Água comum ou água benta?
 
Um pouco da história da percepção social das águas no Brasil

O homem é o único animal capaz de distinguir a água comum da água benta. Esta colocação remete às realidades simbólicas e culturais da percepção social e individual da água. Debates sobre recursos hídricos terminam com generosas e urgentes recomendações sobre como educar a população para um uso responsável da água, como mudar consciências, atitudes etc. Mas como a água é realmente percebida pela população brasileira?

A percepção das águas vem de longe no imaginário popular. Algo das visões indígenas chegou à cultura brasileira nas lendas da iara, da mãe d’água, do boto encantado, das carrancas etc. Elementos religiosos das culturas africanas estão presentes nos banhos de cheiro, nas oferendas em cachoeiras, procissões marítimas etc. Contudo, o universo cultural e o imaginário interior do homem e do povo brasileiro sobre a água são herdeiros das melhores tradições mediterrânicas. Essa visão do mundo hídrico perde-se no tempo. Foi iluminada pelo cristianismo e semeada por aventuras gregas, romanas, árabes... e judaicas. Sem compreender a história dessa percepção social das águas, será difícil reverter boa parte dos problemas atuais.

O imenso capital hídrico do Brasil não foi obra do acaso. O gênio português propiciou uma miscigenação genética, simbólica e cultural, sem precedentes na história da humanidade. O relacionamento dos brasileiros com as águas é fruto dessa aventura. No século XVI, uma outra economia estava sendo construída sobre uma nova rede de comércio e informação. Um imenso universo simbólico sobre as águas, de origem judaica e cristã com fortes cores ibéricas e latinas, foi trazido pelos povoadores do Brasil. Dos séculos XVII ao XIX, antes das atuais preocupações ambientalistas, a Coroa portuguesa, o Império do Brasil e uma série de brasileiros ilustres já trabalharam na defesa das águas. A bacia amazônica não pertencia ao Brasil. Sua incorporação ao país foi obra do esforço estratégico da Coroa portuguesa e seus súditos. Desde o século XVII, os brasileiros mobilizavam-se na defesa da água em manifestações de rua! No abastecimento do Rio de Janeiro, o Império do Brasil tomou uma série de medidas jurídicas e administrativas, dentre as quais o plantio da Floresta da Tijuca. Se tocamos a água com as mãos, é com nosso coração que a entendemos. As águas pedem atenção espiritual, compreensão cultural e participação social, muito além de números e tecnologias.

Evaristo Eduardo de Miranda

doutor em ecologia, pesquisador da Embrapa Monitoramento por Satélite