Anjos  bons  e  maus  existem

Em nossos dias, os anjos estão muito em foco. Não somente a piedade cristã os reconhece, mas também o esoterismo e a literatura fantasiosa. Há, porém, aqueles que negam a existência dos anjos bons e maus, como se fossem figuras mitológicas. Que dizer a propósito?
A existência dos anjos

Afirma o Catecismo da Igreja Católica: "A existência dos seres espirituais, não-corpórea, que a Sagrada Escritura chama habitualmente anjos, é uma verdade de fé. O testemunho da Escritura a respeito é tão claro quanto a unanimidade da Tradição" (nº 328). Vejamos então o que nos diz a Escritura.

Nos livros mais antigos da Bíblia aparece uma figura um tanto misteriosa chamada em hebraico mal’ak Yahveh - mensageiro do Senhor; ver Gn 16,7-14; 18,2s; 21,17-19; 22,11 -14; 31,11-13; Ex 2,2-6... Trata-se de um mensageiro investido por Deus com determinada missão e plenos poderes, de modo que é o próprio Deus quem intervém por meio do seu emissário. Com o tempo, os israelitas tendiam a distanciar Deus dos homens, acentuando a transcendência do Eterno; isto os levou a desenvolver a noção de intermediários entre o Senhor Deus e os homens; assim foi tomando vulto a doutrina relativa aos anjos. Nos tempos mais remotos da história de Israel, o povo ameaçava cair no politeísmo; daí a sobriedade dos livros mais antigos sobre o assunto. Todavia no decorrer dos séculos, essa ameaça foi cedendo a uma noção, cada vez mais profunda, da transcendência de Deus, de modo que os escritores bíblicos e extrabíblicos (apócrifos) foram mais e mais falando de anjos; tenhamos em vista Tb 3,17; 12,15 (o anjo Rafael); Dn 10,13.20 (o anjo tutor de cada povo).

Aparece também no Antigo Testamento a noção do anjo mau, adversário dos homens. Em Sb 2,23s lê-se o seguinte: "Deus criou o homem imortal e o fez à sua imagem e semelhança. Mas, por inveja do diabo, entrou no mundo a morte; os que a ela pertencem, sofrem-na". Há aí uma alusão a Gn 3,1-5, onde a serpente aparece como imagem do diabo tentador. Este é um ser inteligente, astuto e mentiroso, e não uma força neutra instintiva do homem; todavia é sujeito a Deus, só age contra o homem por permissão do Senhor e o homem é capaz de resistir-lhe (ver o caso de Jó).

Nos escritos do Novo Testamento ainda é mais patente a presença dos anjos, que de certo modo fazem as vezes de cortesãos e arautos do reino de Deus, trazidos à Terra por Jesus Cristo. O Evangelho fala do "exército celeste" (Lc. 2,13). Acompanham a mensagem da Boa Nova na família de João Batista, junto a Maria e José, servem ao Cristo na sua natividade (Lc. 2,13), após as tentações (Mc. 1,13), na agonia (Lc. 22,43), na ressurreição (Mt. 28,2-6), na ascensão (At. 1,19); alegram-se pela conversão dos pecadores (Lc. 15,7.10).

Os anjos maus também ocorrem freqüentemente no Novo Testamento com nomes diversos: satanás = adversário (Mc. 1,13), demônio (Mt. 4,12; Lc. 4,2), Belzebu (Mt 10,25), Belial (2Cor. 6,15)... Jesus diz que ele "é homicida desde o princípio e que não permaneceu na verdade" (Jo 8,44; cf 1Jo. 3,8). O Maligno pediu os Apóstolos para os joeirar como trigo, mas Jesus rogou por eles ao Pai (Lc. 22,31) - o que mostra que o demônio só age com autorização de Deus.
O teólogo grego Dionísio Areopagita, no século VI, recolheu na Sagrada Escritura os nomes dos anjos mencionados no Antigo e no Novo Testamentos e distribuiu-os numa hierarquia de novos coros: serafins, querubins, tronos, dominações, virtudes, potestades, principados, arcanjos, anjos (em sentido estrito). Essa classificação partiria dos anjos mais perfeitos aos menos perfeitos no plano ontológico; nada tem de dogmático.

Os anjos são criaturas que Deus fez boas (Deus nada pode fazer intrinsecamente mau), mas que abusaram de sua liberdade e se afastaram de Deus pelo pecado. Que tipo de pecado terá sido esse?

Há poucos dados na Revelação para responder. Julga-se, porém, que depois de ter criado os anjos, Deus os elevou à graça sobrenatural (à semelhança do que se deu com os homens) e os submeteu a uma prova. Uma parte dos anjos se terá rebelado contra Deus por soberba (este é o pecado típico dos espíritos). Conforme alguns teólogos, a rebelião ocorreu quando Deus anunciou aos anjos a encarnação do Filho (teriam de adorar Deus feito homem).

As decisões dos anjos, dotados de inteligência mais aguda, são irrevogáveis. Não lhes resta margem para a conversão. Em conseqüência, são avessos a Deus e ao seu plano de salvação. É preciso, porém, que nos mantenhamos sóbrios ao falar dos anjos maus; não lhes podemos atribuir figura corpórea (chifres, asas, tridentes, garras...). Sabemos que Deus é sumamente bom e justo, de modo que o estado de perdição dos anjos maus é plenamente compatível com tais predicados de Deus.

A atividade dos anjos no mundo

Os anjos bons são ministros de Deus para a glória do Criador e a salvação dos homens. Desde os primeiros séculos, os cristãos crêem que cada ser humano tem seu anjo da guarda; isto estaria insinuado em Mt. 18,10. Tornou-se comum esta crença, que a Igreja soleniza mediante a festa dos santos anjos da guarda (dia 2 de outubro).

Quanto aos anjos maus, Deus lhes concede a autorização de tentar os homens; cf Lc. 22,31; Ap. 12,12, para que se fortaleça a virtude dos bons, portanto, em vista de um fim providencial. Satanás não é todo-poderoso; Santo Agostinho o compara a um cão acorrentado, que pode ladrar muito, mas não pode morder senão a quem se lhe chega perto. São Paulo nos diz que Deus não permite que sejamos tentados acima das nossas forças, mas, com a tentação, nos dá meios de sair dela vitoriosos (cf 1Cor. 10,13)

Além das tentações, a Sagrada Escritura menciona a possessão diabólica. Esta é um estado em que o demônio se serve do corpo da pessoa, falando por este e movendo-o à blasfêmia e a atitudes convulsivas, sem que o possesso consiga resistir-lhe; a vontade, porém, do possesso fica isenta de pecado. Pergunta-se: é possível tal estado de coisas?

Distinguimos. Os Evangelhos nos dizem que Jesus encontrou possessos e os exorcizou, confirmando em todos os observadores a impressão de que existe possessão diabólica. Ora, se não havia possessão, Jesus não somente terá realizado uma farsa teatral (para se adaptar a uma crença dos judeus), mas terá confirmado os homens no erro; isto, porém, é inaceitável, pois Jesus mesmo declarou: "Para isto nasci e vim ao mundo: para dar testemunho da verdade" (Jo 18,37). Por conseguinte, é de crer que nos tempos de Jesus havia possessos.

Na história da Igreja foram, e são até hoje, apontados casos de possessão diabólica. A Igreja admite a possibilidade de tal fenômeno; por isto tem um ritual de exorcismo. Todavia, os progressos da psicologia e da medicina revelam que muitos dos sintomas outrora atribuídos à ação direta do demônio, não são senão efeitos patológicos, nervosos ou parapsicológicos. Em conseqüência, devemos ser sóbrios diante de notícias de possessão diabólica; principalmente no Brasil, a grande maioria dos casos apresentados como de possessão não são senão estados mórbidos; todavia, a presença dos cultos afro-brasileiros e espíritas entre nós sugere facilmente às pessoas impressionáveis a idéia de que uma doença nervosa, renitente e feia é resultado de possessão diabólica. Quanto mais os pacientes admitem isto, tanto mais se sugestionam, apavoram e prejudicam. Daí a necessidade de esclarecimento do povo de Deus: existe, sim, o demônio, mas a sua ação visa mais a introduzir ao pecado do que às doenças ou desgraças físicas. Que o cristão viva santamente, confiando em Deus, e nada terá a temer por parte do Maligno: "Se Deus está conosco, quem estará contra nós?..." (Rm 8,31).

Notemos ainda que não se devem identificar os exus e orixás das religiões afro-brasileiras com os anjos maus. Estes são meras criaturas de Deus, ao passo que as entidades cultuadas naqueles centros religiosos são tidas como semideuses.

dom Estevão Bettencourt