Catequese do papa João Paulo II

No ano de 1986 o papa João Paulo II fez uma série de oito catequeses sobre os anjos. Não pronunciamento mais claro do Magistério da Igreja sobre este assunto. Vamos conhecer estas Catequeses que esclarecem a verdade sobre os seres espirituais criados por Deus, pois, como o próprio papa disse: "É preciso reconhecer que a confusão às vezes é grande, com conseqüente risco de fazer passar como fé da Igreja a respeito dos anjos aquilo que não pertence à fé, ou, vice versa, de omitir algum aspecto importante da verdade revelada". (Catequese 1)

1. CRIADOR DAS "COISAS VISÍVEIS E INVISÍVEIS"

Audiência do dia 9 de julho de 1986

(Publicada no L´OSSERVATORE ROMANO, ed. port., no dia 13 de julho de 1986)

1. As nossas catequeses sobre Deus, criador do mundo, não podem terminar sem dedicar adequada atenção a um precioso conteúdo da Revelação divina: a criação dos seres puramente espirituais, que a Sagrada Escritura chama "anjos". Esta criação aparece claramente nos símbolos da fé, de modo particular no símbolo niceno-constantinopolitano: "Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso, Criador do céu e da terra, de todas as coisas (isto é, entes ou seres) visíveis e invisíveis". Sabemos que o homem goza, no interior da criação, de uma posição singular: graças ao seu corpo, pertence ao mundo visível, enquanto pela alma espiritual, que vivifica o corpo, se encontra quase no confim entre a criação visível e a invisível. A esta última, segundo o Credo que a Igreja professa a luz da Revelação, pertencem outros seres, puramente espirituais, portanto não próprios do mundo visível, embora estejam presentes e operem neles. Estes constituem um mundo específico.

 

2. Hoje, como nos tempos passados, discute-se com mais ou menos sabedoria sobre estes seres espirituais. É preciso reconhecer que a confusão às vezes é grande, com conseqüente risco de fazer passar como fé da Igreja a respeito dos anjos aquilo que não pertence à fé, ou, vice versa, de omitir algum aspecto importante da verdade revelada. A existência dos seres espirituais, a que de costume a Sagrada Escritura chama "anjos", era já negada, nos tempos de Cristo, pelos saduceus (cf. At 23,8). Negam-na também os materialistas e os racionalistas de todos os tempos. Todavia, como perspicazmente observa um teólogo moderno, "se nos quiséssemos desembaraçar dos anjos, deveríamos rever radicalmente a Sagrada Escritura mesma, e com ela toda a história da salvação" (A. Winklhofer, Die Welt der Engel, Ettal, 1961, p. 144, nota 2; em Mysterium Salutís, II, 2, p. 726). Toda a Tradição é unânime sobre esta questão. O Credo da Igreja e, no fundo, um eco que Paulo escreve aos colossenses: N´Ele (Cristo) foram criadas todas as coisas nos Céus e na terra, as visíveis e as invisíveis, os Tronos e as Dominações, os Principados e as Potestades: tudo foi criado por Ele e para Ele (Cl. 1,16). Ou seja, o Cristo, que como Filho "Verbo eterno e consubstancial ao Pai é "primogênito de toda a criatura" (Cl. 1,15), está no centro do universo, como razão e fundamento de toda a criação, como já vimos nas catequeses passadas e como veremos ainda quando falarmos mais diretamente Ele.

 

3. A referência ao "primado" de Cristo ajuda-nos a compreender que a verdade acerca da existência e da obra dos anjos (bons e maus) não constitui o conteúdo central da palavra de Deus. Na revelação, Deus fala antes de tudo "aos homens... e conversa com eles, para os convidar e os receber em comunhão com Ele", como lemos na Constituição Dei Verbum, do Concílio Vaticano II (DV 2). "Assim a verdade profunda, tanto a respeito de Deus como da salvação do homem", é o conteúdo central da revelação que "resplandece" mais plenamente na pessoa de Cristo (cf. DV 2). A verdade acerca dos anjos é em certo sentido "colateral", mas inseparável da revelação central, que é a existência, a majestade e a glória do Criador que refulgem em toda a criação ("visível" e "invisível") e na ação salvífica de Deus na história do homem. Os anjos não são, portanto, criaturas de primeiro plano na realidade da Revelação; contudo, pertence-lhe plenamente, tanto que nalguns momentos os vemos realizar tarefas fundamentais em nome de Deus mesmo.

 

4. Tudo o que pertence à criação reentra, segundo a Revelação, no mistério da divina Providência. Afirma-o de modo exemplarmente conciso o Vaticano I que já citamos mais de uma vez: "Tudo o que Deus criou, conserva-o e dirige-o com Sua providência, que estende seu vigor de uma extremidade à outra e governa todas as coisas com suavidade" (cf. Sb. 8,1). "Todas as coisas estão a nu e a descoberto aos seus olhos" (cf. Hb 4,13) "mesmo o que se realizou por livre iniciativa das criaturas" (DS 3003). A Providência abrange, por conseguinte, também o mundo dos puros espíritos, que ainda mais plenamente do que os homens são seres racionais e livres. Na Sagrada Escritura encontramos preciosas indicações que lhes dizem respeito. Há também a revelação de um drama misterioso, embora real, que tocou estas criaturas angélicas, sem que nada escapasse à eterna Sabedoria, a qual com força (fortiter) e ao mesmo tempo com suavidade (suaviter) tudo leva a cumprimento no reino do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

 

5. Reconheçamos antes de tudo que a Providência, como amorosa Sabedoria de Deus, se manifestou precisamente no criar seres puramente espirituais, para que melhor se exprimisse a semelhança de Deus neles que superam de multo tudo o que foi criado no mundo visível, juntamente com o homem, também ele incancelável imagem de Deus. Deus, que é Espírito absolutamente perfeito, reflete-se sobretudo nos seres espirituais que por natureza, isto é, devido a sua espiritualidade, Lhe estão muito mais próximos do que as criaturas materiais, e que constituem quase o "ambiente" mais próximo ao Criador. A Sagrada Escritura oferece um testemunho bastante explícito desta máxima proximidade a Deus, dos anjos, dos quais fala, com linguagem figurada, como o "trono'' de Deus, das suas "legiões" do seu "céu". Ela inspirou a poesia e a arte dos séculos cristãos que nos apresentam os anjos, com a "corte de Deus".

 

2. CRIADOR DOS ANJOS, SERES LIVRES

Audiência do dia 23 de julho de 1986

 (Publicado no L´OSSERVATORE ROMANO, ed. port., no dia 27 de julho de 1986.)

1. Continuamos hoje a nossa catequese sobre os anjos, cuja existência, querida mediante um ato de amor eterno de Deus, professamos com as palavras do símbolo niceno-constantinopolitano: "Creio em um só Deus, Pai Todo-poderoso, Criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis". Na perfeição da sua natureza espiritual, os anjos são chamados desde o princípio, em virtude da sua inteligência, a conhecer a verdade e a amar o bem que conhecem na verdade de modo muito mais perfeito do que é possível ao homem. Este amor é o ato de uma vontade livre, pelo que também para os anjos a liberdade significa possibilidade de efetuar uma escolha favorável ou contra o Bem que eles conhecem, isto é, Deus mesmo. Preciso repetir aqui o que já recordamos a seu tempo a propósito do homem: criando os seres livres, Deus quis que no mundo se realizasse aquele amor verdadeiro que só é possível quando tem por base a liberdade. Ele quis, portanto, que a criatura, formada à imagem e semelhança do seu Criador, pudesse do modo mais pleno possível tornar-se semelhante a Ele, Deus, que "é amor" (Jo. 4,16). Criando os espíritos puros como seres livres, Deus, na sua providência, não podia deixar de prever também a possibilidade do pecado dos anjos. Mas, precisamente porque a providência é eterna sabedoria que ama, Deus saberia tirar da história deste pecado, incomparavelmente mais radical enquanto pecado de um espírito puro, o definitivo bem de todo o cosmos criado.

 

2. Com efeito, como diz de modo claro a Revelação, o mundo dos espíritos puros apresenta-se dividido em bons e maus. Pois bem, esta divisão não se realizou por obra de Deus, mas em conseqüência da liberdade própria da natureza espiritual de cada um deles. Realizou-se mediante a escolha que para os seres puramente espirituais possui um caráter incomparavelmente mais radical do que a do homem, e é irreversível dado o grau do caráter intuitivo e de penetração do bem de que é dotada a sua inteligência. A este propósito deve dizer-se também que os espíritos puros foram submetidos a uma prova de caráter moral. Foi uma escolha decisiva a respeito, antes de tudo, de Deus mesmo, um Deus conhecido de modo mais essencial e direto do que é possível ao homem, um Deus que a estes seres espirituais tinha feito o dom, primeiro que ao homem, de participar da sua natureza divina.

 

3. No caso dos puros espíritos a escolha decisiva dizia respeito antes de tudo a Deus mesmo, primeiro e supremo bem, aceito ou rejeitado de modo mais essencial e direto do que pode acontecer no raio de ação da vontade livre do homem. Os espíritos puros têm um conhecimento de Deus incomparavelmente mais perfeito do que o do homem, porque com o poder do seu intelecto, nem condicionado nem limitado pela mediação do conhecimento sensível, vêem inteiramente a grandeza do Ser infinito, da primeira Verdade, do sumo bem. A esta sublime capacidade de conhecimento dos espíritos puros Deus ofereceu mistério da sua divindade, tornando-os assim partícipes, mediante a graça, da sua infinita glória. Precisamente porque são seres de natureza espiritual, havia no seu intelecto a capacidade, o desejo desta elevação sobrenatural a que Deus os tinha chamado, para fazer deles, muito antes do homem, "participantes da natureza divina" (cf. 2Pd. 1,4), partícipes da vida íntima dAquele que é Pai, Filho e Espírito Santo, dAquele que na comunhão das três Pessoas Divinas "é Amor" (I. Jo. 4,16). Deus tinha admitido todos os espíritos puros, primeiro e mais do que o homem, na eterna comunhão do amor.

 

4. A escolha feita com base na verdade acerca de Deus, conhecida de forma superior devido à lucidez da inteligência deles, dividiu também o mundo dos puros espíritos em bons e maus. Os bons escolheram Deus como bem supremo e definitivo, conhecido à luz do intelecto iluminado pela Revelação. Ter escolhido Deus significa que se dirigiram a Ele com toda a força interior da sua liberdade, força que é amor. Deus tornou-se a total e definitiva finalidade da sua existência espiritual. Os outros, pelo contrário, voltaram as costas a Deus em oposição à verdade do conhecimento que indicava nEle o bem total e definitivo. Escolheram em oposição à revelação do mistério de Deus, em oposição à sua graça que os tornava participantes da Trindade e da eterna amizade com Deus na comunhão com Ele mediante o amor. Tendo como base a sua liberdade criada, fizeram uma escolha radical e irreversível, tal como os anjos bons, mas diametralmente oposta: em vez de uma aceitação de Deus cheia de amor, opuseram-Lhe uma rejeição inspirada por um falso sentido de auto-suficiência, de aversão e até de ódio que se transformou em rebelião.

 

5. Como se hão de compreender esta oposição e esta rebelião a Deus em seres dotados de tão viva inteligência e enriquecidos com tanta luz? Qual pode ser o motivo desta radical e irreversível escolha contra Deus? De um ódio tão profundo que pode parecer unicamente fruto de loucura? Os padres da Igreja e os teólogos não hesitam em falar de "cegueira" produzida pela super valorização da perfeição do próprio ser, levada até o ponto de velar a supremacia de Deus, que, pelo contrário, exigia um ato dócil e obediente submissão. Tudo isto parece estar expresso de modo conciso nas palavras: "Não Vos servirei" (Jr. 2,20), que manifestam a radical e irreversível recusa a tomar parte na edificação do reino de Deus no mundo criado. "satanás", o espírito rebelde, quer o próprio reino, não o de Deus, e erige´se em "primeiro" adversário do Criador, em opositor da providência, em antagonista da sabedoria amorosa de Deus. Da rebelião e do pecado do homem, devemos concluir acolhendo a sábia experiência da Escritura que afirma: "Na soberba está contida muita corrupção" (Tb. 4,13).

 

3. CRIADOR DAS COISAS "INVISIVEIS": OS ANJOS

Audiência do dia 30 de julho de 1986

 (Publicada no L´OSSERVATORE ROMANO, ed. port., no dia 3 de agosto de 1986.)

1. Na catequese passada detivemo-nos sobre o artigo do credo com o qual proclamamos e confessamos Deus criador não só de todo o mundo criado, mas também das "coisas invisíveis", e tratamos o argumento da existência dos anjos chamados a declarar-se por Deus ou contra Deus com um ato radical e irreversível de adesão ou de rejeição da sua vontade de salvação. Ainda segundo a Sagrada Escritura, os anjos, enquanto criaturas puramente espirituais, apresentam-se à reflexão da nossa mente como uma especial realização da "imagem de Deus", Espírito perfeitíssimo, como Jesus mesmo recorda à samaritana com as palavras: "Deus é espírito" (Jo 4,24). Os anjos são, sob este ponto de vista, as criaturas mais próximas do modelo divino. O nome que a Sagrada Escritura lhes atribui indica que aquilo que mais conta na Revelação é a verdade acerca das tarefas dos anjos em relação aos homens: anjo (angelus) quer dizer, com efeito, "mensageiro". O hebraico "malak", usado no Antigo Testamento, significa mais propriamente "delegado" ou "embaixador". Os anjos, criaturas espirituais, têm função de mediação e de ministério nas relações mantidas entre Deus e os homens. Sob este aspecto, a carta aos Hebreus dirá que a Cristo foi dado um "nome", e por conseguinte um ministério de mediação, muito mais excelso que o dos anjos (cf. Hb. 1,4).

 

2. O antigo testamento salienta sobretudo a especial participação dos anjos na celebração da glória que o criador recebe como tributo de louvor da parte do mundo criado. São de modo especial os Salmos que se fazem intérpretes desta voz, quando, por exemplo, proclamam: "Louvai o Senhor, do alto dos céus, louvai-o nas alturas do firmamento, louvai-o, Vós todos os seus anjos (S1148,1´2). E de modo idêntico o Salmo 102 (103): "Bendizei o Senhor, Vós todos os Seus anjos, que sois poderosos em força, que cumpris as Suas ordens, sempre dóceis à Sua palavra" (SI 102/103,20). Este último versículo do Salmo 102 indica que os anjos tomam parte, do modo que lhes é próprio, no governo de Deus sobre a criação, como "poderosos"... que cumprem as suas ordens segundo o plano estabelecido pela Divina Providência. Em particular estão confiados aos anjos um cuidado especial e solicitude pelos homens, em nome dos quais apresentam a Deus os seus pedidos e as suas orações, como nos recorda, por exemplo, o Livro de Tobias (cf. especialmente Tb. 3,17 e 12,12), enquanto o Salmo 90 proclama: "Mandou os Seus anjos... Eles te levarão nas suas mãos, para que não tropeces em pedra alguma" (cf. Sl. 90/91,11´12). Seguindo o livro de Daniel pode-se afirmar que as tarefas dos anjos, como embaixadores do Deus vivo, abrangem não só os homens individualmente e aqueles que têm especiais tarefas, mas também nações inteiras (Dn. 10,13´21).

 

3. O Novo Testamento põe em realce as tarefas dos anjos em relação à missão de Cristo como Messias, e primeiro que tudo em relação ao mistério da encarnação do Filho de Deus, como verificamos na descrição do anúncio do nascimento de João, o Batista (cf. Lc. 1,11), na do próprio Cristo (cf. Lc 1,26), nas explicações e disposições dadas a Maria e a José (cf. Lc. 1,30´37; Mt. 1,20´21), nas indicações dadas aos pastores na noite do nascimento do Senhor (cf. Lc. 2,9´15), na proteção ao recém-nascido perante o perigo da perseguição de Herodes (cf. Mt. 2,13). Mais adiante os Evangelhos falam da presença dos anjos durante os 40 dias de jejum de Jesus no deserto (cf. Mt. 4,11) e durante a oração no Getsêmani (I´c 22,43). Depois da ressurreição de Cristo será ainda um anjo, sob a aparência de um jovem, que dirá às mulheres que tinham ido ao sepulcro e ficaram surpreendidas por o encontrar vazio: "Não vos assusteis. Buscais a Jesus de Nazaré, o crucificado. Ressuscitou, não está aqui... Ide, pois, dizer aos Seus discípulos..." (Mc. 16,5´7). Dois anjos foram vistos também por Maria Madalena, que é privilegiada com uma aparição pessoal de Jesus (Jo. 20,12´17; cf. também Lc. 24,4). Os anjos apresentam-se aos apóstolos depois de Cristo desaparecer, para lhes dizer: "Homens da Galiléia, por que estais assim a olhar para o céu? Esse Jesus, que vos foi arrebatado para o céu, virá da mesma maneira, como agora O vistes partir para o céu" (At. 1,10´11). São os anjos da vida, da paixão e da glória de Cristo. Os anjos dAquele que, como escreve São Pedro, "subiu ao céu, e está sentado à direita de Deus, depois de ter recebido a submissão dos anjos, dos principados e das potestades" (l Pd. 3,22).

 

4. Se passamos à nova vinda de Cristo, isto é, à "Parusia", encontramos que todos os sinóticos narram que "o Filho do Homem... virá na glória de Seu Pai, com os santos anjos" (tanto Mc. 8,38; como Mt. 16,27; e Mt. 25,31 na descrição do juízo final; e Lc. 9,26; cf. também São Paulo, 2Ts. 1,7). Pode-se portanto dizer que os anjos, como puros espíritos, não só participam, do modo que lhes é próprio, da santidade de Deus mesmo, mas nos momentos chaves rodeiam Cristo e acompanham-no no cumprimento da sua missão salvífica em relação aos homens. Igualmente ao longo dos séculos, também toda a Tradição e o magistério ordinário da Igreja atribuíram aos anjos este particular caráter e esta função de ministério messiânico.

 

4. A PARTICIPAÇÃO DOS ANJOS NA HISTÓRIA DA SALVAÇÃO

Audiência do dia 6 de agosto de 1986 

(Publicada no L´OSSERVATORE ROMANO, ed. port., no dia 10 de agosto de 1986.)

1. Nas recentes catequeses vimos como a Igreja, iluminada pela luz proveniente da Sagrada Escritura, professou ao longo dos séculos a verdade sobre a existência dos anjos como seres puramente espirituais, criados por Deus. Fê-lo desde o principio com o símbolo niceno-constantinopolitano e confirmou-o no concílio Lateranense IV (1215), cuja formulação é retomada pelo Concílio Vaticano I no contexto da doutrina sobre a criação: Deus "criou contemporaneamente do nada, desde o início dos tempos, uma criatura e a outra, a espiritual e a corpórea, isto é, a angélica e a terrena, e portanto criou a natureza como comum a ambas, sendo constituída de espírito e de corpo" (Const. De fide cath. DS 3002). Ou seja: Deus criou desde o princípio ambas as realidades: a espiritual e a corporal, o mundo terreno e o mundo angélico. Tudo isto criou Ele ao mesmo tempo (simul) em ordem à criação do homem, constituído de espírito e de matéria e posto, segundo a narração bíblica, no quadro de um mundo já estabelecido segundo as suas leis e já medido pelo tempo (deinde).

 

2. A fé da Igreja reconhece a existência e ao mesmo tempo os traços distintivos da natureza dos anjos. O seu ser puramente espiritual implica antes de tudo a sua não-materialidade e a sua imortalidade. Os anjos não têm "corpo" (embora em determinadas circunstâncias se manifestem sob formas visíveis em virtude da sua missão a favor dos homens, e por conseguinte estão sujeitos à lei da corruptibilidade que é comum a todo o mundo material). O próprio Jesus, ao referir-se à condição angélica, dirá que na vida futura os ressuscitados "já não podem morrer; são semelhantes aos anjos" (Lc. 20,36).

 

3. Enquanto criaturas de natureza espiritual, os anjos são dotados de intelecto e de vontade livre, como o homem, mas em grau superior ao dele, embora sempre finito, pelo limite que é inerente a todas as criaturas. Os anjos são pois seres pessoais e, como tais, também eles criados à "imagem e semelhança" de Deus. A Sagrada Escritura refere-se aos anjos usando também apelativos não só pessoais (como os nomes próprios de Rafael, Gabriel, Miguel), mas também "coletivos" (como as classificações de: serafins, querubins, tronos, potestades, dominações, principados), assim como faz uma distinção entre anjos e arcanjos. Embora tendo em conta a linguagem analógica e representativa do texto sagrado, podemos deduzir que estes seres-pessoas, quase agrupados em sociedade, se subdividem em ordens e graus, correspondentes à medida da sua perfeição e às tarefas que lhes estão confiadas. Os autores antigos e a própria liturgia falam também dos coros angélicos (nove, segundo Dionísio, o Areopagita). A teologia, especialmente a patrística e medieval, não rejeitou estas representações, procurando, pelo contrario, dar uma explicação doutrinal e mística das mesmas, mas sem lhes atribuir um valor absoluto. São Tomas preferiu aprofundar as pesquisas sobre a condição ontológica, sobre a atividade cognoscitiva e volitiva e sobre a elevação espiritual destas criaturas puramente espirituais, pela sua dignidade na escala dos seres, porque nelas poderia aprofundar melhor as capacidades e as atividades próprias ao espírito no estado puro, haurindo não pouca luz para iluminar os problemas de fundo que desde sempre agitam e estimulam o pensamento humano: o conhecimento, o amor, a liberdade, a docilidade de Deus, a obtenção do seu reino.

 

4. O tema a que nos referimos poderá parecer "distante" ou "menos vital" à mentalidade do homem moderno. Todavia a Igreja, propondo com franqueza a totalidade da verdade acerca de Deus Criador também dos anjos, crê que presta um grande serviço ao homem. O homem nutre a convicção de que em Cristo, Homem-Deus, é ele (e não os anjos) a encontrar-se no centro da Divina revelação. Pois bem, o encontro religioso com o mundo dos seres puramente espirituais torna-se revelação preciosa do seu ser não só corpo mas também espírito, e da sua pertença a um projeto de salvação verdadeiramente grande e eficaz, dentro de uma comunidade de seres pessoais que para o homem e com o homem servem o desígnio providencial de Deus.

 

5. Notemos que a Sagrada Escritura e a Tradição chamam propriamente anjos àqueles espíritos puros que na prova fundamental de liberdade escolheram Deus, a Sua glória e o Seu reino. Eles estão unidos a Deus mediante o amor consumado que nasce da beatificante visão, face a face, da Santíssima Trindade. Di-lo Jesus mesmo: "Os anjos nos céus vêem constantemente a face de Meu Pai que está nos céus" (Mt. 18,10). Aquele " ver constantemente a face do Pai" é a manifestação mais excelsa da adoração de Deus. Pode-se dizer que ela constitui aquela "liturgia celeste", realizada em nome de todo o universo, à qual se associa incessantemente a liturgia terrena da Igreja, de modo especial nos seus momentos culminantes. Basta recordar aqui o ato com o qual a Igreja, todos os dias e a todas as horas, no mundo inteiro, antes de dar inicio à Oração Eucarística no ponto central da Santa Missa, se refere aos "anjos e aos arcanjos'' para cantar a glória de Deus três vezes Santo, unindo-se assim àqueles primeiros adoradores de Deus, no culto e no amoroso conhecimento do inefável mistério da sua santidade.

 

6. Ainda segundo a revelação, os anjos, que participam da vida da Trindade na luz da glória, são também chamados a ter a sua parte na história da salvação dos homens, nos momentos estabelecidos pelo desígnio da Divina providência. "Não são eles todos espíritos ao serviço de Deus, enviados a fim de exercerem um ministério a favor daqueles que hão de herdar a salvação?", pergunta o autor da carta aos Hebreus (1,14). E nisto crê e isto ensina a Igreja, com base na Sagrada Escritura da qual sabemos que é tarefa dos anjos bons a proteção dos homens e a solicitude pela sua salvação. Encontramos certas expressões em diversas passagens da Sagrada Escritura como por exemplo no Salmo 90/91, já citado mais de uma vez: "Mandou aos Seus anjos que te guardem em todos os teus caminhos. Eles te levarão nas suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra" (Sl. 90/91,11´12). O próprio Jesus, falando das crianças e recomendando que não se lhes desse escândalo faz referência aos "seus anjos" (Mt. 18,10). Ele atribui também aos anjos a função de testemunhas no supremo juízo divino sobre a sorte de quem reconheceu ou negou Cristo: "Todo aquele que se declarar por Mim diante dos homens, também o Filho do Homem se declarara por ele diante dos anjos de Deus. Aquele, porém, que Me tiver negado diante dos homens será negado diante dos anjos de Deus" (Lc. 12,8´9; cf. Ap 3,5). Estas palavras são significativas porque, se os anjos tomam parte no juízo de Deus, estão interessados pela vida do homem. Interesse e participação que parecem receber uma acentuação no discurso escatológico, em que Jesus faz intervir os anjos na Parusia, ou seja, na vinda definitiva de Cristo no fim da história (cf. Mt 24,31; 25,31´41).

 

7. Entre os livros do Novo Testamento, são especialmente os Atos dos Apóstolos que nos dão a conhecer alguns fatos que atestam a solicitude dos anjos pelo homem e pela sua salvação. Assim é quando o Anjo de Deus liberta os Apóstolos da prisão (cf. At. 5,18´20) e antes de tudo Pedro, que estava ameaçado de morte por parte de Herodes (cf. At. 12, 15´10). Ou quando guia a atividade de Pedro a respeito do centurião Cornélio, o primeiro pagão convertido (At. 10,3´8. 12´13), e de modo análogo a atividade do diácono Filipe no caminho de Jerusalém para Gaza (At. 8,26´29). Destes poucos fatos citados a título de exemplo, compreende-se como na consciência da Igreja se tenha podido formar a persuasão acerca do ministério confiado aos anjos a favor dos homens. Portanto, a Igreja, confessa a sua fé nos anjos da guarda, venerando-os na liturgia com uma festa própria e recomendando o recurso à sua proteção com uma oração freqüente, como na invocação do ´Anjo de Deus´. Esta oração parece fazer tesouro das lindas palavras de São Basílio: ´Cada fiel tem ao seu lado um anjo como tutor e pastor, para o levar à vida´ (cf. 5. Basilius, Adv. Funonium, III, 1; veja-se também Sto. Tomas, Summa Theol. 1, q. II, a.3).

 

8. É por fim oportuno notar que a Igreja honra com culto litúrgico três figuras de anjos, que na Sagrada Escritura são chamados por nome. O primeiro é Miguel Arcanjo (cl. Dn. 10,13´20; Ap 12,7; Jd. 9). O seu nome exprime sinteticamente a atitude essencial dos espíritos bons. ´Mica´El´ significa, de fato: ´Quem como Deus?´. Neste nome encontra-se, pois, expressa a escolha salvífica graças à qual os anjos vêem a face do Pai´ que está nos céus. O segundo é Gabriel: figura ligada sobretudo ao mistério da encarnação do Filho de Deus (cf. Lc. 1,19´26). O seu nome significa: "O meu poder é Deus" ou "poder de Deus", quase como que a dizer que, no auge da criação, a encarnação é o sinal supremo do Pai onipotente. Finalmente o terceiro arcanjo chama-se Rafael. "Rafa`El" significa: "Deus cura". Ele nos é dado a conhecer pela história de Tobias no Antigo Testamento (cf. Tb. 12,15´20), etc., tão significativa quanto ao fato de serem confiados aos anjos os pequeninos filhos de Deus, sempre necessitados de guarda, de cuidados e de proteção. Se pensarmos bem, vê-se que cada uma destas três figuras: Mica´El, Gabri´EI e Rafa´El reflete de modo particular a verdade contida na pergunta formulada pelo autor da Carta aos Hebreus: ´Não são eles todos espíritos ao serviço de Deus enviados a fim de exercerem um ministério a favor daqueles que hão de herdar a salvação?´ (Hb. 1,14).

 

5. A QUEDA DOS ANJOS REBELDES

Audiência do dia 13 de agosto de 1986

(Publicada no L´OSSERVATORE ROMANO, ed. port., no dia 17 de agosto de 1986.)

1. Continuando o argumento das catequeses passadas dedicadas aos Anjos, criaturas de Deus, concentramo-nos hoje a explorar o mistério da liberdade que alguns deles orientaram contra Deus, e o seu plano de salvação em relação aos homens. Como testemunha o evangelista Lucas, no momento em que os discípulos voltavam ao Mestre cheios de alegria, pelos frutos recolhidos no seu tirocínio missionário, Jesus pronuncia uma palavra que faz pensar: "Eu via satanás cair do céu como um raio" (cf. Lc. 10,18). Com estas palavras o Senhor afirma que o anúncio do reino de Deus é sempre uma vitória sobre o diabo, mas ao mesmo tempo revela também que a edificação do reino está continuamente exposta às insídias do espírito mau. Interessar-se por isso, como pretendemos fazer com a catequese de hoje, quer dizer preparar-se para a condição de luta que é própria da vida da Igreja neste tempo derradeiro da história, da salvação (como afirma o livro do Apocalipse, cf. 12,7). Por outro lado, isto permite esclarecer a reta fé da Igreja perante quem a altera exagerando a importância do diabo, ou quem nega ou minimiza o seu poder maléfico. As catequeses passadas, acerca dos anjos, preparam-nos para compreender a verdade que a Sagrada Escritura revelou e que a tradição da Igreja transmitiu sobre satanás, isto é, sobre o anjo caído, o espírito maligno, chamado também diabo ou demônio.

 

2. Esta queda, que apresenta o caráter da rejeição de Deus, com o conseqüente estado de danação, consiste na livre escolha daqueles espíritos criados, que radical e irrevogavelmente rejeitaram Deus e o seu reino, usurpando os seus direitos soberanos e tentando subverter a economia da salvação e a própria ordem da criação inteira. Um reflexo desta atitude encontra-se nas palavras do tentador aos progenitores: "sereis como Deus" ou "como deuses" (cf. Gn 3,5). Assim o espírito maligno tenta insuflar no homem a atitude de rivalidade, de insubordinação e de oposição a Deus, que se tornou quase a motivação de toda a sua existência.

 

3. No Antigo Testamento, a narração da queda do homem, apresentada no livro do Gênesis, contém uma referência à atitude de antagonismo que satanás quer comunicar ao homem para o levar à transgressão (Gn 3,5). Também no livro de Jó (of. Jó 1,11; 2,24), satanás é apresentado como o artífice da morte que entrou na história do homem juntamente com o pecado.

 

4. A Igreja, no Concílio Lateranense IV (1215), ensina que o diabo, ou (satanás) e os outros demônios "foram criados bons por Deus mas tornaram-se maus por sua própria vontade". De fato, lemos na carta de São Judas: "Os anjos que não souberam conservar a sua dignidade, mas abandonaram a própria morada, Ele os guardou para o julgamento do grande dia, em prisões eternas e no fundo das trevas" (Jd. 6). De modo idêntico na Segunda Carta de São Pedro fala-se de "anjos que pecaram e que Deus não poupou... e os precipitou nos abismos tenebrosos do inferno, para serem reservados para o Juízo" (2Pd. 2,4). É claro que se Deus "não perdoa" o pecado dos anjos fa-lo porque eles permanecem no seu pecado, porque estão eternamente "nas prisões" daquela escolha que fizeram no início, rejeitando Deus, sendo contra a verdade do Bem supremo e definitivo que é Deus mesmo. Neste sentido São João escreve que "o demônio peca desde o principio" (I Jo 3,8). E foi assassino "desde o principio" (I. Jo. 8,44), e "não se manteve na verdade, porque nele não há verdade" (Jo. 8,44).

 

5. Estes textos ajudam-nos a compreender a natureza e a dimensão do pecado de satanás, consciente na rejeição da verdade acerca de Deus, conhecido à luz da inteligência e da revelação como Bem infinito, Amor e Santidade subsistente. O pecado foi tanto maior quanto maior era a perfeição espiritual e a perspicácia cognoscitiva do intelecto angélico, quanto maior era a sua liberdade e a proximidade de Deus. Rejeitando a verdade conhecida acerca de Deus com um ato da própria vontade livre, satanás torna-se "mentiroso", cósmico e "pai da mentira" (Jo. 8,44). Por isso ele vive na radical e irreversível negação de Deus e procura impor a criação aos outros seres criados à imagem de Deus, que satanás (sob forma de serpente) tenta transmitir aos primeiros representantes do gênero humano: Deus seria cioso das suas prerrogativas e imporia, portanto, limitações ao homem (cf. Gn. 3,5). Satanás convida o homem a libertar-se da imposição deste jugo, tornando-se como ´Deus´.

 

6. Nesta condição de mentira existencial, satanás torna-se segundo São João também "assassino", isto é, destruidor da vida sobrenatural que Deus desde o princípio tinha introduzido nele e nas criaturas, feitas "à imagem de Deus": os outros puros espíritos e os homens; satanás quer destruir a vida segundo a verdade, a vida na plenitude do bem, a sobrenatural vida de graça e de amor. O autor do Livro da Sabedoria escreve: "Por inveja do demônio é que a morte entrou no mundo, e prová-la-ão os que pertencem ao demônio" (Sb. 2,24). E no evangelho Jesus Cristo adverte: "Temei antes aquele que pode fazer perecer na Geena o corpo e a alma" (Mt. 10,28).

 

7. Como efeito do pecado dos progenitores, este anjo caído conquistou em certa medida o domínio sobre o homem. Esta é a doutrina constantemente confessada e anunciada pela Igreja, e que o Concílio de Trento confirmou no tratado sobre o pecado original (cf. DS. 1511): ela encontra dramática expressão na liturgia do batismo, quando ao catecúmeno se pede para renunciar ao demônio e a suas tentações. Deste influxo sobre o homem e sobre as disposições do seu espírito (e do corpo), encontramos várias indicações na Sagrada Escritura, na qual satanás é chamado "o príncipe deste mundo" (2Cor. 4,4). Encontramos muitos outros nomes que descrevem as suas nefastas relações como o homem: "Belzebu" ou "Belial", "espírito maligno", e por fim "anticristo" (1 Jo. 4, 3). É comparado com um "leão" (1 Pe. 5, 9), com um "dragão" (Apocalipse) e com uma serpente (Gen. 3). Com muita freqüência, para o designar, é usado o nome "diabo", do grego "diabellein" (daqui diábolos), que significa: causar a destruição, dividir, caluniar, enganar. E, para dizer a verdade, tudo isto acontece desde o princípio, por obra do espírito malígno, que é apresentado pela Sagrada Escritura, como uma pessoa, embora tenha afirmado que não está só: "somos muitos", respondem os diabos a Jesus, na região dos Geracenos (Mc. 5, 9); "o diabo e seus anjos", diz Jesus, na descrição do juízo final (cf. Mt 25, 41).

 

8. Segundo a Sagrada Escritura, e de modo especial, no Novo Testamento, o domínio e o influxo de satanás e dos outros espíritos malignos abrange todo o mundo. Pensemos na parábola de Cristo sobre o campo (que é o mundo), sobre a boa semente e sobre a que não é boa, que o diabo semeia no meio do trigo procurando arrancar dos corações aquele bem que neles foi "semeado" (cf. Mc. 13, 38´39). Pensemos nas numerosas exortações à vigilância (cf. Mt. 26, 41; 1 Pe. 5, 8), à oração e ao jejum (cf. Mt. 17, 21). Pensemos naquela forte afirmação do Senhor: "Esta casta de demônios só pode ser expulsa com oração" (Mc. 9, 29). A ação de Satanás consiste, antes de tudo, em tentar os homens ao mal influindo na sua imaginação e nas suas faculdades superiores para as orientar em direção contrária à lei de Deus. Satanás põe à prova até Jesus (cf. Lc. 4, 3´13), na tentativa extrema de contrariar as exigências da economia da salvação como Deus a estabeleceu. Não é para excluir que em certos casos o espírito maligno chegue até o ponto de exercer o seu influxo não só nas coisas materiais, mas também sobre o corpo do homem, pelo que se fala de "possessos de espíritos impuros" (Mc. 5, 2´9). Nem sempre é fácil discernir o que de preternatural acontece nesses casos, nem a Igreja condescende ou secunda facilmente a atribuir muitos fatos a intervenções diretas do demônio, mas em linha de princípio não se pode negar que, na sua vontade de prejudicar e de levar para o mal, satanás possa chegar a esta extrema manifestação da sua superioridade.

 

9. Devemos por fim acrescentar que as impressionantes palavras do Apóstolo João: "O mundo inteiro está sob o jugo do maligno" (I. Jo. 5,19), aludem também à presença de satanás na história da humanidade, uma presença que se acentua à medida que o homem e a sociedade se afastam de Deus. O influxo do espírito maligno pode ocultar-se de modo mais profundo e eficaz: fazer-se ignorar corresponde aos seus "interesses". A habilidade de satanás no mundo está em induzir os homens a negarem a sua existência, em nome do racionalismo e de cada um dos outros sistemas de pensamento que procuram todas as escapatórias para não admitir a obra dele. Isto não significa, porém, a eliminação da vontade livre e da responsabilidade do homem e nem se quer a frustração da ação salvífica de Cristo. Trata-se antes de um conflito entre as forças obscuras, do mal e as forças da redenção. São eloqüentes a este propósito as palavras que Jesus dirigiu a Pedro no início da Paixão: "Simão, olha que satanás vos reclamou para vos joeirar como o trigo. Mas Eu roguei por ti, a fim de que tua fé não desfaleça" (Lc 22,31). Por isso compreendemos o motivo por que Jesus, na oração que nos ensinou, o "Pai nosso", que é a oração do reino de Deus, termina bruscamente, ao contrário de multas outras orações do seu tempo, recordando-nos a nossa condição de expostos às insídias do Mal Maligno. O cristão, fazendo apelo ao Pai com o espírito de Jesus e invocando o seu Reino, brada com a força da fé: não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal, do Maligno. Não nos deixeis, ó Senhor, cair, na infidelidade a que nos tenta aquele que foi infiel desde o princípio.

 

6. A VITÓRIA DE CRISTO SOBRE O ESPÍRITO DO MAL

Audiência do dia 20 de agosto de 1986

(Publicada no L´OSSERVATORE ROMANO, ed. port., no dia 24 de agosto de 1986.)

1. As nossas catequeses sobre Deus, Criador das coisas "invisíveis", levaram-nos a iluminar e a retemperar a nossa fé no que se refere à verdade acerca do maligno ou satanás, não certamente querido por Deus, sumo amor e santidade, cuja providência sapiente e forte sabe conduzir a nossa existência à vitória sobre o príncipe das trevas. A fé da Igreja, de fato, ensina-nos que o poder de satanás não é infinito. Ele é só uma criatura poderosa enquanto espírito puro, sendo sempre uma criatura, com os limites da criatura, subordinada ao querer e ao domínio de Deus. Se satanás opera no mundo mediante o seu ódio contra Deus e o seu reino, isto é permitido pela Divina providência que, com poder e bondade (fortiter et suaviter), dirige a história do homem e do mundo. Se a ação de satanás sem dúvida causa muitos danos de natureza espiritual e indiretamente também de natureza física ´ aos indivíduos e à sociedade, ele não está, contudo, em condições de anular a definitiva finalidade para que tendem o homem e toda a criação, o bem. Ele não pode impedir a edificação do Reino de Deus, no qual se terá, no fim, a plena realização da justiça e do amor do Pai para com as criaturas eternamente ´predestinadas´ no Filho-Verbo, Jesus Cristo. Podemos mesmo dizer com São Paulo que a obra do maligno concorre para o bem (cf. Rm. 8,28) e que serve para edificar a glória dos "eleitos" (cf. 2Tm. 2,10).

 

2. Assim toda a história da humanidade se pode considerar em função da salvação total, na qual está inscrita a vitória de Cristo sobre o "príncipe deste mundo" (Jo. 12,13; 14,30; 16,11). "Ao Senhor, teu Deus, adorarás, e só a Ele prestaras culto" (Lc. 4,8), diz peremptoriamente Cristo a satanás. Num momento dramático do seu ministério a quem o acusava de modo imprudente de expulsar os demônios por serem aliados de Belzebu, chefe dos demônios, Jesus responde com aquelas palavras severas e confortantes ao mesmo tempo: "Todo o reino dividido contra si mesmo ficara devastado; e toda a cidade ou casa dividida contra si mesma não poderá subsistir. Ora, se Satanás expulsa Satanás, está dividido contra si mesmo. Como há de subsistir o seu reino?... Mas se é pelo Espírito de Deus que Eu expulso os demônios, quer dizer, então, que chegou até vós o reino de Deus" (Mt. 12, 25.26.28). "Quando um homem forte e bem armado guarda o seu palácio, os seus bens estão em segurança; mas se aparece um mais forte e o vence, tira-lhe as armas em que confiava e distribui os seus despojos" (Lc. 11,21´22). As palavras pronunciadas por Cristo a propósito do tentador encontram o seu cumprimento histórico na cruz e na ressurreição do Redentor. Como lemos na Carta aos Hebreus, Cristo tornou-se participante da humanidade até a cruz "a fim de destruir, pela Sua morte, aquele que tinha o império da morte, isto é, o Demônio, e libertar aqueles que... estavam toda a vida sujeitos à escravidão" (Hb. 2,14´15). Esta é a grande certeza da fé cristã: "O príncipe deste mundo está condenado" (Jo. 16,11); ´Para Isto é que o Filho de Deus se manifestou: Para destruir as obras do Demônio´ (I Jo. 3,8), como nos afirma São João. Por conseguinte, o Cristo crucificado e ressuscitado revelou-se como o "mais forte" que venceu "o homem forte", o diabo, e o destronou. Na vitória de Cristo sobre o diabo participa a Igreja: Cristo, com efeito, deu aos seus discípulos o poder de expulsar os demônios (cf. Mt. 10,1; Mc. 16,17). A Igreja exerce este poder vitorioso mediante a fé em Cristo e a oração (cf. Mc. 9,29; Mt. 19s.), que em casos específicos pode assumir a forma do exorcismo.

 

3. Nesta fase histórica da vitória de Cristo inscreve-se o anúncio e o início da vitória final, a Parusia, a segunda e definitiva vinda de Cristo no termo da história, em direção do qual está projetada a vida do cristão. Embora seja verdade que a história terrena continua a desenrolar-se sob o influxo daquele espírito que como diz São Paulo atua nos rebeldes (Ef. 2,2), os crentes sabem que são chamados a lutar pelo definitivo triunfo do Bem: ´Porque nós não temos de lutar contra a carne e o sangue, mas contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra os Espíritos malignos espalhados pelos ares (Ef. 6,12). A luta, à medida que se aproxima do seu termo, torna-se, em certo sentido, cada vez mais violenta, como põe em relevo de modo especial o Apocalipse, o último livro do Novo Testamento (cf. Ap. 12,7´9). Mas precisamente este livro acentua a certeza que nos é dada por toda a Revelação divina: isto é, que a luta se concluíra com a definitiva vitória do bem. Naquela vitória, pré-contida no mistério pascal de Cristo, cumprir-se´á definitivamente o primeiro anúncio do Livro do Gênesis, que é chamado, com termo significativo, proto-evangelho, quando Deus adverte a serpente: ´Farei reinar a inimizade entre ti e a mulher´ (Gn. 3,15). Naquela fase definitiva, Deus, completando o mistério da sua paterna Providência, "livrara do poder das trevas" aqueles que eternamente "predestinou em Cristo" e "transferi-los" á para o Reino de Seu Filho muito amado (cf. Cl. 1,13´14). Então o Filho sujeitara ao Pai também o universo inteiro, a fim de que "Deus seja tudo em todos" (I Cor. 15,28).

 

4. Aqui concluem-se as catequeses sobre Deus Criador das "coisas visíveis e invisíveis", unidas na nossa exposição com a verdade acerca da Divina Providência. Torna-se evidente aos olhos do crente que o mistério do principio do mundo e da história se liga indissoluvelmente ao mistério do termo, no qual a finalidade de toda a criação chega ao seu cumprimento. O Credo, que une tão organicamente tantas verdades, é deveras a catedral harmoniosa da fé. De maneira progressiva e orgânica podemos admirar estupefatos o grande mistério do intelecto e do amor de Deus, na sua ação criadora, para com o cosmos, para com o homem, para com o mundo dos espíritos puros. Desta ação consideramos a matriz trinitária, a sapiente finalização para a vida do homem, verdadeira "imagem de Deus", por sua vez chamado a reencontrar plenamente a sua dignidade na contemplação da glória de Deus. Fomos iluminados acerca de um dos maiores problemas que inquietam o homem e penetram a sua busca de verdade: o problema do sofrimento e do mal. Na raiz não está uma decisão de Deus errada ou má, mas a sua escolha e, de certo modo, o seu risco, de nos criar livres para nos ter como amigos. Da liberdade nasceu também o mal. Mas Deus não se rende, e com a sua sabedoria transcendente, predestinando-nos para sermos filhos em Cristo, tudo dirige com fortaleza e suavidade, para que o bem não seja vencido pelo mal. Devemos agora deixar-nos guiar pela Divina Revelação na exploração de outros mistérios da nossa salvação. Entretanto recebemos uma verdade que deve estar a peito a todo o cristão: a de que existem espíritos puros, criaturas de Deus, inicialmente todas boas, e depois, por uma escolha de pecado, separadas irredutivelmente em anjos de luz e anjos de trevas. E enquanto a existência dos anjos maus requer de nós o sentido da vigilância para não cair nas suas tentações, estamos certos de que o vitorioso poder de Cristo Redentor circunda a nossa vida, a fim de que nós próprios sejamos vencedores. Nisto somos validamente ajudados pelos anjos bons, mensageiros do amor de Deus, aos quais nós, ensinados pela tradição da Igreja, dirigimos a nossa oração: "Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador, pois a ti me confiou a piedade divina, hoje, sempre, governa-me, rege-me, guarda-me, e ilumina-me. Amém"

 

7. SÃO MIGUEL NOS PROTEJA CONTRA AS INSIDIAS DO MALIGNO

Alocução do dia 24 de maio de 1987 no Santuário de São Miguel Arcanjo

(Publicada no L´OSSERVATORE ROMANO, ed. port., no dia 31 de maio de 1987.)

Caríssimos irmãos e irmãs:

1. Estou feliz de me encontrar no meio de vós à sombra deste santuário de São Miguel Arcanjo, que há quinze séculos é meta de peregrinações e ponto de referência para quantos procuram a Deus e desejam pôr-se no seguimento de Cristo, por meio de Quem "foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as visíveis e as invisíveis, os tronos, as dominações, os principados e as potestades" (Cl 1,16). Saúdo cordialmente todos vós, peregrinos, aqui vindos das cidades que circundam este magnífico promontório do Gargano, que oferece ao olhar do visitante enlevos deliciosos com a sua paisagem suave, florida, e com característicos grupos de oliveiras que se debruçam sobre a rocha. Saúdo em particular as Autoridades civis e religiosas, que contribuíram para tornar possível este encontro pastoral; saúdo o Arcebispo de Manfredônia, Mons. Valentino Vailati, a quem se dirige o meu agradecimento, pelas palavras com que se dignou introduzir esta manifestação de fé. Saúdo também e sobretudo os padres Beneditinos da Abadia de Montevergine, que têm o cuidado espiritual deste Santuário. A eles, e de modo especial ao seu Abade, Dom Tommaso Agostino Gubitosa, exprimo a minha gratidão pela animação cristã e pelo clima espiritual que por eles são assegurados a quantos aqui vêm para retemperar o seu espírito nas fontes da fé.

 

2. A este lugar, como já fizeram no passado tantos Predecessores meus na Cátedra de São Pedro, vim também eu gozar um instante da atmosfera própria deste santuário, feita de silêncio, de oração e de penitência; vim para venerar e invocar o Arcanjo São Miguel, para que proteja e defenda a Santa Igreja, num autêntico testemunho cristão, sem compromissos e sem acomodamentos. Desde quando o Papa Gelásio I concedeu, em 493, o seu assentimento à dedicação da gruta das aparições do Arcanjo são Miguel a lugar de culto e aqui realizou a sua primeira visita, concedendo a indulgência do "Perdão angélico", uma série de Romanos Pontífices seguiu os seus passos para venerar este lugar sagrado. Entre eles recordam-se Agapito I, Leão IX, Urbano II, Inocêncio II, Celestino III, Urbano VI, Gregório IX, São Pedro Celestino e Bento XV. Também numerosos Santos aqui vieram para haurir força e conforto. Recordo São Bernardo, São Guilherme de Vercelli, fundador da Abadia de Montevergine, São Tomás de Aquino, Santa Catarina de Sena; entre estas visitas, permaneceu justamente célebre e ainda hoje continua viva a que foi realizada por São Francisco de Assis, que veio aqui para preparar a quaresma de 1221. A tradição diz que ele, considerando-se indigno de entrar na gruta sagrada, se teria detido na entrada, gravando um sinal da cruz numa pedra. Esta viva e jamais interrompida freqüência de peregrinos ilustres e humildes, que desde a alta Idade Média até os nossos dias fez deste santuário um lugar de encontro, de oração e de reafirmação da fé cristã, diz quanto a figura do Arcanjo Miguel, que é protagonista em tantas páginas do Antigo e do Novo Testamento, é sentida e invocada pelo povo, e quanto a Igreja tem necessidade da sua proteção celeste: dele, que é apresentado na Bíblia como o grande lutador contra o Dragão, o chefe dos demônios. Lemos no Apocalipse: "Travou-se, então, uma batalha no Céu: Miguel e os seus Anjos pelejavam contra o Dragão e este pelejava também juntamente com seus anjos. Mas não prevaleceram e não houve mais lugar no Céu para eles. O grande Dragão foi precipitado, a antiga serpente, o Diabo, ou Satanás, como lhe chamou, sedutor do mundo inteiro, foi precipitado na terra, juntamente com os seus anjos" (Ap. 12,7´9). O autor sagrado apresenta-nos nesta dramática descrição o fato da queda do primeiro Anjo, que foi seduzido pela ambição de se tornar "como Deus". Daqui a reação do Arcanjo Miguel, cujo nome hebraico "Quem como Deus?" reivindica a unicidade de Deus e a sua inviolabilidade.

 

3. Por mais fragmentarias que sejam, as notícias da Revolução sobre a personalidade e o papel de são Miguel são muito eloqüentes. Ele é o Arcanjo (cf. Jd 1,9) que reivindica os direitos inalienáveis de Deus. É um dos príncipes do Céu posto como guarda do povo eleito (cf. Dn. 12,1), de onde virá o Salvador. Ora, o novo povo de Deus é a Igreja. Eis a razão pela qual ela o considera como próprio protetor e defensor em todas as suas lutas pela defesa e a difusão do reino de Deus na terra. É verdade que ´as portas do inferno nada poderão contra ela´, segundo a afirmação do Senhor (Mt. 16,18), mas isto não significa que estamos isentos das provas e das batalhas contra as insídias do maligno. Nesta luta o Arcanjo Miguel está ao lado da Igreja para a defender contra as iniqüidade do século, para ajudar os crentes a resistir ao Demônio que ´anda ao redor, como um leão que ruge, buscando a quem devorar´ (l Pd. 5,8). Esta luta contra o Demônio, a qual caracteriza a figura do arcanjo Miguel, é atual também hoje, porque o demônio está vivo e operante no mundo. Com efeito, o mal que nele existe, a desordem que se verifica na sociedade, a incoerência do homem, a ruptura interior da qual é vítima não são apenas conseqüências do pecado original, mas também efeito da ação nefanda e obscura de Satanás, deste insidiador do equilíbrio moral do homem, ao qual São Paulo não hesita em chamar "o deus deste mundo" (2Cor. 4,4), enquanto se manifesta como encantador astuto, que sabe insinuar-se no jogo do nosso agir, para aí introduzir desvios tão nocivos, quanto às aparências conformes às nossas aspirações instintivas. Por isto o apóstolo das gentes põe os cristãos de sobreaviso, quanto às insídias do Demônio e dos seus inúmeros sectários, quando exorta os habitantes de Éfeso a revestirem-se da armadura de Deus para que possam resistir às ciladas do Demônio. Porque nós não temos de lutar contra a carne e o sangue, mas contra os principados e potestades, contra os Dominadores deste mundo tenebroso, contra os Espíritos malignos espalhados pelos ares" (Ef. 6,11´12). A esta luta nos chama a figura do Arcanjo são Miguel, a quem a Igreja, tanto no Oriente como no Ocidente, jamais cessou de tributar um culto especial. Como se sabe, o primeiro Santuário a ele dedicado surgiu em Constantinopla por obra de Constantino: é o célebre Michaelion, ao qual se seguiram naquela nova Capital do Império outras numerosas igrejas dedicadas ao Arcanjo. No Ocidente o culto de São Miguel, desde o século V, difundiu-se em muitas cidades como Roma, Milão, Piacença, Gênova, Veneza; e entre tantos lugares de culto, certamente o mais famoso é este do monte Gargano. O Arcanjo está representado sobre a porta de bronze, fundada em Constantinopla em 1076, no ato de abater o Dragão infernal. É este o símbolo, com o qual a arte no-lo representa e a liturgia faz que o invoquemos. Todos recordam a oração que há anos se recitava no final da Santa Missa: "Sancte Michael Archangele, defende nos in proelio"; dentro em pouco, repeti-la-ei em nome da Igreja toda. E antes de elevar tal oração, a todos vós aqui presentes, aos vossos familiares e a todas as pessoas que vos são queridas concedo a minha Bênção, que faço extensiva também a quantos sofrem no corpo e no espírito.

 

8. A Existência do Diabo

Audiência do Papa Paulo VI do dia 15 de novembro de 1972

Alocução Livrai-nos do mal´ Publicado no L´Osservatore Romano, ed. port. em 24/11/1972.

Atualmente, quais são as maiores necessidades da Igreja? Não deveis considerar a nossa resposta simplista, ou até supersticiosa e irreal: uma das maiores necessidades é a defesa daquele mal, a que chamamos demônio. Antes de esclarecermos o nosso pensamento, convidamos o vosso a abrir-se à luz da fé sobre a visão da vida humana, visão que, deste observatório, se alarga imensamente e penetra em singulares profundidades. E, para dizer a verdade, o quadro que somos convidados a contemplar com realismo global é muito lindo. É o quadro da criação, a obra de Deus, que o próprio Deus, como espelho exterior da sua sabedoria e do Seu poder, admirou na sua beleza substancial (cf. Gn. 1,10 ss.). Além disso, é muito interessante o quadro da história dramática da humanidade, da qual emerge a da redenção, a de Cristo, da nossa salvação, com os seus magníficos tesouros de revelação, de profecia, de santidade, de vida elevada a nível sobrenatural, de promessas eternas (cf. Ef. 1,10). Se soubermos contemplar este quadro, não poderemos deixar de ficar encantados; tudo tem um sentido, tudo tem um fim, tudo tem uma ordem e tudo deixa entrever uma Presença-Transcendência, um Pensamento, uma Vida e, finalmente, um Amor, de tal modo que o universo, por aquilo que é e por aquilo que não é, se apresenta como uma preparação entusiasmante e inebriante para alguma coisa ainda mais bela e mais perfeita (cf. ICor. 2,9; Rm. 8,19´23). A visão cristã do cosmo e da vida é, portanto, triunfalmente otimista; e esta visão justifica a nossa alegria e o nosso reconhecimento pela vida, motivo por que, celebrando a glória de Deus, cantamos a nossa felicidade.

O Ensinamento Bíblico

Esta visão, porém, é completa, é exata? Não nos importamos, porventura com as deficiências que se encontram no mundo, com o comportamento anormal das coisas em relação à nossa existência, com a dor, com a morte, com a maldade, com a crueldade, com o pecado, numa palavra, com o mal? E não vemos quanto mal existe no mundo especialmente quanto à moral, ou seja, contra o homem e, simultaneamente, embora de modo diverso, contra Deus? Não constitui isto um triste espetáculo, um mistério inexplicável? E não somos nós, exatamente nós, cultores do Verbo, os cantores do bem, nós crentes, os mais sensíveis, os mais perturbados, perante a observação e a prática do mal? Encontramo-lo no reino da natureza, onde muitas das suas manifestações, segundo nos parece, denunciam a desordem. Depois, encontramo-lo no âmbito humano, onde se manifestam a fraqueza, a fragilidade, a dor, a morte, e ainda coisas piores; observa-se uma dupla lei contrastante, que, por um lado, quereria o bem, e, por outro, se inclina para o mal, tormento este que São Paulo põe em humilde evidência para demonstrar a necessidade e a felicidade de uma graça salvadora, ou seja, da salvação trazida por Cristo (Rm. 7); já o poeta pagão Ovidio tinha denunciado este conflito interior no próprio coração do homem: "Video meliora proboque, deteriora sequor". Encontramos o pecado, perversão da liberdade humana e causa profunda da morte, porque é um afastamento de Deus, fonte da vida (cf. Rm. 5,12) e, também, a ocasião e o efeito de uma intervenção, em nós e no nosso mundo, de um agente obscuro e inimigo, o Demônio. O mal já não é apenas uma deficiência, mas uma eficiência, um ser vivo, espiritual, pervertido e perversor. Trata-se de uma realidade terrível, misteriosa e medonha. Sai do âmbito dos ensinamentos bíblicos e eclesiásticos quem se recusa a reconhecer a existência desta realidade; ou melhor, quem faz dela um princípio em si mesmo, como se não tivesse, como todas as criaturas, origem em Deus, ou a explica como uma pseudo-realidade, como uma personificação conceitual e fantástica das causas desconhecidas das nossas desgraças. O problema do mal, visto na sua complexidade em relação à nossa racionalidade, torna-se obsessionante. Constituí a maior dificuldade para a nossa compreensão religiosa do cosmo. Foi por isso que Santo Agostinho penou durante vários anos: "Quaerebam unde malum, et non erat exitus", procurava de onde vinha o mal e não encontrava a explicação. (Confissões, VII,5 ss) Vejamos, então, a importância que adquire a advertência do mal para a nossa justa concepção; é o próprio Cristo quem nos faz sentir esta importância. Primeiro, no desenvolvimento da história, haverá quem não recorde a página, tão densa de significado, da tríplice tentação? E ainda, em muitos episódios evangélicos, nos quais o demônio se encontra com o Senhor e aparece nos seus ensinamentos (cf. Mt. 1,43)? E como não haveríamos de recordar que Jesus Cristo, referindo-se três vezes ao Demônio como seu adversário, o qualifica como "príncipe deste mundo" (Jo. 12,31; 14,30; 16,11)? E a ameaça desta nociva presença é indicada em muitas passagens do Novo Testamento. São Paulo chama-lhe "deus deste mundo'' (2Cor. 4,4) e previne-nos contra as lutas ocultas, que nós cristãos devemos travar não só com o Demônio, mas com a sua tremenda pluralidade: "Revesti-vos da armadura de Deus para que possais resistir às ciladas do Demônio. Porque nós não temos de lutar (só) contra a carne e o sangue, mas contra os Principados, contra os Dominadores deste mundo tenebroso, contra os Espíritos malignos espalhados pelos ares" (Ef. 6,11´12). Diversas passagens do Evangelho dizem-nos que não se trata de um só demônio, mas de muitos (cf. Lc. 11,21; Mc. 5,9), um dos quais é o principal: satanás, que significa o adversário, o inimigo; e, ao lado dele, estão muitos outros, todos criaturas de Deus, mas decaídas, porque rebeldes e condenadas; constituem um mundo misterioso transformado por um drama muito infeliz, do qual conhecemos pouco.

O Inimigo Oculto

Conhecemos, todavia, muitas coisas deste mundo diabólico, que dizem respeito à nossa vida e a toda a história humana. O demônio é a origem da primeira desgraça da humanidade; foi o tentador pérfido e fatal do primeiro pecado, o pecado original (cf. Gn. 3; Sb 1,24). Com aquela falta de Adão, o demônio adquiriu um certo poder sobre o homem, do qual só a redenção de Cristo nos pode libertar. Trata-se de uma história que ainda hoje existe: recordemos os exorcismo do batismo e as freqüentes referências da Sagrada Escritura e da Liturgia ao agressivo e opressivo "domínio das trevas" (Lc. 22,53). Ele é o inimigo número um, o tentador por excelência. Sabemos, portanto, que este ser mesquinho, perturbador, existe realmente e que ainda atua com astúcia traiçoeira; é o inimigo oculto que semeia erros e desgraças na história humana. Deve-se recordar a significativa parábola evangélica do trigo e da cizânia, síntese e explicação do ilogismo que parece presidir às nossas contrastantes vicissitudes: "Inimicus homo hoc fecit" (Mt. 13,2). É o assassino desde o princípio... e "pai da mentira", como o define Cristo (cf. Jo. 44´45); é o insidiador sofista do equilíbrio moral do homem. Ele é o pérfido e astuto encantador, que sabe insinuar-se em nós através dos sentidos, da fantasia, da concupiscência, da lógica utópica, ou de desordenados contatos sociais na realização de nossa obra, para introduzir neles desvios, tão nocivos quanto, na aparência, conformes às nossas estruturas físicas ou psíquicas, ou às nossas profundas aspirações instintivas. Este capítulo, relativo ao demônio e ao influxo que ele pode exercer sobre cada pessoa, assim como sobre comunidades, sobre inteiras sociedades, ou sobre acontecimentos, é um capitulo muito importante da doutrina católica, que deve ser estudado novamente, dado que hoje o é pouco. Algumas pessoas julgam encontrar nos estudos da psicanálise ou da psiquiatria, ou em práticas evangélicas, no principio da sua vida pública, de espiritismo, hoje tão difundidas em alguns países, uma compensação suficiente. Receia-se cair em velhas teorias maniqueístas, ou em divagações fantásticas e supersticiosas. Hoje, algumas pessoas preferem mostrar-se fortes, livres de preconceitos, assumir ares de positivistas, mas depois dão crédito a muitas superstições de magia ou populares, ou pior, abrem a própria alma " a própria alma batizada, visitada tantas vezes pela presença eucarística e habitada pelo Espírito Santo" às experiências licenciosas dos sentidos, às experiências deletérias dos estupefacientes, assim como às seduções ideológicas dos erros na moda, fendas estas por onde o maligno pode facilmente penetrar e alterar a mentalidade humana. Não quer dizer que todo o pecado seja devido diretamente à ação diabólica; mas também é verdade que aquele que não vigia, com certo rigor moral, a si mesmo (cf. Mt. 12,45; Ef. 6,11), se expõe ao influxo do "mysterium iniquitatis", ao qual São Paulo se refere (2Ts. 2,3´12) e que torna problemática a alternativa da nossa salvação. A nossa doutrina torna-se incerta, obscurecida como está pelas próprias trevas que circundam o Demônio. Mas a nossa curiosidade, excitada pela certeza da sua doutrina múltipla, torna-se legitima com duas perguntas: Há sinais da presença da ação diabólica e quais são eles? Quais são os meios de defesa contra um perigo tão traiçoeiro?

A Ação do Demônio

A resposta à primeira pergunta, requer muito cuidado embora os sinais do Maligno às vezes pareçam tornar-se evidentes. Podemos admitir a sua atuação sinistra onde a negação de Deus se torna radical, sutil ou absurda; onde o engano se revela hipócrita, contra a evidência da verdade; onde o amor é anulado por um egoísmo frio e cruel; onde o nome de Cristo é empregado com ódio consciente e rebelde (cf. ICor. 16,22; 12,3); onde o espírito do Evangelho é falsificado e desmentido; onde o desespero se manifesta como a última palavra, etc. Mas é um diagnóstico demasiado amplo e difícil, que agora não ousamos aprofundar nem autenticar; que não é desprovido de dramático interesse para todos, e ao qual até a literatura moderna dedicou páginas famosas. O problema do mal continua a ser um dos maiores e permanentes problemas para o espírito humano, até depois da resposta vitoriosa que Jesus Cristo dá a respeito dele.

"Sabemos" escreve o evangelista São João que todo aquele que foi gerado por Deus guarda-o, e o Maligno não o toca (IJo. 5,19).

A Defesa do Cristão

A outra pergunta, que defesa, que remédio, há para combater a ação do Demônio, a resposta é mais fácil de ser formulada, embora seja difícil pô-la em prática. Poderemos dizer que tudo aquilo que nos defende do pecado nos protege, por isso mesmo, contra o inimigo invisível. A graça é a defesa decisiva. A inocência assume um aspecto de fortaleza. E, depois, todos devem recordar o que a pedagogia apostólica simbolizou na armadura de um soldado, ou seja, as virtudes que podem tornar o cristão invulnerável (cf. Rm. 13,13; Ef. 6,11´14´17; lTs. 5,8). O cristão deve ser militante; deve ser vigilante e forte (lPd. 5,8); e algumas vezes, deve recorrer a algum exército ascético especial, para afastar determinadas invasões diabólicas; Jesus ensina-o, indicando o remédio "na oração e no jejum" (Mc 9,29). E o apóstolo indica a linha mestra que se deve seguir: "Não te deixes vencer pelo mal; vence o mal com o bem" (Rm. 12,21; Mt. 13,29)

Conscientes, portanto, das presentes adversidade em que hoje se encontram as almas, a Igreja e o mundo, procuraremos dar sentido e eficácia à usual invocação da nossa oração principal: "Pai nosso... livrai-nos do mal".

Contribua para isso a nossa Bênção apostólica.

DO LIVRO ´OS ANJOS´ do Prof. Felipe de Aquino