Anjos  e  demônios

Preliminares

Em uma perspectiva antropológica, falamos do imaginário religioso, como uma das expressões da cultura.   Estamos nos referindo a uma percepção do sagrado, como o povo, em determinada época e lugar, o percebe em suas imagens, representações e conceitos, expressos na literatura e na arte, bem como na simbologia verbalizada pela tradição oral.

Filosoficamente, poderíamos nos referir à conceitualização do metafísico, do além material. Anjos, bons e caídos, integram esse imaginário, esse metafísico, para essas disciplinas.

A sociologia da religião, a ciência política e a psicologia social têm, igualmente, voltado a sua atenção para a relação entre a situação social vivida por seus atores e a representação do sagrado.

A psicanálise tem estudado, particularmente, o lugar dos sonhos.

A angelologia e a demonologia, portanto, transcendem a perspectiva bíblico-teológica, para, por sua importância, merecerem um tratamento interdisciplinar.

A profusão de publicações sobre o tema, em nossas livrarias religiosas a análise do discurso religioso mais recente, são indicadores da relevância dessa temática.

 As mudanças históricas

Anjos e demônios são conceitos integrados à religiosidade judaica, antes e depois do exílio, bem como na vivência da Igreja Primitiva.

Para essas religiões, nós teríamos Deus, a criação do universo (incluída a criação terrena), com os seres humanos, os animais irracionais, os vegetais e os minerais, e, na dimensão espiritual, as hostes angélicas da bondade e da maldade.

Essa cosmovisão, contudo, vai sofrer profundas alterações no contato do cristianismo em expansão com a civilização greco-romana e a sua mitologia. Conquanto, o politeísmo venha a ser progressivamente erradicado e substituído pelo monoteísmo trinitário, a categoria mítica dos “heróis”, (seres abaixo dos deuses e acima dos homens) vai subsistir, em um processo de sincretismo, com os mártires e heróis da fé ocupando o patronato de lugares e de profissões, além de desempenharem um papel mediatório entre os fiéis e Deus.

A carência de deusas (divindades femininas) secularmente arragaidas, terá papel decisivo no desdobramento da mariologia.

Além do Pai, do Filho, do Espírito Santos, dos anjos bons e dos anos caídos, a religiosidade, no ocaso da Idade Antiga, vai incluir Maria, os santos e as santas. Essa profusão de entidades levará a um distanciamento entre os fiéis e a divindade, e a necessidade crescente da medianeira e dos santos, não alvos de adoração (latria), mas de hiperdulia e de dulia (veneração), em uma nova e original elaboração teológica.

Esse cenário irá se complicar ainda mais, na Idade Média, com a evangelização dos germanos, com o seu animismo das árvores sagradas, as fadas, os duendes e os gnomos.

Na mente dos fiéis vai desaparecer a distinção entre a tradição bíblica, o magistério da Igreja Oficial e o imaginário religioso de origem pagã. A tudo isso acrescentaríamos a veneração de relíquias, as peregrinações, as penitências e o purgatório.

No final da Idade Média, o imaginário religioso é assim sintetizado por um autor: “um Deus distante, um Cristo débil, um demônio forte e anjos importantes”.

Todo esse edifício é confrontado pela Reforma Protestante. Há uma denúncia e um combate frontal às superstições e à idolatria. A docência reformada desqualifica a existência de fadas, duendes e gnomos, devolve a Maria e aos santos o seu devido lugar de heróis da fé e exemplos de vida, procura reconceitualizar o papel dos anjos e dos demônios sob um prisma bíblico, afirmando a centralidade de Cristo, da Graça e da Fé.

A Reforma Religiosa do século XVI, portanto, não nega a existência de anjos e demônios, mas procura reduzir a sua expressão, visando aliviar as mentes oprimidas e aterrorizadas pelos erros e exageros do passado. O próprio Martinho Lutero confronta o demônio, quando traduzia as Sagradas Escrituras para o vernáculo, diante da lista de acusações e mentiras que o inimigo lhe fazia, ele joga um tinteiro, proferindo as palavras: “Arreda-te satanás, pois o sangue de Jesus Cristo me purifica de todo o meu pecado!”

O século XVII será conhecido como o século da “ortodoxia protestante”. Essa ênfase cognitiva, tantas vezes chamada de “ortodoxia fria” será temperada pela reação subjetiva e mística do movimento pietista.

Pois bem, a ortodoxia protestante irá marcar, decisivamente a angelologia e a demonologia das denominações históricas pelos próximos três, séculos, até a atualidade.

A existência e o papel dos anjos e os demônios são afirmados, segundo as Escrituras, reduzidos, todavia, ao mero campo doutrinário. Um historiador, analisando as igrejas históricas européias dos séculos XIX e XX afirmou: “No papel, nas confissões de fé, os anjos e os demônios são ensinados como existentes, mas na prática, no cotidiano da vida dessas igrejas, é como se eles não existissem”.

Esse “esvaziamento angélico” é agravado pela influência do Iluminismo e do Racionalismo sobre a teologia ocidental, como o Liberalismo e o conseqüente processo de desmistificação ou desmitologização, com a negação explícita e sistemática da existência dos anjos e dos demônios, tidos como resquícios de uma religiosidade primitiva.

Com os conservadores afirmando na doutrina e negando na prática, e com os liberais negando na teoria e na prática, “Essa foi a jogada mais brilhante de satanás: convencer o mundo que ele não existe, para poder atuar à vontade...”

A angelologia e a demonologia, porém, devem a sua sobrevivência, à Igreja, que insistia no conceito de “anjos da guarda” (“Santo anjo do Senhor, meu zeloso guardador”, diz a oração), e na preparação de ordenados como exorcistas, elaborando uma teologia da possessão demoníaca e do seu livramento.

O filme: “O Exorcista” é baseado em uma história real de um menino filho de luteranos nominais e da perplexidade do seu pastor liberal em tratar do assunto. Em uma noite, no gabinete pastoral, no lugar do pastor expulsar o demônio, é este que põe o pastor para correr...

A ciência moderna, especialmente a psicologia, a psiquiatria e a psicanálise passaram a dar um tratamento patológico ao assunto, reduzido a alucinações de psicóticos em surto.

No mundo protestante ninguém falava mais em anjos, e se alguém aparecesse possesso os pastores não sabiam o que fazer. Os conservadores poderiam recitar textos de Lutero e de Calvino, e os liberais poderiam dizer: ”Eu não posso mandar você sair, porque você não entrou, porque você não existe!”

O quadro vai mudar a partir de dois fenômenos: o encontro dos missionários europeus e norte-americanos com as religiões africanas e orientais e o surgimento, há cem anos, do movimento pentecostal.

Com a pós-modernidade, e a crise do racionalismo, no final do século passado e início do atual, os anjos e os demônios retornam ao cenário cultural, secular e religioso, com força total, graças, por um lado, a Nova Era, com uma nova angelologia em uma profusão de livros, que estão tornando ricos os seus autores, e, por outro lado, ao neo(pós)-pentecostalismo, e a sua teologia da “batalha espiritual”.

Estamos indo, em um pendulo, de um extremo ao outro, com a pós-modernidade voltando ao imaginário pré-moderno, com a fragilização do Cristo, a re-importância dos anjos e um desmesurado poder satânico, inclusive com uma “geopolítica infernal”, os chamados “demônios territoriais”. 

A teologia da “batalha espiritual” leva os seres humanos a lutar contra os anjos caídos, deixando ociosos os anjos bons e incontidos os homens maus. E, o que é mais grave, reduzindo os efeitos da Cruz de Cristo, como vitória sobre o mal, a ser apropriada pela fé. Assiste-se ao questionável espetáculo de possessões e exorcismos “com hora marcada”, e a atribuição de todos os males aos demônios, em uma visão mais perto do candomblé do que do cristianismo, agravada pela irresponsabilidade moral das pessoas.

O ceticismo liberal está decadente. A ortodoxia fria é insuficiente e de escassa relevância. A Nova Era e o Neo(pós)-pentecostalismo nos apresentam um desafio. Ruiu o mito da “bondade natural” (Rousseau). É desejado um novo momento de a partir de uma reapropriação dos conceitos bíblicos elaborarmos uma nova espiritualidade e uma nova pastoral, que faça frente aos dramas internacionais, nacionais, estruturais e pessoais que atestam a existência do mal e de seres espirituais, que não são passageiros de OVN´s.

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