Os anjos na tradição da Igreja

Da mesma forma que a Sagrada Escritura confirma a existência real dos anjos, a Tradição o faz. Vamos conferir as palavras dos mais destacados representantes dessa Tradição.

São Clemente, de Roma, foi o terceiro sucessor de são Pedro na Sé de Roma, na época dos imperadores Domiciano e Trajano (92 a 102). Viu os apóstolos e com eles conversou, havendo recebido diretamente deles os ensinamentos que pregou.

Com esta autoridade ele afirmava que: "os Anjos se acham a serviço de Cristo e são superiores aos homens". São Policarpo, de Esmirna, martirizado no ano 156, em suas cartas revelava fé esclarecida na existência de Anjos e demônios. Atenágoras, chamado de "o filósofo cristão de Atenas", para provar que os cristãos não eram ateus, dizia, na Súplica pelos Cristãos: "Não somos ateus; cremos em Deus Pai, Filho e Espírito Santo, mas ensinamos também que existe uma multidão de Anjos servidores, ministros de Deus criador e ordenador do mundo nas coisas que aí se encontram e na sua ordem". Atribuía à influência do demônio, a difusão da idolatria, da mitologia pagã, as perseguições e a astrologia.

Atenágoras foi o primeiro filósofo cristão que tratou de provar a existência de Deus por argumentos da razão. Escreveu a Apologia dos cristãos, dirigida ao imperador romano Marco Aurélio. Esse grande apologeta, ensinava que um Anjo superior havia sido criado (Apol. 1335). Era soberano sobre a matéria e encarregado de governá-la. O orgulho o fez prevaricar em sua missão. Isto provocou sua queda e castigo. Outros Anjos que haviam sido criados para determinadas missões particulares no mundo o acompanharam em seu orgulho.

São Justino, mártir no ano 165, foi o mais famoso dos apologetas do século II. Em sua Apologética (cap.1-6) afirma praticamente o mesmo que Atenágoras, acrescentando que os Anjos foram criados antes dos homens. Uns Anjos se conservaram fiéis a Deus e outros apostataram. Chama de satanás e serpente ao demônio e, afirma que este recebeu um castigo eterno. Os demônios estariam condenados ao fogo eterno, mas só depois do último juízo é que desceriam ao inferno. Afirma que os anjos bons ajudam aos mártires no suplício e acompanham suas almas ao céu. Sua função especial no céu é cantar louvores a Deus.

"Nós adoramos a Deus e a seu Filho por Ele gerado e ao Espírito Profético, e que nos ensinou, bem como aos Anjos, que lhe são obedientes e semelhantes".

Taciano, nascido no "país dos assírios", convertido por são Justino, escreveu o Diatessaron, uma fusão dos quatros evangelhos. Segundo Taciano, o primogênito dos anjos rebelou-se. Cedeu a seu orgulho e quis ser igual a Deus. Por isso foi transformado em demônio, juntamente com os que com ele se solidarizaram. Foram todos precipitados no inferno eterno. Acreditava na espiritualidade dos Anjos e dela tirou a conclusão quanto à eternidade do castigo dos demônios. Taciano refutou a opinião dos que admitiam que os homens condenados se transformariam em demônios.

Santo Irineu de Lião (130-208), foi discípulo de São Policarpo, que por sua vez foi discípulo de São João evangelista; é considerado o maior defensor da Igreja contra o gnosticismo, e quem pela primeira vez apresentou uma sólida doutrina, na qual tem lugar a existência dos Anjos e dos demônios. Antes de Irineu, são encontradas apenas poucas e valiosas referências aos anjos nos escritos cristãos. "Deus é criador do céu e da terra e de todo o mundo, e formador dos Anjos e dos homens. Só Ele é Pai, Deus criador, formador e moldador. Ele criou e formou ambas as coisas, tudo: o visível e o invisível, neste mundo e no céu."

"Por conseguinte, criou também os seres espirituais. O universo não foi criado nem formado pelos anjos; Deus não necessitava deles para esse fim".

"Os Anjos são espirituais, não possuem carne". Santo Irineu narra a queda dos anjos maus e como foram castigados. "O pecado que cometeram teria sido a inveja dos homens, uma vez que Adão colocado como senhor da Terra, seria também senhor dos anjos que estavam sobre a Terra." (cf. Sb 2, 24) Santo Irineu evidencia a posição singular ocupada pelo Verbo, Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, de quem tudo o mais depende no existir, isto é, o céu, os Anjos e a terra. Ele acabou com a imagem gnóstica do mundo, como sendo uma série de 'eones celestes' que emanam do 'princípio primeiro'."

São Clemente de Alexandria (150-213), nasceu em Atenas. Converteu-se ao cristianismo, cuja doutrina pregou com grande zelo, afirmou: "Aquele que crê, reza com os Anjos, mesmo que reze sozinho. Porque, com ele se reúne o coro dos santos que ficam em sua companhia".

Orígenes (183-254), apresentou inúmeras contribuições para a devoção aos anjos, embora sua doutrina em outros pontos tenha merecido reparos e até condenações por parte da Igreja.

"Conforme o grau de iluminação que receberam, os Anjos possuem funções diversas na administração do universo. As dominações, virtudes e potestades são destinadas a dirigir os outros anjos. Os anjos têm portanto uma certa subordinação entre si".

"Onde quer que exista uma Igreja dos homens, ali haverá também uma Igreja de anjos".

"O culto que se deve aos anjos é de veneração e não de adoração".

"Cada diocese é dirigida por dois bispos, um secular e um anjo".

"Cada assembléia eclesiástica compreende também uma parte celestial formada por Anjos, os mensageiros de Deus, que habitam entre nós, que rezam com os homens e levam suas orações ao céu. Apesar disso, os Anjos nunca abandonam a presença de Deus. Sua amizade conosco, é um sinal de nosso bom relacionamento com Deus".

"Os anjos são diferentes uns dos outros".

"Estão em toda a parte. Vigiam e governam a natureza".

"Se somos merecedores da presença dos Anjos bons, estes nos assistem e nos inspiram bons pensamentos e se comunicam com nossa alma durante o sono".

"Um homem iluminado com a luz do conhecimento sobrenatural, percebe a presença dos anjos; vê os anjos e a seu chefe Miguel. O mesmo com relação aos arcanjos, tronos, dominações, potestades e as virtudes celestes".

"Os demônios são Anjos que pecaram por orgulho. Pecaram voluntariamente e agora são habitantes do inferno."

"Satanás, príncipe dos demônios, e que era a coroa da beleza do Paraíso, a estrela da manhã, é agora o príncipe deste mundo, cuja liberdade Deus respeita. Não pode exercer nenhum poder sobre aqueles que o rechacem."

O universo para Orígenes, é assediado por demônios. Afirmava que apesar dos cristãos repudiarem o demônio ao serem batizados, são todavia por ele tentados e podem em conseqüência vir a cair no pecado. Essa doutrina é a que a Igreja sempre admitiu, quando caracterizou uma das formas pelas quais o homem pode ser induzido ao pecado.

"Não é apenas o Sumo Sacerdote que ora com aqueles cuja oração é sincera, mas, há também os anjos que rejubilam no céu. É de crer-se que lá (local de oração, onde os fiéis se reúnem), as potências angélicas participam das assembléias dos fiéis. É de fato lá, que desce a força do Senhor Nosso Salvador e se reúnem os espíritos dos santos... Se temos o direito de nos referirmos aos Anjos graças ao adágio: 'O anjo de lahweh, acampa entre seus fiéis e os assiste.' (Ps. 34,8), e se Jacob ao mencionar o 'anjo que o salvou de todo o mal' (Gen. 48,16) referia-se não apenas a si próprio, mas a todas as pessoas devotas, é então verdade que quando várias pessoas se encontram reunidas para louvar a Cristo, o anjo encarregado de proteger e conduzir cada um, rodeia aqueles que crêem em Deus.

Assim, quando pessoas santas se acham reunidas, acham-se em presença uma da outra, duas igrejas: a dos homens e a dos anjos. Se Rafael, afirma a Tobias que havia oferecido sua súplica diante da Glória do Senhor (Tobias 12,12), bem como as de Sara que se tornaria esposa do jovem Tobias o que não se passará, quando um número grande se reúne num mesmo local animado da mesma intenção e formando um só corpo com Cristo?" (Orígenes - De oratione).

"Junto a cada homem existe sempre um anjo do Senhor que o ilumina, o guarda e o protege de todo o mal", (Comentários a Mt 18, 10). São Gregório, o taumaturgo (213-270), discípulo de Orígenes, foi bispo de Neocesaréia, no Ponto. Fala com grande amor dos "Santos anjos de Deus, que desde minha juventude me tem protegido". (Oratio a Originem IV) Entre os eremitas e ascetas que viviam nos desertos, havia grande devoção aos Anjos, aos quais recorriam para afugentar as tentações dos demônios.

Eusébio de Cesaréla (265-340), afirma: "anjos, arcanjos, espíritos, forças divinas, exércitos celestes, virtudes, tronos, dominações, são orientados pelo Espírito Santo. Eles cantam o 'Laudate Dominum de coelis' para exaltação da glória de Deus. A fé reconhece estas potestades divinas para o serviço e a liturgia de Deus todo poderoso". (Praeparatio Evangélica VII)

Santo Atanásio (295-373), Bispo de Alexandria, doutor da Igreja, foi o principal defensor da fé ensinada no Concílio de Nicéia, contra os Arianos. Afirmava que: "Os anjos vêem a face do Pai por uma participação no logos, por uma graça do Espírito Santo". Acreditava que cada Ordem de anjos é formada de Anjos de igual categoria (Oratio II contra Arianos XLIX) e diz ainda que "as hierarquias celestes encerram muitos mistérios" (carta a Serapion 1,13). "Os anjos foram criados antes do Cosmos" (Carta a Serapion 111,4).

São Basílio Magno (330-369), doutor da Igreja, foi monge e mais tarde bispo de Cesaréia; refere-se aos Anjos da guarda no tratado De Spiritu Sancto, XIII 29, que dedicou a Anfilóquio, bispo de Icônio.

Santo Ambrósio (340-395) doutor da Igreja, que batizou Santo Agostinho em Milão, fala muitas vezes do anjo da Guarda (Expos. Ps. 38,32), e faz outras afirmações: "No batismo, o sacerdote atua na missão de um Anjo" (De Mysteriis 11,6). "Deus não tinha necessidade dos Anjos, porém o homem deles tem necessidade. Enquanto os homens foram criados à imagem de Deus, os Anjos o foram segundo o ministério de Deus" (Expos. Ps. 108). "Todos aqueles que seguem a Cristo têm acesso aos Anjos" (De sacramentis 1,6).

Santo Ambrósio recomendava a devoção popular aos Anjos (De viduitate, IX, 15), "Os Anjos foram criados antes do mundo material" (ln Exodum XXVII, 185).

Afirmava santo Ambrósio, acompanhando são Cirilo e são Gregório de Nazianzo, que, no batismo, a renúncia a Satanás, se realiza na presença dos Anjos: "Isto não deve ser ignorado nem negado: é um Anjo quem anuncia o reinado de Deus e a vida eterna". "Sozinha (a Virgem Maria) no interior da casa, apenas um Anjo haveria de encontrar aquela que homem algum veria; só, sem companhia; só, sem testemunha, afim de não se macular no trato com os demais; é um anjo quem a saúda. Aprendei ó virgens a evitar a dissipação das palavras; Maria temia até mesmo a saudação de um Anjo." (Comentário ao Evangelho de Lucas)

São Jerônimo (340-420), doutor da Igreja, combateu a idéia de que as almas na vida futura se transformam em Anjos e que os demônios se converterão em anjos. Afirmou que: "Os Anjos cuidam e velam até pelos pormenores do cosmos (Comm. in Eccles. 10,20) e de forma especial, pelos homens (Comm. in 16.6,14)".

São João Crisóstomo (= boca de ouro) (349-407), doutor da Igreja, Patriarca de Constantinopla, escreveu: "Os serafins louvam a Trindade. Rodeiam o altar celestial do qual a Igreja é modelo neste mundo". Acreditava que os Anjos não teriam condições de desvendar o mistério da Criação. "Que espírito pode explicar este favor sobrenatural e majestoso privilégio que foi conferido à nossa natureza? Que Anjo, que Arcanjo seria capaz de saber? Ninguém no Céu nem na terra". (Homília XI in Joannem) "Os Anjos não conheciam o mistério que estava oculto em Deus, ao longo dos séculos, até que foi revelado pela Igreja" (Homília VII em Éfeso). "O ar que nos rodeia, está cheio de Anjos".

Segundo são João Crisóstomo, é muito natural que os Anjos devam ajudar os homens. "Na capital celeste, Jerusalém, nossa mãe comum, estão os serafins, querubins, muitos milhares de arcanjos e inumeráveis anjos" (Homília in Seraphin, 1). "Saber que o lugar dos Serafins é junto a Deus é mais importante que o conhecimento de sua natureza" (Hom. in Seraphin 2). "Que há de melhor, diga-me? Falar do vizinho e da vida alheia, bisbilhotar tudo, ou se entregar com os Anjos e com as coisas feitas para nos enriquecer? (Homilia in Jo. homi. 18). Na chamada missa de são João Crisóstomo, rito oriental, os Anjos são citados 16 vezes.

São Cirilo de Jerusalém (315-386), doutor da Igreja, falando da grandeza do sacramento do batismo, declara: "Todos os coros celestiais tomam parte em cada batismo e cantam sobre o novo cristão". (Protocatechesis) "Não podemos sondar a natureza dos Querubins; nem sequer conhecemos a diferença entre tronos, dominações, virtudes, potestades, poderes e anjos; só sabemos que a diferença implica em graus diversos do conhecimento angélico de Deus". Achava são Cirilo que só Deus era puro espírito mas que "os Anjos podem entretanto, chamar-se spiritus, se a palavra designa algo que não é formada de matéria bruta".

São Cirilo de Alexandria (380-444), doutor da Igreja que se tornou célebre por sua luta contra Nestório, no Concilio de Éfeso (431), afirmou sobre os anjos: "Anjos e Arcanjos servem a Deus e o adoram em hinos sempiternos". (Contestação ao imperador Juliano III) "Os sacerdotes e os cantores ocupam durante a celebração da Eucaristia o posto dos Anjos" (Cat. XIII. 26; pg. 33, 804 5 - Ed. Reisch - Rupp II - 84-86). "Os Anjos foram criados também à imagem de Deus, inclusive, incomparavelmente mais do que nós, em razão de sua espiritualidade superior à nossa." (Resposta a Tiberium Sociosqua 14)

Santo Agostinho (354-430), doutor da Igreja, também estudou a questão dos anjos e rejeitou definitivamente idéias fantasiosas sobre eles; como as de que o pecado dos anjos castigados em demônios teria sido pecado sexual. No Livro IV do Genesi ad litteram, fez muitas considerações sobre os Anjos.

Focalizou sobretudo o tema do conhecimento angélico. Para ele, os anjos fiéis a Deus desde a sua criação, conheceram o mistério da Redenção e aderiram ao Verbo Eterno, Criador, conhecendo o Verbo e se conhecendo Nele, bem como conhecendo todas as coisas. Eis algumas afirmações de Santo Agostinho em relação aos Anjos: "Encontramos nas escrituras, que os Anjos apareceram a muitas pessoas e achamos portanto, que não é racional duvidar de sua existência". (ln psal. 103) "Aos Anjos não se oferece sacrifício; somente os veneramos com amor". (De Civitate Dei X,7) "Aos Anjos celestes, que possuem a Deus na humildade e o servem na bem-aventurança, está submetida toda a natureza corporal e toda a vida irracional" (Livro VIII cap. 24, n. 45). "Os demônios foram Anjos castigados por sua soberba e não por inveja, pois esta é subordinada ao orgulho e não pode ser considerada principal". (De Gen. ad litt. XI 145) "No céu os homens terão um corpo angélico de luz e éter." (De div. quaest. 83) "Juntamente com os Anjos, formamos uma só e mesma Cidade de Deus". (De Civitate Dei, X, 7)

Com Santo Agostinho a doutrina sobre os Anjos atingiu seu ponto culminante. Nos séculos seguintes houve estudos sobre os Anjos, mas eram quase sempre repetições de teses e afirmações dos Padres da Igreja, e somente na Idade Média, retomando as doutrinas de santo Agostinho e de Pseudo-Dionisio, foi que reacendeu o interesse pela teologia angélica. São Gregório Nazianzeno (280-374), doutor da Igreja, nas "Orationes Theologicae" afirma: "Os anjos contemplam a face do Pai, mas a íntima profundidade do mistério lhes está oculto. Os anjos e arcanjos vêem apenas a glória de Deus, não sua própria natureza, que está oculta por trás dos querubins."

Quando são Gregório deixou Constantinopla, despediu-se com tristeza dos "Anjos custódios desta Igreja, de minha presença e de minha viagem" (Supremum vale 27). "Satanás se fez excessivamente soberbo por seu elevado conhecimento de Deus, dai se originando seu pecado" (Sermones theologici, 11,12).

São Dionisio o Areopagita, mártir do século I, era membro do Areópago de Atenas. Foi convertido por São Paulo, e foi o primeiro bispo de Atenas. Foram-lhe atribuídas várias obras de teologia mística, especialmente o Livro sobre a hierarquia celeste, a Influência da filosofia neoplatônica e a Ascensão mística das almas a Deus. Estudos exegéticos entretanto, levaram à conclusão que os livros atribuídos a Dionísio foram escritos no começo do século VI, daí serem conhecidos como de autoria de um Pseudo Dionísio. Esta obra, mesmo sem a certeza absoluta sobre o seu verdadeiro autor, exerceu uma grande influência nos estudos teológicos sobre os espíritos celestes e na devoção aos mesmos.

No livro, A hierarquia Celeste, Dionisio ou pseudo-Dionísio, supõe que o mundo supracelestial da Santíssima Trindade se manifesta pelo mundo criado por irradiação da Santíssima Trindade. Essa irradiação ilumina em primeiro lugar as hierarquias celestes, e em seguida, a hierarquia da Igreja aqui na terra. Os seres angélicos ocupam assim, uma posição intermediária entre a da teologia propriamente dita, que se refere a vida de Deus, e a Igreja, como realização da teologia na terra. Os seres espirituais formam como que uma hierarquia, um poder sacerdotal, traduzido pela mediação e comunicação do poder divino. O universo angélico constitui a imitação da ordem íntima da vida de Deus. Essa imitação se realiza pelo conhecimento de Deus, por uma iluminação concedida por Deus, e por uma ação pela qual cada categoria da hierarquia celeste se relaciona com as outras. Deve-se a ele a concepção trinitária sobre a hierarquia angélica; isto é, a divisão da hierarquia celeste em três ordens ou hierarquias, composta cada uma de três coros:

1ª ordem: Três coros: serafins; querubins; tronos.

2ª ordem: Dominações ou soberanias; virtudes; potestades.

3ª Ordem: Principados ou autoridades; arcanjos; anjos; são João

Cassiano (350-432), que foi monge e diácono de são João Crisóstomo, depois de haver passado dez anos nos desertos do Egito, fixou-se em Marselha. Nos livros VII e VIII de sua Coliationes (Conferências) analisou a vida dos anjos e dos demônios, afirmando que os demônios não podem arrepender-se; que são cruéis, e que Lúcifer caiu quando se recusou a reconhecer que sua própria beleza era obra do Criador. Uma terça parte dos Anjos o teria acompanhado. Ensinou que a lenda do casamento de Anjos e mulheres é totalmente falsa e completamente impossível e absurda, e que cada homem tem a seu lado um Anjo bom e também um mau (demônio) que o tenta.

São Leão Magno (400-461), Papa e doutor da Igreja, aquele que conseguiu que Átila, rei dos Hunos deixasse a Itália (452) e que os Vândalos sob Genserico respeitassem os habitantes de Roma (455), em suas Cartas e Sermões fala dos anjos e do demônio, a quem Jesus venceu, como homem, para libertar a humanidade de suas garras. Veja este belo texto de S. Leão sobre a Redenção:

"Mas, o fato, caríssimos, de Cristo ter escolhido nascer de uma virgem não parece ditado por uma razão muito profunda? Isto é, que o diabo ignorasse que a salvação tinha nascido para o gênero humano, e, escapando-lhe que a concepção era devida ao Espírito, acreditasse que não tinha nascido diferente dos outros aquele que ele não via diferente dos outros. Com efeito, aquele no qual ele constatou uma natureza idêntica à de todos tinha, pensava ele, uma origem semelhante à de todos; ele não compreendeu que estava livre dos laços do pecado aquele que ele não viu isento das fraquezas da mortalidade. Porque Deus, que, em sua justiça e em sua misericórdia, dispunha de muitos meios para elevar o gênero humano, preferiu escolher para isso a via que lhe permitisse destruir a obra do diabo, apelando não a uma intervenção de poder, mas a uma razão de equidade.

Porque, não sem fundamento, o antigo inimigo, em seu orgulho, reivindicava direitos de tirano sobre todos os homens e, não sem razão, oprimia sob seu domínio aqueles que ele tinha prendido ao serviço de sua vontade, depois que eles, por si mesmos, tinham desobedecido aos mandamentos de Deus. Por isso não era de acordo com as regras da justiça que ele cessasse de ter o gênero humano como escravo, como o tinha desde a origem, a não ser que fosse vencido por meio do que ele mesmo tinha reduzido à escravidão. Para esse fim, Cristo foi concebido de uma virgem, sem intervenção de homem... Ele [o demônio] não pensou que o nascimento de uma criança gerada para a salvação do gênero humano não lhe estava sujeito como o estava o de todos os recém-nascidos. Com efeito, ele o viu vagindo e chorando, viu-o envolto em panos, submetido à circuncisão e resgatado pela oferenda do sacrifício legal.

Mais tarde, reconheceu os progressos normais da infância, e até na idade adulta nenhuma dúvida lhe aflorou sobre o desenvolvimento conforme a natureza. Durante este tempo ele lhe infligiu ultrajes, multiplicou injúrias, usou de maledicências, calúnias, blasfêmias, insultos, enfim, derramou sobre ele toda a violência do seu furor e o pôs à prova de todos os modos possíveis; sabendo com qual veneno tinha infectado a natureza humana, ele jamais pôde crer que fosse isento da falta inicial aquele que, por tantos indícios, ele reconhecia por um mortal. Ladrão atrevido e credor ávaro, ele se obstinou em levantar-se contra aquele que não lhe devia nada, mas exigindo para todos a execução de um julgamento geral pronunciado contra uma origem manchada pela falta, ultrapassou os termos da sentença sobre a qual se apoiava, porque reclamou o castigo da injustiça contra aquele no qual não encontrou falta.

Tornando-se, por isso, caducos os termos malignamente inspirados na convenção mortal, e, por causa de uma petição injusta, que ultrapassava os limites, a dívida toda foi reduzida a nada. O forte é atado com os seus próprios laços, e todo o estratagema do inimigo cai sobre a sua cabeça. Uma vez amarrado o príncipe deste mundo, o objeto de suas capturas lhe foi arrancado. Nossa natureza, lavada de suas antigas manchas, recupera sua dignidade, a morte é destruída pela morte, o nascimento é renovado pelo nascimento, porque, ao mesmo tempo, o resgate suprime nossa escravidão, a regeneração muda nossa origem e a fé justifica o pecador." (Sermão XXII , segundo Sermão do Natal)

São Gregório Magno (540-604), Papa e doutor da Igreja, foi monge, e como Papa assinou uma trégua com os bárbaros Lombardos; influenciou a vida medieval com seus escritos. Escreveu muitas Cartas e Homilias e a obra Moralia in Job, em 35 livros, na qual fez uma notável análise da luta humana contra o demônio, partindo de considerações sobre o Livro de Jó. São afirmados nessa grande obra: "Os Anjos são incomparavelmente mais íntimos de Deus que os homens". "São espíritos e somente espíritos, enquanto o homem é espírito e carne" (Moralium 1. IV, c III, n

 

8). "Contemplam a Deus face a face". "Comparados com nossos corpos materiais, são espíritos, mas comparados com Deus, que é espírito ilimitado, são de certa forma materiais."

Satanás foi o primeiro e mais poderoso Anjo. Corresponde ao "Behemoth" que aparece no Livro de Jó." "Depois de haver caído por sua soberba, Satanás ainda conserva sua natureza angélica, porém perdeu sua felicidade, e vagueia pelo mundo tentando os homens."

Santo Isidoro de Sevilha (560-636), Bispo e doutor da Igreja, Arcebispo de Sevilha; São Gregório de Tours, bispo, historiador (538-594) e grande defensor da Igreja; São Beda o Venerável (Doutor da Igreja 670-735), também ensinaram sobre os anjos. São João Damasceno (650-749), sacerdote e doutor da Igreja, de Damasco, na Síria, considerado como o último dos "Padres da Igreja", foi o principal defensor do culto das imagens. Sua doutrina exposta em Sumas é até hoje a teologia oficial das igrejas orientais ortodoxas.

No capítulo 3 da obra Pegé gnóseos (Fonte da ciência), afirma: "Os Anjos foram criados do nada. São incorpóreos quando comparados com os homens, porém não possuem o mesmo grau de espiritualidade de Deus (puro espírito). Sua exata natureza só pode ser conhecida por Deus". "Estão em um lugar determinado, embora não no espaço: como não são como os homens tridimensionais, a bilocação é para eles um fenômeno de ordem espiritual." "Os Anjos estão, onde atuam, isto é, onde exercem seu poder." "São imortais pela graça. Contemplam a Deus pela iluminação própria que Deus lhes concede."

São João Damasceno aceita que haja distinção de graus de iluminação entre eles, e aceita também os nove coros de Anjos. A obra dos anjos no céu consiste em louvar a Deus; na terra servem o Senhor e revelam seus mistérios. "O conhecimento do futuro lhes advém unicamente da revelação de Deus." "Os Anjos foram criados antes dos homens e antes mesmo do cosmos." "O demônio escolheu livremente o mal que era uma espécie de obscuridade no âmbito do inteligível, e negou dessa maneira sua própria natureza. Uma multidão de anjos que estavam sob seu comando o seguiu na revolta.

Esta queda representou para os demônios o que a morte representa para os homens. Já não podem arrepender-se, como não o podem fazer os homens depois da morte. Os demônios não possuem maior poder sobre os homens e as coisas, que aquele que Deus permite. "Não possuem nenhum conhecimento do futuro."

São João Damasceno, e outros padres gregos, segundo a tese da dormição de Nossa Senhora e a sua imediata Assunção ao céu, afirmou: "Não apenas anjos e arcanjos, potestades e virtudes, mas também os tronos, querubins e serafins, os supremos das hierarquias angélicas, rodeiam o corpo de Maria e cheios de alegria cantam seus louvores" (Homilia I in Dormitionem) "Maria é mais santa que os Anjos, mais bela que os Arcanjos, mais venerável que os tronos, mais poderosa que as Dominações, mais pura que os Poderes, mais radiosa que os querubins, mais digna de respeito que os Serafins". (Na Homília in Jaudem Deiparae)

São Bernardo "doutor da Igreja (1090-1150), em muitos de seus 340 sermões enaltece o culto e a devoção aos anjos e descreve a contemplação dos mesmos à majestade divina e as homenagens que prestam à glória de Maria. (PL 182, 863-872. 878-884; Serm. 1-2 para a festa de São Miguel: PL 183, 447-454: Serm. sobre a Assunção de Maria). É importante saber que o Sínodo Permanente de Constantinopla, no ano 543, cujas conclusões foram sancionadas pelo Papa Virgílio, condenou a idéia de que o céu, o sol, a lua, as estrelas e as nuvens fossem forças materiais animadas, isto é, uma espécie de Anjos interiores e a opinião de que os demônios tenham sido castigados apenas por um determinado tempo e que no final, se reconciliariam com Deus.

prof. Felipe de Aquino - Os anjos