A LENDA DOS SETE PECADOS CAPITAIS

Sofia, como fazia todos os dias, voltava para casa após um dia estressante de trabalho, mente divagando entre vários pensamentos... Uma conversa que ouvira entrecortada no escritório não saia de sua mente: dois colegas de serviço, um católico e um evangélico, que viviam em pé de guerra, discutiam sobre os pecados capitais: gula, preguiça, luxuria… luxuria… Bem, eram sete, mas ela no momento se lembrava apenas desses. Decidiu esquecer esse assunto, já estava quase em casa, começou a procurar suas chaves. Na porta de casa Sofia só pensava em tomar um banho e cair no sofá para descansar, mas, quando abriu a porta, ela se deparou com varias pessoas estranhas em sua casa. Sofia se assustou, mas um homem muito musculoso logo se adiantou a falar: “Não temais Sofia, somos tão velhos que o mundo e estamos aqui, eu e meus amigos, para que você escolha um de nós para sair definitivamente de sua vida. Eu sou a preguiça…  Sofia, não esperando seu interlocutor terminar indagou prontamente: “Preguiça? Mas você não parece preguiçoso… Tem o corpo de quem malha e se esforça diariamente.”

“Justamente, sou forte como um touro, e por isso mesmo peso e muito nos ombros de quem sucumbe a esse pecado.”

Nesse momento, uma velha decrépita, encurvada, enrugada e de aspecto péssimo se aproximou e começou a falar: “Eu sou a luxúria. Destruo famílias, perverto homens, mulheres e crianças. Trago junto comigo flagelos, doenças e a morte. - E prevendo um pensamento que corria a mente de Sofia, a luxuria se transformou em uma bela e jovem mulher de formas esculturais e disse: “Não há feiúra alguma para quem sucumbe à luxúria.”

Imediatamente após a luxúria acabar de falar, um mendigo com roupas rasgadas, sujas e exalando mau cheiro levantou-se do chão e disse: “Me chamam de ganância. Muitos caem em desgraça, matam e abandonam seus entes queridos por minha causa. Tenho essa aparência, pois quanto mais eu tenho, mais eu quero ter, quando mais rico sou, mais cobiço a riqueza.”

Antes que mais algum deles se pronunciasse, levado pela curiosidade Sofia perguntou a uma linda mulher, de corpo escultural que estava sentada em um sofá: “Quem seria você?”

“Eu sou a gula. Muitos me imaginam gorda e feia como uma baleia, mas se fosse assim, seria muito fácil resistir a esse pecado. Quem sofre do meu mal nem o percebe.”

Um velhinho sentado em uma poltrona lentamente se levantou e com voz calma e doce se apresentou: “Eu sou a ira. Alguns também me chamam de cólera, outros ainda de raiva. Tenho muitos nomes, pois sou o mais comum entre as pessoas. Sou tão velho que poderia ser considerado o avô da raça humana. Cidades e reinos inteiros foram destruídos por minha causa. Mas na maioria das vezes tenho esse aspecto lento e tranqüilo, agindo guardado dentro de você, lhe causando ulceras, cânceres e outras doenças mais…”

Quando a Ira terminou de falar, chegou a vez de uma bela princesa, vestida de forma esplendorosa, coberta de jóias, ouro, pedras preciosas e uma bela coroa: “Eu sou a inveja, e ainda não tenho tudo o que quero. Habito tanto entre os ricos e entre os pobres de forma igual, pois surjo não do que se tem, mas sim do que não se tem, e pelo que é dos outros. Sou irmã da ganância, e nós duas somos madrinhas da tristeza…”

Mas a Inveja não conseguiu terminar de falar, pois foi interrompida por um lindo menino que andara brincando pelo apartamento enquanto os outros falavam: “Venha, brinque comigo, sou o orgulho. Só que não se engane com minha aparência, não sou puro e inocente. Posso ser tão destrutivo como os outros pecados…”

Sofia estava atônita. No começo achou que aquilo poderia ser alguma brincadeira, ou até uma alucinação. Mas não, eles todos continuavam ali, esperando uma escolha dela. Poderia escolher qualquer um deles para sair de sua vida. Refletiu, pensou, ponderou todo seu conhecimento lógico para tentar descobrir qual seria a melhor escolha, mas finalmente resolveu ceder ao seu sexo sentido: “Eu escolho o orgulho para que saia da minha vida.”

O orgulho olhou pra ela não mais com o olhar de criança, mas sim com raiva e ódio. Levantou-se do chão e rumou-se para a porta, sendo imediatamente seguido por seus seis amigos. Esperou que todos saíssem, virou-se para Sofia e disse, agora com uma voz poderosa e imponente: “Fizeste a escolha certa ao tirar o orgulho de sua vida: Onde não há orgulho, não habita a preguiça, pois os preguiçosos são aqueles que se orgulham de nada fazer para viver, não percebendo que simplesmente perdem sua vida nada fazendo.”

Nesse momento Sofia estava surpresa, mas o orgulho continuou: “Sem orgulho não há a luxuria, pois os luxuriosos se orgulham de seus corpos, e se consideram merecedores de seus atos. Não há também a ganância, pois quem se entrega a esse pecado tem orgulho das poucas migalhas que juntam na terra,não percebendo que são meros instrumentos do próprio dinheiro e posses.”

O orgulho tomou um pequeno fôlego e continuou: “Não existe também a gula na vida dos que não tem orgulho, pois os gulosos se orgulham de sua condição, de suas mentiras para esconder e negar sua condição, tanto pra si, quanto para os outros.”

“Não há a ira - continuou o orgulho - pois os irados são aqueles que se orgulham de serem perfeitos e não toleram a imperfeição alheia, e por fim não há a inveja, pois os invejosos são aqueles que tem seu orgulho ferido por toda a felicidade, sucesso dos outros…”

E quando terminou o orgulho saiu porta afora. Sofia saiu correndo atrás, pois tinha algo a perguntar, mas quando olhou para fora não havia mais nada ali, e quando se deu conta Sofia estava com a mão na maçaneta, da mesma forma de quando entrou, como se ainda não tivesse entrado em casa… (Alan Victor)