As  águas  do  suor

Depois da tragédia do jardim do Éden, o humano deverá ganhar o pão com as águas salgadas do suor da sua fronte, de seu rosto, de suas narinas, de seu corpo, uma forma de santificação. “Do suor do teu rosto comerás o pão” (Gn 3,19). Suar será necessário. Assim como a língua produz a saliva, os olhos as lágrimas, a pele distila o suor. No sentido anatômico, nossa túnica de pele (composta de derme e epiderme) é uma capa impermeável, feita de queratina e recoberta de pelos. A pele representa um dos maiores órgãos do corpo humano. Pesa cerca de 20kg num adulto, o peso de uma criança de seis anos. É fina como a seda sobre nossas pálpebras e grossa como um couro na sola dos pés. Em hebraico as palavras luz e pele são homônimas. As duas pronuncia-se or. Elas diferenciam-se na grafia hebraica. A luz escreve-se com alef e a pele com a letra ain.Pele e luz. A luz é sinônimo de vibração e energia. E para muitos autores a cabalá, a mística judaica, é vista como uma metafísica da luz. As grandes obras cabalísticas evocam a luz e a iluminação em seus títulos: Bahir - Livro da Claridade; Zohar - Livro do Esplendor; Shaaré Orá - Portas da Luz; Meor Enaim - Luz dos Olhos; Orot HaKodesh - Luzes da Santidade... A palavra luz, or (alef-vav-reish) tem valor numérico 207 (1+6+200). A expressão infinito, ein sof (alef-iud-nun samech-vav-pei), também totaliza o valor numérico de 207 (1+10+50 60+6+80). E a palavra mistério, segredo, raz (reish-zain), também totaliza 207 (200+7).Ao serem expulsos do paraíso, do Gan Eden, Deus confecciona para Adam e sua mulher túnicas de pele 78. Antes suas túnicas eram de luz, agora são de pele. O casal representa a humanidade com sua túnica de pele, em sua animalidade. Adam é um homem prepúcio. Pelo trabalho espiritual poderão reconquistar essa luz e abandonar as vestimentas de pele. O humano é chamado a realizar uma circuncisão.O prepúcio, na extremidade do pênis, é o lugar escolhido por Deus para marcar ou “cortar” sua aliança com Abraão, no gesto da circuncisão, um rito decisivo e diferenciado do povo judeu, até nossos dias. Quando Jeremias convida à circuncisão do coração: “cortai o prepúcio de vosso coração” (Jr 4,4), ele evoca a atitude interior capaz de tornar o pensamento e a vontade do homem aptos para cumprir sua função. Ele traz à lembrança a necessidade de superar o amor emocional, sentimental. Esse amor ainda não experimentou nenhuma inteligência divina. “Circuncidareis, portanto, o vosso coração” (Dt 10,16). O Senhor espera não somente a prática sincera da Lei mas a adesão da pessoa inteira e a sua transformação interior. A circuncisão do coração é o efeito da ação da graça de Deus, única capaz de levar a pessoa a viver no verdadeiro amor, cuja imagem é o coração centro, iluminado pelo fogo do Espírito (Rm 2,29), como nas imagens do sagrado coração de Jesus 79. Esse calor leva ao suor.Suar é sadio e todos sabem disso. Muita gente corre, faz exercícios aeróbicos, freqüenta saunas, vai a academias para suar, em busca da saúde. A transpiração alivia os rins, purifica o organismo. Desde o tempo dos romanos, as saunas e termas existiam em toda parte. A hidroterapia integrava a vida social. A tradição de beber água mineral é uma herança da civilização latina. Na Roma antiga, o consumo de água mineral já era muito expressivo. Termas, banhos, saunas e ingestão de diversos tipos de água faziam parte da vida dos patrícios romanos, nas mais diversas cidades do império, em toda a bacia mediterrânica. Além do bate papo relaxante, sentados lado a lado, sobre as latrinas. Beber água de qualidade e suar para realizar o ciclo completo das águas no corpo. Suar é e sempre foi sadio.Suar também é santo. Com fome e sede, no seio árido do deserto, Jesus dirá a satã que nem só de pão viverá o homem e sim da palavra da Deus (Mt ). E para ganhar esse alimento por excelência, o humano também deverá suar. Esse pão da vida não cai dos céus. Exige esforço, caminhada, ardor missionário, suar a camisa. O cristão deve militar, orar, participar das pastorais, agir em sua comunidade como bom samaritano, peregrinar, fazer um trabalho interior de espiritualização. Para ganhar o pão da vida também é necessário suar. E muito. Quando o zelo de Deus nos consome, quando o batismo do fogo nos toca, suamos de santidade.Na catedral de Santiago de Compostela, era conhecido o cheiro desagradável do suor dos peregrinos, após caminharem centenas de quilômetros com raros banhos. Romarias e romeiros lembram esforços físicos e suor. Esse mau cheiro era tratado pelos padres como olor de santidad, odor de santidade. Sem deixar de incensar e perfumar a igreja, com um imenso insensório, o botafumeiro, movido até hoje por um sofisticado mecanismo. A tradição do uso do insenso vem também das catacumbas, onde servia para combater os odores desagradáveis. O enterro de Jesus foi repleto de incenso, de gestos de coragem e de realeza. Realeza de quem veio para servir. E de muito suor dos acompanhantes. Eles intercederam pelo corpo, desceram-no da cruz, sepultaram e moveram a pesada pedra do sepulcro. O sepultamento de Jesus obedeceu a ritos profanos e religiosos, próprios do judaísmo e do contexto religioso e político daqueles momentos terríveis. Quem “oficiou” as exéquias de Jesus foi um destacado fariseu, amigo de Nicodemos (Naqdimon ben Gurion), chamado Iossef de Ramataim, um homem rico e justo, membro notável do San’hedrin, do Sinédrio 80. Ele é conhecido na tradição cristã como José de Arimatéia, um discípulo secreto (por medo?) de Iehoshua ben Iossef, de Jesus de Nazaré.José era do vilarejo de Ramataim, em grego Arimathaia, de localização incerta 81. O sentido hebraico da palavra Ramataim designa a altura (ram) dupla (staim), a Dupla Elevação, designando provavelmente uma cidade com dois bairros situados em colinas vizinhas. Mas o nome também permite uma especulação simbólica.Seu testemunho humano é esclarecedor do relacionamento, de pelo menos parte, dos fariseus com Jesus. Sua ligação com o Jesus de Nazaré era grande. Como bom fariseu (e não somente como fariseu bom), ele fará um gesto, quando da morte de Jesus, cuja coragem, audácia, benevolência, esforço e compaixão vão valer-lhe uma menção unânime (fato raro) em todos os evangelhos (Mt 27,57-59; Mc 15,43-45; Lc 23,50; Jn 19,38) 82. Após a morte de Jesus, no que pesem as terríveis circunstâncias políticas e humanas implicadas, num lance de ousadia e de quem não deixa intimidar-se, José de Arimatéia vai pessoalmente reclamar junto a Pôncio Pilatos a liberação do corpo de Jesus, para dar-lhe sepultamento e cumprir os ritos de exéquias. Talvez tenha suado frio diante de Pilatos, mas cumpriu sua missão.Para descrever esse gesto, o evangelho de Marcos usa o termo “tomando coragem” já que a lei romana previa que os crucificados deviam tornar-se presa de abutres, cães e animais selvagens. Pilatos permite, não sem antes estar seguro da realidade da morte do Jesus de Nazaré (Mt 15,44). Sua situação de “nobre conselheiro”, mencionada por Marcos, indica que José de Arimatéia era um homem suficientemente importante socialmente para ter livre acesso a Pilatos. Se esse título, como muitos acreditam, indica que ele era membro do San’hedrin, seu gesto toma também um significado adicional de coragem e independência. José trabalha, esforça-se, pela dignidade desse jovem rabi, assassinado injustamente.Junto com os fariseus amigos de Jesus, José de Arimatéia sabia que a tradição judaica era a de sepultar os mortos no mesmo dia de sua morte (Jo 11,27). No caso de um enforcado, a Lei exigia esse procedimento (Dt 21,23). Os romanos, pelo contrário, tinham como lei deixar os cadáveres dos crucificados à mercê dos animais selvagens e aves de rapina. Estava-se na preparação do shabat da Páscoa. Esse favor pedido a Pilatos por José de Arimatéia tem também um alcance religioso: tratava-se, na liturgia judaica, do shabat da libertação dos hebreus da escravidão, na véspera da Páscoa (Pessah), de uma importância litúrgica muito particular (Ex 12,16). 83 “Ele (José de Arimatéia) vem, então, e leva o corpo de Jesus” (Jo 19,38). Dadas as circunstâncias da morte, pode-se apenas imaginar – em silêncio respeitoso - o que implica a realização prática e efetiva dessa frase por esse fariseu piedoso. Ele deve ter concluído sua tarefa, ungido pelo sangue e pelo suor de Jesus. Esse gesto ousado de José de Arimatéia talvez relativize e dê outro significado para seu discipulado “secreto” junto a Jesus. Normalmente, o clandestino de um partido ou de uma seita, nunca é apreciado, mas o comprometimento público - no mais alto nível - de José de Arimatéia para pôr a salvo o corpo de Jesus, vai torná-lo merecedor de menção elogiosa pelos quatro evangelistas. Marcos dirá: “Ele também esperava o reino de Elohim” (Mc 15,43).Ele oferece o mausoléu de sua família, uma sepultura cavada no rochedo do Calvário, bem próximo ao local da crucifixão. Ali, ajudado por outro fariseu, Naqdimon ben Gurion, o Nicodemos, ele sepultará o corpo de Jesus, seguindo estritamente os ritos previstos pelos fariseus nessas circunstâncias.Segundo relato de Marcos, José de Arimatéia é quem compra a mortalha, essa longa peça de linho na qual os judeus tinham a costume de envolver seus mortos. Nesse início de crepúsculo de véspera do shabat, quando as velas começavam a ser acesas nos lares para a celebração, o fariseu José de Arimatéia desce Jesus da cruz, envolve-o em seus braços e depois na mortalha de linho. Nicodemos e José de Arimatéia buscam observar as práticas rituais prescritas pelos fariseus numa situação limite, levando grande quantidade de aromas preciosos: mais de trinta quilos de mirra e aloés 84 (Jo 19,39)! Nesse gesto, Nicodemos vê em Jesus, o messias de Israel. “Ele pretende dar-lhe funerais reais e, como acontecia com os reis 85 e as figuras importantes 86, queimar grandes quantidades de incenso purificador, durante o sepultamento do mestre supliciado. Sendo um fariseu, ele vem certificar-se de que os ritos de sepultamento serão respeitados 87. Ele próprio se encarrega disto, trazendo o que será necessário para pôr no túmulo.” Finalmente, eles o depositam na sepultura cavada na rocha 88, onde ninguém ainda havia sido posto (Lc 23,53).Essa precisão, sepulcro novo pertencente a José de Arimatéia, é retomada em Mateus (27,60) é significa que a sepultura fora cavada por ele mesmo e por sua família. Segundo André Chouraqui, a precisão é importante: “ela prova que, aos olhos da Torá, Jesus podia se beneficiar sem problema de uma sepultura normal, o que não teria sido o caso se ele tivesse sido condenado à morte por um tribunal rabínico. Os condenados à morte, em virtude da Torá, eram enterrados em um local à parte de um cemitério especialmente reservado para eles. Vítima dos romanos, Jesus, mesmo se crucificado, tem direito a uma sepultura normal” 89 e aos ritos previstos pela tradição religiosa do judaísmo. A privação da sepultura era vista como uma grande maldição (Dt 28,26; 1Rs 21,23; 2Rs 9,36; Si 34,3; 66,24; Jr 7,33; 14,16; 19,7; 22,19; 25,31) na tradição judaica.Ajudado por muitos homens, possivelmente amigos fariseus, José de Arimatéia num esforço final rola a pedra circular. Provavelmente ela avança sobre uma canaleta, até a abertura, do sepulcro. Do exterior, pela entrada, era possível ver o lugar onde o corpo havia sido deixado, deitado. Não havia mais tempo para nada. Sobre essa pedra circular para o olhar contemplativo de duas mulheres: Miriâm de Magdalá e a Miriâm de José e de Jacó. Imediatamente José de Arimatéia se retira, cansado e suado, junto com seus irmãos fariseus. É shabat.O suor, uma das mais santas das águas humanas, será sempre fruto de dons pessoais e entregas corporais. Mas nunca houve igual a este judeu galileu. No cumprimento final de sua divina missão ele suou tanto, mas tanto, que com suas águas corporais marcou um lençol para toda eternidade. Um sudário 90. O Santo Sudário 91. Santificação, contaminação e imaculização, são sempre possíveis e presentes em todas secreções líquidas e humanas: saliva, esperma, sangue menstrual, lágrimas, urina e suor. O corpo de Jesus, como o fruto das oliveiras esmagado no lagar, deixa toda sua luminosa transparência marcada num lençol. Todas essas secreções, como já foi evocado, estão mobilizadas pelo divino, pois vêm de uma única fonte de águas primordiais, origem da maleabilidade do barro humano. Se é verdade que os cristãos podem refletir sobre a paixão e a morte do crucificado, o mistério dos lençóis afrouxados e marcados dos evangelhos aponta para um outro, infinitamente maior, o da ressurreição.

Evaristo Eduardo de Miranda

doutor em ecologia, pesquisador da Embrapa Monitoramento por Satélite

78 No sentido sexual, essas túnicas de pele podem ser identificadas com o prepúcio e o hímen.

79 Dois Joãos envolvem a vida de Jesus. No início de sua vida e no início de sua missão encontra-se João Batista, o “homem velho”. Ele é o homem-prepúcio, o homem com sua túnica de pele (descrito inclusive como vestindo-se com pele de camelo). O João Evangelista, o devenir, aquele de quem o mestre fala tão misteriosamente. O Cristo dá a impressão de que ele já era um realizado, um unificado (Jo 21,22-23). Entre eles, Cristo é o instante.

80 Sinédrio, termo de origem greco-hebraica, derivado do grego Sinedrion, “assembléia reunida em sessão”. Conselho religioso supremo, segundo a tradição constituído por cerca de setenta anciãos, sediado na Câmara da Pedra Talhada, no Monte do Templo. Sua origem teria fundamento na designação por Moisés de um conselho de setenta anciãos e escribas do povo (Nu 11,16). Seus membros eram recrutados em três classes: entre os chefes das famílias nobres, os sacerdotes de alta posição e os notáveis fariseus. Funcionava como suprema corte e legislatura.

81 Supôs-se estar situado a noroeste de Jerusalém, a leste de Jope (a Nablus dos dias de hoje), provavelmente idêntica a Rama (thaim) do Antigo Testamento (1S 1,1), na montanha de Efraim, país natal do profeta Shemuel, Samuel. Outra hipótese é que seria a cidade hoje chamada Rentis.

82 Até porque a imensa maioria dos discípulos de Jesus estava escondida e aterrorizada.

83 André Chouraqui. A Bíblia. Iochanan. Ibid.

84 Pó aromático citado junto com a mirra no Shir Hashirin, no Cântico dos Cânticos 4,14. Usados para insensar e combater o odor de putrefação do cadáver.

85 2Cr 16,14; Jr 34,5

86 Flávio Josefo informa no livro Antiguidades, que no funeral de Herodes, o Grande, quinhentos escravos trouxeram os aromatizantes destinados ao seu túmulo.

87 Os ritos eram relativamente simples: lavava-se o cadáver, ungia-se-o com óleo perfumado e apenas envolviam-no em um lençol.

88 Era comum que as sepulturas fossem talhadas na pedra.

89 André Chouraqui. A Bíblia. Matyah. Imago. Rio de Janeiro. 1996

90 Talvez, de todas relíquias do tesouro da Igreja, a do santo sudário de Turim seja a mais preciosa. Essa relíquia de sutil textura impressiona pela quantidade de informação que contém. É uma espécie de relato em imagem da morte de um crucificado e que de forma misteriosa abandonou seus lençóis mortuários. Há muito o que meditar sobre paixão e a morte daquele corpo humano, ouvido no seu sofrimento – pela última vez – por uma retalho de pano. Teria o artesão têxtil, o tear ou a tecelã - que produziram esse predestinado tecido texto - imaginado quantos sinais ali seriam escritos?

91 Pierre Barbet. A paixão de Cristo segundo o cirurgião. Loyola. S. Paulo. 1997