As COMUNIDADES JOANINAS

Quem pretende conhecer algo a respeito da literatura joanina (Apocalipse, Evangelho e Cartas de João) não pode ignorar a história das comunidades joaninas (também chamadas de comunidades do Discípulo Amado), seu modo de ser e características principais. A porta de entrada para cada um desses livros do Novo Testamento é sua história, desde a formação até o desaparecimento das comunidades às quais devemos o surgimento e a conservação desses textos.

Olhar para a história dessas comunidades, ainda que rapidamente, permite descobrir que esses textos não caíram do céu, mas nasceram de situações concretas e de comunidades bem determinadas, com suas esperanças e conflitos. É por isso que, antes de entrar nas cartas de João, faremos breve resumo da história das comunidades joaninas, dividindo-a basicamente em quatro etapas ou fases (a fase que interessa às cartas é sobretudo a terceira).

1. Primeira fase: formação (anos 50-80, aproximadamente)

A tradição situa as comunidades joaninas na região de Éfeso, na Ásia Menor.

A origem dessas comunidades não pode ser determinada com exatidão. Supõe-se que foram surgindo lentamente e se constituindo num espaço de aproximadamente trinta anos. 0 Apocalipse (capítulos 2 e 3) fala de sete comunidades concretas, mas certamente as comunidades joaninas eram muito mais numerosas. Éfeso, provavelmente, era a comunidade mais velha, ponto de partida para toda a irradiação posterior da mensagem cristã.

Essas comunidades foram se formando a partir de um grupo de cristãos de origem judaica. Não possuíam uma visão e experiência profundas a respeito de Jesus. Pelo contrário, para eles, Jesus tinha sido alguém ligado à Lei e às expectativas populares referentes ao messias político. É o que se pode perceber examinando os títulos dados a Jesus em João 1,37-51. Títulos que ligam Jesus à Lei: rabi (1,38.49), aquele de quem escreveram Moisés e os profetas (1,45). Títulos que o relacionam com as expectativas populares messiânicas: Messias (1,41), Filho de Deus e rei de Israel (1,49). É importante recordar que esses três últimos títulos, nessa época, ainda não têm toda a carga teológica que nós lhes damos hoje. Eram apenas títulos ligados à realeza, relacionados por exemplo aos Salmos 2, 110 etc.

0 Evangelho de João certamente desenvolverá o tema da realeza de Jesus, mas lhe dará uma visão completamente nova e insuperável. Quanto à possível ligação de Jesus com a Lei, o próprio Evangelho se encarregará logo de desmentir (veja, por exemplo, João 1,17, e como esse tema é desenvolvido ao longo do texto).

Esse grupo, com visão reduzida a respeito de Jesus, é provocado a ver coisas maiores: "No entanto, você verá coisas maiores do que essas" (João 1,49b). Quem ajudou o primeiro grupo a ver "coisas maiores"?

Com o passar do tempo, as comunidades joaninas foram incorporando outro grupo, provavelmente os samaritanos (ou um grupo de judeu-cristãos com opinião formada contra o Templo de Jerusalém e que teria convertido os samaritanos). Note-se um detalhe: o Evangelho de João é o que mais dá espaço aos samaritanos (João 4,4-42). Isso denota que esse grupo deve ter sido de capital importância para que as comunidades joaninas se abrissem para uma visão e experiência maiores e mais profundas acerca de Jesus.

Quais seriam essas "coisas maiores"? São basicamente aqueles temas cristológicos exigentes do Evangelho de João. Eles estão presentes também na primeira carta, porém contestados por um grupo dissidente: a preexistência da Palavra em Deus (João 1,1;1 João 1,1-4); a união estreita entre Jesus e o Pai (João 10,30; 1 João 2,22-23), a ponto de Jesus tomar para si o Nome de Javé, o "Eu Sou" de Êxodo 3,14 (João 8,24.28.58), e tantos outros temas que dão ao Jesus do Evangelho de João (e das cartas) um rosto próprio. Foi o segundo grupo que levou para dentro das comunidades joaninas o fermento de visão e experiência novas a respeito de Jesus.

Finalmente, as comunidades joaninas, seguindo o exemplo do próprio Jesus, abriram-se aos não judeus, chamados de "gregos" pelo Evangelho de João (12,20-32). Há detalhes significativos nesse trecho, por exemplo: os gregos vão à festa em Jerusalém, mas em vez de ir ao Templo para se encontrar com Deus, vão a Jesus, ponto de encontro de Deus e da humanidade (veja João 1,14); os dois discípulos que servem de intermediários entre os "gregos" e Jesus têm nomes "inculturados" (André e Filipe são nomes gregos); Jesus elevado na cruz atrai todos a si (12,32).
Outro detalhe do Evangelho de João, que mostra a abertura das comunidades a culturas diferentes, é a preocupação em traduzir certos nomes de cultura tipicamente judaica, como "rabi", "messias" e "Cefas" (1,38.41.42).

Foi assim que, no espaço de trinta anos, as comunidades joaninas foram se formando e constituindo unidade onde isso parecia impossível. De fato, eram raças diferentes (judeus, samaritanos, não judeus), culturas diferentes e modos diferentes de ver o mundo e as coisas. Apesar disso, por causa de Jesus Cristo, a rede das comunidades não se rompeu (veja João 21,11b). Criaramse comunidades de iguais, muito participativas, democráticas e fraternas. Corajosamente, elas não tinham sacramentos como, por exemplo, a Eucaristia, pois o amor entre as pessoas e para com Jesus as mantinha de tal forma unidas, a ponto de não precisarem de um sinal sacramental externo.

Nenhum texto da literatura joanina foi escrito nessa fase. Jesus era vivido e celebrado na vida das comunidades, no sonho de constituir unidade na diversidade de raças, culturas, visão do mundo e das coisas.

2. Segunda fase: redação do Evangelho. Conflitos externos (80-100, aproximadamente)

A história da redação do Evangelho de João é um tema complicado. Aqui é suficiente recordar alguns tópicos.

1. A redação do Evangelho de João aconteceu no espaço de vinte ou mais anos.

2. É muito difícil, hoje, sustentar que tenha sido escrito por uma única pessoa, ainda que essa pessoa fosse "são João evangelista".

3. Textos escritos e isolados foram aparecendo aos poucos nas comunidades joaninas.

4. Esses textos isolados foram mais tarde "costurados" e organizados por uma pessoa ou grupo.

5. Apesar de estar bem organizado, o Evangelho de João apresenta "falhas de costura".

6. E supérfluo e até perda de tempo ficar perguntando se o que se encontra no Evangelho de João são palavras autênticas de Jesus ou se são resultado da fé que as comunidades tinham nele. Não existe, nesse Evangelho, essa barreira ou separação. As duas coisas convivem harmoniosamente.

Nessa fase as comunidades do Discípulo Amado entram em choque com seis grupos diferentes. Isso nos leva à primeira constatação: o Evangelho de João nasce do chão cotidiano das tensões. Alguns gostam de chamá-lo de "evangelho espiritual", como se ele planasse acima das tensões e conflitos cotidianos. E pensam aí encontrar uma espiritualidade para suas vidas. O Evangelho de João, como os demais, fala de espiritualidade, mas não desencarnada. Pelo contrário.

a. O primeiro grupo é chamado de "mundo". Essa palavra tem, no Evangelho de João, vários significados, como em português. Pode significar "todos", "a humanidade inteira" (3,16) e o "cosmo" (17,6). Mas às vezes ela vem carregada de sentido negativo. Alguns exemplos ajudam a entender: Jesus não reza por esse "mundo" (17,9), ao qual nem ele nem seus discípulos pertencem (17,14.16). O reino de Jesus também não pertence a esse "mundo" (18,36), que odeia os discípulos e Jesus (15,18). Jesus, contudo, venceu o "mundo" (16,33). O que significa "mundo" nesse caso? É sinônimo de sociedade injusta, oposta ao projeto de Deus e de Jesus, geradora de morte para o povo. De alguma forma o império romano estava envolvido nesse arranjo social injusto. E importante salientar, desde já, que em 1 João a palavra "mundo" tem quase sempre esse significado negativo. O Apocalipse tem um paralelo semelhante na expressão "habitantes da terra".

b. O segundo grupo é chamado de "judeus". No Evangelho de João, essa palavra às vezes representa todo o povo judeu (por exemplo, 4,22). Nesse caso, o Evangelho de João não os vê de forma negativa. Muitas vezes, porém, a palavra "judeus" aparece em contexto polêmico e agressivo. Nesse caso, por trás dessa palavra escondem-se as autoridades político-religiosas do povo judeu, numa palavra, os poderosos. São eles os principais opositores de Jesus e os diretos responsáveis por sua morte (na narrativa da paixão segundo João o povo não está presente).
São também responsáveis, em parte, pela morte de cristãos no tempo em que o Evangelho de João está sendo escrito.

Vale a pena recordar alguns dados históricos. Com a destruição do Templo de Jerusalém pelos romanos (ano 70), o judaísmo arriscou seriamente desaparecer. Mas conseguiu reconstituir-se na cidade de Jâmnia, dependendo diretamente de dois grupos importantes que sobreviveram, os doutores da Lei (também chamados de escribas, que são muito importantes em Marcos e Mateus) e os fariseus (bem presentes no Evangelho de João). 0 judaísmo que sobreviveu a partir de Jâmnia tomou decisões drásticas contra os seguidores do Nazareno, que eles chamavam de hereges. Simplesmente pediam a Deus que os matasse, que não houvesse esperança para eles. Entende-se melhor, dessa forma, a dura discussão de Jesus com as autoridades no capítulo 8 de João e compreende-se o que estava acontecendo no tempo em que o Evangelho de João foi escrito: "Expulsarão vocês das sinagogas. E vai chegar a hora em que alguém, ao matar vocês, pensará que está oferecendo um sacrifício a Deus" (16,2; veja também 9,34 e compare com Apocalipse 2,9).

c. O terceiro grupo é formado pelos seguidores de João Batista. Atos 19,1-7 dá a entender que, já por volta do ano 54, em Éfeso, havia seguidores de João Batista, personagem importante no Evangelho de João. Os outros evangelhos não falam tanto do Batista quanto o Quarto Evangelho, que omite até o martírio de João Batista.

Estudos recentes sobre o Prólogo (João 1,1-18) afirmam que esse hino, na sua origem, seria uma poesia dedicada a João Batista, Palavra de Deus. Em outras palavras, as grandes revelações desse poema, na sua origem, eram atribuídas ao Batista. De fato, examinando bem João 1,1-18, nota-se que os versículos 6-8 e 15 são uma espécie de cunha, um acréscimo para esclarecer que João Batista é simples testemunha que leva as pessoas a crer em Jesus. Do modo como é apresentado no Quarto Evangelho, João Batista ocupa seu lugar de testemunha (veja 1,7-8.15.19.32.34) e de amigo do esposo, que prepara o grande encontro do esposo Jesus com a humanidade (3,29). Ele reconhece que deve diminuir até desaparecer, ao passo que Jesus deve crescer (3,30). Isso deve ser entendido à luz de Gênesis 1,28, ou seja, na linha da fecundidade: quem vai ter uma "descendência" é Jesus-esposo. João Batista deve desaparecer. Além disso, é interessante notar que, à medida que dá testemunho de Jesus, João Batista se esvazia e perde discípulos (1,35-39), bem em sintonia com o que viemos mostrando.

Todos os textos referentes ao Batista no Evangelho de João podem ser lidos nessa dimensão, sinal de que as comunidades joaninas tiveram sérios enfrentamentos com os seguidores de João Batista.

d. O quarto grupo é composto pelos cristãos "em cima do muro", ou seja, pessoas que deram sua adesão a Jesus mas têm medo de confessar publicamente a própria fé, pois se o fizessem correriam os riscos enfrentados pelo cego curado por Jesus (João 9,1-38, sobretudo o versículo 34; veja também o que foi dito acima).

Duas personagens do Evangelho de João representam muito bem esse grupo. Trata-se de José de Arimatéia e Nicodemos. José de Arimatéia aparece uma só vez, e dele se diz claramente que "era discípulo de Jesus, mas às escondidas, porque ele tinha medo das autoridades dos judeus" (19,38a). Ele e Nicodemos pertencem à elite da sociedade. E talvez por isso, para não perder privilégios, escondem a própria fé. José de Arimatéia usa seu prestígio (talvez pagando propina) para convencer Pilatos a deixar que o corpo de Jesus seja retirado da cruz (19,38b). Na verdade, os romanos gostavam de deixar os corpos apodrecendo na cruz, a fim de que isso servisse de alerta a quem ousasse discordar do sistema, do "mundo".

A figura de Nicodemos, que só aparece nesse evangelho, é mais detalhada. Fala-se diretamente dele três vezes e, indiretamente, várias vezes, ou seja, sempre que se nomeia o Sinédrio ou Conselho. A primeira vez encontra-se em João 3,lss. Aí se diz que ele era fariseu e judeu importante. Em seguida, Jesus recorda que Nicodemos gozava de prestígio entre o povo, sendo chamado de "o mestre em Israel" (3,10). Esse título fora dado no passado unicamente a Moisés. Ele vai se encontrar com Jesus de noite (3,2), carregando consigo tudo o que as "trevas" representam no Evangelho de João. Aliás, Nicodemos será adiante recordado com essa característica. Sua pessoa, portanto, está associada às "trevas" que tentarão apagar a luz (1,5). É certo que Nicodemos representa um grupo, pois Jesus fala com ele como se estivesse se dirigindo a várias pessoas (veja a expressão "é preciso vocês nascerem do alto", em 3,7). Para ele e para todos os que representa, Jesus aponta a única saída, o novo nascimento; ou seja, mudar completamente a rota da própria vida.

Nicodemos aparece pela segunda vez em 7,50-52, e aqui temos o quadro completo de quem ele é. O Sinédrio, tribunal responsável pela morte de Jesus, mandou a polícia prendê-lo (7,30.45), e afirma-se que Nicodemos era um deles (7,50), ou seja, membro do Sinédrio (chamado de "Conselho" pelo Evangelho de João).

Nicodemos, portanto, é membro do Sinédrio e está diante de um dilema: se declarar sua fé em Jesus, perderá seus privilégios, será expulso e talvez morto; se esconder a própria fé, permanecendo no Sinédrio, ele se tornará cúmplice da morte de Jesus. Aqui tenta defender Jesus, dizendo que o Sinédrio não condena alguém sem antes examinar as obras e escutar sua defesa (7,51). É uma tentativa desesperada de salvar Jesus salvando o Sinédrio que, ao que tudo indica, já tinha tomado uma decisão drástica contra Jesus (veja 5,16.18).

Nicodemos se debate nessas águas ou, usando a imagem do Evangelho de João, habita essas "trevas" que tentam apagar a luz. Ele certamente está presente, embora sem ser citado, quando o Conselho se reúne para decretar a morte de Jesus (11,45-54) e nos episódios da paixão (capítulos 18 e 19).

O último encontro de Nicodemos com Jesus acontece quando este já está morto (19,39) por ação do Sinédrio e, certamente, com o silêncio cúmplice do primeiro. Faz-lhe, então, um enterro solene, gastando uma fortuna (mais de trinta quilos de perfume). Por iniciativa de Nicodemos e de José de Arimatéia, Jesus é enterrado com "honras de chefe de Estado, pois somente os reis eram sepultados com tal quantidade de aromas. Certo. Mas Nicodemos, com isso, não pode dizer que tenha "lavado a alma". Ajudou a matar; agora resta enterrar.

E isso que as comunidades joaninas pensam a respeito dos cristãos "em cima do muro". Sua aparente neutralidade revela uma cumplicidade mortal.

e. Há outro grupo ao qual as comunidades do Discípulo Amado não poupam críticas no seu Evangelho. São os cristãos de fé insuficiente, ou seja, um grupo de discípulos que segue Jesus até que isso sirva aos próprios interesses, sem comprometer excessivamente.

Temos um reflexo desse grupo em 6,60-66. Esse trecho começa falando da reclamação desse grupo e termina mostrando a desistência do mesmo. 0 motivo disso é o "comer a carne e beber o sangue" de Jesus, isto é, assimilar Jesus na sua totalidade. Assimilar pode ter pelo menos dois sentidos. Quando se fala em termos fisiológicos, o organismo da pessoa assimila, isto é, apropria-se de tudo o que entra no estômago, tornando-o parte do próprio corpo. É o primeiro sentido. 0 segundo é este: assimilar significa "tornar-se semelhante", "ser como". Os dois sentidos explicam o "comer a carne e beber o sangue" de Jesus. Além disso, é importante ter presente que, na antropologia bíblica, "carne e sangue" representa a totalidade da pessoa. Esse grupo desiste de seguir Jesus por causa dessas fortes exigências.

Esse grupo, pelo que parece, está ligado aos "irmãos" de Jesus (7,3) que, na festa das Tendas (festa de forte expectativa messiânica), sugerem a Jesus que aproveite a popularidade para se impor como messias diante de todos. 0 Evangelho de João critica duramente esse grupo, afirmando que eles não têm fé em Jesus (7,5). E interessante notar que, em João, não se fala das tentações de Jesus, como nos outros evangelhos. Aqui, todavia, tem-se a impressão de que os "irmãos" de Jesus fazem o papel do Diabo na segunda tentação descrita por Mateus (4,5-7; em Lucas trata-se da terceira: 4,9-12).

f. O último grupo é constituído pelos cristãos das igrejas hierarquizadas, representados no Evangelho de João sobretudo por Simão Pedro. Antes disso, contudo, é bom recordar que as comunidades joaninas não tinham um poder central e centralizador como as demais comunidades cristãs do fim do I século e início do II. Eram extremamente fraternas e iguais (sem discriminação por motivos de raça, condição social ou sexo). A imagem mais eloqüente a esse respeito é a da videira (Jesus) e os ramos (os fiéis) do capítulo 15. Para começar a entender isso, basta olhar o papel das mulheres no Evangelho de João.

Conseqüentemente, as comunidades joaninas tinham sérias ressalvas contra os cristãos das igrejas hierarquizadas, representados por Simão Pedro. Este, quando se encontra com Jesus pela primeira vez, recebe um desafio: procurar a própria identidade, representada pelo nome novo que Jesus lhe impõe, ou seja, Cefas.

Note-se que, apesar disso, daí em diante, Simão nunca é chamado de Cefas. Às vezes é chamado de Simão Pedro. Mas Jesus, quando fala com ele (21,15-19), o chama simplesmente de "Simão, filho de João". Para o povo da Bíblia, o nome é a identidade da pessoa. Pedro, portanto, representa os cristãos hierarquizados que estão à procura da própria identidade. Excetuados dois textos (6,67-71 e o capítulo 21, que certamente são acréscimos posteriores), Pedro se debate constantemente à procura de um eixo que lhe dê equilíbrio. Associe-se a isso a figura do Discípulo Amado (que só se encontra no Evangelho de João), que serve de contraste para Simão Pedro. O Discípulo Amado fica perto de Jesus, mas Pedro está longe; o primeiro crê na ressurreição, ao passo que o segundo não crê, e assim por diante. 0 Discípulo Amado tenta sempre aproximar Pedro de Jesus, mas não consegue. Os textos são vários e mereceriam um estudo à parte: 13,6-11; 13,21-27; 13,36-38; 18,10-11; 18,15-27; 20,1-10. Somente no capítulo 21 (acrescentado mais tarde) é que Simão Pedro se encontra, justamente naquela que sempre foi a característica do Discípulo Amado, ou seja, o amor (21,15-19).

3. Terceira fase: época das cartas. Conflitos internos (por volta do ano 100)

A terceira fase das comunidades joaninas refere-se à época em que foram escritas as cartas de João. Os conflitos externos praticamente desaparecem (na primeira carta de João ainda se fala de "mundo" em sentido negativo) ou são postos em segundo plano, pois o grande problema está agora dentro das comunidades. Elas, portanto, não estão envolvidas em conflitos externos, mas internos (no próximo capítulo falaremos disso). Fato é que a "rede" se rompe (veja João 21,11) e a "túnica" de Jesus (João 19,23) já não é uma peça inteira.

A primeira carta de João refere-se à quebra da "utopia" das comunidades do Discípulo Amado: "Esses Anticristos saíram do meio de nós, mas não eram dos nossos. Se tivessem sido dos nossos, teriam permanecido conosco. Mas era preciso que ficasse claro que nem todos eram dos nossos" (1 João 2,19).

Os motivos que levaram à ruptura eram vários, como veremos, e o texto apenas citado dá a impressão de que, nessa época, tratava-se de um fato consumado, embora a carta continue falando de tentativas de desencaminhar as pessoas (1 João 2,26; 3,7).
O que aconteceu na verdade? Os problemas pareciam superiores às forças internas das comunidades joaninas. Associe-se a isso o fato de não haver nelas pessoas investidas de poder (hierarquia) para ter a última palavra. O grupo que permaneceu fiel à proposta do Evangelho de João começou, então, a se aproximar das comunidades cristãs hierarquizadas, na tentativa de resolver, com o poder da autoridade, os conflitos internos. Há, portanto, um período de mútua aproximação, ensaiando os primeiros passos de nova parceria. As comunidades hierarquizadas aceitaram ajudar as comunidades joaninas, mas estas tiveram de ceder, perdendo aos poucos a própria identidade.

4. Quarta fase: desaparecimento (por volta do ano 110)

A parceria das comunidades do Discípulo Amado com as igrejas hierarquizadas teve conseqüências bem claras. Por força da autoridade, o grupo que criava confusão dentro das comunidades joaninas foi calado e afastado, superando assim o conflito interno. As comunidades joaninas, contudo, tiveram de rever uma série de coisas, entre elas a questão da Eucaristia (ausente nas fases anteriores) e, sobretudo, a figura representativa de Pedro. Dessa forma, são acrescentados ao Evangelho de João alguns textos importantes referentes a Pedro (6,67-71 e o capítulo 21) e à Eucaristia (6,51-58). As comunidades joaninas tiveram de ceder, e cederam com inteligência e criatividade. Mas o preço dessa jogada foi fatal: em pouco tempo foram absorvidas pelas comunidades hierarquizadas e se diluíram nelas.

O grupo que criava confusão nas comunidades joaninas foi afastado e se incorporou ao gnosticismo, fazendo uma leitura gnóstica do Evangelho de João e reforçando conseqüentemente a desconfiança das outras comunidades cristãs em relação a esse texto. E as comunidades que aceitaram a autoridade das igrejas hierarquizadas foram obrigadas a se adaptar ao novo modo de ser igreja, abandonando praticamente o Evangelho de João para adotar o de Mateus. Deixaram, contudo, aberta a porta para quem deseja começar a viver num cenário de igreja mais participativa, fraterna e de comunhão.

O Evangelho de João passa, então, por longo período de silêncio e desconfiança. Muito tempo depois, com passos cautelosos, alguns escritores cristãos começam a olhar para ele sem preconceitos e sem os filtros do gnosticismo.

José Bortolini e Paulo Bazaglia “Como ler as Cartas de João”