As  águas  da  boa  nova

As úmidas chaves da tradição judaica são fundamentais para revelar a riqueza das águas da boa nova. Os encontros de Jesus com as águas são iluminados e inspirados pela tradição cultural e religiosa do judaísmo de seu tempo. A elaboração eclesial, na construção do cristianismo, acabou por distanciar-se dessas férteis e cristalinas fontes. Os mistérios batismais e o Cristo pascal, autodenominado água viva e de cujo flanco brotaram sangue e água, foram os principais vetores de uma construção litúrgica, ritual e simbólica da experiência eclesial face às águas bíblicas. Ela já dura 2000 anos.

Nos evangelhos encontram-se cerca de cinqüenta episódios de Jesus com as águas, difíceis de serem penetrados em toda sua riqueza, sem a contribuição da tradição judaica e do entendimento do corpo humano como território do sagrado. Existem diferenças e preferências hídricas. Enquanto o Primeiro Testamento cita 43 vezes o orvalho, o Segundo Testamento o desconhece e não recorre a esse suave transpirar dos céus. Decididamente, a boa nova das águas dispensou o orvalho e o sereno. As águas frias na forma de gelo também não refrescam o Segundo Testamento. Nenhuma citação contra sete no Primeiro Testamento. A neve também é pouco lembrada, apenas uma citação para evocar o brilho das vestes de Jesus na transfiguração (Mt 28,3) e outra para ilustrar o brilho dos cabelos do Filho do Homem (Ap 1,14) contra 28 citações no Primeiro Testamento. O mesmo ocorre com o vapor, nenhuma citação contra seis no Primeiro Testamento. As águas da boa nova apresentam-se e ausentam-se nos rios, nas fontes, nos poços, nos mares, nas nuvens, nas chuvas, nas parábolas, no vinho e nas secreções corporais. Dentre os principais episódios estão:

  • O batismo de Jesus nas águas do Iarden, o rio Jordão (Mt 3,11; Mc 1,8-10; Lc 3,16);

  • As nuvens e os úmidos céus (shamaim) ecoando vozes divinas (Mt 3, 13-17; Mc 1,9-11; Lc 3, 21-22) e envolvendo Jesus e seus discípulos (Mt 17,5; Mc 9,7; Lc 9,34);
  • Águas ausentes e presentes na provação de Jesus no deserto (Mt 4,1-4; Mc 1,12-13);
  • As águas transmutadas em vinho em Qaná de Galil, em Caná da Galiléia (Jo 2,1-12);
  • O chamado dos discípulos à beira mar, à beira d’água (Mt 4,18-22;Mc 1,16-20);
  • A pesca maravilhosa ou o reencontro da fertilidade das águas (Mt 13,47; Lc 5,1-11; Jo 21,1-11);
  • Depois de ensinar nas sinagogas, Jesus ensina à beira mar e até sobre as águas, sobre o mar (Mt 13,1; Mc 2,13. 3,7-9; Lc 5,3);
  • As águas do mar junto das quais Jesus vem morar, em Cafarnaum (Mt 4,13);
  • As águas do mar onde os montes podem ser lançados pela fé (Mt 21,21);
  • As águas do mar onde um sicômoro pode ser lançado pela fé (Lc 17,6);
  • As águas do mar onde uma legião de porcos se precipitam (Mt 8, 31-31; Mc 5,13; Lc 8,33);
  • As águas do mar onde Pedro é enviado lançar um anzol (Mt 17,27);
  • As águas do mar onde Pedro, confuso, nu e vestido, se lança (Jo 21,7);
  • As águas do mar onde quem escandalizar um pequenino será lançado com uma mó atada no pescoço (Mt 18,6; Mc 9,42; Lc 17,2);
  • Os passos noturnos de Jesus sobre as águas, como um fantasma, atemorizando e fazendo a pedra do Pedro, Shimon bar Ioná, flutuar (Mt 14,22-33; Mc 6,45-51; Jo 6,16-21);
  • O renascer do espírito e da água de um doutor de Israel, Nicodemos, Naq Demos (Jo 3,5);
  • Jesus batizando na Judéia (Jo 3,22) e João em Enon, perto de Salim, onde as águas eram abundantes;
  • As águas evanescentes da seiva de uma figueira sem frutos (Mt 21,19-20; Mc 11,20-21);
  • As águas evanescentes de uma semente germinando sobre pedras sem umidade (Mt 13,6; Mc 4,6; Lc 8,6);
  • Os paradoxos da água viva que pede de beber, no encontro com a Samaritana e atado à cruz no Calvário (Jo 4,7. 19,28);
  • As palavras de Jesus aplicando a imagem da água a si próprio, junto ao poço de Jacó, Yakoov (Jo 4,13-14);
  • A transparência das águas corporais nas lágrimas vertidas diante do choro dos amigos do falecido Lázaro, El Azar (Jo 11,35);
  • As ondas e a tempestade no mar da Galiléia, no Lago Kineret (Mt 8,18-27; Mc 435-41; Lc 8,22-25);
  • As previsões meteorológicas do tempo de chuva e de estiagem (Lc 12,54-55);
  • As águas das chuvas caindo sobre justos e injustos (Mt 5,45);
  • As chuvas e torrentes transbordando sem abalar a casa construída, como um templo, sobre a rocha (Mt 7,24-027; Lc 6, 49-49);
  • Um rico pede, num dedo do mendigo Lázaro, uma gota d’água para suportar o fogo eterno (Lc 16,24);
  • Aqueles que derem um copo d’água a um pequenino (Mt 10,42; Mc 9,41);
  • As águas da saliva na boca e nos ouvidos do surdo-mudo, curando-o com um Efetá (Mc 7,33);
  • As águas da saliva curando progressivamente os olhos de um cego (Mc 8,23);
  • As águas da saliva no pó da terra e nos olhos de um cego de nascença (Jo 9,6);
  • As águas terapêuticas da fonte de Siloé (Jo 9,7.11) e a torre de Siloé;
  • As águas as saliva, como cuspe e escarros, no rosto de Jesus (Mt 26,67.27,30; Mc 10,34.14.65.15.19; Lc 18,32);
  • As águas carregadas numa bilha por um homem e não por uma mulher (Mc 14,13; Lc 22,10);
  • O paralítico curado junto às águas movimentadas periodicamente por um anjo (Jo 5,4-7) na piscina de Betzatá, em pleno shabat;
  • As águas e as mãos lavam e acariciam os pés dos discípulos (Jo 13,5-6);
  • As águas lavam as mãos de Pôncio Pilatos (Mt 27,24);
  • As águas não lavam as mãos dos discípulos, antes de comer (Mt 15,2.20; Mc 7,2-5);
  • As águas não lavam as mãos de Jesus antes de comer na casa de um fariseu e causam escândalo (Lc 11,38);
  • As águas voltam a hidratar uma mão mirrada, em pleno shabat (Mt 12,9-14; Mc 3,1-6; Lc 6,6-11);
  • As águas lavam o rosto ao jejuar-se (Mt 6,17);
  • As águas lavam as redes dos pescadores pecadores (Lc 5,2);
  • Como a água em Caná, agora o vinho é transmutado em sangue numa santa ceia (Mt 6,26-29; Mc 14,22-25; Lc 22,17-20);
  • As gotas de suor, como sangue no Gat Shemenim, Getsemani (Lc 22,44);
  • A sede na cruz, a esponja, o vinagre com água, o fel e a mirra (Mc 15,23; Lc 23,36; Jo 28,29);
  • O flanco direito aberto, vertendo sangue e água (Jo 19,34);
  • O santo suor, marcando um lençol por toda eternidade (Mc 15,46; Lc 23,53.24,12; Jo 19,40.20,5-7);
  • O ascender e a promessa de regressar entre as nuvens dos céus (Mt 24,30.26,64; Mc 13,26. 14,62;.Lc 21,27);

De todos esses maravilhosos episódios evangélicos foram escolhidos para figurar nesta Segunda parte, aqueles em relação mais direta com as águas corporais de Jesus. Através do mistério da encarnação, as águas mobilizadas no corpo de Jesus tiveram uma participação diferenciada em sua missão salvífica. As mesmas águas interiores nos habitam.

Quem são essas águas interiores? Onde estavam? Como fluíam? Não é fácil captar o rastro das águas, seu caminho de vai e vem, entre os meandros das frases, parágrafos e capítulos da boa nova. Nos textos evangélicos, as águas revelavam sua luz nas lágrimas, no suor, na sede, na saliva e nos gestos de limpeza e purificação desse Nazareno. No sentido da ascensão, as águas tocam os pés, as mãos, a boca, os olhos e a pele. Jesus aplicou a si mesmo o título de água, de água viva. Quem bebe dessa água vê crescer sua sede. Não busca mais outra água. É habitado por um desejo insaciável de Infinito.

Evaristo Eduardo de Miranda

doutor em ecologia, pesquisador da Embrapa Monitoramento por Satélite