Um olhar de lágrimas

Para a liturgia pascal bizantina Jesus não se transfigurou no Monte Tabor 60, mesmo se aparentemente o Cristo assumiu um tal brilho, quase insuportável para os olhos dos discípulos 61. As três discípulos, lhes é dado de ver a luz, na qual ainda não se tornaram. Para a liturgia bizantina, não foi Jesus quem se transfigurou. As escamas caíram dos olhos dos discípulos e eles viram. Jesus era Jesus. Ele era o que é. Eles ainda não tinham visto quem era Jesus. Eles não retiram as sandálias. Seus pés já estão lavados e curados pelo mistério da Encarnação que acompanham, mesmo se o gesto simbólico ocorrerá mais tarde, no lava-pés.

Na experiência da luz e do bem 62, eles são tentados de parar, estagnar: “Rabbi, é bom estarmos aqui, ergamos três tendas’ (Mc. 9,5). Desejo de morte, estagnação, inscrito na túnica de pele, na tenda de argila. Centro da roda, umbigo, lugar imutável e fonte de todo o movimento, superação da antinomia, Jesus os faz descer da montanha. E anuncia sua descida a mansão dos mortos e subida aos céus: “Quando desciam da montanha, ele lhes recomendou que não contassem a ninguém o que tinham visto, até que o Filho do Homem ressurgisse dentre os mortos (Mc 9,9). Existe uma forma de retirar essas escamas da cegueira: as lágrimas da compaixão.

Feitas de água e sal, as lágrimas emanam da fonte dos olhos e estão associadas à imagem do pão, um alimento interior e místico. As lágrimas estão entre as mais sublimes distilações das águas corporais. Elas são doces frutos salgados da visão espiritual, do olhar compassivo e amoroso. Simone Weil 63 dizia: “Uma das verdades fundamentais do cristianismo, verdade por demais desconhecida, é esta: o que salva é o olhar”. E o olhar compassivo é iluminado por lágrimas.

Em hebraico a palavra olho, ayin, é um homônimo de fonte, manancial, como na expressão “O anjo do Senhor a encontrou perto de um olho d’água no deserto...” (Gn 16,7). Essa expressão denota o órgão da percepção visual e também a Providência, como na expressão “Os olhos do Senhor teu Deus estão sempre sobre ti” (Dt 11,12) 64. Ao contrário da grande maioria dos animais, nossa visão é frontal, tridimensional e pode ser definida por um “campo de visão”. Esse campo é visual (no sentido do seu alcance) e mental (na geração e decodificação das imagens tridimensionais). Como a pele produz o suor e a língua a saliva, as lágrimas são como o sangue dos olhos.

A lágrima, dimá em hebraico, é uma palavra composta de sangue dam, de olho, ayin. Literalmente, lágrima significa “o sangue na sua fonte”. O profeta Jeremias indaga: “Quem fará de minha cabeça um manancial de água, de meus olhos uma fonte de lágrimas?” (Jr 8,23). Essa palavra carrega ainda, em suas letras, o sentido de “proveniência do conhecimento”. Feitas de água e sal, as lágrimas estão associadas a imagem do pão, de um alimento interior e místico, sem o qual não podemos crescer. “Dia e noite minhas lágrimas são o meu pão” (Sl 42,4). O salmista também evoca o povo alimentado por “um pão amassado em lágrimas” e cuja sede é saciada “com uma tríplice medida de lágrimas” (Sl. 80,6) 65.

A visão espiritual produz lágrimas. Elas nada têm a ver com as sentimentais ou emocionais, muito freqüentes nas lamentações do povo bíblico (Jr 9,17; Mi 2,13; Sl 6,7; Lm 2,11; 1M 7,6; 2M 13,12; Si 38,17 e tantas outras) e em sinal de perdão, como José beijando e cobrindo os irmãos de lágrimas (Gn. 45,15). As lágrimas da visão espiritual são frutos sutis e elaborados da compaixão. Essas lágrimas são um dom da graça divina conhecido dos místicos e dos quais é difícil falar. Elas alimentam o apóstolo Paulo: “ele relatou o vosso vivo desejo, as vossas lágrimas, o vosso zelo por mim, a tal ponto que me causou uma alegria ainda mais viva” (2Cor 7,7). Dom genuíno, sangue dos olhos, águas do espírito, as lágrimas de uma mulher banham os pés de Jesus (Lc. 7,38) e movem o seu coração (Lc. 7,44).

O outro necessita do olhar como prova e demonstração de que continua vivo. Especialmente quando esses olhos vertem lágrimas de compaixão. Contemplar a Deus significa deixar de fazer para ser feito. Deixar-se transformar pela Palavra. Ela nos habita e não a ouvimos em nossa cacofonia interior, ocupados todo o tempo em fazer bem ou fazer o bem. Como ensinava Santa Teresinha do Menino Jesus: quem ocupa todo seu tempo fazendo o bem, não acha tempo para ser bom. A visão interior evoca a contemplação e o silêncio, o fechar os olhos para poder enxergar uma outra Realidade. As lágrimas, expressão destilada de nossas águas interiores, nos colocam em contato com outras dimensões. A visão interior de Deus é um provar da vida. Ela vibra em cada um e seu destino vai além da materialidade do corpo. As águas da fonte das lágrimas resgatam uma dimensão de iluminação infinita do mistério da encarnação.

O Verbo se fez carne. O Verbo se fez pés, pernas, joelhos, braços, ouvidos... E através do funcionamento de seus cinco sentidos, encontra uma humanidade ferida dos pés a cabeça. “Da planta dos pés à cabeça, nada de intacto: ferimentos, chagas, cicatrizes recentes, nem limpas, nem atadas, nem umedecidas com óleo”. É assim chora e lamenta o profeta Isaías, o pecado da humanidade, representado em Israel (Is. 1,6). Diante dessa humanidade ferida, diante dessa Eva viúva, Jesus apresenta-se como o Esposo. Anuncia a alegria das bodas místicas para cada ser humano. Sua presença e seu ministério levarão uma pecadora, como num prenúncio ao que vai acontecer, a lavar seus pés com lágrimas, enxugá-los com os cabelos, cobri-los de beijos e perfumá-los (Lc. 7,38-49). Ela havia entregado-se a falsos amantes e esposos. Agora encontrou o verdadeiro Esposo.

Ela age através de três símbolos totalmente novos: as lágrimas 66, o perfume e os cabelos (sehar). Dons da compaixão do olhar, as lágrimas revelam um poder terapêutico muito maior e mais sutil do que a saliva. O perfume evoca a sedução, a elevação. Para quem foi seduzido por Jesus Cristo ele é o aroma por excelência. Ao nos tornarmos seus imitadores, “somos o bom odor de Cristo para Deus” (2 Cor. 2,14). O cabelo, textualmente a coroa em hebraico, traz à lembrança o ponto mais elevado no homem. Cada fio, em seu mistério, cresce como rebento da árvore humana sobre o seu ponto mais próximo dos céus. Ao unir os pés aos cabelos, a pecadora executa um gesto de alto valor simbólico, une os nossos extremos, nossas antinomias mais absolutas, nossas maiores distâncias. Ela representa a glória do mistério da encarnação de Cristo, superação da maior das antinomias, sobre a qual tantas religiões se calam: a do humano e do divino 67.

Jesus chorou no episódio da morte de Lázaro. Na escola do evangelho, somos discípulos e testemunhas desse Jesus. Ninguém consegue tomá-lo, nem apropriar-se, nem obrigá-lo a retornar mais cedo para junto de Marta e de Lázaro, apesar de sua grave enfermidade. Como não retê-lo e acordar-lhe a liberdade de nos abandonar? Deixando-se tomar e fascinar por essa ternura revelada quando Jesus chora pelo que exige de nós, como no episódio de Lázaro. O teólogo Urs von Balthazar diz: “Quando Ele chega, Lázaro está morto. Não é isso que é grave. Mas o fato que ele tenha deixado suas irmãs sem notícias, na noite sombria do abandono a Deus.” Jesus sabe: em breve fará e provocará o mesmo. Deixará a todos sem notícias, na noite sombria de seu pleno abandono e entrega nas mãos de Deus.

E Jesus chora. Por causa da morte? Da morte de Lázaro? Jesus não chorou diante de outras mortes, antes de outras ressurreições. Ele “sabe”: vai trazer Lázaro de volta à vida. Ele chora por compaixão, ao ver as irmãs de Lázaro e seus amigos chorando. Ele chora por esse trágico interior que o obriga a compartilhar, eucaristicamente, seu abandono sobre a Cruz, em prioridade com os mais amados. Essas lágrimas, Jesus verteu por nós, como pelas irmãs de Lázaro. Nas lágrimas de Jesus descobre-se a maravilhosa humanidade de nosso Deus. Na transparência de suas lágrimas, está a transparência de seu amor por nós. O mesmo deve passar a brilhar em nossas lágrimas. As lágrimas da compaixão têm um valor infinito. Poucos humanos alcançam essa realidade.

Uma história rabínica relata sobre a morte de um ímpio. Após uma vida de injustiça, blasfêmias, roubos, crimes e pecados, ele comparece diante do tribunal celeste. O arcanjo Miguel com sua balança romana vai pesando a vida deste homem. No final, o prato das coisas boas fica vazio. O prato da maldade está repleto e desce pesadamente. Diante da eminente condenação, o arcanjo Miguel revisa com mais detalhe toda a vida daquele homem. Surgem novos episódios. Coisas terríveis e escondidas da juventude e da idade adulta. O prato da maldade, do negativo, afunda ainda mais. O arcanjo examina mais uma vez, lentamente, com olhar de ente celeste, o filme da vida daquele humano. E encontra algo. Uma vez, por um instante, diante do sofrimento de um pobre, ele havia chorado uma lágrima, uma única lágrima de compaixão. Coisa de segundos. Cuidadosamente, como diante de uma pérola preciosa e rara, o arcanjo Miguel recolhe essa lágrima e a deposita no outro prato. E a balança movimenta-se, muda de posição e os pratos equilibram-se. Amém!

Evaristo Eduardo de Miranda

doutor em ecologia, pesquisador da Embrapa Monitoramento por Satélite

60 A palavra Tabor significa umbigo. Montanha do umbigo.

61 Moisés, homem da Lei também brilha com Jesus como quando desceu do Sinai. Junto com Elias, eles cercam o Cristo transfigurado ou metamorfoseado. São testemunhas da Luz Incriada, da nova sarça ardente, Pedro (homem da lei), João (homem do profetismo) e Tiago, Yaakov, raiz da árvore.

62 Tabor tem a raiz tov, o bem em hebraico

63 Filósofa e escritora francesa, de origem judia, evoluiu para um misticismo cristão, com tintas de hinduísmo e gnosticismo.

64 Maimonides Guia de descarriados. Barath. Madrid. 1988.

65 As lágrimas são citadas 56 vezes na Bíblia, sendo 34 no Primeiro Testamento. Existem sete palavras diferentes em grego, no Segundo Testamento, traduzidas como lágrimas.

66 Esse valor terapêutico das lágrimas é encontrado em muitas referências, em particular no conto de fadas Rapunzel, onde as lágrimas da amada ao tocar os olhos do príncipe cego lhe devolvem a visão.

67 Evaristo Eduardo de Miranda. Corpo Território do Sagrado. Loyola. 2000