O Macaco e o Rabo
A gestão das águas brasileiras

Faz parte do óbvio ululante repetir que a gestão das águas brasileiras é uma tragédia, embora a reação já tenha começado. Dizer que 70% dos rios brasileiros estão poluídos revela e oculta, porque não dá nome aos bois. Portanto, vamos ao miúdo. 

São Paulo é uma cidade com graves problemas de abastecimento de água, entretanto, não pode aproveitar uma gota d’água do Pinheiros e do Tietê por absoluta poluição e contaminação de suas águas. Não se enquadram, como corpos d’água, em nenhum dos níveis utilizáveis para qualquer finalidade. Entretanto, quando fundada por Anchieta, foi em razão da abundância e qualidade das águas do Tietê e do Pinheiros que a cidade foi fundada ali.

Recife também não aproveita uma única gota d’água de seus cinco rios - Beberibe, Capibaribe, Tegipió, etc -, é uma cidade com seríssimos problemas de abastecimento de água, porque suas águas também não se enquadram em nenhum nível de classificação.

Vamos poupar espaço porque essa repetição é inútil e enfadonha. Praticamente todos os rios que cortam as grandes, médias e até pequenas cidades estão poluídos.

Agora vêm as denúncias dos rios do Ceará, numa série de matérias feitas por jornais cearenses. O Salgado, rio perene, nascendo na serra do Araripe, que abastece Crato, Juazeiro do Norte, Barbalha, etc., até desaguar no Jaguaribe, revela toda sua poluição por dejetos domésticos, industriais, agrícolas e hospitalares. Essa é a água que a população daquela região bebe. Até braço humano foi encontrado boiando em suas águas esses dias.

Ironia, o Salgado é um dos rios que está previsto para receber as águas da transposição do São Francisco. A partir daí surgiu uma contenda intestinal entre os políticos cearenses. Os prefeitos dizem que não tem verbas para sanear os rios. O Ministério da Integração afirma que o problema é dos prefeitos e que a Transposição não vai atacar esse tipo de problema. Oras, se os políticos locais não se entendem e admitem o problema chave da gestão das águas, de que adianta transpor mais águas?

Ciro Gomes disse na TV que foi a população São Franciscana que acabou com o São Francisco. Em parte é verdade, porém, foi o modelo de desenvolvimento vindo de fora que detonou com o rio pelas barragens e grandes projetos de irrigação. Mas essa parte da verdade é generalizável para todo o Brasil. Foram os paulistas que acabaram com o Tietê e o Pinheiros, assim como foram os pernanbucanos que acabaram com o Beberibe e demais rios que banham Recife, assim como foram os cearenses que reduziram o Salgado a essa tragédia, assim como foram os demais brasileiros que poluíram ou eliminaram os rios que cortam seus quintais. Por isso, a atitude séria de qualquer administrador é revitalizar os rios que correm em suas terras, antes de ir buscar água cada vez mais longe, cada vez mais cara, além de ir fazer estrago no quintal do vizinho.

Se a Transposição não servir para nada, servirá ao menos para elucidar e má gestão das águas brasileiras em todos os níveis. Usando a linguagem sábia e franca do povo brasileiro, concluo: o macaco deveria olhar o próprio rabo.

Roberto Malvezzi, Gogó

Coordenador nacional da comissão pastoral da terra (CPT)