as mentes eruditas e os cérebros mais ilustrados da época se perguntavam, mediante sutís argumentos se aqueles seres estranhos, de pele bronzeada, seminus, que se comunicavam numa linguagem incompreensível, que viviam em estado natural e quase animalesco, teriam verdadeira alma humana e eram, portanto, merecedores da redenção de Cristo, nas montanhas de Tepeyac, nas proximidades da Cidade do México, o índio Juan Diego recebia a visão de uma senhora, a Virgem de Guadalupe, que quis deixar-lhe para sempre o seu rosto impresso no seu poncho. E a imagem da Virgem alí estampada era a figura de uma índia com a pele escura, os olhos rasgados e as faces próprias de uma nativa. Sem nenhuma vergonha, a Mãe de Deus reconhecia como filhos seus, àqueles a quem a sociedade européia duvidava em aceitar como verdadeiros irmãos.

Precisou a intervenção do papa. Seis anos mais tarde, o papa Paulo III, numa solene Bula chamada "Sublimis Deus" promulgada a 2 de junho de 1537, dava definitivamente a opinião da Igreja ao declarar que "os índios são verdadeiros seres humanos e capazes de compreender a fé católica". Portanto "não podem ser escravizados nem induzidos a abraçar a fé cristã por outros meios que não sejam a exposição da palavra divina e o exemplo de uma vida santa". Este pronunciamento deixou para os pesquisadores de então uma única conclusão: os nativos do novo mundo deveriam ter chegado à América pouco depois do Dilúvio. Agora seria preciso rastreá-los até algum dos filhos de Noé, através dos grupos étnicos já conhecidos. Porém esta já seria uma outra história. O certo é que Maria de Guadalupe conseguiu despregar a "Tábua das Nações" do Gênesis até as praias da América.

Que valor tem esta velha "Tábua". Para os leitores da Bíblia este capítulo 10º de Gênesis aparece como uma pesada sucessão de nomes de descendentes de Shen, Chan e Jafet. E, ao chegarem a este ponto, sentem forte fastígio e, às vezes, simplesmente pulam por cima desta passagem bíblica. Que sentido, realmente, tem que a Palavra de Deus continue conservando esta vetusta página entre os sublimes ensinamentos do Gênesis? Pode trazer algo para a espiritualidade cristã este massante quadro genealógico de populações, algumas delas até hoje sem identificação? Este capítulo 10º tem a sua importância. Trata-se de uma verdadeira teologia da comunidade dos povos. E o primeiro ensinamento que nos dá é sobre a diversidade do fenômeno humano. Três vezes se repete no texto que a humanidade está constituída por uma rica variedade de "línguas, territórios, nações e clãs". Portanto é evidente que, para o autor sagrado a diversidade de culturas e línguas não é uma conseqüência do pecado nem das desinteligencias humanas; é, sim, uma bênção de Deus. Faz parte da beleza de toda criação. Por conseguinte, qualquer pretensão de uma língua ou cultura que se creia superior e queira impor seu domínio sobre as outras, seria contrária à ordem natural. Conforme o Autor Sagrado, a ordem natural consiste em uma comunidade de povos distintos e um encontro de culturas diferentes.

Mas, talvez, a doutrina mais importante deste trecho bíblico seja a igualdade de todos os povos. Nenhum deles é considerado como eixo principal da "Tábua das Nações", ou como centro da história. Ao contrário, se rechaça qualquer intento em transformar em hegemônica uma raça ou nação. Até mesmo o povo de Israel não ocupa o centro da cena ou lugar preeminente. Nem é mencionado na lista. Só aparece um seu antepassado, Héber, de quem descendem os hebreus, através de um nome inespressivo para a fé e a salvação: Arpaksad. Enquanto outras religiões consideravam sua gente como o vértice do mundo graças à conexão com algum deus descido dos céus para lhes entregar o domínio e o poder, fazendo-os mais importantes do que seus vizinhos, Israel renunciou a qualquer mito que o ajudasse a se impor sobre os demais povos. A suposta superioridade da raça hebréa é alheia à revelação. A supremacia de Israel não é de ordem natural. É fruto de uma eleição totalmente gratuita. Como povo está inserido no meio dos outros povos como um a mais.

A grande família. Este capítulo ensina finalmente a unidade fundamental de todos os seres humanos dentro da diversidade. Por se acharem todos unidos pelo sangue de uma grande família, todos são irmãos e a todos Deus ama do mesmo modo, qualquer que seja sua língua, seus costumes ou a cor de sua pele. Se, entre todos os povos da terra, Deus elege um, não é para que este eleito guarde ciosamente para si esta escolha divina. Mas ele deverá assumir o serviço de levar as promessas divinas a todas as outras famílias da terra (Gen 12,3). A humanidade inteira tem, pois, a mesma origem e se encaminha para o mesmo destino. De Gênesis 10, podemos retirar uma sugestiva filosofia de vida. Certos organismos, como a ONU, encarregados de velar sobre as justas relações entre os países do mundo, tem sérios motivos para se inspirarem nesta página da Bíblia. Por não ter sabido compreender estes velhos ensinamentos deste escrito trimilenar sobre a unidade do gênero humano que faz de todos irmãos da mesma família, nosso século presenciou horrendos crimes, ódios raciais e genocídios que nada condizem com a fraternidade que Noé ensinou a seus filhos.

Mil anos depois, Jesus. No Novo Testamento temos uma alusão à "Tábua das Nações". O Evangelho de são Lucas relata que Jesus decidiu enviar os seus primeiros discípulos a evangelizar as populações, indo de casa em casa, e repetindo a eles os ensinamentos do Mestre. Era uma missão preparatória para que depois o próprio Jesus viesse pessoalmente evangelizar aqueles lugares. O número destes primeiros enviados era 70 (Lc 10,1). Não é uma simples casualidade que o Evangelho anote este número 70. Conforme a crença geral, naquela época, a quantidade dos povos do mundo perfazia um total de 70 nações. E Lucas, que era um homem de mentalidade universalista, quis ensinar que, também a fé cristã deve chegar um dia a todas as nações. E, enquanto existir uma só cidade ou povoado, alguma paragem que ainda não ouviu a Boa Nova de Jesus, continua fazendo falta esses 70 missionários, isto é, a Igreja toda posta em marcha, sem discriminar o destinatário, para que um dia todas as nações do mundo conheçam e amem o seu Senhor. 

padre Ariel Alvarez Valdés "Revista Tierra Santa"