ATOS DOS APÓSTOLOS

O livro é quase um "diário" da Igreja dos anos 30 a 60 desde a ascensão de Cristo à prisão de Paulo. Alude à obra do Espírito Santo nos primórdios da Igreja.

Encontramos no livro coisas fascinantes, o destemor dos Apóstolos, a conversão de Paulo... Temos as primeiras dificuldades da Igreja nascente, os judeus da Palestina x judeus da Diáspora, judaizantes e Paulo. Temos também o ideal dos cristãos: "uma só fé e um só coração"

São Paulo vai do cap. 13 ao 28, ocupando a 2ª parte do livro. Até o cap. 12 aparecem os Apóstolos. Quer mostrar a transmissão do Evangelho, que passa dos judeus aos gentios.

São Lucas é gentio. Frisa a passagem providencial do Evangelho aos pagãos sem exigir a observância da Lei mosaica (At 15). Narra das peripécias desta passagem, em especial na vida de São Paulo. Destaca a coragem de Paulo e a intervenção do Espírito Santo.

Título e conteúdo de Atos

Nos manuscritos antigos se encontra o seguinte: "praxeis (ton) apostolon". É um título antigo, já do séc. II A citação é feita a partir das primeiras palavras do livro.

"Praxeis" significa o agir e não uma história ou biografia, mas feitos isolados, grandiosos, merecedores de registro. Inclusive há livros antigos também ditos praxeis.

Assim, são "feitos dos Apóstolos".

"Apóstolon" = cinco ou seis dos Apóstolos vêm ao caso: Tiago, João, Pedro, Paulo e Tiago Menor. Vê-se que há um interesse grande no colégio apostólico. Além desses Apóstolos da primeira hora, temos outros que lhes são agregados. At. 4,14 traz Barnabé e o cita como apóstolo. Outro é o diácono Filipe, Estevão... São figuras que se associam à expansão da Igreja. Para salvaguardar o título do livro Lucas põe no início do livro o catálogo dos Apóstolos (At. 1,13).

No decorrer da primeira parte do livro temos o colegiado apostólico: At 2,14; 5,18; 6,2; 8,14; 9,27; 1,2 - 22. O cap. 15 traz o primeiro concílio da história.

O conteúdo se acha esboçado no fim do evangelho de Lucas. É uma continuidade. Vide Lc. 24,5 - 7.19 - 27.44 - 48 com At. 1,8. Lucas, no Evangelho, termina falando do mistério da morte que é vida, que Cristo devia padecer para ser fonte de vida para os homens. O livro dos Atos desenvolve este tema. Ao longo do livro propõe a expansão do Evangelho até os confins da terra: se chegou a Roma, chegou aos pagãos.

O autor do livro se interessa porque é pagão, é beneficiado por essa passagem do Evangelho sem ter que fazer nada em troca, nem circuncisão nem a lei de Moisés. Mas isso para os judeus era complicado porque eles chegam ao Messias através da lei do Moisés e o pagão não precisaria?

Uma das passagens mais expressivas desse interesse de Lucas pelo Evangelho aos pagãos é o cap. 10 (do batismo de Cornélio). O apóstolo Pedro é-lhe enviado e o batiza quando Cornélio também recebe o Espírito Santo. E Pedro batiza porque reconhece que o Evangelho é para todos. Pedro não queria, mas o Espírito Santo indica. Ele é censurado pelos outros. E aí no cap. 15 discute-se no Concílio a isenção das leis para os gentios. Veja que é Pedro e não Paulo quem batiza e o concílio confirma. E Paulo abraça esta bandeira e leva a Palavra aos gentios sendo judeu.

É por isso também que o livro refere três vezes a conversão de Paulo (At. 9; 22; 26). A última citação é mais teológica. A conversão de Paulo causa espanto, é rechaçado, até ser aceito pelos Apóstolos.

Quando tem início a primeira viagem missionária de Paulo, Pedro desaparece. A Igreja dos judeus deu seu fruto, mas interessa a expansão do Evangelho aos gentios. Paulo não é o último Apóstolo dos gentios nem o primeiro, mas é o mais corajoso. Paulo cortou o cordão umbilical, é o grande arauto. Lucas foi companheiro de Paulo, por isso talvez lhe dedique tanto espaço no livro.

Etapas do livro: Compreende três partes:

Introdução: 1,1 - 26:

proêmio

ascensão

eleição de Matias

I - Igreja entre os judeus: 2,1 - 9,43

A Igreja nascente em Jerusalém: 2,1 - 8,3

Na Palestina: 8,4 - 9,43 fecha-se o seguimento com a conversão de Paulo

II - Transição dos judeus para os gentios: 10,1 - 15,35

Vocação de Cornélio: 10,1 - 11,18

A Igreja de Antioquia: 11,19 - 30

A perseguição sob Herodes Agripa: 12,1 - 25

1ª viagem missionária de Paulo: 13,1 - 14,28

"Concílio" dos Apóstolos: 15,1 - 35

. Lucas é desta cidade de Antioquia, onde somos chamados de cristãos pela primeira vez.

III - A Igreja entre os gentios: 15,36 - 28,31

2ª viagem missionária: 15,36 - 18,22

3ª viagem missionária: 18,23 - 21,17

sacrifício do Apóstolo: 21,18 - 28,31

O autor do livro dos Atos

Recorremos a testemunhos extrínsecos e intrínsecos.

Testemunhos da tradição

Já os Atos são citados pelos padres apostólicos desde o séc. I. O livro era conhecido e usado já nos primeiros decênios do séc. II. Nos ditos "prólogos" já se consta Atos. Temos os fragmentos de Muratori que também falam dos Atos.

São Irineu (falecido em 202) cita o livro dos Atos.

O livro é de Lucas.

Duas correntes de pensamento negaram a autoria lucana:

* os ebionitas: condenavam a matéria, não aceitavam a abolição da lei de Moisés. Por isso não aceitavam o livro dos Atos e nem são Paulo;
* os maniqueus: não aceitavam o livro dos Atos pois não aceitavam a vinda do Paráclito (séc. III

Contudo, é de pouca monta a opinião destas duas correntes.

Testemunhos extrínsecos

O 3º Evangelho é atribuído a Lucas e os Atos seguem o terceiro Evangelho. Supõe o mesmo autor. Segue a mesma linha de pensamento. Há continuidade. Vejamos:

1. Têm prólogo (At. 1,1 - 3; Lc. 1,1 - 4) com um mesmo destinatário.

2. Há continuidade também através do fim de Lucas e de Atos: Lc 24,47 - 53 --> At 1,8 - 12. A diferença está no período de tempo da ressurreição para a ascensão de Jesus.

3. Estilo e vocabulário idênticos em Lucas e Atos: 3 vocábulos próprios (que não ocorre em nenhum dos escritos do NT).
Por exemplo: homilein (= conversar) - Lc. 24,14 e At. 24,26; proodoxía (= expectativa) - Lc. 21,16 e At. 12,11.

4. O olho clínico do autor: porém no Evangelho Lucas é bem mais presente, nos Atos é menos clínico. De interesse médico temos: At. 3,7; 28,8. De modo que o argumento é fraco.

5. Há afinidade entre Atos e as Epístolas paulinas (Lucas foi companheiro de Paulo nos momentos finais da vida deste): justificação pela fé (At. 13,38s.46 - 48); universalidade da salvação, doutrina do Espírito Santo (perspassa todo Atos), vocabulário semelhante (At. 22,1; 25,15; 1 Cor. 9,3; 2 Tm. 4,16).

Abraão é o pai dos circuncidados e dos não circuncidados. Ele é o protótipo dos que crêem, sendo ou não circuncidados.

A doutrina do Espírito que perspassa todo o livro é que é Ele quem faz o Evangelho germinar. Isso é muito caro a Paulo.

Há palavras mesmas que aparecem em Atos. Lucas e Paulo (no texto grego): apologia (At. 22,1; 25,16; 1 Cor. 9,3; 2 Tm. 4,16); anáthema (At. 23,14; Gl. 1,8 - 9; 1 Cor 12,3).

6. Há também secções em "nós" que aparecem em Atos e Paulo: At. 16,10 - 17; 20,5-15; 27,1-28,16. Estas secções parecem de mãos de Lucas. Poderíamos pensar em outros companheiros de Paulo como Silvano, Timóteo, Tito, Gaio, etc, pois no final se diz que Lucas estava com Paulo em Roma no cativeiro (Cl. 4,14; Fm 2,4). A viagem de Paulo é acompanhada por um companheiro anônimo, é Lucas, no caso. Só a partir do cap. 16 o autor de Atos começa a falar em "nós" (ele + Paulo). O livro dos Atos nunca diz de Lucas e fala dos outros. Isto é porque Lucas está no "nós".

Objeta-se, porém, o seguinte: verifica-se que estas secções em "nós" têm 162 vocábulos que só uma vez aparecem --> hápax legómena.

A resposta que se dá é a seguinte: isso se dá por causa das seções em "nós" com viagem acidentada. Supondo 45 vocábulos de ordem náutica At 27,28 -> gomós, ankyrá... A estranheza do vocabulário não supera o que foi dito antes a favor da autoria lucana.

Há outros argumentos contra a autoria lucana:

1. hápax legómena;

2. O conceito de apóstolo em At 1,21 - 22: acompanhou Jesus desde o batismo até a ascensão e dá testemunho dele. Assim Lucas teria excluído são Paulo; mas por outro lado, At 14.4.14...
3. O livro do Evangelho converge para Jerusalém e não sai de lá. E como é que o autor faz um livro diferente caminhando para Roma?

A crítica, porém, admite que o livro é de Lucas.

Destinatários e finalidade de At

O livro é destinado a Teófilo. Nele o autor vê os fieis convertidos do paganismo. Tem em mira o povo cristão, outrora pagão, mostrando a ação do Espírito Santo que faz a expansão do Evangelho até a capital. Mostra a universalidade da salvação. Quem crê participa do Evangelho (Lc. 24,13.33.36.44.50s - ver nota da Bíblia de Jerusalém). At 1,3.

A pregação é primeira aos judeus. Estes quando se fecham, a pregação é feita aos gentios (At 3,25s; 9,20).

O Evangelho passa aos gentios (At 13,46; 28,25-28).

Historicidade dos Atos

4.1. Temos Christian Bauer, em 1850 segue a filosofia hegeliana, julga que a história do cristianismo nascente era uma síntese de correntes opostas.

Dizia que temos a corrente petrina (fiel ás tradições judaicas, portanto certa rigidez em relação aos pagãos) e a corrente paulina (que é aberta ao paganismo); e Lucas vai fazer um livro artificial que une as duas teses. O livro é feito no séc. II para conciliar as duas teses. Petrina (tese), paulina (antítese), Atos (síntese).

Bauer postula o seguinte: paralelos entre Pedro e Paulo:

1. Coxo curado por Pedro (3,2 - 10) e por Paulo (14,8 - 10);

2. Tabita ressuscitada por Pedro (9,36 - 41) e Eutico ressuscitado por Paulo (20,9 - 12);

3. Pedro pune Ananias e Safira (5,1 - 11) e Paulo pune Elimas Mago (13,8 - 12);

4. Pedro é libertado maravilhosamente do cárcere (5,19 - 25) e Paulo também (16,25 - 29).

Esses paralelismos serão resultado do trabalho de Lucas. Essa tese é tendenciosa. Hoje verifica-se que há mais pontos de contato entre Pedro e Paulo independente do livro dos Atos que mostram não haver antítese entre os dois: Gl 2,7-9.11-14; Rm 1,16; 3,1-2; 9,1-5: não se mostra Paulo contra os judeus, apenas vê a eminência dos judeus sobre os outros.

É claro que Pedro e Paulo as vezes tiveram tendências um pouco diferentes mas sempre remaram no mesmo sentido. Pedro tendia à lei mosaica; Paulo, ao contrário, totalmente livre.

4.2. At = apologia de Paulo frente aos romanos.

At seria escrito artificiosamente para defesa de Paulo contra os magistrados romanos, por causa dos judeus. Os romanos, porém, não acusaram Paulo. Quem acusa e o condena são os judeus. Isso procura mostrar Lucas.

Lucas mostra que os magistrados romanos são benignos para com Paulo frente às insídias dos judeus: At. 16,35 - 40; 18,12 - 17; 19,31.34 - 40; 26,31 - 32; 28,16. Assim entendido, o livro dos Atos seria essa petição para ter de César o perdão a Paulo. Isso teria tirado a objetividade do livro dos Atos.

Lucas quer mostrar também que Paulo nunca injuriou as autoridades romanas.

Esses traços ditos de Lucas verdadeiramente não são ficção, mas por outro lado é forçar o que esta escola diz que o livro quer isso.

Ao fazer tal narração, Lucas não foge do histórico, inclusive não é necessário Lc fazer porque o problema não era político mas religioso.

4.3. At = apologia de Paulo contra os judaizantes

Diz-se que há dois Paulos: o dos At e os das Cartas. O das cartas é anti-judeus; o dos At faz o voto do nazireato, etc. Assim, o livro dos Atos quer mostrar um Paulo simpático aos judeus. Parece que o Paulo dos Atos não corresponde ao Paulo das Cartas.

Atos

Epístolas

At 23,6: é fariseu;

At 24,14-15: professa três dogmas fundamentais do judaísmo farisaico;

At 16,3: a circuncisão de Timóteo;

At 13,46; 18,6; 28,25-27: primeiro aos judeus;

At 21,4: nazireato

 

O Paulo das Cartas é hostíl ao judaísmo;

Nas Cartas Paulo é contra a lei: Gl 3,10;

Paulo corta com o passado: Fl 3,7;

Paulo é averso à circuncisão de Tito: Gl 2,3-4;

O verdadeiro Paulo seria um missionário dos gentios. Parece ser um Paulo longe dos Atos e não um observador das leis judaicas.

Feito esse confronto, que dizer?

1. Paulo em suas Cartas vai aos gentios, é polêmico, unilateral de tal modo que as Cartas não nos dão uma noção certa de Paulo (pois dizia que se faria judeu com os judeus...);

2. Paulo se faz judeu com os judeus: 1 Cor 9,20. O fato de que Paulo tenha recusado a circuncisão de Tito e a favor da de Timóteo são as circunstâncias;

3. A circuncisão de Tito é desnecessária para a missão entre os pagãos ao passo que a de Timóteo era necessária para pregar aos judeus.

4. Paulo sempre procurava os judeus antes de procurar os gentios. Ele foi cinco vezes flagelado na Sinagoga (cf. 2 Cor 11,24; Rm 1,16-17);

5. O Cristianismo para Paulo é o cumprimento das promessas feitas aos pais: At 26,6 - 8.22 - 23. Daí, ele pode professar o judaísmo;

6. Paulo, nas Cartas, mostra o orgulho de ser israelita: 2 Cor 11,22; Fl 3,4-5;

7. Tinha amor ao seu povo em Rm. 9,1 - 3; 11,13 - 16.

Vê-se então que não é um Paulo anti-judaico mas o mesmo que sabe falar ao seu público. Logo, não é consistente esta teoria.

Há quem julgue que o livro dos Atos seja forjado, assim como os discursos do livro.

4.4. Os discursos de Atos

Parecem obedecer os mesmos conteúdos e criação de Lucas e não eco das pregações. Esta objeção pode também ser ponderada:

1. Lucas refere resumos de discursos. Ele faz uma síntese e alguns deles foram proferidos em aramaico e outras línguas e, é claro, para traduzir o tradutor vai buscar no seu linguajar uma palavra que traduza o pensamento do que proferiu o discurso;
2. Paulo fala de diversos modos aos:

* Judeus: 13,16 - 41;
* cristãos: 20,18 - 35;
* pagãos: 14,15 - 17; 17,22 - 31; cf. Rm 1,19 - 20;
* diante do procurador romano Félix: 24,10 - 21;
* diante do Rei Agripa: 26,2 - 23;
* com uma linguagem própria para cada grupo

É claro que no fim de cada discurso haveria um final único: Cristo, o Salvador. Mas o conteúdo é diferente.

Verifica-se ainda que há vocábulos que aparecem nos discursos de Paulo nos At e nas suas Cartas, o que corrobora que o discurso é de Paulo: At 17,23; Tm 5,4; At 20,20; 1 Cor 7,35.

Conclusão: A crítica hoje favorece a historicidade e a autoria de Lucas. Foi confirmado em especial pelas descobertas recentes acerca de personagens citados por Lucas.

Inscrições profanas referentes a Sérgio Paulo (At 13,7); Galião (At 18,12); Públio de Malta (At 28,7).

Lucas é um pesquisador que no prólogo de seu Evangelho nos fala do seu interesse pela pesquisa (Lc 1,1-4). Podemos ver no livro dos At um uso de documentos já prontos, isto é, já escritos anteriormente.

Origem do texto de Atos

Quando foi escrito? Uns acham que entre 61 - 63 d.C. (cativeiro romano de Paulo). Seria redigido por Lucas no fim de 63. Isto porque Lucas é tão preciso ao falar de Paulo que não teria porque não narrar sua absolvição. Os Atos falam da cidade de Jerusalém sem falar de sua queda. Se Lucas tivesse escrito depois de 70 d.C. teria citado a queda como abrogação da lei de Moisés.

Ainda se argumenta que em At 20,25 Paulo diz que não mais será visto mas como se crê ele voltou (cf. 2 Tm 4,13 - 20) a Éfeso. Pergunta-se: por que Lucas não disse que essa predição de Paulo não se realizou? Ademais, o livro é muito otimista ao tratar das autoridades romanas e se fosse escrito depois de 63 não teria porque, já que em 64 começa a perseguição de Nero.

Outra hipótese: o livro teria sido escrito após a morte de Paulo em 67 d.C. Isso de acordo com o testemunho de são Irineu (+ 180 dC). O fato de Lucas não referir a absolvição de Paulo é porque Lucas quer mostrar o Evangelho chegar em Roma. Aqui se conclui seu papel de historiador, visto não ser cronista. O programa dos Atos está relatado em At 1,8 e confins da terra é Roma.

Há duas recensões: a Alexandrina (em documentos da 1ª metade do séc III) e a Ocidental, que também já é atestada no séc. II. É aquela que está na base da Vetus Latina.

A Ocidental é mais longa e a outra mais burilada e breve.

Exemplos: em 12,10 e nota "s" da Bíblia de Jerusalém; em 21,16; etc.

Pergunta-se: por que há duas? Não há resposta.

At 20,35 é um "ágraphon". Que são ágrafos?

* de fonte apócrifa, não cristã;

* em Código do NT e na Tradição Patrística;

* em livros canônicos do NT e não nos Evangelhos.

Textos seletos

1. Pentecostes: era uma festa judaica agrícola que se celebrava também 50 dias após a 1ª festa agrícola da Páscoa. Depois essas festas tomaram um sentido mais espiritual. Páscoa passou a ser a festa da saída do Egito e Pentecostes a entrega da lei após 50 dias da saída do Egito. Cf. At 2,1 - 41.

A descrição da festa de pentecostes tem um "quê" da entrega da lei do Sinai. No Sinai temos tempestade, vento e em pentecostes ainda aparece o fogo.

Pergunta-se se foi um fenômeno de línguas ou de audição. Eram várias línguas ou uma só língua?

O dom das línguas é admitido. Assim deve ter sido uma multiplicação de língua. Assim é também uma réplica do fenômeno de Babel (Gn 11,1 - 1-10): consequência da rebeldia dos homens contra Deus. Em Pentecostes há a antítese, em resgate.

Babel

Pentecostes

Línguas multiplicadas em sinal da
divisão dos homens entre si.

Línguas multiplicadas para um efeito
inverso: reunir os povos numa
única família unida pelo Espírito Santo

2. Ananias e Safira: At 5,1-11

O sentido desta narrativa: Primeiro pecado da comunidade eclesiástica, paralelo ao primeiro pecado de Israel na Terra Santa após a morte de Moisés (Js 7). O reter é que é o pecado. Inclusive o mesmo verbo usado em Josué é usado em Atos.

Parece que o relato quer pôr em evidência que a Igreja é sustentada pelo Espírito Santo mas é atacada pelo Tentador desde o início.

3. Os primeiros diáconos, organização da hierarquia e a lapidação do primeiro mártir: At 6-7

Nesta época temos os Apóstolos e os Diáconos. Em At 20,17.28 temos outra referência à hierarquia: "presbyterói" = anciãos. Temos também os "epískopoi".

Assim, no cap. 6 se refere a apóstolos e diáconos. Em At 20 se refere a Presbíteros e Epíscopo.

Em Fl 1,1 temos epíscopos e diáconos. Paulo os saúda. A palavra "epískopoi" significa "aquele que tem a superintendência" = "olhar de cima".

Aqui episkopoi = presbyteroi

Tínhamos o apóstolo que era o pastor ambulante de todas as comunidades (ex. Paulo). Em cada comunidade havia presbíteros (nome preferido pelos judeus) e episcopos (nome preferido pelos gregos). Formavam um colégio com os diáconos. Era preciso dar uma disposição mais estável a cada comunidade. Daí, do colegiado dos epíscopos e dos prebíteros saia o Bispo monárquico = Bispo Pastor. O nome epíscopo ficava reservado a este e os demais eram ditos presbíteros e por fim os diáconos.

4. Os discursos dos Atos

São numerosos. Oito de Pedro, nove de Paulo

Discursos de Pedro

Discursos de Paulo

1,6 - 22;
2,14 - 20;
3,12 - 26;
4,8 - 12;
5,29 - 32;
10,34 - 43;
11,5 - 9;
15,7 - 11

13,16 - 41;
14,15 - 17;
17,22 - 31;
20,18 - 35;
22,1 - 21;
24,10 - 21;
26,6 - 23;
27,21 - 26;
28,17 - 20.

São anúncios da Boa Nova. Nenhum deles fala da infância de Jesus. Fala da vida de Cristo, do Batismo de João até a ascensão. Nenhum vai antes do Batismo. A importância é mostrar o que o gênero literário evangélico já é fixado por Pedro em At 1,21. O Evangelho não é uma biografia, de modo que não é de estranhar o que fez dos 10 aos 30 anos. Se nada se diz é porque não interessa ao gênero literário evangélico.

Tomemos os discurso de Pedro em At 10,34 - 43:

1 - Batismo na Judéia;

2 - Ministério na Galiléia;

3 - Subida a Jerusalém;

4 - Mistério pascal.

Este esquema é o esquema sinótico. Nos At encontramos a proximidade com os Evangelhos.

5. A conversão de são Paulo

É narrada três vezes nos Atos, o que mostra a importância atribuída pelo autor.

At 9,1 - 19 é um relato biográfico. É do próprio Lucas, é o mais minucioso historicamente, mas o mais pobre teologicamente.

At 22 é do próprio Paulo, é uma apologia para dizer que não abandonou o judaísmo. É Paulo aos judeus em Jerusalém.

At 26,9 - 18: Paulo relata ao rei Agripa sua conversão, mostrando o que Deus lhe preparou.

Há um crescendo, em termos teológicos.

Há divergências entre os três relatos: o papel de Ananias é amplo em At 9; é breve em At 22 e silenciado em At 26. Em At 26 é Jesus quem introduz Paulo na vida cristã e nos outros relatos é Ananias.

At. 26 é o mais elaboarado teologicamente. Há uma tendência cada vez mais teologizante.

At 9 e 22: Jesus manda Paulo a Damasco; At 26: Jesus instrui Paulo diretamente.

Conversão de Paulo e profecias do AT: At 9,15 --> Jr 1,10.

At 22,15 --> Is 55,4-5: serás testemunha. Qualifica-o como apóstolo. Vide cf. At 1,21-22. Vale a pena ler também At 22,21-22: como os profetas são enviados Paulo vai ser enviado. Também At 26,17s nos leva a Is 42,6-7. Esses paralelos mostram bem que Paulo é enviado de Deus e não um intruso. Não é alguém chamado por apóstolo, ele é discípulo de Jesus e não de outro discípulo.

Temos traços evidentes de construção teológica nos três relatos. Em At 26,14 Lucas usa uma expressão grega que mostra que é bobeira lutar contra o chamado de Deus (Gl 1,1.15-16).

6) A 1ª viagem apostólica de Paulo e o Concílio de Jerusalém que foi por ela exigido (At 13,1-15,35).

Já a partir do cap 8,4-8 ficamos sabendo que o Evangelho vai passando para não judeus de puro sangue. Filipe vai pregar o Evangelho aos samaritanos.

A seguir a Igreja de Jerusalém, sabendo disso, envia Pedro e João para confirmar os convertidos (8,14-17). Filipe prega a um prosélito e o batiza (8,26-40). Ele, o prosélito, é um etíope. É o primeiro batizado de alguém que não tem sangue judeu mas tem a religião. O Evangelho vai expandindo aos poucos para para fora de Israel. No cap. 10 temos o batizado de Cornélio por Pedro (10,1-11,18). Cornélio é um romano "temente a Deus"

Em Israel temos três "classes" de pessoas:

* Temente a Deus: é aquele que não é israelita, não é judeu na religião, logo não é circunscidado mas acredita no Deus único dos judeus;

* Prosélito: è o que tem a fé judaica, mas não é judeu de nascimento;

* Judeu: além de ser israelita, é judeu

No cap. 13 temos a primeira viagem de Paulo e Barnabé diretamente aos gentios. Eles pregam e batizam sem impor a Lei de Moisés: At 13,1-14,28.

Comparemos os versículos 13,7 e 13,13. Em 13,7 Barnabé é o chefe da expedição. No vers. 13 Paulo é o chefe, a partir de Chipre.

Ao voltarem e relatarem o que houve os anciãos ficam perplexos por Paulo "desprezar" a lei mosaica (= tradições). Vide Mt 10,5: essa é a primeira pregação do Evangelho; já em Mc. 6,7 - 13 isso não aparece.

É então convocado um Concílio para ver a questão em At 15. Pedro vai falar em At 15,7.10s. Pedro relata a intervenção de Deus permitindo batizar a todos sem distinção. Deus não faz acepções de pessoas. Não há porque menosprezar os gentios, seria ir contra Deus. No vers. 11 mostra que nós seremos salvos como eles e não eles como nós. Assim, a salvação vem pela fé e não pela lei.

Ninguém persevera na graça se não age de acordo com a graça e persevera, mas ninguém compra a graça.

Todos falam no concílio e Tiago faz quatro cláusulas:

idolotitos (sacrifícios pagãos, carne desses sacrifícios - cf. 1Cor 8,1-3),

fornicação,

sangue,

carne com sangue (At 15,18 - 29). Assim, se reconhece a liberdade dos gentios.

7. A figura de Pedro

Nos At aparece pela 1ª vez na eleição de Matias e desaparece após o Concílio de Jerusalém: 1,15 - 26; 15-7-11.

Nesse seguimento do livro Pedro assume a postura do que resolve as dúvidas: 2,14; 4,14 - 19; 5,29; 8,24.

As funções de Pedro neste trecho dos Atos:

1. Reconstituir o grupo das testemunhas oculares: 1,15 - 26;

2. Define as condições para entrar na Igreja: 15,7 - 11;

3. Tem a iniciativa da missão entre os pagãos: 10,1 - 11,18: é ele quem batiza Cornélio;

4. Responsável pela santidade das comunidades: 5,1 - 11; 8,18 - 25.

padre Marcelo Chelles Moraes - anotações