Os  anjos  de  Deus

“Apenas saíra, Tobias encontrou um jovem de belo aspecto, equipado como para uma viagem. Sem saber que se tratava de um anjo de Deus, ele o saudou...” (Tb. 5,5-6)

A Palavra de Deus está plena da existência dos anjos. Do primeiro capítulo da Gênese até o Apocalipse. E nós, na nossa profissão de fé, dizemos: Creio em um só Deus, Pai Todo Poderoso, criador do céu e da terra, das coisas visíveis e invisíveis.

Criador (o verbo criar, em hebraico, “bara”, sempre tem Deus como sujeito) significa fazer do nada. Só Deus pode criar, e quando Deus cria, Ele não necessita de nada. Para isso, simplesmente disse: “Faça-se a luz! E a luz foi feita” (Gn. 1,3).

Nas coisas visíveis e invisíveis, sempre se entendeu que estão incluídos os seres espirituais genericamente chamados anjos.

Segundo a Sagrada Escritura e a teologia, é incontestável a existência dos anjos. O Antigo Testamento invoca a lembrança dos anjos já no momento da criação: “onde estavas tu enquanto eu colocava os fundamentos da terra? Quando os astros da manhã cantavam em coro e quando todos filhos de Deus lançavam gritos de alegria?” (Jó 38,4-7). Aqui, toda a tradição, interpreta estes astros da manhã e os filhos de Deus como os anjos. Os anjos, que formam o exército celeste, como a milícia do Senhor, chamado Deus dos exércitos.

No capítulo I da Gênese, nós lemos: “No princípio, Deus criou os céus e a terra”; e São Paulo, com todos os padres da Igreja depois dele, compreendem que criando o céu, Deus criou também tudo o que ele contém; quer dizer, também os anjos. São Paulo, em Colossenses capítulo 1, versículos 15 e 16, diz: “É Nele, ( Jesus), que todas as coisas que foram criadas, as que estão no céu e as que estão na terra, as coisas visíveis e invisíveis. Tronos, dominações, principados,  potestades, tudo foi criado por ele e para ele”. Tronos, dominações etc. são nomes de categoria de anjos.

Se nós afirmarmos que cremos no credo, estamos dizendo que cremos nos anjos.

Nos diversos idiomas a palavra anjo tem os significados de mensageiro, enviado, emissor de Deus.Em grego, o vocábulo é Angel. Em latim é Ângelus – derivado do Grego.Em hebraico, aparece sob designações diferentes e serviu aos escritores sagrados para indicar seres espirituais que pertencem a um mundo acima do humano, porém inferiores e subordinados a Deus.

Para nós, católicos, a crença na existência do anjo é um dogma de fé. Dogma é uma verdade de Fé, revelada por Deus e proclamada pelo magistério da Igreja e que deve ser afirmada e aceita pelos cristãos, em sua profissão de Fé. Como, por exemplo, a Assunção de Nossa Senhora é uma verdade de fé, proclamada pelo Papa Pio XII, em 1950.

A definição dogmática deu-se no IV Concílio de Latrão. Antes, a existência dos anjos havia sido afirmada e formulada no Concílio Ecumênico de Nicéia, no ano de 325, reafirmada no mesmo Concílio, em 381, e no primeiro Concílio de Toledo, no ano de 400.

O primeiro Concílio do Vaticano declara, na Constituição Dogmática sobre a Fé Católica, o seguinte: “Em sua bondade e por sua virtude toda poderosa, o único Deus verdadeiro, no mais livre dos desígnios, ao mesmo tempo, desde o começo do tempo, criou do nada uma e outra criatura, a espiritual e a corporal, isto é, os anjos e o mundo terrestre, e depois a criatura humana, como que participando de ambas, formada de corpo e alma”.

O Concílio Vaticano II (1962-1965), na Constituição Dogmática (Lumen Gentium), quando faz referência à “comunhão da Igreja Celeste com a Igreja Peregrina” (Art. 49), diz-nos: “Portanto, até que o Senhor venha com toda sua majestade e todos os Anjos com Ele” (Mt. 25,31).

Um anjo, criatura de Deus, é um espírito (sem corpo). Um ser com inteligência e vontade, sem dependência alguma, imortal, com livre arbítrio, que o faz surpreendentemente livre. Essa liberdade lhe confere a voluntária submissão da vontade do Criador, de fazer o seu ato de amor e de escolher a Deus. Só assim, os que escolhessem a submissão, poderiam ver  Deus face a face.

Alguns teólogos pensam que Deus deu aos anjos uma visão prévia de Jesus Cristo, o Redentor da raça, e lhes mandou que o adorassem em todas as suas humilhações: uma criança no estábulo, um criminoso na cruz. Segundo essa teoria, alguns anjos se rebelaram ante a perspectiva de adorar um Deus encarnado. Eles tinham consciência da sua beleza e dignidade espiritual, e sob a chefia de um dos anjos, denominado Lúcifer (portador da luz), o pecado do orgulho deu o terrível grito: “Não servirei”. E assim, começou o inferno, porque este é, essencialmente, a separação de Deus, de um espírito.

Quando do pecado de Adão, Deus deu ao gênero humano uma segunda oportunidade. Mas, os anjos rebeldes não a tiveram, pois, pela perfeita clareza de suas mentes angelicais, fizeram a escolha por toda a eternidade. Os anjos que permaneceram fiéis a Deus estão com Ele no céu em amor e adoração perpétuos.

Os anjos estão interessados no nosso bem e intercedem por nós utilizando seus poderes angélicos (a extensão, não podemos sequer imaginar). Mas, que eles nos ajudam, é uma verdade de fé, e contamos com a Sagrada Escritura, que nos mostra como em Gênese18: anjos com aparência humana e com algo de extraordinário, que fez Abraão prostrar-se por terra; e posteriormente em Gn. 22,11 e 32,1.

Também em Exôdo14-19, há a presença de um anjo de Deus que estava num lugar e se deslocou para outro. Podemos verificar a mesma ocorrência em Êxodo 23, 20-23.

E assim ao longo do Antigo Testamento, Deus usa os anjos para ajudar a proteger os homens de todas as maneiras e formas. O livro de Tobias é muito rico, mostrando a atuação do anjo Rafael em todas as suas páginas, como exemplo: Tob. 5,5; 6,5; 12,15.

Pode-se consultar também: Ex. 32,34; Num. 20,16;  22,31-32; Jos. 5,13-16; Juí. 5,23;  6,14-20; 13,3; II Sam. 14,17 . 20; 1Re. 19,15; 2Re. 1,3;  19,35; 1Mac. 7,41.

Nos livros Sapienciais encontramos citações de anjos em: Jó 1,6;  2,1;  38,7.

No livro dos Salmos, cuja palavra em hebraico significa “louvores”, entre muitas citações, encontramos: Sl. 8,6;  33,8;  137,1;  148,2. O salmo 90 é o salmo da confiança e foi utilizado por Satanás para tentar a Jesus, como é narrado em Mt. 4,6.

Outras citações também são registradas nos livros proféticos: Is. 6,1;  37,36; Dan. 3,49;  4,10;  6,23;  12,1; Zac. 3,2.

No Novo Testamento são muitas as referências; algumas feitas diretamente por Jesus. Ele nunca desmentiu a crença dos Judeus, mas renovou.

Todos os evangelistas se referiram aos anjos, e São Paulo também menciona e esclarece a subordinação dos Anjos a Cristo, Deus e Salvador dos homens. No Apocalipse são inúmeras as citações.

Em Lc. 1,26-27: “ No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada (prometida) com um homem que se chamava José, da casa de Davi...”

A narração de são Lucas é de uma clareza a não deixar dúvidas, repete as palavras do anjo e deixa-nos sentir que Maria não se assustou com a presença do anjo, pois a intimidade com os anjos, para o povo hebreu, era muito forte, mas sim, com a saudação. Maria viu um ser real e não uma inspiração diurna ou um sonho. Assim também,  Atos dos Apóstolos, capítulo 12, versículos de 12 a 16, nos mostra essa intimidade, falando sobre o “anjo de Pedro”, na casa de Maria, mãe de Marcos. “Então é o seu anjo”. Isso nos mostra como a familiaridade com os anjos e o valor divino eram simples e comuns aos hebreus.

Assim também em: Mt. 1,20-24;   2,12-13 .19;   4,5-14;   28, 2 –5; Mc. 1,13; Jo 20,11-12; Rom. 8,38; Cor. 13,1; Col. 1,15; Heb. 1,3-8;  12,22; 1Ped. 3,22; Ap. 2,5;  5,11;  12,17.

Em todas estas citações e nas outras que deixamos de mostrar, ficou claro que apenas 3 nomes de anjo nos foram dados a conhecer:

Rafael, que significa Medicina de Deus ou Deus cura, e se encontra no livro de Tobias;

Gabriel, cujo significado é Fortaleza de Deus, e está em Lc. 1,26

Miguel, que quer dizer Quem como Deus e é encontrando em Dan. 12-1.

Pela graça, um ser humano pode ser superior a todos os anjos. Maria é superior a todos os anjos.

Anjo é um mensageiro ou enviado por Deus para o homem. João Batista foi o mensageiro de Jesus.

Muitos papas tiveram grande intimidade com os anjos, como, por exemplo, Pio XI, Pio XII, João XXIII, Paulo VI e João Paulo II. Segundo Paulo VI, “O espírito do Romeu moderno não encontra repouso senão no abandono de toda certeza, como um homem afetado por uma doença nos olhos, não encontra repouso senão na obscuridade”.

Vivemos em um mundo com tantas dúvidas, tantas controvérsias, com um forte espírito de "contestação" e grandes discussões, onde mesmo os teólogos divergem sobre os mais diversos assuntos, que não é de se estranhar que diante desse clima tecnologicamente modernizado, ainda hajam dúvidas sobre a existência de anjos. Também há que se comentar nesse campo de contestação, a forte corrente reinante (ou ativa) em nosso meio católico, de pessoas (ou daqueles) que mesmo acompanhando a liturgia com as festas dos anjos ou quando os prefácios da Missa os mencionam ou ainda quando ouvem os leigos falarem de anjos ou os invocarem, ao recitarem as completas, se fazem de incrédulos.

Entre intimidade e descrença, é bom não cair no exagero. Sejam quais forem os avanços da tecnologia e a presunção do ser humano, quer queira ou não, “os bens e os males, a vida e a morte, a pobreza e a riqueza, tudo vem de Deus”.

Os anjos são os canais e Deus a sua fonte. Reconhecer o papel secundário do canal não é negar a função primordial da fonte. Deixando bem claro que os anjos a que nos referimos, são os anjos em quem a religião católica crê e a Escritura Sagrada nos ensina.

Cuidado: existem muitas crendices e superstições baseadas em seitas, espiritismo, umbandismo e, ultimamente, os esotéricos, que estão difundindo uma crença na existência de anjos, que não têm nada a ver com os anjos da doutrina católica:

É preciso estar atento com os itens abaixo:

Primeiro - Confusão com fadas, duendes e gnomos.

Segundo - Umbandismo, onde se encontram personagens “criados”,tais como orixás, espécies de espíritos superiores bons e exus, espíritos atrasados .

Terceiro - Anjos que têm nomes e, para descobri-los, precisa-se recorrer ao mapa astral (outra invenção). Anjos de cores diferentes e que precisam de água.

Maria José Maia da Cunha