As águas da saliva

Na umidade interior da boca, a saliva é uma espécie de sêmen da palavra. Ela tem, como a água, uma simbologia antinômica: une e dissolve os alimentos, pode curar ou corromper, suavizar ou insultar violentamente, como quando se transforma em cuspe. O órgão da saliva é a língua, como na relação entre a lágrima e os olhos. A língua, como um pequeno leme, governa nossa embarcação. Jesus compara o encontro com Deus, o seu retorno glorioso, como um banquete de núpcias. A imagem une a pulsão sexual e a da nutrição, presentes no banquete nupcial. A língua é fértil, seu sêmen é a saliva e seu fruto maduro e criativo é o Verbo, a palavra. Para despertar a palavra, para libertar o Verbo, Jesus empregará sua saliva sob a boca e os ouvidos do surdo-mudo. Para impedir a palavra e aniquilar o Verbo, cuspiram sobre o rosto de Jesus.

Língua e saliva. Como órgão do paladar e do gosto, a língua é símbolo do discernimento. Ela separa o bom do ruim; ela distingue, ela aparta e isola como um chicote, uma faca ou uma espada. Como órgão da palavra, a língua é criadora do Verbo e identifica-se com ele. Nisso, ela possui um poder de fecundação análogo à chuva, ao sangue, ao esperma e à saliva, veículos do verbo. Na Bíblia, a saliva (roq, em hebraico) evoca a vida, a cura e a salvação. Tocados pela saliva, os cegos vêem, surdos ouvem e mudos falam (Mc 8,23). Ao promover, com os dentes e a língua, uma intimização da pessoa com o alimento - por todos os critérios de reconhecimento derivados das mensagens elétricas e bioquímicas do tato e do paladar - a saliva fala do nosso desejo de alimentação espiritual, de alimentar-se do divino, de comer Deus. Na cavidade bucal, a saliva está associada às núpcias celestes, ao banquete celeste.

Simbolicamente, a língua é considerada como uma chama, cuja forma e mobilidade possui. Como o fogo, a língua destroi e purifica. Como instrumento da palavra, a língua edifica e arrasa. Comparada ao fiel de uma balança, a língua julga. Comparada a um pequeno leme, dirige o navio inteiro. A língua é como o fogo, o único animal que ninguém consegue dominar (Tg. 3,2 - 12). São mais de 200 citações sobre a língua no texto bíblico. Na maioria das vezes o termo refere-se ao órgão da palavra e, por metonímia, significa a própria palavra. Em hebraico, a língua é lashon. Dessa palavra derivam outras como calúnia e difamação lashan. Quando a palavra língua é empregada sem qualificativo, em geral designa a má língua. Na tradição judaica, junto com o assassinato, a idolatria e o impudor, a má língua forma as quatro pragas pervertedoras do mundo. 54

A saliva é muito mais do que simplesmente um líquido transparente e insípido, segregado pelas glândulas salivares na base da língua. Ela é anti-séptica, serve para fluidificar os alimentos, facilitar sua ingestão e digestão. A qualidade e a quantidade de saliva variam constantemente em função do ingerido e também, do contexto físico e psíquico da pessoa, mesmo em ausência de ingestão. Deglute-se numa média de 1400 vezes ou mais por dia. Apenas uma parte dessa saliva destina-se a preparar o alimento para a digestão no estômago e intestinos. A emissão de saliva de uma pessoa, ao longo de toda uma vida, seria suficiente para encher uma piscina de tamanho médio! Qualquer alteração na saliva, excessivamente ácida ou alcalina, termina por afetar o resto do corpo pois desorganiza o suco gástrico, provoca perturbações digestivas, gera mal estar, azias, indigestões, gastrites e até úlceras.

Associada aos alimentos, a saliva serve para uni-los e dissolvê-los, pode curar ou corromper, suavizar ou ofender. Ofender e insultar violentamente como quando cospe-se em alguém. Cuspir no rosto é um gesto grave em conseqüências, na tradição judaica. Quem cospe em alguém, não foi capaz de reter sua ira, seu ódio e transforma sua saliva luminosa em cuspe, em “não-luz”. Na Bíblia, cuspir no rosto de alguém é uma suprema vergonha, punida de lepra (Nm. 12,14), doença de pele, adequada a um homem de vestimentas de pele, um homem não circunciso, um homem prepúcio.

Em termos homonímicos, saliva e salivação lembram sal e salvação. Elas falam do desejo de alimentação espiritual, de um saber que é sabor e sabedoria, de comer Deus, de alimentar-se do divino e saboreá-lo. A sabedoria leva a falar com sabor, com um sabor indestrutível como o do sal. O ser harmonizado, controla sua língua e sabe temperar suas palavras. Como ensina o apóstolo Paulo: “Que os vossos dizeres sejam sempre em graça, temperados de sal, com a arte de responder a cada um como convém” (Cl. 4,6). O livro do Eclesiástico (Ec. 27,8) adverte “...a palavra mostra o coração do homem. Não elogies a ninguém, antes de ouvi-lo falar; pois é no falar que o homem se revela”.

Durante o rito do batismo, primeiro dos sete sacramentos, a criança recebe sete marcas ou sinais em seu corpo: no vértice da cabeça, na fronte, nos ouvidos, nos olhos, nas narinas, na boca e no peito. Esses toques vêm pela água, pelo ar, pela luz, pelo tato e pelo sal. No rito completo do batismo, o sal, o último sinal vem como um selo na boca do batizado. É colocado nos lábios ou na língua, na porta da casa da palavra. O sal, branco como a luz total, é pleno de possibilidades, sinal de potencial e conservação. O sal é extraído da água do mar por evaporação. Simbolicamente o sal pode ser visto como um fogo retirado ou extraído das águas. O sal da terra é o sal do seco, o sal da consciência emersa. 55 O casamento dos opostos, a harmonização dos contrários, a realização do irrealizado tem ao longo de todo o rito batismal uma imagem forte: a língua de fogo do círio pascal, dança ao lado da água pura 56 da pia batismal.

A saliva lembra a essência da purificação e da iluminação, o caminho terapêutico da intimidade com Deus, o banquete de núpcias, o encontro do Esposo com a esposa. Jesus recorre a duas pulsões para descrever a glória dos céus: o impulso sexual e o alimentar. A intimização do corpo com os alimentos, através da língua e da saliva, evoca esse esposório sutil do humano com sua vida, da criação com o Criador. A umidade das águas da saliva evoca em permanência a realização dessas núpcias celestes e terapêuticas.

O tema da cegueira é bastante central na missão de Jesus. 57 Não há dúvida que, entre as curas de Jesus, as mais relevantes devolveram a visão aos cegos. Na tradição judaica, abrir os olhos era a cura messiânica por excelência, o sinal para a identificação do verdadeiro messias, segundo a tradição profética. Ao apresentar-se na sinagoga de Nazaré, Jesus declara-se ungido - precisamente - para abrir os olhos aos cegos. Os evangelhos relatam, entre todos os cegos curados por Jesus, sete deles. O número sete evoca a totalidade: Cristo vem abrir os olhos de todos para enxergarem o Invisível.

Jesus curou os dois cegos de Jericó (Mt. 20,29 - 34; Lc. 18,35 - 43), o filho de Timai (Mc. 10, 46-52), o cego de Betsaida (Mc. 8,22 - 26), os dois cegos anônimos (Mt. 9,27 - 31) e o cego de nascimento (Jo 9,1 - 41). 58 Se o sinal dessa cura favorece o beneficiário, a quem mais favorece é ao próprio Jesus. Ela prova: ele é o Messias anunciado pelas escrituras. Paradoxalmente, Jesus, a luz do mundo, traz trevas para quem lhe dá as costas. Reencontramos aqui, ao nível da visão, a dualidade da espada de dois gumes. Ela cega quem tem boa vista e faz ver os cegos. “Eu vim a este mundo para um julgamento, a fim de que aqueles que não viam vejam, e aqueles que viam se tornem cegos” (Jo 9,39).

No evangelho de João, ao deixar o templo (e não entrando!), onde cumprira seus deveres de israelita, Jesus detêm-se diante de um cego a quem dará a visão, numa demonstração da chegada dos tempos messiânicos. Jesus vai afirmá-lo frente aos discípulos de João Batista (Mt 11,5) referindo-se às escrituras (Is. 29,18; 35,5; 42,7). A importância dessa cura messiânica será destacada pela repetição dessa palavra, 14 vezes no texto! Quatro momentos marcam esse relato do evangelista João: o sinal (Jo 10,1 - 7), o sinal constatado (Jo 10,8 - 12), o sinal contestado (Jo 10,13 - 34) e o epílogo (Jo 10,35 - 38).

Os discípulos estão preocupados em saber o porque daquela cegueira de nascença. Quem pecou? Jesus santifica os pais do cegos, numa espécie de primeira canonização: eles não pecaram. Depois usa de sua saliva para fazer barro com o pó da terra. Com essa espécie de tinta, usando o dedo como caneta, Jesus escreve sobre os olhos de um cego de nascença a história da vitória da luz sobre as trevas (Jo 10,1 - 38). Neste episódio, a saliva também é terapêutica e serve para introduzir a todos em novas realidades. Ele indica claramente: todo homem é um cego de nascença. Pela fé, pode-se recuperar a verdadeira visão e enxergar o invisível.

Contra toda lógica, o cego besuntado de barro sobre as vistas, nada interroga e vai lavar-se na distante fonte de Siloé (Enviados), com tanta água ali por perto, atendendo à palavra e ao envio de Jesus. Dele Jesus obtém um ato de fé, iluminado pela fé (fôtisthéntes). Isso vai ecoar pela boa nova (At. 26,16 - 18; 1Tm. 5,5; Ef. 5,8 - 14; Hb. 6,4; 1 Pd. 2,9). Os fariseus têm sua própria cegueira denunciada. Ficam desconcertados. Era um cego mudo, silencioso, diante dos disparates proferidos pelos discípulos de Jesus acerca de seu eventual pecado ou de seus pais. Curado da sua cegueira, o cego dá testemunho, nas praças e nos mercados, no seio do mundo. O cego emergirá falante frente aos fariseus fundamentalistas.

Como criaturas somos todos cegos de nascença. A matéria dela mesma não vê nada, não sabe nada. Nossa matéria só vê e sabe, se for animada pelo espírito vivente, pela fertilidade da água viva. Somos vitimados pelas mais diversas cegueiras. Não vemos sequer a maior das certeza, a realidade da morte. E vive-se como se fossemos imortais. O mistério da vontade divina é o seu desejo de salvação para todos (Ef. 1,9). Jesus vai em direção ao cego, sem distinção. E assim como na gênese do homem, Deus uniu sopro e saliva com o barro do terroso (Gn. 2,7). Os padres da Igreja já viam nesse barro feito por Jesus, um sinal da sua incarnação. Jesus usa e sacraliza a natureza, o pó da terra e a terapêutica saliva, para curar. E faz da cura física um sinal da cura espiritual.

Somo cegos e devemos aceitar nossa condição humana: não vemos a luz. Aceitar também, sem palavrórios ou contestação, que o sopro e a palavra (saliva) habitem nosso pó, sinais da presença do Outro, de nossa divinização e da fonte dinâmica de nossa alteridade. Jesus convida a mergulharmos em nossa condição humana e suas racionalidades com uma nova consciência, a consciência do outro). Fazendo surgir o que há de melhor nos outros e em nós. A fonte de Siloé evoca hoje as águas batismais, a pia batismal e a renovação pascal das promessas batismais. Somos enviados do alto, nascidos do alto (anothén), do sopro e da palavra. Ser lavado de todas as memórias e passados, significa sair do tempo e do espaço, não ser mais deste mundo e começar a entrar na eternidade. 59

No rito judaico da circuncisão Brit Milá, após o corte do prepúcio (orlá), a pele é lançada no “pó” para surgir a luz. Num segundo momento, traz-se à luz a glande do pênis, a carne original, como um sinal de retorno as normas ontológicas (priá). O fruto em hebraico é pri ou peri. Num terceiro momento, chamado Mtsitsá, o circuncisador, Mohel, chupa o sangue, no ferimento deixado pelo corte do prepúcio, a fim de descobrir e trazer à luz a Néfesh, a alma ligada ao sangue (Lv 17,11). Esse gesto envolve a saliva e seus poderes anti-sépticos e de cura. Quando Jesus coloca saliva nos olhos do cego e os toca com suas mãos é como se Ele circuncidasse o cego. Jesus retira sua condição de homem prepúcio, homem revestido de peles, para levar-lhe a luz (Mc 8,23), para levá-lo à luz.

A espiritualidade cristã, após essa mudança de consciência, convida cada um a voltar sobre a praça do mercado, como faz o cego do evangelho de João, e não desaparecer num deserto de espiritualidade inefável. Ir ao mercado e ver o que é como é, com clareza e consciência; ver as coisas como são, na luz de Deus. Evangelizar sem medo, mostrar ter idade suficiente e deixar-se interrogar pelos incrédulos deste mundo. E repetir com o cego, essa experiência pessoal de Deus traduzida em certeza: eu era cego e agora vejo. Todo o dia. E dizê-lo, ainda mais, na passagem da morte, na nossa páscoa. Para repetí-lo ainda, no sentido pleno da frase, no seio da eternidade: eu era cego e agora vejo.

Evaristo Eduardo de Miranda

doutor em ecologia, pesquisador da Embrapa Monitoramento por Satélite

54 Evaristo Eduardo de Miranda. Corpo Território do Sagrado. Loyola. 2000.

55 Evaristo Eduardo de Miranda. Água, sopro e luz. Alquimia do batismo. Loyola. S. Paulo. 1998.

56 Pura vem da mesma raiz grega que o fogo, pyros, e fala da purificação e do purificado. Uma água-fogo, nada de mais antinômico, uma água pura - nada mais equilibrado e saudável.

57 José H. Prado Flores. Os cegos do Evangelho. Loyola. S. Paulo. 1996.

58 Mais três outros episódios evangélicos podem ser assimilados a uma cura de cegueira: o pobre jovem rico, Jairo e a hemoroíssa e Tomé, o gêmeo (Lc 18,18-23; Mc 10,17-22; Mt 19,16-22).

59 Jean-Yves Leloup. L’Évangile de Jean. Albin Michel. Paris. 1989