GENTE CUIDANDO DAS ÁGUAS:

UM JEITO DIFERENTE DE VER, SENTIR

E CUIDAR DE GESTÃO AMBIENTAL

Acaba de ser editado em Belo Horizonte um livro que propõe um jeito diferente de ver, sentir e cuidar de gestão de Águas.

Em todos os seus dezesseis capítulos, em duzentas e oito páginas, ele é provocante e estimulador, às vezes chocando ao explicitar obviedades pouco consideradas e às vezes desmistificando afirmações e comportamentos utilizados nos jogos de Poder de pessoas e de organizações em suas reservas de espaços políticos, econômicos e sociais. Um exemplo chocante na página 36: "a Água do Planeta Terra não está diminuindo nem uma molécula no reservatório total dos oceanos, das geleiras, dos rios, dos subsolos e da atmosfera.: ela só está ficando mais longe dos que não cuidam de Nascentes de Águas de chuvas e de áreas de recargas. Ela só foge de quem não zela por sua qualidade, como um cachorro foge de quem o maltrata".

O título "Gente Cuidando das Águas" é significativo em sua simplicidade e já revela o empenho em integrar "cidadãos comuns", pessoas da "sociedade civil não organizada", como atores e autores numa rede de ambientalistas. O pressuposto também é óbvio: além de algumas grandes indústrias e de poucas empresas comerciais, as donas-de-casa e empregados domésticos são os consumidores urbanos que cotidianamente manejam maiores volumes de Água. Neste sentido, mais destacada ainda é a posição de produtores rurais e trabalhadores rurais, por suas atividades altamente dependentes de Águas e porque estão próximos de Nascentes, de Zonas de Recargas, de áreas florestadas, de lagos, de córregos, de ribeirões e de tantos fatores determinantes no ciclo hidrológico.

Imagine o salto qualitativo na gestão ambiental (ou autogestão?) quando as mulheres forem adequadamente valorizadas e reconhecidas como ambientalistas em suas compras (menos plásticos, menos isopor, menos enlatados, etc.), em seus hábitos (mais produtos naturais e mais elementos biodegradáveis em sabões, detergentes, xampus, sabonetes) e em seus cuidados em produzir menos lixos e em assegurar aproveitamento econômico no lixo que for produzido. Outro salto será dado quando o produtor rural tiver informações, tecnologias, assistência técnica, apoio comercial e ousadia para cuidar de alternativas econômicas ecológicas, auto-sustentáveis e mais rentáveis do que atividades convencionais geralmente recomendadas por técnicos governamentais..

O livro "Gente Cuidando das Águas" trata disto não apenas na teoria, como um exercício acadêmico, porque, na prática, ele é a visualização da base filosófica e conceitual da Metodologia que vem sendo aplicada no Projeto "Gente Cuidando das Águas", desenvolvido pioneiramente em dez Municípios da Bacia do Ribeirão da Mata, próximo a Belo Horizonte.

A Metodologia do Projeto "Gente Cuidando das Águas", expressa no livro, é um novo paradigma em gestão ambiental, na convicção de que iniciativas de Mobilização Social serão tão mais eficazes quanto mais saírem da cultura de dominação e de infantilização, geralmente praticada em Educação Ambiental convencional, para uma linha de "empowerment", na qual o "cidadão comum", da "sociedade civil não organizada" tenha informações e horizontes para se posicionar como agente de transformação: "isto faz sentido", "isto EU POSSO fazer", "isto EU VOU fazer".

Um jeito eficaz de integrar à rede de ações ambientais adequadas os geralmente "excluídos" por políticos, por burocratas, por especialistas e até por possessivos militantes de ONGs é utilizar um "self-service de possibilidades" que facilite ao "excluído" a escolha da forma de se incluir na rede. Para isso, é importante praticar o conceito de que a mobilização de uma pessoa é tão mais efetiva quanto mais o que a mobiliza passe pelo seu cotidiano, sem exigir que ela troque de roupa, de endereço, de rotina (celebração, comemoração, concentração e passeatas são eventos de uma mobilização, como um produto e não como o processo).

Assim, a dona-de-casa e o produtor rural necessitam de informações e de "empowerment" (fortalecimento, energização, empoderamento) pelas Águas como uma oportunidade de ação ambiental que possa ser desenvolvida autonomamente, espontaneamente, muitas vezes individualmente e sempre por oportunidade de evolução cidadã, cívica e espiritual, antes de ser uma responsabilidade ou obrigação.

Este é outro fator de gestão destacável em "Gente Cuidando das Águas": autonomia na ação e interdependência na missão. O exercício da autonomia reforça virtudes e valores de liberdade, de transcendência e de realização de resultados como compromisso ético: " eu faço por mim, por minha evolução, por minas razões". E a autonomia não é isolamento e nem fragmentação quando se complementa no conceito de interdependência: "eu cuido de mim e do meu entorno conectado a quem também cuida de si e do seu entorno pela harmonia da Natureza e pela transcendentalidade cósmica".

Por este sentido de grandeza é que uma pessoa pode deixar de ver uma semente de laranja como resíduo e lixo e passar a vê-la como um embrião portador de vida. E pode atuar ambientalmente como um agente de transformação que não necessita de burocratas governamentais, de tecnocratas autoritários e nem mesmo de especialistas sofisticados para ser um bom ecologista, que faz mudas de laranjeiras como um jeito de ter um mundo melhor.

Em "Gente Cuidando das Águas" o toque mágico é a busca na Natureza (fluidez, mutação, cooperação, harmonia, equilíbrio, complementariedade, etc.) dos valores que o Homem necessita para uma adequada Gestão das Águas, porque os valores sociais da política e da economia (competição, dominação, supremacia, hegemonia, etc.) só servem à visão utilitarista e antropocêntrica de tratar Águas como Recursos Hídricos.

A propósito, trinta e quatro fatores de sucesso em Gestão cidadã são apresentados no livro, configurando as bases teóricas deste jeito diferente de ver, sentir e cuidar das Águas. Em ordem alfabética, eles vão de Abundância a Zelo, passando por estes significativos exemplos: "acompanhamento é mais do que controle", "articular adequadamente é um exercício de jangadeiro", "atenção ao significado de palavras e ações comunicativas", "autogestão e auto-sustentabilidade", "autonomia com interdependência", "cidadania e virtudes e valores permanentes da Humanidade", "circulação de informações", "complementariedade", "desaprender como forma de aprendizado", "diferenças como vantagens", "empowerment" pela crença em mim, no meu sonho e no sonho coletivo", "inclusão é mais do que não excluir", "informalidade organizada", "libertar para potencializar", "nucleação", "participação de novos agentes", "pensar universalmente e cuidar localizadamente", "rede como forma de integração e interação". "resultado como compromisso ético", "superação de conflitos por avanços", "transcendência", "valorizar naturalidade e simplicidade como princípios de gestão", "valorização do preventivo sobre o curativo", "visão quântica, visão holística", "visibilidade" e "voluntariado".

A abertura do Capítulo XV do livro é feita com uma citação do cientista japonês Masaru Emoto: "no mundo das bactérias existem 10% de bactérias boas, 10% de bactérias ruins e a maioria, 80%, é composta por bactérias oportunistas que podem ir em qualquer uma das duas direções. Olhando para os vários assuntos ambientais com que nos deparamos e as tarefas que precisamos cumprir para o Planeta, se nós pudermos ter mais de 10% das pessoas, eu acredito que poderemos trazer as 80% nesta direção".

Sintonizados nesta linha expressa pelo professor Emoto, os autores do livro e articuladores do Projeto "Gente Cuidando das Águas" foram motivados a escrever esta obra e se empenham intensamente na execução deste Projeto pela convicção de que está avançado um processo natural de constituição de uma rede informal de mais de dez por cento de cidadãos brasileiros que procuram resultados transformadores em gestão ambiental não só pela ecologia do Planeta Terra, mas também pelo caminho da Paz e pela transcendência do Ser Humano.

Demóstenes Romano Filho, Patrícia Sartini e Margarida Maria Ferreira
são autores do livro Gente Cuidando das Águas, diretores do Instituto de Resultados em Gestão Social,

e articuladores do Movimento de Cidadania pelas Águas no Centro de Referência de Belo Horizonte (MG)