A  ÁGUA  E  AS  FLORESTAS

De acordo com resolução da Organização das Nações Unidas (ONU), 2003 é o "Ano Internacional da Água Doce". No dia 22 de março "comemorou-se", internacionalmente, o Dia da Água. Também em março realizou-se o 3º Fórum Mundial da Água, em Kyoto (Japão), além de inúmeras outras conferências em muitos países, para discutir uma das principais ameaças à sobrevivência da humanidade, ou seja, a degradação dos recursos hídricos em nível planetário.

Na verdade não há muito a comemorar. Apesar de tudo que já foi e é dito a respeito da futura escassez de água, gerando desentendimentos e guerras entre os povos, quase nada é colocado em prática. Existe uma grande inércia dos governos em agirem no sentido de efetivamente proteger os recursos hídricos. A população, por sua vez, age como se os problemas envolvendo o provisionamento de água potável fossem problemas "dos outros", permanecendo apática e não se organizando para exigir medidas que possam garantir, realmente, um abastecimento constante e a longo prazo.

A exemplo do texto proposto na Conferência de Kyoto, considerado "tímido" pelo Fundo Mundial para a Natureza (WWF), as resoluções tomadas na maioria dos fóruns ainda não priorizam a saúde dos ecossistemas por meio de medidas eficazes de recuperação e preservação das florestas, as quais são fundamentais para a garantia de produtividade dos mananciais. Dessa forma, ao não abordarem as relações entre florestas e água, as discussões acabam deixando uma grande e perigosa lacuna, que só agravará e perpetuará a degradação dos recursos hídricos ora em curso.

Nas regiões tropicais e subtropicais, a preservação de mananciais e rios está diretamente relacionada com a preservação das florestas. É através de processos florestais, envolvendo fauna e flora, que a água da chuva abastece os aqüíferos e o subsolo; a mata ciliar (vegetação à beira de rios, lagoas e nascentes) protege os corpos d'água do assoreamento (ao evitar os deslizamentos de terra); a fauna, por sua vez, é responsável, entre outras coisas, pela propagação das sementes e pela perpetuação das florestas. Existe um equilíbrio intrincado pelo qual a mãe natureza garante a continuação da vida no planeta, ameaçada pela interferência imprevidente ou predatória do homem.

O abastecimento de água para a maior parte da população brasileira depende da preservação de mananciais protegidos por florestas. Porém, apesar da legislação ambiental restritiva, a cada dia mais e mais áreas florestadas são derrubadas, destruindo nascentes e olhos d'água, reduzindo, assim, a quantidade e a qualidade de líquido potável disponível para a população. E ainda mais grave: as iniciativas governamentais no sentido de garantir água para a população tendem a privilegiar investimentos em grandes obras de infra-estrutura que envolvem elevados investimentos (represas, estações de tratamento, adutoras), em detrimento de ações que efetivamente recuperem e preservem as florestas, nas quais estão as "mães das águas", ou seja, os mananciais.

Cabe à imprensa o importante papel de esclarecer o valor da manutenção das florestas, para que não haja sofrimentos por falta de água num futuro próximo. Cabe ao governo mostrar os fatos reais, criar leis eficientes e, principalmente, propiciar condições para que essas leis sejam cumpridas. Cabe à população procurar informações não comprometidas com interesses ilegítimos, fiscalizar e promover mobilizações exigindo a preservação das florestas e mananciais, garantindo, assim, o abastecimento de água em quantidade e qualidade. A necessária solução para a preservação dos recursos hídricos, através de ações verdadeiramente eficientes, só poderá vir por meio da ação solidária entre governo e a população.

Sibylla Schneider Dietzold