Em  defesa  da  água  de  Joinville

A quantidade de água no mundo será sempre a mesma. Muda seu estado - líquido, gasoso ou sólido. Por que, então, estamos diante de um colapso universal pela falta de água doce? Sabe-se que isso ocorre porque mudou a qualidade e a quantidade de água disponível para as diversas formas de captação: consumo humano, animal, agrícola, industrial e serviços. Ainda é tímida a conscientização sobre o tema. A gravidade do problema é ignorada e pouco está sendo feito para reverter essa ameaça. A ciência afirma que o corpo humano e a Terra contêm a mesma proporcionalidade de água,que, numa leitura simples, traduz-se em indicador de equilíbrio. Estamos perdendo a referência deste ponto de equilíbrio?

A ONG VidaVerde, entidade sem fins lucrativos e sem vínculo político-partidário, é conhecida em Joinville pelos projetos do Parque Ambiental da Caieira e do Morro da Boa Vista e pelo Projeto de Revitalização do Rio do Braço, que visa a tornar perene este rio que foi artificialmente morto. Além disso, desenvolve sério trabalho para garantir o abastecimento de água doce para Joinville e região. Elegeu a causa da água, porque essa é um dos elementos estratégicos ao desenvolvimento sustentável local e determinante para a sobrevivência de pessoas e das atividades desenvolvidas no município.

Esse trabalho exige estudos constantes e parcerias para amenizar ou sanar as conseqüências danosas da intervenção humana sobre o meio ambiente. Para tanto, mantemos contato direto com instituições públicas e privadas e com a comunidade; reunimo-nos com as três últimas direções da Câmara de Vereadores, denunciamos os problemas aos órgãos da administração pública, principalmente aos responsáveis pelo licenciamento e fiscalização dos projetos. Esgotados todos os recursos na busca da solução, ajuizamos ação civil pública, processo 2004.72.01.007759-5, perante a 4ª Vara da Justiça Federal, amparada em laudos técnicos e em fundamentos jurídicos consistentes, porque não podemos mais nos omitir diante das irregularidades que presenciamos, como a concessão de licenças irresponsáveis às empresas mineradoras para extração de seixo rolado na bacia hidrográfica do rio Cubatão, sob pena de sermos considerados cúmplices desses atos.

As licenças foram concedidas sem os estudos dos impactos cumulativos e sinérgicos que comprovam ou não a viabilidade dos projetos. Entre os impactos, estão o rebaixamento do lençol freático, reduzindo a oferta de água superficial, inviabilizando o solo para agricultura e alterações irreversíveis nos ecossistemas fluviais e aquáticos.

Entendemos que no atual modelo econômico, o produto extraído com a mineração ainda é necessário. No entanto, defendemos que o setor da mineração precisa se organizar e atuar, por exemplo, em áreas que ofereçam baixo impacto sobre oferta de água. Se isso não ocorrer, outras atividades econômicas que usam a água em seu processo produtivo, entre elas as que geram mais empregos que a extração de seixo e areia, fecharão suas portas. Lembrando que a prioridade do uso da água é para saciar a sede de pessoas e animais - está na lei.

Desejamos contribuir para que a transição de saída da mineração da área dos rios para áreas de menor impacto sobre a oferta de água ocorra o mais rápido possível. E os prejuízos e impactos sejam também os menores possíveis.

A resistência a nosso trabalho vem dos que não entenderam que a causa da água é vital. A polêmica está no conflito de interesses dos diferentes usos da bacia hidrográfica do rio Cubatão.

Água é vida, vida para todos. Para cuidar da bacia hidrográfica do rio Cubatão, não bastam ações isoladas - é necessária a participação ativa e constante de toda a comunidade, de todos os setores.

Nilsa Schroeder Gramkow

vice-presidente da Associação Ecológica Joinvilense VidaVerde