Lavar  os  pés

Na África, os tuaregues são nômades famosos por sua perspicácia, raciocínios elaborados e hospitalidade sagrada. Trabalhei vários anos no deserto do Saara, onde sempre visitava o acampamento de um chefe da nação tuaregue. Eu chegava exausto, ressequido, coberto de pó e areia. Os tuaregues nunca iam me receber. Pelo contrário, escondiam-se discretamente em suas tendas. Um desavisado se julgaria persona non grata e prosseguiria seu caminho. Mas o significado desse eclipse dos tuaregues está no respeito do outro.

Ao meu encontro vinha sempre, e unicamente, um escravo buzú. Esse mestiço oferecia-me sorrindo um assento na sombra e uma cabaça de água fresca, ligeiramente incorporada com cereais. Como água onde lavou-se arroz. Refresca e alimenta um pouco. Em seguida, desatava meus sapatos e oferecia-me uma bacia com água para lavar os pés (Gn. 18,4). Com os pés lavados, refrescado, depois de lavar o rosto e as mãos, eu cochilava na sombra por uns minutos.

Sempre acordava com sonoridades crescentes. O chefe tuaregue surgia à distância, devidamente paramentado, saudando-me com sua comitiva de nobres e servidores. Sempre parecia surpreso, quase esbaforido e dirigia-se a mim como se eu tivesse acabado de chegar. Estávamos prontos para o encontro. Recuperado da viagem e do cansaço, eu também o saudava com entusiasmo, sob os olhares ternos, satisfeitos e quase profissionais de seu servo buzú.

Muitos tentam falar, tocar em Deus e no deserto do mundo ficam surpresos quando Ele os acaricia. As vezes, numa visão tão dura de nós e da humanidade, recusamos o toque divino. Como Pedro, não queremos que Deus nos lave os pés. Não aceitamos o reconhecimento de nossa dimensão divina. Aceitar nossa participação na divindade, consagrada nas águas do batismo, é um poderoso crescimento 42. Como ensina S. João da Cruz: “o toque delicado do Verbo Divino, pela delicadeza do seu ser divino, penetra subtilmente a substância da nossa alma, e tocando-a toda, delicadamente, Nele a absorve inteira, em divinos gêneros de deleites e suavidades...” 43

Buscamos o Divino, queremos abraçá-lo e sequer nos tocamos. O vemos como algo externo a nós mesmos. Um pouco como os hebreus no tempo de Moisés: Deus é algo externo ao coração humano. Mostra-se distante num arbusto ardente ou em sinais cosmológicos. Quanta gente ainda hoje busca o divino em imagens, montanhas, astros, cristais, plantas ou locais exóticos? Intocável e inatingível são quase sinônimos. Não somos habitados pelo divino? Nosso corpo não é morada desse Deus? No Antigo Testamento, a descoberta de Deus habitando no coração em cada um, parece começar com o profeta Elias. Em Elias, Israel descobre Deus falando no mais profundo interior de cada um. Como uma brisa suave e sutil (I Re 19,9-14), Deus fala ao homem a partir dele mesmo, no silêncio. Deus se esconde em cada um.

Alguns sentem essa voz como um eco. Deus vibraria suas cordas, sem conferir-lhes dimensões divinas. Ao fazer-se homem e habitar entre nós, Deus divinizou a humanidade. Um dos mais belos exemplos dessa perspectiva está no evocado gesto do lava-pés (Jo 13,1-17). Muito pode ser dito sobre o lava-pés. Tradicionalmente acentua-se no episódio a humildade de Jesus, servidor humilde e escravo. Um dos conteúdos mais absolutos desse episódio está no reconhecimento gestual, por Cristo, da dimensão divina e sacral dos humanos. Jesus reconhece a divindade em cada um. Lava seus pés. Toca-os e acaricia-os, com água e carinho, abrindo o caminho para a instituição da eucaristia, onde o Mistério os alimentará. As mãos úmidas de Jesus preparam os discípulos para um outro conhecer.

O gesto do Cristo, no lava-pés, é talvez o mais belo e expressivo de toda a Bíblia sobre o caráter divino do corpo, da criatura e da pessoa, imagem e semelhança de Deus. E o desafio está, pela via da Graça, em descobrir essa sacralidade do e no nosso corpo. Como ouvir em nosso interior as vibrações do Espírito? Como reconhecer nos toques e carinhos dos outros, os sinais do amor do Outro? Pela oração e pela ação pode-se conhecer e aceitar a dimensão divina. Ela subtilmente emerge e penetra em todo o nosso ser, como as carícias da água. Ela pode crescer, infinitamente, em cada um, no deserto deste mundo. Basta dizer como Pedro convertido: lava-me, acaricia-me, dos pés à cabeça. No sentido da ascensão. E viver atentos. A tudo e a todos. O toque de Deus chega, as vezes, por uma pessoa inesperada.

Os ritos de lavagem dos pés, comuns nas grandes tradições religiosas, também evocam as repetidas tentativas de vivenciar esses sinais, exercer uma purificação terapêutica e abrir um acolhimento interior. Lava-se o passado e inaugura-se a presença no seio de um novo acolhimento. Diante dos mensageiros celestes, a primeira disposição de Abrahão será a de ordenar: “Que se traga um pouco d’água para lavar-vos os pés” (Gn 18,3). A mesma atitude de hospitalidade assume Ló, sentado à porta de Sodoma, quando chegam os mensageiros celestes. “.. lavai vossos pés e d manhã cedinho continuareis o vosso caminho” (Gn 19,2). Nas abluções, tão praticadas pela comunidade de Qunrâm, busca-se lavar, simbolicamente, as manchas deixadas pelos caminhos errados, pela rebeldia e pelo pecado 44. Principalmente para aproximar-se do sagrado. “...quando se aproximarem do altar para oficiar (...) lavarão as mãos e os pés para não morrerem. Isto será para eles uma lei perene, para ele e sua descendência, de geração em geração” (Ex 30, 20-21). Iindo lavar seus pés no rio Tigre, o rapaz enviado por Tobit e acompanhado de um anjo e de um cão, vai obter milagrosamente um peixe e, com ele, a cura da cegueira (Tb 6,1-9).

Os pés nos assentam no chão, permitem a postura vertical, a marcha e são um dos mais importantes lugares simbólicos do corpo humano. Objeto de tantos mitos, os pés são o lugar de contato entre o homem e a terra, ponto de partida para a sua verticalização, elevação e ascensão. Os pés representam a força da alma, o suporte da postura ereta, a base de nossa estatura, o domínio do ter. No texto bíblico, por sinédoque 45, os pés designam a pessoa ou o seu caráter. Os pés da humanidade estão feridos e são causa da perda de suas energias ascensionais e dificultam nosso geocentrismo. Os humanos são coxos de nascença, mas não se dão conta. Mas esse ferimento na base corporal é também a possibilidade da consciência do ser. O homem não foi chamado para viver curvado, escravizado, mas de pé, instaurado em sua verticalidade. Nenhum corpo estranho deve separar os pés do Homem da terra-mãe. Essa atitude santifica o mundo 46.

Na passagem da sarça ardente, no livro do Êxodo. Deus ordena a Moisés: - Não te aproximes daqui. Tira tuas sandálias porque o lugar onde você se mantém de pé, - onde você não se dobra ou se anula - é terra santa (Ex 5,3) 47. A terra santa é a terra dos homens de pé. Não dos homens esmagados pelo divino, aqueles cujo reflexo imediato é de ver nesse gesto ordenado a Moisés “um sinal de respeito” ou de “humilhação”. Deus não diz o lugar onde Eu me mantenho, mas o lugar onde Você se mantém de pé é sagrado. Retira as sandálias, pois a terra – adamá - sobre a qual Você fica de pé perto de Mim, mas não demasiadamente, é um lugar santo. Quem vive uma experiência pessoal de Deus, os homens e mulheres de Deus são constantemente inflamados pelo fogo da Sua presença sem serem consumidos.

Na entrada das mesquitas, de determinados mosteiros orientais e mesmo em alguns mosteiros católicos, retirar os sapatos para entrar é uma exigência. Nesse ato de despojamento, onde retiramos o fardo dos sapatos, os pés tocando o solo, o piso, o tapete... nos falam de uma outra experiência (Js 5,13-15), capaz de derrubar muralhas. De uma intimidade, cuja base está nos pés. A palavra sandália, em hebraico naal, significa fechar, ferrolhar, apertar - como os pés num sapato. Por isso, em hebraico, retirar as sandálias significa retirar o que aperta, oprime ou ferrolha os pés. Ao chegar em casa, muitos têm como primeiro gesto de bem estar, retirar os sapatos.

No lava-pés, a disposição de Jesus começa com um ato de libertação: os discípulos libertam-se de seus “ferrolhos”. Para verticalizar-se necessitam curar os seus pés, simbolicamente feridos no calcanhar pela serpente, desde a tragédia do Eden. Como uma dúzia de Moisés, os discípulos estão descalços diante do Cristo, a sarça ardente. Será Jesus quem confirmará ao apóstolo Pedro a necessidade - contra toda incompreensão - e a possibilidade de curar o ferimento da humanidade lavando somente os pés. Na forma de germes, eles simbolizam a totalidade do ser: “Se pois eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis, também vós, lavar-vos os pés uns aos outros” (Jo 13,14).

Esse gesto supremo é a resolução do pé ferido e do desequilíbrio no Humano. A Eva, símbolo da humanidade, curada em seu calcanhar pode ficar geocentricamente de pé e esmagar a cabeça da serpente. A superação da dualidade divino-humana, a maior e mais original de todas as dualidades antagônicas, é superada no mistério do Verbo encarnado. Jesus lavou e curou nossos pés. Ele pode ser a fonte e a via para remover-se e ultrapassar-se qualquer dualismo ou antagonismo no interior de cada ser humano. Essa perspectiva situa-se bem além de qualquer resultado de um equilíbrio ascético, como os propostos pelas religiões orientais e pelo taoísmo em particular, mas encontra-se com nossa incoercível necessidade de unidade.

Esse casamento místico pelas águas é também uma filiação. Para os cristãos, ele inicia-se nas águas do batismo e nos convoca a buscar a harmonia dos contrários e a elevação, o geocentrismo, o alto da montanha sagrada em cada um de nós. Ao casamento consigo mesmo, sucede o casamento com o universal. O casamento interior nos permite ser inteiros e valorizar a dimensão positiva dos eventos ambivalentes ao longo de nossa vida, saboreando as maravilhas do cosmos, seguindo nossos tropismos profundos. Não se trata de compensar uma fraqueza ou simplesmente explorar o reverso da medalha. Ficar coxo, perder um pé é um sinal de tomada de consciência e de salvação. Como no evangelho de Marcos, onde Jesus declara: “Se teu pé te leva a queda, corta-o; mais vale entrares na vida coxo, do que seres lançado na geena com ambos os pés” (Mc 9,45).

Em todo o texto bíblico essas harmonizações de opostos são freqüentes. A harmonização dos contrários em cada um de nós, amados por Deus como seres inteiros através de transmutações operadas pela água. Essa harmonização só pode mesmo ser o fruto de um processo de contínuas transmutações. Todos esses episódios luminosos ilustram o encontro harmonioso em cada um, da natureza humana e divina, do feminino e do masculino, da cabeça com os pés 48. “Vós deveis, também vós, lavar-vos os pés uns aos outros” (Jo 13,14). Quem lava e cura os seus “pés” é um mensageiro de paz e bem entre os homens, como na palavra do profeta Isaías: “Como são bem-vindos por sobre as montanhas, os pés do mensageiro... nos faz ouvir a paz, ... traz uma mensagem de bem, ... nos faz ouvir a salvação, ... diz a Sião: ‘Teu Deus reina!’ ” (Is 52,7).

Evaristo Eduardo de Miranda

doutor em ecologia, pesquisador da Embrapa Monitoramento por Satélite

42 Evaristo Eduardo de Miranda. Água, sopro e luz. Alquimia do batismo. Loyola. S. Paulo. 1998.

43 São João da Cruz Obras completas. Vozes. Petrópolis. 1991.

44 La Bible. Écrits Intertestamentaires.Gallimard. Paris. 1987.

45 Do grego synedoché, comparação de várias coisas simultaneamente, pelo latim synedoche. Tropo que se funda na relação de compreensão e consiste no uso do todo pela parte, do plural pelo singular, do gênero pela espécie etc., ou vice-versa:

46 Evaristo Eduardo de Miranda. Corpo Território do Sagrado. Loyola. 2000.

47 Chumash. Shemot. Bíblia Hebraica com comentários de Rashi. Trejger. S. Paulo. 1993.

48 Evaristo Eduardo de Miranda. Corpo Território do Sagrado. Loyola. 2000